Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Literatura (Página 2 de 36)

Ortega y Gasset: La tragicomedia

EL género novelesco es, sin duda, cómico. No digamos que humorístico, porque bajo el manto del humorismo se esconden muchas vanidades. Por lo pronto, se trata simplemente de aprovechar la significación poética que hay en la caída violenta del cuerpo trágico, vencido por la fuerza de inercia, por la realidad. Cuando se ha insistido sobre el realismo de la novela, debiera haberse notado que en dicho realismo algo más que realidad se encerraba, algo que permitía a esta alcanzar un vigor de poetización que le es tan ajeno. Entonces se hubiera patentizado que no está en la realidad yacente lo poético del realismo, sino en la fuerza atractiva que ejerce sobre los aerolitos ideales.

La línea superior de la novela es una tragedia; de allí se descuelga la musa siguiendo a lo trágico en su caída. La línea trágica es inevitable, tiene que formar parte de la novela, siquiera sea como el perfil sutilísimo que la limita. Por esto, yo creo que conviene atenerse al nombre buscado por Fernando de Rojas para su «Celestina»: tragicomedia. La novela es tragicomedia. Acaso en la Celestina hace crisis la evolución de este género, conquistando una madurez que permite en el «Quijote» la plena expansión.

Claro está que la línea trágica puede engrosar sobremanera y hasta ocupar en el volumen novelesco tanto espacio y valor como la materia cómica. Caben aquí todos los grados y oscilaciones.

En la novela como síntesis de tragedia y comedia se ha realizado el extraño deseo que, sin comentario alguno, deja escapar una vez Platón. Es allá en el Banquete, de madrugada. Los comensales rendidos por el jugo dionisiaco, yacen dormitando en confuso desorden. Aristodemos despierta vagamente, «cuando ya cantan los gallos»; le parece ver que sólo Sócrates, Agatón y Aristófanes siguen vigilantes. Cree oir que están trabados en un difícil diálogo, donde Sócrates sostiene frente a Agatón, el joven autor de tragedias, y Aristófanes, el cómico, que no dos hombres distintos, sino uno mismo debía ser el poeta de la tragedia y el de la comedia.

Esto no ha recibido explicación satisfactoria, mas siempre al leerlo he sospechado que Platón, alma llena de gérmenes, ponía aquí la simiente de la novela.

Meditaciones del Quijote“, José Ortega y Gasset.

Hilda Hilst: “Que besteira, meu Deus!”

Em 1998, pouco antes de me mudar para a Casa do Sol, a revista Bundas — lançada pelo Ziraldo no ano seguinte em oposição paródica à revista Caras — enviou um jornalista para entrevistar Hilda Hilst. Nessa entrevista, como é de praxe entre a nossa intelligentsia, foi-lhe perguntado algo sobre sexo e ela respondeu que já não atribuía tanta importância ao tema, tendo inclusive abraçado a castidade desde que completara 50 anos. Não me recordo do conteúdo exato da matéria publicada, mas me lembro bem do exemplo dado por ela para ilustrar esse desinteresse recente: certa feita, um amigo-secretário lhe pediu para usar seu banheiro privado, uma vez que o chuveiro do banheiro de hóspedes estava queimado. Minutos depois, enquanto ela se dirigia para o quarto, esse amigo surgiu à sua frente, no corredor, completamente nu, distraído, enxugando os cabelos com a toalha. Ela então olhou para o pau dele e… caiu na gargalhada. Ele, que não a havia visto, ficou deveras encabulado com aquela reação:

— O que é que foi, Hilda?

Ela apontou para o pau dele e, ainda às gargalhadas, quase sem fôlego, comentou:

— Mas é por isso?! É por causa dessa coisa que tanta gente chora pelos cantos, que tanta gente se mata? Que besteira, meu Deus!

Eu sei que amigo era esse, mas, infelizmente, a matéria foi publicada apenas em 1999, quando ele já havia se mudado da casa, e, claro, a coisa toda sobrou para mim, o novo “amigo secretário”. Durante pelo menos dois anos tive de ouvir:

— Yuri, o que a Hilda viu de tão engraçado e ridículo no seu pau?

— Não era o meu, cacete!!

— Yuri, é verdade que seu pau fez a Hilda desistir para sempre do sexo?

— Não era o meu, porra!

O lema da revista Bundas era: “Quem coloca a bunda em Caras não coloca a cara na Bundas”. Mas, caramba, precisavam colocar um pau? (Não era o meu, caralho.)

A paixão n’A Montanha Mágica

N’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o personagem Wehsal descreve a Hans Castorp sua paixão por Clawdia Chauchat:

“uma coisa dessas não devia existir à face da Terra, contudo não a podemos pura e simplesmente erradicar. Quem sofre desse mal, não o consegue simplesmente erradicar, porque teria de erradicar a própria vida, com a qual ele se fundiu, e isso não é possível. De que nos serviria morrer? Depois — sim, com todo o gosto. Nos braços dela — sim, sem pensar duas vezes. Mas antes seria disparate, porque a vida é desejo e o desejo é vida, uma coisa não se pode voltar contra a outra, nisso é que reside o maldito impasse. (…). Há tantas formas de tortura, Castorp, e quem está sob tortura, só quer sair dela, só quer se libertar dela a todo custo, é esse o seu único objectivo. Mas para nos libertarmos da tortura infligida pelo desejo carnal, só há uma solução e um caminho que é a satisfação desse desejo — não há outra via, não há outra saída! É assim que as coisas se passam. Quem não sofre do mal, não perde tempo com considerações deste género, mas quem foi tocado pela desgraça, compreende as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e os olhos enchem-se de lágrimas. Deus do céu! Que circunstância mais estranha esta de a carne desejar a carne de outrem, só porque não é nossa mas pertence a uma alma diversa! Como é singular este fenómeno e como é, bem vistas as coisas, simples e natural na sua bondade e pudor! É caso para dizermos: se é só isso que a carne deseja, que lho concedam, por amor de Deus! Será que peço algo extraordinário, Castorp? Será que por acaso a quero matar? Fazer derramar o seu sangue? A única coisa que quero é dar-lhe a minha ternura! (…) O desejo carnal dispersa-se em várias direcções, não se liga nem se fixa a nada e é por isso que lhe damos o nome de animalesco. Mas no momento em que se fixa numa pessoa, num rosto humano, começamos a chamar-lhe amor. (…) Pois é aí justamente que reside a desgraça — prosseguia a pobre alma — A desgraça é ela (Clawdia) ser dotada de alma, ser uma criatura humana com corpo e alma! Porque a sua alma não quer saber da minha e, portanto, o seu corpo também não quer saber do meu. Ó tristeza do mundo, ó lástima da vida! Por causa disso o meu desejo está condenado à ignomínia e o meu corpo terá de retorcer-se para todo o sempre! Porque não querem o seu corpo e a sua alma saber de mim, Castorp, porque lhe é o meu desejo tão abominável? Não serei por acaso um homem? Não continua um homem execrável a ser um homem? Pois eu sou homem ao mais alto nível, isso posso assegurar-lhe, e suplantaria qualquer homem se ela me franqueasse o paraíso dos seus braços, esses braços que são tão formosos por fazerem parte do rosto anímico! Oferecer-lhe-ia toda a volúpia do mundo, Castorp, se apenas o corpo estivesse em jogo e não o rosto, se a sua maldita alma não existisse, essa alma que nada quer saber de mim e sem a qual eu também não cobiçaria o seu corpo — é este o terrível impasse e desespero em que vivo e em que me retorcerei para todo o sempre. (…) Um mal que nos transforma os dias em tormento de luxúria e as noites em inferno de ignomínia”.

A minoria das minorias

Neguinho vem me falar de minorias e de preconceito… Meu, você já tentou ser um escritor no Brasil? É como ser um travesti extraterrestre. Aliás, você leu quantos livros este ano?

* * *

Se você pretende ser um escritor profissional num país de analfabetos funcionais, saiba que a mãe da sua futura namorada preferirá ser apresentada a um pretendente que seja simultaneamente judeu muçulmano negro xavante travesti esquerdista. (Ora, ao menos um tal pretendente deve ter usufruído de várias cotas e agora tem um emprego público estável.)

* * *

Em 1997, após concluir os contos d’A Tragicomédia Acadêmica, deixei Brasília e voltei a São Paulo onde me tornei sócio de um estúdio fotográfico. Mas um dos meus sócios só me apresentava às pessoas assim: “Este é o Yuri, meu amigo escritor”. Eu ficava roxo de vergonha como se ele tivesse dito: “Este é o Yuri, meu amigo que é simultaneamente chinês bosquímano xavante muçulmano judeu comunista direitista e travesti”. Ora, vocês precisam ver a cara de incredulidade de quem olha para um suposto escritor de vinte e poucos anos. Dava vontade de me jogar debaixo da mesa. Acho que a única pessoa que aceitou esse meu rótulo de primeira foi a Duda, personagem do meu relato A Bacante da Boca do Lixo. A vida dela era tão maluca que certamente teria acreditado se eu me confessasse um extraterrestre. Bom, ao menos ela lia. Aliás, só quem lê muito, só quem possui uma imaginação ampla, acredita na possibilidade de se deparar com uma coisa tão bizarra quanto um escritor. É por isso que Hilda Hilst, Bruno Tolentino e Olavo de Carvalho, ao me conhecerem, não me presentearam com nenhum sorriso escarninho. (Sem falar, é claro, que os três já haviam passado pela mesma situação.) Enfim, foi por essas e outras que limitaram-se a me dizer: “Vou ler seu livro”.

Fonte: meu Facebook.

Um conselho de Fernando Pessoa

Um conselho que todo escritor deve seguir é o do Fernando Pessoa: “Faça o romance antes que ele lhe seja feito”. Por exemplo: quer matar alguém? Mate-o num poema, num conto, num romance. Em vez de ir até a UnB com uma metralhadora e meia dúzia de granadas, escrevi A Tragicomédia Acadêmica.

Bebê bêbado

Um detalhe curioso do romance David Copperfield, de Charles Dickens, de que nunca me esqueço: nas estalagens, sempre que aguardava pela troca dos cavalos de sua diligência, o protagonista almoçava bebendo uma enorme pinta de cerveja. Atenção: nas ocasiões narradas, ele só tinha uns 11 anos de idade…

Disseram-me que isso era comum naquela época, pois, graças a epidemias de cólera, tifo e que tais, as pessoas tinham receio de beber água contaminada. (E hoje, pobres crianças, já não podem curtir sequer um Biotônico Fontoura…)

…então NÃO COMPRE meu livro!

Veja o comentário que o leitor Guibson Dantas escreveu na Amazon sobre A Tragicomédia Acadêmica:

“Como acadêmico e ferrenho crítico do ambiente universitário brasileiro atual – repleto de comunistas que nunca leram nada, de liberais que mal sabem quem foi Adam Smith, de religiosos fanáticos e militantes gays fascistas -, resolvi comprar o referido livro na esperança de qualificar minhas críticas ou obter novas informações sobre o tema. Confesso que me decepcionei demais com o livro. Muito bobo, com contos juvenis e sem nexo. Sinceramente? Não gaste tempo com esse livro. A vida é curta.”

Entenderam? Ele comprou um livro de — como diria Harold Bloom — “LITERATURA DE IMAGINAÇÃO” para “qualificar minhas [as dele] críticas ou obter novas informações” sobre a encheção de saco política dos dias atuais. Se alguém tiver o mesmo intuito, então NÃO COMPRE MEU LIVRO! Só um sujeito completamente desprovido de cultura literária, de imaginação e, principalmente, de senso de humor pode pretender buscar essas coisas num livro de ficção, num livro humorístico. Seria como ler As Viagens de Gulliver em busca de novos pontos turísticos! Nunca tive a pretensão de escrever ensaios sobre a vida universitária e, caso a tivesse, teria escrito ensaios (surpresa!), e não esses dezenove contos cujas tramas e personagens me deram um imenso trabalho. (E nem preciso dizer que, na época em que os escrevi — 1996-1997 —, esses conflitos ideológicos não eram tão exacerbados, conspícuos e problemáticos como o são hoje.) Os contos são juvenis? Muito provavelmente, afinal eu os escrevi aos 25 anos de idade com a intenção de apresentar aos demais universitários um livro que eu gostaria de ter encontrado nas livrarias e que NUNCA ENCONTREI. Ora, a maioria dos estudantes é constituída de jovens, não vejo nenhum problema em me dirigir principalmente a eles. (Uma das epígrafes mostra que eu tinha plena consciência disso.)

Fico sempre muito contente e sinceramente agradecido quando alguém — no Facebook, por mensagem direta ou por email — elogia meu livro. E são muitas mensagens! Mas juro que cheguei a um momento da vida em que elogios e críticas são assimilados por minha consciência de uma forma muito semelhante: ou estão colocando meu ego para baixo, ou o estão colocando para cima. Sim, no fundo, é sempre uma questão de ego. E o ego, durante o processo de criação, não manda em nada! Eu sei qual é o valor do meu trabalho, conheço meus méritos e deméritos, minhas qualidades e defeitos, e por isso sou sempre o meu crítico mais ferrenho. Claro, quando as críticas são construtivas, mesmo sendo negativas, sempre as ouço e medito muito sobre seu conteúdo. Ora, não sou onisciente, um feedback justo, originado de uma perspectiva totalmente diferente da minha, é sempre proveitoso. No entanto, a “crítica” do leitor acima é apenas o comentário do “acadêmico” que comprou o livro errado: comprou ficção em vez de um estudo antropológico. Ora, para um suposto pesquisador da academia, a incapacidade de pesquisar a respeito de um livro antes de comprá-lo é algo cômico e, no fundo, apenas ressalta a substância dos contos: a universidade vive uma tragicomédia.

Agora, é bom receber elogios? Claro que é, mas não me permito acreditar plenamente neles, do contrário, poderia achar que já cheguei no ápice, esquecendo pois de me aprimorar. É chato receber críticas destrutivas? É óbvio que sim, mas tampouco me permito acatá-las, do contrário, não conseguirei me permitir a liberdade necessária para criar, pois essa liberdade exige autoconfiança e um enorme foda-se para as opiniões circundantes, sejam elas quais forem. O que me chateia, no caso presente, é que pretendo deixar de morar sob o viaduto — leram o texto anterior? — e os comentários de um leitor desavisado como esse apenas atrapalham a venda do livro. Como disse Monteiro Lobato em sua última entrevista, referindo-se a si mesmo: para um escritor profissional, “seu livro predileto é o que lhe dá mais dinheiro”. Assim, quem quiser realmente me deixar muitíssimo feliz, além de me elogiar diretamente, diga também o que achou do livro nos sites em que o comprou. Beleza? Muchas gracias.

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