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	<title>Blog do Yuri &#187; Filosofia</title>
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	<description>palavras aos homens e mulheres da Madrugada</description>
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		<title>Mikhail Bulgakov narra o di&#225;logo, em plena Uni&#227;o Sovi&#233;tica, entre o Diabo e dois escritores ateus e comunistas sobre a exist&#234;ncia de Deus</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 14:37:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Humor]]></category>
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<p><img title="Mikhail Bulgakov" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin: 10px auto; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="245" alt="Mikhail Bulgakov" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/bulgakov.jpg" width="213" border="0" /> </p>
<blockquote><p>Essa conversa, como depois se soube, era sobre Jesus Cristo. O editor tinha encomendado ao poeta um longo poema anti-religioso para o próximo número da revista. Ivan Nikolaevitch tinha composto o poema, e até com muita rapidez, mas infelizmente o editor não tinha ficado nada satisfeito com ele. Bezdomni pintara a principal personagem do seu poema, ou seja, Jesus, com cores muito sombrias, e, no entanto, na opinião do redator, era preciso reescrever todo o poema. E agora o redator fazia ao poeta uma espécie de conferência sobre Jesus, a fim de sublinhar o erro fundamental do poeta.</p>
<p>Era difícil dizer o que é que precisamente traíra o poeta: se o poder imaginativo do seu talento ou o completo desconhecimento do assunto sobre o qual escrevia. Mas o Jesus que ele retratara era, digamos, como que uma personagem viva, embora não muito atraente. E Berlioz queria provar ao poeta que o mais importante não era como tinha sido Jesus, mau ou bom, mas que esse Jesus, como indivíduo, nunca existira e que todas as histórias sobre ele eram pura invenção, o mais vulgar dos mitos.</p>
<p>Devemos assinalar que o redator era um homem de muitas leituras e citava habilidosamente no seu discurso os historiadores antigos, por exemplo o célebre Fílon de Alexandria, o brilhante erudito Flávio Josefo, que nunca disseram nem uma palavra acerca da existência de Jesus. Mostrando uma sólida erudição, Mikhail Alexandrovitch informou o poeta, entre outras coisas, de que a passagem do <em>Livro Quinze</em>, no Capítulo 44 dos famosos <em>Anais </em>de Tácito, onde se fala de Jesus, não é mais que uma interpolação posterior e falsa.</p>
<p>O poeta, para quem tudo aquilo que o redator dizia era novidade, escutava atentamente Mikhail Alexandrovitch, fixando nele os seus olhos verdes, vivos e desenvoltos, e só de vez em quando soluçava, amaldiçoando em voz baixa o refresco de alperce.</p>
<p>- Não há uma única religião oriental &#8211; dizia Berlioz – em que, como regra, uma virgem imaculada não dê à luz um deus. E os cristãos, sem inventarem nada de novo, criaram do mesmo modo o seu Jesus, o qual de fato nunca existiu. E é isto que deve ser principalmente realçado&#8230;</p>
<p>A forte voz de tenor de Berlioz ecoava na alameda deserta, e, à medida que Mikhail Alexandrovitch penetrava em labirintos onde só um homem muito culto se pode aventurar sem correr o risco de quebrar a face, o poeta aprendia cada vez mais coisas interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus benfazejo, filho do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre Marduque, e até sobre o menos conhecido e terrível deus Huitzilopochtli, outrora profundamente venerado pelos astecas no México.</p>
<p>E no preciso momento em que Mikhail Alexandrovitch contava ao poeta como os astecas moldavam em massa de pão a figura de Huitzilopochtli, apareceu na alameda o primeiro transeunte.</p>
<p>Posteriormente, quando, para falar verdade, era já demasiado tarde, várias instituições apresentaram relatórios com a descrição desse homem. A comparação entre esses relatórios não pode deixar de causar estupefação. Assim, no primeiro diz-se que ele era de baixa estatura, tinha dentes de ouro e coxeava da perna direita. No segundo, esse homem era de estatura enorme, tinha coroas de platina e coxeava da perna esquerda. O terceiro relatório informa laconicamente que o homem não tinha quaisquer sinais particulares.</p>
<p>Devemos reconhecer que nenhum desses relatórios tem qualquer utilidade.</p>
<p>Antes de mais, o homem descrito não coxeava de nenhuma das pernas e não era de estatura baixa nem demasiado alta, mas simplesmente alto. Quanto aos dentes, do lado esquerdo tinha coroas de platina e de ouro no lado direito. Vestia um traje caro cinzento, e usava sapatos estrangeiros da mesma cor. O boné cinzento caía-lhe ousadamente sobre a orelha e debaixo do braço trazia uma bengala com castão preto em forma de cabeça de cão-d&#8217;água. Aparentava ter pouco mais de quarenta anos, tinha a boca um pouco torcida e estava muito bem barbeado. Era moreno. O olho direito era negro e o esquerdo, não se sabe por quê, era verde. As sobrancelhas eram negras, mas uma mais alta que a outra. Em suma, um estrangeiro.</p>
<p>Ao passar junto do banco onde estavam sentados o editor e o poeta, o estrangeiro olhou-os de soslaio, parou e, subitamente, sentou-se no banco próximo, a dois passos dos amigos.</p>
<p>“Alemão”, pensou Berlioz. “Inglês”, pensou Bezdomni. “E de luvas, com este calor.”</p>
<p>O estrangeiro percorreu com o olhar os altos edifícios que formavam um quadrado em volta do lago, e era evidente que via aquele lugar pela primeira vez e que ele lhe interessava.</p>
<p>Deteve o olhar nos andares superiores cujos vidros refletiam ofuscantemente o sol fragmentado que abandonava Mikhail Alexandrovitch para sempre, depois baixou-o para onde as vidraças começavam a escurecer com a noite, sorriu com ar superior, semicerrou os olhos, colocou as mãos sobre o castão da bengala e apoiou o queixo nas mãos.</p>
<p>- Tu, Ivan &#8211; disse Berlioz -, descreveste muito bem e em tom satírico, por exemplo, o nascimento de Jesus, filho de Deus, mas a questão está em que, antes de Jesus, nasceu toda uma série de filhos de deuses como, por exemplo, o Átis frígio. Em suma, nenhum deles nasceu e nenhum deles existiu, incluindo o próprio Jesus. E é preciso que tu, em vez do nascimento ou, digamos, da chegada dos Reis Magos, descrevas os boatos absurdos sobre esse nascimento&#8230; Ora do teu relato resulta que ele realmente nasceu!&#8230;</p>
<p>Então Bezdomni fez uma tentativa para acabar com os soluços, sustendo a respiração, o que o fez soluçar mais dolorosamente e mais alto, e, nesse mesmo instante, Berlioz interrompeu o seu discurso, porque de súbito o estrangeiro levantou-se e encaminhou-se para os escritores. Estes olharam-no atônitos.</p>
<p>- Desculpem, por favor &#8211; disse o homem, com sotaque estrangeiro mas sem deformar as palavras -, se, não vos conhecendo, tomo a liberdade&#8230; mas o tema da vossa erudita conversa é tão interessante que&#8230;</p>
<p>Tirou polidamente o boné, e os dois amigos não tiveram outro remédio senão levantarem-se e cumprimentá-lo.</p>
<p>“Não, deve ser francês &#8230; “, pensou Berlioz. “Polaco? &#8230; “, pensou Bezdomni. Deve-se acrescentar que desde as primeiras palavras o estrangeiro suscitou no poeta uma impressão de repulsa, enquanto Berlioz gostou dele, ou antes, não é que tenha gostado dele, mas&#8230; como dizer.. despertou-lhe interesse, digamos.</p>
<p>- Permitem que me sente? &#8211; pediu com polidez o estrangeiro, e, involuntariamente, os amigos afastaram-se, o estrangeiro sentou-se entre eles e entrou de imediato na conversa. &#8211; Se bem ouvi, o senhor dizia que Jesus nunca existiu? &#8211; perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz o seu olho esquerdo, verde.</p>
<p>- Sim, ouviu bem &#8211; respondeu cortesmente Berlioz. &#8211; Foi precisamente isso que eu disse.</p>
<p>- Ai, que interessante &#8211; exclamou o estrangeiro. “Mas que diabo quer ele?”, pensou Bezdomni, franzindo as sobrancelhas.</p>
<p>- E o senhor concordou com o seu interlocutor? &#8211; inquiriu o desconhecido, voltando-se para a direita, para Bezdomni.</p>
<p>- Cem por cento! &#8211; confirmou este, que gostava de expressões rebuscadas e alegóricas.</p>
<p>- Admirável! &#8211; exclamou o interlocutor e, lançando olhadelas furtivas e baixando ainda mais a voz, disse: &#8211; Desculpem-me a impertinência, mas, ao que percebi, os senhores, para além do mais, também não acreditam em Deus? &#8211; Teve um olhar de espanto e acrescentou: &#8211; Juro que não digo a ninguém.</p>
<p>- É verdade, não acreditamos em Deus &#8211; respondeu Berlioz, sorrindo levemente do receio do turista estrangeiro -, mas podemos falar disso com toda a liberdade.</p>
<p>O estrangeiro recostou-se no banco e perguntou, numa voz meio esganiçada de curiosidade:</p>
<p>- Os senhores são ateus?</p>
<p>- Sim, somos ateus &#8211; respondeu Berlioz, e Bezdomni pensou irritado: “Está grudado, este pato estrangeiro!”.</p>
<p>- Oh, que coisa fascinante! &#8211; exclamou o atônito estrangeiro, e virava a cabeça olhando ora para um, ora para outro dos literatos.</p>
<p>- No nosso país, o ateísmo não surpreende ninguém &#8211; disse Berlioz diplomaticamente. &#8211; A maioria da nossa população deixou, conscientemente e há muito tempo, de acreditar em histórias sobre Deus.</p>
<p>Então o estrangeiro saiu-se com esta: pôs-se de pé e apertou a mão do assombrado editor, enquanto dizia estas palavras:</p>
<p>- Permita que lhe agradeça de todo o coração!</p>
<p>- Por que é que lhe agradece? &#8211; interrogou Bezdomni pestanejando. </p>
<p>- Por uma informação muito importante que, para mim, como viajante, é muito interessante &#8211; explicou o estrangeiro excêntrico, erguendo um dedo significativamente.</p>
<p>Pelo visto, a importante informação produzira de fato uma forte impressão no viajante, porque ele relanceou os olhos assustados pelos edifícios, como se receasse ver um ateu em cada janela.</p>
<p>“Não, não é inglês &#8230; “, pensou Berlioz, enquanto Bezdomni pensava: “Interessante, onde terá ele aprendido a falar assim russo!”, e de novo franziu as sobrancelhas.</p>
<p>- Mas permita que lhe pergunte &#8211; tornou o visitante estrangeiro depois de refletir ansiosamente. &#8211; E as provas da existência de Deus, as quais, como se sabe, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Exist%C3%AAncia_de_Deus#As_Cinco_Vias_de_S.C3.A3o_Tom.C3.A1s_de_Aquino" target="_blank">são exatamente cinco</a>?</p>
<p>- Infelizmente! &#8211; respondeu Berlioz com pesar -, nenhuma dessas provas vale nada, e a humanidade já as mandou há muito para o arquivo. Pois há-de concordar que no domínio da razão não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.</p>
<p>- Bravo! &#8211; exclamou o estrangeiro. &#8211; Bravo! O senhor repete interiormente o pensamento do velho irrequieto <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant" target="_blank">Immanuel</a> sobre esse assunto. E coisa curiosa: ele demoliu completamente as cinco provas, e depois, como que troçando de si mesmo, construiu a sua própria sexta prova!</p>
<p>- A prova de Kant &#8211; ripostou o culto editor com um leve sorriso &#8211; também não é convincente. E não era em vão que Schiller dizia que as considerações de Kant sobre esta questão só podem satisfazer os escravos, e Strauss limitou-se a rir dessa prova.</p>
<p>Enquanto falava, Berlioz ia pensando: “Mas afinal, quem será ele? E por que é que fala tão bem russo?”.</p>
<p>- Esse tal Kant, havia que agarrá-lo e mandá-lo para <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Solovki_prison_camp" target="_blank">Solovki</a>, por essas provas! &#8211; lançou inesperadamente Ivan Nikolaevitch.</p>
<p>- Ivan! &#8211; murmurou Berlioz, embaraçado. Mas a proposta de enviar Kant para Solovki não só não impressionou o estrangeiro como o deixou encantado.</p>
<p>- Exatamente, exatamente! &#8211; exclamou ele e o seu olho esquerdo, verde, voltado para Berlioz, cintilou. &#8211; Lá é que é o lugar dele! Pois na época eu lhe disse, ao pequeno-almoço: “Desculpe, professor, mas o senhor inventou uma coisa que não faz sentido! É talvez inteligente, mas demasiado incompreensível. Vão fazer troça de si”.</p>
<p>Berlioz arregalou os olhos. “Ao pequeno-almoço?&#8230; A Kant?&#8230; Que está ele aí a inventar?”, pensou.</p>
<p>- Mas &#8211; prosseguiu o estrangeiro sem se perturbar com o assombro de Berlioz e voltando-se para o poeta &#8211; enviá-lo para Solovki é impossível, pela simples razão de que há mais de cem anos que ele reside em lugares consideravelmente mais afastados que Solovki, e asseguro-lhes que não há maneira de tirá-lo de lá!</p>
<p>- É pena! &#8211; respondeu o poeta, contrariado. </p>
<p>- Também tenho pena! &#8211; concordou o desconhecido, de olho a luzir, e continuou: &#8211; Mas há uma questão que me preocupa: se Deus não existe, quem é então, pergunto eu, que governa a vida dos homens e toda a ordem na Terra?</p>
<p>- Governa-a o próprio homem &#8211; apressou-se Bezdomni a responder, irritado, a esta pergunta, reconheça-se, não muito clara.</p>
<p>- Desculpe &#8211; disse delicadamente o desconhecido -, mas para governar é preciso, quer se queira quer não, ter um plano preciso pelo menos para um período razoável. Permita-me portanto que lhe pergunte como pode o homem governar, se ele não só é incapaz de estabelecer um qualquer plano ao menos para um período ridiculamente breve, digamos de mil anos, como nem sequer é capaz de garantir o seu próprio dia de amanhã? E na verdade aqui o desconhecido voltou-se para Berlioz &#8211; imagine que o senhor, por exemplo, começa a governar, a mandar nos outros e em si mesmo, começa, digamos, a tomar-lhe o gosto, e de repente aparece-lhe&#8230; hum, hum&#8230; um sarcoma num pulmão&#8230; &#8211; aqui o estrangeiro riu suavemente, como se a idéia do sarcoma no pulmão lhe causasse prazer. &#8211; Sim, um sarcoma &#8211; repetiu a sonora palavra semicerrando os olhos, como um gato -, e lá se vai o seu governo! Não mais lhe interessa o destino de ninguém, além do seu próprio. Os familiares começam a mentir-lhe, o senhor, pressentindo que alguma coisa está mal, recorre aos cientistas médicos, depois aos charlatães e aos cartomantes. Tanto uns como os outros são totalmente inúteis, como o senhor bem compreende. E tudo isso acaba em tragédia: aquele que ainda há pouco supunha que governava alguma coisa, vê-se de repente estendido e imóvel numa caixa de madeira, e aqueles que o rodeiam, compreendendo que ele já não serve para nada, queimam-no num forno. E pode acontecer ainda pior: um homem acaba de se preparar para partir para Kisslovodsk &#8211; o estrangeiro olhou Berlioz, semicerrando os olhos, uma coisa insignificante, ao que parece, mas mesmo isso não o consegue levar a cabo, porque, por uma razão desconhecida, ele escorrega e fica debaixo de um bonde elétrico! Vai-me dizer que ele se governou assim a si próprio? Não será mais correto pensar que alguém, inteiramente diferente, deu conta dele? &#8211; E o desconhecido desatou a rir, num riso estranho.</p>
<p>Berlioz escutava com grande atenção a desagradável história do sarcoma e do bonde elétrico, e certos pensamentos inquietantes começaram a atormentá-lo. “Ele não é estrangeiro! Não é estrangeiro!”, pensava. “É um sujeito muito estranho&#8230; mas vejamos, quem será ele?”</p>
<p>- Quer fumar, ao que parece? &#8211; perguntou de súbito o estrangeiro a Bezdomni. &#8211; Que marca prefere?</p>
<p>- Não me diga que tem diversas marcas? &#8211; perguntou sombriamente o poeta, a quem se tinham acabado os cigarros.</p>
<p>- Que marca prefere? &#8211; repetiu o desconhecido.</p>
<p>- Bem, <em>Nossa Marca</em> &#8211; respondeu Bezdomni rancorosamente.</p>
<p>O estranho tirou de imediato do bolso uma cigarreira e ofereceu-a a Bezdomni.</p>
<p>- <em>Nossa Marca</em>.</p>
<p>O editor e o poeta ficaram impressionados, não tanto com o fato de encontrarem na cigarreira precisamente cigarros <em>Nossa Marca</em>, mas com a própria cigarreira. Era enorme, em ouro de lei, e, ao abrir-se, um pequeno triângulo de diamantes lançou cintilações azuis e brancas.</p>
<p>Aqui, os dois literatos tiveram pensamentos diferentes. Berlioz: “Não, ele é estrangeiro!”. E Bezdomni: “O Diabo que o carregue! Hem?”.</p>
<p>O poeta e o dono da cigarreira acenderam os cigarros, enquanto Berlioz, que não fumava, recusou.</p>
<p>“Devo retorquir-lhe do seguinte modo”, decidiu Berlioz em pensamento. “Sim, o homem é mortal. Ninguém discute isso. Mas a questão é que&#8230;”</p>
<p>Mas antes que tivesse tempo de proferir estas palavras, o estrangeiro começou:</p>
<p>- Sim, o homem é mortal, mas isso ainda seria apenas meia desgraça. O mal é que ele por vezes é subitamente mortal, aí é que está o busílis! E de um modo geral, não pode dizer o que irá fazer hoje à noite.</p>
<p>“Que maneira absurda de pôr a questão&#8230;”, pensou Berlioz, e retorquiu:</p>
<p>- Bom, isso é já um exagero. Eu já sei mais ou menos o que farei esta noite. É claro que se na Bronnaia me cair um tijolo na cabeça&#8230;</p>
<p>- Um tijolo &#8211; interrompeu gravemente o desconhecido nunca cai sem mais nem menos na cabeça de ninguém. E a si, asseguro-lhe que em caso nenhum o ameaça esse perigo. O senhor morrerá de outra morte.</p>
<p>- Talvez o senhor saiba de qual, precisamente? &#8211; perguntou Berlioz com uma ironia natural, deixando-se arrastar para uma conversa verdadeiramente absurda. &#8211; Não quererá dizer-me?</p>
<p>- De bom grado &#8211; respondeu o desconhecido. Mediu Berlioz com o olhar, como se fosse fazer-lhe um terno, e murmurou por entre dentes qualquer coisa como: “Um, dois&#8230; Mercúrio na segunda casa&#8230; A Lua desapareceu&#8230; seis&#8230; desgraça&#8230; noite&#8230; sete&#8230;”. E disse alegremente, em voz alta: &#8211; A si cortam-lhe a cabeça!</p>
<p>Bezdomni arregalou, furioso, os olhos para o estrangeiro atrevido, e Berlioz perguntou, sorrindo de revés:</p>
<p>- E quem o fará precisamente? Inimigos? Intervencionistas?</p>
<p>- Não &#8211; respondeu o interlocutor -, uma russa, membro do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Komsomol" target="_blank">Komsomol</a>.</p>
<p>- Hum&#8230; &#8211; resmungou Berlioz irritado com o gracejo do desconhecido. &#8211; Desculpe, mas isso é pouco provável.</p>
<p>- Peço desculpa &#8211; respondeu o estrangeiro -, mas é assim mesmo. Ah, queria perguntar-lhe o que vai fazer hoje à noite, se isso não é segredo?</p>
<p>- Não há segredo. Agora vou para casa, na Sadovaia, e depois, às dez horas da noite, haverá uma reunião no <a href="http://cr.middlebury.edu/public/russian/bulgakov/public_html/MASSOLIT.html" target="_blank">MASSOLIT</a>, à qual presidirei.</p>
<p>- Não, isso é completamente impossível &#8211; replicou com firmeza o estrangeiro.</p>
<p>- E por quê?</p>
<p>- Porque &#8211; respondeu o estrangeiro e, com os olhos semicerrados olhou o céu, onde, pressentindo o arrefecimento noturno, voavam pássaros negros &#8211; Annuchka já comprou o óleo de girassol, e não só o comprou como o derramou. Portanto, não haverá reunião.</p>
<p>Neste momento, como é inteiramente compreensível, fez-se silêncio sob as tílias.</p>
<p>- Desculpe &#8211; disse Berlioz depois de uma pausa, olhando o estrangeiro que dissera tal disparate -, a que propósito vem aqui o óleo de girassol&#8230; e quem é essa Annuchka?</p>
<p>- O óleo de girassol não tem nada a ver com coisa nenhuma disse de súbito Bezdomni, claramente decidido a declarar guerra ao interlocutor importuno. &#8211; O cidadão nunca esteve num hospital para doentes mentais?</p>
<p>- Ivan!&#8230; &#8211; exclamou Mikhail Alexandrovitch em voz baixa. Mas o estrangeiro não se mostrou nada ofendido e soltou uma gargalhada alegre.</p>
<p>- Estive, estive, e mais de uma vez! &#8211; exclamou ele, rindo, mas sem desviar do poeta os seus olhos que não riam. &#8211; Onde é que eu não estive já! Só é pena que nunca tenha tido tempo para perguntar ao professor o que é a esquizofrenia. Assim terá o senhor que lhe perguntar, Ivan Nikolaevitch!</p>
<p>- Como é que sabe o meu nome?</p>
<p>- Ora, Ivan Nikolaevitch, quem é que não o conhece?</p>
<p>O estrangeiro tirou do bolso a <em>Gazeta Literária</em> do dia anterior, e Ivan Nikolaevitch viu logo na primeira página a sua cara e por baixo dela os seus próprios versos. Mas esta prova da sua glória e popularidade, que ainda no dia anterior o alegrara, não dava agora qualquer alegria ao poeta.</p>
<p>- Desculpe &#8211; disse ele, de semblante carregado -, pode esperar um momento? Quero dizer umas palavras ao meu amigo.</p>
<p>- Oh, com todo o gosto! &#8211; exclamou o desconhecido. Está-se tão bem aqui, debaixo das tílias, e eu por acaso não tenho pressa.</p>
<p>- Ouve, Micha &#8211; murmurou o poeta, puxando Berlioz de lado. &#8211; Ele não é nenhum turista, mas um espião. É um emigrado russo que se introduziu no nosso país. Pergunta-lhe pelos documentos, antes que ele se escape&#8230;</p>
<p>- Tu achas? &#8211; sussurrou Berlioz, alarmado, enquanto pensava para si mesmo: “Ele tem razão!”.</p>
<p>- Acredita &#8211; disse-lhe o poeta ao ouvido. &#8211; Finge-se de sonso, a ver se consegue obter informações. Ouves como ele fala russo? &#8211; O poeta falava e espreitava, a ver se o desconhecido não fugia. &#8211; Vamos, vamos detê-lo, antes que fuja&#8230;</p>
<p>E o poeta puxou Berlioz pelo braço até ao banco.</p>
<p>O estranho não estava sentado mas de pé junto ao banco e tinha nas mãos um livrinho de capa cinzento-escura, um envelope grosso de bom papel e um cartão-de-visita.</p>
<p>- Desculpem-me, porque no calor da nossa discussão me esqueci de me apresentar. Aqui está o meu cartão, o passaporte e um convite para me deslocar a Moscou para consultas &#8211; disse o desconhecido alegremente, lançando um olhar penetrante aos dois escritores.</p>
<p>Estes ficaram confusos. “Ouviu tudo, o maldito &#8230; “, pensou Berlioz, e com um gesto cortês indicou que não havia necessidade de mostrar os documentos. Enquanto o estrangeiro os apresentava ao editor, o poeta conseguiu ver no cartão a palavra professor impressa em letras estrangeiras e a primeira letra do nome, um W.</p>
<p>- Muito prazer &#8211; balbuciou entretanto o editor, confuso, e o estrangeiro meteu os documentos no bolso.</p>
<p>As relações foram assim restabelecidas, e os três voltaram a sentar-se.</p>
<p>- O senhor foi convidado a vir ao nosso país como consultor, professor? &#8211; perguntou Berlioz.</p>
<p>- Sim, como consultor.</p>
<p>- O senhor é alemão? &#8211; quis saber Bezdomni.</p>
<p>- Eu?&#8230; &#8211; perguntou por sua vez o professor que de repente ficou pensativo. &#8211; Sim, talvez alemão &#8211; respondeu ele.</p>
<p>- Fala muito bem russo &#8211; observou Bezdomni.</p>
<p>- Oh, sou poliglota, falo muitas línguas &#8211; respondeu o professor.</p>
<p>- E qual é a sua especialidade? &#8211; perguntou Berlioz.</p>
<p>- Sou especialista em magia negra. “Ora toma! &#8230;”, explodiu na cabeça de Mikhail Alexandrovitch.</p>
<p>- E&#8230; e foi nessa qualidade que o convidaram? &#8211; gaguejou ele.</p>
<p>- Sim, nessa qualidade &#8211; confirmou o professor, e explicou: Foram encontrados aqui, na biblioteca estatal, manuscritos autênticos do necromante <a href="http://www.vlib.us/medieval/lectures/gerbert.html" target="_blank">Gerbert d&#8217;Aurillac</a>, do século dez. E é preciso que eu os decifre. Sou o único especialista em todo o mundo.</p>
<p>- Aah! É historiador? &#8211; perguntou Berlioz, respeitosamente e com grande alívio.</p>
<p>- Sou historiador &#8211; confirmou o cientista e acrescentou a despropósito: &#8211; Esta noite haverá um interessante acontecimento no lago do Patriarca!</p>
<p>E de novo o editor e o poeta se espantaram imenso, enquanto o professor lhes fez sinal para que se aproximassem e, quando se inclinaram para ele, murmurou:</p>
<p>- Tenham em conta que Jesus existiu.</p>
<p>- Sabe, professor &#8211; disse Berlioz, com um sorriso forçado respeitamos a sua vasta erudição, mas quanto a esse assunto temos um ponto de vista diferente.</p>
<p>- Não são necessários quaisquer pontos de vista! &#8211; respondeu o estranho professor. &#8211; Ele existiu simplesmente, mais nada.</p>
<p>- Mas é necessária uma prova qualquer&#8230; &#8211; começou Berlioz.</p>
<p>- Também não são precisas provas &#8211; respondeu o professor, e começou a falar em voz baixa, perdendo inesperadamente o sotaque: &#8211; É tudo muito simples: no décimo quarto dia do mês primaveril de Nissã, de manhã cedo, Pôncio Pilatos, procurador da Judéia, envolto numa capa branca&#8230;</p>
<p><em>_________________       <br /></em></p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21783879/?franq=140868" target="_blank">O Mestre e Margarida</a>,</em> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Bulgakov" target="_blank">Mikhail Bulgakov</a><em>.</em></p>
</blockquote>
<p><em></em></p>
<p>Simplesmente um dos meus romances prediletos. Pensando bem, posso dizer que <em>é</em> o meu romance predileto. Um livro delicioso, engraçadíssimo e profundo. Para saber mais sobre ele, clique <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Mestre_e_Margarida" target="_blank">aqui</a>.</p>



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		<title>S&#234;neca: Da Brevidade da Vida (excerto)</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 11:12:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p>&#160;<img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto 0px; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Sêneca" border="0" alt="Sêneca" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/seneca.jpg" width="194" height="259" /> </p>
<blockquote><p>« Todos os espíritos que alguma vez brilharam consentirão neste único ponto: jamais se cansarão de se espantar com a cegueira das mentes humanas. Não se suporta que as propriedades sejam invadidas por ninguém, e, se houver uma pequena discórdia quanto à medida de seus limites, os homens recorrem a pedras e armas; no entanto, permitem que outros se intrometam em suas vidas, a ponto de eles próprios induzirem seus futuros possessores; não se encontra ninguém que queira dividir seu dinheiro, mas a vida, entre quantos cada um a distribui! <strong>São avaros em preservar seu patrimônio, enquanto, quando se trata de desperdiçar o tempo, são muito pródigos com relação à única coisa em que a avareza é justificada</strong>. </p>
<p>« Por isso, agrada me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos: &quot;Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida do que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? <strong>Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu!</strong> Compreendes que morres prematuramente.&quot; </p>
<p>« Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, <strong>não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante</strong>, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis imortais. </p>
<p>« Ouvirás muitos dizerem: &quot;Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos.&quot; E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? <strong>Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada?</strong> Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!»       </p>
<p>_______</p>
<p><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/134671/?franq=140868" target="_blank"><em>Da Brevidade da Vida</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca" target="_blank">Lúcio Anneo Sêneca</a> (4 a.C. — 65 d.C.).</p>
</blockquote>



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		<title>Da &#8220;Filosofia Perene&#8221;: Aldous Huxley fala sobre f&#233;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 13:53:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img title="Aldous Huxley" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin: 10px auto 0px; border-right-width: 0px" height="263" alt="Aldous Huxley" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/huxley.jpg" width="198" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« A palavra &quot;fé&quot; tem vários significados, que é impor­tante distinguir. Em certos casos é usada como sinônimo de &quot;confiança&quot;, como quando dizemos que temos fé na habilidade diagnóstica do Dr. X ou na integridade do advogado Y. Análoga a esta é nossa &quot;fé&quot; na autoridade, a crença na probabilidade de que seja certo o que dizem certas pessoas sobre certas coisas, por causa de suas especiais condições. Outras vezes a &quot;fé&quot; significa crença em proposições que não tivemos ocasião de verificar por conta própria, mas que sabemos que poderíamos verificar, se tivéssemos o desejo e a oportunidade de fazê-lo, junto com a capacidade necessária para isso. Neste sentido da palavra, temos &quot;fé&quot;, embora nunca estivemos na Austrália, na existência de uma criatura tal como o <i>platypus</i>; temos &quot;fé&quot; na teoria atômica, embora nunca fizemos os experi­mentos em que tal teoria se fundamenta e sejamos incapazes de compreender os cálculos matemáticos que a apóiam. E existe a &quot;fé&quot;, que é uma crença em proposições que sabemos que não poderíamos verificar embora o quisésse­mos, tais como as do Credo de Atanasio ou as que constituem a doutrina da Imaculada Concepção. Esta classe de fé é definida pelos escolásticos como um ato do intelecto movido a assentir pela vontade.</p>
<p>« A fé nos três primeiros sentidos desempenha um papel muito importante, não só nas atividades da vida cotidiana, mas também até nas da ciência pura e aplicada. <i>Credo ut intelligam</i> — e também, deveríamos acrescentar, <i>ut agam e ut uiuam</i>. A fé é condição prévia de todo conhecimento sistemático, de todo obrar intencionado e de todo viver decente. As sociedades se mantêm, não principalmente pelo medo dos mais ao poder coativo dos menos, mas sim por uma difundida fé na decência de outros. Tal fé tende a criar seu próprio objeto, enquanto que uma difundida desconfiança mútua, devida, por exemplo, à guerra ou às dissensões domésticas, cria o objeto da desconfiança. Passando agora da esfera moral a intelectual, achamos a fé na raiz de todo pensamento organizado. A ciência e a tecnologia não poderiam existir se não tivéssemos fé na fidelidade do universo — se não acreditássemos implicitamente (para dizê-lo com as palavras de Clark Maxwell) que o livro da Natureza é realmente um livro e não uma revista, uma coerente obra de arte e não um tapete de retalhos. A esta fé geral na racionalidade e integridade do mundo, o buscador da verdade deve adicionar duas classes de fé especiais: fé na autoridade dos peritos qualificados, suficiente para lhe permitir aceitar sua palavra sobre afirmações que não comprovou pessoalmente; e fé em suas próprias hipóteses, suficiente para induzi-lo a comprovar suas crenças provisórias mediante a ação apropria­da. Esta ação pode confirmar a crença que o inspi­rou. Por outra parte, pode provar que a hipótese original estava mal fundada, e neste caso terá que ser modifica­da até que, conforme os fatos, e assim passe do reino da fé ao do conhecimento.</p>
<p>« A quarta classe de fé é o que usualmente se chama &quot;fé religiosa&quot;. A qualificação é justa, não porque as outras classes de fé não sejam fundamentais em religião como o são nos assuntos seculares, mas sim porque este volitivo assentimento à proposições que se sabe que não são verificáveis ocorre em religião, e só em religião, como uma adição característica à fé como confiança, a fé na autoridade e a fé em proposições não verificadas, mas verificáveis. Esta é a classe de fé que, segundo os teólogos cristãos, justifica e salva. Em sua forma extrema e mais intransigente, tal doutrina pode ser muito perigosa. Eis aqui, por exemplo, uma passagem de uma das cartas de Lutero. Este <i>peccator, etpecca fortiter; sedfortius crede et gaude in Christo, qui victor est peccati, mortis et mundi. Peccandum est quam diu sic sumus; vito haec non est habitatio justitiae.</i> (&quot;Sou pecador e peco fortemente; mas, mais fortemente, creio e alegro-me em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. Enquanto formos como somos, temos que ter pecados; esta vida não é a morada da retidão.&quot;) Ao perigo de que a fé na doutrina da justificação pela fé possa servir de desculpa ao pecado, e até de convite a pecar, deve acrescentar-se outro perigo, ou seja, o de que a fé que se supõe salvadora possa ser uma fé em proposições não meramente não comprovadas, mas sim repugnem à razão e ao sentido moral e estejam em completo desacordo com os resultados obtidos pelos quais cumpriram as condições de penetração espiritual na Natureza das Coisas. &quot;Eis aqui o topo da fé — diz Lutero em <i>De Servo</i> <i>Arbítrio</i> —: acreditar que Deus, salva a tão poucos e condena a tantos, é misericordioso; é justo Quem, a seu prazer, fez-nos necessariamente destinados à condenação, de modo que parece deleitar-se na tortura dos miseráveis e ser mais merecedor de ódio que de amor. Se, por um esforço da razão, pudesse conceber como Deus, que mostra tanta ira e dureza, pode ser misericordioso e justo, não haveria necessidade de fé.&quot; A revelação (que, quando é genuína, é simplesmente o relato da experiência imediata dos que são bastante puros de coração e bastante pobres de espírito para poder ver Deus) não diz nada de todas estas doutrinas horríveis, às quais a vontade força o intelecto, que sente por isso uma relutância bastante natural e justa a dar assenti­mento. Tais noções não são produto da penetração dos santos, mas sim da atarefada fantasia de juristas, que estavam tão longe de transcenderem o eu e os prejuízos da educação, que tinham a louca presunção de interpretar o universo em termos da lei judia e Roma­na, com a que estavam familiarizados. &quot;Ai de vós, os juristas!&quot;, disse Cristo. A acusação era profética e válida para todos os tempos.</p>
<p>« A medula e o coração espiritual de todas as religiões superiores é a Filosofia Perene; e se pode assentir às proposições da Filosofia Perene e obrar de acordo com elas sem ter que ir à classe de fé sobre a qual escrevia Lutero nas passagens precedentes. Deve, é óbvio, haver fé em sua condição de confiança — pois a confiança no próximo é o princípio da caridade para com os homens, e a confiança, não só na fidelidade material do universo, mas também em sua integridade moral e espiritual, é o princípio da caridade ou amor-conhecimento para com Deus. Deve haver também fé na autoridade — a autoridade daqueles cuja abnegação os pôs em condições de conhe­cer o Fundamento espiritual de todo ser, seja por contato direto ou por ouvi-la. E, finalmente, deve haver fé nas proposições a respeito da Realidade enunciadas por filó­sofos à luz de uma revelação — proposições que o crente sabe que pode comprovar por si mesmo, se estiver disposto a cumprir as condições necessárias. Mas, enquanto a Filosofia Perene seja aceita em sua simplicidade essencial, não há necessidade de volitivo assentimento à proposições das quais de antemão se sabe que não são comprováveis. Aqui é necessário observar que tais proposições podem chegar a ser verificáveis assim que uma intensa fé afete o substrato psíquico e assim crie uma existência cuja derivada objetividade po­de realmente descobrir-se &quot;lá fora&quot;. Contudo, recordemos que uma existência que tira sua objetividade da atividade mental dos que acreditam intensamente nela não pode ser o Fundamento espiritual do mundo, e que uma mente atarefada na atividade volun­tária e intelectual que é a &quot;fé religiosa&quot; não pode achar-se no estado de renúncia ao eu e de atenta passividade que é a condição necessária ao conhecimento unitivo do Fundamento. Por isso afirmam os budistas que &quot;a amorosa fé conduz ao céu; mas a obediência ao Dharma conduz ao Nirvana&quot;. A fé na existência e poder de qualquer entidade sobrenatural que seja menos que a Realidade espiritual última, e em qualquer forma de adoração que não alcance o abatimento de si mesmo, produzirá sem dúvida, se o objeto da fé é intrinsecamente bom, um melhoramento do caráter, e provavelmente a sobrevivência póstuma de melhorada personalidade em condições &quot;celestiais&quot;. Mas esta sobrevivência pessoal dentro do que é ainda a ordem temporária não é a vida eterna da união atemporal com o Espírito. Esta vida eterna &quot;está no conhecimento&quot; da Divindade, não na fé em algo que seja menos que a Divindade.»</p>
<blockquote><p><i>A imortalidade obtida pela aquisição de uma condição objetiva (por exemplo, a condição — alcan­çada pelas boas obras inspiradas pelo amor a algo inferior à Divindade suprema e pela crença nesse algo — de unir-se em ato ao adorado) está exposta a terminar; pois nas Escrituras se afirma distintamente que o Carma não é nunca causa de emancipação.</i></p>
<p><i>Shankara</i></p>
</blockquote>
<p>« O Carma é a sucessão causal no tempo, da qual somos somente libertados &quot;morrendo para&quot; o eu tem­poral e nos unindo com o eterno, que está além do tempo e causa. Pois &#8220;quanto à noção de uma Primeira Causa, ou <i>Causa Sui</i>&#8221; (para citar as palavras do Dr. E R. Tennant, eminente teólogo e filósofo), &#8220;devemos, por um lado, ter presente que nos refutamos ao tentar estabelecê-la por extensão da aplicação da categoria causal, pois casualidade universalizada implica contradição; e, por outra parte, recordar que o Fundamento último sim­plesmente &#8216;É&#8217;.&quot; Só quando também o indivíduo &quot;sim­plesmente é&quot;, em virtude de sua união, pelo amor-conhecimento, com o Fundamento, pode haver liberação completa e eterna.»       <br />_______</p>
<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8531601711" target="_blank"><em>A Filosofia Perene</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Aldous_Huxley" target="_blank">Aldous Huxley</a>.</p>
</blockquote>



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		<title>S&#248;ren Kierkegaard y la b&#250;squeda del caballero de la fe</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 11:17:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Kierkegaard" border="0" alt="Kierkegaard" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/kierkegaard.jpg" width="205" height="255" /> </p>
<blockquote><p>« Lo confieso con sinceridad: no he podido encontrar, a lo largo de mis experiencias, un solo ejemplar de caballero de la fe digno de confianza, sin que con esta afirmación quiera negar que quizás una de cada dos personas lo sea. Pero se da la circunstancia de que llevo muchos años buscando en vano. Generalmente viajamos por el mundo con el fin de ver ríos y montañas, estrellas de otras latitudes, pájaros variopintos, peces deformes y razas humanas grotescas; nos abandonamos a un estupor animal, que nos deja con la boca abierta ante lo existente, y concluimos por creer que hemos visto algo. Nada de eso me interesa. Pero si yo viniera a saber dónde habita un verdadero caballero de la fe, me pondría en el acto en camino hacia aquel lugar, pues esa es la clase de maravilla que me interesa. Una vez encontrado no lo perdería de vista un solo momento, observando constantemente todos y cada uno de sus movimientos. Me sentiría como quien ha encontrado un sustento en esta existencia y dividiría mi tiempo dedicando una parte de él a observarlo y otra a ejercitarme yo mismo, de modo que todo mi tiempo sería empleado en admirar-lo.»</p>
<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8528905918 " target="_blank"><em>Temor y Temblor</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B8ren_Kierkegaard" target="_blank">Søren Kierkegaard</a>.</p>
</blockquote>



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		<title>A Nega&#231;&#227;o da Morte: Ernest Becker fala de Otto Rank e Kierkegaard</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 11:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; « …nossa missão capital neste planeta é a heróica.» (…) « O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroísmo.» [William James, citado por Ernest Becker] (…) « É natural que o homem seja um animal maluco; deve viver uma vida maluca [...]


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<p>&#160;<img style="border-right-width: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Ernest Becker" border="0" alt="Ernest Becker" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/ernest_becker.jpg" width="198" height="264" /> </p>
<blockquote><p>« …<strong>nossa missão capital</strong> neste planeta é a heróica.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroísmo.» [<em>William James, citado por Ernest Becker</em>]</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>É natural que o homem seja um animal maluco</strong>; deve viver uma vida maluca devido ao seu conhecimento da morte.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A aspiração por heroísmo é natural e admiti-lo é honesto. Se todos o admitissem, provavelmente se liberaria tamanha força represada que devastaria as sociedades tais como agora existem…»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Não há [<em>na cultura atual</em>] um centro vital pulsante.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« […] a religião não é mais eficaz como um sistema de heroísmo, e por isso os jovens menosprezam-na. Se a cultura tradicional é desacreditada como manifestação de heroísmo, então a igreja que a apóia automaticamente se desacredita. Se a igreja, pelo contrário, decide insistir em seu heroísmo característico, talvez constate que, de maneiras cruciais, terá de agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis face aos estilos de vida da sociedade em que vivem. <strong>Este é o dilema da religião em nossa época</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Todo ser humano é… igualmente preso, isto é, nós… criamos uma prisão com a liberdade…» [<em>Otto Rank, citado por Ernest Becker</em>]</p>
<p>(…)</p>
<p>« A pergunta […] mais importante que o homem pode fazer a si mesmo é simplesmente esta: até onde tem ele consciência do que está fazendo para alcançar um senso de heroísmo?»</p>
<p>(…)</p>
<p>« E esta é a singela verdade: viver é sentir-se perdido — aquele que aceita isso já começou a encontrar-se, a colocar-se em terreno firme.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A Tragédia da vida a que Searles se refere é aquela que estivemos examinando: a finitude do homem, seu pavor da morte e da enormidade esmagadora da vida. O esquizofrênico sente essas coisas mais do que outro qualquer por não ter sido capaz de formar as defesas seguras que uma pessoa normalmente emprega para negá-las.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« […] o caráter de uma pessoa é uma defesa contra o desespero, uma tentativa de evitar a insanidade por causa da verdadeira natureza do mundo.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Neurótico é alguém que não consegue rodear sua animalidade com uma ilusão convincente.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« …<strong>a essência da normalidade</strong> é a recusa da realidade.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Isto é <strong>neurose em poucas palavras</strong>: o insucesso de mentiras desajeitadas no tocante à realidade.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« …<strong>normalidade é neurose e vice-versa</strong>. Chamamos a um homem de “neurótico” quando sua mentira começa a demonstrar efeitos nocivos nele ou em pessoas que o cercam e ele procura ajuda clínica para isso — ou outros procuram por ele. Sob outros aspectos, chamamos a rejeição da realidade de “normal” por não ocasionar qualquer problema perceptível.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O que está em jogo em toda repressão humana: <strong>o medo da vida e da morte</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Uma das circunstâncias que percebemos quando estudamos a história é que <strong>a consciência de animalidade é sempre absorvida pela cultura</strong>. Esta opõe-se à natureza e transcende-a. A cultura, em sua mais recôndita intenção, é uma negação heróica da animalidade.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A própria salvação não mais é atribuída a uma <em>abstração</em> como Deus, mas pode ser procurada “<strong>na beatificação do outro</strong>”. Poderíamos chamar esta de “beatificação transferencial”. O homem agora vive em uma “cosmologia de dois”. […] O homem moderno realiza seu impulso de auto-expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus. […] Como diz uma canção hindu: “Meu amor é meu Deus; se ele me aceita minha existência é utilizada”. Não é de espantar que Rank pudesse concluir que <strong>o relacionamento amoroso do homem moderno é um problema </strong><em><strong>religioso</strong>.</em>»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>As pessoas precisam de um “além”</strong>, mas elas pegam primeiro o mais próximo; isto lhes dá a satisfação de que precisam, mas, ao mesmo tempo, limita-as e escraviza-as. Você pode considerar o problema todo de uma vida humana desta maneira. Pode perguntar: em que tipo de além esta pessoa tenta expandir-se e quanto de individualização obtém nele?»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O limite entre a rendição natural, ao querer ser parte de algo superior, e a rendição masoquista ou autonegadora é deveras tênue, como Rank assinalou. O problema é ainda mais complicado por algo que <strong>as mulheres</strong>, como todos os mais, detestam admitir: <strong>sua própria incapacidade natural para se manterem sozinhas em liberdade</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>O que Kierkegaard está dizendo</strong>, em outras palavras, é que a escola da angústia leva à possibilidade <em>só pelo fato de destruir</em> a mentira vital do caráter.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« E assim se chega à nova possibilidade, à nova realidade, pela destruição do eu ao se fazer face à angústia do terror da existência. O <em>self</em> tem de ser destruído, reduzido a nada, a fim de ter início a transcendência de si próprio. Então, <strong>o <em>self</em> pode começar a relacionar-se com poderes além de si mesmo</strong>. Ele tem de debater-se em sua finitude, tem de “morrer” para interrogar essa finitude e poder ver para além dela. Para onde? Responde Kierkegaard: para a infinitude, para a transcendência absoluta, para <strong>o Poder Final da Criação</strong> que fez as criaturas finitas. Nossa moderna interpretação da psicodinâmica confirma ser essa progressão bastante lógica — <strong>se você admite ser um animal, conseguiu uma coisa fundamental</strong>: demoliu todos os seus elos ou apoios de força inconscientes. Como vimos no último capítulo — e vale a pena repetir aqui —, <strong>cada criança firma-se em algum poder que a transcende</strong>. Geralmente é uma combinação de seus pais, seu grupo social e os símbolos de sua sociedade e nação. Essa é a trama irracional de apoio que lhe permite acreditar em si própria, enquanto funciona na segurança automática de poderes delegados. Ela, está claro, não admite para si mesma que vive com forças tomadas de empréstimo, pois isso a levaria a duvidar de sua própria ação segura, daquela mesma confiança de que necessita. Ela negou sua animalidade exatamente por imaginar que dispõe de poder seguro, e esse poder seguro foi obtido apoiando-se inconscientemente nas pessoas e coisas de sua sociedade. Uma vez que você revele essa <strong>fraqueza e vacuidade básicas da pessoa</strong>, sua incapacidade, então é obrigado a reexaminar todo o problema das ligações de poder. Você tem de pensar em refazê-las em uma fonte real de poder criativo e gerador. É nesta altura que uma pessoa pode começar a posicionar sua condição de criatura <em>vis-à-vis</em> <strong>um Criador que é a Causa Primeira de todas as coisas criadas</strong>, não meramente os criadores de segunda mão, intermediários, da sociedade, os pais e a panóplia de heróis culturais. Esses são os pais sociais e culturais, que, por sua vez, foram causados, que, por sua vez, estão enleados em uma teia de poderes de outrem.</p>
<p>« Uma vez que a pessoa se ponha a examinar seu relacionamento com o Poder Final, com a infinitude, e a <strong>reformular seus vínculos desligando-os dos que a rodeiam para ligá-los a esse Poder Final</strong>, ela se franqueia o horizonte da possibilidade ilimitada, da <strong>verdadeira liberdade</strong>. Essa é a mensagem de Kierkegaard, a culminação de todo o seu raciocínio a respeito dos becos sem saída do caráter, o ideal de saúde, a escola da angústia, a natureza da verdadeira possibilidade e liberdade. Passa-se por tudo isso para chegar-se à fé de que a própria condição de criatura tem certo significado para um Criador; que, a despeito da verdadeira insignificância, fraqueza, morte de cada um, sua existência tem um certo sentido definitivo porque existe dentro de um projeto eterno e infinito das coisas produzidas e mantidas dentro de determinado modelo por uma força criadora. Repetidamente, em seus trabalhos, Kierkegaard volta à <strong>fórmula básica da fé: a gente é uma criatura que nada pode fazer, mas existe diante de um Deus vivo para quem “tudo é possível”</strong>.</p>
<p>« Toda a sua argumentação agora torna-se clara como água, segundo a qual <strong>a chave de abóbada da fé coroa a estrutura</strong>. Podemos entender por que a angústia “é a possibilidade de liberdade”, por que <strong>a angústia derruba “todas as metas finitas”</strong>, e assim “o homem que é educado pela possibilidade é educado de acordo com sua infinitude”. A possibilidade a nada conduz se não conduzir à fé. Ela é uma etapa intermediária entre o condicionamento cultural, a mentira do caráter e a abertura da infinitude com a qual a pessoa pode relacionar-se por meio da fé. <strong>Mas sem o salto para a fé o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror</strong>. Isso significa que se vive desprotegido pela couraça, exposto à sua solidão e desamparo, à angústia constante. Nas palavras de Kierkegaard: </p>
<blockquote><p>« “Agora o pavor da possibilidade conserva-o como sua presa, até poder entregá-lo a salvo nas mãos da fé. Em nenhum outro lugar encontrará ele repouso… ele, que atravessou o currículo do infortúnio oferecido pela possibilidade, perdeu tudo, absolutamente tudo, de forma que ninguém o perdeu na realidade. Se nessa situação ele não se comporta falsamente face à possibilidade, se não tenta falar desviando-se do pavor que o salvaria, então receberá tudo de volta novamente, como na realidade ninguém jamais conseguiu mesmo que tenha recebido dez vezes mais, pois o aluno da possibilidade recebeu a infinitude…”</p>
</blockquote>
<p>« Se colocarmos toda essa progressão em função de nosso exame das possibilidades de heroísmo, o resultado será o seguinte: o homem irrompe através dos limites do heroísmo meramente cultural; destrói a mentira do caráter que o fazia portar-se como herói no plano social cotidiano das coisas; e, ao fazê-lo, ele se abre para o infinito, para <strong>a possibilidade de heroísmo cósmico</strong>, <strong>para o próprio serviço de Deus</strong>. Sua vida, portanto, adquire valor definitivo em vez de valor simplesmente social e cultural, histórico. <strong>Ele liga seu eu interior secreto, seu talento autêntico, seus mais profundos sentimentos de originalidade, seu anelo íntimo por um significado absoluto ao próprio substrato da criação</strong>. Nas ruínas do eu cultural demolido permanece o mistério do eu particular, invisível, interior, que anelava por significado definitivo, por heroísmo cósmico. Esse mistério invisível no coração de toda criatura agora alcança significado cósmico ao afirmar sua conexão com o mistério invisível do âmago da criação. <strong>Esse é o significado da fé</strong>. Ao mesmo tempo, <strong>é o significado da fusão da psicologia e da religião no pensamento de Kierkegaard</strong>. A pessoa verdadeiramente aberta, aquela que se desfez de sua couraça de caráter, da mentira vital do seu condicionamento cultural, está além do auxílio de qualquer mera “ciência”, de qualquer padrão meramente social de saúde. Ela está absolutamente só e tremendo à beira do esquecimento, que é, ao mesmo tempo, o umbral da infinitude. Dar-lhe o novo apoio de que carece, a “coragem para renunciar ao pavor sem qualquer pavor… disso só a fé é capaz”, afirma Kierkegaard. <strong>Não que essa seja uma saída fácil para o homem</strong>, ou uma panacéia universal para a condição humana — Kierkegaard nunca é fácil. Ele fornece uma idéia extraordinariamente bela:</p>
<blockquote><p>« “Não que a fé aniquile o pavor, mas, permanecendo sempre jovem, ela está continuamente se formando da convulsão mortal do pavor”.</p>
</blockquote>
<p>« Por outras palavras, desde que o homem é um animal ambíguo <strong>nunca poderá abolir a angústia</strong>; o que pode fazer, em vez disso, é usar a angústia como eterna mola para crescer em novas dimensões de pensamento e confiança. A fé apresenta uma nova missão para a vida, a aventura da abertura para uma realidade multidimensional.</p>
<p>« Podemos entender por que Kierkegaard só tinha de concluir seu grande estudo da angústia com as seguintes palavras que possuem o peso de um argumento evidente:</p>
<blockquote><p>« “O verdadeiro autodidata [<em>isto é, aquele que por si só transpõe a escola da angústia até a fé</em>] é, exatamente no mesmo grau, um teodidata… Tão logo a psicologia tenha acabado com o pavor, nada mais tem a fazer senão entregá-lo à dogmática”. </p>
</blockquote>
<p>« Em Kierkegaard, psicologia e religião, filosofia e ciência, poesia e verdade fundem-se indistintamente reunidas nas aspirações da criatura.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A <strong>dinâmica do mal</strong> é devida fundamentalmente à <strong>negação da condição de criatura</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Segundo Otto Rank, <strong>a dinâmica do mal é a tentativa de fazer o mundo ser diferente do que é</strong>, de fazer dele o que ele não pode ser, um lugar livre de acidentes, um lugar livre de impurezas, um lugar livre da morte.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« No ponto mais alto da fé existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d&#8217;Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza?»</p>
<p>_____</p>
<p><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/46010/?franq=140868" target="_blank"><em>A Negação da Morte</em></a><em>,</em> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ernest_Becker" target="_blank">Ernest Becker</a> (1924-1974).</p>
</blockquote>



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		<title>Paul Brunton: algumas ideias em perspectiva (e um conselho)</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Aug 2010 11:17:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="border-right-width: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Paul Brunton" border="0" alt="Paul Brunton" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/brunton.jpg" width="263" height="198" /> </p>
<blockquote><p>« A beleza, tanto quanto a verdade, é um aspecto da Realidade. Aquele que é insensível a uma ainda não encontrou a outra.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Um estilo de vida refinado e elegante pode ser desaprovado pelas pessoas de tendências ascéticas, e pode até mesmo ser censurado como materialista. O senso estético, porém, pode ser bem compatível com a espiritualidade.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Todos são crucificados pelo próprio ego.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Toda pessoa possui algum tipo de fé; isso inclui a pessoa cuja fé repousa no ceticismo.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Aquele que vive uma vida nobre em meio às coisas do mundo é superior àquele que vive uma vida nobre num mosteiro.» [<em>Eu, Yuri, digo: creio que a busca dessa virtude superior nem passou pelas cabeças dos monges desertores do conto “História sem título”, de Tchekov…</em>]</p>
<p>(…)</p>
<p>« Dissipamos diariamente nossas energias mentais e atiramos nossos pensamentos aos ventos volúveis. Corrompemos o potente poder da Atenção e permitimos que ela se desperdice diariamente nas mil futilidades que preenchem nosso tempo.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O contraste entre os americanos loquazes das cidades e os árabes silenciosos do deserto é inesquecível. O beduíno pode sentar-se com um grupo e não dizer coisa alguma durante horas! A paz do deserto penetrou neles de tal maneira que o dever social da conversação é desconhecido entre eles e considerado desnecessário!» [<em>Eu, Yuri, pergunto: existem beduínos do sexo feminino?… Ok, ok, foi uma pergunta digna de um “americano loquaz”…</em>]</p>
<p>(…)</p>
<p>« A vida permanece o que ela é — imortal e sem limites. Todos nos encontraremos novamente. Saiba o que você é, e seja livre. O melhor conselho hoje é: mantenha-se calmo, alerta. Não deixe que a pressão do ambiente mental viole o que você sabe e o que é real e fundamentalmente verdadeiro. Esse é o talismã mágico que irá protegê-lo; agarre-se a ele. A última palavra é — Paciência! A noite é mais escura antes do amanhecer. Mas o amanhecer vem.»</p>
<p>____</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8531503191" target="_blank">Ideias em Perspectiva</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Brunton" target="_blank">Paul Brunton</a>. </p>
</blockquote>



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		<title>O cineasta Andrei Tarkovski fala sobre a cria&#231;&#227;o art&#237;stica</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Aug 2010 12:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[« A poesia é uma consciência do mundo.» (…) « Para mim, os personagens mais interessantes são aqueles exteriormente estáticos, mas interiormente cheios da energia de uma paixão avassaladora.» (…) « Quando não se disse tudo sobre um determinado tema, fica-se com a possibilidade de imaginar o que não foi dito. A outra alternativa é [...]


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<p><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Andrei Tarkovsky" border="0" alt="Andrei Tarkovsky" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/tarkovsky.jpg" width="241" height="260" /> </p>
<blockquote><p>« A poesia é uma consciência do mundo.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Para mim, os personagens mais interessantes são aqueles exteriormente estáticos, mas interiormente cheios da energia de uma paixão avassaladora.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Quando não se disse tudo sobre um determinado tema, fica-se com a possibilidade de imaginar o que não foi dito. A outra alternativa é apresentar ao público uma conclusão final que não exija dele nenhum esforço; não é disso, porém, que ele necessita. Que significado ela poderá ter para o espectador que não compartilhou com o autor a angústia e a alegria de fazer nascer uma imagem?»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Penso que sem uma ligação orgânica entre as impressões subjetivas do autor e a sua representação objetiva da realidade, ser-lhe-á impossível obter alguma credibilidade, ainda que superficial, e muito menos autenticidade e verdade interior.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O gênio […] não se revela na perfeição absoluta de uma obra, mas sim na absoluta fidelidade a si próprio.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« É errado dizer que o artista <em>procura</em> o seu tema. Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão. É como um parto…»</p>
<p>(…)</p>
<p>« …nada além da observação simples e despretensiosa da vida. O princípio tem algo em comum com a arte do zen, na qual, da forma como a percebemos, a exata observação da vida transforma-se paradoxalmente em sublimes imagens artísticas.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Ter uma visão lúcida e precisa das condições do próprio trabalho faz com que seja mais fácil encontrar uma forma que se ajuste com exatidão a nossas idéias e sentimentos, afastando a necessidade de recorrermos ao experimentalismo. Experimentalismo — para não dizer <em>busca</em>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Nada seria mais absurdo que a palavra <em>busca</em> aplicada a uma obra de arte. Nela se escondem impotência, vazio interior, falta de uma consciência verdadeiramente criativa, vaidade mesquinha. &#8216;Um artista que procura&#8217; — são palavras que apenas escondem uma aceitação neutra de uma obra inferior.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Gosto muito da história que se conta sobre Picasso, que, ao lhe perguntarem sobre sua <em>procura</em>, respondeu com precisão e argúcia (obviamente irritado com a pergunta): &#8216;Eu não procuro, eu acho&#8217;.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« E estou convencido de que, se um artista consegue realizar alguma coisa, isso só acontece porque é disso que os outros precisam — mesmo que não o saibam naquele momento.»     </p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/26292/?franq=140868" target="_blank">Esculpir o Tempo</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrei_Tarkovski" target="_blank">Andrei Tarkovski</a> (1932-1986).</p>
</blockquote>



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		<title>S&#243;crates fala sobre a imortalidade da alma</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 13:45:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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<p><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Sócrates recebe a cicuta" border="0" alt="Sócrates recebe a cicuta" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/socrates.jpg" width="200" height="213" /> </p>
<blockquote><p>« Porém devemos, senhores, considerar também o seguinte: se a alma for imortal, exigirá cuidados de nossa parte não apenas nesta porção do tempo que denominamos vida, senão ao longo de todo o tempo, parecendo que se expõe a um grande perigo quem não atender esse aspecto da questão. Pois se a morte fosse o fim de tudo, que imensa vantagem não seria para os desonestos, com a morte livrarem-se do corpo e da ruindade muito própria juntamente com a alma? Agora, porém, que se nos revelou imortal, não resta à alma outra possibilidade, se não for tornar-se, quanto possível, melhor e mais sensata. Ao chegar ao Hades, nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação, justamente, ao que se diz, o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá. O que contam é o seguinte: quando morre alguém, o demônio [<em>daemon, gênio, monitor residente</em>] que em vida lhe tocou por sorte se encarrega de levá-lo a um lugar em que se reúnem os mortos para serem julgados e de onde são conduzidos para o Hades com guias incumbidos de indicar-lhes o caminho. Depois de terem o destino merecido e de lá permanecerem o tempo indispensável, outro guia os traz de volta, após numerosos e longos períodos de tempo. Esse caminho não é o que diz Télefo de Ésquilo, ao afirmar que o caminho do Hades é simples; a meu ver nem é simples nem único. Se fosse o caso, seria dispensável guia, pois ninguém se perde onde a estrada é uma só. O que parece é que ele é cheio de voltas e bifurcações. Digo isso com base nos ritos sagrados e cerimônias aqui em uso. </p>
<p>« De qualquer forma, a alma prudente e moderada acompanha seu guia, perfeitamente consciente do que se passa com ela; mas, como disse há pouco, a que se agarra avidamente ao corpo esvoaça durante muito tempo em torno dele e do mundo visível, e depois de grande relutância e de sofrimentos sem conta, é por fim arrastada dali, à força e com dificuldade pelo demônio incumbido de conduzi-la. Uma vez alcançado o lugar em que se encontram outras almas, a que se acha impura pela prática do mal, de homicídios injustos ou de crimes semelhantes, irmãos daqueles e iguais aos que soem praticar almas irmãs, de uma alma como essa todas se afastam, evitam-na, não havendo guia nem companheiro de jornada que com ela se associe. Tomada de grande perplexidade, vagueia por todos os lugares até escoar-se certo tempo, depois do que a arrasta a Necessidade para a moradia que lhe foi determinada. A que atravessou a vida com pureza e moderação e alcançou deuses por guias e companheiros de jornada, obtém moradia apropriada.</p>
<p>«A Terra apresenta um sem-número de lugares maravilhosos, não sendo nem tão extensa nem da forma como a imaginam os que se comprazem em discorrer a seu respeito, conforme alguém mo demonstrou.</p>
<p>(…)</p>
<p>« Do que vos expusemos, Símias, precisamos tudo fazer para em vida adquirir virtude e sabedoria, pois bela é a recompensa e infinitamente grande a esperança. Afirmar, de modo positivo, que tudo seja como acabei de expor, não é próprio de homem sensato; mas que deve ser assim mesmo ou quase assim no que diz respeito a nossas almas e suas moradas, sendo a alma imortal como se nos revelou, é proposição que me parece digna de fé e muito própria para recompensar-nos do risco em que incorremos por aceitá-la como tal. É um belo risco, eis o que precisamos dizer a nós mesmos à guisa da formula de encantamento. Essa é a razão de me ter alongado neste mito. Confiado nele; é que pode tranqüilizar-se com relação a sua alma o homem que passou a vida sem dar o menor apreço aos prazeres do corpo e aos cuidados especiais que este requer, por considerá-los estranhos a si mesmo e capazes de produzir, justamente, o efeito oposto. Todo entregue aos deleites da instrução, com os quais adornava a alma, não como se o fizesse com algo estranho a ela, porém como jóias da mais feliz indicação: comedimento, justiça, coragem, nobreza e verdade, espera o momento de partir para o Hades quando o destino o convocar. Vós também, Símias e Cebes, acrescentou, e todos os outros, tereis de fazer mais tarde essa viagem, cada um no seu tempo. A mim, porém, para falar como herói trágico, agora mesmo chama-me o destino. Mas esta quase na hora de tomar o banho. Acho melhor fazer isso antes de beber o veneno, para não dar às mulheres o trabalho de lavar o cadáver.»</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/183308/?franq=140868" target="_blank">Fédon – Da Alma</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o" target="_blank">Platão</a>.</p>
</blockquote>



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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 13:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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		<description><![CDATA[« Ante o espetáculo do mundo, em face de um objeto, o homem pergunta que é esse objeto. Exemplifiquemos: em face de uma árvore, pergunta: que é isso? A resposta seria: “é uma árvore”. « Se imaginássemos que o interrogante fosse um ser vindo de outro planeta, poderia ele prosseguir em seu diálogo com um [...]


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<p><img style="border-right-width: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Mário Ferreira" border="0" alt="Mário Ferreira" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/mario_ferreira2.jpg" width="304" height="210" /> </p>
<blockquote><p>« Ante o espetáculo do mundo, em face de um objeto, o homem pergunta que é esse objeto. Exemplifiquemos: em face de uma árvore, pergunta: que é isso? A resposta seria: “é uma árvore”.</p>
<p>« Se imaginássemos que o interrogante fosse um ser vindo de outro planeta, poderia ele prosseguir em seu diálogo com um homem, na seguinte forma: “em que consiste esta árvore? De que ela é feita?”. Responderia o outro: “Esta árvore é composta de matéria orgânica vegetal”. “Mas esta matéria orgânica vegetal — perguntaria o outro — em que consiste?” O interrogado responderia: consiste num conjunto de corpos minerais que são fornecidos pela terra, pelo ar. “Em que consistem estes minerais?” Tornaria a perguntar o interrogante. “Consistem em manifestações diversas da matéria”. E se essas perguntas prosseguissem nesse diapasão, fatalmente o interlocutor verificaria, afinal, que uma coisa consiste em ser feita de outra, e essa outra de outra, e assim sucessivamente, até formular esta pergunta: “Mas deve ter um fim. Há de haver algo que não seja outro, quer dizer, algo que compõe as outras coisas”.</p>
<p>« Realmente, pois se esse algo é composto de outras coisas, a pergunta prosseguiria. Portanto, deve haver, atrás de todas as coisas, algo que seja ele mesmo, que não seja outro, que não pode ser composto, pois se fosse composto seria constituído de outros.</p>
<p>« E como ele é o primeiro, é naturalmente simples. Portanto deve ser idêntico a si mesmo. Dessa forma, essa primeira coisa deve ser simples, uma, e idêntica a si mesma.</p>
<p>« Tinham os gregos uma palavra: <em>arkhê, </em>que encontramos muito usada em nossa língua, nas obras de filosofia, e grafada <em>arquê</em>, cuja significação mais simples é princípio, começo. Vemo-la em palavras como arcaico (antigo), arcaísmo, arquivo, arqueologia, e em palavras compostas como monarquia.</p>
<p>« Podemos aproveitar esta palavra para denominar o que buscam os filósofos: um princípio idêntico de todas as coisas. Uma razão suficiente de tudo quanto existe, um princípio de onde tudo decorre.</p>
<p>« Há, na filosofia, um desejo constante em todos os tempos: o de encontrar uma certeza, um ponto arquimédico de certeza.</p>
<p>« Arquimedes pedia uma alavanca e um ponto de apoio, e deslocaria o mundo. O ponto de apoio, que toda filosofia busca, é o princípio supremo, essa <em>arquê</em>.»</p>
</blockquote>
<p>Trecho de <em>Filosofia e Cosmovisão</em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Ferreira_dos_Santos" target="_blank">Mário Ferreira dos Santos</a>.</p>



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		<title>Friedrich Schiller: Cartas sobre a Educa&#231;&#227;o Est&#233;tica da Humanidade</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jul 2010 11:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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		<description><![CDATA[« Pela beleza o homem sensível é conduzido à forma e ao pensamento; pela beleza o homem espiritual é reconduzido à matéria e recupera o mundo sensível. « Disto segue, aparentemente, que, entre matéria e forma, entre passividade e ação, deva existir um estado intermediário, ao qual a beleza nos daria acesso. Este é o [...]


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<p><a href="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/schiller.jpg"><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 5px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="schiller" border="0" alt="schiller" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/schiller_thumb.jpg" width="248" height="334" /></a> </p>
<blockquote><p>« Pela beleza o homem sensível é conduzido à forma e ao pensamento; pela beleza o homem espiritual é reconduzido à matéria e recupera o mundo sensível.</p>
<p>« Disto segue, aparentemente, que, entre matéria e forma, entre passividade e ação, deva existir um estado intermediário, ao qual a beleza nos daria acesso. Este é o conceito que a maior parte dos homens forma, tão logo começa a refletir sobre os efeitos da beleza; toda a experiência parece confirmá-lo. De outro lado, porém, nada é mais desencontrado e contraditório do que um tal conceito, já que é infinita a distância entre matéria e forma, passividade e ação, sensação e pensamento, impossível de ser mediatizada por coisa alguma. Como superar, então, esta contradição? A beleza liga os estados opostos de sensação e pensamento, e ainda assim não há mediação entre os dois. A certeza daquilo nos vem pela experiência, a disto, imediatamente através da razão. </p>
<p>« Este é o ponto essencial a que leva toda indagação sobre a beleza; se chegarmos a uma solução satisfatória deste problema teremos encontrado o fio que irá conduzir-nos por todo o labirinto da estética.»</p>
<p>Carta XVIII — <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8512004509" target="_blank"><em>Cartas sobre a Educação Estética da Humanidade</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schiller" target="_blank">Friedrich Schiller</a>.</p>
</blockquote>



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		<title>Werner Heisenberg fala sobre o progresso tecnol&#243;gico</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jul 2010 12:10:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[« É claro que essas observações não devem ser entendidas como uma subestimação dos danos que possam ser feitos ou que, de fato, foram feitos às antigas tradições culturais, como resultado do progresso tecnológico. Todavia, levando-se em conta que esse processo já há muito escapou a qualquer controle das forças humanas, devemos aceitá-lo como uma [...]


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<p><img style="border-right-width: 0px; margin: 10px auto 5px; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Werner Heisenberg" border="0" alt="Werner Heisenberg" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/werner_heisenberg.jpg" width="260" height="324" /> </p>
<blockquote><p>« É claro que essas observações não devem ser entendidas como uma subestimação dos danos que possam ser feitos ou que, de fato, foram feitos às antigas tradições culturais, como resultado do progresso tecnológico. Todavia, levando-se em conta que esse processo já há muito escapou a qualquer controle das forças humanas, devemos aceitá-lo como uma das características mais essenciais do nosso tempo, e, em conseqüência, deveremos procurar relacioná-lo com as concepções culturais e religiosas anteriores. Talvez o leitor me permita, neste ponto, contar uma pequena estória legada pela religião hassídica. Era uma vez um rabino, famoso por sua sabedoria, a quem todos procuravam na necessidade de um conselho. Um dia um homem visitou-o, desesperado com todas as mudanças que ocorriam à sua volta, especialmente pelos males que sobrevinham do progresso técnico. “Todas essas coisas técnicas não prestam para nada, quando se considera os reais valores da vida, não é verdade?”, perguntou o visitante. “Pode ser que assim seja”, respondeu o rabino, “mas quem souber adotar a atitude correta, poderá aprender de qualquer situação”. “Não”, retrucou a visita, “nada se pode aprender de coisas tolas como estradas de ferro, telefones e telégrafos”. Mas o rabino persistiu: “Você está enganado. Uma ferrovia poderá ensinar-lhe que uns poucos segundos de atraso poderão pôr tudo a perder. O telégrafo poderá fazer-lhe entender que cada palavra conta e o telefone, que tudo o que falamos será ouvido em outro lugar”. O visitante compreendeu o sentido da lição e se foi.»      </p>
</blockquote>
<p><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Werner_Karl_Heisenberg" target="_blank">Werner Heisenberg</a> (1901 – 1976), in <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8523000941" target="_blank">Física e Filosofia</a>.</em></p>



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		<title>Pensamentos memor&#225;veis no romance Eumeswil, de Ernst J&#252;nger</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jul 2010 15:10:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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		<description><![CDATA[Do romance Eumeswil (1977), de Ernst Jünger, 454 páginas: « Onde a vida se apresenta sem véus, como na nudez, no rapto e nos antigos sacrifícios, paga-se em sangue e ouro. Que o ouro é melhor, o homem sabe e a mulher melhor ainda; e este saber sobreviverá aos Estados, por muitos que sejam os [...]


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</ol>]]></description>
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<p><a href="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/junger.jpg"><img style="margin: 10px auto 0px; display: block; float: none; border-width: 0px;" title="junger" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/junger_thumb.jpg" border="0" alt="junger" width="280" height="277" /></a></p>
<p>Do romance <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?palavra=eumeswil&amp;tipo_pesq=titulo&amp;sid=89638214612712574819703332&amp;k5=2BD25E95" target="_blank">Eumeswil</a> </em>(1977), de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_J%C3%BCnger" target="_blank">Ernst Jünger</a>, 454 páginas:</p>
<blockquote><p>
« Onde a vida se apresenta sem véus, como na nudez, no rapto e nos antigos sacrifícios, paga-se em sangue e ouro. <strong>Que o ouro é melhor, o homem sabe e a mulher melhor ainda</strong>; e este saber sobreviverá aos Estados, por muitos que sejam os que desmoronem ou floresçam.</p>
<p>« <strong>Tirar o ouro dos indivíduos, negar-lhes o direito a ele, eis o que tentam os Estados</strong>, enquanto o indivíduo procura escondê-lo de suas vistas. Querem “o melhor para ele”… por isso lhe tiram seu ouro e o armazenam em cofres e <strong>pagam com papel, cujo valor diminui a cada dia</strong>.</p>
<p>« <strong>Quanto mais domesticado é o homem, mais se deixa enganar por qualquer mentira</strong>. Mas o ouro é digno de fé. Tem seu valor em si, nele não há engodo. Esta realidade é patente entre nós; é uma das vantagens de Eumeswil.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Permito-me repetir que <strong>prefiro a história da cultura à dos Estados</strong>. Com aquela começa e acaba a humanidade. Portanto, concedo também maior importância à história da corte, inclusive seus amores e intrigas do que à história política e dos partidos. <strong>A história é feita pelos homens e, no máximo, regulada pelas leis; daí sua inesgotável capacidade de surpresas</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O cuidado com que o Domo utiliza a linguagem contrasta de modo estranho com o desalinho costumeiro em Eumeswil. <strong>Só se escutam frases desgastadas, de contornos imprecisos</strong> como as moedas do mendigo — e, naturalmente, <strong>mais nos lábios de universitários</strong> que no porto e no mercado. Nem sempre foi assim: os camponeses, os artesãos, os caçadores, os soldados, os velhacos sempre souberam utilizar imagens fortes.</p>
<p>« <strong>A “popularização” acabou com tudo isto</strong>. Para tanto contribuíram eumenistas do talento de um Sperling e um Kessmuller. <strong>O objetivo era acabar com a linguagem elevada</strong>. “O estilo é o homem”… era preciso acabar com isto; <strong>era preciso impedir que se reconhecesse a classe espiritual de um homem pelo seu modo de </strong><strong>falar</strong>. Surgiu aqui uma vulgarização da linguagem, que já não era própria nem dos de cima nem dos de baixo.</p>
<p>« Na verdade, nem todos os cálculos deram certo. Inclusive nas épocas em que desaparecem os bons marceneiros, um bom armário ou um simples tabuleiro bem-feito se destacam do resto. Igualmente, <strong>quando as elites são raras ou estão reduzidas a indivíduos isolados, as palavras claras, precisas, sólidas convencem o homem sem cultura — precisamente este, o não-deformado pela cultura</strong>. Ele pressente — e isto o tranqüiliza — que o poderoso, apesar de sua força, reconhece regras e leis. <em>Caesar non supra grammaticos.</em> Um consolo para épocas decadentes.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A tortura do historiador e sua transformação em <em>anarca </em>vem da convicção de que não se pode eliminar o cadáver e que sempre haverá novos enxames de abutres e moscas pressurosos ao seu redor… isto é, o pensamento de que, consideradas as coisas em seu conjunto, <strong>o mundo é imperfeito e deve ter havido desde o princípio algum erro de planejamento</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Rosner é um materialista da mais pura cepa e, como tal, <strong>inteligente demais para ser darwinista</strong>. Poderia ser considerado seguidor de certos neovitalitas.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>O contemporâneo só tem capacidade para configurar fatos</strong>. É contado como voto, como contribuinte e assalariado, como espécie que sobrevive nos arquivos dos registros civis e nos ministérios. <strong>Sua memória desce à sepultura junto com seus netos</strong>.</p>
<p>« <strong>A capacidade de configurar anedotas é mais poderosa, é fecunda em história</strong>. Nela se condensa o gênero com seus caracteres próprios; fixa-se durante séculos. Pelo cristal se conhece uma montanha e, pela moeda, um metal. Aqui não existe um privilégio de papas e imperadores: um monge, um camponês, um bufão podem fazê-lo com maior eficácia.</p>
<p>« <strong>A capacidade de configurar mitos é, em contrapartida, a-histórica</strong>, não está submetida a uma origem e uma evolução; repercute de maneira incalculável e imprevisível sobre a história. <strong>Não pertence ao tempo, e sim o cria</strong>.</p>
<p>« É por isso que <strong>em épocas de declínio</strong> em que a substância histórica está esgotada e já nem sequer consegue garantir a ordem zoológica da espécie, sempre se lhe viu indissoluvelmente acoplada <strong>uma expectativa surda e inexpressa</strong>. A teologia desaparece sob a areia, cede lugar à teognose: <strong>já não se quer saber nada mais sobre os deuses; quer-se vê-los.</strong>»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Em todo caso, <strong>o primeiro Estado Mundial teria sido inimaginável sem a repercussão niveladora da técnica</strong>, e mais concretamente da eletrônica… também poderia dizer-se (mais uma vez como Bruno) que “foi subproduto”. Vigo, que tem pela técnica uma antipatia visceral, concorda plenamente.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>O tirano será substituído pelo demagogo. O demagogo conduz o timão através do sistema de realizar plebiscitos quando bem lhe aprouver</strong>. <strong>A arte está no modo de formular a pergunta</strong>; se este ponto for bem resolvido, a resposta será esmagadoramente afirmativa, não só em virtude do número, como também em virtude da <strong>uniformização espiritual, que chegará até as elites</strong>.»</p>
<p>(…)<span id="more-654"></span></p>
<p>« O poder não se transforma totalmente em política; sempre alguns fatores pessoais se infiltram de forma inevitável. Esta é <strong>a fronteira na qual tanto os tiranos quanto os demagogos descambam em déspotas</strong>. Surge estão <strong>a obsessão, que ultrapassa o poder e freqüentemente beira o cômico</strong>. Apesar de sua voz fraca, Nero queria também ser o primeiro entre os cantores.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Os que têm há muito a experiência do poder conhecem sua estática e sua dinâmica; <strong>sabem movimentar os outros sem se mover de sua poltrona</strong>. Se um professor, um literato, um advogado chega ao poder, o comando o embriaga. Perde-se em imensos projetos; põe demasiado afinco em sua execução.</p>
<p>« Uma das censuras que meu pai costuma fazer ao Condor é que ele “não tem idéias”. Contudo, <strong>quando as idéias, mesmo as boas, entram nessas cabeças, costumam quase sempre ser funestas para o mundo</strong>. Aqui já presenciamos os espetáculos mais grotescos.</p>
<p>« <strong>A obsessão de igualdade dos demagogos é mais perigosa que a brutalidade dos galões…</strong> embora para o anarca as duas coisas sejam meramente teóricas, porque igualmente as repele. <strong>O oprimido pode voltar a se erguer, caso tenha conservado a vida. O homem igualado fica arruinado física e moralmente.</strong> Quem é diferente não é nosso igual. Eis uma das causas das freqüentes perseguições aos judeus.</p>
<p>« <strong>Iguala-se por baixo, como o barbear, a derrubada de árvores ou a instalação de baterias.</strong> Às vezes, o espírito do mundo parece se transformar em um arrepiante Procusto: alguém leu Rousseau e começa a praticar a igualdade cortando as cabeças ou, como dizia Mimie le Bon, “fazendo rolar os abricós”. Em Cambrai, as execuções da guilhotina serviam de aperitivo para a ceia. <strong>Os pigmeus encurtavam as pernas dos negros de estatura elevada para igualá-la à sua</strong>. Os negros brancos nivelavam as línguas cultas.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>A insatisfação de um homem espiritual</strong> é mais perigosa que a de um faminto.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>Um Estado sem riqueza é tão miserável quanto um Estado sem pobreza</strong>: é agradável contemplar o que a vida pode oferecer. É ótimo desembarcar em portos nos quais mulheres pintadas fazem sinais aos estrangeiros e os comerciantes oferecem mercadorias supérfluas; é o que torna a vida agradável. Uma vez comprei um papagaio e o soltei; os negros riram e me convidaram para um trago.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>As bancarrotas de Estados com grandes riquezas naturais agrícolas e minerais</strong> — como foi o caso do México — têm muitas causas, como a corrupção, o desperdício, o mau planejamento. A mania construtiva e o ânimo belicoso dos governantes, como no caso dos tribunos, custam caro aos povos. Em contrapartida, são de custo modesto os prazeres pessoais, ainda que tão duramente criticados. São as grandes idéias que atiçam mais o fogo.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Certa vez, numa de nossas conversas noturnas, Bruno afirmou que há <strong>três “mistérios patentes”</strong>: <strong>a serpente, os judeus e o ouro</strong>. “Aqui estão ainda indiferenciadas a bênção e a maldição, aqui fracassa a razão.”»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A <strong>utilização da eletricidade</strong> exerceu sobre a propriedade, e consequentemente sobre o dinheiro, uma influência mais profunda que a invenção do vapor.(…) Que <strong>o soldo</strong> é, não digo fictício, mas efetivo — isto é, está vinculado a uns lucros — nota-se bem no mundo do trabalho. No caso extremo, <strong>num blecaute, o soldo carece de valor, enquanto o ouro o conserva e até aumenta</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« O anarca, em contrapartida — digo-o simplificando —, <strong>está do lado do ouro — fascina-o, como tudo quanto se subtrai da sociedade</strong>. O ouro tem seu próprio poder incomensurável. Basta expô-lo para que a sociedade e sua ordem se desequilibrem. O anarca está do lado do ouro, mas <strong>não se deve tomar isto como se tivesse sede de ouro</strong>. Reconhece no ouro o poder central, imutável. Ama-o, não como Cortés, mas como Montezuma, não como Pizarro, mas como Atahualpa.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Estavam falando do <strong>sentido autêntico do trabalho</strong>, daquilo que o Domo denominava seu “<strong>gênio</strong>”. Ele afirmava que o trabalho no qual este gênio aflora, seja o de um entalhador, de um pintor ou de um ourives, valia “seu peso em ouro” e deveria ser pago de acordo com este valor. (…) Começou aludindo à aniquilação dos valores na era econômica. Teria sido como um corte através do corpo social, que paralisou todo o movimento superior e do qual nunca nos recuperamos. (…) o salário é estipulado segundo o tempo de trabalho e o número de peças produzidas; a qualidade fora substituída pela normalização. “<strong>O que Vossa Excelência denomina gênio está fora do tempo; por conseguinte, não está sujeito à medida nem pode ser pago segundo alguns critérios estabelecidos</strong>. Quando o gênio supera amplamente o talento, ou não é reconhecido, ou apenas o é de modo insuficiente. A obra de arte alcança alto preço só muito depois da morte de seu criador, que talvez tenha morrido na miséria. Entretanto o mais alto preço que se possa imaginar significa apenas que, na realidade, é uma obra que não tem preço. Neste aspecto, embora seja mimado por mecenas e príncipes, o gênio trabalha em vão. É como os deuses, que repartem gratuitamente seus dons.(…)”»</p>
<p>(…)</p>
<p>« …<strong>o gênio está fora do tempo</strong> e se limita  atuar dentro dele. Dessa forma estaria também fora da sociedade e seria independente dela — coisa que o anarca não pode deixar de aprovar.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>A escolarização obrigatória</strong> é, em essência, um meio de castração da força natural e de exploração. O mesmo se pode dizer do <strong>serviço militar obrigatório</strong>, desenvolvido nesse mesmo contexto. O anarca o repudia — como repudia as <strong>vacinações obrigatórias</strong> e os seguros de qualquer espécie.»</p></blockquote>



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		<title>Arthur Schopenhauer fala sobre as &#8220;duas literaturas&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 14:21:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[« Em todas as épocas, existem duas literaturas que caminham lado a lado e com muitas diferenças entre si: uma real e outra aparente. A primeira cresce até se tornar uma literatura permanente. Exercida por pessoas que vivem para a ciência ou para a poesia, ela segue seu caminho com seriedade e tranqüilidade, mas manifesta-se [...]


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<p><a href="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/schopenhauer.jpg"><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto 0px; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Arthur Schopenhauer" border="0" alt="Arthur Schopenhauer" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/schopenhauer_thumb.jpg" width="230" height="270" /></a> </p>
<blockquote><p>« Em todas as épocas, existem duas literaturas que caminham lado a lado e com muitas diferenças entre si: uma real e outra aparente. A primeira cresce até se tornar uma <em>literatura permanente</em>. Exercida por pessoas que vivem <em>para</em> a ciência ou <em>para</em> a poesia, ela segue seu caminho com seriedade e tranqüilidade, mas manifesta-se com lentidão, produzindo na Europa pouco menos de uma dúzia de obras por século, que, no entanto, <em>permanecem</em>. A outra, exercida por pessoas que vivem <em>da</em> ciência ou <em>da</em> poesia, anda a galope, com rumor e alarido por parte dos interessados, trazendo anualmente milhares de obras ao mercado. Após poucos anos, porém, as pessoas perguntam: Onde estão essas obras? Onde está sua glória tão prematura e ruidosa? Por isso, pode-se também chamar esta última de literatura que passa, e aquela, de literatura que fica.»</p>
<p><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Schopenhauer" target="_blank">Arthur Schopenhauer</a>, <em>Da leitura e dos livros</em> (in <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8533621027 " target="_blank">Sobre o ofício do escritor</a></em>).</p>
</blockquote>



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		<title>A Desobedi&#234;ncia Civil, de Henry David Thoreau</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 15:12:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[« Aceito com entusiasmo o lema &#34;O melhor governo é o que menos governa&#34;; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente.» (…) « Há seis anos que não pago o imposto per capita. Fui encarcerado certa vez por causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o tempo passava, fui observando as [...]


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<p><a href="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/06/Henry_David_Thoreau.jpg"><img style="border-right-width: 0px; margin: 5px auto 0px; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Henry_David_Thoreau" border="0" alt="Henry_David_Thoreau" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/06/Henry_David_Thoreau_thumb.jpg" width="178" height="244" /></a> </p>
<blockquote><p>« Aceito com entusiasmo o lema &quot;O melhor governo é o que menos governa&quot;; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Há seis anos que não pago o imposto <em>per capita</em>. Fui encarcerado certa vez por causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o tempo passava, fui observando as paredes de pedra sólida com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro com um pé de espessura e as grades de ferro que dificultam a entrada da luz, e não pude deixar de perceber a idiotice de uma instituição que me tratava como se eu fosse apenas carne e sangue e ossos a serem trancafiados. Fiquei especulando que ela devia ter concluído, finalmente, que aquela era a melhor forma de me usar e, também, que ela jamais cogitara de se aproveitar dos meus serviços de alguma outra maneira. Vi que apesar da grossa parede de pedra entre mim e os meus concidadãos, eles tinham uma muralha muito mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres quanto eu. Nem por um momento me senti confinado, e as paredes pareceram-me um desperdício descomunal de pedras e argamassa. O meu sentimento era de que eu tinha sido o único dos meus concidadãos a pagar o imposto. Estava claro que eles não sabiam como lidar comigo e que se comportavam como pessoas pouco educadas. Havia um erro crasso em cada ameaça e em cada saudação, pois eles pensavam que o meu maior desejo era o de estar do outro lado daquela parede de pedra. Não pude deixar de sorrir perante os cuidados com que fecharam a porta e trancaram as minhas reflexões &#8211; que os acompanhavam porta afora sem delongas ou dificuldade; e o perigo estava de fato contido nelas. Como eu estava fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agiram como meninos incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chute no cachorro do seu desafeto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável. </p>
<p>« Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de gênio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que podem me coagir são os que obedecem a uma lei mais alta do que a minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido <em>obrigados</em> por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando defronto um governo que me diz <em>&quot;A bolsa ou a vida!&quot;,</em> por que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele talvez esteja passando por um grande aperto, sem saber o que fazer. Não posso ajudá-lo. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu modo de ver quando sementes de carvalho e de castanheira caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma segue as suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível, até que uma por acaso acaba superando e destruindo a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então ela morre; o mesmo acontece com um homem.»       </p>
<p><em>A Desobediência Civil</em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_David_Thoreau" target="_blank">Henry David Thoreau</a>.       </p>
</blockquote>
<p>Baixe o ebook aqui: Note: There is a file embedded within this post, please visit this post to download the file.</p>



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		<title>Screenwriting &#8212;  Advice to Hollywood writers</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 13:42:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Palestra de Peter Kreeft, professor de filosofia no Boston College e no King&#8217;s College(New York), a respeito da arte de escrever roteiros de cinema. Entre outras coisas, ele trata do poder da imaginação — sendo o cinema seu veículo mais absorvente —, da possibilidade de se influenciar para o bem ou para o mal, da [...]


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<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="peter kreeft" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2009/11/peter_kreeft_thumb.jpg" border="0" alt="peter kreeft" width="138" height="113" /></p>
<p>Palestra de <a href="http://www.peterkreeft.com/about.htm" target="_blank">Peter Kreeft</a>, professor de filosofia no Boston College e no King&#8217;s College(New York), a respeito da arte de escrever roteiros de cinema.</p>
<p>Entre outras coisas, ele trata do poder da imaginação — sendo o cinema seu veículo mais absorvente —, da possibilidade de se influenciar para o bem ou para o mal, da influência divina no processo de criação, de como realmente se dá a originalidade, e assim por diante.</p>
<p>O áudio está em inglês.</p>
<p><a href="http://www.peterkreeft.com/audio/37_screenwriting/peter-kreeft_screenwriting.mp3">Download audio file (peter-kreeft_screenwriting.mp3)</a></p>
<p>&#8220;Imagination is the single most powerful force in the human soul.&#8221; (Pascal)</p>
<p>______</p>
<p><em>(Dica do </em><em><a href="http://twitter.com/silviogrimaldo" target="_blank">Silvio Grimaldo</a></em><em>.)</em></p>



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		<item>
		<title>Credo de Dom Quixote</title>
		<link>http://blogdo.yurivieira.com/2009/08/credo-de-dom-quixote/</link>
		<comments>http://blogdo.yurivieira.com/2009/08/credo-de-dom-quixote/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 13:07:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Do livro “Páginas várias”, de Mário Ferreira dos Santos, Editora Logos, Junho de 1960: “Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade. “Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na [...]


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<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-695" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="Salvador Dali - Don Quijote (1971)" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2009/08/SalvadorDali_Quijote1971.jpg" alt="Salvador Dali - Don Quijote (1971)" width="249" height="340" /></p>
<p>Do livro “Páginas várias”, de Mário Ferreira dos Santos, Editora Logos, Junho de 1960:</p>
<blockquote><p>“Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade.</p>
<p>“Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças.</p>
<p>“Creio na Coragem; no domínio dos desejos e no Amor Eterno.</p>
<p>“Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia.</p>
<p>“Creio na Cavalaria Andante, realização suprema do homem bom e viril.</p>
<p>“Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar e monstros que destruir.</p>
<p>“Creio na necessidade do mal para maior glória do Bem.</p>
<p>“Creio na noite para maior glória do Sol, e no Sol para maior glória da Lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.”</p></blockquote>



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