8:13 amNovo livro: “Mestre de um Universo” (impresso e ebook)

São vinte e seis contos e crônicas escritos entre os anos 1990 e início dos anos 2000, tratando dos mais diversos temas, mormente cinema, política, religião, drogas, amor, etc. Todos trazem, de uma forma ou de outra, o peso da “virada do milênio” e muito humor.

A capa foi feita a partir de uma pintura do artista plástico Domício Ferreira.

Tanto o ebook (formato EPUB) quanto o livro impresso, já estão à venda na AgBook e no Clube de Autores. A versão para Kindle pode ser adquirida na Amazon.com, nesta página.

Para adquirir outros livros, visite minhas páginas na Amazon, no Clube de Autores e na AgBook.

1:43 pmNovo livro: “A Visitante do Planeta X” (impresso e ebook)

Acabo de lançar esta coletânea de contos e crônicas ao estilo da velha coleção “Para gostar de ler”. Bem, minha própria versão desse estilo, isto é, com algum humor negro, uma pitada de escatologia e uma que outra viagem mirabolante. Apesar da capa — ilustrada pela talentosa Rafaella Cândido —, capa essa cuja imagem não faz senão referência ao famoso caso de abdução Antônio Villas-Boas, trata-se de um livro sem temas polêmicos ou cabeludos, podendo ser lido por pessoas de todas as idades. Na verdade, todos os textos foram publicados, no final do milênio passado, em revistas da Editora Price e permaneceram inéditos na internet.

Tanto o ebook (formato EPUB) quanto o livro impresso, já estão à venda na AgBook e no Clube de Autores. A versão para Kindle pode ser adquirida na Amazon.com, nesta página.

3:22 pmEnquanto isso, no banheiro feminino…

 

Banheiro feminino

“Ei, por que você tá me olhando desse jeito?”

“Por nada.”

“Essa voz…”

“Que que tem minha voz?”

“Aaah! Você é homem! Sai daqui!”

“Não saio não.”

“Então eu vou gritar!”

“Mas eu sou crossdresser.”

“Hã?! Crós o quê?”

“Crossdresser. Estou vivenciando meu lado feminino.”

“Tá bom… Só porque tá vestido de mulher…”

“É verdade.”

“Se é verdade, tava me olhando por quê?”

“Para aprender a me portar melhor como mulher, ora.”

“Hum, sei… Muito esquisito isso.”

“É sério. Por exemplo: gostei da sua idéia de cobrir o vaso com papel antes de se sentar. Toda mulher faz isso?”

“O quê? Você tava me espiando no reservado?”

“Dei uma olhadinha por cima, de pé na privada aí do lado. Achei muito interessante.”

“Seu safado!”

“Safado não. Respeite minha opção. Quero ser tratado como mulher. É meu direito.”

“Não acredito que agora sou obrigada a ouvir isso…”

“Obrigada a ouvir você não é, mas é obrigada a aceitar. Se me tirarem daqui, posso processar você e o dono do bar.”

“Tá legal, calma. Só que primeiro eu preciso me acostumar com a idéia, né. Até meu avô já se vestiu de mulher — mas isso era no carnaval, poxa!”

“Certo, eu entendo. Meus tios também faziam isso lá no Rio. Mas, enquanto você se acostuma, posso pedir um favor?”

“Que favor?”

“Depois que você faz xixi, na hora de se enxugar, você esfrega o papel na xoxota ou só o encosta de leve?”

“Ah, pelo amor de Deus! Me poupe, né!”

“Poxa, é uma pergunta relevante. Cerveja faz a gente vir aqui toda hora. E imagino que, se você esfrega o papel cada vez que faz xixi, acaba ficando toda assada, né.”

“Por que você não pergunta isso pra sua mãe, hem?”

“Bom, minha mãe já faleceu…”, responde, com a voz embargada.

“Ah, desculpe, não quis…”

“Tudo bem…”, diz ele, uma expressão triste no olhar.

“Não faz essa cara, falei sem saber.”

“Bom, se você me fizer um favor, juro que vou me sentir melhor.”

“Ai… O que é agora?”

“Posso passar o papel em você pra eu sentir como é?”

“O quê?! Ficou maluco, é?”

“Maluco não: maluca!”

“Tá: maluca. Ficou maluca, é?”

“Deixa, vai. Só um pouquinho.”

“Nem ferrando!!”

“Então deixa pelo menos eu ver você fazendo. Não deu pra ver olhando de cima.”

“Ai, caramba… Tá bom, tá bom.”

“Eba.”

“Mas já vou te avisando: se você encostar um dedo em mim, eu grito; viu?”

“Viu.”

Ela volta ao reservado, pega um pedaço de papel, levanta a saia, arria a calcinha.

“Hum, bigodinho de Hitler, né.”

“Pára com isso e presta atenção: só vou mostrar uma vez.”

Ela encosta em si mesma o papel dobrado algumas vezes, pressionando de leve.

“Ah, eu sabia! Sem esfregar.”

“Pois é…”

Ele estende a mão e, afastando o papel de cima da xoxota, verifica se ela ficou mesmo sequinha.

“Aaaaah!”, ela grita, derrubando-o com um chute no rosto e ajeitando novamente a roupa.

“Socoooorro!!!”, ele berra ainda mais alto do que ela.

Uma policial uniformizada entra no banheiro: “O que está acontecendo aqui?”

“Esse homem me atacou!”, diz a mulher.

“Eu?”, contesta ele, sentado no chão, o nariz sangrando. “Quem é que foi nocauteado aqui? Quem é a vítima?” E para a policial: “Ela não respeitou minha opção. Sou crossdresser, se a senhora não a prender agora, vou acionar a Coordenadoria Estadual de Políticas para a Diversidade Sexual. Vocês duas estarão violando a lei estadual 10.948/2001.”

A policial, engolindo em seco, segura a mulher pelo braço: “A senhora está presa”.

“O quê?! Ficou maluca?!! Não seja idiota, não caia na conversa desse cretino!”

“Quieta! Não me desacate!”, e então a algema, levando-a dali cheia de autoridade.

“Ai, ai, nada como usar o feminismo a meu favor… ”, suspira o crossdresser. “Qual outro bar tem umas gatas como essa mesmo? Esse aqui já era…”

E, levantando-se, saiu em direção à porta, equilibrando-se como podia em seus saltos que destoavam completamente da sua saia fora de moda.

4:11 pmEx-namoradas e desarmamento civil

 

"Ei, sua ex-namorada tá morando no mesmo prédio que eu."

"Ah, é?"

"É. E continua muito gata, a gente sempre se encontra no elevador."

"Sei."

Silêncio.

"Que cara é essa?"

"Minha cara, uê."

"Tá com ciúme, é? Pensei que você é que tinha terminado com ela."

"E foi mesmo."

"Então não pode ter ciúmes, poxa. Aliás, você nunca teve ciúme de ex-namorada…"

"A gente muda. Aprende a se deixar envolver de verdade…"

"Eu ia chamar ela pra sair. Você ficaria grilado?"

O outro vacila alguns segundos. Por fim, indaga: "Você ainda é defensor do desarmamento civil?"

"Que que isso tem a ver?"

"Responde primeiro."

"Sou a favor, sim."

"E por que é a favor?"

"Caralho, a gente já discutiu isso mil vezes…"

"Refresca minha memória, vai."

"Tá bom. Caramba… É o seguinte: eu acho que, em casos extremos, a pessoa que tem uma arma pode perder o controle emocional e fazer besteira."

"Sei. Você acha que o autodomínio é uma utopia então…"

"O completo autodomínio é."

"Você se lembra do que eu acho disso, né."

"Ah, lá vem você com aquele papo de que fez CPOR, de que é tenente da reserva, que tem arma e que sabe usar…"

"E não só."

"Ah, claro: você também se acha supercontrolado, vive repetindo que atiraria apenas na coxa ou no ombro de um assaltante e que nem uma briga de trânsito com um completo babaca iria te tirar do sério…"

"E você duvida disso."

"Duvido! Duvido meeeesmo. Acho que todo mundo tem seu limite."

"Acha mesmo?"

"Acho."

"A gente pode fazer um teste."

"Que teste?"

"Sai com minha ex-namorada e fica com ela. Juro que tentarei me controlar. Vamos ver quem tem razão."

"Por acaso isto é uma ameaça, é?"

"Claro que não — é uma experiência. Você parece acreditar muito na sua tese. Eu, por exemplo, acredito apenas que essa garota foi, ou é, sei lá… enfim, que ela foi importante pra mim."

"Hum."

"E então? Topa ver qual de nós tem razão sobre o autodomínio?"

O outro deu um sorriso amarelo. No dia seguinte, mal cumprimentou a garota ao vê-la na portaria do prédio…

4:08 pmUm papo estranho

 

"Meus velhos amigos estão no Facebook, mas nunca conversam comigo."

"Os meus tampouco, na verdade, nem respondem minhas mensagens diretas."

"Os meus respondem no máximo com um ‘sim’, um ‘não’ ou um ‘talvez’."

"Por que será?"

"Ah, deve ser por causa de política ou de religião. Com o tempo as pessoas vão notando as diferenças de opinião e vão se afastando. Cada macaco no seu galho."

"Muito chato isso."

"Nem me fala."

"Mas acho que comigo isso acontece por outras razões…"

"Por exemplo?"

"Ah, a maioria parou de falar comigo depois que entrei numa festa armado, atirando em todo mundo."

"Como é?!"

"Sério, mas não matei ninguém não. Era um revólver de espoleta."

"Ah, bom…"

"Mas ninguém achou graça. Com a paranóia geral, ficaram foi putos, pensando que era de verdade. Teve gente que se jogou debaixo da mesa; muito engraçado. A namorada de um amigo meu me xingou pra caramba, aí chamei ela de puta e tal."

"Credo."

"Ah, mas era uma vagabundinha mesmo. Já tinha dado pra todo mundo, só ele não sabia. Até aquele momento, claro. E sobrou pra mim: o cara me encheu de porrada."

"Puts…"

"Pelo menos não foi como numa outra festa, onde servi um space cake pra galera."

"Que que é isso?"

"Um bolo feito de maconha, porra."

"Ah, tá…"

"Aí sim quiseram me matar… Todo mundo alucinando e tal. Chamaram a polícia, imagine. Esse pessoal careta, quando finalmente fica louco, perde as estribeiras…"

"Você parece ser meio psico, né."

"Psico? Só eu?"

"Bom, eu nunca fiz esse tipo de coisa. No máximo declaro abertamente minhas posições sobre política, religião…"

"E só eu sou psicótico?"

"E o que há de psicótico em assumir minhas idéias numa rede social?"

"Bom, nisso não há nada de psicótico, mas, se você já se esqueceu, estamos ambos com o pau de fora conversando no Chatroulette.com…"

"Hum, é verdade. Já tinha até abstraído. Mas é que, caramba, só tem pau de fora aqui e as garotas nunca conversam com a gente."

"Tá, mas é injusto, numa situação como essa, eu ser o único psicótico…"

"Ok, ok, me desculpa."

"Pelo menos a gente consegue conversar, ao contrário do que ocorre com nossos antigos amigos."

"Isso é verdade."

"A gente podia se adicionar no Facebook…"

"Tá louco, meu! Você acha que vou adicionar um cara de quem só vi o pau! Tá achando que sou bicha? Vai se ferrar, cara!"

"Ah, vai você, seu idiota!"

E então ambos apertaram no "Next".

3:50 amMárcia e o desconhecido do MSN

 

 

Márcia iniciou o MSN e a janela com o convite se abriu: um certo Alessandro queria adicioná-la. Era bonito na foto e, no texto do convite — “Oi, te achei interessante. Posso te adicionar?”—, havia o endereço do perfil dele no Facebook. Decidiu, pois, dar uma checada antes. Viu que ele tinha apenas uns quarenta amigos — o que lhe pareceu pouco, talvez estivesse há pouco tempo naquela rede social —, notou que ele morava e trabalhava na mesma cidade, que tinham muitos interesses em comum e o principal: pelas demais fotos via-se que era realmente um homem muito bonito, um sujeito a exalar um ar de confiança dos mais impressionantes. Claro, um piloto de helicóptero — uau! — não podia ser alguém sem auto-estima. O aparelho pode até preferir o combustível, mas os passageiros querem mesmo é alguém que lhes transmita segurança.

“Ok”, pensou ela, “vou dar uma chance pra esse cara”, e aprovou o convite. Ele, que já estava online, iniciou o contato imediatamente.

“Oi, tudo bem?”

“Tudo, e com você?”, devolveu ela.

E iniciaram um longo diálogo que durou mais de três horas. Descobriram gostos em comum, falaram de livros, filmes, viagens, esportes radicais, gastronomia e até de astrologia tradicional, que a ela nunca interessou muito, mas que, em vista das descrições que ele lhe fazia com base apenas na data de nascimento dela, muito a tocou. Não era um homem qualquer. Via-se que conhecia os mais diversos temas. E como escrevia bem! Transmitia maturidade. Muito diferente de outros homens a quem ela dera uma brecha pela internet e que apenas a deixaram constrangida e irritada.

“Acho que estou prestes a cometer uma loucura”, escreveu ela, por fim.

“E que loucura seria essa?”

“Acho que vou aceitar seu convite para esse passeio de helicóptero.”

“Mesmo?”

“Mesmo.”

“Isso não é tão louco assim. Eu piloto muito bem. Estará em boas mãos.”

Ela hesitou alguns instantes. Mas preferiu abrir o jogo: “O problema é que sou casada”.

“Hum, entendo. Mas não se preocupe, vou respeitar você.”

“Rsrsrsrsrsrs”, digitou ela. “Mas é que estou pensando em me separar do meu marido. A loucura que estou falando é a seguinte: você consegue pilotar enquanto uma mulher chupa seu pau?”

Ele demorou segundos demais para responder. Ela quase se arrependeu da ousadia. Então ela viu que ele digitava algo. E leu: “Bom, como profissional, acho que seria uma péssima idéia e realmente não deixaria você fazer isso comigo em pleno vôo. Mas podemos, antes ou depois do passeio — você escolhe a ordem — podemos passar uma tarde num motel”.

“Perfeito!”, disse ela. “Quando?”

Marcaram o encontro. E desconectaram. Ela estava decidida a ter essa aventura. Estava cansada da distância que o marido deixara crescer entre eles, cansada da sua falta de iniciativa, do seu desânimo, das suas reclamações e de sua eterna depressão. Ele vivia colocando a culpa dessa vida atolada no governo, nos ex-sócios, na falta de visão do brasileiro comum, enfim, a culpa era sempre de um outro, ele jamais assumia sua falta de atitude. Ele, que fora um homem cheio de sonhos e planos, uma pessoa criativa e muito inteligente, depois que se tornara Fiscal Federal na fronteira, costumava agora passar metade do mês noutra cidade, sempre se comunicando de uma forma amargurada, seca, como se não gostasse mais da vida ou, quem sabe, como se não gostasse mais dela. Já Rafael, o marido, não sabia o que pensar. Para não perder sua esposa, que tanto amava, de fato trocara seus sonhos por um emprego estável que pagava bem. Quantas vezes ouvira os amigos a lhe dizer que precisava deixar de viver no mundo da Lua? Quantas vezes lhe disseram que uma família precisa de segurança material e não de viagens na maionese artística? Mas agora estava fora de si. Não sabia se matava a si próprio, se matava Márcia, ou se as duas coisas. Desde o casamento, quatro anos antes, ele vivia criando perfis e contas de MSN falsos para testar a fidelidade da esposa. Mas essa estranha mania se acentuara com esse novo emprego, que o mantinha longe, numa cidade aborrecida, cultivando meramente os ciúmes e a preocupação. Sua imaginação não o abandonava, vivia martirizando-o. Imaginava a esposa sozinha, ainda jovem, bonita, sem filhos, sem ter o que fazer na capital… Entrava então no Flickr, copiava mil fotos de diversos estranhos, ficava dias preparando um perfil no Facebook, convidando pessoas aleatoriamente para dar uma certa credibilidade àquela vida falsa sem amigos reais, e até aquele momento, por mais que tivesse tentado, na pele de um outro, seduzi-la com palavras, promessas, lascívia e até dinheiro, a esposa sempre se esquivara, alegando amar o marido e afirmando enfaticamente que havia aceitado o convite apenas por achar que se tratava de algum contato profissional. Desta vez, porém, ela não passou no seu teste.

7:55 amO amigo do escritor

 

Ui, ele é escritor!

"E aí? Leu o livro que lhe dediquei?"

"Ué, você me dedicou um livro?"

"Puts, quantas vezes terei de repetir que dediquei? Umas mil, setecentas e vinte e três vezes? Caralho, e olha que já faz dois anos que o publiquei!"

"Cadê o livro?"

"Na loja, claro. No site. Você nem comprou, né."

"E ainda preciso comprar?"

"Como é?! É óbvio que precisa!! Eu lhe dediquei um livro e ainda espera ganhá-lo de graça?! Quer comer minha bunda também? A da minha namorada? Que figura… Cobra caro cada segundo do trabalho que faz mas quer meu trabalho de graça… Depois ainda tem coragem de me dizer que escolhi uma carreira que não dá dinheiro…"

"Se você me dedicou, devia me dar o livro."

"Não acredito que você falou isso… Não acredito… Eu NÃO TENHO o livro! Eu apenas o escrevi. Não tenho dinheiro sobrando pra ficar comprando meu próprio livro só para dá-lo aos amigos."

"Credo, que mau humor…"

"Mau humor vírgula. Quer saber? Não dedico livro pra mais ninguém. Gente mais indiferente, credo."

"Se você não tem dinheiro pra me dar o livro, o problema não é meu…"

"A questão não é essa. Meu dinheiro é para outras coisas mais urgentes. Não é pra dar livro pra quem não o quer ler. Aliás, já coloquei a versão em ebook no seu iPad mil anos atrás. E de graça! Não é possível que não o viu no iBooks. Ou agora vai dizer que só lê livro de papel?"

"Não. Na verdade, não gosto de literatura nacional…"

"Certo, certo. Vai se ferrar então. Vai ver o BBB. Cada uma que a gente tem de ouvir…"

Enquanto o escritor sai, pisando duro, o outro, um enorme sorriso no rosto, volta a abrir o livro do amigo. De papel. Já está na página 77…

(Publicado no Digestivo Cultural.)

8:40 pmFaça gratuitamente o download dos meus ebooks nos formatos PDF, EPUB (Sony Reader, iPad, Positivo Alfa, etc.) e MOBI (Kindle, iPhone, Android, Blackberry)

A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau

Um livro de contos que satiriza todos os âmbitos da vida universitária.

A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio

Coletânea de contos, crônicas e um ensaio escritos entre 1993 e 2008. Todos os textos trazem – seja de modo explícito ou implícito – um pouco do clima apocalíptico que contagiou aqueles anos.

Caso você possua um iPad e prefira ler o livro em PDF, use este aplicativo de leitura gratuito.

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Atualização de Julho de 2012: Devido a acordos com editoras, esses livros não estão mais disponíveis de graça. Visite a página de livros para saber com mais detalhes onde adquiri-los. (Incluindo as versões impressas.)

8:43 pmNovo livro: A Bacante da Boca do Lixo

A Bacante da Boca do Lixo

Quero anunciar o lançamento do meu livro A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio. Trata-se de uma coletânea de contos, crônicas e um ensaio escritos entre 1993 e 2008. Todos os textos trazem – seja de modo explícito ou implícito – um pouco do clima apocalíptico que contagiou aqueles anos. (Em breve lançarei outro volume, no mesmo tom, de título O Exorcista na Casa do Sol e Outros Escritos da Virada do Milênio.)

O livro impresso e o ebook no formato EPUB podem ser adquiridos aqui ou aqui.

O ebook também está à venda na Amazon e na Kobo Books.

1:07 pmO Marceneiro e o Poeta ou Antônio Ramos e Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

Antônio estava debruçado sobre um banco de madeira rústico, que ele, com a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor avaliar o estrago causado pelos cupins. Com uma verruma, ia seguindo e alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis pessoas sentadas lado a lado —, e tinha orifícios de cupim por toda sua extensão. O Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em nosso refúgio de escritores?

“¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é mais eficiente na destruição do banco?”

Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: “Pois é… Isso aqui é como combater um câncer… A gente precisa retirar o que tá podre antes de iniciar o tratamento.”

“Humm… Você então trabalha mesmo como marceneiro, né.”

“Bom, a marcenaria é meu salva-vidas…”

Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio, mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei, embaraçado com minha tarefa.

“¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?”

“Ele me disse que voltava em uma semana.”

“¿E você va–”

“¿Ela tá com medo de mim, não tá?”, me interrompeu, sem deixar de mirar o banco.

Eu sorri: “Na verdade… sim. Quer dizer, não é bem meeedo…”

“Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?”

“Exatamente”, respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e que não era dado a rodeios. “Mas você não precisa ficar chateado com ela.”

“Não, claro que não, eu entendo.”

“Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?”

Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa franqueza mútua, tivesse sido quebrado.

“Yuri — ¿seu nome é Yuri, né? — me passa por favor essa caixa de ferramentas aí do seu lado.”

Estendi-lhe a caixa, que parecia uma caixa de engraxate, e resolvi ser tão direto quanto ele.

“¿E então, Antônio?”, comecei em tom amistoso. “Além de ser um cupim gigante, ¿há sobre você algum outro dado ameaçador que poderia fazer a Hilda perder o sono?”

Ele parou com seu trabalho e me olhou direto nos olhos, sustentando uma expressão simultaneamente irônica e inocente. As ferramentas luziam dentro da caixa, que ele acabara de abrir.

“Humm. Depende… ¿Você acha que ela ia ficar assustada se soubesse que eu sou… um fugitivo da justiça?”

Meu interesse viu-se elevado ao cubo.

“¿E você é?”

Ele riu, retomando o serviço: “Sou sim. Faz dois anos que fugi da prisão.”

Uma eletricidade percorreu meu corpo só de imaginar a reação da Hilda ao receber uma notícia como aquela. Uma eletricidade extática. Muito difícil evitar pequenos prazeres sádicos, ainda mais diante de uma mulher com discretas necessidades masoquistas. A Hilda certamente ficaria aterrada com a informação, mas a receberia rindo nervosamente, curtindo mais essa ironia do destino. “Meu Deus, Yuri! Essa casa só atrai gente estranha!!”, diria, degustando seu mais novo motivo para entrar em pânico.

“Peraí, Antônio, ¿não me diga que você já matou alguém?”

“Quando a gente fala em prisão, todo mundo já pensa logo em homicídio. Mas não, nunca matei ninguém não.”

“¿E você foi preso por quê?”

“Drogas.”

“Ah, você traficava.”

“Não exatamente. Eu semprei fumei maconha. Maconheiro mesmo. E um dia eu saí com um sobrinho meu, de carro. Uma blitz parou a gente e ele tava com uma trouxinha no bolso. Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas achei que minha irmã fosse me culpar caso ele fosse preso. Então eu disse ao policial que eu é que tinha dado o bagulho pra ele. Foi uma burrice dupla: primeiro porque ele era menor de idade e não ia ter maiores problemas; segundo porque eu não sabia que, na lei, presentear alguém com drogas é considerado tráfico. Artigo 12.”

“Caramba. Onde foi isso?”

“Em Goiânia.”

“Ah, essa é boa! ¿Então você é de Goiânia? Morei alguns anos lá.”

“Eu cresci no Setor Macambira. Fiquei preso no CEPAIGO.”

Antônio agora retirava uma das pernas do banco, inutilizada pela ação dos cupins.

“Nossa! O Carandiru do cerrado… ¿Você já tinha passado por algo assim antes?”

“Não, nunca. Nunca fui do crime. Aprendi marcenaria primeiro com meu pai e depois numa escola técnica. Sempre trabalhei com isso, desde a adolescência. Meu pai achava ridídulo dizerem que criança não deve trabalhar. Ele tava certo: sem um ofício a pessoa tá é perdida… Também participei de um grupo de teatro na associação de moradores lá do bairro. Cheguei a dirigir duas peças… Amadoras, né.”

“Você obviamente deve ter ficado muito puto com esse negócio de ser preso.”

“¿Puto?! Eu fiquei foi apavorado, em pânico!!”

“¿E como você se virou lá no CEPAIGO?”

Antônio então se sentou ao meu lado e começou a medir, com uma trena, a perna defeituosa que havia extraído do banco.

“Olha, pra falar a verdade, até que eu tive sorte. Quando eu cheguei lá, tava morrendo de medo, super ansioso. Aqueles portões altos abrindo pra gente entrar… Que sensação horrível!… E eu ia ficar de três a quinze anos lá dentro. É uma sensação de que a vida acabou, de que você está sendo jogado numa lata de lixo de gente, de que a sociedade agora tá cagando e andando pra você. O que eu não sabia é que tava correndo um boato de que um tal Cartucheirinha tinha sido preso e ia chegar naquele dia também. Todo mundo tinha medo dele, tanto os carcereiros quanto os outros presos. Um cara perigoso de verdade. Aí, chega a viatura e… ¿quem sai de dentro dela? Eu. Todo mundo pensou que eu é que era o Cartucheirinha.” Antônio deu uma risada acanhada: “Juro! Me olhavam com um respeito… E eu calado, sem saber o que se passava, com medo deles. Achavam que era brabeza minha.”

“Meu Deus! Que sorte, ¿hem? ¿E quando perceberam o engano?”

“Ah, nem me lembro mais. Só sei que, quando descobriram, eu já tava fabricando bancos, mesas, estantes, prateleiras pra todo mundo. Achavam que eu era um Bíblia, ¿entende? Um crente. Todos me tratavam bem e me pagavam pra fazer coisas pra cela deles. A marcenaria é meu colete salva-vidas… Mas lá era um lugar cheio de caras estranhos. Por exemplo. Tinha um, o Divino Caveirinha, que cismou que ia pular o muro da penitenciária usando esses balões de festa com hélio. Vivia tentando contrabandear cilindros de hélio lá pra dentro, coitado. Como se alguém fosse fazer esse jumbo pra ele.”

“Jumbo?”

“É. Jumbo é uma encomenda que o presidiário faz. Ih, é tanta palavra diferente que a gente usa.”

“Por exemplo?”

“Lá na prisão, taba era maconha. Pino ou pedra era o crack… Hum… Tranca-dura era o xadrez. Ganso era o alcagüete, o dedo-duro… Ah, é coisa demais.”

“¿E como foi que você fugiu da prisão? Nunca pensei que pudesse ser fácil assim.”

“Ah, não foi não. E eu não pretendia fugir. E também nem foi de lá que fugi.”

“Ué, ¿como assim?”

“Eu e meu advogado conseguimos provar que eu era usuário, e não um traficante. Levou quase um ano pra conseguir isso. Eu mesmo já havia me internado em duas clínicas de reabilitação antes de ser preso: uma espírita e outra evangélica. Isso ajudou a convencer o juiz.”

“¿Clínica espírita? ¿Evangélica? Nossa.”

“Foi por causa da minha mulher. Ela tinha ameaçado se separar caso eu não parasse com a maconha. Aí eu me internei nessas clínicas.”

“¿Em Goiânia?”

“A evangélica era em Anápolis, lá perto, mas primeiro fiquei na espírita, em Goiânia. Era muito legal lá, um lugar bonito, calmo, com um jardim bem grande, muitas árvores. Era uma chácara, na verdade. Lá eu também ficava trabalhando com madeira, conversando com as pessoas, pensando na vida. Os psicólogos de lá eram gente muito boa. É claro que tinha muito nego maluco, sabe, né, usuários. E a verdade é que, depois de passar pelas três clínicas de reabilitação, percebi que elas são os lugares onde mais facilmente a gente encontra drogas.”

Eu ri: “Sério?!”

“Claro, aquele bando de nego na fissura, em abstinência, doido pra cair na tentação. Aí sempre tem um interno mais perverso que aproveita, né. O trem é feio mesmo, Yuri.”

“Puts. E o pessoal da clínica sabendo de tudo, fazendo vista grossa.”

“Não, não, são gente honesta, disposta a ajudar mesmo. Quer dizer, com exceção da clínica alopática, né, pra onde eu fui depois de preso. Lá, nem precisa ter traficante: eles mesmos se encarregam de deixar você dopado o dia inteiro. Acho que é pra você não ter condição de pensar em usar as outras drogas, as ilegais. E se reclamar, leva um sossega leão.”

“¿Sossega leão?”

“É, a gente chamava assim. É uma injeção de Amplictil misturada com mais alguma coisa. Você fica lesado o dia todo. Isso se você conseguir ficar acordado, claro.”

“Credo. Então as clínicas religiosas eram melhores.”

“A espírita era. A evangélica ainda não sei dizer.”

“¿Como assim?”

“Ah, na espírita era uma vida super tranqüila, ¿sabe? E era mista, mulheres e homens juntos. Não na hora de dormir, né. Mas era mais fácil de levar. E não era só pra drogadictos, tinha muita gente lá tratando de depressão, esquizofrenia, essas coisas. Muitas visitas. A única coisa agitada lá era o Vasco, que de vez em quando saía correndo aos berros, ‘O cigano! o cigano!’, e ia se esconder em algum lugar. O cara era bisonho. Ele tinha assassinado um cigano e estava sempre vendo o espírito dele em algum lugar…”, e sorriu, sem tirar o olho da trena. “Mas a clínica evangélica era beeem diferente, disciplina militar. Castigos militares também. Uma gente rígida. Casa de Recuperação Príncipe da Paz. Só homem lá dentro — se bem que a presidente era uma mulher, dona Ângela. Por um lado foi bom, não tinha remédio nenhum e nunca li tanto, principalmente a Bíblia. Quem decorasse alguns trechos ganhava repeteco na comida. ¿Conhece o ‘telefone de Deus’?”

Eu, sorrindo: “Não”.

“Jeremias trinta e três-três: ‘Chama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes'”, e Antônio retribuiu o sorriso. “Aprendi a falar direito, ¿entende?, a me fazer respeitar. Você não precisa de terno e gravata pra ser respeitado. Falar bem é muito mais eficaz. E ler a Bíblia ajuda muito nisso. Palavras difíceis, que impressionam. Nenhum jornal tem texto escrito do jeito que a Bíblia tem. Bonito mesmo. ¿Já leu?”

“Algumas coisas. Não tudo.”

“Vale a pena…”, disse, enquanto retirava restos do pé do banco ainda presos no assento. “Mas, rapaz, era tanta humilhação nessa clínica… Acordavam a gente pra cavar buraco no meio da noite. De madrugada, quando a gente levantava, só banho gelado. Se a gente fizesse algo errado, não almoçava. Se pegassem a gente batendo punheta, vixe, mais banho gelado e buraco pra cavar à noite, lavar a louça de todo mundo e por aí vai. Difícil, viu. Mas lá eu podia trabalhar com madeira. A gente também cultivava a horta e criava escargô.”

“¿Escargô?!”

“É, aquela lesma francesa.” E rimos. “Eu cheguei a me tornar obreiro, Yuri. Ajudei a celebrar vários cultos. Quando saí de lá, já estava a ponto de virar pastor.”

“¿E por que não virou pastor? ¿Não encontrou uma cabine telefônica?”

“Uma história estranha”, começou, ignorando a pilhéria. “Na igreja os caras queriam que eu tomasse anfetaminas, rebite, ¿sabe? ¿Aqueles pastores gritando lá na frente, no palco, as frases encavaladas umas nas outras, pulando aos berros? Tudo anfetamina, o mesmo remédio que caminhoneiro toma.”

“Tá brincando!!”

“Sério, Yuri, eles acham que não tão errados porque compraram droga legalizada na farmácia, porque é pro bem, acham que ajuda a ‘entrar no Espírito’. Um pastor até me disse que aquilo era muito melhor, porque na outra igreja de onde ele tinha vindo rolava um tráfico interno de cocaína só pros pastores. ¿Mas de quê ia me adiantar trocar a maconha por bola ou por cocaína? Muito pior.”

Fiquei em silêncio por um minuto observando-o cortar um pedaço de madeira que ele desembrulhara de um papel pardo. Iria agora preparar uma nova perna para o banco.

“Tá, Antônio, deixa ver se entendi: você se internou em duas clínicas de recuperação de drogados, foi preso, se transferiu para uma outra alopática. Ok. ¿E como você fugiu?”

“Ah, um dia lá, eu simplesmente fingi que estava tomando o Anatensol, que sempre davam pra gente — na verdade, escondi o comprimido debaixo da língua — e, à tarde, quando todos estavam bodados na cama, pulei o muro.” E indignado, me encarou: “Porra, eles estavam dando choques na gente! Cheguei a passar vários dias babando, uma coisa escrota, viu.”

“¿E como você conheceu o Bruno?”

“Foi na Praça da República, em São Paulo, pra onde fui depois de fugir. É uma história comprida, vou resumir pra você… Logo que cheguei na cidade, acabei morando um tempo na favela do viaduto Alcântara Machado. Não deu muito certo, fui me meter em encrenca por causa de mulher e acabei na rua. Você sabe, mulher é foda”, e deu um sorriso amarelo. “Aí eu ficava lá na praça da República, vendendo por um Real banquinhos feitos com caixotes de feira. Ia à feira, catava as sobras de madeira e ficava lá, trabalhando. Era perigoso dormir na rua — então fiz amizade com um negão de dois metros, que vendia bebida pros mendigos e vagabundos. Eu tinha feito umas divisórias de madeira pro carrinho de supermercado que ele tinha, ¿sabe?, pra colocar as garrafas de pinga, vodka, campari, evitando que tombassem quando ele empurrasse o carrinho por aí. E então a gente se protegia, os dois negão no centro de São Paulo, ele, o grandão e eu, o baixinho. Enquanto um dormia, o outro ficava vigiando, porque tem muita violência da polícia, dos playboys, dos carecas, dos outros mendigos. E todo mundo querendo dinheiro pra ficar doidão, que era a única distração que a gente tinha. Quando a gente conseguia bagulho, alguém tinha de ficar cuidando a loira pros outros fumarem em paz.”

“¿Cuidando da loira? ¿Que loira?”

“Cuidando a loira. Loira é a polícia. E alibã é o soldado da polícia.”

“Tá, saquei.”

“Às vezes a gente comprava Artani na farmácia, um remédio pra epilepsia que deixa a gente noiado e enxergando tudo cor de rosa… A rua é foda, Yuri. Muita traição, muita briga de faca. Naife, a gente dizia.”

“Cara, que loucura…”

“É, nunca imaginei que ia ficar numa situação dessas. Tudo acontece dum jeito muito esquisito: num dia, você vai parar num aperto que parece ser o fim da linha. E fica naquilo algum tempo, acreditando que é mesmo o fim da linha. De repente, do nada, tudo muda. Outro dia, eu tava na prisão, outro, na rua e hoje tô na casa da poeta Hilda Hilst, de quem eu nunca tinha ouvido falar e que o Bruno me explicou quem é.”

Eu ri, me identificando com o comentário.

Ele: “Então, te respondendo: um dia eu tô lá na Praça, fabricando e vendendo banquinhos, e aparece esse cara magro, grisalho, todo fino, de terno e gravata, e me pergunta se eu sabia fazer mesa, cadeiras. Eu disse que só precisava de material e de algumas ferramentas melhores. Ele perguntou onde eu morava e eu disse que na rua. Quis saber por quê e eu achei ele intrometido demais, disse pra ele que a vida tinha me largado ali. Aí ele sorriu, disse que era poeta, que tinha voltado pro Brasil fazia pouco tempo e que não sabia onde comprar móveis bons. ‘Poeta não tem dinheiro pra gastar’, falei pra ele. Ele disse que trabalhava na revista República, que poderia me pagar, sim, e perguntou se eu não queria ir olhar o apartamento, pra ver as medidas da sala. Perguntei o nome dele, pra saber se era alguém conhecido. ‘Bruno Tolentino’, respondeu. Bom, eu nunca tinha ouvido falar dele. Então disse pra ele que de poesia só conhecia bem a Cecília Meireles, que eu li muito com o pessoal do teatro lá do meu bairro em Goiânia. Ele arregalou os olhos: ‘Eu conheci pessoalmente a dona Cecília. ¿Você sabe declamar algum poema dela?’ Sei, e lembrei desse aqui: ‘E aqui estou, cantando./ Um poeta é sempre irmão do vento e da água:/ deixa seu ritmo por onde passa./ Venho de longe e vou para longe:/ mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho/ e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram./ Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, / mas houve sempre muitas nuvens./ E suicidaram-se os operários de Babel./ Pois aqui estou, cantando./ Se eu nem sei onde estou,/ como posso esperar que algum ouvido me escute?/ Ah! Se eu nem sei quem sou,/ como posso esperar que venha alguém gostar de mim?’ Eu declamei olhando pro chão, pra conseguir me lembrar do poema todo, que era o único que sabia. E também de vergonha. Quando olhei pra ele, vi que estava com os olhos marejados. Fiquei sem graça com aquilo, a gente perde a sensibilidade morando na rua. Mas percebi que era sincero mesmo, Yuri, que ele tinha alguma fraqueza grande — e algum tipo de grandeza também, ¿sabe? Ele era inocente. Porque só uma pessoa muito inocente inventa de levar um mendigo pra dentro de casa, né. Vi na hora que ele não era nenhum pervertido procurando um parceiro pras suas taradices ou coisa assim. Ficou um tempo calado, me olhando terminar o banquinho. Aí ele disse: ‘¿Você acredita em Deus, rapaz?’ Olha, falei pra ele, eu não confio em nada nem em ninguém: só em Deus. E o Bruno, depois de pensar um pouco: ‘Olha, tem um colchão sobrando no meu apartamento. Você pode dormir na sala. Quando terminar a mesa e as cadeiras, se quiser, pode ir embora.”

“Caramba.”

“Foi assim que conheci o poeta Bruno Tolentino, Yuri.” E percebi que Antônio, ao enxugar o suor do rosto, disfarçadamente secou uma lágrima. Ele finalmente compartilhava da emoção do poeta naquele dia — ou assim parecia. Ficou um breve minuto meio perdido com as ferramentas na mão, como se apenas fingisse trabalhar. “Depois que terminei a mesa e as cadeiras”, prosseguiu, com a emoção já sob controle, “ele me pediu pra fazer uma escrivaninha. E, claro, fui ficando. Um dia, ele chegou da revista com um bolo de dinheiro — uns dois mil reais, acho — colocou toda a grana na minha mão, disse que não se sentia bem, que precisava descansar, e me pediu pra depositar tudo na conta dele. Aí virou as costas e se trancou no quarto. Eu fiquei de cara: ¿como aquele sujeito podia ser tão crédulo, tão inocente?! ¿Por que ele confiava tanto em mim, Yuri? Ele tinha me encontrado na rua! ¿Só porque eu disse que acreditava em Deus? ¿E se fosse mentira? É claro que senti uma tentação enorme, fazia muito tempo que não botava a mão em tanto dinheiro. ¡Era o salário dele inteiro! Acho que ele estava me testando, mas nunca falamos sobre isso. Só sei que fui no banco rapidinho e depositei tudo, antes que me desse vontade de sumir, comprar alguma droga ou de tentar ajudar algum amigo que vivia na rua. A partir desse dia, comecei a trabalhar como secretário dele. Cuidava de tudo: do salário, das contas, dos remédios pra AIDS, da agenda…”

“E ele voltou a dar aulas aqui no Brasil, ¿né?”

“Voltou. E você precisava ver a cara de alguns alunos dele quando davam de cara comigo lá onde a gente morava.”

“¿Não iam com a sua cara?”

“Sei lá, eles ficavam super desconfiados de mim, né. Eu ainda me vestia com as roupas que usava na rua. Eles não entendiam quem era aquele mendigo preto que morava com o professor deles”, e riu.

“Bom, talvez rolasse uma inveja, né, Antônio. Muita gente, por exemplo, fica puta da vida quando descobre que estou morando com a Hilda Hilst.”

“Isso é verdade. Um cara que apareceu lá com o Bruno me perguntou uma vez: ‘¿Você é formado em Letras?’ E eu: não, sou formado na vida mesmo. Ele fez uma careta e passou a fingir que eu não estava mais lá. Conversou um tempão com o Bruno e, mesmo quando o Bruno pedia minha opinião sobre alguma coisa, o cara não me olhava enquanto eu respondia.”

“¿Você acha que era racismo?”

“Racismo nada, ele era negro também, mais preto do que eu!”, e sorriu. “Depois o Bruno me disse que esse fulano chegou a perguntar se ele não tava precisando de um secretário de verdade. E o Bruno: ‘¿Mais verdadeiro que o meu secretário? Impossível’.”

Ficamos em silêncio, pensativos, e Antônio retomou seu trabalho. O banco já estava quase pronto. Ele teria de emassá-lo, lixá-lo e envernizá-lo mais tarde. A cor da nova perna ainda destoava da madeira restante. Antônio procurava algo na caixa de ferramentas.

Bruno Tolentino… Naquela ocasião, eu ainda não o conhecia muito bem, mas chegaria a conhecê-lo melhor nos nove meses seguintes, tempo que ele moraria ali conosco: uma figura simplesmente extraordinária, com uma trajetória de vida de arrepiar os cabelos. Claro, sua “biografia oficial” pode ser lida na Wikipédia ou em qualquer site literário: oriundo duma família carioca influente, alfabetizado em português, inglês e francês, Bruno se mandou do país em 1964, após o Golpe Militar. Foi secretário de Ungaretti, conhecido poeta italiano, lançou livros de poesia em francês e inglês, foi professor de literatura em Essex, Oxford e Bristol. Acusado de tráfico de drogas, foi preso e passou pouco mais de um ano na tal, segundo o próprio Bruno, “Ilha do Diabo inglesa”. Provada sua inocência (no caso em questão), foi solto. Voltou ao Brasil, polemizou com os irmãos Campos, publicou sua obra maestra, “O Mundo como Idéia” (que ele concluiu no quarto ao lado do meu, na Casa do Sol) e faleceu em 2007, em decorrência de AIDS, adquirida na cadeia. Eis um resumo da sua “biografia oficial”. Mas aqueles meses de convívio comum fizeram com que Bruno me apresentasse mais detalhes da sua vida. Eu o conheci no dia 24 de Outubro de 1998, na Casa do Sol. Lembro-me bem porque ele apareceu justamente no dia em que eu recebia alguns amigos para comemorar meu aniversário. Na ocasião, Antônio não o acompanhava. Certamente havia permanecido no apartamento que compartilhavam em São Paulo, cuidando dos assuntos do Bruno ou fabricando móveis. Tal como Antônio, até então, eu tampouco sabia quem era Bruno Tolentino. Havia lido alguns de seus artigos na revista Bravo, mas não ligara o nome à pessoa. Bruno participou da minha reunião de aniversário por cortesia, depois se isolou por algum tempo com a Hilda no escritório dela. Foi o momento, conforme ela me contou mais tarde, em que ele solicitou sua ajuda, já que estava sem emprego, sem dinheiro e precisando entregar o apartamento. Havia também alguma encrenca pessoal envolvendo a dona da editora para a qual ele trabalhara, mas isso não vem ao caso. O fato é que ali acertaram sua vinda à Casa do Sol, onde, juntamente com seu secretário, permaneceria alguns meses. Depois da visita, ele partiu de carona com meu amigo Rodrigo Fiume, à época, jornalista do jornal O Estado de São Paulo e, hoje, da Folha. Isso, claro, após ter sido fotografado comigo e com a Hilda Hilst — eu, no meu aniversário, entre dois dos maiores poetas deste país — foto que nunca vi, já que o Dante, o fotógrafo, um cara totalmente avesso a essas frescuras de literatos, sumiu com o filme. Sim, um detalhe fútil…

Assim, no início de 1999, Bruno e Antônio chegaram de mala e cuia e geladeira, fogão, livros, roupas, mesas e um computador 386 com vírus Melissa. Ocuparam um quarto com janela que — para suplício do Bruno — dava para o canil e seus oitenta cães. E na rotina dos dias, no marasmo ou na agitação das horas, Bruno Tolentino foi desfiando suas histórias para mim e para Hilda Hilst, algumas tão loucas que teria pudores de narrá-las por escrito sem antes checar sua veracidade. Claro, ele também viajava com freqüência, já que vinha organizando grupos de estudo independentes, em diversas cidades e estados, voltados a quem estivesse interessado em seus conhecimentos literários, tão assombrosos, vale lembrar, que a própria Hilda vivia me dizendo à parte: “Yuri, !meu Deus!  Esse homem devia ter aparecido aqui antes, quando eu ainda estava começando e me interessava mais profundamente por literatura. Nossa, ele sabe coisa demais, leu todo mundo — ¡até os chatos! — e ensina o tempo todo… ¡Credo! Que pena eu não ter mais nada a ver com isso…” E então ela sorria, cansada. Sim, outra condição enfrentada por ele: depois de lecionar em Oxford e de assombrar a própria Hilda com a extensão de seus estudos, Bruno não podia lecionar nas universidades brasileiras, já que não era formado em nada. Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, que após aceitar um convite de Darcy Ribeiro para lecionar na Universidade de Brasília fora impedido por não ter um diploma, Bruno era um mestre com a boca tapada por razões puramente burocráticas. No Brasil é assim: mais vale um papel registrado em cartório do que a evidência do mérito pessoal; mais vale um imbecil diplomado que um gênio autodidata.

Enquanto Antônio preparava os últimos retoques ao banco do pátio, fui ter com a Hilda, que certamente estaria ansiosa para saber o que eu havia descoberto sobre nosso hóspede. Pedi licença ao secretário-marceneiro, que apenas me dirigiu um sorriso tranqüilo de alívio, e entrei na casa. Na sala de jantar, antes de adentrar o escritório, retirei o CD que o compositor José Antônio de Almeida Prado havia trazido em sua última visita, e que havia acabado de tocar, e o troquei pelo Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler. Além de ser uma das músicas prediletas da Hilda, serviria para acalmá-la de antemão. Entrei. Ela estava com os óculos na ponta do nariz, o cigarro na mão direita, concentrada em sua milésima releitura da biografia de James Joyce. Quando me viu, abandonou o livro e sorriu: “¿E então? ¿Falou com ele?”

“Falei, Hilda.”

“Então pegue o Porto e sirva duas taças pra gente. Tá quase na hora do almoço. Você me conta enquanto a gente bebe.”

Fui até a sala contígua de onde trouxe a garrafa de vinho. Servi as duas pequenas taças e me sentei diante de sua mesa. O silêncio, o Sol brilhante, a casa rústica, as árvores lá fora… eu adorava aquele clima de convento laico.

“Eu amo essa música”, disse ela, dando o primeiro gole. “É a mesma daquele filme do Visconti, ¿lembra?”

“Lembro. Morte em Veneza. Adaptação do Thomas Mann.”

“Esse mesmo”, e tornou a sorrir. Então apagou o cigarro e me encarou, curiosa. O Sol, entrado pela janela de trás de sua cadeira, dourava-lhe os cabelos. “Diga logo, ¿quem é esse Antônio, Yuri? ¿Devo ficar com medo dele?” E riu.

“Acho que não, Hilda. Ele me parece uma boa pessoa.”

“¿É mesmo? ¿E quem é ele afinal? ¿Onde o Bruno o encontrou?”

“Ah, Hilda, o Bruno o encontrou morando na rua. Ele é apenas um fugitivo da polícia…”, e sorri, encarando-a com ironia.

Ela arregalou os olhos, num misto de excitação e temor: “Meu Deus, Yuri! Meu Deus!! Que incrível!! Vá, coloque mais vinho pra você e me conte tudo… Conte tudo…”

Rimos. Tornei a encher minha taça. E lhe contei tudo.

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Este texto é parte do livro “O Exorcista na Casa do Sol — e Outros Escritos da Virada do Milênio”, a ser lançado em breve. Para mais informações, veja aqui.