4:44 pmLouis Lavelle: a Arte como Revelação

Louis Lavelle

“Dentre todas as criações do espírito humano, a arte goza duma situação excepcional. Se aceitarmos considerá-la em suas culminâncias, elas nos dá à consciência uma satisfação gratuita e perfeita que supera as expectativas e mesmo as esperanças. Põe em movimento todas as potências interiores: mas estas, em vez de se oporem umas às outras, se correspondem, se sustentam e se unificam. Toma a dianteira de nossos desejos: ela despertará este desejo do fundo de nós mesmos, descobrindo-o e suscitando-o. Mas, ao mesmo tempo, o apazigua e preenche. Na emoção estética, o desejo e o objeto do desejo são dados de uma só vez, não cessando de se corresponderem, numa oscilação ininterrupta; contudo, enquanto que, na vida cotidiana, eu não encontro nenhum objeto que possa se igualar em face de minha potência desejante, aqui as relações encontram-se repentinamente invertidas. O desejável é anterior ao desejo. Temo que em mim nunca haja desejo suficiente para atualizar e possuir tudo o que é desejável. Mais ainda, é típico do desejo sempre exibir-me a insuficiência do real e transportar-me para além dele. Mas aqui, ao contrário, é o real que temos sob nossos olhos que não cessa de alimentar o desejo, sem que este sinta-se capaz de esgotá-lo. Daí fazer-se mister apenas deste leve contato da atividade humana que, ao transportar o real para uma obra de arte, dá-lhe de chofre uma luz extraordinária, um imenso plano de fundo, uma afinidade misteriosa conosco. A arte é criada no momento em que o hiato que separa o real de nosso espírito se encontra abolido, em que a contradição entre o sujeito e o objeto, entre a aspiração e o dado é ultrapassado, em que uma comunicação incessante produz-se entre a consciência e a natureza, sendo de tal natureza que cada uma se entrega a outra sem parar, ambas parecendo por sua vez dar e receber.

“O mundo que para mim era um obstáculo agora torna-se um caminho aberto para meu espírito. As coisas param de se me opor: descubro entre mim e elas uma afinidade que é objeto duma possessão atual, mas que sempre conserva-se como uma promessa e uma esperança. O sinal da emoção estética é a alegria que renovo ao ver que as coisas são, com efeito, o que elas são. Não mais temo que elas me escapem, porque é próprio da arte captá-las e dá-las em sua disposição, digamos; mas eu nunca termino de tomá-las à disposição: temo também que sua posse se esgote e me feche o caminho para o futuro. Mais ainda, não basta apenas que a emoção estética renove-se e regenere-se sem parar, à medida que estende-se e aprofunda-se: é preciso que ela multiplique as razões que temos de querer que as coisas sejam precisamente como são. Permite-nos dar ao tempo seu significado verdadeiro, pois ela não nos retira nada do que já tenhamos e, se nos compromete com o vir-a-ser, é só para mostrar-nos a plenitude infinita dum valor que temos, todavia, sob os olhos.”

Louis Lavelle

7:43 amA expressão estética da verdade

Álvaro Lins

« Em arte, belo não é sinônimo de bonito. O artista procura, com a verdade, o que é característico. A expressão estética dessa verdade — bonita ou feia, elevada ou baixa, nobre ou sórdida — é que é a beleza em arte.»
Álvaro Lins

6:05 amChip Kidd: O design de livros não é brincadeira. Ok, é sim.

8:10 amWilliam Blake e a Imaginação Humana

Angel of Revelation, by William Blake

« Trêmulo permaneço dia e noite, meus amigos se espantam.
Mas perdoam o meu divagar, pois não descanso de minha grande tarefa!
Abrir os Mundos Eternos, abrir do Homem
Os Olhos Imortais aos Mundos do Pensamento: à Eternidade
Em contínua expansão no Seio de Deus, a Imaginação Humana.
Oh, Salvador, verte sobre mim teu Espírito de mansidão e amor:
Aniquila em mim o Egoísmo, sê toda a minha vida!»

William Blake, De Jerusalém – Invocação: Capítulo I

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« Trembling I sit day and night, my friends are astonish’d at me.
Yet they forgive my wanderings, I rest not from my great task!
To open the Eternal Worlds, to open the immortal Eyes
Of Man inwards into the Worlds of Thought: into Eternity
Ever expanding in the Bosom of God, the Human Imagination
O Saviour pour upon me thy Spirit of meekness & love:
Annihilate the Selfhood in me, be thou all my life!»

William Blake, From Jerusalem – Invocation: Chapter I

5:00 pmMário Ferreira dos Santos: A luta contra o espírito criador

«  Uma das outras terríveis características de nossa época é a luta contra o criador. Desconfia-se, nega-se, anatematiza-se o criador. O que vale é a falsa criação. E esta caracteriza-se apenas por tomar abstratamente um valor, que é integrante de uma totalidade, exagerá-lo de tal modo que se julgue que isso é criador. É o que se faz na arte. Salienta-se a composição, e acima de tudo a composição, salienta-se a construção, e acima de tudo a construção, salienta-se o geométrico, e acima de tudo o geométrico, etc. Desse modo, temos uma arte monstruosa, porque ela toma o que é natural e desmesura-o exageradamente. É o que se faz hoje, pensando-se “descobrir um novo veio”, “realizar uma obra autêntica”, “trazer uma mensagem”, e expressões semelhantes. Na verdade, tudo isso realiza a frustração da criação. E os pobres ingênuos artistas que seguem esse caminho, insatisfeitos e derrotados, terminam apavorados por verificar que nada fizeram, que foram apenas iludidos por promessas vãs. E muitos valores são destruídos, assim, caindo, desesperançados numa repetição cansativa e monótona, quando não na esterilidade mais completa. Tudo isso ainda é barbarismo.

«  Diz-se que, certa ocasião, Beethoven, quando jovem, procurou Mozart para que lhe ministrasse aulas de piano. Este o recebeu e executou ao piano, uma frase musical, e disse-lhe: “Improvise!” E Beethoven pôs-se a improvisar. Mozart retirou-se para uma sala ao lado, onde estavam alguns amigos, e chamando-lhes a atenção para os sons que saíam do piano, disse-lhes: “A música deste menino ainda revolucionará o mundo!” Citamos isso de memória, porque a validez histórica não é o que importa aqui, mas a significação do fato. Hoje, um aluno que pretendesse procurar um mestre, este lhe diria: “Vá ao piano e execute um estudo de Chopin!” Para ele o que importa não é o criador, mas o repetidor, e repetir, repetir ritmos, repetir sempre é próprio do bárbaro, é a satisfação mais completa do bárbaro. Hoje não se desejam mais os criadores, mas os repetidores. O papel do mestre é corrigir, ensinar, apoiar, estimular a criar e não frustrar, criar obstáculos à criação, fomentar a desconfiança nas próprias forças, promover a incapacidade. Não é, sem dúvida, a sua verdadeira missão culta; mas a missão bárbara é impedir a criação. Entre os bárbaros, os inovadores são olhados como criminosos, são castigados e expulsos até da tribo. Quem proponha um pensamento novo, estranho ao aceito pela tribo, através das gerações, é um perigoso inovador, um perturbador, um corruptor, porque a coerência da tribo está ameaçada. Mas a cultura é uma conquista constante de estágios cada vez mais altos. O que esta deseja é erguer o homem aos degraus mais elevados e não fazêlo estacionar em patamares.

«  Pois observe-se hoje o que se faz nas universidades. Não é o que dizemos? Não se coage com energia o aluno para que não tente provar alguma coisa nova, expor criticamente um pensamento, ensaiar uma nova maneira de ver as coisas? Quão distante estamos nós daquela Idade Média (que os tolos querem chamar de época de trevas), em que se exigia, para o estudante de Filosofia, que comentasse as Sentenças de Pedro Lombardo com argumentos próprios, e só se dava valor ao trabalho que apresentasse alguma originalidade, novos argumentos, e respondesse com mais firmeza aos argumentos falsos, trouxesse novas demonstrações; em suma, que fosse criador! Hoje, um aluno que tente fazer isso, peca contra a pureza do barbarismo, ofende a essa nova e falsa sacralidade que se prega.

«  A luta contra a criação é uma das mais lamentáveis práticas empregadas hoje para estancar a capacidade criadora. O que o bárbaro quer é a horizontalidade tribal, a homogeneidade plana, o vale, o pântano, onde há lugar para todos os sapos e vermes.

«  A luta contra a criação não vem de hoje. Já se instaurou há mais de dois séculos. E tem dado seus frutos: a esterilidade de nossa época. Vejamos por partes. O medo de criar levou à seguinte situação: nestes dois séculos, os autodidatas criaram mais que os homens de escolaridade. Não é de admirar que, numa pesquisa realizada por um grande jornal americano, se chegasse à conclusão que a humanidade mais deve aos autodidatas que aos homens de escolaridade rígida. E isso se deve ao simples fato de aquele não ter à sua frente o “mestre”, que constantemente o está alertando contra a temeridade de criar. Como na matéria a que se dedica é senhor da sua vontade, é senhor da sua criação, não há óbices à sua atividade. Não lhe custa experimentar, tentar, errar e até acertar.

«  Quando um autor escreve uma centena de livros de Filosofia, isso causa espanto, apesar de ter havido, em outras épocas, autores que escreveram matéria que ocuparia, não centenas, mas até milhares de volumes nas dimensões dos que costumamos publicar hoje. A esterilidade é espantosa, e quando há alguma multiplicação é repetição, como se vê em certos pintores modernos. Ora, o bárbaro é estéril. O barbarismo é o contrário da criação. Temos, pois, uma semelhança espantosa hoje: o homem, cada dia que passa, diminui em sua capacidade de criar. As exceções, quase todos autodidatas, já não são suficientes para levar avante a criação cultural. Não é, pois, de admirar que haja autores que falem na nossa esterilidade como constitutiva do período cultural que vivemos, como decorrente da própria cultura, que esgotou as suas veias. Não é verdade, porém. Nossa cultura não esgotou ainda todas as suas possibilidades. Podem homens de prestígio afirmarem que secaram todas as fontes, mas eles se enganam. Podem afirmar que nada mais temos que fazer do que viver a civilização, porque a cultura está anquilosada e morta; que só nos resta aproveitar a técnica e usufruir dos bens criados. Não é verdade. Há ainda muitos mananciais e há muitas promessas. É natural que aqueles que só têm os olhos voltados para o que é degenerescência, abandono, esterilidade, aqueles que só dirigem os seus olhos para os espécimes, que representam o deserto cultural, pensem assim. Mas se eles quisessem procurar no campo da Filosofia, da própria Ciência, os que estão abrindo novos horizontes, apesar da resistência tremenda que lhes fazem os despeitados e estéreis, compreenderão que há ainda muitas auroras para luzir. É este, realmente, um tema de máxima importância e serviu para maiores análises em obras nossas, onde estudamos a possibilidade de criação em nosso ciclo cultural, opondo-nos à visão pessimista de Spengler, Toynbee e muitos outros, que nos julgam estéreis, sem esperanças, senão vagas, e muito condicionais, sobre novos veios de criação, por estarem envoltos pela barbárie que nos ameaça.»

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Trecho de Invasão Vertical dos Bárbaros (1967), de Mário Ferreira dos Santos.

2:54 pmLui Liu

Telas do artista chinês radicado no Canadá, Lui Liu — um sujeito pirado e talentoso. (São artistas deste naipe que deveriam ler o Livro de Urântia. Não sabem o que estão perdendo…)

Midnight Ride

12:56 pmDa Beleza e Consolação — uma entrevista com Roger Scruton

Sobre o filósofo Roger Scruton.

9:18 amUm documentário sobre M.C. Escher

Metamorphose, um documentário sobre M.C. Escher.

6:25 amFernando Pessoa define os três gêneros de artistas

Do Arquivo Pessoa:

Os 3 géneros de artistas

1. O artista para quem a arte é uma necessidade como que física, directa, como são a de comer e a de beber. Para este a arte é uma função da vida.

2. O artista para quem a arte é um refúgio, um modo de esquecer a vida; como um narcótico, um vício qualquer, um álcool.

3. O artista para quem a arte é uma tarefa, uma missão a cumprir.

Do 1.º género são homens como Shelley, Byron – como o «romântico», em geral.

Do 2.º género são homens como Verlaine, Baudelaire, e outros assim (incluir Maupassant).

Do 3.º grupo são os grandes criadores como Milton.

Fernando Pessoa

7:52 amVincent van Gogh e os livros amarelos

Como este quadro – Le livres jaunes (Os livros amarelos) – pertence a uma coleção particular, não sei afirmar qual é sua real condição. (É possível encontrá-lo no Google Images em vários tons distintos, e inclusive numa versão espelhada, com os objetos dispostos em sentido inverso.) Mas, poxa… é van Gogh!, que foi, antes de tudo, um grande leitor. (Basta ler as Cartas a Theo para inteirar-se dos diversos livros que lhe fizeram a cabeça.)