Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: História (Página 1 de 9)

Elvis & Nixon, o filme

Uma das melhores cenas do filme Elvis & Nixon — que retrata esse curioso encontro entre o “rei do rock” e o então presidente republicano — é aquela em que Presley, ao ser indagado por um agente secreto se está “portando armas ilegais”, responde de pronto que não, não está. Seguindo o protocolo — afinal, estão nos corredores da Casa Branca — o agente o submete a uma revista com detetor de metais, o qual logo emite zumbidos suspeitos. O sujeito então lhe pede para abrir o blazer, Elvis o obedece e vemos que carrega, sob o braço, num coldre branco, uma reluzente pistola dourada.

— Por que negou que estava portando uma arma? — torna o agente, com ar carrancudo.

— Não neguei — responde Elvis. — Você perguntou se eu estava portando alguma arma ‘ilegal’, e minhas armas são legalizadas. Nós — e ele também se referia a seus dois acompanhantes — temos autorização para portá-las.

O agente, pois, lhes pede para deixarem as armas sobre uma mesa. Elvis não apenas retira o coldre branco mas também, alçando a parte de trás do blazer, saca outra pistola das traseiras da cintura, arma que portava à socapa feito um gângster de filme policial. Seus dois acompanhantes também sacam suas próprias pistolas e as colocam sobre a mesa. Os olhares dos assessores do presidente Nixon e dos agentes secretos são impagáveis: um roqueiro pretendia entrar armado até os dentes no Salão Oval!

Em seguida, o agente quer saber que objeto é aquele que Elvis pretende entregar a Nixon.

— É apenas uma lembrancinha — diz, sacudindo uma caixa embalada em papel de presente.

Claro que o agente não se satisfaz e insiste que é sua obrigação averiguar o conteúdo daquele pacote. Resignado, Elvis lhe entrega a caixa, que é rapidamente aberta pelo agente: trata-se de uma caixa de madeira, com tampo de vidro, contendo uma bela pistola comemorativa da Segunda Guerra Mundial e dez balas de prata. O agente o encara como se estivesse observando um extraterrestre: “Esse cara é doido?”, deve ter pensado.

— Desculpe, mas eu mesmo entregarei seu presente ao presidente — diz o agente, categórico.

Elvis dá de ombros e, para alívio do assessor que o acompanha, finalmente se dirige para o Salão Oval. Antes de lá chegar, porém, o assessor lhe pede desculpas pela maçante eficiência do agente secreto que, obviamente, está apenas cumprindo seu dever.

— Não tão eficiente — retruca Elvis, levantando a barra da calça e mostrando um pequeno revólver escondido no cano da bota.

E o assessor, constrangido, não alertou ninguém, permitindo que Elvis se encontrasse com Nixon portando uma arma… sim, uma arma legalizada.

No mais, apesar de gostar do trabalho do Michael Shannon, não o achei uma boa escolha para interpretar o “rei do rock”: Elvis tinha um vozeirão, falava para fora, e Shannon parece o menino daquela piada, aquele que “foi lá fora chamar o pai para dentro”: quase não o ouvimos. (Sem falar que Elvis era um sujeito bonito e Shannon parece um vampiro anêmico.) Já Kevin Spacey, como sempre, faz um ótimo trabalho como Nixon. Não faço a menor idéia se os diálogos entre os dois foi reproduzido com fidelidade, mas o tom geral, da parte de Elvis, é: a juventude está perdida, os Estados Unidos se encaminham para um colapso moral e social e, claro, os Beatles têm culpa no cartório. Como resultado da visita, Elvis também é nomeado agente da narcóticos e, assim habilitado, pretendia infiltrar-se entre outros roqueiros para prender os drogados e comunistas. (Segundo um comentarista no YouTube, na verdade ele pretendia era apreender todas as drogas para usá-las ele mesmo. Sacanagem, claro.)

Memento mori

Os generais romanos, após uma vitória, desfilavam pela cidade numa biga acompanhados por um escravo a pé que, a cada tantos passos, lhes sussurrava: “Lembra-te de que és mortal!”. Hoje, ao menos aqui em casa, isso não é necessário: todo santo dia o telefone fixo toca e, quando o atendo, uma gravação diz: “Boa tarde! Aqui é da funerária blablablá e temos diversos planos, etc.”.

Calma. Um dia a gente chega lá.

Feliz #BitcoinPizzaDay!

Hoje, no Bitcoin Pizza Day, o valor da moeda chegou a 2.220 dólares. Dá até vertigem…

Por que #BitcoinPizzaDay? Porque hoje é o aniversário da primeira transação com bitcoins, na qual um sujeito, cansado de produzir a moeda em sua própria casa sem que ninguém a aceitasse como meio de troca, ofereceu num fórum 10.000 bitcoins para quem lhe arranjasse duas pizzas. As pizzas foram compradas por 24 dólares, mediante cartão de crédito, por um cara que, em troca, recebeu os 10.000 bitcoins. Esses 10.000 bitcoins valem hoje, sim, 22.200.000 dólares! A pizza mais cara do universo… (Bem, se não fosse essa transação, o Bitcoin jamais teria provado que vale como meio de troca, logo… feliz Pizza Day!)

Charles Dickens: sobre deputados e escarradeiras

Se há algum problema com os deputados federais brasileiros, esse problema não está em suas aparências, maneirismos, sotaques, costumes, conversas fiadas ou vontade de aparecer: mas simplesmente em sua falta de alta cultura. Na verdade, o problema do Brasil inteiro reside na falta de uma verdadeira alta cultura. Charles Dickens, quando esteve nos EUA em 1842, já havia feito uma observação superficial semelhante:

“Numa visita ao Capitólio, nos Estados Unidos, em 1842, Dickens ficou estarrecido com o comportamento desmazelado dos representantes eleitos da nação, especialmente com a incapacidade que demonstravam de acertar as escarradeiras com suas expectorações de tabaco mascado. ‘Eu recomendo firmemente a todos os estrangeiros que não olhem para o chão’, Dickens resmungou. ‘E, se por acaso derrubarem alguma coisa… não a apanhem de maneira alguma, a não ser que estejam usando luvas’.” (A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg, pág. 50.)

Contudo, o século XIX foi exatamente aquele que testemunhou o crescimento e o enriquecimento vertiginoso dos EUA. Alexis de Tocqueville, que havia estado por lá uns dez anos antes de Dickens, já havia vislumbrado as virtudes e o potencial daquele país. Mas precisamos lembrar sempre: um Capitólio no qual deputados caipiras cospem ao chão é infinitamente superior a um Congresso no qual deputados cospem uns nos outros. Se o Brasil quiser entrar nos eixos no correr dos próximos anos, que fique com os primeiros e se livre imediatamente dos segundos.
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“Tolerância” (Assim, entre aspas)

Eu nunca curto páginas de políticos simplesmente porque não ponho a mão no fogo por nenhum deles. E tampouco saio patrulhando quem curte páginas de políticos criminosos, tais como Lula ou Dilma. Mas já estou sendo patrulhado por ter descrito, posts atrás, uma situação concreta: durante o voto do Bolsonaro no impeachment, não ouvi nada do que ele disse porque, em Brasília, a multidão gritava “mito! mito!”. Sim, eu já o elogiei — aqui e no Twitter — sempre que ouvi dele algo que considerei correto. E já o critiquei quando deu algum “bom dia a cavalo” que me pareceu fora de lugar ou meramente estúpido. Defender Ustra foi um “bom dia a cavalo”, não pelo conteúdo, mas pelo momento escolhido: ele, tomado por indignação, estava reagindo à apologia que deputados esquerdistas, minutos antes, haviam feito a Marighella, um notório assassino. (Para a mentalidade atual, nada mais comum e digna de respeito do que homenagear terroristas revolucionários.) ¿E Ustra? ¿Foi realmente um torturador? Nunca o saberemos. Ora, aqueles que afirmam isso, sem apresentar qualquer cicatriz, são os mesmos a também jurar que nunca houve um Mensalão, que Lula, José Dirceu, José Genoino e Dilma não são bandidos, e que o Foro de São Paulo nunca conspirou para a criação de uma Pátria Grande bolivariana — em que pesem todas as provas a esses fatos.
 
Em nossa época, a tolerância só é válida para quem pensa semelhantemente — claro, contanto que se coadune com o pensamento hegemônico. A guerra pelas mentalidades é apenas um extensão da “guerra assimétrica”, tática revolucionária mais que manjada: de um lado, há o direito de se falar qualquer coisa e de se fazer tudo, até mesmo “o diabo”; do outro, bem… do outro, o oponente tem de respeitar sozinho todas as regras, todas as convenções, principalmente, é claro, as maledettas regras do “politicamente correto” — do contrário será difamado pelos séculos dos séculos. Portanto, toda liberdade de expressão a quem defende Marighella; nenhuma a quem defende alguém que lutou contra o estabelecimento de uma ditadura comunista no Brasil. Sim, era nisto que Ustra estava metido: numa guerra contra a esquerda revolucionária. E, ao contrário daqueles que julgam por ouvir dizer, não tenho conhecimento suficiente para saber quais foram seus erros e excessos. (¿Já pesquisou? Não há provas concretas!) Por isso, não entrarei nesse mérito. Apenas me parece estranho dar total voz a quem defende criminosos patentes e, simultaneamente, impedir a liberdade de expressão de quem defende um mero suspeito — suspeito de algo de menor gravidade que o assassinato. (E tampouco entrarei no mérito de que houve uma certa Lei da Anistia, etc. etc.)
 
Enfim, antes de me escreverem para indagar “como um cara inteligente e culto como você diz essas coisas”, pensem que talvez seja exatamente por ler e estudar muito que as digo.
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Publicado no Facebook.

10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

O furor esquerdista

“Que pode querer e esperar o homem sem Deus senão o reino do homem? Eis o que explica o transe dos discípulos [de Karl Marx]. (…) Mas todo socialismo é utópico, o científico em primeiro lugar. A utopia substitui Deus pelo futuro. Identifica então o futuro com a moral; o único valor que subsiste é o que serve esse mesmo futuro. Daí o ser ele quase sempre constrangedor ou autoritário. (…) aqui o desespero vale mais do que toda esperança (…). a redução de todos os valores unicamente à história autorizava as conseqüências mais extremas. (…) A reivindicação de justiça acaba em injustiça se não for primeiramente baseada numa justificação ética da justiça. Sem isso, o próprio crime acaba por se transformar um dia em dever. (…) Quando o mal e o bem são reintegrados no tempo [tornando-se imanentes], confundidos com os acontecimentos, tudo deixa de ser bom ou mau, mas unicamente prematuro ou desatualizado. Mais tarde — dizem os discípulos — poderão fazer os seus juízos. Mas as vítimas é que já não se encontrarão no mundo para estabelecer tais juízos. (…) Marx profetiza a sociedade sem classes e a resolução do mistério histórico. (…) contudo, abstém-se de fixar uma data. Ora, (…) os acontecimentos e os fatos esqueceram-se de vir enfileirar-se em sua síntese. (…) a esperança viva de milhões de homens [marxistas] não pode manter-se impunemente sem um prazo de realização. E chega o dia em que a decepção [desses discípulos] se encarrega de converter a esperança em furor (…).”

Albert Camus, em O Homem Revoltado.

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