1:20 pmHilda Hilst e seu radar mental

Sob a figueira da Casa do Sol, residência da poeta Hilda Hilst, há uma mesa de pedra ladeada por bancos também de pedra. Quando morei ali, essa mesa estava danificada, com o tampo ausente. Um dia lhe perguntei por quê:

— Foi o Jô Soares — respondeu. — Estávamos conversando sob a figueira e, quando ele se sentou na mesa, o tampo partiu em dois.

Eu ri, imaginando a situação constrangedora. Para romper aquela mesa de pedra grossa, só mesmo alguém com o peso do Jô Soares.

— E por que ele não a consertou, Hilda? Não custaria nada pra ele.

— Ah — suspirou ela. — Ele e a Teresa Austregésilo, mulher dele na época, estavam zangados comigo.

— Ué. E por quê? Você se chateou com a mesa e soltou os cachorros neles?

Ela fez um gesto de indiferença e completou sua taça com vinho do Porto: — Não, Yuri. Não me importo com essas coisas. É porque eu tinha dito a verdade pra eles. Não achava que fosse ofendê-los.

— Verdade? Sobre o quê? Às vezes você é uma taurina tão teimosa que acaba confundindo suas opiniões com verdades, né, Hilda. Já notei isso.

Ela me encarou, um ar irônico no olhar: — Nesse caso, era verdade mesmo, viu. Eles estavam com o bebê deles, o Rafael, que tinha apenas alguns meses de idade. Quando eu o peguei no colo, notei que havia algo errado. Ele não reagia a nenhum estímulo, não olhava pra gente, nada. Então me virei pra eles e disse: “Melhor vocês levarem esse menino ao médico. Ele não é normal”. Nossa… pra quê? Ficaram ofendidíssimos! Tomaram o garoto do meu colo, me falaram um monte de coisas, que louca era eu e assim por diante. Foram embora e nunca mais falaram comigo. Acontece que, um ou dois anos depois, descobriram que o Rafael realmente era autista.

— E mesmo assim nunca voltaram?

— Não.

Em 1999, com permissão da Hilda, um casal de amigos foi passar o feriado conosco. (Digamos que ela se chamava C e ele, B.) Hilda se encantou com ambos, achou C elegantérrima, mas sentiu algo mais forte por B. No autógrafo que fez ao livro Do Amor, que deu a ele, ela escreveu: “B, você é lindo!”. Ele se sentiu todo lisonjeado e me mostrou o autógrafo antes de partir. No dia seguinte, Hilda, pensativa, emitindo longas volutas de fumaça, me disse:

— Yuri, seu amigo tem os olhos idênticos aos do meu pai.

— Eu sei, Hilda. São verdes, né.

Ela me olhou cheia de gravidade: — Não, Yuri, não é isso: são olhos insanos…

Achei o fato curioso, cômico até, já que esse meu amigo, de fato, nunca foi uma pessoa convencional. Contudo, passados mais de quinze anos, o prognóstico de Hilda veio à tona: B é hoje tão esquizofrênico quanto o era Apolônio de Almeida Prado Hilst, pai dela. Nada mais triste do que uma doença mental e Hilda, cujos pais morreram internados em sanatórios, sabia disso.