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palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Cultura (Página 4 de 13)

Redentor (2004) — o pior filme brasileiro do milênio

Redentor

Eu adiei porque pressentia a roubada. Fiquei anos sentindo que devia ficar longe desse filme. (Modéstia à parte, minha intuição sempre foi muito boa.) Contudo, ontem *, provavelmente devido a essa lei de cotas que obriga canais pagos a exibirem filmes nacionais, dei de cara com o bicho: “Redentor” (2004). Caramba… (longo suspiro). É, sem sombra de dúvida, o pior filme que vi neste milênio. É a prova definitiva de que, se o sujeito tem um péssimo roteiro em mãos, não adianta quantas estrelas e pessoas de talento ele mobilize — vai queimar o filme de todo mundo! É impressionante como conseguiram unir diversos atores excelentes, outros medianos, e apenas alguns ruins, a uma boa fotografia, a uma boa edição, e até mesmo a uma boa direção (em termos de cinematografia, claro), para criar um monstro espantoso, absurdo e terrivelmente sem graça. Até mesmo uma figura linda como Camila Pitanga é desperdiçada ali. Que filme! “Redentor” não é uma obra de arte e muito menos um produto de entretenimento — é um sintoma da mentalidade caótica em que anda mergulhada a classe artística brasileira. Não é um filme que observa do alto o panorama inteiro desse caos — é um filme de quem está perdido nele. Não é ruim por ser mal feito, porque não o é — é ruim por ser pernicioso às mentes despreparadas.

Aristóteles dizia que a comédia é uma imitação de caracteres inferiores, isto é, uma obra que apresenta as ações de pessoas piores do que a gente comum. “Redentor” poderia ter sido uma excelente comédia, afinal, TODOS os seus personagens são gente sem o menor valor, gente salafrária, egoísta, mesquinha, violenta, grosseira e o escambau. Mas, pelo jeito, o roteirista não o notou! Sim, em vez de uma comédia, o roteiro se apresenta como tragédia, como o drama de um sujeito supostamente bondoso que faz uma cagada e, em virtude dela, morre. Só que o protagonista é um bundão, um bosta, um sujeito tão babaca quanto todos aqueles a quem ele, no final, imagina “dar uma lição”. Que lição? Ele não sabe nada! Ele não faz apenas uma cagada (a suposta húbris trágica) — ele só faz cagada! No fundo, e já que ele anuncia a própria morte no início do filme, o espectador não vê a hora de vê-lo morrer e abandonar a tela. E o deus que a certa altura lhe aparece — uma figura animada do Cristo Redentor do Corcovado — é a pura representação de Judas Iscariotes: “Por que não se vende esse perfume caro e não se distribui o dinheiro entre os pobres?”. (No filme, é um “Vai lá e diz ao sujeito para distribuir a grana dele entre os pobres”.) No Evangelho, quando Jesus diz a um homem rico para distribuir seu dinheiro, diz claramente: “Dá teu dinheiro e me segue”. Qual foi a intenção de Jesus aí? Ora, o que Ele tentou mostrar ao homem rico é que, na deturpada hierarquia de valores deste, manter as posses materiais estava acima da experiência de caminhar na Terra com o próprio Deus. Jesus empregou muitíssimas vezes uma abordagem pessoal em seus ensinamentos: naquela ocasião, Ele ensinava a respeito de valores, era uma aula de axiologia, não estava pregando o socialismo. Jesus jamais diria que a riqueza, em si mesma, é um mal, uma vez que isto seria incorrer numa das heresias gnósticas, dessas que afirmam ser a matéria uma emanação do “mal absoluto” e a Terra, um inferno. Jesus, enquanto Criador, sempre soube que o Reino de Deus permeia e ultrapassa a Terra, sem excluí-la. E mais: embora não seja impossível — Deus pode tudo —, é extremamente improvável que um homem sem a menor sombra de virtude seja escolhido por Ele como um mensageiro. Saulo de Tarso, por exemplo, não foi escolhido por perseguir cristãos, mas, sim, por ser um homem lúcido e um implacável defensor da religião que então professava. Estão achando que Deus é um idiota? É óbvio que o roteirista jamais leu a Bíblia com o coração aberto. E duvido muitíssimo que ele realmente acredite em Deus. O que esperar de um sujeito assim? Um filme de Frank Capra? Para ser rodado por Capra, em primeiro lugar, o roteiro teria de fazer sentido; em segundo, teria de ser um ensaio sobre valores e princípios sólidos; em terceiro, teria de causar empatia e emocionar — e “Redentor” não faz nenhuma dessas coisas! Poxa vida, seja sincero consigo mesmo: assista a ele e tente chorar lágrimas que não sejam lágrimas de um crocodilo do Partido Comunista.

O conceito de tragédia evoluiu após Aristóteles — mas nunca se transformou no contrário do que ele afirmou. As formas do conflito e as causas do acontecimento trágico, nas narrativas, podem ter variado com o tempo; mas a tragédia continua sendo a imitação de caracteres superiores. E, quando digo que “Redentor” é um sintoma, refiro-me a isto: o roteiro tenta nos mostrar que o protagonista, mesmo cometendo ações abjetas, é um virtuoso, um enviado de Deus. Pois sim. As mentes contaminadas de ideologia, e de “ismos” dos mais diversos tipos, podem até acreditar que ele o seja — mas os corações que acompanham essas mentes não percebem virtude alguma! Está na cara que o protagonista não merece nossa simpatia e muito menos nossa compaixão. Aliás, ninguém no filme as merece! E isso é imperdoável! Ora, o cinema, enquanto arte dramática, deve falar primeiramente ao coração. Pouco importa se, como acontece em “Redentor”, se o roteirista não entende nada de economia, de teologia ou de filosofia — não importa! Claro, contanto que ele saiba dar vida aos personagens, o que ocorre sempre que, no momento da escrita, deixamos as rédeas da narrativa nas mãos do nosso coração, e não nas mãos das nossas convicções políticas ou idéias econômicas — para não dizer nas mãos do nosso caos mental! O relativismo se tornou absoluto nas mentes iluminadas dos nossos artistas. Nenhuma virtude, nenhum princípio, nenhum valor, nenhum ideal — para eles, nada pode ser universalmente verdadeiro. Não há chão que seja absolutamente o chão, não há Norte que seja absolutamente o Norte. É simplesmente impossível viajar com esse mapa! E por quê? Porque esse “relativismo absoluto” é uma contradição em termos. Se tudo é relativo, então até mesmo a idéia de que tudo é relativo é relativa e, portanto, ela não faz sentido, não diz nada. Não se pode viver solto no espaço. O niilismo é morte! E o coração precisa andar em algum trilho, seguir alguma direção. Em nossa época, a incapacidade de aceitar o transcendente (o que está além do espaço-tempo, a própria fonte de ambos) leva algumas pessoas a abraçar sucedâneos imperfeitos da transcendência — tais como a História (o tempo) e o meio ambiente (o espaço) — e valores de meia tigela, tais como a pobreza, que é o caso deste filme. Segundo “Redentor”, se você for pobre, você pode tudo, pode sequestrar, roubar, invadir, espancar, ressuscitar os mortos, ser capanga do mocinho, enfim, em nome da pobreza, pode qualquer coisa. E, ironicamente, o que querem todas as almas miseráveis de “Redentor”? Dinheiro, claro. Todos os personagens são corruptos — TODOS, sem exceção. Nenhum deles tem valor — mas todos têm seu preço. E, por isso, caso o filme não tivesse se levado tão a sério, teria dado uma ótima comédia. O problema é que seu deus ex machina — o suposto “redentor” — não passa de um demiurgo, de um senhor das trevas que dá poderes a um ser perverso e desmiolado, não passa, enfim, de um redentor que não redime, que não liberta ninguém e que, ainda assim, fez o roteirista e, de tabela, todos os participantes do filme ajoelharem-se a seus pés!

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* Publiquei esta crítica no Mídia Sem Máscara em Março deste ano e, por alguma razão, acabei me esquecendo completamente de postá-la aqui — antes tarde do que nunca.

Um pouco de Maio, Junho e Julho…

Algumas pessoas não conseguem compreender certos fatos, não porque sejam burras, pois são até inteligentes, mas simplesmente porque lhes falta imaginação. A imaginação é a base da inteligência: o que não é imaginado torna-se impossível e, por isso, impensável. Quando uma pessoa recebe uma informação ou um dado da realidade que não tem eco em sua imaginação, ela não consegue alcançar senão uma “compreensão” verbal dos mesmos. De fato, essa “compreensão verbal” não é compreensão em absoluto. É estar preso a jogos de palavras, é encarar a linguagem como puro flatus vocis: vento sonoro. Para aquele que é incapaz de uma imaginação aprofundada, os conceitos utilizados não possuem substância. O reino do possível (do imaginável) é o primeiro passo em direção aos reinos consecutivos do verossímil, do provável e do verdadeiro. Sem imaginação é impossível escalar a montanha do Entendimento, essa que leva ao cume da verdade. A imaginação é o acampamento base: a fonte de recursos e provisões para a aventura filosófica.

É papel da literatura de imaginação tornar a realidade pensável.

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Engraçado, a Marcha para Jesus foi provavelmente a única manifestação sem a presença de Judas: segundo consta, apesar dos milhares e milhares de participantes, ninguém ali explodiu sequer um estalo de salão.

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Ei, broto, leia com a voz do Roberto Carlos: “São tantas manifestações”.

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Revoltou-se porque não aguentava mais ouvir promessas — então ouviu mais promessas e ficou satisfeito.

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Foi à rua protestar com o coração sincera e legitimamente indignado — mas a cabeça, após uma lavagem cerebral de anos, permanecia dominada.

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Saiu à rua porque não aguentava mais ser enganado — então a resposta do governo o enganou e ele ficou quietinho em casa.

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Sugestão de leitura para esses dias turbulentos: Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, na tradução de Paulo Bezerra.

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Terá lido Tolstói Os Demônios? Irônico como Dostoiévski previu, na figura de Stiepan Trofímovitch, a morte do colega durante uma fuga das mais ingênuas. A única grande diferença é que, enquanto agonizava, e ao contrário de Tolstói, o coitado do professor Vierkhoviénski finalmente compreendeu o sentido do verdadeiro Cristianismo.

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Essas críticas à polícia lembram as críticas ao “bombardeio cirúrgico” dos americanos na guerra do Iraque — o bom-mocismo quer 100% de precisão robocópica em meio ao caos.

Ora, Shit happens

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Mordido por um vampiro, o gigante levanta-se e sofre convulsões — tarde demais, seu sangue já está contaminado…

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Sugestão para cartaz de passeata: “Queremos álcool no Biotônico!”.

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Achávamos que os estádios não estariam de pé a tempo, mas, em vista do vandalismo, parece que serão as únicas construções de pé em 2014.

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Dr Jekyll vai protestar na passeata mas, coitado, não entende por que o vândalo do Mr Hyde tem sempre de quebrar tudo no final…

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A [pontinhos, pontinhos, pontinhos] foi um movimento espontâneo, antigovernamental, que se espalhou por todo o [pontinhos, pontinhos, pontinhos] , aparentemente sem liderança, direção, controle ou objetivos muito precisos. Geralmente é considerada como o marco inicial das mudanças sociais que culminaram com a [pontinhos, pontinhos, pontinhos]. → http://bit.ly/1923VmX

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Não sei por que os gays gayzistas (os gays normais não são melindrosos) estão reclamando da tal “cura gay” — parece que o remédio é um supositório deste tamanho.

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Redes sociais, esse Maelstrom do século XXI.

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Matéria fueda na revista Alfa: “O Cabra Sensível”. Fala sobre como o Bolsa Família retirou o poder dos homens, tornando-os submissos às “patroas”. Como só a mulher recebe a grana (ou em pelo menos 90% dos casos), e como o desemprego está sempre batendo à porta dos homens (graças, é claro, ao próprio governo), nego baixa a cabeça. Ou seja, o Bolsa Família é uma arma contra o “patriarcado” e contra o “machismo”.

Essa gente à sinistra é muito esperta mesmo…

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Faça amigos até os trinta e tantos anos de vida; depois, após longo afastamento, aguarde a morte para revê-los no Céu ou no Inferno.

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Em espanhol, “heder’ significa “feder”, e “hediondo”, “fedido”. Ou seja: todo mundo já sabia que um corrupto é hediondo, os senadores não precisavam colocar isso no papel. (Alguém imagina que Lula seja cheiroso? Ou Sarney? Ou Collor?)

Aliás, segundo Swedenborg, quando um corrupto é levado do Inferno para o Céu como visitante, ele, assim que lá chega, começa a implorar que o levem de volta, pois,no Céu, a verdade se manifesta e ele não consegue suportar o próprio cheiro, acreditando que o Céu é que está fedendo — e então, devido à ignorância, perpetua sua estada nas sociedades infernais, onde as verdades se escondem.

Nós outros, sabedores do problema, tomaremos um banho no Purgatório antes de seguir viagem…

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Estamos em 2013 e você ainda não adquiriu um Kindle, um Kobo ou sequer um Sony Reader — os inventores do papiro e do pergaminho estão lá no Céu de queixo caído, mal podendo crer em tal notícia.

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Quando finalmente ocorreu a Revolução de 1917, a parcela esclarecida da população russa foi pega de surpresa, afinal, esse tal de socialismo era apenas uma conversa fiada dos anos 1840 e 1850. (Sabe, né? Coisa velha em que ninguém mais acredita…)

Se os russos, que respeitavam a literatura, não ouviram Dostoiévski, quantos brasileiros, que desprezam o verdadeiro conhecimento, irão ouvir um filósofo?

* * *

Meu coração, cujo ritmo não é alterado pela seleção brasileira desde 1990, é tão futebolisticamente neutro que eu poderia ser árbitro de um jogo do Brasil. Seria divertido, nego me xingando de traidor para baixo e me ameaçando por causa de uma arbitragem super correta. B^)

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— Gostou do meu batom vinho?
— Hmm, sua maquiadavélica…

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Tarantino, quanto você cobraria para ser DJ numa festa lá em casa?
— Fuck you, you motherfucker!!

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Na verdade — quem poderá negá-lo? — o fígado do Lou Reed foi extremamente tolerante.

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Dominique Venner, que se suicidou ontem na catedral de Notre-Dame, deve ter morrido em vão: somente os islâmicos admiram mártires suicidas.

* * *

A maioria das discussões filosóficas, religiosas e políticas da internet não passa de logomaquia.

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No Houaiss:

logomaquia Datação: 1858

n substantivo feminino
1 discussão gerada por interpretações diferentes do sentido de uma palavra; querela em torno de palavras
2 Derivação: por extensão de sentido.
emprego de termos não definidos num discurso, numa argumentação; palavreado vão
3 Uso: pejorativo.
querela em torno de coisas insignificantes

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Somente um hacker poderia levar a cabo uma efetiva Desobediência Civil: meter um trojan no sistema da Receita Federal que devolvesse a grana dos impostos e tributos diretamente para as contas bancárias dos contribuintes — voilà!

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Aquele cuja fé não repousa senão na imanência e que, mesmo assim, ainda não chegou ao solipsismo, sofre ou de falta de imaginação ou de preguiça de pensar — ou de ambas.

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Esse negócio de acesso biométrico aos caixas eletrônicos significa duas coisas: mais seqüestros relâmpagos e (novidade) ladrões de dedo.

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Verificar os caminhos sem blitz na volta para casa após a balada ainda é a razão mais convincente para se adquirir um smartphone.

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Algumas etnias indígenas acreditavam que a fotografia poderia roubar a alma do fotografado e, com o Facebook, passaram a ter certeza disso.

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Na CNN: nos EUA, ao longo de dez anos três irmãos de nome Castro mantiveram em cativeiro três mulheres — mais cinqüenta anos e teriam igualado o cativeiro imposto a toda uma população pelos irmãos Castro de Cuba.

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Saudade, essa força de gravidade do amor.

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Brazilian Wax → depilação completa dos pelos púbicos que deixa sua genitália lisinha;
Brazilian Tax → depenação completa por parte do poder público que deixa seu bolso lisinho.

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Receita de pavê nerd: quebre ao meio rosquinhas Mabel e coloque-as numa tigela; cubra-as com iogurte do seu sabor predileto; deixe a tigela 1 hora no congelador. Sirva-a para si mesmo enquanto assiste ao The Big Bang Theory.

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Sonhos lúcidos são dez mil vezes melhores que o melhor vídeo game.

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Obviamente, a retirada de cruzes das repartições públicas faz parte do plano de dominação dos vampiros.

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Devia rolar um corredor polonês para os mensaleiros. (Infelizmente, com tantos brasileiros comprados por esmolas oficiais, teríamos de importar os poloneses.)

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— Sabe por que é ruim ser um solteirão? — pergunta ela.
— Por quê?
— Você morre mais cedo…
— Que ótimo! Então não precisarei me suicidar.

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Dizem que Deus é para losers. “Ah, fulano sifu e aí virou crente.” Mas não fracassaremos todos no final? O que é a morte senão o fracasso do corpo?

* * *

Não sei qual ator conseguiu ser mais insuportável: se Cary Grant em His Girl Friday (1940), ou se Tom Ewell em The Seven Year Itch (1955).

* * *

Espero que Dante Alighieri esteja certo e o Inferno seja mesmo uma espécie de zoológico aberto à visitação: caso não lhes seja concedida a Graça, será legal ir dar pipoca para Lula & Cia. E também para esses meninos que matam gente como gente grande. E para pilotos remotos de drone. E para… Puts, a lista é muito grande. Deixa pra lá.

* * *

“De perto, ninguém é normal.” Certo, mas se permitirmos que a norma seja destruída, como saberemos o que é “perto”? Ninguém mais saberá qual é a distância segura e todos pisarão nos calos uns dos outros.

* * *

Segundo Edgar Allan Poe, as quatro condições elementares da felicidade são: a vida ao ar livre; o amor de uma mulher; o desapego a toda ambição; e a criação de uma nova beleza.

No entanto…

« A verdade parece ser que o gênio da mais alta categoria vive num estado de perpétua hesitação entre a ambição e o desprezo por ela.»
Edgar Allan Poe

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O Brasil é um mindfuck.

* * *

Seja ou não um escritor, a vida é sempre você diante do papel em branco.

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Fonte: Meu FB.

Um papo com Paulo Briguet ─ Giovanni Nobile

Paulo Briguet

Um papo com Paulo Briguet

por Giovanni Nobile

06 de Maio de 2013 - 19:56 hs
O Blog do Giovanni, além de poesias, contos, crônicas e pequenas matérias, também traz algumas entrevistas. A partir de maio, de tempo em tempo uma entrevista com algum escritor, editor, produtor cultural, poderá aparecer por aqui. E a conversa de hoje é o jornalista Paulo Briguet, colunista aqui do Jornal de Londrina. Ele se formou em 1993, mas ainda antes já trabalhava em redações. Mas a conversa de hoje deixa um pouco o jornalista de lado – se é que é possível – para um papo exclusivo do Blog do Giovanni com o cronista Paulo Briguet:

Qual seu interesse pelo gênero das crônicas?
Desde criança eu gostava das crônicas e poemas da Cecília Meireles na cartilha escolar. Depois fui descobrindo outros cronistas: Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Verissimo (no tempo em que ele era engraçado), Nelson Rodrigues, José Carlos Oliveira, Rubem Braga. Aí vi que também existem cronistas não-brasileiros: Chesterton e Dino Buzzati são ótimos exemplos. Acho que aprendi a fazer crônicas antes de aprender a escrever, ouvindo as conversas de meus pais e avós e as histórias da coleção Disquinho, os vendo seriados de ficção científica na TV.

Aliás, para você, o que é crônica?
Defino crônica como texto curto com temática do cotidiano, livre da obrigação de contar uma história, com uma pitada de humor e ironia, às vezes poesia. Todos os meus escritos são crônicas disfarçadas, mesmo quando parecem contos, reportagens, peças publicitárias, panfletos políticos ou cartas de amor.

Há espaço para a crônica na cultura da velocidade do consumo de informação atualmente? Como vê o espaço da crônica no jornal?
Sim. Felipe Moura Brasil (do excelente Blog do PIM) é um exemplo. Gustavo Nogy (do blog Ad Hominem), outro. Também gosto de Yuri Vieira. Júlio Tanga (do blog Falta de Enxada) ainda será reconhecido como o gênio que é, embora ele seja mais um contista do que um cronista. Sobre a crônica no jornal, ela continua viva e passa bem, obrigado. Sou o segundo melhor cronista do meu jornal. (Só temos dois cronistas, eu e meu amigo Domingos Pellegrini, que não é propriamente um autor de crônicas, mas de vez em quando acerta a mão maravilhosamente.)

E mais: qual o papel do próprio jornal impresso atualmente?
O papel do jornal impresso é fazer oposição à hegemonia política que se pretende instaurar no Brasil.

Nesse sentido, você compara o meio impresso com o online ao escrever? Quero dizer: quando escreve para o impresso, escreve de uma forma; e quando escreve para o online, pensa de outra maneira? Ou o suporte para seus textos é indiferente, na sua visão?

Quando eu mantinha um blog no Tipos (portal hoje extinto), escrevia em linguagens completamente diferentes para o on-line e para o impresso. Agora isso acabou. Escrevo do mesmo jeito. E acho que deve ser assim mesmo. Sou um só.

Considera algum suporte mais importante?
Os dois são importantes porque atingem públicos distintos. Tenho sete leitores no JL impresso e sete leitores no blog do JL. Já são quatorze! Agora vai!

E quando as crônicas ultrapassam o prazo de validade do texto de jornal e migram para os livros, ganhando, digamos, “eternidade”: qual o espaço atual da crônica no mercado editorial, na sua visão?
O espaço para as crônicas existe e sempre existirá, mas elas devem passar por um “tratamento” (uma edição especial) antes de migrar para as páginas do livro. É preciso eliminar pequenos erros e informações datadas que tornariam o texto incompreensível.

É esta a visão que você tem também quando se fala de novos autores? E, ainda, quando se tratam de novos autores regionais…
Já citei bons novos autores: Felipe Moura Brasil, Gustavo Nogy, Yuri Vieira, Júlio Tanga. Mas também gosto de Luiz Felipe Pondé, João Pereira Coutinho, André Simões (olho nesse rapaz, André Simões: é excepcional).

Quais as dificuldades que um autor, seja novo ou não, encontra no mercado editorial, na sua visão? E há facilidades?
Acho que as dificuldades são as de sempre, mas hoje em dia é muito mais fácil imprimir e editar um livro por conta própria.

Quais suas preferências? (Gênero, autores e até mesmo alguns títulos que possa sugerir).
Já citei os cronistas. Para não fazer uma lista exaustiva, vou indicar quatro russos (Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov), quatro americanos (Saul Bellow, Bernard Malamud, Philip Roth, John Updike), cinco poetas universais (Camões, Eliot, Yeats, Herberto Helder e Cecília Meireles) e Santo Agostinho.

Você acompanha a literatura londrinense? Qual sua visão dela em comparação com a literatura comtemporânea brasileira?
Acompanho muito pouco. Temos Domingos Pellegrini, autor de “Terra Vermelha”, um grande livro. Rodrigo Garcia Lopes disse que acabou de escrever um romance. Vou ler e depois conto.

O que poderia melhorar na literatura londrinense?
Não faço a mínima ideia, Giovanni. Não tenho a mínima noção de política cultural. Para falar a verdade, tenho até repugnância do termo. Acho que os escritores devem escrever em vez de promover a literatura.

Você sempre brinca sobre seus 7 leitores… Quantos livros já vendeu? 7?!
Vendi uns 250 deste último, “Aos meus sete leitores”. Dos outros dois eu nem lembro. Sou um autor muito obscuro e desconhecido. Mas digo isso sem rancor. Descobri que não sou gênio, nem mesmo talentoso. Estou na fronteira entre o medíocre e o mediano. O problema é que não sei fazer outra coisa na vida.

Qual foi o de maior tiragem?
Esse último, independente, teve mil exemplares. Ou seja, tenho 750 livros encalhados na minha casa e na casa da minha sogra.

Há planos para nova publicação?
Um romance político e outro livro, difícil de enquadrar numa categoria. Será uma mistura de crônicas e memórias familiares, que vou escrever para o meu filho contando a história de seus antepassados.

Já pensou em publicar em outros meios (CD, vídeos em youtube, etc).
Andei recitando uns poemas em vídeos no Facebook, com resultados patéticos.

Algo que não perguntei e que gostaria de acrescentar?
Quando vamos tomar uma cerveja?

(Para esta última resposta-pergunta, ainda não há data definida).

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Fonte: Jornal de Londrina. (Cache do Google.)

Mário Ferreira dos Santos: A luta contra o espírito criador

«  Uma das outras terríveis características de nossa época é a luta contra o criador. Desconfia-se, nega-se, anatematiza-se o criador. O que vale é a falsa criação. E esta caracteriza-se apenas por tomar abstratamente um valor, que é integrante de uma totalidade, exagerá-lo de tal modo que se julgue que isso é criador. É o que se faz na arte. Salienta-se a composição, e acima de tudo a composição, salienta-se a construção, e acima de tudo a construção, salienta-se o geométrico, e acima de tudo o geométrico, etc. Desse modo, temos uma arte monstruosa, porque ela toma o que é natural e desmesura-o exageradamente. É o que se faz hoje, pensando-se “descobrir um novo veio”, “realizar uma obra autêntica”, “trazer uma mensagem”, e expressões semelhantes. Na verdade, tudo isso realiza a frustração da criação. E os pobres ingênuos artistas que seguem esse caminho, insatisfeitos e derrotados, terminam apavorados por verificar que nada fizeram, que foram apenas iludidos por promessas vãs. E muitos valores são destruídos, assim, caindo, desesperançados numa repetição cansativa e monótona, quando não na esterilidade mais completa. Tudo isso ainda é barbarismo.

«  Diz-se que, certa ocasião, Beethoven, quando jovem, procurou Mozart para que lhe ministrasse aulas de piano. Este o recebeu e executou ao piano, uma frase musical, e disse-lhe: “Improvise!” E Beethoven pôs-se a improvisar. Mozart retirou-se para uma sala ao lado, onde estavam alguns amigos, e chamando-lhes a atenção para os sons que saíam do piano, disse-lhes: “A música deste menino ainda revolucionará o mundo!” Citamos isso de memória, porque a validez histórica não é o que importa aqui, mas a significação do fato. Hoje, um aluno que pretendesse procurar um mestre, este lhe diria: “Vá ao piano e execute um estudo de Chopin!” Para ele o que importa não é o criador, mas o repetidor, e repetir, repetir ritmos, repetir sempre é próprio do bárbaro, é a satisfação mais completa do bárbaro. Hoje não se desejam mais os criadores, mas os repetidores. O papel do mestre é corrigir, ensinar, apoiar, estimular a criar e não frustrar, criar obstáculos à criação, fomentar a desconfiança nas próprias forças, promover a incapacidade. Não é, sem dúvida, a sua verdadeira missão culta; mas a missão bárbara é impedir a criação. Entre os bárbaros, os inovadores são olhados como criminosos, são castigados e expulsos até da tribo. Quem proponha um pensamento novo, estranho ao aceito pela tribo, através das gerações, é um perigoso inovador, um perturbador, um corruptor, porque a coerência da tribo está ameaçada. Mas a cultura é uma conquista constante de estágios cada vez mais altos. O que esta deseja é erguer o homem aos degraus mais elevados e não fazêlo estacionar em patamares.

«  Pois observe-se hoje o que se faz nas universidades. Não é o que dizemos? Não se coage com energia o aluno para que não tente provar alguma coisa nova, expor criticamente um pensamento, ensaiar uma nova maneira de ver as coisas? Quão distante estamos nós daquela Idade Média (que os tolos querem chamar de época de trevas), em que se exigia, para o estudante de Filosofia, que comentasse as Sentenças de Pedro Lombardo com argumentos próprios, e só se dava valor ao trabalho que apresentasse alguma originalidade, novos argumentos, e respondesse com mais firmeza aos argumentos falsos, trouxesse novas demonstrações; em suma, que fosse criador! Hoje, um aluno que tente fazer isso, peca contra a pureza do barbarismo, ofende a essa nova e falsa sacralidade que se prega.

«  A luta contra a criação é uma das mais lamentáveis práticas empregadas hoje para estancar a capacidade criadora. O que o bárbaro quer é a horizontalidade tribal, a homogeneidade plana, o vale, o pântano, onde há lugar para todos os sapos e vermes.

«  A luta contra a criação não vem de hoje. Já se instaurou há mais de dois séculos. E tem dado seus frutos: a esterilidade de nossa época. Vejamos por partes. O medo de criar levou à seguinte situação: nestes dois séculos, os autodidatas criaram mais que os homens de escolaridade. Não é de admirar que, numa pesquisa realizada por um grande jornal americano, se chegasse à conclusão que a humanidade mais deve aos autodidatas que aos homens de escolaridade rígida. E isso se deve ao simples fato de aquele não ter à sua frente o “mestre”, que constantemente o está alertando contra a temeridade de criar. Como na matéria a que se dedica é senhor da sua vontade, é senhor da sua criação, não há óbices à sua atividade. Não lhe custa experimentar, tentar, errar e até acertar.

«  Quando um autor escreve uma centena de livros de Filosofia, isso causa espanto, apesar de ter havido, em outras épocas, autores que escreveram matéria que ocuparia, não centenas, mas até milhares de volumes nas dimensões dos que costumamos publicar hoje. A esterilidade é espantosa, e quando há alguma multiplicação é repetição, como se vê em certos pintores modernos. Ora, o bárbaro é estéril. O barbarismo é o contrário da criação. Temos, pois, uma semelhança espantosa hoje: o homem, cada dia que passa, diminui em sua capacidade de criar. As exceções, quase todos autodidatas, já não são suficientes para levar avante a criação cultural. Não é, pois, de admirar que haja autores que falem na nossa esterilidade como constitutiva do período cultural que vivemos, como decorrente da própria cultura, que esgotou as suas veias. Não é verdade, porém. Nossa cultura não esgotou ainda todas as suas possibilidades. Podem homens de prestígio afirmarem que secaram todas as fontes, mas eles se enganam. Podem afirmar que nada mais temos que fazer do que viver a civilização, porque a cultura está anquilosada e morta; que só nos resta aproveitar a técnica e usufruir dos bens criados. Não é verdade. Há ainda muitos mananciais e há muitas promessas. É natural que aqueles que só têm os olhos voltados para o que é degenerescência, abandono, esterilidade, aqueles que só dirigem os seus olhos para os espécimes, que representam o deserto cultural, pensem assim. Mas se eles quisessem procurar no campo da Filosofia, da própria Ciência, os que estão abrindo novos horizontes, apesar da resistência tremenda que lhes fazem os despeitados e estéreis, compreenderão que há ainda muitas auroras para luzir. É este, realmente, um tema de máxima importância e serviu para maiores análises em obras nossas, onde estudamos a possibilidade de criação em nosso ciclo cultural, opondo-nos à visão pessimista de Spengler, Toynbee e muitos outros, que nos julgam estéreis, sem esperanças, senão vagas, e muito condicionais, sobre novos veios de criação, por estarem envoltos pela barbárie que nos ameaça.»

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Trecho de Invasão Vertical dos Bárbaros (1967), de Mário Ferreira dos Santos.

Um homossexual condena os “direitos homossexuais”

Justin Raimondo

Por Justin Raimondo:

« Os ativistas homossexuais do passado pediam ao governo que os deixasse em paz. Sua plataforma política consistia fundamentalmente na descriminalização de relações homossexuais entre maiores de idade. Hoje, contudo, à medida em que a tolerância social à homossexualidade cresce, os ativistas homossexuais se voltam cada vez mais para o governo a fim de impor seus interesses à sociedade. Muito embora o poder estatal tenha sido utilizado como clava contra os homossexuais desde pelo menos a Idade Média, os líderes gays de hoje subitamente parecem eles mesmos empunhar o bastão, dizendo: “Agora é a nossa vez”. Isto é uma grande ironia – e uma possível causa de problemas para os homossexuais e convulsão social para a América.

« O nascimento do movimento de liberação dos homossexuais na América pode ser datado em 27 de Junho de 1969, quando clientes do Stonewall Inn, um bar para homossexuais em Manhattan, resistiram a uma tentativa da polícia de fechar aquele estabelecimento. Durante três dias, uma rebelião da vizinhança efetivamente impediu a polícia de dar seguimento à antiga tradição de extorsão de bares “gays” e de fechamento dos que se recusavam a pagar propina. Na autuação oficial, os donos do Stonewall foram citados por não possuírem alvará para venda de bebidas alcoólicas. Mesmo que eles tivessem requerido a obtenção do alvará, contudo, dificilmente eles teriam sido atendidos: o órgão estatal responsável por este tipo de licença era notoriamente hostil a estabelecimentos voltados para homossexuais. Assim sendo, os primeiros manifestantes homossexuais modernos estavam se rebelando contra a regulação estatal. De fato, a liberdade perante o governo, genericamente considerado, era uma idéia central do movimento de liberação homossexual.

« No entanto, algo fez com que o movimento gay se desviasse deste objetivo originário. Hoje, o intitulado movimento pelos direitos homossexuais vê o governo como o provedor, e não como o inimigo, da liberdade. Da medicina socializada, passando pela legislação anti-discriminação e chegando às aulas obrigatórias de “tolerância” nas escolas, não há qualquer tipo de iniciativa para incrementar o poder governamental que estes supostos guerreiros da liberdade não apoiem.

« Enquanto as relações homossexuais entre maiores de idade sejam consideradas atos ilegais em alguns estados, eu acredito que organizações dedicadas a legalizá-las têm um assento legítimo na constelação das causas em prol dos direitos humanos. Além deste objetivo estritamente limitado, contudo, um movimento político baseado em orientação sexual é uma aberração grotesca. O fato de que o movimento pelos direitos homossexuais ter assumido uma postura cada vez mais autoritária é a consequência inevitável de se basear compromissos políticos em lealdades tribais, e não em princípios filosóficos.

« Numa sociedade livre não existem direitos homossexuais, apenas direitos individuais. Tanto para homossexuais quanto para heterossexuais, estes direitos se fundem num único princípio: o direito de ser deixado em paz. Politicamente, o movimento pelos direitos dos homossexuais deve voltar às suas raízes libertárias. Isto iniciaria o imprescindível processo de despolitização da homossexualidade e evitaria uma perigosa guerra cultural que a minoria homossexual jamais poderá vencer.

« Mesmo a “neutralidade” estatal que homossexuais “de centro” como Andrew Sullivan advogam forçaria o governo a tratar a homossexualidade como algo equivalente à heterossexualidade, como se vê nas demandas de Sullivan em prol de um pseudo-“casamento” homossexual e da admissão de gays assumidos nas forças militares. A verdadeira neutralidade, contudo, exigiria não uma aceitação, mas indiferença, desatenção, inação. Um estado neutro não penalizaria nem recompensaria a conduta homossexual. Ele não proibiria nem legitimaria juridicamente o casamento homossexual. Num ambiente militar, um estado neutro submeteria qualquer manifestação de sexualidade à mesma rigorosa regulação.

« Os homossexuais devem rejeitar a idéia disparatada de que eles são oprimidos pelo “heterossexualismo”, uma ideologia vil que subordina e denigre homossexuais ao insistir no papel central da heterossexualidade na cultura humana. Não se pode fugir da biologia humana, por mais que tal projeto possa seduzir acadêmicos alienados que imaginam que a sexualidade humana é uma “construção social” alterável à vontade. Homossexuais são e serão sempre uma raridade, uma pequena minoria necessariamente à margem da família tradicional. O “preconceito” heterossexual das instituições sociais não é algo que precise ser imposto a uma sociedade relutante por um estado opressivo, mas uma predileção que surge de forma bastante natural e inevitável. Se isto é “homofobia”, então a natureza é sectária. Se os homossexuais utilizam o poder estatal para corrigir esta “injustiça” histórica, eles estão se engajando num ato de beligerância que será considerado com justiça uma ameaça à primazia da família tradicional.

« Mesmo vários homossexuais liberais admitem que o modelo dos “direitos gays” já serviu a todo e qualquer propósito útil que ele algum dia possa ter tido. A idéia de que os homossexuais, especialmente os homens, sejam um grupo de vítimas é tão contrária à realidade que ela já não é mais sustentável. Nos campos econômico, político e cultural, os homossexuais exercem uma influência desproporcional ao seu número em face da totalidade da população, um fato que deu origem a inúmeras teorias conspiratórias. Dos cavaleiros medievais de Malta ao misterioso “Homintern” dos tempos modernos, a idéia de uma poderosa organização secreta de homossexuais é tema persistente na literatura conspiratória, imitando a forma e o estilo da mitologia anti-semítica.

« Justaposta à propaganda vitimizante dos últimos vinte anos, esta imagem de poder homossexual com ela se funde para produzir um personagem particularmente antipático: uma criatura privilegiada que não para de choramingar quanto ao seus infortúnios. Se as lideranças políticas homossexuais estão tão preocupadas quanto a um suposto crescimento de sectarismo anti-homossexual, talvez elas devam tomar o cuidado de projetar uma imagem pública menos criticável.

« Na condição de contigente especializado de um exército dedicado a empurrar o socialismo “multicultural” goela abaixo do povo americano, o lobby homossexual se alimenta dos piores medos de suas bases eleitorais. Empunhando o espantalho da “Direita Religiosa” a fim de manter as tropas em alerta, os políticos gays apontam para Jesse Helms e dizem: “sem nós, vocês não teriam a menor chance contra este sujeito”.

« Entretanto, nenhum grupo religioso de peso jamais clamou por medidas legais contra os homossexuais. A Coalização Cristã, o Eagle Forum e outros grupos ativistas conservadores somente se envolveram em atividades políticas supostamente “anti-homossexuais” defensivamente, trabalhando pela rejeição de leis garantidoras de “direitos gays” que atacavam as crenças mais preciosas daqueles grupos.

« Os líderes do movimento gay estão brincando com fogo. A grande tragédia é que não serão eles os únicos que sairão queimados. A volatilidade dos temas que eles vêm levantando – temas que envolvem religião, família e as mais elementares premissas do que é ser humano – cria o risco de uma explosão social pela qual eles devem ser responsabilizados. A ousadia da tentativa de se introduzir um “currículo homossexual positivo” nas escolas públicas, a postura de vítimas militantes que não toleram qualquer questionamento, a intolerância brutal que se segue à tomada do poder pelos homossexuais em guetos urbanos como São Francisco – tudo isso, somado ao fato de que o próprio paradigma dos direitos dos homossexuais representa uma intolerável invasão da liberdade, tende a produzir uma reação da maioria.

« Já é tempo de se questionar o mito de que o movimento pelos direitos homossexuais fala por todos, ou mesmo pela maioria dos homossexuais. Isto não acontece. Leis que estabelecem “direitos homossexuais” violam os princípios do autêntico liberalismo, e os homossexuais deveriam levantar sua voz contra elas – a fim de se distanciarem dos excessos deste movimento destrutivo, a fim de evitar conflitos sociais e para corrigir alguns graves males já criados. Estes males são o ataque político hoje lançado contra a família heterossexual pelos teóricos da revolução homossexual; o incansável deboche religioso que permeia a imprensa gay; e o ilimitado desprezo, inerente à subcultura homossexual, por toda tradição e pelos “valores burgueses”.

« A busca por uma “etnia” homossexual é tão infrutífera quanto o esforço para forjar um movimento político homossexual. Ser homossexual não pode ser comparado, de forma alguma, a, digamos, ser armênio. Não existe uma cultura homossexual à parte da cultura em geral e, apesar de alegações pseudo-científicas em contrário, não existe uma “raça gay” geneticamente codificada. Existe apenas um certo comportamento adotado por um grupo heterogêneo de indivíduos, cada um baseado em seus próprios motivos e predisposições.

« Quaisquer esforços de santificação desta conduta, ou de sua explicação de forma a esvaziá-la de qualquer conteúdo moral, são contraproducentes, além de pouco convincentes. Tentar reconciliar de alguma forma a homossexualidade com os costumes e crenças religiosas da maioria é renunciar ao verdadeiro direito que as pessoas, homossexuais ou não, efetivamente têm: o direito de não ter que dar satisfações quanto à sua própria existência.

« A obsessão em “assumir” sua própria homossexualidade e o auto-centrismo essencialmente feminino deste tipo de ritual é certamente um outro traço do movimento homossexual que deve ser eliminado. Será que nós realmente temos que conhecer as predileções sexuais de nossos vizinhos e colegas de trabalho, ou mesmo de nossos irmãos e irmãs, tios e tias?

« Esperar aprovação ou sanção oficial quanto algo tão pessoal quanto a própria sexualidade é um sinal de fraqueza de caráter. Pedir (não, exigir) com a cara limpa tal aprovação na forma de um ato governamental é algo de um mau gosto sem paralelos. É também a confissão de uma falta de auto-estima tão devastadora, de um tal vazio interior, que sua expressão pública se torna inapreensível. A auto-estima não é uma qualidade que se possa extrair dos outros, nem ser criada legislativamente.

« A história do movimento gay revela que Eros e ideologia são antípodas. A política, disse Orwell, é o “sexo azedado”, e a palavra “azeda” certamente descreve a visão de mundo dos dogmáticos dos direitos homossexuais. Isto fica evidente só de olhar para eles: melindrados a todo tempo por uma sociedade “heterossexualista” e normalmente muito pouco atraentes para conseguirem namorar, estas pobres almas politizaram tanto sua sexualidade que dificilmente se pode afirmar que ela ainda exista.

« Ao invés do moralismo da “visibilidade” gay, uma solução sensata para a Questão Homossexual seria uma convocação de retorno aos deleites da vida privada, uma redescoberta da discrição ou mesmo do anonimato. A politização da vida cotidiana – do sexo e das instituições culturais fundamentais – é uma tendência a que devemos resistir com tenacidade: não apenas os homossexuais, mas os amantes da liberdade em todas as esferas de realização humana

Artigo originalmente publicado na revista The American Enterprise.

Fonte: Gays de Direita. (Vide artigo original.)

Cinema e armas: John Huston e a vida numa colméia cinematográfica

John Huston

Quem já dirigiu um filme sabe que dificilmente irá escapar dos mil e um conflitos que costumam surgir entre os membros da equipe e os do elenco. Há sempre uma picuinha, uma invejinha, uma fofoquinha, uma conspiraçãozinha e demais infernidades que podem colocar tudo a perder. (E, se não colocam tudo a perder, ao menos deixam o saco do diretor bastante dolorido.) Sim, o set de filmagem não é senão um microcosmo a refletir o estado da sociedade que pariu toda essa gente. E é por isso que gostei tanto da solução encontrada pelo diretor John Huston (1906–1987) quando das filmagens de The Night of Iguana (1964): preocupado com a possibilidade e com as conseqüências de uma tal desordem em seu longínquo set — uma praia mexicana cuja distância da civilização impedia uma logística adequada –, e logo no primeiro dia, o irônico e ousado cineasta presenteou cada membro do elenco com uma caixa contendo uma pistola (de verdade!) cujas balas (reais!) continham gravados os nomes dos demais atores em seus cartuchos. Ou seja: cada ator era, desde o início das gravações, e em último caso, um cabra marcado para morrer…

Os membros da equipe técnica, em geral bem mais realistas do que os atores, costumam sossegar com o velho e bom dinheiro — seu profissionalismo está sempre acima da vaidade –, o que explica por que no pobre Brasil eles enchem tanto o saco e por que, nos ricos Estados Unidos, trabalham numa boa sem atrapalhar a ordem e sem violar a hierarquia. Mas quando se trata do ego dos atores… ah, o ego… O mero dinheiro não pode com ele!

Os defensores do desarmamentismo certamente esperariam testemunhar um massacre hollywoodiano dos mais sangrentos nesse set mexicano. Ou melhor: nesse set hustoniano. Mas a questão é que, pela primeira vez na vida, John Huston conseguiu o mais pacífico e tranqüilo dos ambientes de trabalho! Ora, quem é que iria arranjar confusão numa colméia cinematográfica onde cada ator possuía seu próprio ferrão? Locos, pero no tontos! Enfim, palmas para esse mestre, palmas para esse grande conhecedor, não apenas do cinema, mas também da natureza humana. (Hoje em dia, o coitado seria crucificado pelos politicamente corretos…)

G.K. Chesterton: Sobre a leitura

G.K. Chesterton

A maior utilidade dos grandes mestres da literatura não é a literária; ela está além de seu estilo grandioso e até mesmo de sua inspiração emocional. A maior utilidade da boa literatura reside em impedir que um homem seja puramente moderno. Ser puramente moderno é condenar-se à limitação; assim como gastar o último centavo que há na terra no mais novo lançamento de chapéus é condenar-se a ficar fora de moda. A estrada dos séculos passados está repleta de homens que morreram, mas que de certa forma continuam vivos. A literatura clássica e permanente cumpre sua melhor missão quando nos lembra continuamente o vigor da verdade e quando equilibra idéias mais antigas com idéias atuais, às quais, por um momento, podemos estar inclinados. O modo como ela o faz, no entanto, é suficientemente curioso para valer a pena que o compreendamos perfeitamente.

Na história da humanidade, aparecem de tempos em tempos, de maneira especial em épocas agitadas como a nossa, certas coisas que no mundo antigo se chamavam heresias, mas que no mundo moderno chamam-se modas. Às vezes, são úteis durante certo tempo; outras vezes são completamente nocivas. Porém, sempre são aceitas, graças a uma convergência indevida em torno de uma verdade, ou de uma meia verdade. Assim, é verdade insistir no conhecimento de Deus, porém é herético insistir nele como o fez Calvino, a custo do amor de Deus; dessa maneira, é verdade desejar uma vida simples, porém é uma heresia desejá-la às custas dos bons sentimentos e das boas condutas.

O herege (que também é o fanático) não é um homem que ama demasiadamente a verdade; ninguém ama a verdade demasiadamente. O herege é um homem que ama sua verdade mais que a verdade mesma. Prefere as meias verdades que descobriu à verdade completa que a humanidade tem encontrado. Não lhe agrada ver seu pequeno e precioso paradoxo amarrado com vinte banalidades da sabedoria do mundo.

Às vezes, tais inovações têm uma sombria sinceridade, como Tolstói, outras, uma sensitiva e feminina eloqüência, como Nietzsche, e, às vezes, um admirável humor, ânimo e simpatia pública, como Bernard Shaw. Em todos os casos, provocam uma pequena comoção e talvez criam alguma escola. Porém, sempre se comete o mesmo erro fundamental: supõe-se que o homem em questão descobriu uma nova idéia. Porém, na realidade, o novo não é uma idéia, senão a divisão de uma idéia.

É muito provável que a idéia mesma se encontre distribuída por todos os grandes livros de caráter mais clássico e sensato, desde Homero e Virgílio até Fielding e Dickens. Podem-se encontrar todas as novas idéias em livros antigos, só que ali as encontraremos equilibradas, no lugar que lhes corresponde e, às vezes, com outras idéias melhores que as contradizem e as superam. Os grandes escritores não deixavam de lado uma moda porque não haviam pensado nela, mas porque haviam pensado também nas outras alternativas.

No caso de não ter ficado claro, tomarei dois exemplos, ambos referentes à idéia de ‘moda’ entre alguns dos teorizadores mais imaginativos e jovens. Nietzsche, como todos sabem, pregou uma doutrina que ele e seus seguidores aparentemente consideravam muito revolucionária; sustentaram que a moral altruísta simplesmente havia sido uma invenção de uma classe escrava para evitar que, em tempos posteriores, alguém surgisse para combatê-la e dominá-la. Os modernos, concordando ou não com Nietzsche, sempre se referem a essa idéia como algo novo e jamais visto. Com tranqüilidade e insistência, se supõe que os grandes escritores, digamos Shakespeare, por exemplo, não sustentou essa idéia porque jamais havia pensado nela. Recorramos ao último ato de Ricardo III de Shakespeare e encontraremos não só tudo o que Nietzsche tinha a dizer, resumido em duas linhas, mas também as mesmas palavras de Nietzsche. Ricardo o corcunda, disse:

Consciência é só uma palavra que usam os covardes,

Criada, a princípio, para infundir terror aos fortes.

Como já falei, o fato é evidente. Shakespeare havia pensado na idéia de Nietzsche e na Moralidade Suprema; porém deu-lhe seu próprio valor e a pôs no lugar que lhe corresponde. Este lugar é a boca de um corcunda meio louco nas vésperas da derrota. Essa raiva contra os debilitados só é possível em um homem morbidamente admirável, mas profundamente enfermo; um homem como Ricardo; um homem como Nietzsche. Este caso deveria destruir a fantasia absurda de que estas filosofias modernas são modernas no sentido de que os grandes homens do passado não pensaram nelas. Não é que Shakespeare não tenha visto a idéia de Nietzsche; ela a viu, porém viu além dela.

Tomarei um outro exemplo: o Sr. Bernard Shaw em sua peça marcante e sincera chamada Major Barbara, lança um dos mais violentos dos seus desafios verbais à moralidade proverbial. As pessoas dizem: “A pobreza não é nenhum crime”. “Sim,” diz o Sr. Bernard Shaw, “a pobreza é um crime e é mãe de crimes. É um crime ser pobre se você tem a possibilidade de se rebelar ou de enriquecer. Ser pobre significa ser covarde, servil ou idiota”. O Sr. Shaw mostra sinais de uma intenção de concentrar-se nesta doutrina, e muitos de seus seguidores fazem o mesmo. Agora, é apenas a concentração que é nova, não a doutrina.

Thackeray fez sair da boca de sua personagem, Becky Sharp, que é fácil ser moral com mil libras por ano, difícil é ser com cem. Porém, como no caso de Shakespeare que antes mencionei, o importante não é apenas que Thackeray conhecia esta doutrina, senão que sabia também seu valor. Ela não só lhe ocorreu, mas também ele sabia onde deveria colocá-la. Deveria ocorrer na conversa de Becky Sharp; uma mulher sagaz e mentirosa, porém que desconhecia completamente todas as emoções mais profundas que fazem a vida valer a pena. O cinismo de Becky, com Lady Jane e Dobbin para equilibrar, tem um certo ar de verdade. O cinismo do Undershaft do Sr. Shaw, apresentado com a austeridade de um discurso de campanha, simplesmente não é verdadeiro. Simplesmente não é verdade, em absoluto, dizer que os pobres são menos sinceros e mais covardes do que os ricos. A meia verdade de Becky se tornou primeiro em uma loucura e depois em um credo e, finalmente, em uma mentira. No caso de William Makepeace Thackeray, como no de Shakespeare, a conclusão a que chegamos é a mesma. O que chamamos de idéias novas são, geralmente, fragmentos das antigas idéias. Não é que uma idéia particular não tenha ocorrido a Shakespeare. É que, simplesmente, ele encontrou muitas outras boas idéias para livrá-lo da tolice.

G. K. Chesterton

Tradução: Agnon Fabiano

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil.

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