Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Literatura (Página 2 de 36)

Dilma e a Pastoral Americana

Durante os debates do Encontro de Escritores organizado pelo Olavo de Carvalho nos EUA, mencionei o romance Pastoral Americana, escrito por Philip Roth. Falávamos, se não me falha a memória, sobre como certos acontecimentos na vida social, política e cultural estão prefigurados na literatura. E então comentei sobre como, a meu ver, teria sido a vida de Dilma Rousseff caso ela tivesse nascido nos EUA: basta acompanhar a vida da personagem Merry no referido romance. Para quem estiver sem tempo — a tradução brasileira tem 478 páginas — sugiro o filme Pastoral Americana, de 2016, disponível na Netflix, cuja trama é bastante fiel à do livro. (Claro, o cinema, contrastado à literatura, dificilmente atinge a mesma profundidade de expressão, mas, para quem quiser ter um lampejo sobre o que eu quis dizer, já é um bom começo.)

O romance, obviamente, não retrata apenas um modelo americano da nossa ex-presidente: mostra principalmente a transformação “antes da Federal / depois da Federal”, por assim dizer, de boa parte dos jovens do Ocidente e seu corolário, isto é, a situação na qual terminam seus pais, uma situação muito mais grave do que um mero “choro de chuveiro”.

No Brasil as pessoas babam na gravata há tanto tempo que Merry chegou a ser eleita… presidentA.

Stárietz Zossima: o mundo superior

Muitas coisas deste mundo nos são dissimuladas, mas em compensação Deus nos concedeu a misteriosa sensação do laço vivo que nos une ao outro mundo, o mundo celeste, superior; e, aliás, as próprias raízes dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos não estão em nós, porém em outra parte. E é por isso que os filósofos dizem que não se pode conhecer na terra a essência das coisas. Deus tomou sementes que pertenciam a outros mundos, semeou-as nesta terra e cultivou o seu jardim. O que podia germinar cresceu, mas tudo que se podia desenvolver não viveu senão graças ao sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos; se esse sentimento enfraquece ou desaparece da tua alma, tudo o que floriu dentro de ti morrerá.

Stárietz Zossima em Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.

Eugene O’Neil: o papel do escritor

Cumpre ao dramaturgo, hoje em dia, cavar até às raízes do mal moderno tal como o sente – a morte do antigo Deus e o fracasso da ciência e do materialismo em apresentar um outro Deus que satisfaça ao primitivo instinto religioso sobrevivente, a fim de que nele o homem encontre um sentido para a vida, com o qual se conforte dos temores da morte. Qualquer pessoa que atualmente tente realizar uma grande obra, parece-me, deve ter este magno assunto por detrás de todos os pequenos assuntos de suas peças e novelas, ou estará simplesmente arranhando a superfície das coisas, não pertencendo senão à categoria dum proporcionador de divertimentos de salão.

Eugene O’Neil em carta dirigida a um amigo.

Monteiro Lobato: livro é sobremesa

Quando Monteiro Lobato vendeu a fazenda que herdou da família para investir em sua primeira editora, muitos escritores e editores lhe asseguraram que tal empreendimento não era senão uma loucura já que, naquela época, um bom livro raramente vendia mais que mil exemplares ao longo de cinco anos. Logo, diziam-lhe, quando conseguiria recuperar essa grana? Provavelmente nunca. Contudo, além de ser um grande escritor, Lobato era também um empreendedor de visão: partindo do princípio de que “livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês”, foi a diversas agências de Correio da cidade de São Paulo e reuniu numa lista enorme os endereços de todo e qualquer tipo de comércio existente Brasil afora: quitandas, mercadinhos, docerias, bancas de revistas, farmácias e, claro, livrarias. Escreveu então a seus proprietários oferecendo o livro Reinações de Narizinho em consignação, com o cuidado de guardar para si qualquer risco proveniente do negócio: se o livro não fosse vendido, ele pagaria do próprio bolso pelo retorno da mercadoria. E foi assim que, em um ano, vendeu 50 mil exemplares de seu famoso livro infantil.

Como é possível que, em pleno século XXI, com internet e tudo mais, a venda de um bom livro não ultrapasse os 1000 exemplares anuais? Há menos leitores hoje do que havia em 1931? Duvido.

Lei da Atração

Por estar escrevendo, a pedido da minha sobrinha, um livro para crianças, venho chafurdando em lembranças da minha própria infância: como diz a santa do filme A Grande Beleza, “as raízes são importantes”. O curioso, só agora me dou conta, é que, nas últimas semanas, voltei a ouvir obsessivamente Pink Floyd e Supertramp, as primeiras bandas de rock que atraíram minha atenção nesta vida. (Eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade quando a professora de inglês, na escola, nos ensinou a cantar It’s Raining Again e Wish You Were Here.) Enfim, tudo isso para dizer que um dos músicos de apoio dessas duas bandas, sem mais nem menos, começou a me seguir ontem no Twitter. (Perceba na imagem: ele me seguiu primeiro.) Isso tem a ver com o que as comadres costumam chamar de Lei da Atração?

Dr. Pinto Grande: quase lá

Eu já havia reescrito e revisado tantas vezes os contos do meu próximo livro que já estava com raiva deles, algo do tipo “larga d’eu, diacho!”. E por isso, nos últimos meses, passei a dar atenção mormente aos problemas encontrados pelos revisores da Record, os quais, para meu refrigério, me fizeram atentar para as partes em vez do todo. No entanto, quase um mês após tudo parecer concluído, a editora me pediu para averiguar a diagramação do texto final e apontar as derradeiras alterações. E então — com essa “ameaça” damocleana de “última chance” sobre a cabeça — respirei fundo e decidi relê-lo de cabo a rabo: e não é que ri, meditei e me emocionei com meus próprios contos? Espero que os leitores d’A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande sintam, no mínimo, o mesmo que eu senti nesses últimos dias. E olha que eu tinha em mente todos os spoilers possíveis e imagináveis…

Ortega y Gasset: La tragicomedia

EL género novelesco es, sin duda, cómico. No digamos que humorístico, porque bajo el manto del humorismo se esconden muchas vanidades. Por lo pronto, se trata simplemente de aprovechar la significación poética que hay en la caída violenta del cuerpo trágico, vencido por la fuerza de inercia, por la realidad. Cuando se ha insistido sobre el realismo de la novela, debiera haberse notado que en dicho realismo algo más que realidad se encerraba, algo que permitía a esta alcanzar un vigor de poetización que le es tan ajeno. Entonces se hubiera patentizado que no está en la realidad yacente lo poético del realismo, sino en la fuerza atractiva que ejerce sobre los aerolitos ideales.

La línea superior de la novela es una tragedia; de allí se descuelga la musa siguiendo a lo trágico en su caída. La línea trágica es inevitable, tiene que formar parte de la novela, siquiera sea como el perfil sutilísimo que la limita. Por esto, yo creo que conviene atenerse al nombre buscado por Fernando de Rojas para su «Celestina»: tragicomedia. La novela es tragicomedia. Acaso en la Celestina hace crisis la evolución de este género, conquistando una madurez que permite en el «Quijote» la plena expansión.

Claro está que la línea trágica puede engrosar sobremanera y hasta ocupar en el volumen novelesco tanto espacio y valor como la materia cómica. Caben aquí todos los grados y oscilaciones.

En la novela como síntesis de tragedia y comedia se ha realizado el extraño deseo que, sin comentario alguno, deja escapar una vez Platón. Es allá en el Banquete, de madrugada. Los comensales rendidos por el jugo dionisiaco, yacen dormitando en confuso desorden. Aristodemos despierta vagamente, «cuando ya cantan los gallos»; le parece ver que sólo Sócrates, Agatón y Aristófanes siguen vigilantes. Cree oir que están trabados en un difícil diálogo, donde Sócrates sostiene frente a Agatón, el joven autor de tragedias, y Aristófanes, el cómico, que no dos hombres distintos, sino uno mismo debía ser el poeta de la tragedia y el de la comedia.

Esto no ha recibido explicación satisfactoria, mas siempre al leerlo he sospechado que Platón, alma llena de gérmenes, ponía aquí la simiente de la novela.

Meditaciones del Quijote“, José Ortega y Gasset.

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