4:56 amJosé Antônio de Almeida Prado (1943-2010)



Domingo, dia 21 de Novembro, faleceu em São Paulo o compositor erudito José Antônio de Almeida Prado, membro da Academia Brasileira de Música e ex-aluno de Olivier Messiaen, compositor que, num campo de concentração nazista, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Conheci Almeida Prado em 1999, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst, sua prima. Nos dois anos em que lá morei, ele nos visitou em três ocasiões. Tínhamos longas conversas sobre arte, música, religião ― ele era católico ― e outros temas não muito ortodoxos. Num dia em que o acompanhei até uma farmácia para comprar insulina ― ele era diabético ―, Almeida Prado me disse: “Hildinha falou que você também está lendo sobre projeções astrais. É verdade?” Envergonhado como um garoto que tem as Playboys e Hustlers confiscadas pela mãe, que, por puro acaso, levantara o colchão para trocar aquele imundo lençol, comecei a gaguejar, afinal, não saio por aí revelando a meus amigos intelectuais, acadêmicos ou semelhantes tais gostos pervertidos de leitura. E ele: “É que tenho uma história que nunca contei a ninguém mas que gostaria de lhe contar”. Ufa, pensei. E acrescentei: “Manda bala, sou todo Ovídios”. E eis o que ouvi:

“Na noite em que comecei a compor o movimento das ‘Cartas Celestes’ que trata de Urano, fui acometido, ao piano, por um cansaço enorme, por um peso dolorido na nuca. Vendo que já era demasiado tarde ― e aproveitando que estava mesmo tendo dificuldades com a composição ― pus a um lado as partituras, o lápis e fui me deitar: ‘melhor retomar amanhã, quando estiver com melhor disposição’. Já na cama, deitado de costas, fiquei pensando no meu trabalho, na importância que aquela obra teria para mim e tal e, assim, fui caindo naquela letargia que antecede o sono. De repente, senti, sabe?, aquele tranco e, meio aflito, abri os olhos: Yuri, que susto! Eu estava flutuando em cima do telhado da minha casa! Quando eu já começava a me desesperar, acreditando estar morto, surgiu à minha frente uma esfera de luz azul que, rapidamente, veio a meu encontro e se chocou comigo. Na mesma hora já me vi dentro de uma espécie de tubo muito comprido ― aliás, as laterais pareciam a superfíce de um desses muros chapiscados ―, o qual me sugava como um aspirador. Quando a viagem acabou ― parecia uma viagem de elevador sem a inércia ― eu me encontrei flutuando sobre uma planície muito bonita e sob um céu de uma tonalidade e luz que eu nunca vira: esta não é a Terra, pensei. ‘Você está em Urano’, disse calmamente uma voz ao meu lado. Olhei em sua direção e vi um homem bastante alto, vestindo apenas uma túnica: ‘Não tenha medo, não vou lhe fazer mal.’ e, pegando-me pela mão, me levou a sobrevoar a região. Depois de me mostrar tudo ― vi diversos prédios afastados uns dos outros, como em Brasília, mas sem o menor sinal de ruas ― ele me olhou diretamente nos olhos e falou com bondade e firmeza: ‘Você notou? Não há o menor sinal de conflito aqui. Todos os que aqui estão vieram em missão de paz. Estamos aqui para ajudar seu planeta. Não estamos em guerra com ninguém. Portanto, volte ao seu trabalho e refaça todo o movimento sobre Urano das suas ‘Cartas Celestes’. Se permanecer como está, você estará mentindo, transmitindo uma mensagem falsa sobre nossa missão. Vá com Deus!” E, de súbito, a esfera de luz azul, vinda não sei de onde, chocou-se novamente comigo. Refiz o percurso pelo tubo de muro chapiscado e, então, sofri novo tranco, já em minha cama. Levantei elétrico, os pelos arrepiados, o corpo formigando. Corri para o piano e, de uma só vez, compus todo o novo movimento sobre Urano. E o cara tinha razão: antes ele estava muito Stravinsky, muito ‘Sagração da Primavera’.”

Ao terminar seu relato, Almeida Prado me disse: “Não vai sair contando isso por aí não, Yuri [ooops!], senão vão achar que tô doido e vão me tirar da UNICAMP. Se alguém me perguntar, não vou negar, mas também não vou confirmar”. E ria.

Em outra ocasião, Almeida Prado me falou de sua viagem até Medjugorje, na ex-Iugoslávia (Bósnia), aonde se dirigiu atraído pelos relatos da aparição de Nossa Senhora. Juntamente com outras dezenas de pessoas viu uma cruz de luz sobre Krizevak, a Montanha da Cruz. Uma chuva com cheiro de rosas caía sobre todos. Havia quase cem pessoas ali, mas nem todas eram capazes de enxergar a cruz. Comovido pela dádiva de poder vê-la, Almeida Prado se ajoelhou para orar e, então, ouviu a voz da mensageira celeste a falar em seu ouvido. Sentiu que ela o abraçava e o confortava. Disse-me que ela discorreu sobre seus problemas pessoais e o consolou. Sob a chuva, ele chorou de alegria. Sintetizou a experiência na composição para piano “Rosário de Medjugorje”.

Assim como Jacques Bergier e Louis Pauwels tão bem colocavam, acredito que nosso universo não pode ter outra natureza senão a do fantástico, a do imprevisível. Almeida Prado acreditava no mesmo e, quando encontrava pessoas que compartilhavam a mesma convicção, desfiava suas histórias.

Tenha uma boa viagem, amigo. Vá com Deus.

9:57 amWitold Lutosławski: “Variações sobre um Tema de Paganini”

“Variações sobre um Tema de Paganini” (1941), de Witold Lutosławski. Execução: Enrico Pace e Igor Roma.

8:35 amHenri Dutilleux: “Tout un monde lointain”

“Tout un monde lointain”, um concerto para violoncelo e orquestra de Henri Dutilleux. (Sim, eu gosto de trilha sonora sinistra…)

8:53 amJiv Jago, Jiv Jago: “Despertem, almas dormentes! Despertem!”

Bhaktivinoda Thakura

Nome: Jiv Jago Jiv Jago
Nome oficial: Arunodaya Kirtana canção 2
Autor: Bhaktivinoda Thakura
Livro: Gitavali
Idioma: Bengali

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Letra:

(1)
jīv jāgo, jīv jāgo, gauracānda bole
kota nidrā jāo māyā-piśācīra kole

(2)
bhajibo boliyā ese saḿsāra-bhitare
bhuliyā rohile tumi avidyāra bhare

(3)
tomāre loite āmi hoinu avatāra
āmi binā bandhu āra ke āche tomāra

(4)
enechi auṣadhi māyā nāśibāro lāgi’
hari-nāma mahā-mantra lao tumi māgi’

(5)
bhakativinoda prabhu-caraṇe pariyā
sei hari-nāma-mantra loilo māgiyā

Tradução:

1) O Senhor Gaurānga está chamando, “Despertem, almas dormentes! Despertem, almas dormentes! Quanto tempo irão dormir no colo da bruxa chamada Māyā?

2) Vocês esqueceram o caminho do serviço devocional e estão perdidos no mundo do nascimento e morte.

3) Eu desci para salvá-los; vocês não tem outro amigo além de Mim neste mundo.

4) Eu trouxe o remédio que irá acabar com a doença da ilusão da qual estão sofrendo. Tomem este mahā-mantra-Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma Rāma Rāma, Hare Hare.”

5) Śrīla Bhaktivinoda Thākura diz: “Ao tomar este mahā-mantra, eu caí aos pés do Senhor.”

Fonte: kksongs.org

PS.: A música é bonita, a letra também, mas o mantra não tá funcionando comigo não…

4:26 pmEspecial sobre Carlos Drummond de Andrade (Globo News)

Com poemas lidos pelo próprio Drummond e depoimentos dele, de Tom Jobim, Otto Lara Resende, Alcides Villaça, etc.

“Eu sou bastante telefoneiro”, disse Carlos Drummond de Andrade. Teria dado um grande interneteiro…

Primeira parte:

Segunda parte:

Terceira parte:

3:25 pmDois poemas de Fernando Pessoa lidos por mim

Ontem, acordei com a garganta ligeiramente inflamada, o que deixou minha voz ainda mais “sexy-cavernosa” do que de costume. Para não perder a oportunidade, gravei minha leitura de dois poemas do Fernando Pessoa. (Já havia gravado outro anos atrás – Tabacaria – que pode ser ouvido na página de arquivos de áudio.)

Cruzou por mim, veio ter comigo, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

      Cruzou por mim, de Fernando Pessoa (3,1 MiB, 2.904 hits)

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Análise, de Fernando Pessoa:

      Análise, de Fernando Pessoa (766,2 KiB, 2.890 hits)

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4:21 pmÓdio à escola

É uma pegadinha — e bem engraçada — mas, se você pensar bem, dá até medo… :)) (Lembra meu conto “Matando um Mosquito com um Tiro de Canhão“…)

Obs.: Ouça outras pegadinhas da Little Becky.

3:55 pmÁudio da última entrevista de Monteiro Lobato

“Lobato concede a Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, sua última entrevista, em 1948. Dois dias após o bate-papo, o escritor veio a falecer, vitimado por um derrame.”

Primeira parte:

Segunda parte:

Terceira parte:

10:42 amScreenwriting — Advice to Hollywood writers

peter kreeft

Palestra de Peter Kreeft, professor de filosofia no Boston College e no King’s College(New York), a respeito da arte de escrever roteiros de cinema.

Entre outras coisas, ele trata do poder da imaginação — sendo o cinema seu veículo mais absorvente —, da possibilidade de se influenciar para o bem ou para o mal, da influência divina no processo de criação, de como realmente se dá a originalidade, e assim por diante.

O áudio está em inglês.

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“Imagination is the single most powerful force in the human soul.” (Pascal)

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(Dica do Silvio Grimaldo.)

7:46 pmDiscurso de William Faulkner — Prêmio Nobel de 1950

O discurso abaixo — realizado durante a recepção do Prêmio Nobel de Literatura, no dia 10 de Dezembro de 1950, em Estocolmo — foi revisado e corrigido posteriormente para publicação pelo próprio Faulkner. A traição tradução que segue, feita por mim, é a versão final. Veja o original em inglês.

William Faulkner

Ouça o áudio original:

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“Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual eu possa ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.

“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

Tradução: Yuri Vieira.