1:07 pmO Marceneiro e o Poeta

Antônio estava debruçado sobre um banco de madeira rústico, que ele, com a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor avaliar o estrago causado pelos cupins. Com uma verruma, ia seguindo e alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis pessoas sentadas lado a lado —, e tinha orifícios de cupim por toda sua extensão. O Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em nosso refúgio de escritores?

"¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é mais eficiente na destruição do banco?"

Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: "Pois é… Isso aqui é como combater um câncer… A gente precisa retirar o que tá podre antes de iniciar o tratamento."

"Humm… Você então trabalha mesmo como marceneiro, né."

"Bom, a marcenaria é meu salva-vidas…"

Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio, mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei, embaraçado com minha tarefa.

"¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?"

"Ele me disse que voltava em uma semana."

"¿E você va–"

"¿Ela tá com medo de mim, não tá?", me interrompeu, sem deixar de mirar o banco.

Eu sorri: "Na verdade… sim. Quer dizer, não é bem meeedo…"

"Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?"

"Exatamente", respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e que não era dado a rodeios. "Mas você não precisa ficar chateado com ela."

"Não, claro que não, eu entendo."

"Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?"

Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa franqueza mútua, tivesse sido quebrado.

Continua…

9:18 pmReedição de “A Tragicomédia Acadêmica”

Gostaria de avisar aos leitores deste blog que meu livro “A Tragicomédia Acadêmica — Contos Imediatos do Terceiro Grau”, cuja primeira edição data de 1998, foi reeditado por intermédio do Clube de Autores, o primeiro serviço que alia a impressão sob demanda à venda online na internet brasileira.

Para adquirir meu livro, clique aqui.

Caso queira ler alguns contos online e ler algumas opiniões a respeito, clique aqui.

Se Deus quiser — e eu tomar vergonha na cara — irei publicar outros dois até o final do ano.

2:51 amMeu conto no Festival de teatro de Curitiba

Meu conto “Frida — uma singela homenagem a Paulo Coelho” foi adaptado para teatro pelo grupo curitibano “Madame Vós – Uma Cia de Teatro” e será apresentado no Festival de Curitiba nos dias 22, 23, 24 e 25 de Março.

Leia mais no site do festival.

Ficha técnica

Direção: Érica Casarin Geraldo. Elenco: Carlos Magno Costa Tavares Junior, Daniele Rodrigues da Cunha, Enilde Gonçalves da Costa, Eunice de Carvalho, Janete do Amaral, Jedson Dassaev Rodrigues de Medeiros, Mário Henrique Kunde, Raquel Deliberali, Willian Bernardo Luciano.

Local: Centro Cultural UNINTER – Rua Dr. Muricy 1088 – Centro — Curitiba – PR

11:03 pmA carta que o escritor espera do leitor

Eis o tipo de mensagem que um escritor espera de ao menos um em cada cem de seus leitores:

Fri, Feb 6, 2009 at 7:14 PM

Olá Yuri,

Quem lhe escreve é Eduardo, 18 anos, natural e morador de Brasília.

Terminei há pouco de ler o seu livro “A Tragicomédia Acadêmica“, e gostaria de expressar os meus agradecimentos.

Como um jovem que, mesmo decepcionado, tenta passar na UnB, pude me identificar com várias das estórias contadas. Corroborando uma afirmação sua sobre a obra, pude ver, junto a alguns trechos beirando ao absurdo — e nesse conflito reside a excelência do texto –, incrivelmente, uma fiel representação da realidade. “Matando um Mosquito Com um Tiro de Canhão“, em especial, contém tudo o que gostaria de ter dito, mas não tinha a sabedoria, a coragem e nem o conhecimento, sobre um cursinho pré-vestibular, o próprio vestibular e a educação em geral.

A propósito, percebi em seus textos, e embora isso deva valer pouco vindo de um ignorante como eu (e agora um pouco menos graças a você), uma grande riqueza de conhecimentos, contida em tão pequeno espaço, coisa que nunca vi em crônicas de um Luís F. Veríssimo, por exemplo.

E falando em ignorância, para você ver, jamais teria percebido as inúmeras alusões feitas à mitologia grega se, voluntariamente e por mero acaso, não tivesse lido logo antes “O Livro de Ouro da Mitologia”, de Thomas Bulfinch, pois os que se faziam de professores não me ensinaram nada sobre isso quando fingia de conta que era estudante.

No momento, tento recuperar o tempo perdido, e esse livro foi um dos primeiros, tomara, de muitos outros.

Muito Obrigado.
Eduardo C. — eduardco[arroba]gmail[ponto]com

Claro, também chegam aquelas cartas com críticas ferrenhas que, a seu modo, fazem tão bem quanto. Há coisas que nos motivam, há outras que nos fortalecem.