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	<title>Blog do Yuri &#187; Imaginação</title>
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	<description>palavras aos homens e mulheres da Madrugada</description>
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		<title>Stephen Hawking: como Deus escolheu o estado inicial do Universo?</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Dec 2010 15:01:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
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<p> 
<p><img title="Stephen Hawking" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="304" alt="Stephen Hawking" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/12/hawking_young2.jpg" width="230" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« A física parece ter descoberto um conjunto de leis que, dentro dos limites impostos pelo princípio da incerteza, nos dizem como o Universo vai evolver, se soubermos em que estado está em determinado momento. <strong>Estas leis podem ter sido decretadas por Deus</strong>, mas parece que Ele deixou depois o Universo evoluir segundo elas, sem intervir mais. <strong>Mas como é que Ele escolheu o estado ou configuração inicial do Universo?</strong> Quais foram as &quot;condições-fronteira&quot; no começo do tempo?</p>
<p>« Uma resposta possível é dizer que Deus escolheu a configuração inicial do Universo por razões que nunca compreenderemos. Isso estaria certamente dentro dos poderes de um ser omnipotente, mas <strong>se Ele o criou de uma maneira tão incompreensível, por que é que o deixou depois evoluir segundo leis que conseguimos compreender?</strong> Toda a história da ciência tem sido a compreensão gradual de que os acontecimentos não ocorrem de maneira arbitrária, mas que refletem certa ordem subjacente, que pode ou não ser de inspiração divina. Nada mais natural do que supor que essa ordem se aplica não apenas às leis, mas também às condições que, na fronteira do espaço-tempo, especificam o estado inicial do Universo. Pode haver grande número de modelos do Universo com diferentes condições iniciais que obedecem todos às leis. Devia haver algum princípio que determinasse um estado inicial e daí um modelo para representar o nosso Universo.</p>
<p>« Uma possibilidade é aquilo a que se chama condições-fronteira caóticas. Estas presumem implicitamente que o Universo é espacialmente infinito ou que há infinitamente muitos universos. Sob condições-fronteira caóticas, a probabilidade de descobrir uma região particular do espaço numa dada configuração logo após o <em>big bang</em> é a mesma, em certo sentido, que a probabilidade de a descobrir em qualquer outra configuração: o estado inicial do Universo é escolhido puramente ao acaso. Isto significa que o Universo, no princípio, era provavelmente muito irregular e caótico, por haver muito mais configurações caóticas e irregulares para o Universo do que regulares e ordenadas. (Se cada configuração é igualmente provável, é admissível que o Universo tenha tido início num estado desordenado e caótico, simplesmente por haver mais soluções destas). É difícil ver como é que tais condições iniciais caóticas podem ter dado origem a um Universo tão regular e sem acidentes, em macro-escala, como é o nosso atualmente. Também se esperaria que as flutuações de densidade em tal modelo tivessem levado à formação de mais buracos negros primevos do que o limite máximo imposto por observações da radiação gama de fundo.</p>
<p>« Se o Universo é mesmo espacialmente infinito, ou se há infinitamente muitos universos, haveria provavelmente muitas extensas regiões em algum local surgidas de uma maneira regular e uniforme. É um pouco como o bem conhecido bando de macacos a escrever à máquina; a maior parte do que escrevem não presta, mas ocasionalmente, por puro acaso, poderão escrever um soneto de Shakespeare. Igualmente, no caso do Universo, será que estamos a viver numa região que, por mero acaso, é regular e uniforme? À primeira vista, isto pode parecer muito pouco provável, porque regiões assim regulares seriam largamente ultrapassadas em número por regiões irregulares e caóticas. Porém, vamos supor que só nas regiões regulares é que se formaram galáxias e estrelas e que as condições eram adequadas ao desenvolvimento de complicados organismos auto-replicativos, como nós, que fossem capazes de fazer a pergunta: por que motivo o Universo é tão regular? Este é um exemplo da aplicação do chamado princípio antrópico, que pode ser parafraseado do seguinte modo: <strong>&quot;Nós vemos o Universo da maneira que é porque existimos&quot;</strong>.</p>
<p>« Há duas versões do princípio antrópico, a fraca e a forte. O princípio antrópico fraco afirma que, num universo que é grande ou infinito no espaço e/ou no tempo, as condições necessárias para o desenvolvimento de vida inteligente só se encontram em certas regiões limitadas no espaço e no tempo. Os seres inteligentes dessas regiões não devem, portanto, admirar-se por observarem que a sua localização no Universo satisfaz as condições necessárias à sua existência. É um pouco como uma pessoa muito rica que vive numa área de pessoas ricas e nunca vê a pobreza.</p>
<p>« Um exemplo da utilização do princípio antrópico fraco é explicar por que motivo o <em>big bang</em> ocorreu há cerca de dez bilhões de anos: porque é esse o tempo necessário para a evolução de seres inteligentes. Como já expliquei, começou por se formar uma primeira geração de estrelas. Essas estrelas converteram algum do hidrogênio e do hélio originais em elementos como o carbono e o oxigênio, dos quais somos formados. As estrelas então explodiram como supernovas e os seus detritos formaram outras estrelas e os planetas, entre eles os do nossos sistema solar, que tem cerca de cinco bilhões de anos de idade. Os primeiros um ou dois bilhões de anos da existência da Terra foram demasiado quentes para que qualquer coisa complicada se pudesse desenvolver. Os restantes três bilhões de anos, ou coisa parecida, foram ocupados pelo processo lento da evolução biológica, que foi desde os organismos mais simples até seres capazes de medir o tempo para trás, até ao <em>big bang</em>.</p>
<p>« Poucas pessoas argumentariam contra a validade ou utilidade do princípio antrópico fraco. Algumas, no entanto, vão muito mais além e propõem uma versão forte do princípio. De acordo com esta teoria, ou existem muitos universos diferentes ou muitas regiões diferentes num único universo, cada uma com a sua configuração inicial e, talvez, com o seu conjunto próprio de leis físicas. Na maior parte destes universos, as condições não seriam adequadas ao desenvolvimento de organismos complicados; só nos poucos universos semelhantes ao nosso é que se desenvolveriam seres inteligentes que fariam a pergunta: <strong>&quot;Por que é que o Universo é como o vemos?&quot; A resposta então é simples: se fosse diferente, não estaríamos aqui!</strong></p>
<p>« As leis da ciência, tal como as conhecemos atualmente, contêm muitos números fundamentais, como a magnitude da carga elétrica do elétron e a proporção das massas do próton e do elétron. Pelo menos de momento, não podemos prever os valores destes números a partir da teoria; temos de os medir por observação. Pode ser que um dia descubramos uma teoria unificada completa que preveja tudo isso, mas também é possível que alguns, ou todos eles, variem de universo para universo, ou dentro do mesmo universo. <strong>O que é notável é que os valores destes números parecem ter sido muito bem ajustados, para tornar possível o desenvolvimento da vida</strong>. Por exemplo, se a carga elétrica do elétron fosse apenas ligeiramente diferente, as estrelas ou seriam incapazes de queimar hidrogênio e hélio, ou então não teriam explodido. <strong>Claro que pode haver outras formas de vida inteligente, nem sequer sonhadas pelos escritores de ficção científica</strong>, que não precisem da luz de uma estrela como o Sol ou dos elementos químicos mais pesados que são sintetizados nas estrelas e devolvidos ao espaço quando as estrelas explodem. Todavia, parece claro que há relativamente poucas escalas de valores para os números que permitissem o desenvolvimento de qualquer forma de vida inteligente. A maioria dos conjuntos de valores daria origem a universos que, embora pudessem ser muito bonitos, não conteriam ninguém que se maravilhasse com essa beleza. <strong>Podemos tomar isto como prova de um propósito divino na Criação e na escolha das leis da natureza ou como suporte do princípio antrópico forte</strong>.</p>
<p>« Várias objeções se podem levantar contra o princípio antrópico forte como explicação do estado observável do Universo. Primeiro, em que sentido é que pode dizer-se que existem todos esses universos? Se estão realmente separados uns dos outros, o que acontece em outro universo não pode ter consequências observáveis no nosso Universo. Devemos, portanto, utilizar o princípio da economia e eliminá-los da teoria. Se, por outro lado, não são mais do que regiões diferentes de um único universo, as leis físicas seriam as mesmas em todas as regiões, porque, se assim não fosse, não se podia andar continuamente de uma região para outra. Neste caso, a única diferença entre as regiões seria a sua configuração inicial e, portanto, o princípio antrópico forte reduzir-se-ia ao fraco.</p>
<p>« Uma segunda objeção ao princípio antrópico forte é o fato de correr contra a maré da história da ciência. Desenvolvemo-lo a partir das cosmologias geocêntricas de Ptolomeu e dos seus antepassados, através da cosmologia heliocêntrica de Copérnico e de Galileu, até ao quadro moderno em que a Terra é um planeta de tamanho médio orbitando em redor de uma estrela média nos subúrbios de uma galáxia espiralada comum, que é apenas uma de cerca de um milhão de milhões de galáxias no Universo observável. Contudo, <strong>o princípio antrópico forte afirmaria que toda esta vasta construção existe simplesmente por nossa causa. O que é muito difícil de acreditar.</strong> O nosso sistema solar é certamente um pré-requisito para a nossa existência, e podemos abranger com isto toda a nossa Galáxia para justificar uma geração anterior de estrelas que criaram os elementos mais pesados. Mas não parece haver qualquer necessidade para todas as outras galáxias nem para o Universo ser tão uniforme e semelhante em todas as direções em macro-escala.</p>
<p>« Podíamos sentir-nos mais felizes quanto ao princípio antrópico, pelo menos na sua versão fraca, se pudéssemos mostrar que um vasto número de diferentes configurações iniciais para o Universo podiam ter evoluído para produzir um universo como o que observamos. Se for esse o caso, um universo que se desenvolveu ao acaso a partir de quaisquer condições iniciais devia conter um número de regiões regulares, uniformes e adequadas à evolução da vida inteligente. Por outro lado, se o estado inicial do Universo teve de ser escolhido com todo o cuidado para conduzir a qualquer coisa como o que vemos à nossa volta, seria improvável que o Universo contivesse <em>qualquer</em> região onde tivesse aparecido vida. No modelo quente (ou modelo padrão) do <em>big bang</em> já descrito, não houve tempo suficiente no estado inicial do Universo para o calor ir de uma região para outra.</p>
<p>« Isto significa que o estado inicial do Universo devia ter tido exatamente a mesma temperatura por toda a parte, para explicar o fato de a radiação de microondas de fundo ter a mesma temperatura, para onde quer que olhemos. A taxa inicial de expansão também devia ter sido escolhida com grande precisão para que se mantivesse tão próxima da razão crítica necessária para evitar o colapso. Isto significa que, <strong>se o modelo quente do <em>big bang</em> está certo até ao começo do tempo, o estado inicial do Universo deve ter sido realmente escolhido com grande cuidado. Seria muito difícil explicar o motivo pelo qual o Universo deve ter começado exatamente assim, exceto como ato de um deus que tencionava criar seres como nós</strong>.»</p>
<p>________</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=9726620104" target="_blank">Uma Breve História do Tempo</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Hawking" target="_blank">Stephen W. Hawking</a>.</p>
</blockquote>

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		<pubDate>Wed, 22 Dec 2010 05:57:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p> 
<p><img title="José Guilherme Merquior" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="229" alt="José Guilherme Merquior" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/12/merquior.jpg" width="228" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Depois que a crítica moderna descobriu, pela experiência de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz-Birkenau" target="_blank">Auschwitz</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_de_concentra%C3%A7%C3%A3o_de_Dachau" target="_blank">Dachau</a>, o realismo premonitório de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Kafka" target="_blank">Kafka</a>, depois que foi levada a revelar <strong>o visionário como origem mal disfarçada de muito realista tido por exemplar &#8211; <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/E._T._A._Hoffmann" target="_blank">Hoffmann</a> como fonte de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Honor%C3%A9_de_Balzac" target="_blank">Balzac</a></strong> &#8211; já não parece haver dúvida sobre a legitimidade do imaginário enquanto realismo. Resta apenas distinguir entre as modalidades realistas do próprio imaginário. Por que, com efeito, entre a linha de Kafka e a poética muriliana existem tantas diferenças? Admitindo o fato de que não advêm do maior ou menor valor estético nem da condição de poeta [<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Murilo_Mendes" target="_blank">Murilo Mendes</a>], por oposição à do prosador, qual o núcleo estilístico responsável por essa divergência de caminhos, dentro da esfera geral do <strong>realismo imaginário</strong>?</p>
<p>« Talvez seja preciso fundar <strong>uma distinção entre duas vias do realismo imaginário: entre a literatura do fantástico, e a literatura do visionário</strong>. Do fantástico foi Sartre quem nos deu uma penetrante fenomenologia. A descrição do mundo fantástico descobre-lhe as leis, a primeira das quais é a que exige, para a sua realização, que esse mundo seja completo. Se não obedecer a esse caráter de universo completo &#8211; universo totalmente fantástico -, nenhum extraordinário conseguirá assumir a condição fantástica. Sartre exemplifica com o caso das fábulas, nas quais o insólito, dado entre tantas outras coisas não insólitas, não chega nunca a virar fantástico. Na fábula, um cavalo põe-se a falar: é um acontecimento extraordinário. Mas ele fala em meio a árvores, a rios, a seres e coisas que permanecem, da maneira mais natural, obedecendo às leis do mundo em sua absoluta normalidade. Por causa disso, percebe-se logo que o cavalo é tão somente máscara; compreende-se que é um homem disfarçado &#8211; e reconduz-se o pseudo fantástico ao sistema das leis do mundo. A fábula finge o fantástico; não o cria verdadeiramente. Se o cavalo falante fosse realmente fantástico, o universo inteiro também o seria, e cada coisa, cada ser violaria, tanto quanto o cavalo, a legalidade da natureza. <strong>O fantástico só se realiza quando o extraordinário abrange um universo completo.</strong> Porém desse universo, que rompe a norma do natural, <strong>qual é a lei suprema, a lei que autoriza a inversão das regras ordinárias? É a revolta dos meios contra os fins, responde Sartre. No mundo do fantástico, os objetos-meios se esquivam ao nosso uso, rebelam-se contra os fins que lhes são normalmente assinalados</strong>. No romance de que Sartre partiu para teorizar sobre o fantástico, um personagem tem um encontro no primeiro andar de um café. Chegado a este, ele vê perfeitamente que o primeiro andar ,existe, vê as mesas dos fregueses lá em cima &#8211; só não vê, por mais que a procure, a escada, ou elevador, que possa fazê-lo chegar lá. A escada é um meio rebelde, cuja rebelião adquire a forma da pura ausência. A impotência do herói diante desse meio-fantasma nada tem a ver, observa Sartre, com a impotência humana diante do absurdo. Na <strong>literatura do absurdo</strong> (em seu modelo perfeito, <em>L’Étranger</em> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus" target="_blank">Camus</a>), em lugar da rebelião dos meios, acontece <strong>a pura ausência de fim</strong>, de qualquer fim. &quot;Les hommes aussi sécretent de l&#8217;inhumain&quot;, diz Camus em <em>Le Mythe de Sisyphe</em>, e o inumano segregado é a consciência passiva, mecânica, que renunciou a elaborar significações e portanto a designar finalidades. O homem que constata o absurdo renuncia a todos os projetos; não reconhece mais nenhuma finalidade. <strong>O herói do mundo fantástico, entretanto, continua perseguindo os fins num universo que a insolência dos meios torna hostil, torna cruel, torna indecifrável &#8211; mas não absurdo</strong>. O mesmo Sartre separa Kafka de Camus, sob a alegação de que, no primeiro, o mundo não é sem sentido; é, isso sim, um mundo de sentido angustiantemente oculto, universo de cifras intraduzíveis. A cifra indecifrável, o texto ilegível, são manifestações da rebeldia dos meios naquilo que é o meio por excelência: a mensagem. <strong>As mensagens, objeto cuja existência se resume em comunicar, em consumir-se como ponte, como contato entre pólos, emissor e receptor, estão sempre descumprindo sua função, no plano do fantástico.</strong> Nunca transmitem normalmente: ora desaparecem, ora transmitem em falso, ora transmitem à pessoa errada. Texto rebelde, <strong>as mensagens, comunicação essencial entre os homens, correspondem no fantástico à sociedade burocrata</strong>, onde os próprios homens, num universo de meios rebeldes, se fazem meios. Os burocratas de Kafka são simples utensílios. Como utensílios, são os representantes de um mundo invertido, onde o sujeito de todas as finalidades, o homem, degrada-se em instrumento puro, enquanto os instrumentos recusam-se a servir.</p>
<p>« <strong>Se o fantástico é um universo completo</strong>, vale dizer, onde tudo é homogeneamente extraordinário, <strong>no plano do visionário o mundo é, diversamente, um universo misto</strong>. Misto ou híbrido, <strong>no universo visionário convivem o insólito e o natural o maravilhoso e o vulgar</strong>. O plano do visionário é eminentemente transitivo: nele, o espantoso irrompe e desaparece com a mesma naturalidade. Seu ingresso abrupto, e sua não menos brusca reconversão ao natural, são fenômenos freqüentes numa esfera em permanente processo. Em oposição ao estático do fantástico, <strong>o mundo visionário é vivamente dinâmico</strong>. Heterogêneo, <strong>aí se chocam vários elementos contraditórios</strong>, num procedimento dialético jamais reduzido à imobilidade. Nenhuma situação é fixa; nenhuma se exime de ser envolvida pelo processo. Assim, se os meios às vezes se rebelam, se os utensílios ameaçam trair sua função, nunca se pode dizer, do homem desse universo, que tenha perdido sem apelação a liberdade de sua consciência. <strong>O habitante do visionário não é, como o do fantástico, um burocrata medular. Ele perde-e-recupera, perde-mas-recupera o seu status humano de detentor supremo de finalidades</strong>. Tampouco habita um mundo sem significação (absurdo), ou de significação irremediavelmente oculta (fantástico). Por mais que vacile, por mais que se contradiga, <strong>atribui sempre ao mundo um sentido inteligível, de leitura parcial e não raro difícil, mas nunca impossível.</strong> A concepção do mundo do visionário é, portanto, aberta ao entendimento de uma lógica do acontecer, de uma razão histórica e de uma ordem temporal &#8211; embora não seja esta simplesmente linear.</p>
<p>« Se é possível estabelecer uma distinção entre as técnicas de representação derivadas dessa diferença de visão global, deverá ser dito que <strong>a literatura do fantástico se funda no uso de um estilo alegórico, ao passo que a literatura do visionário se encarna num estilo de natureza preferencialmente simbólica</strong>. O uso poético da alegoria foi definido, em grande profundidade, no ensaio de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin" target="_blank">Walter Benjamin</a> sobre o drama barroco alemão (publicado em 1928; redigido, como tese universitária, alguns anos antes). Suas conclusões foram em parte aproveitadas por Lukács num ensaio do livro <em>Die Gegenwartsbedeutung des kritischen Realismus</em>. Benjamim, embora oficialmente estudando apenas a tragédia barroca, na realidade desenvolveu uma <strong>teoria do estilo alegórico como fundamento da literatura de vanguarda contemporânea</strong>, com especial aplicação a Kafka, autor a quem dedicou outro de seus ensaios. Para ele, <strong>a alegoria fixa o sentido da temporalidade como certeza da morte e da decadência</strong>. No estilo alegórico, a significação de todo fluir está ligada aos motivos do pessimismo e à revelação do vazio da existência. &quot;<strong>As alegorias são no reino das idéias o que as ruínas são no reino das coisas</strong>&quot;. No estilo alegórico, toda a significação do real se encontra na caducidade, na &quot;paixão do mundo&quot; em que se transforma a <strong>História como pura vocação para o nada</strong>; e por isso mesmo, toda singularidade, toda coisa, pessoa ou relação pode vir a representar qualquer coisa: pois o mundo profano, mundo sem sentido, embaralha as significações em virtude da sua completa privação de valores. <strong>As relações da literatura do fantástico com o estilo alegórico são patentes</strong>. Benjamim cita as palavras do próprio Kafka: &quot;<strong>A mais profunda das experiências vividas é a de um mundo rigorosamente sem sentido, que exc1ui toda esperança, e que é o nosso mundo, o mundo do homem, do homem burguês contemporâneo</strong>&quot;. Kafka concebe o universo como um sem-sentido. Benjamim insiste numa interpretação antibrodiana de Kafka. Segundo sua linha de análise, <strong>Kafka é um ateu</strong>, não do tipo progressista, que afasta Deus do mundo para liberar este último do controle transcendente, mas sim &#8211; como nota Lukács &#8211; <strong>do tipo niilista que imagina um mundo abandonado por Deus para figurá-lo inteiramente despojado de significação, e sem nenhum vislumbre consolador</strong>. O Deus de Kafka, os juízes supremos de <em>O Processo</em>, a administração de <em>O Castelo</em>, são &quot;a transcendência das alegorias kafkianas: o nada&quot; (Lukács). Esse nada transcendente é o fundamento único de todo existente; em conseqüência, mesmo sendo um observador, um narrador de extraordinária vividez no detalhe, na minúcia de cada cena, Kafka não nega com isso a constatação da ausência de sentido deste mundo, a que um transcendente aniquilado e aniquilador retirou para sempre qualquer significação. <strong>Tudo neste nosso mundo é, para Kafka, fantasmagórico.</strong> A realidade concreta não passa de espectro. Eis a razão porque mesmo a cena mais banal desperta tanta atenção de Kafka &#8211; precisamente por seu caráter de pesadelo, de sonho absurdo, de história do outro mundo, em suma: de episódio fantástico. A transcendência, sendo nada, aniquila o sentido deste mundo e dos projetos humanos. <strong>A consciência alegórica</strong>, que se representa esse universo, <strong>é prisioneira e passiva</strong>, consciência congelada e melancólica, privada de iniciativa e de liberdade. <strong>O surgimento do &quot;mundo invertido&quot; é o sintoma corrente da subtração da finalidade (subtração do projeto humano) a que a transcendência submeteu a terra. A consciência antropomórfica da angústia vê isso como &quot;rebelião dos meios&quot;</strong>. O estilo fantástico ancora nessa visão, já descrita por Sartre. A literatura do absurdo ultrapassa a consciência do mundo sem sentido em sua forma antropológica, de modo que, em lugar de representar uma rebelião dos utensílios, simplesmente se representa esse universo na própria razão da aparente revolta dos meios, ou seja: na sua absoluta carência de sentido. Mas, a partir da apreensão, pela consciência, do sintoma da rebelião dos utensílios e da metamorfose do homem sem projeto em simples instrumento, tudo aparece como insólito, ainda o mais banal e mais vulgar, porque o universo em que essa &quot;rebelião&quot; se dá, o mundo em que irrompe essa inversão da legalidade natural, é um mundo fechado, completo, homogeneamente fantástico. Porque tudo parece estranho, cada cena e cada singularidade provoca intensamente a atenção do narrador. A vividez narrativa de Kafka &#8211; a lucidez minuciosa de seu estilo &#8211; não é portanto casual. <strong>Em relação à alegoria, base da literatura do fantástico, esse amor pelo detalhe não é uma contingência: também ele faz parte da essência da alegoria, e igualmente encontra razão no próprio núcleo do fantástico</strong>.</p>
<p>« <strong>A técnica da representação simbólica já pertence a uma outra visão. O símbolo é, goetheanamente, o universal no concreto</strong>. Em termos hegelianos e lukacsianos, confunde-se com a manifestação no estilo da categoria estética da particularidade, que é o ponto nodal do processo dialético e da passagem do singular ao universal (e vice-versa). <strong>Particular, típico ou simbólico será o personagem (ou a imagem lírica) que, sem deixar de oferecer características concretas e presença material, representa a concentração, num exemplo, das tendências gerais do dinamismo histórico e da temporalidade objetiva</strong>. E porque essas tendências raramente estão isentas de contradição, <strong>o típico simbólico não sustenta a figuração de um mundo homogêneo, mas sim de um universo heterogêneo, campo de contrários, área mista</strong>, terreno onde coexistem diversos pólos opostos em contínuo movimento e variadas posições.</p>
<p>« A distinção entre uma literatura do fantástico e uma literatura do visionário está potencialmente confirmada pelos modernos estudos a que, sob a influência do processo de revisão do maneirismo como estilo cultural, a crítica moderna submeteu <strong>o conceito de literatura (e de arte) do grotesco</strong>. Exponencial, entre esses estudos, é o livro de <a href="http://de.wikipedia.org/wiki/Wolfgang_Kayser" target="_blank">Wolfgang Kayser</a>, <em>Das Groteske</em>, de 1957. <strong>Kayser propôs a arte grotesca como revelação de um mundo sem sentido, e da desorientação humana frente a ele</strong>. As deformações grotescas indicariam a insignificação do mundo. Por isso mesmo, <strong>as distorções que, por mais aberrantes, ainda possuam certa orientação satírica, derivada do desejo de censurar os desvios de conduta e os vícios da ação do homem, não seriam verdadeiramente grotescas</strong>. O universo infernal de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hieronymus_Bosch" target="_blank">Bosch</a>, por exemplo &#8211; que encontra sentido numa interpretação cristã do ser &#8211; não configura o grotesco autêntico, exatamente porque <strong>Bosch, por mais que pinte aberrações, é ainda senhor de uma compreensão e de uma inteligência do mundo</strong>; ao passo que o universo de <strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pieter_Bruegel_o_velho" target="_blank">Brueghel</a>, já liberado de coordenadas explicativas, denunciaria, não o infernal (que supõe o celestial), mas sim o puro sinistro (que só supõe o absurdo)</strong>. Em nossos termos, <strong>Bosch, pintor do pecado, seria um visionário</strong>; quanto a <strong>Brueghel, deformador solitário, intérprete sem chave conhecida da existência, seria já um fantástico</strong>. Bosch, sobrevivência medieval, ainda detém a segurança da visão cristã; Brueghel, artista problemático do estilo problemático que foi o maneirismo, já não conserva nem mesmo o refúgio de uma tal certeza. Aproveitando o exame de Kayser, é possível distinguir de forma equivalente entre Hoffmann e Kafka, ou seja, entre as alucinações do romantismo e as fantasmagorias da literatura moderna.</p>
<p>« Seria fácil demonstrar que <strong>essa fronteira se dá também na arte contemporânea</strong>. Depois do cortante estudo de Sartre sobre Wols (em <em>Situations IV</em>, 1964, originalmente prefácio a um volume de desenhos e aquarelas do pintor), seria tranqüilo repetir, entre <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Wols" target="_blank">Wols</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Klee" target="_blank">Klee</a>, o mesmo jogo diferenciador que se armou entre Brueghel e Bosch. Com efeito: para Paul Klee, para além da aparência sensível dos objetos, o ato de criação artística estabelece um comércio vivo entre pintor e modelo, de modo que um revela o outro, ambos participantes de uma mesma totalidade dinâmica. &quot;Le Voyant est chose vue, la Voyance s&#8217;enracine dans la visibilité&quot;, diz Sartre: o pintor supera a aparência sensível imediata percebendo uma união de essência entre ele próprio e seu modelo; e, simultaneamente, o mundo exterior lhe fornece essa visão, em que objeto e sujeito devolvem um ao outro o seu reflexo. As formas abstratas são para Klee o resultado de uma contínua observação da natureza; mas a grande revelação do cosmos ao artista é a de que todos os seres podem servir de símbolo de um processo, de signo do movimento do universo, que o pintor descobre em si e prolonga por sua obra. Desse ângulo, o ser se define pela praxis criadora. Parte de um tal todo, sua participação é funcionalmente ativada pelo artista. A arte de Klee, agudamente denominada &quot;realismo operatório&quot;, é uma disciplina onde se impõe a consideração da função dinâmica sobre a da forma acabada, onde &quot;se aprende a reconhecer as formas subjacentes, a pré-história do visível&quot; (Jean-Louis Perrier). <strong>Para Klee, o mundo é um perpétuo a fazer: visão cristã e fáustica da realidade.</strong> A seu lado, <strong>Wols é um nirvanista oriental, um fugitivo de toda ação. Seus preceitos são a apologia da passividade: &quot;a cada instante, em cada coisa, existe a Eternidade&quot;</strong>; &quot;quando se vê, não é preciso nos encarniçarmos sobre o que se poderia fazer com o que se vê, mas apenas ver o que é&quot;. O mundo de Wols não é uma totalidade que o artista contribui para unificar, é uma unidade incriada, &quot;feita&quot; de uma vez por todas. Klee age sobre o ser; Wols padece os objetos. A teoria do conhecimento de Wols, de colorido ético-oriental, é precisamente a atitude epistemológica de Schopenhauer, de quem Cassirer disse genialmente que foi a primeira a substituir a apreensão do real pelo padecimento do mundo. O indivíduo, o homem, a ordem reconhecida das coisas, tudo perde com Wols a sua identidade originária; tudo se dana e se aniquila. O visionário Klee pinta o universo do múltiplo e dinâmico; o fantástico Wols, tornando todo objeto incaracterístico, indefine tudo para a submersão final no Uno estático, imovelmente existindo sobre a nossa abdicação do gesto, do querer e do fazer. A diferença entre ambos sela a sorte do abstracionismo contemporâneo, que passou de fáustico a ascético, do construtivismo à renúncia &quot;lírica&quot;.»</p>
<p> _______     </p>
<p>MURILO MENDES: ou a poética do visionário, in <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=150870&amp;id_link=6808&amp;tipo=2" target="_blank"><em>Razão do poema</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Guilherme_Merquior" target="_blank">José Guilherme Merquior</a>. </p></blockquote>

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		<title>A amizade e o entusiasmo pela vida</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Dec 2010 17:23:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#34;O isolamento tende a exaurir a carga de energia da alma. A associação com os semelhantes é essencial para a renovação do gosto pela vida e é indispensável à manutenção da coragem para lutar nas batalhas conseqüentes da ascensão aos níveis mais elevados da vida humana. A amizade intensifica as alegrias e glorifica os triunfos [...]
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<p> 
<p><img title="urantia" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="204" alt="urantia" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/12/urantia.jpg" width="247" border="0" /> </p>
<blockquote><p>&quot;O isolamento tende a exaurir a carga de energia da alma. A associação com os semelhantes é essencial para a renovação do gosto pela vida e é indispensável à manutenção da coragem para lutar nas batalhas conseqüentes da ascensão aos níveis mais elevados da vida humana. A amizade intensifica as alegrias e glorifica os triunfos na vida. As ligações humanas de amor e intimidade tendem a aliviar o sofrimento das penas da vida e a dificuldade de muitas amarguras. A presença de um amigo acentua toda a beleza e exalta toda a bondade. Por meio de símbolos inteligentes, o homem torna-se capaz de vivificar e aumentar as capacidades de apreciação dos seus amigos. <strong>Uma das glórias que coroam as amizades humanas é esse poder e possibilidade de estímulo mútuo da imaginação. Um grande poder espiritual é inerente à consciência da devoção, de todo o coração, a uma causa comum, à lealdade mútua a uma Deidade cósmica</strong>.&quot;</p>
<p>_________</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=1883395259 " target="_blank">The Urantia Book</a></em> &#8211; <a href="http://www.urantia.org/pt/o-livro-de-urantia/documento-160-rodam-alexandria" target="_blank">Documento 160: Rodam de Alexandria</a></p>
</blockquote>

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		<title>Ray Bradbury, o contribuinte e a viagem a Marte</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 18:31:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px" title="Ray Bradbury" border="0" alt="Ray Bradbury" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/11/ray_bradbury.jpg" width="280" height="186" /> </p>
<blockquote><h4>&#160;&#160; Março de 2000: O contribuinte</h4>
<p>Ele queria ir a Marte no foguete. Foi até o campo de foguetes de manhã cedo e gritou através da cerca de arame, para os homens fardados, que queria ir a Marte. Disse-lhes que era um contribuinte, chamava-se Pritchard e tinha todo o direito de ir a Marte. Não havia nascido ali em Ohio? Não era um cidadão cumpridor de seus deveres? Então por que não podia ir a Marte? Sacudiu o punho cerrado na direção deles e disse-lhes que queria ir embora da Terra, que <strong>qualquer pessoa com a cabeça no lugar queria ir embora da Terra</strong>. Dentro de dois anos iria ser desencadeada uma enorme guerra atômica na Terra e ele não queria estar ali quando isso acontecesse. Ele e milhares de outros como ele, se tivessem bom senso, quereriam ir para Marte. <strong>Pergunte-lhes se não quereriam! Ficar longe de guerras, censuras, estatizações, conscrição, controle governamental disto e daquilo, da arte e da ciência! Vocês podem ficar com a Terra!</strong> Estava lhes oferecendo sua mão direita, seu coração, sua cabeça, pela oportunidade de ir para Marte! Que se devia fazer, que se devia assinar, que se devia saber para embarcar no foguete?      <br />_________</p>
<p><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/1069163/?franq=140868" target="_blank"><em>As Crônicas Marcianas</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ray_Bradbury" target="_blank">Ray Bradbury</a>.      </p>
</blockquote>

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		<pubDate>Mon, 08 Nov 2010 17:04:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p>&#160;<img style="border-right-width: 0px; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; border-left-width: 0px; margin-right: auto" title="J.J. Benítez e Jules Verne" border="0" alt="J.J. Benítez e Jules Verne" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/11/benitez_verne.jpg" width="355" height="197" /> </p>
<blockquote><p>Siempre lo dije. Una de las posibles claves del éxito de mis libros se asienta en la verosimilitud de cuanto escribo. Todo ha sido escrupulosamente verificado de la mano de la ciencia. Ello explica la confianza y, en ocasiones, la extrema e ingenua credulidad de los lectores, que no atinan a distinguir la realidad de la ficción. Y dime, viejo tramposo, ¿puede darse algo más hermoso y romántico?</p>
<p>La gente sueña despierta, olvidando, aunque sólo sea momentánea y temporalmente, sus más inmediatas y prosaicas realidades. ¡Viva Verne, sí, señor! En 1865, a raíz de la publicación en el <i>Journal des Débats </i>de mi novela <i>De la Tierra a la Luna, </i>sucedió algo prodigioso y tierno. Conforme iban apareciendo los capítulos del libro, los ciudadanos fueron volcándose en la acción y en la trama, compartiendo las venturas y desventuras del héroe: Ardan. ¡Cientos de lectores escribieron al periódico solicitando una plaza en el obús que debía viajar a la Luna! ¿Hay algo más sublime? ¡Y para qué vamos a hablar de <i>La vuelta al mundo en ochenta días! </i>¿Julio Verne un &quot;iluminado&quot;? ¿Cómo pudo prever este loco semejante audacia? Los lectores me preguntan y se hacen cruces, perplejos ante mi &quot;profecía&quot;. La verdad, como casi siempre, es mucho más elemental y terrestre. La idea surgió merced a mi pasión por los periódicos. Un buen día leí una noticia que me entusiasmó: ya era posible dar la vuelta al mundo en menos de tres meses. El artículo incluso me proporcionó el itinerario&#8230; Fueron suficientes algunos ligeros &quot;retoques&quot; y del anuncio turístico de la agencia Cook brotó una novela.</p>
<p>¿Yo un &quot;iluminado&quot;? No&#8230; Yo, Julio Verne, sólo soy un incomprendido, un árbol muerto, un viejo oso acosado por la diabetes, amenazado de ceguera, cojo y definitivamente solo. El 27 de agosto del pasado año, mi querido hermano Paul también me dejaba&#8230; Jamás imaginé que le sobreviviría. ¡Ah, Paul, cómo te añoro! Tú fuiste mi consejero, mi guía y mi confidente. ¿En quién descansaré ahora? Tu muerte anuncia la mía. 1897 suma &quot;7&quot;&#8230; ¿Serán ésos los años que me restan para emprender contigo <b>y </b>con Anne la última y azul singladura de los cielos? ¿Será 1905 el año de mi desaparición? Estoy listo. Mi equipaje cabe en mi corazón. Fui un hombre que amó&#8230; tardíamente. Quizá eso me salve&#8230;</p>
<p>Pero partiré de este mundo con una íntima tristeza. Sólo tú, Paul, y Anne lo sabíais. Ahora no hay tiempo para rectificar&#8230; Salgo de la vida con decenas de novelas, sí&#8230; Muchas de ellas — dicen — admirables&#8230; Pero en la obra de Verne falta &quot;alguien&quot; y &quot;algo&quot;&#8230; Dos palabras son suficientes para resumir el lamentable &quot;vacío&quot; de estos treinta y cinco años de trabajo:</p>
<p align="center">JESÚS DE NAZARET Y AMOR.</p>
<p>A pesar de mi admiración por Él, no he sido valiente. <strong>Mi secreto sueño — escribir sobre el Hijo del Hombre — queda pendiente&#8230;</strong></p>
<p>En cuanto al AMOR, sí, con mayúsculas, mi obra queda igualmente vacía.</p>
<p>Y a la sombra de ambas frustraciones, otros pequeños-grandes sueños incumplidos me escoltarán hasta la tumba, la que Roze tiene preparada para mí:</p>
<p>REESCRIBIR LA HISTORIA&#8230; ¿Y por qué no?</p>
<p><strong>ESTUDIAR ESAS MISTERIOSAS &quot;LUCES&quot; QUE, DICEN LOS PERIÓDICOS NORTEAMERICANOS, HAN EMPEZADO A SURCAR LOS CIELOS DESDE 1897.</strong></p>
<p>ABRIR LA CONCIENCIA DE LA HUMANIDAD CON LA ESPADA MÁGICA DEL ESOTERISMO, YA APUNTADO SUBTERRÁNEAMENTE EN MIS LIBROS&#8230;</p>
<p>Pero muero optimista. De igual forma que yo, Julio Verne, continué la truncada labor de Alan Poe, <strong>otro hombre, más audaz y resuelto que yo en el dominio de las cosas aparentemente imposibles, nacerá un día, no muy lejano</strong>, y llevará a buen fin lo que este viejo oso, culo de plomo, ha dejado inconcluso&#8230;</p>
<p><strong>Y ese hombre seré yo, Julio Verne, de acuerdo con lo que me ha sido revelado</strong>. He aquí la revelación, que nace de mi propio epitafio:</p>
<p align="center">VERS L&#8217;IMMORTALITÉ ET L&#8217;ETERNELLE JEUNESSE </p>
<p align="center">(HACIA LA INMORTALIDAD Y LA ETERNA JUVENTUD)</p>
<p>Mandé construir mi tumba, bajo el espíritu de este epitafio.</p>
<p>En su<b> </b>eslabón está el camino que conduce a la inmortalidad, a través del secreto de la eterna juventud.</p>
<p>Mi nombre envuelve el camino.</p>
<p>Por él fui y, por él, he de volver.</p>
<p>El número de los días que excederán a los millares de los días de mi vida, será el de las centenas de los días de mi muerte.</p>
<p>El número de los días que excederán al de las centenas de los días de mi muerte, será el de los millares de los días de mi vida.</p>
<p>El número de los días de mi vida y el número de los días de mi muerte tendrán, como veréis, el mismo número secreto.</p>
<p align="center"><i>Por mis obras me conocéis, y</i></p>
<p align="center"><i>por mis obras me reconoceréis.</i></p>
<p align="left"><em>______</em></p>
<p align="left"><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/27556/?franq=140868" target="_blank">Yo, Julio Verne</a>, </em>de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Juan_Jos%C3%A9_Ben%C3%ADtez" target="_blank">Juan José Benítez</a>.</p>
</blockquote>
<p>O trecho acima seria um excerto do diário perdido de Jules Verne – na verdade, uma biografia do autor francês escrita por Benítez na primeira pessoa. Nele, “Verne” anuncia a vinda de um “outro homem”, um outro escritor que faria o que ele deixou de fazer. E acrescenta: “E esse homem serei eu, Júlio Verne, de acordo com o que me foi revelado”. Quem aí tiver saco para fazer todos os cálculos numerológicos citados perceberá que <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Juan_Jos%C3%A9_Ben%C3%ADtez" target="_blank">Benítez</a> – autor de vários livros sobre OVNIs e da série <em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/47927/?franq=140868" target="_blank">Operação Cavalo de Tróia</a></em> (que trata da vida de Jesus tal como a retrata o <a href="http://www.urantia.org/pt/o-livro-de-urantia/ler" target="_blank">Livro de Urântia</a>) – perceberá que <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Juan_Jos%C3%A9_Ben%C3%ADtez" target="_blank">Benítez</a> está tentando nos dizer que ele e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank">Jules Verne</a> são a mesma pessoa.</p>
<p>Ah, esses escritores…</p>

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		<title>Mario Vargas Llosa (Nobel de Literatura 2010): El viaje a la ficción</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Oct 2010 20:57:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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<p>Mario Vargas Llosa expone su visión sobre el fenómeno literario y los vínculos entre la realidad y la ficción.</p>

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		<title>Colin Wilson comenta J.R.R. Tolkien</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Sep 2010 14:06:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="display: block; float: none; margin-left: auto; margin-right: auto; border-width: 0px;" title="J. R. R. Tolkien" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/tolkien.jpg" border="0" alt="J. R. R. Tolkien" width="213" height="245" /></p>
<blockquote><p>« Tolkien falou sobre <strong>a tarefa mais importante do conto de fadas</strong>: criar um estado de ‘recuperação’ que faça as pessoas verem novamente com lucidez.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Existem apenas duas possibilidades: <strong>ou a gente se deixa empolgar pela fantasia de Tolkien, ou acha tudo uma bobagem</strong>. Se cada descrição atingisse o efeito intencionado, então seu livro se tornaria sem dúvida alguma uma das grandes obras de todos os tempos. Na primeira leitura isto acontece, porque o leitor fica tão empolgado que não percebe que algumas descrições ‘não estão com nada’. Na segunda leitura, porém, ainda se deliciando com as belas descrições de rios e florestas, o leitor nota que a personagem principal, Tom Bombadil, é um chato de galochas, Lothlorien e os elfos, uma quimera sentimental, e Minas Tirith e seus bravos guerreiros, um filme de Errol Flynn. <strong>O centro da história, que mesmo depois de muitas leituras continua interessante, é sempre a viagem de Frodo</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Segundo Tolkien, <strong>é dever do artista criar uma árvore tão verde e viva quanto possível</strong>. Essa árvore tem que ser <strong>uma espécie de guia num mundo cada vez mais repleto de cidades mortas e secas</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>A fórmula do sucesso de Tolkien é evidente</strong>. Ele fala sobre viagens em terras e panoramas fantásticos, sobre aventuras repentinas, onde os anões são tocados por monstros cabeludos. O leitor adulto fica interessado porque <strong>os monstros parecem tanto com gângsteres ou carrascos nazistas que ele acha que está lendo sobre seu próprio mundo</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>[Segundo Wilson, Tolkien é muito sentimental, está mais para 1850 que 1950.] « Não podemos esperar que Tolkien, além de muitas outras coisas, seja ainda um Tolstói ou um Dostoiévski.»</p>
<p>(…)</p>
<p>[Em Tolkien há um escapismo: <strong>uma fuga <em>para</em> a Realidade,</strong> diz Wilson.] Numa conferência em St. Andrews (1938), intitulada “Sobre contos de fada”, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J._R._R._Tolkien" target="_blank">J.R.R. Tolkien</a> declarou:</p>
<p>« Precisamos limpar nossos vitrôs para poder enxergar perfeitamente e libertar-nos das manchas sujas do cotidiano, dos hábitos e da possessividade.»</p>
<p>_______</p>
<p>De um artigo de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Colin_Wilson" target="_blank">Colin Wilson</a>, que li em algum lugar.</p></blockquote>

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		<pubDate>Fri, 17 Sep 2010 19:10:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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<p><img style="display: block; float: none; margin-left: auto; margin-right: auto; border-width: 0px;" title="Guimarães Rosa" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/rosa.jpg" border="0" alt="Guimarães Rosa" width="208" height="251" /></p>
<blockquote><p>«‘Que-Diga’? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!»</p>
<p>*</p>
<p>« Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão ‘encosto’.»</p>
<p>*</p>
<p>« Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.»</p>
<p>*</p>
<p>« O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…»</p>
<p>*</p>
<p>« O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que mata só para ver alguém fazer careta…»</p>
<p>*</p>
<p>« Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.»</p>
<p>*</p>
<p>« Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado.»</p>
<p>*</p>
<p>« Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.»</p>
<p>*</p>
<p>« Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não subtrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei!»</p>
<p>*</p>
<p>« E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro!»</p>
<p>*</p>
<p>« Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável.»</p>
<p>*</p>
<p>« Acho proseável.»</p>
<p>*</p>
<p>« Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até a hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: –‘Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…’ – ciente me respondeu.»</p>
<p>*</p>
<p>« Guerra diverte – o demo acha.»</p>
<p>*</p>
<p>« Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma!»</p>
<p>*</p>
<p>« Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dela a gente tudo vendo.»</p>
<p>*</p>
<p>« Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.»</p>
<p>*</p>
<p>« Viver é um descuido prosseguido.»</p>
<p>*</p>
<p>« Um homem consegue intrujar de tudo; só de ser inteligente e valente é que muito não pode.»</p>
<p>*</p>
<p>« Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!»</p>
<p>*</p>
<p>« O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão.»</p>
<p>*</p>
<p>« O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia.»</p>
<p>*</p>
<p>« Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.»</p>
<p>*</p>
<p>« Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada.»</p>
<p>*</p>
<p>« Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ontem amanhã: é sempre.»</p>
<p>*</p>
<p>« Não sabe que quem é mesmo inteirado valente, no coração, esse também não pode deixar de ser bom?!» (<em>Essa é do, da, ah, você sabe, da Diadorim.</em>)</p>
<p>*</p>
<p>« Nasci devagar. Sou é muito cauteloso.»</p>
<p>*</p>
<p>« O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.»</p>
<p>*</p>
<p>« O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.»</p>
<p>*</p>
<p>« (…) peguei saudade dos passarinhos de lá, do poço no córrego, do batido do monjolo dia e noite, da cozinha grande com fornalha acesa, dos cômodos sombrios da casa, dos currais adiante, da varanda de ver nuvens.» (<em>Esse trecho vai aqui apenas porque é a descrição exata da fazenda da </em><a href="http://blog.karaloka.net/2005/04/30/cu-do-capeta/" target="_blank"><em>minha avó</em></a>.)</p>
<p>*</p>
<p>« Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou-amigo-é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.»</p>
<p>*</p>
<p>« A natureza da gente é muito segundas-e-sábados.»</p>
<p>*</p>
<p>« Quanto pior mais baixo se caiu, maismente um carece próprio de se respeitar.»</p>
<p>*</p>
<p>« Medo de errar é a minha paciência.»</p>
<p>*</p>
<p>« Do escurão, tudo é mesmo possível.»</p>
<p>*</p>
<p>« (…) mulher que não ria – esse lenho seco.»</p>
<p>_________</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/31884/?franq=140868" target="_blank">Grande Sertão: Veredas</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Guimar%C3%A3es_Rosa" target="_blank">Guimarães Rosa</a>.</p></blockquote>

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		<title>Os Livros Malditos: Jacques Bergier e o que John Dee viu no espelho negro</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Sep 2010 21:02:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
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<p> 
<p><img title="John Dee" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="238" alt="John Dee" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/john_dee.jpg" width="220" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Como o abade Trithème, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Dee" target="_blank">John Dee</a> realmente existiu. Nasceu em 1527 e morreu em 1608. Sua vida foi tão extraordinária que, melhor do que a maior parte de seus biógrafos, foram os romancistas que melhor o descreveram em obras de imaginação. Estes romancistas são <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Ray" target="_blank">Jean Ray</a> e <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Gustav_Meyrink" target="_blank">Gustav Meyrink</a>. Matemático distinto, especialista nos clássicos, John Dee inventou a idéia de um meridiano de base: o meridiano de Greenwich. Levou à Inglaterra, tendo-os encontrado em Louvain, dois globos terrestres de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gerardo_Mercator" target="_blank">Mercator</a>, assim como instrumentos de navegação. E foi assim o início da expansão marítima da Inglaterra.</p>
<p>« Pode-se dizer, dessa forma – não participo dessa opinião – que John Dee foi o primeiro a fazer espionagem industrial, pois levou à Inglaterra, por conta da Rainha Elizabeth, quantidade enorme de segredos de navegação e fabricação. Foi certamente um cientista de primeira ordem, ao mesmo tempo que um especialista dos clássicos, e manifesta a transição entre duas culturas que, no século XVI, não eram, talvez, tão separadas como o são agora.</p>
<p>« Foi também muitas outras coisas, como veremos. No curso de seus brilhantes estudos em Cambridge, pôs-se, infelizmente para ele, a construir robôs entre os quais um escaravelho mecânico que soltou durante uma representação teatral e que causou pânico. Expulso de Cambridge por feitiçaria, em 1547, foi para Louvain. Lá, ligou-se a Mercator. Tornou-se astrólogo e ganhou a vida fazendo horóscopos, depois foi preso por conspiração mágica contra a vida da Rainha Mary Tudor. Mais tarde, Elizabeth libertou-o da prisão e o encarregou de missões misteriosas no continente.</p>
<p>« Escreveu-se com freqüência que sua paixão aparente pela magia e feitiçaria seriam uma “cobertura” à sua verdadeira profissão: espião. Não estou totalmente convencido disto.</p>
<p>« Em 1563, numa livraria de Anvers, encontrou um manuscrito, provavelmente incompleto, da <em>Steganographie</em> de <a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Johannes_Trithemius" target="_blank">Trithème</a>. Ele a completou e pareceu ter chegado a um método quase tão eficaz quanto o de Trithème.</p>
<p>« Publicando a primeira tradução inglesa de Euclides, e estudando para o exército inglês a utilização de telescópios e lunetas, continuou suas pesquisas sobre a <em>Steganographie</em>. E em 25 de maio de 1581, elas superaram todas as suas esperanças.</p>
<p>« Um ser sobre-humano, ou ao menos não-humano, envolto em luz, apareceu-lhe. John Dee chamou-o anjo, para simplificar. Esse anjo deixou-lhe <a href="http://www.britishmuseum.org/explore/highlights/highlight_objects/pe_mla/d/dr_dees_mirror.aspx" target="_blank">um espelho negro que existe ainda no Museu Britânico</a>. É um pedaço de <b>antracite</b> extremamente bem polido. O anjo lhe disse que olhando naquele cristal veria outros mundos e poderia ter contato com outras inteligências não-humanas, idéia singularmente moderna. Anotou as conversações que teve com seres não-humanos e um certo número foi publicado em 1659 por <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9ric_Casaubon" target="_blank">Méric Casaubon,</a> sob o título “<em>A true and faithfull relation of what passed between Dr. John Dee and some spirits</em>”.</p>
<p>« Um certo número de outras conversações é inédito e os manuscritos se encontram no Museu Britânico.</p>
<p>« A maior parte das notas tomadas por John Dee e dos livros que preparava, foram, como veremos, destruídos. Entretanto, restam-nos suficientes elementos para que possamos reconstituir a língua que esses seres falavam, e que Dee chamou a <b>Língua Enochiana</b>.</p>
<p>« É a primeira linguagem sintética, a primeira língua não-humana de que se tem conhecimento. É, em todo caso, uma língua completa que possui um alfabeto e uma gramática. Entre todos os textos em língua enochiana que nos restam, alguns concernem à ciência matemática mais avançada do que ela estava no tempo de John Dee.</p>
<p>« A língua enochiana foi a base da doutrina secreta da famosa sociedade <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_Herm%C3%A9tica_da_Aurora_Dourada" target="_blank">Golden Dawn</a><b></b>, no fim do século XIX.</p>
<p>« Dee percebeu logo que não poderia lembrar-se das conversações que tinha com os visitantes estrangeiros. Nenhum mecanismo para registrar a palavra existia. Se dispusesse de um fonógrafo ou de um magnetóide, o seu destino, e talvez o do mundo, estariam mudados.</p>
<p>« Infelizmente, Dee teve uma idéia que o levou a perder-se. Entretanto, tal idéia era perfeitamente racional: encontrar alguém que olhasse o <a href="http://www.britishmuseum.org/explore/highlights/highlight_objects/pe_mla/d/dr_dees_mirror.aspx" target="_blank">espelho mágico</a> e mantivesse <strong>conversações com os extraterrestres, enquanto ele tomaria nota das conversas</strong>. Em princípio, tal idéia era muito simples. Infelizmente, os dois visionários que Dee recrutou, Barnabas Saul e Edward Talbot, revelaram-se como grandes canalhas. Desvencilhou-se rapidamente de Saul, que parecia ser espião a soldo de seus inimigos. Talbot, ao contrário, que trocou seu nome pelo de Kelly, agarrou-se. E agarrou-se tanto que arruinou Dee, seduziu sua mulher, levou-o a percorrer a Europa, sob o pretexto de fazer dele um alquimista, e acabou por estragar sua vida. <strong>Dee morreu, finalmente, em 1608, arruinado e completamente desacreditado</strong>. O Rei James I, que sucedera a Elizabeth, recusou-lhe uma pensão e ele morreu na miséria. A única consolação que se pode ter é de pensar que Talbott, aliás, Kelly, morreu em fevereiro de 1595, tentando escapar da prisão de Praga. Como era muito grande e gordo, a corda que confeccionara rompeu-se e ele quebrou os braços e as pernas. Um justo fim a um dos mais sinistros crápulas que a história conheceu.</p>
<p>« Apesar da proteção de Elizabeth, Dee continuou a ser perseguido, seus manuscritos foram roubados assim como uma grande parte de suas anotações.</p>
<p>« Se estava na miséria, temos que reconhecer que parcialmente a merecera. Com efeito, <strong>após ter explicado à Rainha Elizabeth da Inglaterra que era alquimista, solicitara um amparo financeiro. Elizabeth da Inglaterra disse-lhe, muito judiciosamente, que se ele sabia fazer o ouro, não precisava de subvenções, pois teria suas próprias</strong>. Finalmente, John Dee foi obrigado a vender sua imensa biblioteca para viver e, de certo modo, morreu de fome.</p>
<p>« A história reteve sobretudo os inverossímeis episódios de suas aventuras com Kelly, que são evidentemente pitorescos. Vimos aparecer aí, pela primeira vez, <strong>a troca de mulheres que, atualmente, é tão popular nos Estados Unidos</strong>.</p>
<p>« Mas essa estatuária de Epinal obscureceu o verdadeiro problema, que é o da língua enoquiana, a dos livros de John Dee que nunca chegaram a ser publicados.</p>
<p>« <b><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Sadoul" target="_blank">Jacques Sadoul</a></b>, em sua obra “<b><em>O Tesouro dos Alquimistas</em></b>”, conta muito bem a parte propriamente alquimista das aventuras do Dr. Dee e de Kelly. Recomendo-a ao leitor.</p>
<p>« Voltemos à linguagem enoquiana e ao que se seguiu. E falemos primeiro da perseguição que se abateu sobre John Dee, desde que começou a dar a entender que publicaria suas entrevistas com “anos” não-humanos. Em 1597, em sua ausência, desconhecidos excitaram a multidão a atacar sua casa. Quatro mil obras raras e cinco manuscritos desapareceram definitivamente, e numerosas notas foram queimadas. Depois a perseguição continuou, apesar da proteção da Rainha da Inglaterra. Foi, finalmente, um homem alquebrado, desacreditado, como o seria mais tarde <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Blavatsky" target="_blank">Madame Blavatsky</a>, que morreu aos 81 anos de idade. Em 1608, em Mortlake. Uma vez mais a conspiração dos Homens de Preto parece ter vencido.</p>
<p>« A excelente enciclopédia inglesa “<i>Man, Mith and Magic”</i> observou muito oportunamente em seu artigo sobre John Dee: “Apesar de os documentos sobre a vida de John Dee serem abundantes, fez-se pouca coisa para explicá-lo e interpretá-lo”. Isto é verdadeiro.</p>
<p>« Ao contrário, as calúnias contra Dee não faltam. Nas épocas de superstição afirmava-se que ele faria magia negra. Em nossa época racionalista pretendeu-se que seria um espião, que fazia alquimia e magia negra para camuflar suas verdadeiras atividades. Tal tese é notadamente a da enciclopédia inglesa que citamos acima.</p>
<p>« Entretanto, quando examinamos os fatos, vemos primeiro <strong>um homem bem dotado, capaz de trabalhar 22 horas ao dia, leitor rápido, matemático de primeira ordem. Ademais, ele construiu autômatos, foi um especialista de óptica e de suas aplicações militares, da química</strong>.</p>
<p>« <strong>Que foi ingênuo e crédulo, é possível</strong>. A história de Kelly o mostra. Mas <strong>que fez uma importante descoberta, a mais importante, talvez, da história da humanidade, não está totalmente excluso. Parece-me possível contudo, que Dee tenha tomado contato, por telepatia ou clarividência, ou outro meio parapsicológico, com seres não-humanos</strong>. Era natural, dada a mentalidade da época, que ele atribuísse a esses seres uma origem Angélica, em vez de fazê-los vir de outro planeta ou de outra dimensão. Mas comunicou-se bastante com eles para aprender uma língua não-humana.</p>
<p>« <strong>A idéia de inventar uma língua inteiramente nova não pertencia à época de John Dee</strong> e nem de sua mentalidade. Foi muito depois que Wilkins inventou a primeira linguagem sintética. A linguagem enoquiana é completa e não se parece com nenhuma língua humana.</p>
<p>« É possível, evidentemente, que Dee a tenha tirado integralmente de seu subconsciente ou inconsciente coletivo, mas tal hipótese é tão fantástica quanto a da comunicação com seres extraterrestres. Infelizmente, a partir da intervenção de Kelly, as conversações estão visivelmente truncadas. Kelly inventa-as e faz dizer aos anjos ou espíritos o que lhe convinha. E <strong>do ponto de vista de inteligência e imaginação, Kelly era pouco dotado</strong>. Possui-se notas sobre uma conversação onde pede a um dos “espíritos” cem libras esterlinas durante quinze dias.</p>
</blockquote>
<p> <span id="more-1112"></span><br />
<blockquote>
<p>« Antes de conhecer Kelly, entretanto, Dee publicara um livro estranho: <em>“<a href="http://www.esotericarchives.com/dee/monad.htm" target="_blank">A Mônada Hieroglífica</a>”</em>. Trabalhou nesse livro sete anos, mas após ter lido a <em>Steganographie</em>, terminou-o em doze dias. Um homem de Estado contemporâneo, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/William_Cecil,_1st_Baron_Burghley" target="_blank">Sir William Cecil</a>, declarou que: “os segredos que se encontram na <em>Mônada Hieroglífica</em> são da maior importância para a segurança do reino.”</p>
<p>« Certamente, quer-se ligar tais segredos à criptografia, o que é bastante provável. Mas quando se quer relacionar tudo em John Dee com a hipótese de espionagem, isto me parece excessivo, pois os alquimistas e os magos utilizavam muito a criptografia, sob as formas mais complexas que não eram usadas pelos espiões. Tenho tendência a tomar Dee ao pé da letra e pensar que, por auto-hipnose produzida pelo seu espelho, ou por outras formas, ele ultrapassou uma barreira entre os planetas ou entre outras dimensões.</p>
<p>« Por desgraça, ele era, por própria confissão, desprovido de todos os dons paranormais. Foi mal aceito pelos “médiuns” e isto terminou em desastre.</p>
<p>« Desastre aliás provocado, explorado, multiplicado pelos “Superiores” que não queriam que ele publicasse às claras o que disse em código na <em>Mônada Hieroglífica</em>. A perseguição de Dee começou em 1587 e só parou com sua morte. Exerceu-se aliás também no continente, onde o rei da Polônia e o Imperador Rodolfo II foram advertidos contra Dee por mensagens “vindas dos espíritos”, e onde, a 6 de maio de 1586, o número apostólico entregou ao imperador um documento acusando John Dee de necromancia.</p>
<p>« Foi um homem acovardado que chegou à Inglaterra, renunciando a publicar, e que morreu como reitor do Colégio de Cristo, em Manchester, posto que teve de 1595 à 1605, e que, ao que parece, não lhe deu satisfação.</p>
<p>« Resta ainda, a respeito desse posto, uma problema não resolvido. Na mesma época o czar da Rússia convidou John Dee para ir até Moscou, a título de conselheiro científico. Ele deveria receber um salário de duas mil libras esterlinas ao ano, quantia alta correspondente a um pouco mais de duzentas mil libras hoje, com moradia principesca e uma situação, que, de acordo com a carta do czar, “faria dele um dos homens mais importantes da Rússia”. Entretanto, John Dee recusou. Elizabeth da Inglaterra teria se oposto? Teria ele recebido ameaças?</p>
<p>« Não se sabe, os documentos são vagos. Em todo caso, as diversas calúnias segundo as quais Dee, completamente dominado por Kelly, percorrera o continente espoliando príncipes e ricos, uns após outros, perdem sua razão de ser quando se considera essa recusa. Talvez temesse que o czar o obrigasse a empregar segredos que havia descoberto e tornasse, assim, a Rússia dominadora do mundo.</p>
<p>« <strong>O que quer que seja, Dee se apresenta a nós como um homem que recebeu visitas de seres não-humanos, que aprendeu sua linguagem e procurou estabelecer com eles uma comunicação regular. O caso é único, sobretudo quando se trata de um homem do valor intelectual de John Dee.</strong></p>
<p>« Infelizmente, não se pode deduzir nada, a partir do que Dee nos deixou, do lugar onde habitariam tais seres, ou a natureza psíquica deles. <strong>Disse, simplesmente, que são telepatas e que podem viajar no passado e no futuro. É a primeira vez, que eu saiba, que aparece a idéia de viajar no tempo.</strong></p>
<p>« Dee esperava aprender desses seres tudo sobre as leis naturais, tudo sobre o desenvolvimento futuro da matemática. Não se tratava nem de necromancia nem de espiritualidade. Dee tinha a posição de um sábio que queria aprender segredos de natureza essencialmente científica. Ele mesmo descreve-se, a todo instante, como filósofo matemático.</p>
<p>« A maior parte das notas desapareceu no incêndio de sua casa, outras foram destruídas em outras oportunidades e por pessoas diferentes. Restam-nos algumas alusões contidas em “<em>A verdadeira relação de Casaubon</em>”, e em certas notas que ainda existem. Tais indicações são extremamente curiosas. Dee afirma que a projeção de Mercator não é senão uma primeira aproximação. <strong>Segundo ele, a Terra não é exatamente redonda, e seria composta de várias esferas superpostas alinhadas ao longo de uma outra dimensão.</strong></p>
<p>« Entre essas esferas haveria pontos, ou antes, superfícies de comunicação, e assim é que a Groenlândia se estende ao infinito sobre outras terras além da nossa. Por isso, insiste Dee nas várias súplicas à Rainha Elizabeth, seria bom que a Inglaterra se apoderasse da Groenlândia de maneira a ter em suas mãos a porta para outros mundos.</p>
<p>« Outra indicação: as matemáticas não estão senão no começo e pode-se ir além de Euclides, que Dee, lembramos, foi o primeiro a traduzir para o inglês. Dee teve razão ao afirmar isso, e as geometrias não-euclidianas que apareceriam mais tarde, confirmam seu ponto de vista.</p>
<p>« <strong>É possível, diz igualmente Dee, construir máquinas totalmente automáticas que fariam todo o trabalho do homem. Isto, acrescenta, já foi realizado por volta de 1585 – gostaríamos muito de saber onde.</strong></p>
<p>« Insiste, igualmente, na importância dos números e na considerável dificuldade da aritmética superior. Uma vez mais, teve razão. A teoria dos números revelou-se como sendo o ramo mais difícil das matemáticas, bem mais que a álgebra ou a geometria.</p>
<p>« <strong>É muito importante, notou John Dee, estudar os sonhos que revelam, ao mesmo tempo, nosso mundo interior e mundos exteriores.</strong> Esta visão, à moda de Jung, é muito avançada para a sua época. É essencial, notava ainda, esconder da massa segredos que possam ser extremamente perigosos. Encontra-se, ainda aí, uma idéia moderna. Como se encontra outra com relação a esse tema no jornal particular de Dee: saber que se pode tirar do conhecimento da natureza poderes perfeitamente naturais e ilimitados, mas que é necessário empregar muito dinheiro nessa pesquisa.</p>
<p>« <strong>Foi para ter esse dinheiro que procurou a proteção dos grandes, e a fabricação do ouro. Nenhuma nem outra foram conseguidas.</strong> Se pudesse encontrar um mecenas, o mundo estaria bem mudado.</p>
<p>« Entre todos os que encontrou, <strong>conheceu William Shakespeare (1564-1616)? Creio que sim</strong>. <strong>Um certo número de críticos shakespereanos estão acordes ao admitir que John Dee é o modelo do personagem Próspero, em “<em>Tempestade</em>”. Ao contrário, não se encontrou, ainda, que eu saiba, anti-shakespereanos bastante loucos para imaginar ser John Dee o autor das obras de Shakespeare. Entretanto, Dee me parece ser melhor candidato a esse título que Francis Bacon</strong>.</p>
<p>« Não posso resistir ao prazer de citar esta <strong>teoria do humorista inglês A. A. Milne. Segundo ele, Shakespeare escreveu não só suas próprias obras como também o <em>Novum Organum</em> para o Conde de Francis Bacon, que era completamente iletrado!</strong> Tal teoria levantou em ira os baconianos, isto é, aqueles que pretendem ter sido Francis Bacon o autor das obras de Shakespeare.</p>
<p>« Passando para outra lenda, John Dee jamais traduziu o livro maldito <b><em>Necronomicon</em></b>, de Abdul Al-Azred, pela simples razão que tal obra jamais existiu. Mas, como bem disse Lin Carter, se o <em>Necronomicon</em> tivesse existido, Dee seria, evidentemente, o único homem a poder encontrá-lo e traduzi-lo!</p>
<p>« Infelizmente, esse <em>Necronomicon </em>foi inventado inteiramente por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/H._P._Lovecraft" target="_blank">Lovecraft</a>, que me confirmou esse fato por carta. Que lástima!</p>
<p>« A pedra negra, vinda de outro universo, após ter sido recolhida pelo Conde de Peterborough, depois por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Horace_Walpole" target="_blank">Horace Walpole</a>, <a href="http://www.britishmuseum.org/explore/highlights/highlight_objects/pe_mla/d/dr_dees_mirror.aspx" target="_blank">encontra-se, agora, no Museu Britânico</a>. Este não autoriza, nem que se possa usá-la, nem que se faça nela qualquer tipo de análise. Isto é lamentável. Mas se as análises do carvão de que é feita essa pedra dessem um composto isótopo que não o do carvão da Terra, provando que essa pedra teria origem fora dela, todo mundo ficaria fortemente embaraçado.</p>
<p>« <em><a href="http://www.esotericarchives.com/dee/monad.htm" target="_blank">A Mônada Hieroglífica</a></em> de Dee pode ser encontrada ou obtida por fotocópia. Mas sem as chaves que correspondem aos diversos códigos da obra, e sem os outros manuscritos de John Dee queimados em Mortlake ou destruídos sob as ordens de James I, ela não pode servir para grande coisa. Entretanto, a história do Dr. John Dee não acabou e dois capítulos ser-me-ão necessários para continuá-la.»</p>
</blockquote>
<p>&#160;</p>
<p>Excerto de <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/111831/?franq=140868" target="_blank"><em>Os Livros Malditos</em></a>, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Bergier" target="_blank">Jacques Bergier</a>.</p>

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		<title>Carl Sagan e o contato com civiliza&#231;&#245;es extraterrestres</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 13:14:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
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<p> 
<p><img title="Carl Sagan" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin: 10px auto; border-right-width: 0px" height="171" alt="Carl Sagan" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/carl_sagan.jpg" width="306" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Um motivo padrão na ficção científica e na literatura de UFOs assume serem os extraterrestres tão capazes como nós. Talvez tenham um tipo diferente de espaçonave ou raios, mas em uma batalha — e a ficção científica adora descrever batalhas entre civilizações — nós e eles competimos igualmente. Na verdade, não há quase chance de duas civilizações galácticas interagirem no mesmo nível. Em qualquer confronto, uma quase sempre dominará inteiramente a outra. Um milhão de anos é muita coisa. Se uma civilização avançada estiver para chegar em nosso sistema solar, não haverá nada que possamos fazer a respeito. Sua ciência e tecnologia estarão muito além de nós. É perda de tempo preocuparmo-nos com as possíveis intenções malévolas de uma civilização avançada com a qual deveremos estabelecer contato. É mais provável que, se sobreviveram tanto tempo, isto signifique que tenham aprendido a viver com eles mesmos e com os outros. Talvez nossos receios sobre um contato extraterrestre sejam meramente uma projeção de nosso próprio passado, uma expressão da nossa consciência culpada pela nossa história anterior, a destruição de civilizações só um pouco mais atrasadas do que a nossa. Lembramos Colombo e os Arawaks, Cortés e os Astecas, mesmo o destino dos Tlingits nas gerações pós-La Pérouse. Lembramo-nos e preocupamo-nos. Mas se uma armada interestelar aparecer em nossos céus, prevejo que seremos muito obsequiosos.</p>
<p>« É muito mais provável um tipo bem diferente de contato — o caso que já discutimos, no qual recebemos uma mensagem complexa e rica, provavelmente pelo rádio, de outra civilização no espaço, mas não estabelecemos, pelo menos por um tempo, um contato físico com ela. Neste caso não há como a civilização transmissora saber se recebemos a mensagem. Se acharmos o conteúdo ofensivo ou assustador, não seremos obrigados a responder. Mas se a mensagem contiver uma informação valiosa, as conseqüências para a nossa própria civilização serão espantosas — visões de ciência, tecnologia, arte, música, política, ética, filosofia e religião alienígenas, e acima de tudo, <strong>uma profunda desprovincialização da condição humana</strong>. Saberemos o que mais é possível.»</p>
<p>________</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/9/353878/?franq=140868" target="_blank">Cosmos</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Sagan" target="_blank">Carl Sagan</a>.</p>
</blockquote>
<p>&#160;</p>
<p>E se o contato já tiver ocorrido? E se foi utilizado um meio mais eficaz que o rádio? E se a mensagem já estiver na internet?</p>
<p>Hehehe…</p>

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		<title>O realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 11:18:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[esoterismo]]></category>
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<p>&#160;<img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="Louis Pauwels e Jacques Bergier" border="0" alt="Louis Pauwels e Jacques Bergier" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/pauwels_bergier.jpg" width="268" height="195" /> </p>
<blockquote><p>« <strong>Podia ter conciliado, muito mais cedo, o gosto pela vida interior e o amor pelo mundo em movimento</strong>. Podia ter construído mais cedo, e talvez com maior eficácia, quando as minhas forças estavam intactas, uma ponte entre a mística e o espírito moderno. Ter-me-ia sentido simultaneamente religioso e solidário com o grande impulso da história. Podia ter sentido mais cedo a fé, a caridade e a esperança. Este livro* resume cinco anos de pesquisas, em todos os setores do conhecimento, nas fronteiras da ciência e da tradição. Lancei-me nesta empresa nitidamente superior às minhas possibilidades, porque já não podia recusar por mais tempo este mundo presente e futuro que, no entanto, é o meu. Mas todo o excesso é esclarecedor. Podia ter descoberto mais cedo um meio de comunicação com a minha época. Pode ser que não tenha perdido totalmente o tempo ao ir até ao extremo da minha procura. <strong>Não acontece aos homens aquilo que eles merecem, mas sim o que se lhes assemelha</strong>. Procurei durante muito tempo, como o desejava o Rimbaud da minha adolescência, &quot;a Verdade numa alma e num corpo&quot;. Não o consegui. Na perseguição dessa Verdade perdi o contato com as pequenas verdades que teriam feito de mim, não decerto o super-homem por que ansiava, mas um homem melhor e mais unificado do que sou. No entanto, aprendi, a respeito do comportamento profundo do espírito, dos diversos estados possíveis da consciência, da memória e da intuição, coisas preciosas que não teria aprendido de outra forma e que me permitiriam, mais tarde, <strong>compreender o que há de grandioso, de essencialmente revolucionário na base do espírito moderno: a interrogação sobre a natureza do acontecimento e a necessidade imperiosa de uma espécie de transmutação da inteligência</strong>.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« É necessário apalpar, examinar os frutos-armadilhas, depois afastarmo-nos com rapidez. Satisfeita uma certa curiosidade, convém dirigir imediatamente a nossa atenção para o mundo em que estamos, recuperar a nossa liberdade e a nossa lucidez, retomar o caminho sobre a terra dos homens da qual fazemos parte. <strong>O que importa é ver em que medida o movimento essencial do pensamento dito tradicional encontra o movimento do pensamento contemporâneo</strong>. A física, a biologia, as matemáticas, nos seus aspectos terminais, contém atualmente certos dados do esoterismo, reúnem certas visões do cosmos, relações da energia e da matéria que são visões ancestrais. <strong>As ciências de hoje, se as abordamos sem conformismo científico, mantêm um diálogo com os antigos mágicos, alquimistas, taumaturgos</strong>. Opera-se sob o nosso olhar uma revolução, e há de novo um casamento inesperado da razão, no auge das suas conquistas, com a intuição espiritual. Para os observadores verdadeiramente atentos, os problemas que se põem à inteligência contemporânea já não são problemas de progresso. <strong>Há alguns anos que a noção de progresso deixou de existir. São problemas de mudança de estado, problemas de transmutação.</strong> Neste sentido, os homens atentos às realidades da experiência interior vão na direção do futuro e dão solidamente a mão aos sábios de vanguarda que preparam o surgimento de um mundo sem nada de comum com o mundo de pesada transição no qual vivemos ainda por algumas horas.&quot;»</p>
<p>(…)</p>
<p>« É portanto necessário, pensava eu antes de o iniciar, <strong>projetar a inteligência muito longe em direção ao passado e muito longe em direção ao futuro para compreender o presente</strong>. Apercebi-me de que tinha razão para não amar, outrora, <strong>as pessoas que são simplesmente &quot;modernas&quot;</strong>. Somente eu condenava-as sem saber o porquê. Na verdade, são condenáveis porque o seu espírito apenas ocupa uma fração demasiado pequena do tempo. <strong>Mal surgem, tornam-se anacrônicas</strong>. O que é preciso ser, para estar presente, é contemporâneo do futuro.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Em cinco anos de estudos e reflexões, no decorrer dos quais os nossos dois espíritos [Pauwels e Bergier], bastante dessemelhantes, se sentiram sempre felizes em conjunto, parece-me que descobrimos um novo ponto de vista e rico em possibilidades. Era o que faziam, à sua maneira, os surrealistas há trinta anos atrás. Mas, ao contrário deles, não foi no sono e na infraconsciência que procuramos. Foi na outra extremidade: do lado da ultraconsciência e da vigília superior. <strong>Resolvemos chamar à escola que iniciávamos a escola do realismo fantástico</strong>. Ela não manifesta em coisa alguma preferência pelo insólito, o exotismo intelectual, o barroco, o pitoresco. &quot;O viajante caiu morto, ferido pelo pitoresco&quot;, disse Max Jacob. <strong>Nós não procuramos a fuga a este mundo.</strong> Não exploramos os arrabaldes longínquos da realidade, tentamos pelo contrário, instalar-nos no centro. Cremos que é no próprio centro da realidade que a inteligência, por muito pouco excitada que seja, descobre o fantástico. Um fantástico que não convida à evasão, mas antes a uma mais profunda adesão. <strong>É por falta de imaginação que os letrados, os artistas vão procurar o fantástico fora da realidade, entre as nuvens.</strong> Trazem apenas um subproduto. O fantástico, à semelhança das outras matérias preciosas, deve ser arrancado às entranhas da terra, do real. E a verdadeira imaginação é coisa muito diferente de uma fuga para o irreal. <strong>&quot;Nenhuma faculdade do espírito se afunda e penetra mais que a imaginação: é ela a grande mergulhadora. &quot;</strong> Geralmente o fantástico é definido como uma violação das leis naturais, como a aparição do impossível. Para nós não é nada disso. <strong>O fantástico é uma manifestação das leis naturais, um resultado do contato com a realidade quando esta nos chega diretamente, e não filtrada pelo véu do sono intelectual, pelos hábitos, os preconceitos, os conformismos.</strong> A ciência moderna ensina-nos que para além do visível simples está o invisível complicado. Uma mesa, uma cadeira, o céu estrelado são na verdade radicalmente diferentes da idéia que deles fazemos: sistemas em rotação, energias em suspenso, etc. Era neste sentido que Valéry dizia que, no conhecimento moderno, &quot;o maravilhoso e o positivo contraíram uma espantosa aliança&quot;. O que sobressai claramente, como se verá, segundo espero, neste livro, é que esse contrato entre o maravilhoso e o positivo não é apenas válido no domínio das ciências físicas e matemáticas. O que é verdadeiro para essas ciências é sem dúvida igualmente verdadeiro para os outros aspectos da existência: a antropologia, por exemplo, ou a história contemporânea, ou a psicologia individual, ou a sociologia. O que tem valor nas ciências físicas, é provável que também tem valor nas ciências humanas. Mas existem grandes dificuldades para que disso nos apercebamos. <strong>É que, nas ciências humanas, todos os preconceitos se refugiaram, incluindo aqueles que as ciências exatas atualmente desprezaram</strong>. E que, num domínio tão perto deles, e tão instável, os investigadores, para verem enfim claro, constantemente tentaram reduzir tudo a um sistema: Freud explica tudo, <em>O Capital</em> explica tudo, etc. Quando dizemos preconceitos, deveríamos dizer: superstições. Há as antigas e há as modernas. Para certas pessoas, nenhum fenômeno de civilização é compreensível se não admitimos, nas origens, a existência da Atlântida. Para outros, o marxismo chega para explicar Hitler. Alguns vêem Deus em todo e qualquer gênio, outros vêem apenas o sexo. Toda a história humana é templária, a menos que seja hegeliana. O nosso problema é portanto tornar sensível, no estado bruto, a aliança entre o maravilhoso e o positivo no homem isolado ou no homem em sociedade, da mesma forma que o é em biologia, em física ou em matemática modernas, onde se fala muito abertamente e, no fim de contas, muito simplesmente, de &quot;Algures Absoluto&quot; de &quot;Luz Interdita&quot; e de &quot;Número Quântico de Estranheza&quot;. <strong>&quot;À escala do cósmico (toda a física moderna no-lo ensina), só o fantástico tem probabilidades de ser verdadeiro&quot;</strong>, diz Teilhard de Chardin. Mas, para nós, o fenômeno humano deve igualmente medir-se pela escala do cósmico. É o que dizem os mais antigos textos da sabedoria. É igualmente o que diz a nossa civilização, que principia a lançar foguetões em direção aos planetas e procura o contato com outras inteligências. <strong>A nossa posição é portanto a de homens testemunhas das realidades do seu tempo</strong>. Vista de perto, a nossa atitude, que introduz o realismo fantástico das ciências superiores nas ciências humanas, nada tem de original. Aliás, nós não pretendemos ser espíritos originais. A idéia de aplicar as matemáticas às ciências não era realmente revolucionária: não obstante, deu resultados novos e importantes. A idéia de que o Universo talvez não seja aquilo que supomos não é original: mas reparemos como Einstein altera as coisas ao aplicá-la. É evidente que a partir do nosso método, um trabalho como o nosso, elaborado com o máximo de honestidade e o mínimo de ingenuidade, deve provocar mais interrogações do que soluções. <strong>Um método de trabalho não é um sistema de pensamento. Não acreditamos que um sistema, por muito engenhoso que seja, possa esclarecer por completo a totalidade da vida que nos ocupa.</strong> Podemos remoer indefinidamente o marxismo sem conseguir que nele caiba o fato de que Hitler teve várias vezes consciência, com terror, de que o Superior Desconhecido o visitara. E podia virar-se em todos os sentidos a medicina anterior a Pasteur sem dela extrair a idéia de que as doenças são causadas por animais pequenos demais para serem vistos. No entanto, é possível que haja uma resposta global e definitiva para todas as perguntas que formulamos, e que não a tenhamos ouvido. Nada é excluído, nem o sim, nem o não. <strong>Nós não descobrimos nenhuma &quot;panacéia&quot;; não nos transformamos em discípulos de um novo messias; não propomos doutrina alguma</strong>. Esforçamo-nos simplesmente por abrir para o leitor o maior número possível de portas, e, como a maior parte delas se abrem do lado de dentro, afastamo-nos para o deixar passar. <strong>Repito: o fantástico, a nossos olhos, não é o imaginário. Mas uma imaginação poderosamente aplicada ao estudo da realidade descobre que é muito tênue a fronteira entre o maravilhoso e o positivo, ou, se preferem, entre o universo visível e o universo invisível.</strong> Existe talvez um ou vários universos paralelos ao nosso. Creio que não teríamos empreendido esta tarefa se, no decorrer da nossa vida, não tivesse acontecido sentirmo-nos, realmente, fisicamente, em contato com outro mundo.»</p>
<p>______</p>
<p>* <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8528600335" target="_blank"><em>O Despertar dos Mágicos – Introdução ao Realismo Fantástico</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Pauwels" target="_blank">Louis Pauwels</a> e Jacques Bergier. (O texto acima é de Louis Pauwels.)</p>
</blockquote>
<p>Li este livro pela primeira vez no Equador, em 1989, quando então o ganhei de aniversário de Antonio Naranjo e Cumandá Naranjo, meus saudosos “pais de intercâmbio”. (Sob o título <em>El Retorno de los Brujos</em>.) Nunca mais fui o mesmo…</p>
<p>Foi nele que li pela primeira vez um conto de Jorge Luis Borges: <a href="http://www.apocatastasis.com/aleph-borges.php#axzz0xmrOrEw8" target="_blank"><em>El Aleph</em></a>.</p>
<p>Voltei a lê-lo em 1999, na Casa do Sol, a pedido da escritora <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst" target="_blank">Hilda Hilst</a> &#8212; de quem fui secretário e webmaster &#8211;, que queria discuti-lo comigo. (Ela me disse que o exemplar que possuía havia sido um presente do Jô Soares.)</p>
<p>Sinceramente? Quem nunca leu <em>O Despertar dos Mágicos</em> é mulher do padre.</p>
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</div><br><br></p>

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		<title>Harold Bloom e os livros que valem a pena ser lidos</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 11:38:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
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<p>&#160;<img title="Harold Bloom" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin: 10px auto 5px; border-right-width: 0px" height="204" alt="Harold Bloom" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/bloom2.jpg" width="256" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Os motivos para ler, como para escrever, são muito diversos, e muitas vezes não claros mesmo para os leitores ou escritores mais autoconscientes. Talvez o motivo último para metáfora, ou para a escrita e leitura de uma linguagem figurativa, seja o desejo de ser diferente, estar em outra parte. Nesta afirmação eu sigo Nietzsche, que nos advertia que aquilo para que conseguimos encontrar palavras já está morto em nosso coração, de modo que há sempre uma espécie de desprezo no ato de falar. Hamlet concorda com Nietzsche, e os dois talvez tenham estendido o desprezo ao ato de escrever. Mas não lemos para descarregar nossos corações, portanto não há desprezo no ato de ler. As tradições nos dizem que o eu livre e solitário escreve para vencer a mortalidade. Creio que o eu, em sua busca para ser livre e solitário, em última análise lê com um só objetivo: encarar a grandeza. Esse confronto mal disfarça o desejo de juntar-se à grandeza, que é a base da experiência estética outrora chamada de o Sublime: a busca de uma transcendência de limites. Nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte, o esquecimento. Nossa esperança comum, tênue mas persistente, é alguma versão de sobrevivência.</p>
<p>« Encarar a grandeza quando lemos é um processo íntimo e dispendioso, e jamais esteve em grande voga crítica. Agora, mais que nunca, está fora de moda, quando a busca de liberdade e solidão é condenada como politicamente incorreta, egoísta e não adequada à nossa sociedade angustiada.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Que utilidade pode ter para um crítico individual, tão tardiamente na tradição, catalogar o Cânone ocidental como o vê? Mesmo nossas universidades de elite hoje estão inertes diante das continuadas levas de multiculturalistas. Ainda assim, ainda que nossas atuais modas prevaleçam para sempre, as escolhas canônicas de obras passadas e presentes têm seu próprio interesse e encanto, pois também elas fazem parte da continuada disputa que é a literatura. Todo mundo tem, ou deve ter, uma lista para uma ilha deserta, para o dia em que, fugindo de seus inimigos, seja lançado na praia, ou quando se afastar capengando, todas as guerras feitas, para passar o resto de seu tempo lendo tranqüilamente. Se eu pudesse ter um livro, seria Shakespeare completo; se dois, isso e a Bíblia. Três? Aí começam as complexidades. William Hazlitt, um dos poucos críticos definitivamente no Cânone, tem um esplêndido ensaio “Sobre a leitura de Velhos Livros”:</p>
<blockquote><p>Não penso inteiramente o pior de um livro por ter sobrevivido ao autor uma ou duas gerações. Confio mais nos mortos que nos vivos. Os escritores contemporâneos podem em geral dividir-se em duas classes – nossos amigos e nossos inimigos. Dos primeiros, somos obrigados a pensar bem demais, e dos últimos estamos dispostos a pensar mal demais, receber muito prazer da folheada, ou julgar com justiça o mérito de uns e outros.</p>
</blockquote>
<p>« Hazlitt manifesta uma cautela própria ao crítico numa era de crescente tardiedade. A superpopulação de livros (e autores), causada pela extensão e complexidade da história registrada do mundo, está no centro dos dilemas canônicos, hoje mais que nunca. “Que vou ler?” não é mais a questão, uma vez que tão poucos lêem hoje, na era da televisão e do cinema. A questão pragmática tornou-se: “Que não vou me dar o trabalho de ler?”»</p>
<p>(…)</p>
<p>« A ideologia desempenha um papel considerável na formação de um cânone literário se se quer insistir em que uma posição estética é em si uma ideologia, uma insistência comum a todos os seis ramos da Escola do Ressentimento: feministas, marxistas, lacanianos, neo-historicistas, desconstrucionistas, semióticos. Há, evidentemente, estética e estética, e os apóstolos que acreditam que o estudo literário deve ser uma franca cruzada pela transformação social obviamente manifestam uma estética diferente da minha versão pós-emersoniana de Pater e Wilde.»</p>
<p>(…)</p>
<p>« Por que, então, é a literatura tão vulnerável à investida de nossos idealistas sociais contemporâneos? Uma resposta parece ser a ilusão comum de que menos conhecimento e menos habilidade técnica são necessários para a produção ou compreensão da literatura de imaginação (como a chamávamos) que para outras artes.</p>
<p>« Se todos falássemos em notas musicais ou pinceladas, suponho que Stravinsky e Matisse estariam sujeitos aos riscos peculiares hoje sofridos pelos autores canônicos. Tentando ler muitas das obras apresentadas como alternativas do ressentimento ao Cânone, reflito que esses aspirantes devem acreditar que falaram prosa a vida inteira, ou então que suas sinceras paixões são já poemas, exigindo apenas uma pequena reescrita. Volto-me para minhas listas, esperando que os sobreviventes letrados encontrem entre si alguns autores e livros que ainda não encontraram, e colham as recompensas que só a literatura canônica oferece.»     <br />_____</p>
<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8573020512"><em>O Cânone Ocidental</em></a>, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Harold_Bloom">Harold Bloom</a>.</p>
</blockquote>

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		<title>Paul Johnson fala sobre criatividade e literatura</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 11:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p>&#160;<img title="Paul Johnson" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin: 10px auto; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="184" alt="Paul Johnson" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/pauljohnson.jpg" width="260" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« …o papel desempenhado pelas <strong>atividades</strong>. O castelo de cartas de Einstein era mais um exemplo de treinamento de caráter do que uma ajuda real ao pensamento criativo. Mas a maioria dos cientistas e muitos escritores têm <strong>sobre a mesa de trabalho apetrechos, bugigangas, jogos, quebra-cabeças</strong>, provavelmente por considerá-los úteis para o raciocínio. Não tenho dificuldade de concentração, e começo a escrever logo que sento à minha mesa (no cavalete ou na mesa de desenho), por isso não entendo com facilidade o raciocínio por trás desses apetrechos. Porém, em inúmeros casos, <strong>é evidente que a atividade espasmódica ou periódica ajuda o pensamento imaginativo</strong>. Assim, o fato de Dickens se levantar da mesa onde escrevia para fazer caretas diante de um espelho grande em seu estúdio não é, de forma alguma, algo incomum entre os escritores. <strong>Alguns deles desenvolvem tal resistência a escrever ou a continuar a escrever que é necessário recorrer a meios físicos para forçá-los a se concentrar</strong>. Certa ocasião, quando era editor, tive de trancar dois colaboradores em um sala vazia com uma máquina de escrever para que escrevessem ou terminassem um artigo, só permitindo que saíssem depois de concluído o trabalho. <strong>Mas muitos escritores não conseguem ter pensamentos criativos em uma sala de trabalho</strong>. Todos sabem que Wordsworth costumava compor seus versos enquanto caminhava ao ar livre, em torno do lago em Grasmere ou Rydal Water, ou descendo e subindo uma montanha. Ele memorizava as linhas que imaginava e só as colocava no papel quando voltava para casa. Às vezes, passavam-se vários dias, até semanas, para que ele colocasse no papel as palavras que tinha na cabeça. Não está claro se Wordsworth precisava caminhar para fazer poesia porque via coisas lá fora que poderia transformar em verso ou porque <strong>o simples movimento de caminhar estimulava seus pensamentos</strong>. Acredito na última opção, pois Wordsworth era, de alguma maneira, um homem distraído. Foi sua irmã Dorothy quem observou os trabalhos da natureza em detalhes surpreendentes e os anotou. Quando ambos estavam em Gowbarrow Bay, em Ullswater, quando os narcisos dançavam ao vento, foi Dorothy quem os observou e anotou em seu diário, transmitindo sua experiência visual ao irmão, que, algumas semanas mais tarde, compôs seu famoso poema. Sem Dorothy, o poema não existiria.</p>
<p>« No entanto, <strong>a experiência é a mãe, ou pelo menos uma das mães, da criatividade</strong>, e o que chamo de experiência é a combinação de observação e sentimento que leva a um momento criativo. Emily Dickinson não apenas observava as coisas na natureza (como Dorothy Wordsworth fazia); ela também se sentia forte, profunda ou perceptivelmente ligada a elas – e é isso que transforma seus pequenos poemas em algo de grande força e emoção. Os fortes sentimentos de Charlotte Brontë sobre sua vida, combinados a olhos e ouvidos perspicazes, a tornaram capaz de transformar a experiência, na primeira metade de <em>Jane Eyre, </em>em algo tão surpreendente em arte – um ato de criação raro, por sua beleza apaixonante, nos anais da literatura. <strong>Os escritores, em especial os romancistas, são extremamente criativos quando registram, embora transformados em ficção, suas experiências profundamente sentidas</strong>. Dickens sempre considerou <em>David Copperfield</em> seu melhor livro por esse motivo. Poder-se-ia dizer o mesmo sobre <em>The Mill on the Floss</em>, pois Maggie Tulliver é a jovem Mary Ann Evans, e tudo o que ela viveu e sentiu. Nesse romance maravilhoso, nas histórias de <em>Scenes from Clerical Life,</em> em <em>Adam Bede</em> e, até certo ponto, em <em>Middlemarch</em>, George Eliot escreve sobre coisas e pessoas que conheceu por intermédio da própria experiência direta e de seus sentimentos. Mais tarde, embora mais experiente como escritora, foi menos convincente. Para <em>Daniel Deronda</em>, seu romance sobre o problema judeu, e para <em>Romola</em>, passado na Florença renascentista, ela fez leituras cuidadosas, digeridas pela inteligência. Mas essas histórias não ganham vida do mesmo modo. <strong>Para o romancista, os livros não compensam a ausência do conhecimento direto e dos sentimentos</strong>. Flaubert escreveu <em>Madame Bovary</em> com emoção, a partir de suas últimas experiências com livros, e a diferença é clara. <em>Bouvard et Pécuchet</em> surgiu de uma biblioteca completa – natimorta. Quando vejo alguma romancista que conheço, sentada atrás de uma pilha de livros na sala de leitura da London Library, e <strong>tomando notas sem parar para seu próximo trabalho de ficção</strong>, digo com meus botões: “Ai, meu Deus!”       </p>
<p> <span id="more-983"></span>
<p>« Evelyn Waugh era muito consciente do <strong>capital criativo baseado na experiência direta de coisas profundamente sentidas na infância, na juventude e no início da vida adulta</strong> com as quais um romancista inicia sua carreira, e a facilidade com que esse capital precioso pode ser gasto – jogado fora, por assim dizer – em um trabalho pródigo. Ele disse que esse trabalho deveria ser cuidadosamente conservado, repartido frugalmente. Ai de mim, acrescentou, se um romancista tivesse de ficar velho e sábio o bastante para entender isso, seu capital já teria acabado. “Gasto”, como ele diz, com uma expressão arrependida no rosto. <strong>A única maneira de reabastecê-lo seria passar por uma experiência nova e especialmente intensa. É por isso que ele deu boas-vindas à Segunda Guerra Mundial</strong>, que começou quando estava com trinta e poucos anos, quando seu capital inicial estava quase extinto. Ele o usou bem, também: em primeiro lugar, como estrutura conceitual para o seu exemplo rococó do romantismo virtuoso, <em>Brideshead Revisited</em>, depois como a substância dos três volumes de sua obra-prima, <em>sword of Honour</em>. O mesmo aconteceu com o contemporâneo de Waugh, Anthony Powell, ao escrever o romance de 12 volumes <em>A Dance to the Music of Time</em>. É verdade que esse longo trabalho cobria sua vida inteira, desde os anos escolares à meia-idade. Mas a guerra, quando sua vida foi mais rica e mais interessante, e quando conheceu pessoas e passou por experiências bem diferentes daquelas a que estava acostumado, deu origem aos três melhores livros dos 12 e, sem eles, todo o trabalho teria falhado. Os que estudam o processo criativo, especialmente ficção, podem aprender muito comparando a absorção e a regurgitação de Waugh e Powell das respectivas carreiras militares – a primeira intensa, vívida e nobre; a segunda, discursiva, contemplativa e filosófica; ambas ricas na ironia que a guerra inspira no artista. Sem a guerra, ambos teriam sido muito menos criativos ou, falando mais claramente, teriam criado muito menos. O mesmo acontece com um número significativo de romancistas. Stendhal havia publicado bastante no final da década de 1820, quando estava com quarenta e poucos anos. Se seu trabalho terminasse nesse ponto, não haveria motivo para ele ser lido ou lembrado. Mas, em 1830, ele publicou <em>O vermelho e o negro</em> e, nove anos depois, <em>La Chartreuse de Parme</em>, ambos surgindo naturalmente de suas experiências como soldado e administrador militar sob o comando de Napoleão. Foram esses acontecimentos – e nenhum outro – que o transformaram, essencialmente, em um artista criativo. O mesmo poderia ser dito de Ernest Hemingway. Suas experiências na Itália durante a Primeira Guerra Mundial permitiram que escrevesse <em>Adeus às armas</em>, que o consagrou como romancista aos seus próprios olhos e aos do público; e outras guerras, na Espanha e no Noroeste da Europa, reabasteceram seu capital ficcional e o mantiveram como um criador. No caso das escritoras de ficção, o capital essencial é fornecido pela emoção e pelos casos de amor, pelos filhos e pelos divórcios, e não é tão facilmente reabastecido com o passar do tempo. Os romances de Jane Austen foram todos baseados nas emoções que teve na juventude. Se tivesse vivido até os 60 anos, por exemplo, em vez de morrer com 49 anos, como e onde ela teria reabastecido seu capital criativo esgotado?»</p>
<p>(…)</p>
<p>« <strong>Não é fácil ser um criador no nível mais elevado</strong> <strong>e o mais alto de todos costuma representar agonia</strong>. Todos os criadores concordam que se trata de <strong>uma experiência dolorosa e muitas vezes aterrorizante</strong>, algo a ser suportado, não desfrutado, preferível apenas ao fato de não ser um criador.»</p>
<p>____      </p>
<p><a title="compre o livro" href="http://www.submarino.com.br/produto/1/1385687/?franq=140868" target="_blank"><em>Os Criadores</em></a>, de <a title="wikipedia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Johnson" target="_blank">Paul Johnson</a>.</p>
</blockquote>
<p> 
<p align="center">(Leia também, do mesmo autor, <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/35683/?franq=140868"><em>Os Intelectuais</em></a> e <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21312720/?franq=140868"><em>Os Heróis</em></a>.)</p>

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		<title>Do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Aug 2010 11:44:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="border-right-width: 0px; margin: 10px auto; display: block; float: none; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px" title="Jorge Luis Borges" border="0" alt="Jorge Luis Borges" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/borges.jpg" width="337" height="155" /> </p>
<blockquote><h3>Episódio do Inimigo</h3>
<p>« Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.</p>
<p>Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:</p>
<p>— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse —, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.</p>
<p>Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.</p>
<p>Disse-me, então, com voz firme:</p>
<p>— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.</p>
<p>Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:</p>
<p>— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.</p>
<p>— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.</p>
<p>— Posso fazer uma coisa — respondi.</p>
<p>— Qual?</p>
<p>— Acordar.</p>
<p>E assim o fiz. »</p>
<p>Jorge Luis Borges</p>
<p>&#160;</p>
<h3>Teologia</h3>
<p>« Como vocês não ignoram, viajei muito. Isso me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o Sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Essa gente crê nos sonhos. “No instante em que dormes”, explicaram-me, “conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno.” Se alguém argumentasse: “Nunca vi partir um homem adormecido; de acordo com minha experiência, permanecem deitados até que os despertem”, responderiam: “O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterrorizantes?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunha de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó”. »</p>
<p>H. Garro, <em>Todo o mundo</em> (1919)</p>
</blockquote>
<p>Os dois textos acima são excertos do <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=6808&amp;tipo=2&amp;isbn=8528602982" target="_blank"><em>Livro dos Sonhos</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Luis_Borges" target="_blank">Jorge Luis Borges</a>.</p>

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		<title>Virginia Woolf fala sobre a experi&#234;ncia de escrever romances</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 15:35:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; margin: 5px auto; display: block; float: none; border-top: 0px; border-right: 0px" title="woolf" border="0" alt="woolf" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/07/woolf.jpg" width="260" height="326" /> </p>
<blockquote><p>« Mas para continuar a história das minhas experiências profissionais, eu ganhei uma libra, dez <em>shillings</em> e seis <em>pence</em> pela minha primeira resenha, e comprei um gato persa com os ganhos. Então tornei-me ambiciosa. Um gato persa até serve – eu disse –, mas um gato persa não é suficiente. E tenho que ter um carro. E foi assim portanto que me tornei romancista – porque é muito estranho que as pessoas dêem a você um carro se você lhes contar uma história. É uma coisa ainda mais estranha que não haja nada tão prazeroso no mundo quanto contar histórias. É muito mais prazeroso que escrever resenhas de romances famosos. E ainda, se for obedecer sua secretária e contar a vocês minhas experiências profissionais como romancista, devo contar-lhes uma experiência muito estranha que me aconteceu. E para entendê-la vocês devem primeiro tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Eu espero não estar revelando segredos profissionais ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser tão inconsciente quanto possível. Ele quer induzir a si mesmo a um estado de perpétua letargia. Ele quer que a vida continue com a máxima quietude e regularidade. Ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas dia após dia, mês após mês, enquanto ele está escrevendo, de forma que nada deve quebrar a ilusão em que ele está vivendo – de forma que nada deve perturbar ou inquietar as misteriosas bisbilhotices, impressões, tiros, golpes e descobertas súbitas daquele mesmo espírito tímido e ilusivo, a imaginação. Suspeito que esse estado seja o mesmo para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês figurem uma menina sentada com uma caneta na mão, que por minutos, e na verdade por horas, ela nunca molha no pote de tinta. A imagem que me vem à mente quando penso nessa menina é a de um pescador imerso em sonhos à beira de um lago profundo, segurando um caniço sobre a água. Ela estava deixando sua imaginação disparar desenfreada por entre todas as rochas e fendas do mundo que ficam submersas nas profundezas do nosso ser inconsciente. Agora veio a experiência, a experiência que acredito ser realmente mais comum com as mulheres escritoras que com homens. A linha correu pelos dedos da menina. Sua imaginação disparou. Buscou as lagoas, as profundezas, os lugares escuros onde cochila o maior peixe. E de repente, um estrondo. Uma explosão. Espuma e confusão. A imaginação havia se lançado contra algo duro. A garota foi despertada de seu sonho. Ela estava na verdade no estado de mais aguda e difícil aflição. Para falar se meias-palavras, ela tinha pensado em algo, algo sobre o corpo, sobre as paixões que para ela, como mulher, não seria apropriado dizer. Os homens, sua razão dizia, ficariam chocados. A consciência do que os homens diriam de uma mulher que falasse a verdade sobre suas paixões havia a despertado do estado de inconsciência da artista. Ela não podia mais escrever. O transe tinha acabado. Sua imaginação não podia mais funcionar. Eu acredito que isto seja uma experiência de fato comum com as mulheres escritoras – elas são impelidas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Porque apesar de os homens sensatamente se permitirem grande liberdade neste aspecto, eu duvido que eles percebam ou possam controlar a extrema severidade com que condenam tal liberdade nas mulheres.»</p>
</blockquote>
<p>_____   <br />Trecho de <em>Profissões para mulheres</em>, discurso proferido por Virginia Woolf na <em>National Society for Women&#8217;s Service</em>, em 21 de Janeiro de 1931, disponível <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/76566/kew+gardens:+o+status+intelectual+da+mulher;+toque+feminino+na+ficcao?menuId=1339&amp;franq=140868&amp;utm_source=afiliados" target="_blank">neste livro</a>. </p>

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		<title>Henry Miller fala sobre o ato de viajar</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 13:59:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[escritores]]></category>
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<blockquote>
<p>« É considerado muito romântico visitar e passear entre estranhos, bem como comer do seu pão ao pé das figueiras, do outro lado do mundo. Não se pode negar que é de fato romântico viver uma aventura dessas, embora esse romantismo tenha sido muito exagerado por aqueles cujas vidas sedentárias, até o momento da grande aventura, criaram neles uma idéia exorbitante do que viram, um sabor falso da ação e aventura. Marco Pólo de fato viajou e andou entre estranhos; a verdade, porém, é que qualquer pessoa pode fazer a mesma coisa (desde que tenha coragem e disponha de meios de locomoção).</p>
<p>«Viajar é uma forma de indulgência para consigo mesmo. Se a viagem nada acrescentar ao viajante, ao que ele já possui de conhecimentos humanos, ou se ele não conseguir transmitir à imaginação de outras pessoas as belezas e esplendores de lugares remotos deste mundo, então viajar torna-se um ato inútil e pernicioso. A aquisição de novas sabedorias, a capacidade de acumular dentro de si mesmo novos conhecimentos e fatos, só é nobre naqueles poucos que conhecem a alquimia que transforma essa espécie de barro em ouro eterno e divino…</p>
<p>«Somente o viajante que é, dentro de si mesmo, maravilhoso, pode ver, apreciar, absorver e transmitir uma maravilha. Apenas cinco pessoas como essas, em toda a história do mundo, viram maravilhas. As outras viram aves e animais, rios, montanhas e pântanos e todas as coisas desse gênero de que o mundo está cheio. Os cinco viajantes foram Heródoto, Gaspar, Belchior, Baltazar e o próprio Marco Pólo. A beleza de Marco Pólo é que ele criou uma Ásia na imaginação dos europeus…»</p>
<p><em>Henry Miller</em></p>
</blockquote>

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