Por volta das oito da manhã, entrei no escritório da Hilda Hilst, a qual, como sempre, já estava debruçada sobre uma pilha de livros abertos — era sua maneira de ler: sempre que se cansava de um livro, puxava um outro para o topo e retomava a leitura no ponto marcado. Quando me viu, colocou um cristal de rocha do tamanho de um punho sobre a página aberta e me encarou:

— Bom dia, querido.

— Bom dia, Hilda.

— Você viu se o Bruno já acordou?

Ela se referia ao poeta Bruno Tolentino, seu mais novo hóspede.

— Encontrei com ele às sete e meia lá na cozinha. Ele não veio aqui?

— Não sei. Vim pra cá às seis e meia, mas tive de voltar pro banheiro. Comi alguma coisa ontem que me fez mal.

— Na verdade, acho que o problema é que você ‘finalmente’ comeu alguma coisa, né. Você quase não se alimentado e, quando come, parece se esquecer de que algo tem de sair.

— Pode ser — respondeu, sorrindo e abanando-se com o leque. — Mas cadê o Bruno? Não tomou o café ainda?

— Ele foi dormir, Hilda. Passou a noite inteira escrevendo.

— Credo! Faz mais de uma semana que ele está aqui e ainda não conseguimos conversar direito. Ele dorme o tempo todo!

— Ele tem dormido muito mesmo. O Antônio disse que ele anda cansado. Mas, muitas vezes, a gente acha que ele está dormindo quando, na verdade, está é finalizando O Mundo Como Idéia.

— Bom, qualquer dia ele vai entrar em sincronia com a Casa. Todo mundo entra.

E então conversamos sobre assuntos variados: o rosto de Camões que lhe apareceu na parede do banheiro, sugerindo-lhe o início de um poema — “Que este amor não me cegue nem me siga…” —, as cartas obscenas de James Joyce à sua esposa Nora, nossos sonhos e assim por diante. Depois nos entregamos a nossas respectivas leituras e, lá pelas onze e meia, Hilda me pediu para lhe servir sua primeira taça diária de vinho do Porto. Uma hora mais tarde, “más feliz que una lombriz”, Hilda se levantou de súbito:

— Vou deitar um pouco, Yuri.

— Peço pra Juliana preparar seu almoço às duas?

— Ah, não sei. Esse negócio de comer pra depois ter de ir ao banheiro é muito trabalhoso — e riu.

— Poxa, Hilda. Espere chegar em Marduk antes de parar de comer. Senão o Zé vai encher o nosso saco e, claro, você não vai conseguir parar de pé.

Ela me respondeu com um gesto de enfado e, de braço comigo, caminhou até a porta do quarto, onde se fechou.

Pouco antes das duas, enquanto eu e Antônio, secretário do Bruno, almoçávamos, Bruno apareceu na cozinha:

— A Hilda já almoçou?

— Ainda não. Foi se deitar e ainda não levantou.

— Toda vez que vou ao escritório, ela está dormindo. Ela só está acordada na hora da novela? Não dá pra conversar na hora da novela.

Eu ri: — Ela também acha que você dorme o tempo inteiro. Ela acorda bem cedo. O esquema aqui é de mosteiro.

— Só que tem mais vinho que hóstia neste mosteiro… — tornou ele, sorrindo ironicamente.

— Bom, depois que ela ficou sabendo que deve mais de quinhentos mil reais de IPTU, resolveu investir em mais garrafas de vinho. Não a culpo: está numa enrascada e, mesmo se conseguisse uma boa editora, jamais teria dinheiro suficiente.

— Quinhentos mil… — balbuciou ele. — Este país é um absurdo.

— Pois é.

— Melhor eu me adequar à regra local, né — disse, após um minuto. — Já combinamos que irei revisar o teatro dela. Quero fazer isso em voz alta, diante dela.

De fato, semanas mais tarde, foi assim que Bruno revisou o Teatro Completo da Hilda: uma leitura em voz alta, na presença de Hilda, de Zé Mora Fuentes e de mim mesmo. Mas, voltando ao dia em questão, enquanto ele enchia a xícara de café, comentei:

— Vocês estão parecendo os personagens do filme O Feitiço de Áquila: quando um está consciente, o outro não está.

— Ladyhawke?

— Acho que é.

— Bom, a Hilda gosta mais de cachorros do que eu. Ela podia ser o lobo e eu, a águia. O signo de escorpião também já foi representado pela águia.

Antônio finalmente se manifestou: — Quem mais está lucrando com isso é o Yuri.

— Eu? Por quê?

— Uê, você tem dois professores particulares e um não atrapalha a aula do outro.

— Isso é verdade — tornei. — Pena que nenhum dos dois tenha gostado das minhas poesias.

— O que você faz na prosa é que é ‘poiesis’ — disse Bruno, muito sério. — Já os poemas que me mostrou são apenas letras de música, não possuem musicalidade em si mesmos.

— A Hilda me disse a mesma coisa.

— Claro, para ser um poeta, você tem de ler mais poesia. E, se quiser, vai chegar lá — acrescentou.

— Aí é que está: não me vejo como poeta. Ao menos não na expressão. Quero continuar com os contos e, assim que puder, partir para os romances.

— Potencial e talento você tem. Só tem de tomar cuidado para não se perder. Não vá, por exemplo, fazer como a Hilda e ficar correndo atrás do James Joyce.

Eu ri: — Não pretendo.

— Ótimo. Ulisses é um embuste. A poesia e o teatro da Hilda são maravilhosos, mas, com uma exceção ou outra, no geral, Joyce atrapalhou a prosa dela.

— Acha isso mesmo?

— Não me entenda mal: ela escreve muitíssimo bem, mesmo em prosa. Mas, ao contrário da poesia, em que ela é genial, na prosa ela não sai da sombra do irlandês maluco. No teatro, a gente nota a influência de Beckett, mas ela não se intimida e está toda lá. Nos contos, pelo menos nos que eu li, a gente sente que foi tudo escrito por um Kafka que leu James Joyce. Onde ela está?… — e fez uma pausa, pensativo. — Bom, pelo menos nas crônicas ela é engraçada, está presente.

Antônio riu: — Com mais essa aula e as da Hilda, você já deve uns quinhentos mil pra cada professor, Yuri. A Hilda vai poder pagar a dívida dela.

— Quinhentos mil?! — tornou Bruno, arqueando as sobrancelhas. — As aulas que esse menino está recebendo não têm preço!

Depois do almoço, Bruno se retirou para seu quarto, retomando a escrita d’O Mundo Como Idéia. Hilda só foi aparecer lá pelas três:

— O Bruno já almoçou?

— Já.

— Cadê ele?

— Voltou pro quarto.

— Foi dormir de novo?!

— Não, tá escrevendo.

Ela sorriu, um tanto contrariada: — Nossa, como esses escritores são anti-sociais! Ficam se isolando, não param de escrever.

— Tipo aquela poeta doida que se refugiou num sítio perto de Campinas, né. Aquela que mandava o marido ir comer a empregada para ela poder escrever.

Hilda, que já acendia o cigarro, deu uma risada solta: — Mas ela agora é só uma velha louca cheia de cachorros. E não escreve mais!

Voltamos às nossas leituras.

— Você já leu os livros do Bruno, Hilda? — perguntei, minutos depois.

— Li o que ele me deu: As Horas de Catarina. E também esse outro que me emprestou: Os Sapos de Ontem.

— O que achou?

— Ele é um poeta de verdade. É difícil encontrar um. Mas Os Sapos de Ontem é chatérrimo! Eu também não gosto das besteiras dos concretistas, mas o Bruno é muito enrolado para escrever em prosa, fica tergiversando e tem um estilo muito afetado, bossa… — e então se refreou, tentando lembrar de alguma coisa.

— Bossa o quê, Hilda?

— Como se chamava aquele crítico que aparece no filme que vimos outro dia?

— No filme Carrington?

— Isso.

Eu sabia a quem ela se referia — Lytton Strachey — mas tampouco me lembrei do nome naquele momento.

— Ah, não importa. São semelhantes: ferinos, mas empolados.

— Bom, mas parece que ambos, ao criticar outros escritores, se referem justamente à afetação vazia destes.

— Pode ser. Mas ele é melhor na poesia do que nos ensaios.

Lição daquele dia: acredite mais nos seus olhos e na sua consciência do que naquilo que um escritor fala do outro, afinal, é possível que ambos estejam… certos! Sim, certos. Porque, se “o estilo é o próprio homem”, e se há personalidades com as quais nos damos melhor do que com outras, muitas vezes nos damos igualmente bem com escritores entre os quais, lá entre eles, não há plena afinidade.