8:36 amA Negação da Morte: Ernest Becker fala de Otto Rank e Kierkegaard
« …nossa missão capital neste planeta é a heróica.»
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« O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroÃsmo.» [William James, citado por Ernest Becker]
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« É natural que o homem seja um animal maluco; deve viver uma vida maluca devido ao seu conhecimento da morte.»
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« A aspiração por heroÃsmo é natural e admiti-lo é honesto. Se todos o admitissem, provavelmente se liberaria tamanha força represada que devastaria as sociedades tais como agora existem…»
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« Não há [na cultura atual] um centro vital pulsante.»
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« […] a religião não é mais eficaz como um sistema de heroÃsmo, e por isso os jovens menosprezam-na. Se a cultura tradicional é desacreditada como manifestação de heroÃsmo, então a igreja que a apóia automaticamente se desacredita. Se a igreja, pelo contrário, decide insistir em seu heroÃsmo caracterÃstico, talvez constate que, de maneiras cruciais, terá de agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis face aos estilos de vida da sociedade em que vivem. Este é o dilema da religião em nossa época.»
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« Todo ser humano é… igualmente preso, isto é, nós… criamos uma prisão com a liberdade…» [Otto Rank, citado por Ernest Becker]
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« A pergunta […] mais importante que o homem pode fazer a si mesmo é simplesmente esta: até onde tem ele consciência do que está fazendo para alcançar um senso de heroÃsmo?»
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« E esta é a singela verdade: viver é sentir-se perdido — aquele que aceita isso já começou a encontrar-se, a colocar-se em terreno firme.»
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« A Tragédia da vida a que Searles se refere é aquela que estivemos examinando: a finitude do homem, seu pavor da morte e da enormidade esmagadora da vida. O esquizofrênico sente essas coisas mais do que outro qualquer por não ter sido capaz de formar as defesas seguras que uma pessoa normalmente emprega para negá-las.»
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« […] o caráter de uma pessoa é uma defesa contra o desespero, uma tentativa de evitar a insanidade por causa da verdadeira natureza do mundo.»
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« Neurótico é alguém que não consegue rodear sua animalidade com uma ilusão convincente.»
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« …a essência da normalidade é a recusa da realidade.»
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« Isto é neurose em poucas palavras: o insucesso de mentiras desajeitadas no tocante à realidade.»
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« …normalidade é neurose e vice-versa. Chamamos a um homem de “neurótico†quando sua mentira começa a demonstrar efeitos nocivos nele ou em pessoas que o cercam e ele procura ajuda clÃnica para isso — ou outros procuram por ele. Sob outros aspectos, chamamos a rejeição da realidade de “normal†por não ocasionar qualquer problema perceptÃvel.»
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« O que está em jogo em toda repressão humana: o medo da vida e da morte.»
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« Uma das circunstâncias que percebemos quando estudamos a história é que a consciência de animalidade é sempre absorvida pela cultura. Esta opõe-se à natureza e transcende-a. A cultura, em sua mais recôndita intenção, é uma negação heróica da animalidade.»
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« A própria salvação não mais é atribuÃda a uma abstração como Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outroâ€. PoderÃamos chamar esta de “beatificação transferencialâ€. O homem agora vive em uma “cosmologia de doisâ€. […] O homem moderno realiza seu impulso de auto-expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus. […] Como diz uma canção hindu: “Meu amor é meu Deus; se ele me aceita minha existência é utilizadaâ€. Não é de espantar que Rank pudesse concluir que o relacionamento amoroso do homem moderno é um problema religioso.»
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« As pessoas precisam de um “alémâ€, mas elas pegam primeiro o mais próximo; isto lhes dá a satisfação de que precisam, mas, ao mesmo tempo, limita-as e escraviza-as. Você pode considerar o problema todo de uma vida humana desta maneira. Pode perguntar: em que tipo de além esta pessoa tenta expandir-se e quanto de individualização obtém nele?»
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« O limite entre a rendição natural, ao querer ser parte de algo superior, e a rendição masoquista ou autonegadora é deveras tênue, como Rank assinalou. O problema é ainda mais complicado por algo que as mulheres, como todos os mais, detestam admitir: sua própria incapacidade natural para se manterem sozinhas em liberdade.»
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« O que Kierkegaard está dizendo, em outras palavras, é que a escola da angústia leva à possibilidade só pelo fato de destruir a mentira vital do caráter.»
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« E assim se chega à nova possibilidade, à nova realidade, pela destruição do eu ao se fazer face à angústia do terror da existência. O self tem de ser destruÃdo, reduzido a nada, a fim de ter inÃcio a transcendência de si próprio. Então, o self pode começar a relacionar-se com poderes além de si mesmo. Ele tem de debater-se em sua finitude, tem de “morrer†para interrogar essa finitude e poder ver para além dela. Para onde? Responde Kierkegaard: para a infinitude, para a transcendência absoluta, para o Poder Final da Criação que fez as criaturas finitas. Nossa moderna interpretação da psicodinâmica confirma ser essa progressão bastante lógica — se você admite ser um animal, conseguiu uma coisa fundamental: demoliu todos os seus elos ou apoios de força inconscientes. Como vimos no último capÃtulo — e vale a pena repetir aqui —, cada criança firma-se em algum poder que a transcende. Geralmente é uma combinação de seus pais, seu grupo social e os sÃmbolos de sua sociedade e nação. Essa é a trama irracional de apoio que lhe permite acreditar em si própria, enquanto funciona na segurança automática de poderes delegados. Ela, está claro, não admite para si mesma que vive com forças tomadas de empréstimo, pois isso a levaria a duvidar de sua própria ação segura, daquela mesma confiança de que necessita. Ela negou sua animalidade exatamente por imaginar que dispõe de poder seguro, e esse poder seguro foi obtido apoiando-se inconscientemente nas pessoas e coisas de sua sociedade. Uma vez que você revele essa fraqueza e vacuidade básicas da pessoa, sua incapacidade, então é obrigado a reexaminar todo o problema das ligações de poder. Você tem de pensar em refazê-las em uma fonte real de poder criativo e gerador. É nesta altura que uma pessoa pode começar a posicionar sua condição de criatura vis-à -vis um Criador que é a Causa Primeira de todas as coisas criadas, não meramente os criadores de segunda mão, intermediários, da sociedade, os pais e a panóplia de heróis culturais. Esses são os pais sociais e culturais, que, por sua vez, foram causados, que, por sua vez, estão enleados em uma teia de poderes de outrem.
« Uma vez que a pessoa se ponha a examinar seu relacionamento com o Poder Final, com a infinitude, e a reformular seus vÃnculos desligando-os dos que a rodeiam para ligá-los a esse Poder Final, ela se franqueia o horizonte da possibilidade ilimitada, da verdadeira liberdade. Essa é a mensagem de Kierkegaard, a culminação de todo o seu raciocÃnio a respeito dos becos sem saÃda do caráter, o ideal de saúde, a escola da angústia, a natureza da verdadeira possibilidade e liberdade. Passa-se por tudo isso para chegar-se à fé de que a própria condição de criatura tem certo significado para um Criador; que, a despeito da verdadeira insignificância, fraqueza, morte de cada um, sua existência tem um certo sentido definitivo porque existe dentro de um projeto eterno e infinito das coisas produzidas e mantidas dentro de determinado modelo por uma força criadora. Repetidamente, em seus trabalhos, Kierkegaard volta à fórmula básica da fé: a gente é uma criatura que nada pode fazer, mas existe diante de um Deus vivo para quem “tudo é possÃvelâ€.
« Toda a sua argumentação agora torna-se clara como água, segundo a qual a chave de abóbada da fé coroa a estrutura. Podemos entender por que a angústia “é a possibilidade de liberdadeâ€, por que a angústia derruba “todas as metas finitasâ€, e assim “o homem que é educado pela possibilidade é educado de acordo com sua infinitudeâ€. A possibilidade a nada conduz se não conduzir à fé. Ela é uma etapa intermediária entre o condicionamento cultural, a mentira do caráter e a abertura da infinitude com a qual a pessoa pode relacionar-se por meio da fé. Mas sem o salto para a fé o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror. Isso significa que se vive desprotegido pela couraça, exposto à sua solidão e desamparo, à angústia constante. Nas palavras de Kierkegaard:
« “Agora o pavor da possibilidade conserva-o como sua presa, até poder entregá-lo a salvo nas mãos da fé. Em nenhum outro lugar encontrará ele repouso… ele, que atravessou o currÃculo do infortúnio oferecido pela possibilidade, perdeu tudo, absolutamente tudo, de forma que ninguém o perdeu na realidade. Se nessa situação ele não se comporta falsamente face à possibilidade, se não tenta falar desviando-se do pavor que o salvaria, então receberá tudo de volta novamente, como na realidade ninguém jamais conseguiu mesmo que tenha recebido dez vezes mais, pois o aluno da possibilidade recebeu a infinitude…â€
« Se colocarmos toda essa progressão em função de nosso exame das possibilidades de heroÃsmo, o resultado será o seguinte: o homem irrompe através dos limites do heroÃsmo meramente cultural; destrói a mentira do caráter que o fazia portar-se como herói no plano social cotidiano das coisas; e, ao fazê-lo, ele se abre para o infinito, para a possibilidade de heroÃsmo cósmico, para o próprio serviço de Deus. Sua vida, portanto, adquire valor definitivo em vez de valor simplesmente social e cultural, histórico. Ele liga seu eu interior secreto, seu talento autêntico, seus mais profundos sentimentos de originalidade, seu anelo Ãntimo por um significado absoluto ao próprio substrato da criação. Nas ruÃnas do eu cultural demolido permanece o mistério do eu particular, invisÃvel, interior, que anelava por significado definitivo, por heroÃsmo cósmico. Esse mistério invisÃvel no coração de toda criatura agora alcança significado cósmico ao afirmar sua conexão com o mistério invisÃvel do âmago da criação. Esse é o significado da fé. Ao mesmo tempo, é o significado da fusão da psicologia e da religião no pensamento de Kierkegaard. A pessoa verdadeiramente aberta, aquela que se desfez de sua couraça de caráter, da mentira vital do seu condicionamento cultural, está além do auxÃlio de qualquer mera “ciênciaâ€, de qualquer padrão meramente social de saúde. Ela está absolutamente só e tremendo à beira do esquecimento, que é, ao mesmo tempo, o umbral da infinitude. Dar-lhe o novo apoio de que carece, a “coragem para renunciar ao pavor sem qualquer pavor… disso só a fé é capazâ€, afirma Kierkegaard. Não que essa seja uma saÃda fácil para o homem, ou uma panacéia universal para a condição humana — Kierkegaard nunca é fácil. Ele fornece uma idéia extraordinariamente bela:
« “Não que a fé aniquile o pavor, mas, permanecendo sempre jovem, ela está continuamente se formando da convulsão mortal do pavorâ€.
« Por outras palavras, desde que o homem é um animal ambÃguo nunca poderá abolir a angústia; o que pode fazer, em vez disso, é usar a angústia como eterna mola para crescer em novas dimensões de pensamento e confiança. A fé apresenta uma nova missão para a vida, a aventura da abertura para uma realidade multidimensional.
« Podemos entender por que Kierkegaard só tinha de concluir seu grande estudo da angústia com as seguintes palavras que possuem o peso de um argumento evidente:
« “O verdadeiro autodidata [isto é, aquele que por si só transpõe a escola da angústia até a fé] é, exatamente no mesmo grau, um teodidata… Tão logo a psicologia tenha acabado com o pavor, nada mais tem a fazer senão entregá-lo à dogmáticaâ€.
« Em Kierkegaard, psicologia e religião, filosofia e ciência, poesia e verdade fundem-se indistintamente reunidas nas aspirações da criatura.»
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« A dinâmica do mal é devida fundamentalmente à negação da condição de criatura.»
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« Segundo Otto Rank, a dinâmica do mal é a tentativa de fazer o mundo ser diferente do que é, de fazer dele o que ele não pode ser, um lugar livre de acidentes, um lugar livre de impurezas, um lugar livre da morte.»
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« No ponto mais alto da fé existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d’Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza?»
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A Negação da Morte, de Ernest Becker (1924-1974).






Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de BrasÃlia - onde cursou cinema com 
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