3:25 pmJean Wyllys e a vaca açougueira

Outro dia, vi no YouTube um vídeo no qual Jean Wyllys aparecia caracterizado como Che Guevara, usando até mesmo boina. Logo abaixo, um cara comentou: “Ver o Jean Wyllys vestido de Che Guevara é o mesmo que ver uma vaca vestida de açougueiro”. Sempre que me lembro disso dou risada. Quem for incapaz de compreender tal analogia precisa conhecer Reinaldo Arenas.

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Postei a observação acima no Facebook, a qual recebeu o seguinte comentário de Felipe Stefani:

Relato de Reinaldo Arenas, escritor homossexual cubano, encontrado numa nota do autor ao final do livro “A Velha Rosa/Arturo, a estrela mais brilhante”.

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“Nota do Autor
A dedicatória: “A Nelson, no ar” significa que dedico a meu amigo Nelson Rodríguez Leyva, autor do livro de contos ‘El regalo´, Ediciones R.,1964. Em 1965, Nelson foi internado em um dos campos de concentração para homossexuais – província de Camagüey – , esses campos eram conhecidos oficialmente com o nome de UMAP (Unidade Militar de Ajuda à Produção). Depois de três anos no campo de trabalho forçado, Nelson conseguiu baixa por ‘enfermidade mental´. Desesperado, em 1971, tentou, com uma granada de mão, desviar de sua rota um avião da Cubana de Aviación para a Flórida. Amedrontado e no transe de ser assassinado pelas escoltas militares do avião, Nelson jogou a granada, que explodiu. Mesmo assim, o aparelho aterrissou no aeroporto José Martí, em Havana. Nelson Rodríguez e seu amigo e acompanhante, o poeta Angel López Rabi – de 16 anos – , foram fuzilados.
Nelson deixou inédito um livro de relatos sobre sua experiência no campo de concentração. Esse livro, ao que parece, desapareceu nas mãos das autoridades cubanas. Algumas universidade dos Estados Unidos têm exemplares de ‘El regalo’, um belo livro juvenil.
Uma terceira pessoa, o escritor Jesús Castro Villalonga, que não ia no avião mas conhecia o plano, foi condenado a trinta anos de prisão, pena que ainda cumpre no presídio de La Cabaña, em Havana.
Penso nesse momento em que, granada na mão, sobrevoando a Ilha com seus campos de trabalho e seus cárceres, Nelson sentiu-se livre, no ar, quem sabe pela única vez em sua vida. Daí a dedicatória do livro.
E quanto aos originais deste relato, escrito em Havana em 1971, podem ser consultados na biblioteca da Universidade de Princeton, Nova Jersey.
Nova York, 1984”