Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Entrevistas (Página 2 de 10)

Os Náufragos – com Yuri Vieira

“Crítica cultural num Brasil que afunda.”

Tomei a liberdade de postar no meu canal do YouTube a entrevista que dei ao programa Os Náufragos, da RADIO VOX, ocorrida no final de 2013. Espero que os novos ouvintes perdoem minha metralhadora vocal que, movida a uma garrafa de café, saiu atropelando palavras e interlocutores.

Temas abordados: Universidade, política, Nietzsche, drogas, ateísmo, cientificismo, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, Olavo de Carvalho, cinema, roteiristas, narrativas, Espelho (meu curta-metragem), contos de fada, Chesterton, vida acadêmica, conselhos aos criadores, conceito de arte, Isaac Bashevis Singer, autopublicação, internet, inamizades, novos autores.

Os Náufragos é um programa da Radio Vox.

Trecho da minha palestra no ConaLit

Trecho da minha palestra gravada para o Congresso Nacional de Literatura e História Pessoal, o ConaLit.

Adélia Prado no programa Roda Viva

Bloco 1

Bloco 2

Bloco 3

Bloco 4

Evelyn Waugh: sobre comes e bebes…

 Evelyn Waugh

Os dois trechos abaixo foram retirados do romance A Volta à Velha Mansão (Brideshead Revisited), de Evelyn Waugh. Veja o que ele diz a respeito desse livro em sua entrevista à Paris Review:

INTERVIEWER

Can you say something about the germination of Brideshead Revisited? [Você pode dizer algo sobre a gênese de A Volta à Velha Mansão?]

WAUGH

It is very much a child of its time. Had it not been written when it was, at a very bad time in the war when there was nothing to eat, it would have been a different book. The fact that it is rich in evocative description—in gluttonous writing—is a direct result of the privations and austerity of the times. [É em grande parte um filho de sua época. Se não tivesse sido escrito quando o foi, num momento muito difícil da guerra em que não havia nada para comer, teria sido um livro diferente. O fato de ser rico em sua descrição evocativa — numa escrita glutona — é um resultado direto das privações e da austeridade daqueles tempos.]

PRIMEIRO TRECHO:

Certo dia, descemos à adega com Wilcox, vimos os escaninhos vazios, onde em tempos idos havia muito vinho armazenado; uma ala apenas se encontrava bem abastecida; alguns vinhos ali tinham cinquenta anos de idade.

— Não houve nenhum acréscimo desde que Sua Senhoria partiu para o estrangeiro — disse Wilcox. — Uma boa parte desse vinho antigo vai se estragar se não for bebido. Deveríamos ter desistido das colheitas de 18 e 20. Tenho recebido várias cartas de comerciantes de vinhos a esse respeito, mas a duquesa diz que Lorde Brideshead é que deve decidir, e ele diz que é o duque, e Sua Senhoria manda falar com os advogados. E assim, nossas reservas vão minguando. Na proporção que isso vai, teremos suprimento para dez anos, mas onde estaremos nós?

Wilcox apreciou nosso interesse; experimentamos garrafas de todos os escaninhos, datadas desses serões tranqüilos passados na companhia de Sebastian; minha momentosa iniciação na arte de beber, ali eu semeei para a abundante colheita que me serviria de arrimo em muitos anos vazios de minha vida. Ficávamos os dois sentados no “parlatório pintado”, com as garrafas de vinho abertas em cima da mesa e três copos diante de cada um de nós; Sebastian descobrira um livro sobre a arte de degustar o vinho e nós seguíamos as instruções nos menores detalhes. Aquecíamos ligeiramente o copo até um terço, no calor da chama de uma vela, fazíamos o líquido girar, amornando-o com o calor de nossas mãos, erguendo-o de encontro à luz, aspirando-o, sorvendo-o, enchendo a boca de vinho, estalando a língua de encontro à abóbada palatina, fazendo-o tinir como uma moeda lançada sobre um balcão; jogávamos então a cabeça para trás, deixando-o descer gota a gota pela garganta.

Enquanto discutíamos suas qualidades, íamos mordiscando biscoitos Bath Oliver, depois passávamos para outra marca, voltávamos ao primeiro, pulávamos para outro, até misturar os três e confundir a ordem dos copos; perdendo a noção das coisas, trocávamos nossos copos, e afinal os seis ficavam enfileirados; muitas vezes a troca de garrafas ocasionava uma mistura de vinhos, por isso éramos obrigados a recomeçar tendo três copos limpos diante de cada um de nós, enquanto as garrafas se esvaziavam e nossos elogios se tornavam cada vez mais malucos e exóticos.

— …É um vinho leve e recatado como uma gazela.

— Parece um gnomo.

— Uma corça malhada na paisagem de uma tapeçaria.

— Como o som de uma flauta às margens de um lago.
— … Este aqui é um vinho que possui a sabedoria de um velho.
— Um profeta em uma gruta.

— …Um colar de pérolas num colo alvo.

— Como um cisne.

— Como o último dos unicórnios.

E, deixando a luz dourada das velas na sala de jantar, íamos nos sentar à beira da fonte, à luz das estrelas, mergulhando as mãos na água, ouvindo, embriagados, a água espadanando e cascateando nas rochas.

— Será preciso nos embriagarmos todas as noites? — perguntou Sebastian certo dia.

— Creio que sim.

— Eu também acho.

* * *

SEGUNDO TRECHO:

— Escute aqui, tenho muita coisa para contar, e prometi a um cara no Travellers uma revanche hoje à tarde. Quer jantar comigo?

— Está bem. Onde?

— Costumo ir ao Ciro.

— Por que não o Paillard?

— Não conheço. O convite é meu.

— Eu sei. Deixe-me escolher o jantar.

— Muito bem. Como é mesmo o nome do lugar? — Escrevi o nome para ele. — É um desses lugares típicos?

— Sim, pode ser incluído nessa categoria.

— Bem, será uma novidade. Encomende uma comida gostosa.

— É o que pretendo fazer.

Cheguei vinte minutos antes de Rex. Já que teria de passar a noite em sua companhia, pelo menos seria à minha moda. Lembro-me bem desse jantar, sopa de oseille, um linguado feito de maneira simples num molho de vinho branco, caneton à la presse, um soufflé de limão. À última hora, temendo que fosse simples demais para Rex, acrescentei caviar aux blinis. Quanto aos vinhos, incluí por conta dele uma garrafa de Montrachet de 1906, que naquela ocasião tinha atingido todo o seu bouquet, e um Cios de Bèze de 1904 para acompanhar o pato.

Naquela época a vida era fácil na França; ao câmbio da época, minha mesada dava para muita coisa e eu vivia folgadamente. Contudo, raramente jantava assim, e meus sentimentos para com Rex eram de boa paz, quando finalmente ele chegou e entregou seu casaco e seu chapéu com o ar de quem nunca mais esperava vê-los. Passeou o olhar desconfiado pela pequena sala escura, como se esperasse encontrar apaches ou um bando de estudantes bêbados. Mas havia apenas quatro senadores comendo no mais completo silêncio com os guardanapos amarrados por baixo das barbas, já o via contando mais tarde na roda de seus amigos do comércio: ” … um conhecido meu, sujeito interessante; estudando pintura em Paris. Levou-me a uma tasca, uma’espécie de restaurante, um desses lugares por que a gente passa sem reparar, mas onde comi como poucas vezes em minha vida. Encontrei lá uma meia dúzia de senadores; como vocês vêem, o lugar era bem freqüentado. Nada barato, também”.

— Alguma notícia de Sebastian? — perguntou ele.

— Só dará sinal de si — disse eu — quando precisar de dinheiro.

— Foi um azar dar um fora desses. Tinha esperanças de ser bem sucedido nesse caso, e assim melhorar minha posição noutro setor.

Era evidente que ele desejava falar de seus próprios problemas; mas o assunto podia esperar, pensei eu, a hora do conhaque, aquele instante de tolerância e satisfação, quando a atenção fica embotada, e o espírito funciona apenas pela metade. Mas no momento culminante em que o maitre d’hotel virava os blinis na frigideira, e dois empregados menos graduados preparavam as grelhas, falaríamos sobre minha pessoa.

— Você ficou muito tempo em Brideshead? Falaram de mim depois que eu parti?

— Se falaram de você? Meu velho, fiquei saturado. A marquesa dizia ter “remorsos” da maneira como o tratara. Ela não o poupou, segundo me consta, no momento da despedida.

— Chamou-me mau e cínico.

— Palavras duras.

— Desde que não me chamem de empadão de pombo, e me comam, que me importa?

— Quê?

— É um ditado.

— Ah! — A mistura do creme e da manteiga quente parecia transbordar, e as contas verde-mar do caviar nadavam naquele molho branco salpicado de manchas douradas de manteiga.

— Gostaria de um pouquinho de cebola picada com isso — disse Rex. — Um sujeito entendido falou-me que dá mais gosto.

— Experimente primeiro sem — disse eu. — E conte-me o que falaram de mim.

— Bem, naturalmente, Greenacre, ou coisa que o valha, aquele professor infecto, caiu no ostracismo. A satisfação foi geral. Depois que você foi embora, ele ficou sendo o favorito. Desconfio que foi ele quem levou nossa castelã a dar-lhe o bilhetinho azul. Nós tínhamos de agüentá-lo, mas Julia acabou ficando tão saturada que o desmascarou.

— Julia fez isso?

— Bem, você compreende, ele começou a se intrometer em nossa vida. Julia descobriu que ele era um impostor, e, uma tarde em que Sebastian estava alto, aliás, era esse seu estado habitual, ela conseguiu arrancar-lhe toda a história da tal viagem. E foi esse o fim de Mr. Samgrass. Depois disso, a marquesa começou a achar que talvez tivesse sido injusta com você.

— E a encrenca com Cordélia?

— Isso eclipsou tudo o mais. Aquela pirralha é um fenômeno. Havia uma semana que ela vinha arranjando uísque para Sebastian debaixo do nosso nariz. Ninguém conseguia descobrir aonde ele ia buscá-lo. Foi aí que a marquesa entregou os pontos.

Depois dos blinis, a sopa estava uma delícia, quente, magra, picante, leve.

— Charles, vou contar-lhe uma coisa que mamãe Marchmain ainda não disse a ninguém. Ela está muito doente. Pode empacotar a qualquer momento. George Anstruther a examinou no outono e deu-lhe dois anos de vida.

— Como é que você sabe?

— Por ouvir dizer. Mas nas trapalhadas atuais em que a família dela anda metida, eu não lhe daria um ano. Conheço em Viena o homem indicado para o caso dela. Ele pôs Sônia Bamfshire de pé, quando todos, inclusive Anstruther, tinham dado o caso como perdido. Mas mamãe Marchmain não quer tomar providências. Deve ser por causa de sua maluquice religiosa, não quer cuidar do corpo.

O linguado fora preparado com tão rara simplicidade, que passou despercebido de Rex. Comemos ao som do chiar da grelha, dos ossos roídos, do gotejar do sangue e do tutano, do bater da colher ao regar as fatias finas de peito. Fizemos então uma pausa de um quarto de hora, enquanto eu bebia meu primeiro cálice de Cios de Bèze e Rex fumava seu primeiro cigarro. Recostando-se, ele soprou a fumaça por cima da mesa e observou: — Você sabe, a comida aqui é bem regular; era o caso de alguém patrocinar o lugar e transformá-lo.

Depois, voltou a falar dos Marchmain:

— Vou contar-lhe outra coisa também; se não tomarem cuidado, não tardarão a ficar com as finanças abaladas.

— Julguei que fossem riquíssimos.

— Bem, são ricos, mas o dinheiro deles está parado. O dinheiro se desvaloriza, gente nessas condições está mais pobre agora que em 1914, e os Flyte não compreendem isso. Os advogados que administram os bens da família parecem achar mais prático dar todo o dinheiro que eles pedem, e calarem-se. Veja a vida que levam: mantendo Brideshead e Marchmain House com todo o luxo; matilhas de cães de caça, os aluguéis não são aumentados, não despedem ninguém, empregados antigos às dúzias sem fazer nada, tendo por sua vez criados para servi-los, e, além disso, o velho mantendo outra casa, e com o mesmo estadão.

“Você sabe quanto eles devem?”
— Claro que não.

— Só em Londres vai a perto de cem mil. Ignoro o montante de suas dívidas em outros lugares. Bem, você compreende, é um bocado de dinheiro para quem não sabe empregá-lo. Em novembro passado subia a noventa e oito mil. São essas as histórias que eu ouço contar.

Era isso que ele ouvia, pensei eu, falar de doenças mortais e dívidas. Deliciei-me com o borgonha.

Lembrava-me o que Rex parecia ignorar, a idade e beleza do universo, a sabedoria adquirida pela humanidade em luta contra suas paixões. Por acaso, tornei a encontrar esse mesmo vinho durante o primeiro outono da guerra, quando almoçava com meu importador de vinhos na St. James Street; com o passar dos anos ficara mais suave e mais fraco, mas conservava ainda a pureza e o sabor dos tempos áureos, e transmitia ainda a mesma mensagem de esperança.

— Não quero dizer com isso que eles venham a ficar na miséria; o velho terá sempre uma renda de seus trinta e tantos milhões por ano, mas o negócio está para estourar, e quando a alta sociedade resolve fazer economias, são as moças que pagam. Gostaria de resolver a questão do dote antes de isso acontecer.

Ainda não chegáramos ao conhaque, e já estávamos falando a respeito dele. Eu me dispunha a ouvi-lo, mas queria uma trégua de uns vinte minutos ainda. Por isso, procurei dar-lhe o mínimo de atenção possível, e preparei-me para apreciar a comida; mas frases esparsas vinham atrapalhar meu bem-estar, fazendo-me voltar a esse mundo cruel e ganancioso em que Rex vivia. Em resumo, ele desejava uma mulher, mas queria o melhor partido que pudesse encontrar, e não estava disposto a pagar um preço muito alto.

— …Mamãe Marchmain não vai comigo. Não me interessa. Não é com ela que eu quero casar. Ela não tem coragem de dizer abertamente: “Você não é um gentil-homem, mas apenas um aventureiro das colônias”. Diz que vivemos em mundos diferentes. Está certo, mas Julia gosta do meio em que eu vivo… Depois vem com essa história de religião. Nada tenho contra a dela; no Canadá não ligamos muito aos católicos, mas isso é diferente; aqui na Europa há católicos muito prosas. Está bem, Julia pode ir à igreja sempre que quiser. Não serei eu a impedi-la. Aliás, ela não liga dois caracóis, mas eu acho bom uma moça ter princípios religiosos. E eu ainda concordo que ela eduque os filhos na religião católica. Farei todas as “promessas” que eles quiserem… Depois vem com essa história de meu passado. “Mal o conhecemos.” Aliás, ela sabe até demais. Você talvez saiba que eu tenho um caso já há uns dois anos.

Eu não o ignorava. Aliás, quem conhecia Rex ficava logo a par de sua ligação com Brenda Champion. Essa era a explicação para a diferença que existia entre a carreira de Rex e a dos outros corretores; a razão de ser de suas partidas de golfe com o príncipe de Gales, do seu título de sócio do Bratt, e de suas relações cordiais com membros da Câmara dos Comuns. Em sua primeira aparição, os chefes de seu partido não se referiram a ele como: “Olhe, aquele ali é o jovem e futuroso representante de North Gridlev, que fez um discurso tão brilhante sobre congelamento de aluguéis”, mas: “Lá vai o último caso de Brenda Champion”. Isso contribuiu muito para aumentar-lhe o prestígio entre os representantes de seu sexo; quanto ao sexo frágil, ele não tinha dificuldade em conquistá- lo com seu encanto pessoal.

— Bem, está tudo acabado. Mamãe Marchmain muito delicadamente não tocou no assunto, limitou-se a dizer que “falavam de mim”. Que espécie de genro queria ela? Um monge de fancaria como Brideshead? Julia sabe de tudo e não se importa; logo, ninguém tem nada a ver com isso.

Depois do pato, veio uma salada de agrião e chicórea, com um leve tempero de alho verde. Procurei concentrar minha atenção na salada. Consegui durante algum tempo pensar apenas no soufflé. Chegou enfim a hora do conhaque, o momento apropriado para confidências. — … Julia está com quase vinte anos. Não quero esperar pela maioridade. De qualquer maneira, pretendo fazer a coisa às direitas… um casamento em grande estilo… Tenho de defender os interesses dela na questão do dote. Por isso, se a marquesa se fizer de tola, eu vou catequizar o velho. Segundo dizem, ele estará de acordo com tudo que possa vir a aborrecê-la. No momento, ele está em Monte Carlo. Tinha planejado ir até lá depois de deixar Sebastian em Zurique. Por isso é que estou danado com seu desaparecimento.

Rex não gostou do conhaque. Era transparente e claro, e a garrafa não veio suja nem tinha algarismos da era napoleônica. Devia ser um ou dois anos mais velho que Rex, e fora engarrafado há pouco tempo. Serviram-no em cálices muito finos do feitio de tulipas, de proporções modestas.

— Sou entendido em conhaque — disse Rex. — Este não tem boa cor. Além disso, não consigo sentir o gosto neste dedal.

Trouxeram-lhe um balão do tamanho de sua cabeça. Ele fez com que o aquecessem sobre uma lamparina de álcool. Depois rodou o vinho delicioso, mergulhou o rosto no vapor e declarou que em casa dele poria soda num conhaque daquela marca.

Então, envergonhados, trouxeram num carrinho lá de seu esconderijo um garrafão mofado reservado para clientes do tipo de Rex.

— Isto sim — disse ele, despejando o conteúdo até deixar marcas escuras na borda do copo. — Eles têm sempre uma reservazinha escondida, que mostram apenas quando a gente faz barulho. Sirva-se.

— Estou satisfeito com este aqui.

— Se você não é mesmo apreciador, seria um crime bebê-lo.

Acendeu o charuto, e refestelou-se na cadeira com um ar de profunda satisfação; eu também estava satisfeito, mas por motivos diferentes. Estávamos ambos contentes. Ele falava de Julia, sua voz parecia vir de muito longe, confusa, como o latido de um cão perdido na distância numa noite silenciosa.

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Fonte: A Volta à Velha Mansão, de Evelyn Waugh.

Van Creveld: O sexo oprimido

Calipso e Ulisses

Historiador diz que os discriminados
são os homens e que eles têm menos
direitos que as mulheres

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Diogo Schelp

O historiador israelense Martin Van Creveld, de 57 anos, está acostumado a tratar de questões polêmicas. Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em história militar, Van Creveld é chamado com freqüência para opinar sobre conflitos mundiais, como os que atingem seu país. Lecionou nos principais institutos de estratégia, civis ou militares, do mundo ocidental, incluindo a Escola de Guerra Naval dos Estados Unidos. Pesquisador respeitado, nos últimos anos Van Creveld tem se dedicado também a estudar outro tema explosivo: a guerra dos sexos. Em seu mais recente livro, O Sexo Privilegiado, publicado neste ano na Alemanha e recheado de estatísticas, ele defende que são os homens – não as mulheres – os verdadeiros oprimidos pela sociedade. Ph.D pela London School of Economics, da Inglaterra, e autor de dezessete livros, entre os quais obras de referência no meio acadêmico, como O Futuro das Guerras e As Mulheres e a Guerra, Van Creveld faz questão de dizer que é casado e vive muito feliz com sua esposa. Na entrevista a seguir, ele explica sua teoria antifeminista.

Veja – O senhor é conhecido como historiador militar. Como se interessou pelo tema da discriminação contra os homens?
Van Creveld – 
Tudo começou alguns anos atrás, quando escrevi um livro sobre as mulheres e as guerras. Achei esse tema tão interessante que decidi fazer outro livro sobre o assunto. Como todo mundo, eu achava que os homens realmente oprimiam as mulheres e queria descobrir como era possível que essa situação pudesse persistir por milênios. Só depois de meses de pesquisa descobri que as evidências não davam suporte a minha tese e que, na realidade, são as mulheres o verdadeiro sexo privilegiado.

Veja – E por que isso acontece?
Van Creveld – 
Simples. Os homens não podem existir sem as mulheres. Já as mulheres, enquanto houver um único doador de sêmen, podem existir perfeitamente sem os homens. Essa condição natural condenou o sexo masculino a trabalhar mais pesado para sustentar o sexo feminino. Também teve como resultado o fato de que os homens são tratados com mais rigidez na educação infantil e perante a Justiça, além de estarem sempre prontos a morrer pelas mulheres em tempos de guerra ou de paz.

Veja – Por outro lado, no passado as mulheres eram condenadas a ficar em casa, não tinham a opção de trabalhar. Em muitas sociedades, isso ainda acontece. Tal fato não prova que as mulheres é que são oprimidas pelo homem?
Van Creveld –
 Não. Salvo raríssimos casos, o homem também não pode escolher se vai trabalhar ou não. Trabalhar, para o homem, é obrigação. Segundo a Bíblia, o trabalho foi um castigo dado para Adão, não para Eva. Além disso, as donas-de-casa são privilegiadas. De todos os grupos da população, elas são as que detêm a maior segurança e tempo disponível para dedicar a si próprias. Mesmo nas sociedades modernas, em que as mulheres já estão espalhadas no mercado de trabalho, as funções mais pesadas e sujas são realizadas por homens. Nos Estados Unidos, 93% dos mortos em acidentes de trabalho são homens. Isso ajuda a explicar outro indício de que as mulheres são privilegiadas: os homens vivem, em média, menos que elas. Por fim, poucas mulheres estão dispostas a sustentar o companheiro. Nos Estados Unidos, apenas 10% das mulheres ganham mais que o marido, e as estatísticas mostram que o índice de divórcio nesses casos é muito alto.

Veja – E quanto às mulheres terem garantido o direito ao voto apenas recentemente?
Van Creveld – 
As mulheres são, em média, menos criativas. Isso explica por que são os homens os responsáveis por praticamente todas as grandes invenções, descobertas e inovações humanas. Os homens quase sempre iniciam algo; as mulheres quase sempre os imitam. Os homens inventaram o impressionismo e, depois, uma ou duas pintoras os imitaram. Os homens construíram e dirigiram carros, depois as mulheres quiseram dirigir também. Os homens inventaram os computadores e as mulheres aprenderam a usá-los. Os homens lutaram para ter direito ao voto. As mulheres ficaram com inveja e fizeram a mesma reivindicação.

Veja – Se as mulheres é que sempre concentraram os privilégios, por que elas lutam, através do feminismo, para mudar sua situação?
Van Creveld –
 Como os homens, elas também querem ter mais privilégios. Como são, em média, mais fracas fisicamente que os homens, sua estratégia preferida para fazer isso é reclamar. Isso significa que, se todos os homens fossem enjaulados e todas as mulheres fossem declaradas donas de cada homem, elas continuariam reclamando. Para elas, reclamar funciona. Desde criança elas são criadas para acreditar nisso. Quando um garoto chora, ele é desprezado. Já as meninas, quando choram, são consoladas. O que é o feminismo se não uma eterna lamentação?

Veja – O senhor acredita que no mundo moderno as mulheres são ainda mais privilegiadas que no passado?
Van Creveld – 
Em meu livro eu mostro que a sociedade sempre fez a vida dos homens ser mais difícil que a das mulheres. Desde o início dos tempos os homens foram criados para produzir e dar e as mulheres sempre para receber e reproduzir. Os homens sempre tentaram dar à companheira uma vida mais fácil, mais segura e mais confortável. Recentemente, o feminismo ajudou as mulheres a ter privilégios adicionais. Portanto, elas são, realmente, ainda mais privilegiadas que no passado e os homens, ainda mais oprimidos.

Veja – Em tempo de guerra, crianças e mulheres formam a parcela da população que mais sofre. É verdade?
Van Creveld – 
Não. Em quase todas as formas de conflito armado os homens morrem em muito maior número que as mulheres. Há outras formas de sofrimento, mas eu não acredito que alguma possa ser pior do que morrer. A impressão de que as mulheres sofrem mais vem do fato de que os mortos (os homens), ao contrário dos vivos (as mulheres), não podem reclamar.

Veja – Os homens concentram mais riqueza e poder que as mulheres. Isso o senhor não contesta?
Van Creveld –
 Não. Mas isso não serve de prova de discriminação contra as mulheres. Sabe-se que, por liberarem mais testosterona, os homens são mais agressivos e portanto mais competitivos que as mulheres. São também mais fortes fisicamente, o que permite que exerçam funções de liderança com menos esforço. Além disso, eles abandonam com menos freqüência uma carreira; as mulheres costumam sair do mercado de trabalho para satisfazer seu desejo de ter filhos e criá-los. Para completar, os estudos mostram que, se na média homens e mulheres são igualmente inteligentes, no grupo de pessoas com QI mais elevado, acima de 180, a proporção é de sete homens para cada mulher. Tudo isso explica por que os homens tendem a ocupar mais cargos de chefia e a ter mais facilidade para ganhar dinheiro.

Veja – Em sua vida pessoal, o senhor também se sente discriminado?
Van Creveld – 
Como homem, eu sou constantemente discriminado em todas as formas de benefícios sociais. Por exemplo, minha esposa tem direito à licença-maternidade, eu não. O plano de saúde de minha universidade é mais benevolente na cobertura de doenças femininas, como o câncer de mama, que de doenças masculinas, como o câncer de próstata. Além disso, em Israel, como em muitos outros países, existe a crença de que as mulheres amam seus filhos mais do que os pais são capazes de amar. Não existe nada que prove que isso é verdade. No entanto, as leis tornam praticamente impossível para um pai divorciado obter a custódia dos filhos. Eu passei por um divórcio. A dor de não ter conseguido a guarda de meus filhos vai me acompanhar até meu último dia de vida.

Veja – As feministas têm um arsenal de estatísticas para provar que são oprimidas. Elas apontam, por exemplo, o fato de que, em alguns países, todo dia 6.000 meninas sofrem dolorosas cirurgias nos órgãos genitais para não ter mais prazer com o sexo.
Van Creveld –
 A clitoridectomia, como é chamada essa operação, é algo que velhas mulheres, agindo como suas ancestrais, impõem a jovens mulheres. Os homens dificilmente estão envolvidos nisso. Além disso, simplesmente não é verdade que a operação priva a mulher de prazer no sexo. Na maioria dos casos, isso não acontece. É um mito. Não esqueça também que o número de garotas que passam por isso não se compara ao número de garotos que passam pelo processo de circuncisão. Por que ninguém se levanta contra esse hábito? A resposta é simples: nós, homens, somos feitos para aceitar a dor.

Veja – No passado, as mulheres não eram mandadas para a guerra. Agora, vemos cada vez com mais freqüência garotas cometendo ataques suicidas em Israel e na Rússia, por exemplo. As mulheres perderam o privilégio de ser defendidas em tempo de guerra?
Van Creveld – 
A resposta está na palavra “mandadas”. No passado, e em muitos países até hoje em dia, um número incontável de homens é recrutado e “mandado” para a guerra. Isso nunca aconteceu com as mulheres. Mesmo em Israel, as poucas combatentes mulheres que temos são voluntárias. O mesmo acontece com as palestinas suicidas. Como em muitos outros terrenos da vida, as mulheres têm o direito de escolher, enquanto os homens têm de agir contra a vontade própria.

Veja – As feministas dizem que as mulheres são mais diplomáticas e menos violentas quando estão em funções de liderança ou que requeiram o uso da força. Nesse sentido, é interessante ter mulheres em corporações como a polícia e as Forças Armadas?
Van Creveld – 
Os machos são, em média, mais violentos que as fêmeas. Mas a história mostra que as líderes femininas estão fora do padrão médio das mulheres. Lembre-se de Indira Gandhi e Margaret Thatcher. Elas eram tão agressivas e belicosas quantos os homens, ou até mais. Mulheres que escolhem atuar na polícia, por exemplo, talvez tenham a mesma característica. Por outro lado, o corpo feminino é muito menos adequado para se envolver em situações de violência. No Exército americano, as recrutas têm só 55% de força na parte superior do corpo e 72% na parte inferior, em comparação aos homens. Ou seja, como os homens possuem maior capacidade de ganhar musculatura, em vez de o treinamento intensivo diminuir as diferenças entre os sexos, tende a aumentá-las ainda mais.

Veja – As mulheres, por questões físicas, são mais propensas a ser vítimas de abuso sexual que os homens. As feministas dizem que todo homem é um estuprador em potencial. O que o senhor acha disso?
Van Creveld – 
As mulheres, talvez por passarem mais tempo com os filhos, matam mais crianças que os homens. Alguém diz que toda mulher é uma assassina de crianças em potencial?

Veja – As estatísticas sobre agressões contra mulheres não colaboram com as teses feministas?
Van Creveld –
 Não as estatísticas que eu cito em meu livro. Pesquisas americanas e canadenses mostram que o número de agressões entre homens e mulheres é igual, 25% para cada sexo. Nos outros 50% dos casos, os ataques são mútuos. Além disso, 20% mais mulheres cometem danos graves aos seus parceiros. Mais: as mulheres cometem três vezes mais agressões com uso de armas do que os homens. Por fim, os homens, com medo de serem ridicularizados ou presos, costumam não dar queixa quando apanham de uma mulher.

Veja – A Justiça é mais branda com as mulheres?
Van Creveld – 
Sem dúvida. Em todas as sociedades modernas, as mulheres recebem menos condenações que os homens. E, quando são condenadas, cumprem penas menores do que outros homens que cometeram o mesmo crime. Na Inglaterra, entre 1984 e 1992, 23% das mulheres acusadas de homicídio foram absolvidas, enquanto apenas 4% dos homens foram considerados inocentes. Na Califórnia, nos Estados Unidos, em todo o século XX foram condenados à morte 468 criminosos. Apenas quatro eram do sexo feminino.

Veja – A discriminação contra o homem, da forma como o senhor a descreve, é um fato inalterável da natureza?
Van Creveld – 
Em muitos países, já existem movimentos para melhorar as condições de vida dos homens. Seu propósito é defender o sexo forte nas situações em que há mais discriminação, como nos divórcios e nas falsas acusações de abuso sexual ou de violência doméstica. Mas as coisas não tendem a mudar muito. O homem, como diz o provérbio árabe, é o jumento da casa. A natureza nos fez maiores, mais fortes e, nos casos extremos, até mais inteligentes. Tudo para sustentar e alimentar as mulheres. Afinal, antes disso uma mulher – nossa mãe – também nos carregou, nos alimentou e cuidou de nós.

Fonte: VejaEdição 1822, de 1° de outubro de 2003.

Camille Paglia: “Nós sufocamos os homens”

Camille Paglia

As mulheres ganharam. Ou, pelo menos, a maneira feminina de encarar o mundo vem levando a melhor – e isso não é necessariamente bom, diz Camille Paglia. Para ela, a valorização das características associadas às mulheres emparedou os homens e fez com que certas virtudes masculinas caíssem perigosamente em desuso. Em entrevista a Veja [5/3/2014], a autora de Personas Sexuais mostra que, aos 66 anos, continua sendo uma fervorosa dissidente do feminismo ortodoxo dos anos 60. Segundo ela, ao priorizarem o sucesso profissional, as mulheres da sua geração deram “de cara com a parede” – e em breve verão que as felizes de verdade não são as ricas e bem-sucedidas, mas as que, em vez de correr atrás do sucesso, se dedicaram a construir grandes famílias.

As mulheres venceram? 

Nosso mundo político e econômico certamente não é regido pelas mulheres. Os homens ainda são maioria, talvez porque seja mais fácil para eles trabalhar harmoniosamente em equipe. As mulheres, porém, reinam nos domínios emocional e psicológico. Valores femininos como cooperação, sensibilidade e compromisso hoje são promovidos em todas as escolas públicas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Fico preocupada com isso. Não é responsabilidade escolar moldar ou influenciar o caráter dos alunos. Então, sim, há uma vitória feminina no sistema de educação, e é por isso que tantos meninos se sentem sufocados ou presos nesse ambiente governado por mulheres.

Essa constatação veio da sua experiência de ser mãe de um menino? (Camille adotou Lucien, hoje com 11 anos) 

A maternidade apenas confirmou minhas opiniões. Nos meus trabalhos, sempre parti de uma observação social, e não de teorias criadas a priori. Ser mãe me permitiu outras descobertas, entre elas a existência de uma rede de mulheres com enorme poder de organização e capacidade de administrar o próprio tempo.

Mas os homens estão mais frágeis? 

A masculinidade tradicional está numa encruzilhada. O que os homens podem ser? Como eles podem se diferenciar das mulheres? Alguns não veem problema em receber ordens delas. Mas, para outros, é como se a masculinidade tivesse sido apagada, como se eles tivessem perdido sua posição dentro da família. Sentem-se sufocados e precisam estar com outros homens. Aí entram a pornografia, os clubes de strip-tease, os esportes: é quando os homens escapam para o mundo deles. Chutar uma bola no meio do campo é muito revigorante e bom para escapar das mulheres.

Em outras palavras, elas fazem com que eles se sintam errados o tempo todo? 

Sim! Em uma palavra: sim! Houve um tempo em que homens faziam coisas que as mulheres não podiam fazer. Então, ninguém questionava se eles “eram homens” ou não. Eu lembro que, em casa, depois do jantar, os homens ficavam na sala, falavam de carro, assistiam a algum esporte na TV. Enquanto isso, as mulheres conversavam arrumando a cozinha. Hoje, elas querem que o homem seja igual à mulher. Querem falar com ele do mesmo jeito que conversam com as amigas. Isso é com os gays! Os gays conversam por horas, fofocam, falam sobre a vida pessoal… Os héteros não. Eles não querem aprofundar-se nos sentimentos. Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim. Quando nasce uma criança, então, o homem é marginalizado. Pode escolher entre escapar de casa e ser apenas mais um dos planetas orbitando ao redor do “Sol”. Famílias de classe média são basicamente ambientes femininos. Tudo é bom e gentil, e os homens têm de mudar seu comportamento para se encaixar nelas. As mulheres pedem a eles que sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais. “Ah, meu marido é meu terceiro filho, é meu bebê.” Ouvimos isso o tempo todo. O problema número 1 é que as mulheres não estão receptivas aos homens. Elas precisam ouvi-los. O feminismo é duro demais com eles.

Ao longo do tempo, as mulheres incorporaram alguns atributos masculinos. Diz-se frequentemente que agora é hora de eles incorporarem atributos femininos. A senhora não concorda? 

Não. No que diz respeito aos governos ocidentais, por exemplo, a tendência é agirem no estilo “estado-babá”, cheios de complacência e cuidados, atributos associados ao universo femininos. Só que isto está incapacitando as nações de ficar seriamente em alerta contra as ameaças de terrorismo, por exemplo. As sociedades ocidentais são ingênuas e complacentes ao imaginar que todo mundo é naturalmente benevolente. Várias grandes civilizações entraram em colapso por se apresentar vulneráveis. A compaixão e a sensibilidade femininas são virtudes positivas, mas as maiores conquistas nas áreas de cultura e tecnologia ainda requerem certos traços masculinos, bem como planejar a defesa de uma sociedade sob ameaça de ataque.

Essa “lacuna” explicaria o fato de existirem poucas mulheres no poder? 

O líder de uma nação tem de ter diferentes atributos. Precisa saber compor, comandar, controlar os nervos – precisa combinar qualidades masculinas e femininas. Falta às mulheres uma educação voltada a desenvolver visões de longo prazo, capacidade de decisão, pensamento militar. Essa história de ser carinhosa e ter compaixão já está resolvida – vamos parar de falar disso. O que não é valorizado como deveria é a capacidade de decisão. E, do jeito que as mulheres são educadas, não vejo como essa mudança pode acontecer. Por exemplo: liderar uma nação significa cuidar também de suas questões militares. Isso requer um tipo de personalidade firme e assertiva. Por isso, em vez de estudarem questões de gênero, as mulheres que querem ascender politicamente deveriam estudar história militar e economia. Não é fixando proporções – “as mulheres têm de representar 50% dos legisladores” – que produziremos lideranças. O Brasil não tem a mesma obsessão pela questão militar que os Estados Unidos, por isso vocês têm uma mulher presidente.

Como a senhora avalia uma eventual candidatura de Hillary Clinton à Presidência em 2016? 

Hillary Clinton é completamente incompetente. Em tudo o que fez, não teve êxito. Seu currículo segue em branco, sem nenhuma grande conquista, exceto ter se casado com Bill Clinton. É incrível como temos poucas candidatas. Sempre achei que a senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, deveria ter tentado concorrer à Presidência, e não Hillary Clinton. O que precisamos aprender é como exercer a liderança e nos comunicar com as pessoas sem que nos sintamos diminuídas, da maneira como a Hillary Clinton faz. Ela é estridente, irritante, sempre sorrindo, sorrindo, sorrindo. E é mal-humorada, tola – o oposto do que queremos de um líder. Continuar a impulsioná-la vai atrasar a evolução feminina em décadas.

Quais as perspectivas femininas para as próximas décadas? 

Eu vejo um mundo muito instável à frente, tanto política quanto economicamente. Acho que essa maneira de encarar as coisas baseada em gêneros está errada. É como se as mulheres tivessem respostas para tudo. E, se não estão felizes, a culpa é dos homens. Temos de olhar para a natureza da vida moderna, para o nosso isolamento psicológico, para essa quebra da família tradicional, transformada em pequenos núcleos. Tudo isso resulta em ansiedade. As mulheres sentem que têm de ser essas pessoas bem-sucedidas, tudo na vida delas tem de estar relacionado com o poder feminino, com “encarar obstáculos”. É um modo de vida muito estressante.

E ainda há a questão não resolvida de como conciliar carreira e vida pessoal. Por que isso continua a ser um sofrimento? 

O feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina às conquistas profissionais. Uma coisa é exigir que se retirem as barreiras para o avanço social das mulheres e que se ofereçam a elas oportunidades, promoções, salários etc. Outra é supor que essas conquistas suprirão as demandas da vida pessoal – não suprirão. Questões pessoais são de uma natureza diferente das profissionais: têm a ver com sexo, procriação e viver a vida. Essas feministas anglo-americanas dos anos 60 têm uma visão mecânica do que é viver. Há ainda um grande problema com o sistema de carreira moderno. O modo de progredir profissionalmente faz com que seja difícil para elas lidar com os homens em pé de igualdade. A mulher precisa ter uma vida dupla: ser ambiciosa e dominadora no escritório, mas adaptar-se em casa para ser sexualmente desejada e emocionalmente carinhosa. Minha prioridade sempre foi esta: temos de parar de culpar os homens e começar a olhar o sistema e as mudanças ocorridas no trabalho e nos lares no último século.

Quais seriam as transformações mais significativas? 

Uma das que mais merecem atenção é o isolamento feminino. As pessoas amam ter privacidade, ter sua própria casa. O resultado disso é uma quantidade tremenda de trabalho doméstico que recai sobre as mulheres e do qual elas têm de dar conta sem a ajuda de outras mulheres. Não muito tempo atrás, as pessoas viviam em uma espécie de tribo, em que umas olhavam pelas outras. Minha mãe se lembra disso em sua infância na Itália. As mulheres reuniam-se, pegavam suas crianças e iam lavar roupa nas pedras. Havia uma comunidade de mulheres, uma vida social construída a partir dessas atividades. Hoje estamos muito felizes com as nossas máquinas de lavar e secar, mas o que isso significa? Isolamento total! A mulher está isolada, desconectada do mundo feminino. Quando você é parte de um grupo, você sabe quem você é, não precisa ir descobrir.

Recentemente, a senhora foi criticada por declarar que as mulheres deveriam pensar melhor no que vestem para não ficar tão vulneráveis. O que quis dizer? 

Eu apoio totalmente as mulheres que se vestem de maneira sexy. Mas quem faz isso tem de compreender que sinais está enviando. Quando disse isso, estava me referindo às garotas americanas brancas de classe alta, que frequentaram as melhores universidades e terão os melhores empregos. Elas usam roupas sexy, mas seu corpo está morto, sua mente está morta. Elas nem entendem o que estão vestindo.

Por que esse diagnóstico se restringe às americanas? 

Mulheres na Itália, França, Espanha, Brasil e outros países da América do Sul comunicam melhor sua sexualidade, estão mais confortáveis com seu corpo. Afro-americanas também sabem fazer isso. Mas as mulheres americanas brancas que estão cursando as melhores universidades… oh! Bom, você deve se lembrar de Sexy and the City. Elas são espertas e ambiciosas, mas vivem uma situação em que fazem sexo com uma incrível quantidade de homens e de repente é o homem quem escolhe com quem vai ficar e quando é a hora de casar. E, quando resolvem casar, querem as de 20 anos. É muito difícil. Antigamente não se fazia sexo antes de casar. Mas hoje… as mulheres são tediosas.

Tediosas? 

Quando eu vou a Nova York vejo essas mulheres nas ruas: bem cuidadas, lindas, bem-sucedidas, graduadas em Harvard, Yale e… tediosas! Te-di-o-sas. Não têm nenhuma mística erótica. Acho que o número de homens gays vem aumentando porque os homens são mais interessantes do que as mulheres.

Onde elas deveriam buscar a felicidade? 

Bem, achar que as mulheres profissionalmente bem-sucedidas são o ponto máximo da raça humana é ridículo. Vejo tantas delas sem filhos porque acreditaram que podiam ter tudo: ser bem-sucedidas e mães aos 40 anos. Minha geração inteira deu de cara com a parede. Quando chegarmos aos 70, 80 anos, acredito que a felicidade não estará com as ricas e poderosas, mas com as mulheres de classe média que conseguiram produzir grandes famílias.

Fonte: Veja – edição 2363.

Os Náufragos, com Yuri Vieira

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