Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Humor (Página 2 de 11)

A Síndrome do Salvador

Assim que o garçom se retirou, fitou o amigo nos olhos e lhe disse à queima roupa: — Conheci uma garota incrível! Tô apaixonado.

— Sério? Eu a conheço?

— Não, não. Não costuma freqüentar os mesmos lugares que a gente.

— E onde você a conheceu? Pelo Tinder?

— Quase. Foi pelo Happn.

— Nunca ouvi falar.

— É um aplicativo parecido. Mas não tem tantas barangas nele.

Os dois riram.

— E ela? — tornou o amigo. — Também gostou de você?

— Cara… A gente saiu, rolou o maior clima, ficamos…

— Porra, será que agora sai casório? A gente tá ficando velho, Marcelo. Eu pelo menos acabei de noivar. Você precisa ver como é bom ter alguém ao nosso lado.

O outro fez uma careta: — Calma, né. A gente acabou de se conhecer. Não quero assustar a figura. Ela só tem vinte e um anos.

— E daí? Minha mãe se casou com vinte e dois.

— Outra época, uê. Antigamente nego se casava porque, do contrário, só comeria putas. Se o Vinícius de Moraes fosse jovem hoje, não teria se casado tantas vezes.

— Sei. Antigamente na época dos nossos avós, você quer dizer. Nos anos setenta e oitenta já era quase como hoje. E, se o Vinícius estivesse na ativa hoje, seria como a gente: teria um monte de ex-namoradas e nenhuma estrutura, nenhum filho, necas de pitibiriba. Ele pelo menos, por se casar, se reproduzia. Mas é também por causa desse bando de pós-Vinícius que andam por aí que os islâmicos estão dominando tudo, multiplicando-se feito coelhos.

— Caraca! Suas conversas sempre terminam nos islâmicos! Quando a gente se conheceu, terminavam em Deus. Será que a gente pode voltar ao assunto?

— Ok, ok. Foi mal — e depois de tomar um gole da cerveja: — Então me fala da garota.

— Bom — e os olhos de Marcelo brilharam. — Ela é linda, inteligente, divertida, carinhosa, tem uma voz hipnotizante… e é gostosa, claro.

— Claro — e Tiago devolveu o sorriso.

— Só tem um problema…

— Ai ai… — fez o amigo, suspirando. — Lá vem: não me diga que se meteu de novo com outra garota de programa? Pelo amor de Deus, véio, você tem de parar com isso! Esse papo de salvar putas não dá certo não.

— Mas eu já convenci duas a largarem essa onda errada.

— Eu sei. Mas elas se casaram com você? Não, porque você foi apenas o… digamos assim, o terapeuta! Elas não iam querer ficar com um cara que conhecia o passado delas e que as atormentou tanto por conta disso. Ainda não entendeu? Vai repetir a dose?

— Mas eu não disse que essa figura de agora é garota de programa, cacete! E vê se fala baixo!

Tiago arqueou as sobrancelhas, curioso: — Ah, não? Qual é o problema então?

— Véio… — e fez um muxoxo. — Ela é uma esquerdista roxa! Adora a Dilma até hoje e acha que estão fazendo uma injustiça com o Lula…

O amigo abriu os abraços, rindo: — Uê! Mas você disse que ela era inteligente!

— Não começa, Tiago. Você sabe que não é uma questão de inteligência. É uma questão de valores! Ela submete a inteligência dela a valores equivocados, só isso.

— Ou seja, ela é burra.

— Puta merda! Por acaso o Graciliano Ramos era burro? O Jorge Amado era burro? O José Saramago era? Claro que não! Eles tinham era um problema de cognição, uma dificuldade de avaliar os fatos e reconhecer os verdadeiros valores, cada qual à sua escala, uns mais, outros menos. Isso nada tem a ver com inteligência. E a Andréia é super inteligente, tem um ótimo senso de humor… Ela logo logo vai entender que…

Tiago, sacudindo a cabeça, interrompeu-o: — Que bosta, véio! Você tá fodido.

— Ué, por quê?

— Agora tô achando que seria melhor mesmo você se apaixonar por uma puta de esquina.

— Ai, meu saco. Que papo é esse, Tiago? Deixe de ser radical!

— Não estou sendo radical: estou sendo é realista.

— Como assim?

— Marcelo, você não percebe que vai acontecer tudo de novo?

— Tudo o quê?

— Essa sua mania de salvar as garotas do mau caminho, velho! Vai ser como aconteceu com as duas garotas de programa: você vai torrar o saco da figura, vai falar um monte de coisas com as quais ela não concorda, vai desafiá-la, vai lhe provocar muitas dores de consciência, enfim, vai apenas deixá-la ferida e puta da vida. É como se você pegasse um pedaço de terra improdutiva, arrancasse suas ervas daninhas e suas pragas, a arasse, lhe revolvesse o solo e… seu talento principal… lhe jogasse as sementes. Só que você a machucará tanto nesse processo que ela não vai mais querer saber de você. O arado machuca, cara! Por orgulho, mesmo que mais tarde ela comece a mudar de valores, ela não aceitará permanecer com o sujeito que a fez cair das nuvens. Já disse, é como preparar a terra para o plantio: você poderá semeá-la, mas quem irá colher os frutos do seu labor não será você, mas, sim, um outro reaça dotado de uma colheitadeira. Você só tem as ferramentas de aragem e de semeadura. Se soubesse colher alguma coisa, não estaria nesse perene estado de busca. Eu pelo menos estou noivo da garota que namoro há três anos. Já você, fica pulando de galho em galho, preparando-os para outros passarinhos. Estou errado?

Marcelo ficou em silêncio, pensativo. Não queria dar o braço a torcer, mas tampouco sentiu que havia inverdades naquela observação. Voltou a bebericar da cerveja, o olhar distante.

— Bom, parece que você me entendeu, né — tornou Tiago, depois de um minuto. — Tome cuidado, hem.

— Cara… quer saber? Eu vou é arriscar!

— Porra, bicho! Não vacila!

— Bom, eu tenho um ótimo argumento. Quer ver?

— Ver? Eu quero é ouvir. Qual é o argumento?

Marcelo tomou o celular sobre a mesa, destravou-o e entrou na galeria de imagens. Por fim, estendeu o braço ao amigo: — Dá uma olhada na figura! Já pegou alguma garota assim na sua vida?

Tiago, de olhos esbugalhados, ia admirando as imagens que Marcelo lhe exibia: — Nã… não… — gaguejou.

Andréia era deslumbrante. Parecia uma super-modelo: esguia mas dotada das necessárias e imprescindíveis curvas, seio farto, a clavícula conspícua, os braços delgados e frágeis, a cabeça altiva, os cabelos longos, lisos e brilhantes, os olhos grandes de boneca, lábios deliciosos… e se vestia como uma princesa, extremamente feminina.

— Cara, você tem certeza que ela é petista? — indagou Tiago, muito impressionado.

— Ela tem uma foto abraçada com o Lula e outra com o José Dirceu no Facebook dela.

— Puts!… Queria ver isso. Qual o nome dela?

Marcelo lhe deu o nome completo.

— Vou pesquisar depois — tornou Tiago.

O outro sorriu, vitorioso: — Não disse que meu argumento era lacrador? Vai me dizer que não tenho razão em arriscar?

— Rapaz, eu acho que você deve ir com tudo! Faça a maior limpeza na cabeça dela! Eu sempre recomendo, antes de sugerir autores conservadores, que um esquerdista deve primeiro ler Krishnamurti, porque esse doido indiano é um ácido corrosivo que não deixa ilusão sobre ilusão na cabeça do sujeito. Depois literatura da boa: Dostoiévski, Wassermann, Bernanos, Chesterton… Só então você deve fazê-la ler o Olavo de Carvalho, o Mário Ferreira, o Scruton, o Voegelin… enfim, os de alto calibre filosófico. E aí… — e Tiago sorriu, maquiavélico.

— E aí o quê?

— Aí, daqui uns seis meses, depois que vocês terminarem, vou ficar espiando o Facebook dela. Vai levar um ou dois anos, imagino, para ela começar a frutificar e a postar umas coisas reaças. A essa altura, eu já terei rompido meu noivado e já terei comprado uma colheitadeira!

Marcelo deu um tapão na mesa: — Ah, véio, vá se foder!

Tiago deu uma gargalhada: — Vamo beber! Vamo beber!

Por que Bruno Tolentino chateava Hilda Hilst

Conforme escrevi n’O Garganta de Fogo em 2003, devido às “fofocas literárias” que eu andava postando, um amigo falecido em 2009, o escritor José Luis Mora Fuentes, me disse ao telefone que eu estava parecendo “a Hebe Camargo da literatura”. Bem, um dos temas de conversação mais apreciados pela Hilda Hilst — mediante a qual conheci Mora Fuentes — era justamente os detalhes bizarros e picantes da vida de autores consagrados já falecidos. Sim, é óbvio que essas informações não levam a nada, são futilidades e de nada ajudam na compreensão das respectivas obras, que muitas vezes permanecem além da compreensão do próprio autor. Contudo, se essas conversas não elevavam nossas almas, ao menos nos faziam dar muitas risadas. E todo esse preâmbulo é apenas para explicar por que, a certa altura da estada de Bruno Tolentino na Casa do Sol — residência de Hilda —, ela começou a se chatear com a presença dele.

Os amigos esquerdistas dela podem jurar de pés juntos que foi por causa da ligação dele com Olavo de Carvalho, ou porque ele, sozinho, já era muito reaça, ou então porque Bruno gostava de discorrer interminavelmente sobre o cânone literário e sobre o verdadeiro significado de cada escritor na história da literatura, coisa que, em seus últimos anos, aborrecia Hilda grandemente. Enfim, eu estava lá e não foi nada disso. O fato é que toda noite Hilda se punha diante da TV para assistir às suas novelas e, ainda de ir dormir, a um filme qualquer. Antes da chegada de Bruno, de modo geral, apenas eu e Hilda participávamos dessas sessões cinéfilas, recorrendo a um velho aparelho VHS. Noutras ocasiões, estavam também presentes o próprio Mora Fuentes, Edson Costa Duarte (amigo dela, mais conhecido pelo apelido de “Vivo”) e Chico, o caseiro. Hilda tinha grande intimidade conosco e se comportava como bem queria, sentada na sua poltrona, bebericando o seu uísque ou o seu vinho, entre os dedos o cigarro Chanceller (“o fino que satisfaz”) e assim por diante. E é nesse “assim por diante” que estava o busílis…

Uma noite, durante um dos muitos filmes a que assistíamos juntos, já acompanhados por Bruno Tolentino e por Antônio Ramos, seu secretário ex-morador de rua, Hilda permaneceu num silêncio constrangedor, evitando responder às perguntas e aos comentários feitos por Bruno ou por qualquer um de nós, tanto ao longo quanto ao final do filme. Naquela ocasião, ela parecia especialmente rabugenta, disparando-nos olhares ferinos em momentos que, em si mesmos, não traziam nenhuma pista das suas ocultas razões. Isto ocorreu, segundo minhas anotações, quando Bruno já estava na casa conosco havia quase nove meses. O caso é que Bruno, percebendo que não haveria debates sobre o filme, e já cansado, levantou-se da cadeirinha — ele jamais dividia o sofá com os inúmeros cachorros — e, acompanhado por Antônio, retirou-se para seus aposentos. Um ou dois minutos após sua partida, Hilda virou-se para mim e me perguntou quanto tempo Bruno ainda pretendia permanecer na casa.

— Não sei, Hilda. Mas ele deve viajar para o Rio, onde ficará hospedado com a velha babá dele.

— Não tenho nada contra o Tolentino — disse ela. — Mas acho que ele já devia ir embora.

Mora Fuentes, que era de esquerda e não simpatizava nem um pouco com os pontos de vista explicitados por Bruno em nossas inúmeras discussões, interveio:

— Uê, Hilda. Se você quiser, a gente conversa com ele.

Ela fez um muxoxo, suspirou e decidiu se explicar: — Ele parece levar tudo muito a sério, até quando conta anedotas. Se pelo menos eu me sentisse mais à vontade na presença dele…

Eu estranhei: — Uê, Hilda. E desde quando você não se sente à vontade na sua própria casa? Não vejo diferença.

— Não vê? — perguntou, fitando-me diretamente nos olhos. — Então ouça.

E então, apoiando os cotovelos na mesinha à sua frente — na qual conservava invariavelmente o cinzeiro e o copo de uísque — inclinou-se para frente, ergueu a bunda e, para nosso espanto, soltou um sonoro e interminável peido. Caímos na gargalhada.

— É verdade! — comentei. — Você nunca peida quando o Bruno está aqui na sala com a gente.

— Pois é, eu fico a ponto de explodir! — retrucou, com sua modulação de menina sapeca.

— Ai, Hildeta! — Mora Fuentes não parava de rir. — E qual o problema de peidar na frente do Bruno? Os incomodados que se mudem!

— Eu não! — tornou ela, cheia de dignidade. — Ele não está sempre nos contando que esteve na Academia Brasileira de Letras conversando não sei com quem? Cada vez que volta do Rio, ele traz uma fofoca nova de um escritor que eu nem sabia que ainda estava vivo. Se eu peidar na frente dele, logo todos os escritores do Brasil vão dizer que, além de eu ser uma velha louca com a casa abarrotada de cachorros, também sou uma desavergonhada peidorreira. Nem pensar.

No dia seguinte, tivemos de dizer ao Bruno que Hilda não andava muito bem de saúde e que desejava uma casa menos movimentada. Felizmente, aplacando nosso constrangimento, Bruno respondeu que havia acabado de encontrar outro lugar para morar e que, inclusive, já estava encaixotando suas coisas, o que era verdade. Em suma: Bruno Tolentino deixou a Casa do Sol… movido a gases!

Esperando Gordô

— Ei, ¿o que você tá fazendo sentadão aí?
— Tô esperando o Godot.
— Esperando ¿quem? ¿O Gordo?
— Não, o Godot.
— ¿Gordô? ¿Ele é francês?
— Não faço a menor idéia. E não tem letra erre na palavra.

Dias depois, chega outro funcionário.
— Ué, ¿vocês não têm nada para fazer, não?
— A gente tá esperando um gordo fancês.
— ¿”Fancês”? ¿Não seria um “francês”?
— Não, ele disse que não tem erre na palavra.
— Deixe de ser burro! Eu não sei se é francês! E o nome é Godot.
— ¿E ele é gordo, é?
— Ai, meu saco.

Semanas depois, aproxima-se um gordo de paletó e gravata.
— Por favor, vocês sabem onde fica a Polícia Federal?
— Aqui é a PF. ¿Você é Godot?
— Se eu engordei?!… Olha aqui, meu caro, ¿isso é lá jeito de tratar desconhecidos? Ora, faça-me o favor!… — e o gordo, irritado, encaminha-se para o lobby.

Meses depois, a espera continua.
— É… Pelo jeito esse Godot não vai chegar nunca.
— ¿E o que afinal você está querendo com esse cara?
— Ué. ¿Não sabe?
— Se soubesse, não estaria perguntando…
— Verdade.
— ¿E…?
— ¿E o quê?
— ¿Não vai responder minha pergunta?
— ¿Qual delas?
— Ai, ai… ¿O que você quer com esse Gordô?
— Godot!
— Tá! Tá! Godot! — e suspira. — ¿O que você quer com ele, caramba?
— Ele vai trazer a papelada.
— ¿Que papelada?
— Bom, a verdade é que ninguém tem certeza. Mas tudo indica que ele vai trazer a ordem de prisão do Lula…
— Puts. Então vamos esperar.
— Vamos. É o jeito.

Dilma in the sky with diamonds

Eu acreditaria na suposta tortura sofrida por Dilma se ela apresentasse um áudio, gravado em sua juventude, no qual falasse coisa com coisa, e não esse monte de solecismos e disparates a que estamos acostumados. Na ausência de cicatrizes, membros extirpados ou ossos calcificados (resultantes de fratura), só me restaria crer que sua suposta tortura — já negada por uma de suas camaradas — teria sido muito LSD na cabeça ou a aplicação de eletrochoques. No primeiro caso, seria difícil afirmar se ela mesma, com muita alegria e in the sky with diamonds, não teria imposto semelhante “tortura” a si mesma. No segundo, isto é, no caso de eletrochoques, ainda necessitaríamos da gravação referida: vai que, depois dos eletrochoques, ela não tenha até melhorado seu funcionamento cerebral…

Antivírus e laranjas

Tradução do “vá estudar” dos esquerdistas: “vá lavar seu cérebro com ideologia semelhante à nossa”. No, gracias.

A verdade é que não adianta discutir com mentalidades revolucionárias. Antes elas precisam passar pela terapia de ler Krishnamurti, cujo discurso formata o cérebro, apaga tudo. (Por isso, se suas convicções e sua fé não forem verdadeiras, pouco importando a natureza delas, cuidado com ele.)

Um debate, aliás, ao qual gostaria de assistir: Sócrates X Krishnamurti. ¿Quem daria um nó em quem? Bom, ainda aposto em Sócrates.

A caminho do “protesto a favor”, um petista é interpelado por Krishnamurti. Dez páginas depois, o petista está catatônico, dando boot no seu sistema mental.¿Reinstalará o mesmo sistema operacional? Não sabemos. Mas já dá para conversar com ele um bocado.

A caminho do “protesto a favor”, um petista passa pela Ágora e é interpelado por Sócrates. Dez páginas mais tarde, o petista não é mais petista. Sócrates desinstala o sistema bugado e reinstala um zero bala ao mesmo tempo.

Mas ambos, Sócrates e Krishnamurti, infelizmente, já não abordam voluntariamente ninguém. Passaram desta para melhor. Exigem atenção voluntária do interessado mediante livros. Por isso…

A caminho do “protesto a favor”, um petista passa por São Bernardo do Campo e é interpelado por Lula em plena calçada. Uma hora depois, o petista vira laranja…

É, o jeito é instalar o antivírus Moro.
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Postado em Março, no Facebook.

10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

¿Até tu, Satanás?

No final do dia, Satanás preparou seu uísque — cowboy, porque ali não havia gelo que resistisse —, ligou a TV e, refestelado em sua confortável poltrona de couro humano, se preparou para assistir a mais um episódio da série Breaking Bad. Estava entusiasmado, já que a vontade de poder aprisionava cada vez mais a alma do protagonista.

— É hoje que ele se entrega totalmente a mim!

Três bicadas de uísque e quatro minutos de episódio mais tarde, soou a campainha da frente.

— ¿Logo agora? ¿Quem será? — e, entre resmungos, já preparando uma bronca para o infeliz demônio subalterno que certamente o estava a buscar, levantou-se e foi abrir a porta. Soltava fogo escocês pelas ventas.

— ¿Senhor Satanás? — indagou um sujeito alto, moreno, vestido de colete preto e seguido por vários outros paramentados à mesma maneira.

— Sim. ¿Quem quer saber? — devolveu surpreso.

— Sou o delegado Luciano Flores da Polícia Federal do Brasil. Eis o mandado de prisão. O senhor vem conosco. Não resista.

Satanás arregalou os olhos: — Mas o que foi que eu fiz?!

— O senhor saberá assim que chamar um de seus inumeráveis advogados — e o delegado, com um gesto da cabeça, ordenou que o algemassem.

Nos dias seguintes, a imprensa se deleitou: com a prisão recente de Luiz Inácio Lula da Silva, que havia aceitado a delação premiada, finalmente chegaram a Satanás. Tratava-se da 666ª fase da Operação Lava Jato, apelidada de “Chefe do Lula”. Sim, afora o Príncipe dos Infernos, não havia sobrado mais ninguém para o bandido petista denunciar.

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Publicado no Facebook.

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