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	<title>Blog do Yuri &#187; Mujeres</title>
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	<description>palavras aos homens e mulheres da Madrugada</description>
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		<title>Enquanto isso, no banheiro feminino&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 18:22:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; “Ei, por que você tá me olhando desse jeito?” “Por nada.” “Essa voz…” “Que que tem minha voz?” “Aaah! Você é homem! Sai daqui!” “Não saio não.” “Então eu vou gritar!” “Mas eu sou crossdresser.” “Hã?! Crós o quê?” “Crossdresser. Estou vivenciando meu lado feminino.” “Tá bom… Só porque tá vestido de mulher…” “É [...]
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<p>&#160;</p>
<p><img title="Banheiro feminino" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-left: 0px; margin-right: auto; border-bottom: 0px" height="242" alt="Banheiro feminino" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2012/02/banheiro.jpg" width="215" border="0" /> </p>
<p>“Ei, por que você tá me olhando desse jeito?”    </p>
<p>“Por nada.”     </p>
<p>“Essa voz…”     </p>
<p>“Que que tem minha voz?”     </p>
<p>“Aaah! Você é homem! Sai daqui!”     </p>
<p>“Não saio não.”     </p>
<p>“Então eu vou gritar!”     </p>
<p>“Mas eu sou crossdresser.”     </p>
<p>“Hã?! Crós o quê?”     </p>
<p>“Crossdresser. Estou vivenciando meu lado feminino.”     </p>
<p>“Tá bom… Só porque tá vestido de mulher…”     </p>
<p>“É verdade.”     </p>
<p>“Se é verdade, tava me olhando por quê?”     </p>
<p>“Para aprender a me portar melhor como mulher, ora.”     </p>
<p>“Hum, sei… Muito esquisito isso.”     </p>
<p>“É sério. Por exemplo: gostei da sua idéia de cobrir o vaso com papel antes de se sentar. Toda mulher faz isso?”     </p>
<p>“O quê? Você tava me espiando no reservado?”     </p>
<p>“Dei uma olhadinha por cima, de pé na privada aí do lado. Achei muito interessante.”     </p>
<p>“Seu safado!”     </p>
<p>“Safado não. Respeite minha opção. Quero ser tratado como mulher. É meu direito.”     </p>
<p>“Não acredito que agora sou obrigada a ouvir isso…”     </p>
<p>“Obrigada a ouvir você não é, mas é obrigada a aceitar. Se me tirarem daqui, posso processar você e o dono do bar.”     </p>
<p>“Tá legal, calma. Só que primeiro eu preciso me acostumar com a idéia, né. Até meu avô já se vestiu de mulher — mas isso era no carnaval, poxa!”     </p>
<p>“Certo, eu entendo. Meus tios também faziam isso lá no Rio. Mas, enquanto você se acostuma, posso pedir um favor?”     </p>
<p>“Que favor?”     </p>
<p>“Depois que você faz xixi, na hora de se enxugar, você esfrega o papel na xoxota ou só o encosta de leve?”     </p>
<p>“Ah, pelo amor de Deus! Me poupe, né!”     </p>
<p>“Poxa, é uma pergunta relevante. Cerveja faz a gente vir aqui toda hora. E imagino que, se você esfrega o papel cada vez que faz xixi, acaba ficando toda assada, né.”     </p>
<p>“Por que você não pergunta isso pra sua mãe, hem?”     </p>
<p>“Bom, minha mãe já faleceu…”, responde, com a voz embargada.     </p>
<p>“Ah, desculpe, não quis…”     </p>
<p>“Tudo bem…”, diz ele, uma expressão triste no olhar.     </p>
<p>“Não faz essa cara, falei sem saber.”     </p>
<p>“Bom, se você me fizer um favor, juro que vou me sentir melhor.”     </p>
<p>“Ai… O que é agora?”     </p>
<p>“Posso passar o papel em você pra eu sentir como é?”     </p>
<p>“O quê?! Ficou maluco, é?”     </p>
<p>“Maluco não: maluca!”     </p>
<p>“Tá: maluca. Ficou maluca, é?”     </p>
<p>“Deixa, vai. Só um pouquinho.”     </p>
<p>“Nem ferrando!!”     </p>
<p>“Então deixa pelo menos eu ver você fazendo. Não deu pra ver olhando de cima.”     </p>
<p>“Ai, caramba… Tá bom, tá bom.”     </p>
<p>“Eba.”     </p>
<p>“Mas já vou te avisando: se você encostar um dedo em mim, eu grito; viu?”     </p>
<p>“Viu.”     </p>
<p>Ela volta ao reservado, pega um pedaço de papel, levanta a saia, arria a calcinha.     </p>
<p>“Hum, bigodinho de Hitler, né.”     </p>
<p>“Pára com isso e presta atenção: só vou mostrar uma vez.”     </p>
<p>Ela encosta em si mesma o papel dobrado algumas vezes, pressionando de leve.     </p>
<p>“Ah, eu sabia! Sem esfregar.”     </p>
<p>“Pois é…”     </p>
<p>Ele estende a mão e, afastando o papel de cima da xoxota, verifica se ela ficou mesmo sequinha.     </p>
<p>“Aaaaah!”, ela grita, derrubando-o com um chute no rosto e ajeitando novamente a roupa.     </p>
<p>“Socoooorro!!!”, ele berra ainda mais alto do que ela.     </p>
<p>Uma policial uniformizada entra no banheiro: “O que está acontecendo aqui?”     </p>
<p>“Esse homem me atacou!”, diz a mulher.     </p>
<p>“Eu?”, contesta ele, sentado no chão, o nariz sangrando. “Quem é que foi nocauteado aqui? Quem é a vítima?” E para a policial: “Ela não respeitou minha opção. Sou crossdresser, se a senhora não a prender agora, vou acionar a Coordenadoria Estadual de Políticas para a Diversidade Sexual. Vocês duas estarão violando a lei estadual 10.948/2001.”     </p>
<p>A policial, engolindo em seco, segura a mulher pelo braço: “A senhora está presa”.     </p>
<p>“O quê?! Ficou maluca?!! Não seja idiota, não caia na conversa desse cretino!”     </p>
<p>“Quieta! Não me desacate!”, e então a algema, levando-a dali cheia de autoridade.     </p>
<p>“Ai, ai, nada como usar o feminismo a meu favor… ”, suspira o crossdresser. “Qual outro bar tem umas gatas como essa mesmo? Esse aqui já era…”     </p>
<p>E, levantando-se, saiu em direção à porta, equilibrando-se como podia em seus saltos que destoavam completamente da sua saia fora de moda.</p>

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		<title>Ex-namoradas e desarmamento civil</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 19:11:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p>&#160;</p>
<p><img title="" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-left: 0px; margin-right: auto; border-bottom: 0px" height="187" alt="" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2012/02/arma_ex.jpg" width="279" border="0" /> </p>
<p>&quot;Ei, sua ex-namorada tá morando no mesmo prédio que eu.&quot;</p>
<p>&quot;Ah, é?&quot;</p>
<p>&quot;É. E continua muito gata, a gente sempre se encontra no elevador.&quot;</p>
<p>&quot;Sei.&quot;</p>
<p>Silêncio.</p>
<p>&quot;Que cara é essa?&quot;</p>
<p>&quot;Minha cara, uê.&quot;</p>
<p>&quot;Tá com ciúme, é? Pensei que você é que tinha terminado com ela.&quot;</p>
<p>&quot;E foi mesmo.&quot;</p>
<p>&quot;Então não pode ter ciúmes, poxa. Aliás, você nunca teve ciúme de ex-namorada&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;A gente muda. Aprende a se deixar envolver de verdade&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;Eu ia chamar ela pra sair. Você ficaria grilado?&quot;</p>
<p>O outro vacila alguns segundos. Por fim, indaga: &quot;Você ainda é defensor do desarmamento civil?&quot;</p>
<p>&quot;Que que isso tem a ver?&quot;</p>
<p>&quot;Responde primeiro.&quot;</p>
<p>&quot;Sou a favor, sim.&quot;</p>
<p>&quot;E por que é a favor?&quot;</p>
<p>&quot;Caralho, a gente já discutiu isso mil vezes&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;Refresca minha memória, vai.&quot;</p>
<p>&quot;Tá bom. Caramba&#8230; É o seguinte: eu acho que, em casos extremos, a pessoa que tem uma arma pode perder o controle emocional e fazer besteira.&quot;</p>
<p>&quot;Sei. Você acha que o autodomínio é uma utopia então&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;O completo autodomínio é.&quot;</p>
<p>&quot;Você se lembra do que eu acho disso, né.&quot;</p>
<p>&quot;Ah, lá vem você com aquele papo de que fez CPOR, de que é tenente da reserva, que tem arma e que sabe usar&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;E não só.&quot;</p>
<p>&quot;Ah, claro: você também se acha supercontrolado, vive repetindo que atiraria apenas na coxa ou no ombro de um assaltante e que nem uma briga de trânsito com um completo babaca iria te tirar do sério&#8230;&quot;</p>
<p>&quot;E você duvida disso.&quot;</p>
<p>&quot;Duvido! Duvido meeeesmo. Acho que todo mundo tem seu limite.&quot;</p>
<p>&quot;Acha mesmo?&quot;</p>
<p>&quot;Acho.&quot;</p>
<p>&quot;A gente pode fazer um teste.&quot;</p>
<p>&quot;Que teste?&quot;</p>
<p>&quot;Sai com minha ex-namorada e fica com ela. Juro que tentarei me controlar. Vamos ver quem tem razão.&quot;</p>
<p>&quot;Por acaso isto é uma ameaça, é?&quot;</p>
<p>&quot;Claro que não — é uma experiência. Você parece acreditar muito na sua tese. Eu, por exemplo, acredito apenas que essa garota foi, ou é, sei lá&#8230; enfim, que ela foi importante pra mim.&quot;</p>
<p>&quot;Hum.&quot;</p>
<p>&quot;E então? Topa ver qual de nós tem razão sobre o autodomínio?&quot;</p>
<p>O outro deu um sorriso amarelo. No dia seguinte, mal cumprimentou a garota ao vê-la na portaria do prédio&#8230;</p>

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		<title>M&#225;rcia e o desconhecido do MSN</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 06:50:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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<p>&#160;</p>
<p>&#160; <img title="" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-left: 0px; margin-right: auto; border-bottom: 0px" height="198" alt="" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2012/02/pescando_msn.jpg" width="244" border="0" /> </p>
<p>Márcia iniciou o MSN e a janela com o convite se abriu: um certo Alessandro queria adicioná-la. Era bonito na foto e, no texto do convite — “Oi, te achei interessante. Posso te adicionar?”—, havia o endereço do perfil dele no Facebook. Decidiu, pois, dar uma checada antes. Viu que ele tinha apenas uns quarenta amigos — o que lhe pareceu pouco, talvez estivesse há pouco tempo naquela rede social —, notou que ele morava e trabalhava na mesma cidade, que tinham muitos interesses em comum e o principal: pelas demais fotos via-se que era realmente um homem muito bonito, um sujeito a exalar um ar de confiança dos mais impressionantes. Claro, um piloto de helicóptero — uau! — não podia ser alguém sem auto-estima. O aparelho pode até preferir o combustível, mas os passageiros querem mesmo é alguém que lhes transmita segurança.</p>
<p>“Ok”, pensou ela, “vou dar uma chance pra esse cara”, e aprovou o convite. Ele, que já estava online, iniciou o contato imediatamente.</p>
<p>“Oi, tudo bem?”</p>
<p>“Tudo, e com você?”, devolveu ela.</p>
<p>E iniciaram um longo diálogo que durou mais de três horas. Descobriram gostos em comum, falaram de livros, filmes, viagens, esportes radicais, gastronomia e até de astrologia tradicional, que a ela nunca interessou muito, mas que, em vista das descrições que ele lhe fazia com base apenas na data de nascimento dela, muito a tocou. Não era um homem qualquer. Via-se que conhecia os mais diversos temas. E como escrevia bem! Transmitia maturidade. Muito diferente de outros homens a quem ela dera uma brecha pela internet e que apenas a deixaram constrangida e irritada.</p>
<p>“Acho que estou prestes a cometer uma loucura”, escreveu ela, por fim.</p>
<p>“E que loucura seria essa?”</p>
<p>“Acho que vou aceitar seu convite para esse passeio de helicóptero.”</p>
<p>“Mesmo?”</p>
<p>“Mesmo.”</p>
<p>“Isso não é tão louco assim. Eu piloto muito bem. Estará em boas mãos.”</p>
<p>Ela hesitou alguns instantes. Mas preferiu abrir o jogo: “O problema é que sou casada”.</p>
<p>“Hum, entendo. Mas não se preocupe, vou respeitar você.”</p>
<p>“Rsrsrsrsrsrs”, digitou ela. “Mas é que estou pensando em me separar do meu marido. A loucura que estou falando é a seguinte: você consegue pilotar enquanto uma mulher chupa seu pau?”</p>
<p>Ele demorou segundos demais para responder. Ela quase se arrependeu da ousadia. Então ela viu que ele digitava algo. E leu: “Bom, como profissional, acho que seria uma péssima idéia e realmente não deixaria você fazer isso comigo em pleno vôo. Mas podemos, antes ou depois do passeio — você escolhe a ordem — podemos passar uma tarde num motel”.</p>
<p>“Perfeito!”, disse ela. “Quando?”</p>
<p>Marcaram o encontro. E desconectaram. Ela estava decidida a ter essa aventura. Estava cansada da distância que o marido deixara crescer entre eles, cansada da sua falta de iniciativa, do seu desânimo, das suas reclamações e de sua eterna depressão. Ele vivia colocando a culpa dessa vida atolada no governo, nos ex-sócios, na falta de visão do brasileiro comum, enfim, a culpa era sempre de um outro, ele jamais assumia sua falta de atitude. Ele, que fora um homem cheio de sonhos e planos, uma pessoa criativa e muito inteligente, depois que se tornara Fiscal Federal na fronteira, costumava agora passar metade do mês noutra cidade, sempre se comunicando de uma forma amargurada, seca, como se não gostasse mais da vida ou, quem sabe, como se não gostasse mais dela. Já Rafael, o marido, não sabia o que pensar. Para não perder sua esposa, que tanto amava, de fato trocara seus sonhos por um emprego estável que pagava bem. Quantas vezes ouvira os amigos a lhe dizer que precisava deixar de viver no mundo da Lua? Quantas vezes lhe disseram que uma família precisa de segurança material e não de viagens na maionese artística? Mas agora estava fora de si. Não sabia se matava a si próprio, se matava Márcia, ou se as duas coisas. Desde o casamento, quatro anos antes, ele vivia criando perfis e contas de MSN falsos para testar a fidelidade da esposa. Mas essa estranha mania se acentuara com esse novo emprego, que o mantinha longe, numa cidade aborrecida, cultivando meramente os ciúmes e a preocupação. Sua imaginação não o abandonava, vivia martirizando-o. Imaginava a esposa sozinha, ainda jovem, bonita, sem filhos, sem ter o que fazer na capital&#8230; Entrava então no Flickr, copiava mil fotos de diversos estranhos, ficava dias preparando um perfil no Facebook, convidando pessoas aleatoriamente para dar uma certa credibilidade àquela vida falsa sem amigos reais, e até aquele momento, por mais que tivesse tentado, na pele de um outro, seduzi-la com palavras, promessas, lascívia e até dinheiro, a esposa sempre se esquivara, alegando amar o marido e afirmando enfaticamente que havia aceitado o convite apenas por achar que se tratava de algum contato profissional. Desta vez, porém, ela não passou no seu teste.</p>

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		<title>Swedenborg fala sobre o amor conjugal e os casamentos no c&#233;u</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 13:05:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p>&#160;<img title="Emanuel Swedenborg" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="216" alt="Emanuel Swedenborg" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2012/01/swedenborg3.jpg" width="164" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« 366. <strong>Como o céu é composto do gênero humano e, conseqüentemente, os anjos lá são de um e outro sexo</strong>; e como, por criação, a mulher é para o homem e o homem para a mulher, assim um pertence ao outro; e como este amor é inato em um e outro, segue-se que <strong>há casamentos nos céus como nas terras</strong>. Mas os casamentos nos céus diferem muito dos casamentos nas terras; por isso, vai-se dizer agora em que consistem os casamentos nos céus, em que eles diferem dos das terras e em que eles são semelhantes.</p>
<p>« 367. <strong>O casamento nos céus é a conjunção de dois em uma mente única</strong>. Direi primeiramente qual é essa conjunção. A mente consiste em duas partes, das quais uma se chama entendimento e a outra vontade. Quando estas duas partes fazem um, diz-se então que elas são uma mente única. <strong>O marido faz a parte denominada entendimento, e a esposa a que se chama vontade</strong>. Quando essa conjunção, que pertence aos interiores, desce nos inferiores que pertencem ao seu corpo, ela é então percebida e sentida como amor; este amor é o amor conjugal. É, pois, evidente que o amor conjugal deriva a sua origem da conjunção de dois em uma só mente. É isto que no céu se chama coabitação, e daí é que se diz que eles são não dois, mas um, e por isso dois esposos no céu são chamados não dois anjos, mas um anjo. </p>
<p>« 368. Se há também tal conjunção do marido e da esposa nos íntimos que pertencem às mentes é porque isso procede da criação mesma. Com efeito, <strong>o homem nasce para ser intelectual, e assim para pensar pelo entendimento, e a mulher nasce para ser voluntária, e assim para pensar pela vontade</strong>. Mesmo o que se vê claramente pela índole ou inclinação inata de um e de outro, como também por sua forma. Pela índole, porque <strong>o homem age pela razão, e a mulher pela afeição</strong>; pela forma, porque o homem tem a face mais rude e menos bela, a palavra mais grave, o corpo mais duro; e a mulher, a face mais delicada e mais bela, a palavra mais tema e o corpo mais macio. Semelhante diferença há entre o entendimento e a vontade, ou entre o pensamento e a afeição. Semelhante diferença há também entre a verdade e o bem, e semelhante diferença entre a fé e o amor; porque a verdade e a fé pertencem ao entendimento, e o bem e o amor pertencem à vontade. É daí que, na Palavra, pelo &quot;jovem&quot; e o &quot;varão&quot; no sentido espiritual se entende o entendimento da verdade, e pela &quot;virgem&quot; e a &quot;mulher&quot; se entende a afeição do bem. É também por isso que a igreja, segundo a afeição do bem e da verdade, se chama &quot;mulher&quot; e também &quot;virgem&quot;, e todos os que estão na afeição do bem se chamam &quot;virgens&quot; (como no Apocalipse 14:4) (&#8216;). </p>
<p>« 369. <strong>Cada um, seja homem ou mulher, possui um entendimento e uma vontade, mas no homem predomina o entendimento e na mulher predomina a vontade; e o ser humano é um ou o outro, conforme o que predomina. Mas nos céus não há predomínio algum nos casamentos, porque a vontade da esposa é também a do marido, e o entendimento do marido é também o da esposa, pois um ama querer e pensar como o outro, assim mutuamente e reciprocamente; daí a sua conjunção em um</strong>. <strong>Esta conjunção é uma conjunção real, pois a vontade da esposa entra no entendimento do marido, e o entendimento do marido na vontade da esposa, principalmente quando eles se olham face a face, porque há, como já se disse acima muitas vezes, comunicação dos pensamentos e das afeições nos céus, mormente entre esposos, porque eles se amam mutuamente. Assim, é evidente que a conjunção das mentes faz o casamento e produz o amor conjugal nos céus, a saber, que ela consiste em que um quer que tudo que lhe pertence pertença ao outro, e assim reciprocamente</strong>. </p>
<p>« 370. Os anjos disseram-me que, <strong>quanto mais dois esposos estão em uma tal conjunção, mais eles estão no amor conjugal, e ao mesmo tempo na inteligência, sabedoria e felicidade</strong>. Assim é, porque a Divina verdade e o Divino bem, dos quais procedem toda inteligência, toda sabedoria e toda felicidade, influem principalmente no amor conjugal. Conseqüentemente, o amor conjugal é o plano mesmo do influxo Divino, porque é ao mesmo tempo o casamento da verdade e do bem, pois do mesmo modo que há conjunção do entendimento e da vontade, assim também há conjunção da verdade e do bem. Porque o entendimento recebe a Divina verdade e até é formado pelas verdades, e a vontade recebe o Divino bem e também é formada pelos bens, visto que o que o homem quer isto é para ele um bem, e o que ele compreende é para ele uma verdade. Daí resulta que é a mesma coisa dizer conjunção do entendimento e da vontade, ou dizer conjunção da verdade e do bem. A conjunção da verdade e do bem faz o anjo e faz também a inteligência, a sabedoria e a felicidade do anjo. Pois o anjo é anjo na relação em que o bem foi nele conjunto à verdade e a verdade ao bem, ou, o que é a mesma coisa, ele é anjo na relação em que nele o amor foi conjunto à fé e a fé ao amor. </p>
<p>« 371. Se o Divino que procede do Senhor influi principalmente no amor conjugal, é porque <strong>o amor conjugal descende da conjunção do bem e da verdade</strong>, porquanto, como se disse acima, quer se diga conjunção do entendimento e da vontade, ou conjunção do bem e da verdade, é a mesma coisa. A conjunção do bem e da verdade tem sua origem do Divino amor do Senhor para com todos os que estão nos céus e nas terras. Do Divino amor procede o Divino bem, e o Divino bem é recebido, pelos anjos e pelos homens, nas Divinas verdades. O único receptáculo do bem é a verdade. É por isso que todo aquele que não está nas verdades nada pode receber do Senhor, nem do céu. Quanto mais, pois, as verdades no homem foram conjuntas ao bem, mais o homem foi unido ao Senhor e ao céu. Daí é que vem a origem mesma do amor conjugal. Por isso este amor é o plano mesmo do influxo Divino. Daí é que a conjunção do bem e da verdade nos céus se chama casamento celeste, e o céu, na Palavra, é comparado a um casamento e também chamado casamento; e o Senhor é chamado &quot;Noivo&quot; e &quot;Marido&quot;, e o céu com a igreja, &quot;noiva&quot; e também &quot;esposa&quot;. </p>
<p>« 372. O bem e a verdade conjuntos no anjo e no homem não são dois, mas um, porque então o bem pertence à verdade e a verdade ao bem. Esta conjunção pode assemelhar-se ao que se dá no homem, quando ele pensa o que quer e quer o que pensa, pois então o pensamento e a vontade fazem um, assim uma mente única, porque o pensamento forma ou apresenta em uma forma o que a vontade quer, e a vontade lhe dá o deleite. Daí vem também que dois cônjuges no céu se chamam não dois anjos mas um anjo. É também o que se entende por estas palavras do Senhor: &quot;Não lestes que Aquele que [os] fez desde o princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua esposa e serão dois numa só carne? porque não mais são dois, mas uma carne. Aquilo que assim Deus conjungiu, o homem não separe&#8230; Nem todos compreendem tal palavra mas aqueles aos quais foi dado&quot; (Mat. 19:4 a 6, 11; Mc. 10:6 a 9; Gên. 2:24). Aqui se descreve o casamento celeste em que estão os anjos, e ao mesmo tempo o casamento do bem e da verdade. <strong>E por estas palavras &quot;que o homem não separe o que Deus conjungiu&quot;, se entende que o bem não deve ser separado da verdade</strong>. </p>
<p>« 373. Pelo que precede, pode-se ver agora <strong>de onde provém o amor verdadeiramente conjugal, a saber: é primeiro formado nas mentes dos que estão no casamento, e depois desce e é conduzido no corpo, e aí é percebido e sentido como amor, porque tudo que é sentido e percebido no corpo tira a sua origem de seu espiritual</strong>, pois tira-a do entendimento e da vontade; o entendimento e a vontade constituem o homem espiritual. Tudo que desce do homem espiritual no corpo, nele se apresenta sob uma outra aparência; contudo, é semelhante e unânime, como a alma e o corpo e como a causa e o efeito, como se pode ver pelo que se disse e se mostrou nos dois artigos sobre as correspondências. </p>
<p>« 374. Ouvi um anjo descrever o amor verdadeiramente conjugal e seus prazeres celestes, declarando que é o Divino do Senhor nos céus, isto é, o Divino bem e a Divina verdade unidos em dois entes, ao ponto de serem não dois, mas um. Ele dizia que dois cônjuges no céu estão nesse amor porque cada um é seu bem e sua verdade, não só quanto à mente, mas também quanto ao corpo; porque o corpo é a efígie da mente, pois foi formado à sua semelhança. Daí, ele induzia que o Divino está em efígie em dois esposos que estão no amor verdadeiramente conjugal; e que o Divino estando assim retratado, o céu também o está, porque o céu inteiro é o Divino bem e a Divina verdade que procedem do Senhor. E daí vem que nesse amor foram inscritas todas as coisas do céu, e tantas bem-aventuranças e delícias, que elas excedem um número que ele exprimia por uma palavra compreendendo miríades de miríades. Ele se admirava de que o homem da igreja nada soubesse a respeito, quando, entretanto, a igreja é o céu do Senhor nas terras, e o céu é o casamento do bem e da verdade. Ele dizia que ficava estupefato pensando que é dentro da igreja, mais do que fora dela, que se cometem e que também se confirmam adultérios, cujo prazer em si não é, no sentido espiritual e por conseguinte no mundo espiritual, mais do que um prazer do amor do falso conjunto ao mal, prazer que é prazer infernal, porque é inteiramente oposto ao prazer do céu, que é o prazer do amor da verdade conjunta ao bem. </p>
<p>« 375. <strong>Sabe-se que dois cônjuges que se amam são unidos mais interiormente, e que o essencial do casamento é a união dos espíritos ou das mentes</strong>. Daí também pode-se saber que, quais são em si os espíritos ou as mentes, tal é a união, e também tal é entre eles o amor. A mente é unicamente formada de verdades e de bens, porque tudo que existe no universo se refere ao bem e à verdade e também à sua conjunção; por isso a união das mentes é absolutamente tal quais são as verdades e os bens de que elas foram formadas. <strong>Donde resulta que a união das mentes que foram formadas de verdades e de bens genuínos é a mais perfeita</strong>. Deve-se saber que nada se ama mutuamente mais do que a verdade e o bem; por isso, é desse amor que descende o amor verdadeiramente conjugal. <strong>O falso e o mal também se amam, mas este amor se converte depois em inferno</strong>. </p>
<p>« 376. Pelo que acaba de ser dito sobre a origem do amor conjugal, pode-se concluir quais os que estão no amor conjugal e quais os que não estão. No amor conjugal estão os que pelas Divinas verdades estão no Divino bem; e quanto mais as verdades que estão conjuntas ao bem são reais, mais o amor conjugal é real. E como todo bem que é conjunto às verdades vem do Senhor, segue-se que <strong>ninguém pode estar no amor verdadeiramente conjugal exceto se reconhecer o Senhor e Seu Divino</strong>, porque sem este reconhecimento o Senhor não pode influir nem ser unido às verdades que estão no homem. </p>
<p>« 377. Assim, é evidente que não estão no amor conjugal os que estão nos falsos, nem com mais forte razão os que estão nos falsos do mal. Nos que estão no mal e por conseguinte nos falso, os interiores que pertencem à mente também foram fechados. Por isso, não pode existir aí origem alguma do amor conjugal; mas, por baixo dos interiores, no homem externo ou natural separado do homem interno, há uma conjunção do falso e do mal, conjunção denominada casamento infernal. <strong>Foi-me permitido ver qual é o casamento entre os que estão nos falsos do mal, casamento que é chamado infernal: há entre eles conversas e conjunções lascivas, mas interiormente eles ardem um contra o outro em um ódio mortal que é tão grande, que não pode ser descrito</strong>. </p>
<p>« 378. <strong>Não há também amor conjugal entre duas pessoas que são de religiões diferentes, porque a verdade de uma não concorda com o bem da outra</strong>, e duas coisas dessemelhantes e discordantes não podem de duas mentes fazer uma só; por isso, a origem de seu amor nada tira do espiritual. Se coabitam e concordam, é somente por causas naturais. <strong>É por esta razão que os casamentos nos céus se contratam com pessoas que pertencem à mesma sociedade</strong> &#8211; porque elas estão em um semelhante bem e em uma semelhante verdade &#8211; e não com as que são de fora dessa sociedade. Que todos os que estão em uma mesma sociedade se acham em um semelhante bem e em uma semelhante verdade, e diferem dos que estão fora dessa sociedade, é o que se vê acima (n.º 41 e seguinte). É também o que foi representado na nação israelita, pelo fato de os casamentos serem contratados dentro das tribos e particularmente dentro das famílias, e não fora delas. </p>
<p>« 379. O amor verdadeiramente conjugal não pode existir entre um marido e muitas esposas, porque isso aniquila a sua origem espiritual, que consiste em que de suas mentes seja formada uma só. Por conseguinte, isso aniquila a conjunção interior, isto é, a do bem e da verdade, da qual provém a essência mesma desse amor. O<strong> casamento com mais de uma esposa é como um entendimento dividido entre muitas vontades, e como um homem ligado não a uma só igreja mas a muitas, porque assim a sua fé é dividida de modo a se tornar nula</strong>. <strong>Os anjos dizem que é absolutamente contra a ordem Divina ter muitas esposas</strong>; e que eles sabem isso por muitas causas, e também por isto: desde que pensam a respeito do casamento com muitas, eles são privados da bem-aventurança interna e da felicidade celeste, e então ficam como ébrios, porque o bem neles é separado de sua verdade. E como os interiores pertencentes à sua mente entram em um tal estado simplesmente pelo pensamento unido com alguma intenção, eles percebem claramente que o casamento com mais de uma esposa fecha o seu interno e faz que, em vez do amor conjugal, se introduza um amor lascivo que desvia do amor do céu. Eles dizem, além disso, que o homem dificilmente compreende isto, porque <strong>há poucas pessoas que estejam no amor conjugal genuíno, e que aqueles que não estão nele nada sabem absolutamente do prazer interior que reside nesse amor, pois só conhecem um prazer lascivo que se muda em tédio depois de uma curta coabitação, enquanto o prazer do amor verdadeiramente conjugal não só dura até a velhice no mundo, mas ainda se torna um prazer do céu depois da morte, e então, interiormente, um prazer que é aperfeiçoado durante a eternidade</strong>. Eles até me disseram que as bem-aventuranças do amor verdadeiramente conjugal podem se contar por vários milhares, e que não há uma só delas que seja conhecida do homem, nem que possa ser percebida pelo entendimento de quem não estiver pelo Senhor no casamento do bem e da verdade. </p>
<p>« 380. <strong>O amor da dominação de um dos cônjuges sobre o outro dissipa inteiramente o amor conjugal e seu prazer celeste</strong>. Isso porque, como já se disse, o amor conjugal e seu prazer consistem em que a vontade de um seja a do outro e vice-versa. O amor de dominar destrói isso no casamento, porque aquele que domina quer unicamente que sua vontade esteja no outro e, por outro lado, que a vontade do outro nele seja nula, de onde resulta que não há coisa alguma de mútuo, por conseguinte comunicação alguma de amor e de prazer desse amor com o outro. Entretanto, essa comunicação e, por conseguinte, conjunção constituem no casamento o prazer interior mesmo, que se chama bem-aventurança. O amor da dominação extingue inteiramente essa bem-aventurança e com ela extingue o celeste e todo o espiritual do amor conjugal, a tal ponto que não se sabe se ele existe. E, se falasse a respeito dessa bem-aventurança, ela seria considerada com tanto desprezo que sua menção seria motivo de riso ou de enfurecimento. <strong>Quando um quer o que a outra quer, ou quando uma quer o que o outro quer, há liberdade para ambos, porque toda liberdade pertence ao amor</strong>. <strong>Mas não há liberdade para qualquer deles quando há dominação: um é escravo e o que domina também é escravo, porque ele é dominado pela cobiça de dominar</strong>. Mas isto não é compreendido por quem não sabe o que é a liberdade do amor celeste. Entretanto, a verdade é que, sendo o amor conjugal inteiramente livre, quanto mais a dominação entrar, mais as mentes são divididas. <strong>A dominação subjuga e a mente subjugada ou não tem vontade ou é de vontade oposta; se não tem vontade, também não tem amor; se é de vontade oposta, o ódio toma o lugar do amor</strong>. Os interiores dos que vivem em um tal casamento estão em colisão entre si como estão ordinariamente dois opostos, ainda que externamente sejam refreados&#8230; A colisão e o combate de seus interiores se manifestam depois da morte. Eles geralmente se encontram e, então, combatem entre si como inimigos e se dilaceram mutuamente, porque então agem segundo o estado de seus interiores. Foi-me permitido ver, algumas vezes, seus combates e dilaceramentos, e alguns deles estavam cheios de vingança e de crueldade. Com efeito, na outra vida os interiores de cada um são postos em liberdade e não mais são retidos pelos externos como eram neste mundo por diferentes causas, porque então cada um é tal qual é interiormente. </p>
<p>« 381. <strong>Em alguns (casais) existe uma aparência de amor conjugal, mas a verdade é que, se eles não estão no amor do bem e da verdade, não estão no verdadeiro amor conjugal</strong>. Permanecem em tal amor aparente, a fim de serem servidos no lar, sentirem-se sossegados, tranqüilos ou ociosos, protegidos nas doenças ou velhice, ou tendo em vista o interesse comum pelos filhos&#8230; O amor conjugal difere também nos esposos: em um pode haver mais ou menos, em outro pouco ou nenhum; em face dessa diferença, pode ser o céu para um deles e o inferno para o outro. </p>
<p>« 382. (Primeiro). O amor conjugal genuíno está no céu íntimo, porque lá os anjos estão no casamento do bem e da verdade, e também na inocência. Os anjos dos céus inferiores também estão no amor conjugal, mas na proporção em que estão na inocência, porque <strong>o amor conjugal, considerado em si mesmo, é um estado de inocência</strong>. Por isso, entre cônjuges que estão no amor conjugal, <strong>há prazeres celestes que, diante de suas almas, são brinquedos inocentes quais e semelhantes aos das crianças</strong>, porque tudo é prazer para sua alegria em pois o céu influi com sua alegria em cada coisa de sua vida. É por isso que o amor conjugal é representado no céu pelas formas mais belas. Vi esse amor representado por uma virgem de beleza inexprimível, envolta em uma nuvem de alvura brilhante. Disseram-me que os anjos no céu tiram toda a sua beleza do amor conjugal. As afeições e os pensamentos provenientes desse amor são representados por auras diamantinas que cintilam como carbúnculos e rubis, e isso com deleites que afetam os interiores das mentes. Em uma palavra, o céu integra o amor conjugal, porque o céu nos anjos é a conjunção do bem e da verdade e esta conjunção faz o amor conjugal. </p>
<p>« 382. (Segundo). <strong>Os casamentos nos céus diferem dos casamentos nas terras, porque os casamentos nas terras são também para a procriação de filhos, o que não sucede nos céus</strong>. Em vez dessa procriação há nos céus uma procriação do bem e da verdade. Essa procriação substitui a outra, porque procede do casamento do bem e da verdade, como acima se mostrou, e porque neste casamento ama-se, acima de tudo, o bem e a verdade e sua conjunção. Assim, pois, os bens e verdades são propagados pelos casamentos nos céus. É dai que, pelas &quot;natividades&quot; e &quot;gerações&quot;, na Palavra, são significadas as natividades e as gerações espirituais, que são as do bem e da verdade; por &quot;mãe&quot; e &quot;pai&quot;, a verdade conjunta ao bem que procria; pelos &quot;filhos&quot; e &quot;filhas&quot;, as verdades e os bens que são procriados; pelos &quot;genros&quot; e &quot;noras&quot;, as conjunções dessas verdades e desses bens, e assim por diante. Daí vem que os casamentos nos céus não são como os casamentos nas terras; nos céus há núpcias espirituais que não devem ser chamadas núpcias, mas conjunções das mentes pelo casamento do bem e da verdade. Nas terras, porém, há núpcias, porque elas dizem respeito não somente ao espírito mas também à carne; e, como não núpcias nos céus, cônjuges ali não tem o nome de marido e esposa, mas cada um dos cônjuges, pela idéia Angélica da conjunção de duas mentes em uma só, e chamado por um nome que significa o mútuo do outro e, assim, reciprocamente. Desse modo, se pode saber como devem ser entendidas as palavras do Senhor sobre as núpcias (Lucas 20:35 e 36). </p>
<p>« 383. Foi-me permitido ver também como os casamentos se contraem nos céus. Em toda a parte no céu, os que são semelhantes são consociados, e os que são dessemelhantes são separados; por isso, cada sociedade do céu se compõe de anjos que se assemelham. <strong>Os semelhantes vão ter com os semelhantes, não por si próprios, mas pelo Senhor</strong> (ver números 41, 43 e 44). Dá-se o mesmo com o esposo e a esposa, cujas mentes podem ser conjuntas em uma só. Por isso, logo que se vêem, eles se amam intimamente, sentem-se como esposo e esposa e entram em casamento; daí é que todos os casamentos no céu vêm do Senhor. Também celebram-se festas, o que é realizado em uma reunião numerosa; as festividades diferem segundo as sociedades. </p>
<p>« 384. Os casamentos na terra, sendo as sementeiras do gênero humano, e os casamentos dos anjos do céu (&#8230;) sendo de origem espiritual, isto é, casamentos do bem e da verdade sob a influência do Divino do Senhor, disso resulta que, aos olhos dos anjos do céu, eles são santíssimos. E, em ordem inversa, os adultérios, sendo contrários ao amor conjugal, são considerados pelos anjos como profanos. Pois do mesmo modo que, nos casamentos, os anjos consideram o casamento do bem e da verdade, que é o céu; do mesmo modo, nos adultérios, eles consideram um casamento do falso e do mal, que é, portanto, o inferno. Por isso, quando ouvem pronunciar a palavra adultério, eles se afastam. É também por isso que <strong>o céu é fechado ao homem quando ele comete um adultério por prazer</strong>; e, quando o céu lhe é fechado, o homem não mais reconhece o Divino nem coisa alguma da fé da igreja. Que todos os que estão no inferno sejam contra o amor conjugal é o que me foi permitido perceber pela esfera que dali se exalava, e que era como um perpétuo esforço para dissolver e violar os casamentos. Por essa esfera pude convencer-me de que <strong>o prazer que reina no inferno é o prazer do adultério, e que o prazer do adultério é também o prazer de destruir a conjunção do bem e da verdade, conjunção que faz o céu. Daí resulta que o prazer do adultério é o prazer infernal, diametralmente oposto ao prazer do casamento, que é o prazer celeste</strong>. </p>
<p>« 385. Havia certos espíritos que, por um hábito contraído na vida do corpo, infestavam-me com uma habilidade particular, que senti como um influxo brando semelhante ao influxo dos espíritos probos. Mas percebi que <strong>havia neles astúcias e outras coisas semelhantes, com o fim de seduzir e enganar</strong>. Dirigi a palavra a um deles que havia sido comandante de exército segundo me disseram quando vivia neste mundo. E, como percebi que havia lascívia nas idéias de seu pensamento, conversei com ele a respeito do casamento em uma linguagem espiritual com representativos que exprimiam plenamente os sentimentos&#8230; Disse-me ele que, na vida do corpo, tinha considerado os adultérios como coisa nenhuma. Foi-me permitido responder-lhe que os adultérios são abomináveis, ainda que, aos olhos dos que os cometem, pareçam por causa do prazer que eles encontram que não são tais, e até que são lícitos. Eu lhe disse ainda que ele devia também saber que os casamentos são as sementeiras do gênero humano e, por isso mesmo, as sementeiras do reino celeste, não devendo, portanto ser violados, mas sim encarados como santos. Ademais, ele devia saber, por se achar na outra vida e em estado de percepção, que o amor conjugal desce do Senhor pelo céu, e que deste amor, como de um pai, deriva o amor mútuo, que é o fundamento do céu, e, ainda mais, que <strong>os adúlteros, por pouco que se aproximem das sociedades celestes, percebem o cheiro infecto que está neles, e se precipitam dali para o inferno</strong>. Continuei, dizendo-lhe que, pelo menos, ele teria podido saber que violar os casamentos é agir contra as leis Divinas, contra as leis civis de todos os países e contra a luz real da razão, pois é agir não somente contra a ordem Divina, mas também contra a ordem humana; e outras coisas mais. Ele respondeu-me, porém, que não tinha tido tais pensamentos na vida (&#8230;). </p>
<p>« 386. <strong>Foi-me mostrado como os prazeres do amor conjugal progridem na ascensão ao céu e como os prazeres do adultério progridem na descida ao inferno</strong>. A progressão do amor conjugal para o céu consiste em bem-aventuranças e felicidades continuamente, cada vez mais numerosas, até se tornarem inúmeras e inefáveis. Percebi que eram tanto mais numerosas e inefáveis quanto mais a progressão era interior, de tal sorte que elas alcançavam as bem-aventuranças e as felicidades mesmas do céu interno, ou céu da inocência, em plena liberdade&#8230; Mas a progressão do adultério na descida ao inferno se processava por graus até ao inferno mais profundo, onde só havia crueldade e horror. <strong>Tal é a sorte que espera os adúlteros depois de sua vida no mundo. Por adúlteros se entendem aqueles que sentem prazer nos adultérios e não encontram prazer algum nos casamentos</strong>.»</p>
<p>_______</p>
<p><a href="http://www.4shared.com/document/8Db3DPyw/SWEDENBORG_-_Ceu_e_o_Inferno.htm" target="_blank"><em>O Céu (e as suas Maravilhas) e o Inferno (Segundo o que foi Ouvido e Visto)</em></a><em>,</em> de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Emanuel_Swedenborg" target="_blank">Emanuel Swedenborg</a>.</p>
</blockquote>
<p>Para saber mais sobre Emanuel Swedenborg, leia a <a href="http://textos.yurivieira.com/terceiros/o-ceu-e-o-inferno-segundo-emanuel-swedenborg/">conferência escrita por Jorge Luis Borges</a> (com notas de minha autoria). Conheça também o <a href="http://www.swedenborg.com.br/sweden/obras/experien.htm" target="_blank">depoimento de Immanuel Kant</a>.</p>

<p>N&atilde;o h&aacute; posts relacionados.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Nelson Rodrigues, Gustavo Cor&#231;&#227;o e a bacanal&#8230;</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 18:30:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
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<h3><img style="border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px" title="Nelson Rodrigues" border="0" alt="Nelson Rodrigues" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2011/10/rodrigues_nelson.jpg" width="224" height="285" /> </h3>
<blockquote><h3 align="center">SÓRDIDO</h3>
<p>Começa perguntando:      </p>
<p>— Topas uma farrinha hoje?      </p>
<p>Do outro lado, Camarinha boceja:      </p>
<p>— Hoje não posso. Outro dia.      </p>
<p>E o Nonato: — Escuta, seu zebu. Tem que ser hoje. Vamos hoje. Escuta, Camarinha. Eu acabo de ler o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustavo_Cor%C3%A7%C3%A3o" target="_blank">Corção</a>. Deixa eu falar. E quando leio o Corção tenho vontade de fazer bacanais horrendas, bacanais de Cecil B. de Mille!      </p>
<p>Novo bocejo do Camarinha:       </p>
<p>— Não faz piada!      </p>
<p>Com alegre ferocidade, Nonato continua: — “Piada, vírgula! Batata!”. Sua tese era a de que o Corção “compromete os valores que defende”.      </p>
<p> E insistia, com jucunda agressividade:       </p>
<p>— Por causa do Corção já desisti da vida eterna. Já não quero mais ser eterno, percebeste? Quando penso na virtude do Corção, eu prefiro, sob a minha palavra de honra: prefiro ser um canalha abjeto!      </p>
<p>O Camarinha achava graça. Por fim, admitiu:      </p>
<p>— Está bem. Vamos fazer a farra. Levo aquelas duas garotas.      </p>
<p>— Leva. E olha: — rachamos as despesas.      </p>
<h5 align="center">O LANTERNEIRO</h5>
<p>   <strong></strong>
<p>Deixa o telefone e anuncia para os companheiros: — “Hoje vou fazer uma bacanal de Cecil B. de Mille!”.       </p>
<p>Uma datilografa, de óculos e maus dentes, sorri-lhe, melíflua: — “O senhor gosta de uma boa pândega!”.      </p>
<p> Foi aí que, num repelão teatral, Nonato puxa do bolso o artigo do Corção. Esfrega-o na cara dos colegas:       </p>
<p>— Vê como o artigo do Corção cheira mal!      </p>
<p>A datilógrafa (ainda por cima dentuça) geme, extasiada: — “O senhor é um número! Uma bola!”.       </p>
<p>E, então, com uma falsa gravidade, o rapaz estende-lhe o recorte:      <br />— Fora de brincadeira, a senhora leia! Por obséquio, leia. Depois me diga se tenho ou não tenho razão. Certas virtudes fedem. A do Corção é dessas!      </p>
<p>Do fundo do escritório, veio o Zé Geraldo, tropeçando nas cadeiras. Era um “lanterneiro” frenético. Começa:       </p>
<p>— Você, olha! Um momento! O Corção está muito acima de você. Muito acima. Você não tem nem competência para entender o Corção!      </p>
<p>Com um alegre tom polêmico, o outro replicava:      </p>
<p>— Depois de ler o Corção, eu tenho vontade de roubar galinhas! De agarrar mulher no peito, “à galega”! E, se hoje vou fazer uma farra sórdida, agradeça ao Corção!      </p>
<p>Ao lado, meio atônita, a datilógrafa ouvia só. Instintivamente, farejou o recorte. E, fosse por sugestão ou por outro motivo qualquer, achou que o artigo exalava realmente um odor esquisito.       </p>
<p>O&#160; lanterneiro” estrebucha: “Sórdido!”.       </p>
<p>Ao que Nonato replicou na sua fúria radiante:      </p>
<p>— A minha sordidez fede menos que a virtude do Corção!      </p>
<p>   <strong></strong><br />
<h5 align="center">A BACANAL</h5>
<p></p>
<p> A briga deu em nada. Às seis horas sai o Nonato, às carreiras. Encontra-se com o Camarinha, na esquina de México com Araújo Porto Alegre. O outro parecia lúgubre.      </p>
<p>Rosna:       </p>
<p>— Mixou.      </p>
<p>— O que é que mixou?      </p>
<p>— A farra.      </p>
<p>Protesta: — “Mas não me diga uma coisa dessas! Eu já estava todo engatilhado!”.      </p>
<p>Contou que lera o Corção e que o artigo lhe dera uma violenta nostalgia do excremento. O outro explicava, com certo humor:      </p>
<p>— Eu já sou normalmente sórdido, mesmo sem ler o Corção. Mas o caso é o seguinte: — uma das pequenas, a menorzinha, comeu uma empada que fez mal e&#8230;      </p>
<p>Nonato pôs as mão na cabeça: — “Que peso! Que azar!”. Caminhando com o amigo em direção ao “Pardelas”, fazia-lhe apelos:       </p>
<p>— Arranja outra! Outras! Tu conheces todo mundo!      </p>
<p>— Dou um jeito — prometeu o Camarinha.      </p>
<p>Entram no “Pardelas”, sentam-se. Dentro em pouco, estão bebendo. Mais uns quinze, vinte minutos e o chope começa a atuar nos dois. Nonato continua na idéia fixa:       </p>
<p>— Por causa do Corção, já chutei a vida eterna. Prefiro apodrecer dignamente.      </p>
<p>Estão semibêbados. Súbito, o Camarinha levanta a cabeça: — Descobri. Tenho uma mulher pra ti. Uma cara. Boa pra burro.      </p>
<p>Com o olhar apagado, quer saber: — “Quem é?”.       </p>
<p>Camarinha passa as costas da mão na boca encharcada. Disse (ri pesadamente):       </p>
<p>— Surpresa.      </p>
<p>O próprio Camarinha paga a despesa. Saem, com um equilíbrio meio deficiente. Nonato faz perguntas: “Onde é? Eu conheço?”. A resposta foi a mesma:       </p>
<p>— Surpresa.      </p>
<p>Tomam um táxi. Nonato insiste: “Diz logo! Não chateia!”.       </p>
<p>O outro reage, ofendido: — “Você confia ou não confia em mim?”.       </p>
<p>Respondeu que confiava. Mas o Camarinha era um bêbado insistente:      </p>
<p>— Se não confia, a gente salta!      </p>
<p>— Confio. Em você, confio. Juro.      </p>
<p>Quando param, Nonato dormia no ombro do Camarinha. Este teve de sacudi-lo. Pagam e descem. Nonato olha em torno. Reconhece a praça Saenz Peña. Com a vista turva e as pernas bambas, é puxado pelo amigo. Apesar de tudo, Camarinha é o mais sóbrio. Dobram uma esquina. Nonato, que pouco andava por aqueles lados, estava perdido. Súbito, Camarinha estaca: — “É aqui”. Crispa a mão no braço do outro e baixa a voz:      </p>
<p>— Eu quero me vingar dessa cara. Eu te apresento e olha: — antes de sair, você dá a ela cinco cruzeiros. Cinco. Eu quero humilhar. Dá-lhe cinco cruzeiros. Se não tem trocado, toma aqui. Olha. Aqui, cinco cruzeiros. Toma. Segura.      </p>
<p>Nonato embolsa a cédula. Empurra o portão e entram. Batem. Uma moça (linda, linda) abre. Camarinha a afasta, com um palavrão. Nonato parou:       </p>
<p>— Mas essa é tua mulher!      </p>
<p>Ela não se mexe, firme, ereta. Camarinha ri pesadamente:       </p>
<p>— É minha mulher. Me traiu. Eu descobri e todo dia trago um. Ouviu? Trago um e o sujeito paga cinco cruzeiros. Hoje é você. Entra ali. Naquela porta. Ali.      </p>
<p>Sem uma palavra, a mulher foi na frente. Nonato tem um esgar de choro: —“Mas é tua esposa!”.       </p>
<p>O outro sacode: “Vai ou te arrebento!”.       </p>
<p>Empurra-o. Nonato caminha, entra. A mulher fecha a porta à chave. Olham-se. Ela espera. Nonato começa:       </p>
<p>— Eu não tocarei na senhora. Não tocarei.      </p>
<p>E, súbito, cai-lhe aos pés. De joelhos, abraçado às suas pernas, repetia: — “Minha santa! Oh, minha santa!”. Na sua tristeza quase doce, ela passou-lhe, de leve, a mão pela cabeça.
<p>________</p>
<p>Conto extraído do livro<em> </em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/66398/?franq=140868" target="_blank"><em>A vida como ela é… — O homem fiel e outros contos</em></a>, de Nelson Rodrigues</p>
</blockquote>
<p>&#160;</p>
<p>Aliás, cá entre nós, esse livro do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Rodrigues" target="_blank">Nelson Rodrigues</a> me lembrou um comentário do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Ferreira_dos_Santos" target="_blank">Mário Ferreira dos Santos</a>, no livro <em><a href="http://www.4shared.com/document/jWXC5Z50/Mrio_Ferreira_dos_Santos_-_Inv.htm" target="_blank">A invasão vertical dos bárbaros</a></em>, a respeito dos literatos brasileiros. Estava na cara que se referia a Nelson Rodrigues… :^)</p>

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		<title>Colin Wilson fala sobre a esposa de William Blake: &#8220;Uma tal mulher poderia ter salvo Nietzsche da insanidade&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 07:25:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<blockquote><p>« William Blake passou a vida em completa obscuridade; sua voz sempre teve um tom profético, mas ele nunca falou de um púlpito popular. Enquanto viveu, foi considerado louco, maníaco; nem mesmo seus amigos acreditavam em seu gênio. Blake não se perturbava; continuava trabalhando regularmente, produzindo seus quadros impopulares e seus poemas épicos menos populares ainda, vivendo como podia. Assumiu o saudável ponto de vista dos estóicos gregos, segundo o qual nada lhe faltava de que realmente precisava: </p>
<p><em>Tenho alegria mental e saúde mental       <br />E amigos mentais e bens mentais        <br />Tenho uma esposa que amo e que me ama        <br />Tenho tudo menos riqueza material.</em></p>
<p>« A luta de Blake foi muito parecida com a de Nietzsche; e as semelhanças entre os dois na maneira de ver o mundo são espantosas, se considerarmos os oitenta anos de diferença entre o nascimento de um e de outro: Blake é contemporâneo do dr. Johnson, e Nietzsche, de Dostoiévski. Blake, em todo caso, teve a sorte de ter uma esposa que compartilhava de suas lutas, uma jovem absolutamente dócil que sempre viu o marido como um grande homem. Uma tal mulher poderia ter salvo Nietzsche da insanidade.</p>
<p>« A fama, acreditava Blake, era desnecessária para o gênio. O homem nasce só e morre só. Se ele permitir que suas relações sociais o enganem, levando-o a esquecer sua fundamental solidão, estará vivendo uma felicidade ilusória.»     </p>
<p>______     <br />Trecho de <em>O Outsider, </em>de Colin Wilson.</p>
</blockquote>

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		<title>Robert A. Johnson fala sobre o amor rom&#226;ntico e o amor divino</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Feb 2011 18:53:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p> 
<p><img title="Tristão e Isolda" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="354" alt="Tristão e Isolda" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2011/02/waterhouse_tristan.jpg" width="261" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« A tragédia é que Tristão, com todas as possibilidades de vir a ter uma vida de relacionamentos, cercado de calor humano, nega-se o direito de vivê-los. Curiosamente, não há nada que ele precise fazer: só precisa abrir os olhos, despertar para as riquezas que o cercam e vivê-las. Mas essas brumas do idealismo romântico, essa mácula do mundo humano, impedem que ele alcance justamente esse amor que tanto deseja. Ao rejeitar Isolda das Mãos Brancas, ele renova seu pacto com a morte.</p>
<p>« Esse padrão de amor romântico repete-se constantemente na vida das pessoas de hoje. Ao viver um relacionamento ou um casamento, o homem sente-se vagamente insatisfeito: ou a vida não tem suficiente significado, ou ele sente falta da empolgação e do enlevo que sentia antes. Ao invés de compreender que está sentindo a falta do amor divino &#8211; a experiência interior da <i>anima, </i>que é de sua própria responsabilidade &#8211; ele põe a culpa na mulher. Ela não o está fazendo feliz; ela não é suficientemente boa; ela não realiza os seus sonhos. Apesar de ela lhe dar tudo o que está ao alcance de uma mulher mortal, ele a rejeita e continua procurando Isolda a Bela. Ele sempre pressupõe que em algum lugar, em alguma mulher ou em alguma aventura, irá encontrar Isolda a Bela, e será, então, capaz de possuí-la fisicamente e encontrar nela o significado de sua vida e sua realização. E assim denegrimos o amor humano, assim rejeitamos Isolda das Mãos Brancas, assim renovamos nosso juramento coletivo de &quot;servir a um só amor&quot;.</p>
<p>« O amor humano, simbolizado por Isolda das Mãos Brancas, é totalmente diferente daquilo que chamamos de &quot;apaixonar-se&quot;. Para o homem, amar segundo a maneira humana do feminino terrestre, significa que ele terá de direcionar seu amor para um ser humano mortal, não para a imagem idealizada que projeta. Significa relacionar-se com uma pessoa de verdade, identificar-se com ela, reconhecer o seu valor e os seus elementos sagrados, <i>tal como ela é, </i>na sua totalidade &#8211; com seu lado sombrio, suas imperfeições e tudo aquilo que a toma um ser mortal comum. &quot;Estar apaixonado&quot; é diferente: não é algo direcionado para uma mulher; é algo dirigido para a <i>anima, </i>o ideal do homem: seu sonho, sua fantasia, sua esperança, suas expectativas, sua paixão por um ser interior que ele sobrepõe à mulher exterior.</p>
<p>« Isso explica porque uma parte tão grande deste &quot;amor&quot; entre Tristão e Isolda a Bela é tão inequivocamente egocêntrico. Tristão quer que Isolda sofra, que se junte a ele na sua infelicidade, porque seu amor não está realmente dirigido para Isolda como mulher mortal, mas para si mesmo! Ele está preocupado com <i>as suas próprias </i>projeções, com <i>a sua própria </i>paixão &#8211; esta paixão cuja culpa ele joga na poção do amor, mas que ele faz questão de alimentar com sucessivas viagens até Isolda.</p>
<p>« Isolda, de maneira similar, não parece preocupar-se com a felicidade ou com o bem-estar de Tristão. Ela se preocupa em saber se ele a coloca em primeiro lugar, se sua aliança é somente com ela, se ele continuará a representar com ela o drama que a transporta para o &quot;bosque encantado&quot;. Eles não estão preocupados com a felicidade ou o bem-estar ou a sobrevivência do outro, mas apenas em renovar a própria paixão, em serem transportados para um lugar mágico, em usar o outro para manter o drama passional em andamento. No final de suas vidas, sua única preocupação é usarem-se mutuamente para se libertarem completamente da terra mesquinha e alçarem vôo para aquele mundo imaginário e mágico, onde &quot;maravilhosos trovadores cantam suas canções eternamente&quot;. Na verdade, eles não se amam, usam-se mutuamente para viverem as experiências ardentes e passionais que desejam ter.</p>
<p>« Isto, independentemente de o admitirmos ou não, é o amor romântico. Em Tristão e em Isolda, o egoísmo, o uso do outro para criar a paixão pela paixão, é tão evidente, tão ingênuo, tão infantil, que se torna inequívoco. Mas as nossas próprias versões do amor romântico, dificilmente chegam a ser mais sutis. Simplesmente nunca entra em nossa cabeça romântica que possa existir algo de estranho em procurar um assim chamado &quot;amor&quot; para conseguir a <i>minha </i>realização, para dar vazão às <i>minhas </i>emoções, para tornar realidade os <i>meus </i>sonhos, as <i>minhas </i>fantasias, a <i>minha </i>&quot;necessidade de ser amado&quot;, o <i>meu </i>ideal do amor perfeito, a <i>minha </i>segurança, o <i>meu </i>entretenimento.</p>
<p>« Quando genuinamente amamos outra pessoa, trata-se de um ato espontâneo de ser, uma identificação com a outra pessoa que leva a reconhecê-la, a valorizá-la e a honrá-la, que nos leva a desejar a felicidade e o bem-estar dessa pessoa. Nesses raros momentos em que estamos <i>amando, </i>e não concentrados no nosso próprio ego, paramos de perguntar que sonhos vamos realizar através dessa pessoa, que vibrantes e extraordinárias aventuras ela nos irá proporcionar.</p>
<p>« Existem dois casamentos que Tristão precisa fazer. O primeiro é interno, com sua própria alma, com Isolda a Bela. Esse casamento ele precisa fazer indo ao seu mundo interior, praticando sua religião, fazendo seu trabalho interior, vivendo com os deuses desse mundo interior. O segundo é com Isolda das Mãos Brancas, e esse casamento significa uma união com outro ser humano, significa aceitá-la como tal. Significa também fazer outros relacionamentos &#8211; fazer amigos por exemplo, e assumi-los como seres humanos.</p>
<p>« Podemos compreender esses dois casamentos como o reflexo das duas naturezas que se misturam dentro do homem: a humana e a divina. Para nós ocidentais, o grande símbolo dessas duas naturezas em integração é Cristo, e as dimensões dessa realidade são expressas de forma perfeita no simbolismo da doutrina cristã da Encarnação. Nela é dito que Deus veio habitar o mundo físico e o redimiu; Deus torna-se humano! As conseqüências dessa crença, tomadas como símbolo, são enormes. Significam que este mundo físico, este corpo físico e esta vida mundana que levamos na terra também são sagrados. Significam que os demais seres humanos têm o seu próprio valor intrínseco: eles não estão aqui meramente para que possamos ver refletida neles nossa fantasia de um mundo mais perfeito ou para que transportem nossas projeções de <i>anima, </i>ou ainda que se juntem a nós na representação de uma alegoria de um outro mundo. O mundo físico, mundano, comum, tem sua própria beleza, sua validade própria e sua próprias leis para serem observadas.</p>
<p>« Existe uma asserção no Zen: &quot;Esta terra &#8211; eis o Caminho! &quot;O Caminho para a iluminação, para a alma, não é pelas nuvens, não é pela negação da terra: ele é encontrado dentro desta vida mortal, dentro da simplicidade das nossas tarefas mundanas e dos nossos relacionamentos com pessoas comuns. Tudo isso está expresso na realidade simbólica da Encarnação.</p>
<p>« A Encarnação nos fala do paradoxo de duas naturezas: o amor divino e o amor humano, ambos misturados num único cálice, ambos contidos num mesmo ser humano. A Encarnação nos diz que Deus se fez carne, e o Deus encarnado, Cristo, era ao mesmo tempo humano e divino. Nesta imagem está refletida a natureza dupla do ser humano, os dois amores que, legitimamente, exigem nossa lealdade e a integração que devemos fazer de ambos. Portanto, a Encarnação nos mostra que o mundo divino e o mundo pessoal coexistem dentro de cada ser humano, e é quando as duas naturezas vivem juntas numa integração consciente que uma pessoa se torna um <i>self </i>consciente.</p>
<p>« Independentemente de quais possam ser nossas idéias sobre a Encarnação histórica real, precisamos reconhecer as impressionantes conseqüências do Deus-feito-homem como um símbolo, como um modelo arquetípico arraigado no inconsciente ocidental. É uma realidade psicológica, um princípio unificador que atua em nós de dentro para fora, pouco importando se temos ou não consciência disso. Vamos viver essa natureza dual de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.</p>
<p>« A Encarnação simboliza a integração; a poção do amor simboliza a mistura desordenada. Se admitirmos conscientemente nossa natureza dual, conseguiremos a integração transcendental; se a tomarmos ao acaso, sem consciência, teremos a poção do amor. A história psicológica do Ocidente é esta: na medida em que deixamos de aceitar seriamente a Encarnação, mesmo como realidade simbólica, a verdade da nossa natureza dual é relegada ao <i>underground. </i>Inconscientemente, o amor divino, e todo o paradoxo do amor divino e do amor humano, infiltram-se na poção do amor. É lá que ambos se encontram atualmente, borbulhando num caldeirão de projeções, misturados na sopa do amor romântico.»</p>
<p>________</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/67626/?franq=140868" target="_blank">We – A Chave da Psicologia do Amor Romântico</a></em>, Robert A. Johnson</p>
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		<title>E&#231;a de Queiroz e as raz&#245;es de Ulisses ao abandonar a mulher perfeita</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 22:55:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p> 
<p><a href="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2011/01/vonkugelgenerichcalypsoandodysseus.jpg"><img title="von-kugelgen-erich-calypso-and-odysseus" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="354" alt="von-kugelgen-erich-calypso-and-odysseus" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2011/01/vonkugelgenerichcalypsoandodysseus_thumb.jpg" width="266" border="0" /></a> </p>
<blockquote><p>« Era, com efeito, a hora em que homens mortais e deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dele as ninfas, servas da deusa, colocaram os bolos, os frutos, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num trono de ouro puro, a deusa recebeu da intendenta venerável o prato de ambrosia e a taça de néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sede, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando pensativamente o herói, soltou estas palavras aladas:</p>
<p>« &#8211; Oh! Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da pátria&#8230; Ah!, se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!&#8230; Mas desejas voltar à esposa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrelas puras&#8230;</p>
<p>« O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como costumava na Assembléia dos Reis, à sombra das altas popas, diante dos muros de Tróia, disse:</p>
<p>« &#8211; Oh deusa venerável, não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores de decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congênere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergéis, enquanto tu ao meu lado, pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, a ambrosia divinal. Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio&#8230; E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência de deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade; e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a força do meu entendimento! Oh deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que, como deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia de sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais:</p>
<p>« &quot;Foi culpa tua, mulher!&quot;, erguendo, em frente à lareira, uma alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!</p>
<p>« Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de ouro vazia e serenamente a deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sobre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.</p>
<p>« No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o mar um vapor rúbido e dourado. Em breve os caminhos da ilha se cobriram de sombras. E sobre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses sem o desejo, e a deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.»</p>
<p>_______</p>
<p>Trecho do conto <em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/42357/?franq=140868" target="_blank">A Perfeição</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queir%C3%B3s">Eça de Queiroz</a>.</p>
</blockquote>
<p>Tudo indica que o salário de Calipso também era maior que o de Ulisses. Sem falar que, ao contrário dele, ela tinha curso superior. Sim, o novo sexo frágil não é tão novo assim…</p>

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		<pubDate>Thu, 23 Dec 2010 10:15:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p> 
<p><img title="William Somerset Maugham" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="202" alt="William Somerset Maugham" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/12/maugham.jpg" width="259" border="0" /> </p>
<blockquote><p>- É aqui que vives? &#8211; perguntou Isabel. Ele riu baixinho ao ver a expressão do seu rosto.</p>
<p>- Sim. Moro aqui desde que vim para Paris. </p>
<p>- Mas por quê? </p>
<p>- É cômodo. Fica perto da <a href="http://www.bnf.fr/fr/acc/x.accueil.html" target="_blank">Bibliothèque Nationale</a> e da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sorbonne" target="_blank">Sorbonne</a>. &#8211; Larry apontou para uma poria que ela não notara. &#8211; Tem quarto de banho. Tomo o café da manhã aqui e geralmente janto naquele restaurante onde almoçamos hoje.</p>
<p>- É horrivelmente sórdido.</p>
<p>- Oh, não; está muito bom. Não desejo mais do que isto.</p>
<p>- Mas que tipo de gente mora aqui?</p>
<p>- Não sei. No sótão, alguns estudantes. Dois ou três solteirões, funcionários públicos; uma atriz do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Th%C3%A9%C3%A2tre_de_l'Od%C3%A9on" target="_blank">Odéon</a>, aposentada; no outro quarto com casa de banho, a amante de um sujeito que a vem visitar de quinze em quinze dias, às quintas-feiras; e mais alguns forasteiros. É um lugar muito sossegado e familiar.</p>
<p>Isabel ficou um tanto desconcertada e, vendo que Larry disso se apercebera e achava graça, quase se melindrou.</p>
<p>- Que livro é aquele, enorme, ali sobre a mesa? &#8211; perguntou ela.</p>
<p>- Aquele? É o meu dicionário grego.</p>
<p>- Quê? &#8211; exclamou Isabel.</p>
<p>- Calma. Ele não tem garras.</p>
<p>- Estás a estudar grego?</p>
<p>- Estou. Por quê? Porque me deu vontade. &#8211; Larry fitava-a com um sorriso nos olhos e Isabel correspondeu a esse sorriso.</p>
<p>- Não achas que devias contar-me o que andaste a fazer todo este tempo que estiveste em Paris?</p>
<p>- Tenho lido muito. Oito ou dez horas por dia. Tenho ido a conferências na Sorbonne. Creio que li tudo quanto há de importante na literatura francesa, e posso ler o latim, prosa, pelo menos, com a mesma facilidade com que leio o francês. Claro que o grego é mais difícil. Mas tenho um ótimo professor. Antes de chegares, ia três noites por semana a sua casa. </p>
<p>- E qual a finalidade de tudo isto?</p>
<p>- Adquirir cultura &#8211; respondeu ele, sorrindo.</p>
<p>- Não me parece muito prático.</p>
<p>- Talvez não seja e, por outro lado, talvez seja. Mas é divertidíssimo. Não podes imaginar como é emocionante ler a <em>Odisséia</em> no original. A gente tem a impressão de que bastaria ficar na ponta dos pés e estender as mãos para tocar as estrelas.</p>
<p>Larry levantou-se, como que impulsionado pela excitação que dele se apoderara, e pôs-se a andar de um lado para o outro do quartinho.</p>
<p>- Há um ou dois meses, estive a ler <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bento_de_Espinoza" target="_blank">Spinoza</a>. Creio que não o entendo ainda muito bem, mas que delícia!&#8230; É como a gente descer do seu próprio avião num grande planalto, nas montanhas. Solidão e ar tão puro que intoxica como um vinho e faz a gente sentir-se como um rei! </p>
<p>- Quando é que pretendes voltar para Chicago?</p>
<p>- Chicago? Não sei. Não pensei nisso.</p>
<p>- Disseste que, se ao cabo de dois anos não alcançasses o que buscavas, darias a experiência por mal sucedida.</p>
<p>- Não me seria possível voltar agora. Estou no limiar. Vejo vastas planícies do espírito à minha frente, acenando-me, e estou ansioso por explorá-las.</p>
<p>- Que esperas encontrar?</p>
<p>- Respostas às minhas perguntas. &#8211; Larry relanceou a Isabel um olhar quase brincalhão, de modo que, se o não conhecesse tão bem, poderia pensar que ele estava a troçar. &#8211; Quero ter a certeza da existência ou da não existência de Deus. Quero conhecer a origem do mal. Quero saber se tenho uma alma imortal, ou se a morte põe fim a tudo. </p>
<p>Isabel ficou de respiração suspensa. Não se sentia à vontade quando Larry se exprimia desta forma, e deu graças a Deus por ele ter falado tão despreocupadamente, no habitual tom de conversa, que lhe permitiu dominar o constrangimento.</p>
<p>- Mas, Larry, há milhares de anos que a Humanidade faz essas perguntas &#8211; replicou ela, sorrindo. &#8211; Se tivessem resposta, certamente há muito já teriam sido respondidas.</p>
<p>Larry riu-se.</p>
<p>- Não rias como se eu tivesse dito alguma tolice &#8211; replicou secamente Isabel.</p>
<p>- Pelo contrário, acho muito bem observado. Mas, por outro lado, a gente pode argumentar que o fato de os homens fazerem essas perguntas há milhares de anos prova que não podem deixar de perguntar, e continuarão a perguntar. Além do mais, não é verdade que ninguém encontrou resposta. Existem mais respostas do que perguntas, e a muitas pessoas elas satisfizeram plenamente. O velho <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/John_of_Ruysbroeck" target="_blank">Ruysbroeck</a>, por exemplo.</p>
<p>- Quem é?</p>
<p>- Oh, apenas um tipo que não conheci no colégio &#8211; respondeu Larry petulantemente.</p>
<p>Isabel não entendeu o que ele quisera dizer, mas não insistiu.</p>
<p>- Acho isto muito infantil. São coisas que excitam a imaginação dos segundanistas, mas de que eles se esquecem por completo quando saem do colégio. Têm de ganhar a vida.</p>
<p>- Não os censuro. Mas, vês, tenho a vantagem de possuir o suficiente para viver. De contrário, teria de fazer como os outros e procurar ganhar dinheiro.</p>
<p>- Mas não dás valor ao dinheiro?</p>
<p>- Nenhum &#8211; respondeu sorrindo.</p>
<p>- Quanto tempo achas que isso levará?</p>
<p>- Não posso saber. Cinco anos. Dez.</p>
<p>- E depois? Que pretendes fazer com toda essa sabedoria?</p>
<p>- Se algum dia adquirir sabedoria, creio que serei então bastante sábio para saber o que fazer com ela. </p>
<p>Isabel apertou violentamente as mãos e inclinou-se para a frente.</p>
<p>- Estás tão deslocado, Larry. És americano. O teu lugar não é aqui, é na América.</p>
<p>- Voltarei quando estiver pronto.</p>
<p>- Mas estás a perder tanta coisa! Como é que consegues ficar aqui nesta pasmaceira, quando estamos a viver a mais maravilhosa aventura que o Mundo jamais conheceu? A Europa está pronta. Somos a maior, a mais poderosa nação do Mundo. Caminhamos aos saltos. Nada nos falta. É teu dever participar do progresso da tua pátria. Já te esqueceste, não sabes como é empolgante a vida na América, hoje em dia. Tens a certeza de que não estás a agir assim por não teres coragem de enfrentar o trabalho que aguarda todo o americano? Oh, sei que de certo modo trabalhas, mas não será isto apenas uma maneira de fugir às tuas responsabilidades? Será alguma coisa mais do que uma espécie de ociosidade laboriosa? Que fim levaria a América, se todos se esquivassem como tu?</p>
<p>- És muito severa, querida &#8211; replicou sorrindo. &#8211; A resposta a isso é que nem todos sentem o que eu sinto. Felizmente para eles, talvez, a maioria dos homens está pronta a seguir o curso normal; esqueces-te de que tenho tanta sede de saber como&#8230; Gray, por exemplo, tem de ganhar rios e rios de dinheiro. Serei, por acaso, traidor à minha pátria só pelo fato de querer passar alguns anos a educar-me? É possível que, ao terminar, possa dar à Humanidade alguma coisa que ela tenha prazer em receber. Não é certo, naturalmente; mas, se falhar, estarei na mesma posição do homem que entra num negócio e não consegue vencer.</p>
<p>- E quanto a mim? Não tenho valor algum para ti?</p>
<p>- Muitíssimo. Quero que te cases comigo.</p>
<p>- Quando? Daqui a dez anos?</p>
<p>- Não. Agora. O mais depressa possível.</p>
<p>- Como? Minha mãe não está em condições de me dar um dólar. Além do mais, mesmo que pudesse, não o faria. Acharia um erro ajudar-te a viver na ociosidade.</p>
<p>- Não quero nada de tua mãe &#8211; replicou Larry. &#8211; Tenho três mil dólares anuais. Isto é mais do que suficiente, aqui em Paris. Poderíamos ter uma casa pequena e uma <em>bonne à tout faire</em>. Seria tão divertido, querida!</p>
<p>- Mas, Larry, ninguém pode viver com três mil dólares anuais.</p>
<p>- Claro que pode. Inúmeras pessoas vivem com muito menos.</p>
<p>- Mas não quero viver assim. Não há razão para isso.</p>
<p>- Tenho vivido com metade.</p>
<p>- Mas como! &#8211; Ela olhou para o sujo quartinho com um estremecimento de repulsa.</p>
<p>- Isto significa que tenho algumas economias. Poderíamos ir a Capri na lua-de-mel e à Grécia no Outono. Tenho uma vontade louca de ir até lá. Não te lembras de que falávamos em viajar juntos pelo Mundo?</p>
<p>- Claro que desejo viajar. Mas não desta forma. Não quero ir em segunda classe, nos navios, nem me hospedar em hotéis de terceira categoria, sem casa de banho, nem comer em restaurantes baratos.</p>
<p>- Em Outubro passado, viajei assim por toda a Itália. Diverti-me imenso. Poderíamos percorrer o Mundo inteiro, com três mil dólares por ano.</p>
<p>- Mas quero ter filhos, Larry.</p>
<p>- Está bem. Irão conosco.</p>
<p>- És tão tolo! &#8211; disse ela, rindo. &#8211; Sabes quanto custa ter um filho? Violet Tomlinson teve um, no ano passado, e fez tudo com a maior economia possível, mas mesmo assim gastou mil e duzentos e cinqüenta dólares. E quanto pensas que ganha uma ama? &#8211; Isabel animava-se, à medida que as idéias lhe ocorriam. &#8211; És muito pouco prático. Não sabes o que me pedes. Sou nova, quero divertir-me. Quero fazer o que os outros fazem. Quero ir a festas, quero ir a bailes, quero jogar o golfe e andar a cavalo. Quero vestir-me bem. És capaz de imaginar o que significa para uma mulher não se sentir tão bem vestida como as outras do seu meio? Compreendes o que significa, Larry, ter de comprar os vestidos usados das amigas que se fartaram deles, e ficar agradecida quando, por piedade, alguém se lembra de lhe fazer presente de um que seja novo? Não poderia nem mesmo ir a um cabeleireiro decente! Não quero andar de ônibus quero o meu carro particular. E que pensas que iria fazer o dia inteiro enquanto estivesses a ler na biblioteca? Andar pelas ruas, namorando as vitrinas, ou sentar-me no jardim do Luxemburgo, a vigiar os meus filhos para que nada lhes acontecesse? Não poderíamos ter amigos&#8230;</p>
<p>- Oh, Isabel &#8211; interrompeu ele.</p>
<p>- Não do tipo a que estou habituada. Oh, sim, os amigos do tio Elliott de vez em quando nos convidariam, em consideração por ele, mas não poderíamos aceitar porque não teria vestido, nem estaríamos em posição de lhes retribuir as gentilezas. Não quero ter relações com uma porção de gente mal vestida e suja; nada teria a dizer-lhes, nem eles a mim. Quero viver, Larry. &#8211; De súbito, percebeu a expressão dos seus olhos, afetuosos como sempre, quando pousados nela, mas levemente irônicos. &#8211; Achas que sou tola, não é verdade? Achas que sou fútil e maldosa.</p>
<p>- Não, não acho. É muito natural que digas o que estás a dizer. &#8211; Larry estava de pé, de costas para a lareira. Isabel ergueu-se e aproximou-se; fitaram-se frente a frente.</p>
<p>- Larry, se não possuísses um dólar, mas tivesses um emprego que te rendesse três mil dólares por ano, não hesitaria em me casar contigo. Cozinharia, arrumaria as camas, pouco me importaria com vestidos, faria qualquer sacrifício e acharia tudo divertidíssimo, pois estaria certa de que seria apenas uma questão de tempo, até venceres. Mas isso que queres significa viver miseravelmente, sordidamente, a vida inteira, sem uma esperança pela frente. Não passaria de uma escrava até ao dia da minha morte. E para quê? Para que pudesses passar anos a procurar respostas a perguntas que tu próprio consideras insolúveis. Estás em erro. Um homem tem de trabalhar. E para isso que está no Mundo. É assim que contribui para o bem-estar da comunidade.</p>
<p>- Em resumo, é meu dever instalar-me em Chicago e entrar para o escritório de Henry Maturin. Achas que, pelo fato de convencer os meus amigos a adquirirem títulos em que Henry Maturin está interessado, contribuiria grandemente para o bem-estar da comunidade?</p>
<p>- É preciso que haja corretores no Mundo. É uma maneira muito decente e honrosa de ganhar a vida.</p>
<p>- Pintaste um quadro muito negro da vida em Paris com um rendimento módico. Sabes, não é bem assim. Uma mulher pode vestir-se muito bem sem procurar Chanel. Nem todas as pessoas interessantes vivem na vizinhança do Arc de Triomphe e da Avenue Foch. Para falar a verdade, são mesmo poucas, porque em geral as pessoas interessantes não têm grande fortuna. Conheço muita gente aqui, pintores, escritores e estudantes, franceses, americanos e de outras nacionalidades, que considero muito mais interessantes do que as definhadas marquesas e as narigudas duquesas de Elliá. Tens uma inteligência viva e bastante senso de humor. Garanto que acharias divertido vê-los trocar idéias à mesa, mesmo que o vinho fosse somente <em>vin ordinaire</em> e o jantar não fosse servido por um mordomo e dois lacaios.</p>
<p>- Não sejas tolo, Larry. Claro que acharia divertido. Sabes que não sou esnobe. Teria prazer em conhecer gente interessante.</p>
<p>- Sim, num vestido de Chanel. Pensas que eles perceberiam que consideravas aquilo como uma espécie de aventura? Não se sentiriam à vontade, nem tu tampouco; e não tirarias nenhum proveito, a não ser o de poderes depois contar a Emily de Montadour e a Gracie de Château-Gaillard como acharas divertido ficar conhecendo uma porção de boêmios excêntricos, no Quartier Latin.</p>
<p>Isabel encolheu levemente os ombros.</p>
<p>- Talvez tenhas razão. Eles não são do tipo de gente com quem estou habituada a conviver. Não são do tipo de gente com quem eu possa ter afinidade. </p>
<p>- Em que ficamos, então?</p>
<p>- Exatamente onde começamos. Moro em Chicago desde que me entendo por gente. Ali estão os meus amigos, todos os meus interesses. Ali me sinto em casa. É a minha terra, Larry, como é também a tua. Minha mãe está doente e não se restabelecerá. Mesmo que quisesse, não a poderia deixar.</p>
<p>- Isto significa que, a não ser que esteja disposto a voltar para Chicago, não te casarás comigo?</p>
<p>Isabel hesitou. Amava Larry. Queria casar-se com ele. Desejava-o com toda a força dos seus sentidos e sabia-se desejada por ele. Não achava possível que, chegado o momento decisivo, ele não fraquejasse. Teve medo, mas precisava de arriscar.</p>
<p>- Sim, Larry, significa isso. </p>
<p>Ele riscou um fósforo na lareira, um daqueles antigos fósforos franceses, de enxofre, que nos enchem as narinas de um odor acre, e acendeu o cachimbo. Depois, passando por Isabel, foi postar-se à janela e ficou a olhar para fora. Guardou silêncio por um espaço de tempo que pareceu interminável. Isabel continuou de pé, no mesmo lugar onde estivera em frente dele, e olhou para o espelho, mas com olhos que nada viam. O coração batia-lhe loucamente e estava morta de apreensão. Finalmente, Larry voltou-se:</p>
<p>- Gostaria de poder levar-te a compreender como a vida que te ofereço é mais cheia do que qualquer outra que possas ter imaginado. Gostaria que pudesses ver como a vida do espírito é mais emocionante e rica em experiência. É ilimitada. E tão feliz! Só uma coisa se lhe compara: quando se está sozinho num avião, alto, bem alto, circundado apenas pelo infinito. Aquela amplidão é intoxicante. A gente experimenta tão intensa sensação de júbilo que não a trocaria por todas as riquezas e glórias deste Mundo. Há poucos dias, estive a ler <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes" target="_blank">Descartes</a>. Que desembaraço, que graça, que dez. Céus!</p>
<p>Isabel interrompeu-o, em tom de desespero:</p>
<p>- Mas, Larry, não vês que me pedes uma coisa para a qual não fui feita, pela qual não me interesso, e não me quero interessar? Quantas vezes terei de repetir que sou apenas uma rapariga medíocre, normal, que tenho vinte anos, que daqui a dez estarei velha, que me quero divertir enquanto posso? Oh, Larry, gosto tanto, tanto, de ti! Isso é uma fantasia; não te conduzirá a parte alguma. No teu próprio interesse, imploro-te que desistas. Sê homem, Larry, e cumpre o teu dever de homem. Estás a perder anos preciosos, de que outros estão a tirar o máximo proveito. Larry, se me tens amor, não me trocarás por um sonho. Já te divertiste bastante. Volta conosco para a América.</p>
<p>- Não posso, querida. Seria uma verdadeira morte para mim. Seria atraiçoar a minha alma.</p>
<p>- Oh, Larry, por que falas dessa forma? É assim que se exprimem as mulheres histéricas, metidas a intelectuais. Que significa? Nada. Nada. Nada.</p>
<p>- Significa exatamente o que sinto &#8211; respondeu ele com um estranho brilho nos olhos. </p>
<p>- Como é que podes brincar? Não vês que isto é muito sério? Chegamos à encruzilhada, e o que fizermos agora irá afetar toda a nossa vida.</p>
<p>- Sei isso. Crê-me, estou a falar sério. </p>
<p>Ela suspirou.</p>
<p>- Se não queres ser razoável, então não há mais nada a dizer.</p>
<p>- Mas não creio que não seja razoável. Acho que só disseste disparates.</p>
<p>- Eu? &#8211; exclamou Isabel. &#8211; Se não se sentisse tão infeliz, teria rido. &#8211; Meu pobre Larry, estás doido varrido. </p>
<p>Lentamente, tirou do dedo o anel de noivado, colocou-o na palma da mão e ficou a contemplá-lo. Era um rubi quadrado, incrustado num fino aro de platina, e Isabel apreciara-o muito.</p>
<p>- Se gostasses de mim, não me farias sofrer tanto.</p>
<p>- Gosto de ti. Infelizmente, às vezes, nós não podemos fazer o que nos bem parece sem causar sofrimento a alguém.</p>
<p>Ela estendeu a mão onde estava o rubi e obrigou-se a sorrir.</p>
<p>- Aqui está, Larry.</p>
<p>- De nada me serve. Não queres guardá-lo como lembrança da nossa amizade? Podes usá-lo no dedo. Isto não altera a nossa amizade, não é assim?</p>
<p>- Sempre hei-de gostar de ti, Larry.</p>
<p>- Guarda-o, então, que me darás prazer. </p>
<p>Ela hesitou. depois enfiou o anel no dedo da mão direita.</p>
<p>- É grande de mais.</p>
<p>- Podes mandá-lo apertar. Vamos ao bar do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%B4tel_Ritz_Paris" target="_blank">Ritz</a>, tomar um drink.</p>
<p>- Está bem. &#8211; Isabel admirou-se de tudo se ter passado tão simplesmente. Não chorara. Nada parecia ter mudado; só já não se casaria com Larry. Mal podia acreditar que estava tudo acabado. Ficou um tanto mortificada pelo fato de não ter havido uma violentíssima cena. Tinham resolvido o caso quase tão friamente como se estivessem a discutir a escolha de uma casa de aluguel. Sentia-se como que lesada, mas, ao mesmo tempo, experimentou uma ligeira satisfação por se terem comportado de maneira tão civilizada. Daria muito para conhecer exatamente os sentimentos de Larry, na ocasião. Mas isso era sempre difícil de saber. O rosto suave, os olhos escuros, eram uma máscara que mesmo Isabel, que o conhecia há tantos anos, jamais poderia penetrar.</p>
<p>Ao entrar, tirara o chapéu e pusera-o sobre a cama; agora, em frente do espelho, colocava-o de novo e, arranjando o cabelo, perguntou:</p>
<p>- Apenas por curiosidade: querias desmanchar o nosso noivado?</p>
<p>- Não.</p>
<p>- Pensei que talvez fosse um alívio para ti. &#8211; Como Larry não respondesse, ela voltou-se com um sorriso alegre e acrescentou: &#8211; Estou pronta.</p>
<p>Ao sair, Larry fechou o quarto. Quando entregou a chave ao homem da portaria, este envolveu-os num olhar de insolente cumplicidade. Isabel não pôde deixar de perceber que idéia o homem fazia da ida deles ao quarto.</p>
<p>- Não creio que aquele tipo tenha muita fé na minha virgindade disse ela.</p>
<p>Foram de táxi ao Ritz e ali tomaram uma bebida. Falaram de coisas triviais, aparentemente sem constrangimento, como dois velhos amigos que se vêem todos os dias. Embora Larry fosse calado por natureza, Isabel era tagarela, com ampla reserva de conversa fiada, e estava decidida a não permitir que entre eles se estabelecesse um silêncio que seria depois difícil de romper. Não queria que Larry pensasse que lhe guardava ressentimento, e o orgulho obrigava-a a agir de forma a não lhe deixar suspeitas de que estava magoada e infeliz. Dali a pouco, sugeriu que Larry a levasse até casa. Quando chegaram à porta, Isabel disse alegremente:</p>
<p>- Não te esqueças de que vens almoçar conosco amanhã. Não há perigo! &#8211; Ela apresentou-lhe a face para ser beijada e passou pela <em>porte-cochère</em>.</p>
<p>_________</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21783367/?franq=140868" target="_blank">O Fio da Navalha</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/W._Somerset_Maugham" target="_blank">William Somerset Maugham</a>. </p>
<p>(Tradução de Úgia Junqueira Smith.)     </p>
</blockquote>
<p>Esse romance foi adaptado ao cinema em 1946 (<a href="http://www.imdb.com/title/tt0038873/" target="_blank">com Tyrone Power</a>) e em 1984 (<a href="http://www.imdb.com/title/tt0087980/" target="_blank">com Bill Murray</a>). São muito bons, mas, em ambos os casos, vem à tona aquele velho truísmo: o livro é muito melhor que o filme.</p>

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		</item>
		<item>
		<title>&#8220;O assassino&#8221; &#8212; um conto de Arthur Schnitzler</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Dec 2010 16:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<blockquote><p>Um jovem, doutor em direito canônico e romano, sem exercer sua profissão, órfão de pai e mãe, vivendo em circunstâncias confortáveis, benquisto por sua agradável companhia, estabelecera havia mais de um ano uma relação com uma moça de origem humilde, que, sem parentes como ele, não tinha necessidade de levar em consideração a opinião alheia. Logo no início do relacionamento, menos por bondade ou paixão do que pela necessidade de gozar sua felicidade da forma mais tranqüila possível, Alfred levara a amante a deixar seu emprego como balconista numa respeitada loja vienense. Mas, depois que, durante longo tempo, embalado pela grata ternura da amante e pelo mais confortável gozo da liberdade comum, se sentira melhor do que durante qualquer relacionamento amoroso anterior, começou a sentir paulatinamente aquela inquietude promissora, sua velha conhecida, que, em outros casos, lhe prenunciava o fim iminente da relação amorosa, um fim que, neste caso, parecia não ser ainda previsível. Já estava se vendo, em sua mente, como companheiro de sina de um amigo de juventude que, envolto fazia anos num relacionamento similar, era obrigado a levar agora uma vida retirada e limitada, como enfadado pai de família; e algumas horas, que sem intuições dessa espécie lhe teriam oferecido o mais puro dos prazeres, ao lado de um ser tão gracioso e suave como Elise o era, começaram a lhe causar enfado e sofrimento. Embora tivesse a capacidade e, fato ao qual gostava de atribuir maior valor ainda, a deferência de não deixar Elise nada notar desses estados de alma, eles possuíam, todavia, o poder de fazê-lo procurar novamente com maior freqüência os círculos da alta burguesia, dos quais havia se afastado quase que por completo no decorrer do último ano. E quando, por ocasião de uma festa dançante, uma dama muito cortejada, filha de um próspero industrial, veio a seu encontro com surpreendente amabilidade, fazendo-o ver muito subitamente uma possibilidade fácil de estabelecer uma relação que fosse mais adequada à sua posição social e à sua fortuna, começou a sentir aquela outra, que havia começado como uma aventura alegre e desembaraçada, como um incômodo grilhão de que um jovem de seus méritos poderia se desvencilhar sem escrúpulos. Contudo, a sorridente calma com que Elise sempre tornava a recebê-lo, sua entrega sempre igual nas horas em que estavam juntos e que agora iam se tornando mais escassas, a ingênua segurança com que ela o deixava partir de seus braços para um mundo que lhe era desconhecido, tudo isso não apenas afastava de seus lábios, todas as vezes, as palavras de despedida, antes sempre prestes a serem proferidas, mas também o enchia de uma espécie de torturante compaixão, cujas manifestações quase inconscientes só poderiam parecer, a uma mulher tão crédula como Elise, novos e mais densos sinais de sua inclinação. E assim a coisa chegou a um ponto em que Elise acreditava ser adorada por ele, de forma mais cálida do que nunca, justamente nas ocasiões em que ele voltava de um encontro com Adele; quando ele, agitado pela lembrança de olhares doces e interrogativos, apertos de mão cheios de promessas e, finalmente, em meio à embriaguez dos primeiros beijos escondidos, voltava para aquela casa dedicada só a ele e a seu amor; e em lugar de despedir-se com um adeus, como se dispusera a fazer ainda no limiar da porta, Alfred deixava a amante todas as manhãs com novas juras de eterna fidelidade.</p>
<p>Assim passaram-se os dias entre as duas aventuras; finalmente só restou a decisão sobre qual anoitecer seria mais apropriado para a inevitável explicação a Elise; a saber, se seria a noite anterior ao noivado com Adele, ou a seguinte; e na primeira dessas duas noites, como ainda ficara um prazo pela frente, Alfred compareceu à casa da amante num estado de espírito quase tranqüilizado pelo hábito desse seu jogo duplo.</p>
<p>Encontrou-a pálida, como nunca a vira antes, recostada num canto do divã; ela também não se ergueu como de costume quando de sua entrada, para oferecer-lhe testa e os lábios aos beijos de boas-vindas, mas mostrou um sorriso cansado, um pouco forçado, de tal forma que, simultaneamente com uma sensação de alívio, cresceu em Alfred a conjetura de que a notícia de seu iminente noivado tivesse chegado até ela, não obstante todas as precauções, seguindo o caminho enigmático de todos os boatos. Mas, apesar de todas as precipitadas perguntas, nada ficou sabendo a não ser que Elise, de tempos em tempos, sofria de espasmos no coração, fato que ela ocultara até então, e que desses espasmos em geral ela rapidamente se restabelecia; só que, dessa vez, seus efeitos ameaçavam ser mais duradouros do que nunca. Alfred, consciente de suas intenções culposas, ficou tão tocado com estas revelações que exagerou em suas manifestações de compaixão e bondade; e, antes da meia-noite, sem compreender como poderia ter chegado tão longe, havia desenvolvido com Elise o plano de uma viagem em comum, durante a qual ela encontraria com certeza a cura para aqueles desagradáveis ataques.</p>
</blockquote>
<p> <span id="more-1533"></span>
</p>
<blockquote><p>Sentindo-se mais ternamente amado, mas também imbuído da própria ternura do que nunca, ele se despediu de Elise aquela noite com tal estado de espírito que, no caminho de casa, cogitou seriamente em enviar uma carta de renúncia a Adele, na qual pensava em desculpar sua fuga do noivado e do matrimônio como um decreto de sua errática natureza, que não fora criada para uma felicidade perene e tranqüila. As artísticas volutas de suas frases perseguiram-no até o sono: mas já as luzes da manhã, através das frestas da veneziana sobre seu cobertor, fizeram-lhe parecer todo o esforço despendido como tão tolo quanto supérfluo. Sim, ele não teve capacidade de se surpreender com o fato de que a amante, vítima, agora, do sofrimento, e com quem passara a noite anterior, lhe desse agora a impressão de estar incrivelmente longe, como alguém que fora abandonado, enquanto Adele pairava diante de seu espírito, florescendo no odor de incomensurável nostalgia. Perto do meio-dia, apresentou ao pai de Adele seu pedido de casamento, que foi recebido com muita amabilidade, embora sem inteiro consentimento. Fazendo alusões simpaticamente zombeteiras a sua juventude, com tanta freqüência sujeita a tentações, o pai exigiu que Alfred fizesse, antes de mais nada, uma viagem de um ano, para pôr à prova em terras longínquas a força e a resistência de seus sentimentos; e até se opôs à proposta de uma troca de correspondência entre os jovens, para poder ficar seguro de ter eliminado a possibilidade de ambos criarem falsas ilusões. Quando Alfred voltasse com as mesmas intenções, e se encontrasse os mesmos sentimentos por parte de Adele, dos quais agora ela estava convencida, ele próprio não interporia o menor empecilho ao matrimônio do jovem casal. Alfred, que parecia submeter-se a estas condições apenas com muita resistência, tomou-as, em verdade, como um novo adiamento do prazo de seu destino; respirando aliviado, e após breve reflexão, declarou que, sob tais circunstâncias, preferia se despedir já àquela hora, ainda que fosse apenas para trazer para mais perto o fim do tempo de separação exigido. De início Adele pareceu ficar ferida por essa inesperada docilidade, mas, após uma breve conversa entre os dois, permitida pelo pai, Alfred convencera a noiva até o ponto de fazê-la admirá-lo pela prudência de seu amor, deixando-o partir, com juras de fidelidade e até lágrimas nos olhos, para a perigosa separação.</p>
<p>Nem bem tinha chegado à rua, Alfred começou a pensar em todas as possibilidades que trariam uma solução para seu relacionamento com Elise, no decurso do ano que ora estava à sua disposição. E sua ânsia de liquidar as questões mais difíceis da vida sem a intervenção ativa de Elise foi tão onipotente que acabou por vencer não apenas sua vaidade, mas também se mostrou favorável ao surgimento de sombrias premonições, perante as quais, normalmente, seu espírito dolente preferia recuar. A obrigação de uma convivência mais estreita, à qual não estaria acostumada, e que surgiria durante a viagem, assim pensava ele, poderia muito bem trazer como conseqüência que Elise esfriasse seus sentimentos e se afastasse dele pouco a pouco; e também a doença cardíaca da amante permitia pensar na perspectiva de uma outra forma de libertação, evidentemente mais indesejável. Logo, porém, Alfred afastou de si ambas as idéias, a esperança e o temor, com um movimento tão impetuoso, que no fim não havia nele nada mais do que uma expectativa alegre e infantil de uma colorida viagem de prazer para terras distantes, em companhia de um ser amável e a ele afeiçoado; e na mesma noite ainda tagarelou com a cândida amante, no mais alegre dos humores, sobre as agradáveis perspectivas da viagem iminente.</p>
<p>Visto que a primavera estava se aproximando, Alfred e Elise foram inicialmente à procura das suaves margens do lago de Genebra. Mais tarde subiram para altitudes mais frias, passaram o fim de verão num balneário inglês, visitaram no outono cidades holandesas e alemãs, para finalmente fugirem ao tempo mais sombrio que se aproximava, buscando o consolo do sol meridional. Até ali não apenas Elise, que antes não fora além dos arredores de Viena, flutuara pelo ano todo como alguém que tem sonhos preciosos, dando a mão a seu amado cicerone; também Alfred, por mais que estivesse consciente o tempo todo do futuro e de suas dificuldades apenas adiadas, tinha se entregue sem reservas ao precioso presente, como se a felicidade de Elise o aprisionasse. E enquanto, no inicio da viagem, tentara cuidadosamente fugir de encontros com pessoas conhecidas, evitando, na medida do possível, mostrar-se com Elise em passeios mais concorridos ou nos restaurantes de grandes hotéis, mais tarde desafiava o destino com uma certa premeditação, e estava preparado, com gosto, para receber um despacho de sua noiva, em que ela o acusava de quebra de fidelidade e, dessa forma, se ver livre de uma posse que ainda ansiava calidamente, mas também de todo dilema, de toda inquietação, de toda responsabilidade. Contudo, nenhum telegrama, nenhuma notícia de sua pátria veio até ele, pois Adele, contra a vã expectativa de Alfred, atinha-se tão estritamente quanto ele ao acordo exigido pelo pai.</p>
<p>Mas chegou a hora em que, pelo menos para Alfred, aquele ano de maravilhas teve um fim abrupto, parecendo se deter no tempo subitamente, sem mágica e mais vazio do que qualquer outro ano já por ele vivido. Isso ocorreu no Jardim Botânico de Palermo, num claro dia de outono, quando Elise, que até então se mostrara saudável, vivaz e florescente, de repente levou as duas mãos ao coração, olhou para o amante angustiada e voltou logo a sorrir, como se estivesse consciente de um dever, o de não lhe causar qualquer incômodo. Isso, porém, em vez de comovê-lo, encheu-o de amargura, que ele, é claro, soube disfarçar de imediato sob a expressão da preocupação. Censurou-a, sem que ele próprio acreditasse no que dizia, por ter-lhe certamente ocultado ocorrências semelhantes por diversas vezes; deu expressão a sua mágoa, pois ela evidentemente considerava que ele não tinha coração; exortou-a a procurar naquele dia ainda um médico e ficou bastante sossegado quando ela, devido a sua reduzida confiança nas artes terapêuticas dos médicos locais, recusou. Contudo, quando ela, repentinamente, parecendo esfuziante de gratidão e amor, ali, a céu aberto, no banco diante do qual passavam as pessoas, apertou a mão de Alfred contra os lábios, este sentiu, como uma onda fugaz, o ódio disparar por suas veias; a presença desse sentimento o surpreendeu de início, mas logo ele conseguiu se desculpar com a lembrança das muitas horas de enfado e de vazio que haviam sido, como de repente acreditava descobrir, demasiado freqüentes durante a viagem. Simultaneamente inflamou-se nele um desejo tão ardente por Adele que, apesar de todos os acordos, enviou-lhe no mesmo dia uma carta, na qual implorava por uma palavra a ser enviada para Gênova, e assinou eternamente seu.</p>
<p>Poucos dias depois encontrou em Gênova sua resposta, que dizia: E eu, sua pelo mesmo tempo. Com o telegrama amarrotado junto ao peito, e que agora, não obstante o tom dubiamente jocoso, parecia-lhe a quintessência da esperança, iniciou com Elise uma viagem para o Ceilão, a qual, como a parte presumivelmente mais bela de todas, fora deixada para o fim. Elise precisaria ter sido dona de um espírito mais ardiloso do que lhe era próprio para poder intuir, durante essa viagem, que só o audaz jogo da imaginação de Alfred lhe estava a conferir maiores deleites de amor do que nunca; para poder saber que não era mais ela mesma quem se deitava em seu colo nas silenciosas e escuras noites marítimas, mas sim a noiva distante, magicamente trazida para perto, em toda sua força vital, pela saudade de Alfred. Mas na tórrida ilha, à qual por fim chegaram, na pesada uniformidade da última estada, quando ele percebeu que a fantasia, violentamente exigida, lhe negava seus préstimos, começou a se manter afastado de Elise e foi suficientemente pérfido para indicar como motivo de sua reserva uma nova e leve advertência da doença do coração, que sobreviera logo ao pôr o pé em terra firme. Ela o aceitou, como tudo o que dele viesse, como sinal de um amor que agora lhe significava todo o sentido e toda a bem-aventurança da vida. E quando ela, sob o brilho selvagem de um céu azul-dourado, fortemente abraçada a ele, viajava pelas sombras sussurrantes das florestas, ignorava que seu acompanhante só ansiava pela hora solitária em que, sem ser incomodado por Elise, teria a oportunidade de colocar no papel, com a pena esvoaçante, cálidas palavras dirigidas à outra, de cuja existência no mundo Elise, até então, nada sabia e nunca iria saber. Em tais horas de solidão, seu desejo pela outra, distante, crescia com tal intensidade que a próxima, aquela que lhe pertencia, aquela com a qual estava viajando pelo mundo durante já quase um ano, era por ele inteiramente esquecida, até nos traços de seu rosto, até nas nuanças de sua voz. E quando, na noite anterior ao início da viagem de retorno, vindo do escritório, encontrou Elise prostrada sobre o leito, quase inconsciente, vítima de um novo e intenso ataque, reconheceu, com uma sensação leve e quase doce de horror, que aquilo que em outras oportunidades ele acreditara sentir em si como uma espécie de silencioso temor era a nunca apagada, a obscuramente incandescente esperança de sua alma. Apesar disso, sem demora e com uma emoção realmente dolorosa ele mandou chamar um médico, que apareceu rapidamente e mitigou o sofrimento da enferma com uma injeção de morfina. Ao pretenso marido, que declarava por motivos de força maior não poder adiar a viagem, que agora parecia arriscada, o médico entregou um bilhete em que recomendava à doente os cuidados especiais do médico de bordo.</p>
<p>Logo nos primeiros dias, o ar marítimo pareceu ter efeito benigno sobre Elise. Sua palidez sumiu, sua fisionomia tornou-se mais alegre, e ela mostrou-se mais espontânea do que Alfred jamais tinha percebido. E enquanto antes Elise se mantivera indiferente e até hostil a qualquer aproximação de estranhos, por mais inofensivos que fossem, agora ela não fugia às conversas em comum, do tipo que a vida a bordo trazia, e recebia com satisfação as respeitosas homenagens de alguns passageiros do sexo masculino. Sobretudo um barão alemão, que esperava encontrar no mar a cura de uma enfermidade crônica dos pulmões, ficava tão freqüentemente próximo de Elise como seria possível sem chegar a ser importuno; e Alfred teria até se convencido de que o comportamento encorajador que Elise dispensava a este, o mais amável de seus admiradores, era o sinal bem-vindo do florescimento de uma nova inclinação. Mas quando, certa vez, fingindo irritação com sua chocante amabilidade, Alfred tentou pedir uma explicação a Elise, ela lhe declarou sorridente que toda sua recente espontaneidade diante de outros não tinha tido nenhuma outra finalidade senão despertar os ciúmes do amante, e que ela se alegrava de forma indizível pelo êxito de seu ardil. Dessa vez, Alfred não conseguiu mais esconder sua impaciência, sua decepção. Replicou à sua confissão, mediante a qual Elise pensava tê-lo tranqüilizado e alegrado, com palavras de uma dureza desconhecida para ela; em meio a uma sombria perplexidade, ela resistiu àquelas palavras durante um certo tempo, até que subitamente desmaiou e caiu sobre o piso da coberta, onde estava ocorrendo o diálogo, tendo de ser carregada para a cabine. O médico de bordo, já advertido pelo bilhete de seu colega, não considerou necessário examiná-la mais detidamente e trouxe ao coração torturado um alívio passageiro, através do medicamento já uma vez aplicado. Contudo, não pôde evitar que os ataques se repetissem no dia seguinte e no terceiro dia, sem qualquer motivo externo, e, mesmo que a morfina nunca deixasse de fazer efeito, ele não pôde esconder o temor de que a doença pudesse levar a um fim trágico; assim, advertiu Alfred, de forma comedida porém incisiva, que poupasse sua bela esposa em todos os sentidos.</p>
<p>Alfred, em meio a seu obscuro e surdo rancor contra Elise, teria facilmente se inclinado a obedecer ao médico, sobretudo naquele ponto, em que suas palavras pareciam uma severa proibição. Mas Elise, ansiosa, conseguiu numa hora de solidão noturna arrastar o amante contrariado para dentro de seu coração, como se desejasse reconciliá-lo através da ternura. Porém, enquanto ela estava abandonada em seus braços, com os olhos semicerrados, e ele via sobre sua testa úmida refletir-se o brilho azulado das ondas que entrava pela escotilha do camarote, Alfred sentiu, como que provindo das maiores profundezas de sua alma, um sorriso lhe subir aos lábios, um sorriso que ele mesmo só lentamente entendeu ser desprezo, até de triunfo. E enquanto ainda se tornava consciente, estremecendo, de sua obscura esperança, teve de dizer a si mesmo que sua satisfação não consistiria apenas na salvação e na fuga de toda aquela confusão; como também Elise, tão logo reconhecesse que seu fim era inelutável, se lhe fosse dada uma possibilidade de escolha, não desejaria outro fim que o de falecer em meio a seus beijos. E enquanto ela, agora, ciente do perigo, parecia disposta, em entregas cada vez mais apaixonadas, a partir por amor e através do amor, ele próprio se acreditava suficientemente forte para aceitar um sacrifício por meio do qual, por mais monstruoso que fosse, no entrelaçamento de circunstâncias do destino, a sorte de três seres humanos poderia ser alterada de forma propícia.</p>
<p>Mas enquanto, noite após noite, observava o fraco brilho de seus olhos, o desfalecido exalar de sua respiração, com horror esperançoso passou a sentir-se como que enganado sempre que, um minuto mais tarde, seus olhares despertados reluziam gratos nos dele, o hálito quente de seus lábios bebia com novo desejo o dele, e assim, todo o aparato que sua mortal perfídia não tinha servido a outro fim senão infundir mais vida nos pulsos de Elise. E ela estava tão segura de seu amor que, de dia, quando ele a deixava durante horas sozinha ou na companhia de outras pessoas, para entregar na coberta superior sua testa febril ao refresco do vento marítimo, Elise ficava despreocupada e recebia o sorriso perplexo e desvairado com o qual ele voltava como se fosse uma carinhosa saudação, que ela retribuía.</p>
<p>Em Nápoles, onde o barco ia atracar para um descanso de um dia, para depois zarpar sem escalas para Hamburgo, Alfred esperava encontrar uma carta de Adele, a qual implorara com palavras ardentes, pela última vez, do Ceilão. O tempo tempestuoso obviou-lhe o esforço de encontrar uma desculpa para, sem a companhia de Elise, deixar-se levar até terra firme num dos barcos que estavam à disposição, juntamente com outros passageiros. Foi até o correio, adiantou-se até o guichê, deu seu nome e teve de retirar-se com as mãos vazias. Embora tentasse acalmar-se com a idéia de que a carta de Adele poderia não ter sido enviada a tempo, ou ter se perdido, a sensação de aniquilação que lhe sobreveio após essa decepção o fez reconhecer que, para ele, uma vida futura sem Adele era impensável. Chegado ao fim de sua capacidade de simulação, pensou de início em contar impiedosamente toda a verdade a Elise, tão logo retornasse ao navio. Logo raciocinou, porém, que as conseqüências de tal confissão não seriam previsíveis, que poderiam atingir Elise, mortal e instantaneamente, ou poderiam levá-la à loucura ou ao suicídio; além do mais, tal acontecimento dificilmente ficaria oculto em suas causas e, com isso, seu relacionamento com Adele poderia se tornar funesto. Temia que o mesmo aconteceria se ele adiasse a confissão para o último momento, até o desembarque em Hamburgo, ou mesmo até a chegada em Viena. Em meio a tão desesperados pensamentos e quase que inconsciente já de sua perfídia, Alfred vagava pela praia, perto do meio-dia, sob o sol incandescente, quando subitamente sentiu tonturas e pensou estar próximo de um desmaio. Cheio de medo, deixou-se cair sentado sobre um banco e assim ficou, até que o espasmo cedeu e as névoas diante de seus olhos sumiram. Depois respirou fundo, como que despertando. Sabia, de repente, que no instante inconcebível em que seus sentidos ameaçaram abandoná-lo, uma decisão tinha amadurecido até o fim, terrível e clara, uma decisão que há muito havia se preparado nas profundezas de sua alma. O desejo ardente e cruel, cuja satisfação tentara incentivar durante todos aqueles dias como que a partir de um covarde esconderijo, ele precisava agora, sem mais delongas, transformar em ação com sua própria vontade, com suas próprias mãos. E como resultado de uma longa reflexão interior, surgiu em sua mente um plano pronto.</p>
<p>Levantou-se e foi, antes de mais nada, para um hotel, para lá almoçar com o melhor dos apetites. Depois procurou três médicos, a todos os quais se apresentou como um doente que sofria de dores insuportáveis, e que, acostumado há anos à morfina, tivesse chegado ao fim sem suprimento; recebeu as receitas, fez com que fossem aviadas em diferentes farmácias e se encontrou, ao voltar a bordo com o sol poente, na posse de uma dose que podia considerar mais do que suficiente para seu intento. À mesa do jantar contou com palavras do mais elevado encantamento sobre um passeio por Pompéia, para o qual teria aproveitado o dia transcorrido, e, com ardente prazer na mentira, como se devesse superlativar seu próprio ser para o que há de mais diabólico, alongou-se na descrição de um quarto de hora que teria passado no jardim de Appius Claudius, diante de uma estatueta, que em verdade nunca vira e a respeito da qual lera casualmente num guia de viagens. Elise estava sentada a seu lado; em frente a ela, o barão; os olhares dos dois se encontraram e Alfred não conseguiu repelir a impressão de que ali dois fantasmas se fitavam com suas órbitas vazias.</p>
<p>Mais tarde, como em tantas outras ocasiões, passeou com Elise pela coberta superior, ao luar, enquanto ao longe desaparecia o brilho das luzes da costa. Como durante um segundo se sentiu fraquejar, reacendeu sua decisão imaginando que era o braço de Adele aquele que apertava contra o seu, e, pela onda de ardor que disparou por suas veias, reconheceu que a felicidade que o esperava não teria sido comprada a um preço alto demais nem pela mais terrível das culpas. Ao mesmo tempo, porém, começou a surgir nele, misteriosamente, algo semelhante à inveja pela jovem criatura a seu lado, que estava destinada a encontrar a saída salvadora de todas as confusões da vida sem sofrimento nem apreensão.</p>
<p>Quando na cabine, abraçou Elise pela última vez com uma clareza incrementada até quase o insuportável, mas também com desesperado prazer, sentiu-se como o executor de um destino do qual sua vontade não mais participava. Só um gesto de seus dedos teria bastado para entornar o copo, que rebrilhava azul na mesinha, e as gotas de veneno teriam embebido, como umidade inofensiva, o chão indiferente do camarote. Mas Alfred ficou imóvel, esperando. Esperou até perceber, finalmente, com o coração aos saltos, um movimento de Elise que lhe era conhecido, pelo qual ela estendeu a mão, com os olhos semicerrados, em direção ao copo, para, como sempre o fazia antes de adormecer, mitigar sua última sede. Viu com as pálpebras desmesuradamente abertas, sem se mexer, como ela se erguia um pouco, colocava o copo nos lábios e bebia seu conteúdo de uma vez. Depois ela voltou a se deitar com um leve suspiro, aninhando a cabeça, como de hábito, no peito de Alfred, até adormecer. Alfred sentia em sua fronte um martelar lento e surdo, via a respiração calma de Elise e ouvia as ondas batendo como uma queixa na proa do navio, que flutuava através de um tempo que se havia detido.</p>
<p>De repente sentiu um intenso estremecimento percorrer o corpo de Elise. Suas duas mãos agarraram o pescoço dele, seus dedos pareciam querer penetrar em sua pele e só depois, com um longo gemido, ela abriu os olhos. Alfred se soltou de seu abraço, saltou da cama, viu como ela tentava se levantar, debatia-se com os braços no vazio, deixou vaguear um olhar tresloucado pela penumbra, para, de repente, tornar a cair deitada totalmente imóvel, respirando de forma curta e fraca. Alfred logo percebeu que ela perdera a consciência, e se perguntou, friamente, quanto tempo duraria esse estado, antes do fim. Ao mesmo tempo pensou que, no presente estado, ela talvez ainda pudesse ser salva; e, com o obscuro sentimento de, dessa forma, tentar uma última vez o destino, quer aniquilando ele próprio os frutos de sua ação, quer, correndo audazmente um risco, expiando sua culpa, saiu à procura do médico. Se este descobrisse o que ali se passara, o jogo deveria estar definitivamente perdido para ele; caso contrário, ele próprio se absolveria para todo o futuro de qualquer culpa ou arrependimento.</p>
<p>Quando Alfred entrou no camarote com o médico, Elise jazia pálida, com os olhos semicerrados e vítreos, os dedos cravados no cobertor e gotas brilhantes sobre a testa e as faces. O médico se inclinou, pôs seu ouvido sobre o peito dela, ouviu longamente, sacudiu a cabeça preocupado, separou as pálpebras de Elise, colocou a própria mão diante dos lábios, ouviu novamente; depois voltou-se para Alfred e lhe comunicou que a luta com a morte havia chegado ao fim. Com um olhar tresloucado, que não era fingido, Alfred juntou as mãos sobre a cabeça, caiu diante da cama e ficou com a testa apertada contra o joelho de Elise, durante um tempo. Depois girou o corpo e fitou o médico com o olhar perdido; este lhe ofereceu a mão num gesto de compaixão; Alfred não a aceitou, sacudiu a cabeça e, em posse plena de sua clareza interior, como que numa demasiadamente tardia auto-recriminação, murmurou para si:</p>
<p>— Se tivéssemos seguido seus conselhos&#8230; — Depois escondeu, aflito, o rosto entre as mãos.</p>
<p>— Eu deveria ter imaginado &#8211; ele ouviu o médico responder, em suave tom de censura; e num sentimento onipotente de triunfo sentiu o brilho e a luz de seus olhos, por trás de suas pálpebras fechadas.</p>
<p>Já no dia seguinte, como o prescrevem os regulamentos, o cadáver de Elise foi deitado ao mar e Alfred, como viúvo, sentiu-se rodeado pela compaixão geral, silenciosamente discreta. Ninguém se atrevia a incomodá-lo, quando caminhava pela coberta durante horas, olhando para uma distância que, para ele, o que ninguém podia pressupor, estava permeada do odor da mais doce esperança. Só o barão juntava-se a ele às vezes, durante curtos minutos, evitando, com evidente intenção, mencionar o triste acontecimento, sequer com uma palavra. Alfred sabia bem que a única coisa que levava o barão a acompanhá-lo nestes passeios era a vontade de se sentir, durante alguns instantes, envolvido novamente pela atmosfera da amada morta. Para Alfred, esses momentos eram os únicos em que se sentia tocado pelo passado; fora isso, ele tinha se elevado para além do seu ato e do que este poderia significar para os homens. Numa presença viva, a imagem daquela que ele ansiava com ardor, daquela que ele tinha obtido através da culpa, estava diante dele; e quando olhava da proa para baixo, em direção à água, era como se a visse correr pacificamente por sobre mundos enterrados, para os quais era indiferente, nas profundezas de seu sono, ter submergido no dia anterior ou há mil anos.</p>
<p>Só quando a costa alemã se tornou visível, seu pulso acelerou. Sua intenção era não permanecer em Hamburgo mais do que o necessário; retirar a carta que ali deveria esperar por ele e viajar com o primeiro trem para casa. A lentidão do desembarque lhe produziu uma impaciência aflitiva; e respirou como que libertado quando sua bagagem foi enfim colocada na carruagem e ele dirigiu-se ao correio pelas ruas da cidade, sobre as quais pendia, com pequenas nuvens cor-de-rosa, o fim da tarde de primavera. Entregou seu cartão ao funcionário dos correios, olhou ansioso como ele folheava a correspondência, estendeu a mão, pronto para receber sua carta, e recebeu a resposta de que não havia nada para ele, nenhuma carta, nenhum cartão, nenhum telegrama. Tentou um sorriso incrédulo e pediu ao funcionário, num tom quase humilde, do qual imediatamente se envergonhou, que verificasse de novo. E agora Alfred tentava decifrar o que estava escrito nas bordas dos envelopes; acreditou repetidamente reconhecer seu nome na letra de Adele, voltou a estender esperançoso várias vezes a mão – e teve de ouvir mais uma vez que havia se enganado. Por fim, o funcionário voltou a colocar o montinho de envelopes no escaninho, sacudiu a cabeça e se afastou. Alfred despediu-se com exagerada cortesia e se encontrou no minuto seguinte em frente ao portão, semi-atordoado. A única coisa clara para ele era que estava preso na cidade e que não poderia ir a Viena de maneira alguma sem antes ter em mãos alguma notícia de Adele. Foi para um hotel, pegou um quarto e, antes de mais nada, jogou as seguintes palavras num formulário de telegrama: &quot;Nenhuma palavra sua. Inconcebível. Desconcertado. Estarei depois de amanhã em casa. Quando posso vê-la? Responda imediatamente.&quot; Colocou seu endereço e entregou o despacho com resposta paga. Quando entrou no saguão, já iluminado para a noite, sentiu um par de olhos fixos nele; de uma poltrona, com um jornal sobre os joelhos, sério, sem se levantar, o barão, de quem se havia despedido superficialmente no navio, o cumprimentava. Alfred mostrou-se contente com o encontro inesperado, e de fato acreditava-se contente, e comunicou ao barão sua intenção de ficar na cidade até o dia seguinte. O barão, que apesar de suas faces pálidas e de sua tossinha contínua afirmava sentir-se muito bem, propôs durante o jantar que os dois fossem a um <em>vaudeville</em> e, diante da resistência de Alfred, observou, com as pálpebras semicerradas e em voz baixa, que a tristeza nunca tinha ressuscitado ninguém. Alfred riu, assustou-se com o próprio riso, achou que seu embaraço fora percebido pelo barão e sentiu imediatamente que não poderia fazer nada mais inteligente do que se reunir a ele. Logo após, sentado a seu lado num camarote, bebia champanhe, via através da fumaça e da névoa, ao som de uma orquestra vulgar, ginastas e palhaços em suas artes e brincadeiras, ouviu mulheres seminuas cantarem canções indecentes e dirigiu a atenção de seu silencioso companheiro, como sob uma irada compulsão, para pernas bem-feitas e seios generosos que se mostravam no palco. Depois gracejou com uma vendedora de flores, jogou uma rosa amarela em direção a uma bailarina, que agitava sedutoramente os cachos negros, e riu quando viu os lábios finos do barão estremecerem num ricto de amargura e nojo. Mais tarde sentiu como se, da sala embaixo, centenas de olhares o fitassem com maldosa curiosidade e como se todos os cochichos e sussurros se referissem apenas a ele. Um calafrio de angústia correu por suas costas; depois lembrou-se de que havia bebido muito depressa um par de taças de champanhe, e ficou novamente calmo. Observou com satisfação que, enquanto estivera inclinado sobre o parapeito, duas mulheres maquiadas haviam começado uma conversa com o barão; respirou fundo, como se tivesse escapado de um perigo, levantou-se, acenou com a cabeça para o companheiro, encorajando-o e saudando-o pela aventura; e logo partiu, sozinho, pelas ruas que nunca vira antes nem jamais iria ver, assobiando para si uma melodia qualquer e com a sensação de estar vagueando através de uma cidade de sonho, em direção ao hotel.</p>
<p>Quando acordou de manhã, após um sono pesado, precisou primeiro tomar consciência de que não estava mais viajando no navio e de que o brilho branco, diante dele, não era o roupão de Elise, mas uma cortina. Com um portentoso esforço de vontade repeliu uma lembrança que ameaçava surgir e tocou a campainha. Com o café da manhã trouxeram-lhe um telegrama. Deixou-o na bandeja enquanto o garçom ficou no quarto; e sentiu como se essa espera merecesse um prêmio. Imediatamente depois que a porta foi fechada, abriu o telegrama com dedos trêmulos; as letras primeiro dançavam diante de seus olhos, mas, de repente, ficaram paradas, estáticas e imensamente grandes: &quot;Amanhã, às 11 horas da manhã. Adele&quot;. Correu de um lado para o outro, riu por entre os dentes e não se deixou abalar pelo tom curto e frio da mensagem. Esse era seu jeito. E mesmo se em casa ele não encontrasse tudo como até há pouco imaginara, mesmo se algumas novidades desagradáveis estivessem a sua espera, o que tinha de mais? Voltaria a se defrontar com ela, a ficar ao alcance da luz de seus olhos, do odor de seu hálito e, portanto, aquela monstruosidade não tinha sido em vão.</p>
<p>Não ficou por mais tempo no hotel; durante o pouco tempo que faltava até a partida do trem ele perambulou pela cidade, com os olhos exageradamente abertos, mas sem ver pessoas e coisas. Ao meio-dia partiu de Hamburgo: fitou durante horas e horas, através da janela do vagão, a paisagem que passava veloz; reprimindo com a bem treinada força de sua vontade tudo o que nele queria se mover enquanto pensamentos, esperanças e temores; e quando, para não chamar demasiadamente a atenção dos outros passageiros, ele pegava num livro ou jornal, contava, sem ler, várias vezes até cem, quinhentos, mil. Quando se fez noite, uma saudade extenuante rompeu com todos os seus esforços de manter a compostura. Repreendia-se por ter interpretado mal a falta de notícias e o tom do último telegrama e não conhecia nenhuma outra censura contra Adele, a não ser a de que ela se ativera mais cabalmente ao acordo do que ele. Mas mesmo que ela, de alguma forma, tivesse sabido que viajara em companhia de uma mulher, ele se sentia suficientemente forte em seu amor para ganhar de volta a ofendida, contra todo ciúme e toda amargura. E chegou a se fazer senhor dessas fantasias a um ponto tal que nessa noite infinita conseguiu ouvir a melodia de sua voz, ver o contorno de sua figura e seus traços, sim, e até sentir seu beijo, tão ardentemente doce, como na realidade nunca lhe fora dado receber de seus lábios.</p>
<p>Havia chegado em casa. Com amável conforto, sua residência o recebeu. O desjejum, cuidadosamente preparado, foi de seu total agrado e, pela primeira vez depois de muitos dias, novamente, segundo queria lhe parecer, pensava com toda calma na outra que, livre para todos os tempos das aflições deste mundo, dormia no mar silencioso. Por um instante sentiu como se aquela seqüência de horas, antes do desembarque em Nápoles até a morte de Elise, também pudesse ser uma quimera de seus nervos abalados, e o triste fim teria chegado, como os médicos haviam previsto, profetizado até, apenas como resultado do desenvolvimento previsto para a doença. Sim, o homem que, numa cidade estranha que brilhava ao sol, correra perfidamente de um médico para outro, de uma farmácia para outra e que havia preparado o veneno mortal com cruel premeditação, o homem que abraçara a amante, com infame prazer, uma hora antes de mandá-la para o além, parecia-lhe totalmente diferente daquele que ali, entre paredes familiares, bebia seu chá num ambiente calmo, burguês e confortável; parecia-lhe ser um homem que era muito mais do que ele, alguém que ele mesmo devia admirar com arrepios. Mas quando mais tarde, ao sair do banho, o espelho lhe devolveu sua imagem nua e esbelta e, de repente, se tornou consciente de que ele mesmo fizera o inconcebível, viu seus olhos luzirem num brilho duro, sentiu-se mais digno do que nunca de apertar contra o peito a noiva que esperava e, com uma sarcástica superioridade nos lábios, seguro de seu amor como nunca antes estivera.</p>
<p>Na hora marcada entrou no salão amarelo que deixara um ano atrás, quase na mesma data, e no minuto seguinte Adele estava diante dele; despreocupada, como se tivesse se despedido dele no dia anterior, estendeu-lhe a mão, para um prolongado beijo. O que me impede de abraçá-la?, perguntou-se. Mas aí ele já a ouviu falar, com a voz escura que ouvira à noite, apenas em sonhos, e percebeu que ele mesmo não tinha dito ainda nenhuma palavra, que só havia sussurrado o nome dela, no momento em que ela aparecera. Que ele não levasse a mal, começou ela, o fato de não haver respondido a suas belas cartas; mas a situação era simples, havia coisas que era melhor dizer cara a cara do que por escrito. Seu silêncio já devia tê-lo preparado, no sentido de que muita coisa tinha mudado, e o tom frio de seu telegrama fora totalmente proposital. Pois fazia seis meses mais ou menos que ela estava noiva de outro homem. E ela mencionou um nome que Alfred conhecia. Era o de um de seus muitos bons amigos de tempos passados, em quem ao longo daquele ano pensara tão pouco, como de resto ocorrera com quase todas as outras pessoas com quem antes se relacionava. Ouviu Adele com calma, fitou enfeitiçado com sua testa lisa; depois, como que através dela, fitou o vazio e em seus ouvidos soava um ruído de ondas longínquas, que corriam sobre mundos submersos. De repente viu irromper nos olhos de Adele algo semelhante a um brilho de medo, sabia que estava frente a ela, pálido como um morto e com um olhar terrível e disse, imprevistamente até para si mesmo, num tom duro quase inaudível:</p>
<p>— Não é possível, Adele, você está enganada, você não pode&#8230;</p>
<p>O fato de finalmente ter encontrado palavras acalmava-o, ao que tudo indicava.</p>
<p>Ela tornou a sorrir de maneira cortês e lhe explicou que não era ela que se enganava, mas ele. Porque ela podia, sim, podia tudo que quisesse. Ela nem ficara noiva dele, mas eles haviam se separado como pessoas livres, sem qualquer compromisso, tanto ela quanto ele. E como ela não mais o amava, mas a um outro, a coisa estava simplesmente liquidada. Ele precisava compreender e aceitar esse fato; caso contrário, ela sentiria muito não ter seguido o conselho que o pai lhe dera de manhã, de não receber Alfred em sua casa. E ela estava sentada diante dele, as mãos finas cruzadas sobre os joelhos, com olhos claros e distantes.</p>
<p>Alfred sentiu que necessitava de todo o seu domínio para não fazer algo ridículo ou horrível. O que queria, na verdade, não estava claro para ele. Agarrá-la pelo pescoço e estrangulá-la, ou jogar-se no chão e chorar como uma criança? Mas de que adiantava pensar a respeito? Não tinha escolha; ele jazia lá, como que derrubado, e ainda teve a presença de espírito de pegar as mãos de Adele, que queria se afastar depressa, e de implorar roucamente para que ficasse. Só mais um quarto de hora! Que o ouvisse! Isso ele ainda podia pedir-lhe, depois de tudo o que antes houvera entre os dois. Tinha tanta coisa para lhe contar, mais do que ela podia pressupor, e ela tinha o dever de ouvi-lo. Pois quando ela soubesse de tudo, então também saberia que lhe pertencia, que não poderia pertencer a nenhum outro, que ele a tinha conquistado com culpa e tormentos, que diante de seus imensos direitos todos os outros cairiam no pó, no mais profundo pó, que ela estava unida a ele, indissoluvelmente, para todo o sempre, assim como ele a ela. E de joelhos diante da moça, cravando suas mãos nas dela, olhando-a fixamente, deixou voar suas palavras, expôs todo o conteúdo do ano transcorrido; contou de como amara, antes dela, uma outra, e de como junto com essa outra, que fora doente e não tivera ninguém no mundo a não ser ele, empreendera uma viagem, de como se consumira nos tormentos da saudade, mas como a outra se agarrara a ele, indefesa e aprisionadora; e de como no fim de seu sofrimento, por amor a ela, a ela, cujas mãos ele tinha entre as suas, por causa de um amor como o mundo nunca antes vira, como ele tirara deste mundo aquela outra, que não poderia nem quereria ter vivido sem ele, como ele a envenenara, compassiva e perfidamente; de como agora, sob as ondas distantes, a pobre criatura descansava, vítima de um sacrifício feito em prol de uma felicidade que também seria sem igual, tal como o preço com o qual havia sido conquistada.</p>
<p>Adele se livrara de suas mãos e não levantara o rosto para encará-lo. Ouvia o que ele contava e não sabia bem de que maneira interpretar tudo aquilo, se como um conto fantástico, sobre seres estranhos e distantes, ou como uma notícia de jornal referente a pessoas que em nada lhe interessavam. Talvez nem acreditasse no que ele estava contando. Mas de qualquer forma lhe era indiferente saber se era verdade ou mentira o que saía daqueles lábios. Ele sentiu mais e mais sua impotência. Viu todas as suas palavras escorrendo por ela, vazias e frias; e no final, quando quis ler seu destino de seus lábios, o qual ele já conhecia, ela apenas abanou a cabeça. Ele a olhava com angústia, sabendo, mas também sem saber, com uma pergunta desvairada nos olhos bruxuleantes.</p>
<p>— Não — disse ela duramente. — Acabou.</p>
<p>E ele soube que com este não tudo havia acabado para sempre. A expressão de Adele ficou totalmente impassível. Nem a menor lembrança da ternura desaparecida, nem mesmo horror havia nela, só uma expressão aniquiladora de indiferença e enfado.</p>
<p>Alfred inclinou a cabeça, sorrindo vazio como que a consentir. Não mais pegou suas mãos, que ela deixou pender, alheias; virou-se e partiu. A porta ficou aberta atrás dele e ele sentiu um sopro frio na nuca. Ao descer a escada, sabia que não lhe restava a fazer mais nada a não ser encontrar um fim para tudo aquilo. Isso estava decidido tão firmemente para além de toda dúvida, que ele caminhou vagarosamente até sua casa no lisonjeiro dia primaveril, como quem procura o ansiado sono após uma noite devassa.</p>
<p>Mas em seu quarto havia alguém esperando por ele. Era o barão. Sem pegar na mão que Alfred lhe oferecia, declarou desejar uma breve conversa com ele, e após um rápido e cortês aceno de cabeça de Alfred, continuou:</p>
<p>— É para mim uma necessidade comunicar-lhe que o considero um patife.</p>
<p>&quot;Muito bem&quot;, pensou Alfred, &quot;também contra este fim não há o que dizer&quot;; e replicou, calmo:</p>
<p>— Estou à sua disposição. Amanhã cedo, se lhe aprouver.</p>
<p>O barão sacudiu brevemente a cabeça. Ficou claro que tudo já estava preparado, evidentemente desde durante a viagem. Dois jovens da embaixada alemã só esperavam suas instruções; e ele falou na sua esperança de que seu antagonista, que se encontrava agora em casa, poderia facilmente tomar as providências necessárias para que a coisa se concretizasse antes do anoitecer. Alfred acreditou poder prometê-lo. Durante um instante veio-lhe a idéia de confessar toda a verdade ao barão; mas, diante do imenso ódio que irradiava daquela testa fria, temia que o outro, que talvez intuísse a verdade, o entregasse à justiça; por isso preferiu calar.</p>
<p>Alfred encontrou os cavalheiros de que precisava sem esforço. Um deles era o noivo de Adele, o outro um jovem oficial, com quem gozara em tempos passados mais de uma jornada prazerosa. Antes do pôr-do-sol, nas várzeas do Danúbio, num lugar freqüentemente escolhido para tais encontros, ele estava em frente ao barão. Uma calma, que após as confusões dos dias passados ele sentiu como se fosse a felicidade, o recebeu. Quando viu o cano da pistola apontado em sua direção, durante os três segundos que, contados por uma voz distante, caíram como três gotas frias do céu noturno, ressoando sobre o chão, ele pensou naquela que fora inefavelmente amada, sobre cujo corpo em decomposição corriam as ondas do mar. E quando jazia no chão e algo escuro se inclinou sobre ele, o abraçou e não mais queria soltá-lo, sentiu-se bem-aventurado, porque ele, que expiara sua culpa, desaparecia por causa dela, em direção a ela, no nada, pelo qual ansiava há tanto tempo.</p>
<p>______</p>
<p><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Schnitzler" target="_blank">Arthur Schnitzler</a></em>. (Tradução de <a href="http://br.linkedin.com/pub/george-bernard-sperber/10/49a/792" target="_blank">George Bernard Sperber</a>)</p>
</blockquote>

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		<title>Mussolini: &#8220;a multidão é feminina&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Nov 2010 09:58:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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<p>Do <a href="http://cesarmaia.blogspot.com/" target="_blank">ex-blog do Cesar Maia</a>:</p>
<blockquote><p>
<strong>1932: POPULISMO ONTEM E HOJE!</strong></p>
<p>Coluna de sábado de Cesar Maia na Folha de SP (06).</p>
<p>1. Em 1932, Mussolini destacava-se como único líder, chefe de governo de expressão no mundo ocidental. Com formação teórica muito acima da média, poliglota, leitor de filósofos e de grandes escritores, conhecedor de historia, impressionou Emil Ludwig, escritor alemão, biógrafo de Bismarck, Napoleão e Goethe.</p>
<p>2. Mussolini deu absoluta privacidade, dez tardes seguidas em seu gabinete, para uma entrevista com Ludwig. Esta foi publicada e se transformou em livro logo em seguida: &#8220;Colóquios com Mussolini&#8221;. Ludwig explora os conceitos do entrevistado -liderança, governo, autoridade, nacionalismo, poder, países, história, artes, atributos do líder, Estado&#8230; Mussolini passou a ser referência para outros líderes políticos. Salazar mantinha seu busto na mesa de trabalho. Getúlio usou na &#8220;Constituição&#8221; de 1937 o conceito de Parlamento corporativo num governo autoritário.</p>
<p>3. Mussolini mitificava a ação, mas refletia e cristalizava seus conceitos. Esses, difundidos, formaram e formam gerações de lideranças populistas-autoritárias, com ou sem consciência da escola de influências que receberam. Com a ascensão do populismo autoritário na América Latina, cumpre ir a essas raízes, até para que esses saibam de que fonte vem a água que bebem.</p>
<p>4. Diz Mussolini que, &#8220;para governar as massas, temos que usar duas rédeas: o entusiasmo e o interesse. Confiar em uma só é estar em perigo. O lado místico e o lado político estão subordinados um ao outro. Este sem aquele se torna árido. Aquele sem este se desfolha ao vento das bandeiras&#8221;.</p>
<p>5. Numa afirmação, desnuda a base do populismo: &#8220;A massa não deve saber, mas crer. Só a fé remove montanhas. O raciocínio não. Este é um instrumento, mas jamais motor da multidão&#8221;. Sobre sua relação direta com as massas, diz: &#8220;Deve-se dominar as massas como um artista domina sua arte&#8221;. E ensina: &#8220;Deve-se ir do místico ao político, da epopeia à prosa&#8221;.</p>
<p>6. É nessa entrevista que Mussolini usa uma frase que marcou seu machismo: &#8220;A multidão adora homens fortes. A multidão é feminina&#8221;. Ludwig, vendo sua chegada ao balcão de seu gabinete no palácio Veneza para saudar a multidão, comenta: &#8220;No balcão, olhando as massas, ele tem o ar de autor dramático, que chega ao teatro e vê os atores impacientes para o ensaio&#8221;.</p>
<p>7. Mussolini segue: &#8220;Cumpre tirar dos altares sua santidade, o povo. A multidão não revela segredos. Quando não é organizada, a massa é um rebanho de ovelhas. Nego que ela possa se reger por si só&#8221;. Ludwig registra o que ele ensina e que deveria servir ao mesmo Mussolini e a tantos outros, especialmente os de aqui e agora: &#8220;Veja só o que Brunsen disse de Bismarck: &#8216;Tornou a Alemanha grande e os alemães pequenos&#8217;&#8221;.</p></blockquote>
<p>Tratar a multidão como se fosse uma mulher é a cara do cabra-macho Lula, o grosseirão mor. Até o vejo a dizer: &#8220;¿A multidão é feminina? Pau nela!&#8221;.</p>

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		<title>Dostoi&#233;vski: Crime e Castigo&#8230; e Reden&#231;&#227;o!</title>
		<link>http://blogdo.yurivieira.com/2010/11/crime-castigo-redencao/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Nov 2010 10:09:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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<div class="topsy_widget_data topsy_theme_brick-red" style="float: right;margin: 15px 5px 10px 10px; background: url(data:,%7B%20%22url%22%3A%20%22http%253A%252F%252Fblogdo.yurivieira.com%252F2010%252F11%252Fcrime-castigo-redencao%252F%22%2C%20%22shorturl%22%3A%20%22http%3A%2F%2Fbit.ly%2FcOoYYY%22%2C%20%22style%22%3A%20%22big%22%2C%20%22title%22%3A%20%22Dostoi%26eacute%3Bvski%3A%20Crime%20e%20Castigo%26hellip%3B%20e%20Reden%26ccedil%3B%26atilde%3Bo%21%22%20%7D);"></div>
<p> 
<p><img title="Fiódor Dostoiévski" style="border-top-width: 0px; display: block; border-left-width: 0px; float: none; border-bottom-width: 0px; margin-left: auto; margin-right: auto; border-right-width: 0px" height="258" alt="Fiódor Dostoiévski" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/11/dostoievski.jpg" width="202" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Tornou a fazer um dia morno e claro. Na manhã seguinte, às seis, ele encaminhou-se para o trabalho, na margem do rio, onde, debaixo dum telheiro, estava instalado o forno para o calcário, ao qual o tinham destinado. Enviaram para ali, ao todo, três operários. Um dos presos foi com a sentinela ao forte, buscar uma ferramenta; outro pôs-se a preparar a lenha para aquecer o forno. Raskólhnikov saiu do telheiro e dirigiu-se para a margem, sentou-se numa viga estendida ao longo do muro e ficou olhando o rio longo e deserto. Da margem elevada descobria-se um vasto espaço. Da outra margem longínqua mal chegava o eco duma canção. Ali, na estepe infindável, banhada pelo sol, apareciam pontos negros quase imperceptíveis, as tendas dos nômades. Para além havia liberdade e viviam outras pessoas, completamente diferentes das de aquém; ali era como se o tempo tivesse parado e não tivesse passado o século de Abraão e dos seus rebanhos. Raskólhnikov permanecia sentado e olhava fixamente, sem desviar os olhos; o seu pensamento transformou-se num desvario, numa contemplação; não pensava em nada, mas uma certa tristeza o comovia e afligia.</p>
<p>« De repente, Sônia apareceu junto dele. Aproximou-se com um passo quase imperceptível e sentou-se ao seu lado. Ainda era muito cedo; corria ainda a frescura matinal. Ela trazia uma pobre e velha capa e um lencinho verde. O seu rosto mostrava ainda sinais da doença, emagrecera, estava pálida, de feições vincadas. Sorriu-lhe afetuosa e alegremente, mas, conforme era seu costume, estendeu-lhe timidamente a mão. Estendialhe sempre a mão com timidez, às vezes nem chegava quase a dar-lha completamente, como se receasse um insucesso. Ele lhe aceitava sempre a mão como se o fizesse de má vontade, parecia sempre acolhê-la com contrariedade, às vezes conservava um silêncio obstinado durante todo o tempo da sua visita. E então ela tremia diante dele e partia profundamente entristecida. Mas, agora, as suas mãos não se soltaram; ele lhe lançou um olhar rápido; não disse nada e baixou os olhos. Estavam sós; ninguém os via. A sentinela tinha-se afastado naquele momento.</p>
<p>« Como aquilo foi, nem eles próprios o sabiam; mas, de repente, houve qualquer coisa que pareceu apoderar-se dele e fez com que ele se deitasse aos pés dela. Chorava e abraçava os seus joelhos. No primeiro momento ela ficou muito assustada e o seu rosto tornou-se parecido com o de uma morta. Saltou do seu lugar e, toda a tremer, ficou olhando para ele. Mas compreendeu tudo, imediatamente, naquele mesmo instante. Nos seus olhos brilhou uma infinita felicidade; compreendia, e para ela já não havia dúvida de que ele a amava, a amava infinitamente, e que chegara finalmente o momento.</p>
<p>« Quiseram falar, mas não lhes foi possível. Havia lágrimas nos seus olhos. Estavam ambos pálidos e abatidos; mas naqueles rostos doentios e pálidos brilhava já a aurora de um renovado futuro, de uma plena ressurreição para uma nova vida. O amor ressuscitava-os, o coração de um encerrava infinitas fontes de vida para o coração do outro. Resolveram esperar e ter paciência. A ele, ainda lhe faltavam sete anos; e, até então, quantos sofrimentos insuportáveis e quanta felicidade infinita! Ele ressuscitara e sabia-o, sentia-o em todo o seu ser renovado, e ela&#8230; ela vivia unicamente da vida dele! Na noite desse mesmo dia, quando já tinham fechado os alojamentos, Raskólhnikov estava deitado nas esteiras e pensava nela. Nesse dia até se lhe afigurava que todos os presos, que antes tinham sido seus inimigos, o olhavam já com outros olhos. Até falava com eles e lhes respondia afetuosamente. Agora recordava-o, mas não teria de ser assim: não deveria talvez, agora, mudar tudo? Pensava nela. Lembrava-se de como a mortificara continuamente, destroçando-lhe o coração; recordava o seu rostozinho pálido, mas, agora, essas recordações quase não o afligiam; sabia com que infinito amor ia recompensar agora as suas dores. E que eram agora todos, todos aqueles sofrimentos do passado? Tudo, até o seu crime, até a sua condenação e deportação lhe pareciam agora, nesta primeira exaltação, um fato exterior, alheio, como se não tivesse relações com ele. Aliás, nessa noite não podia pensar longa e fixamente em nada, concentrar o pensamento em qualquer coisa; tampouco poderia resolver, então, conscientemente, o que quer que fosse; a única coisa que fazia era sentir. Em vez da dialética surgia a vida, e já na sua consciência devia elaborar-se algo de totalmente distinto.</p>
<p>« Tinha o Evangelho debaixo da almofada. Pegou-o maquinalmente. Aquele livro era dela, pois era o mesmo em que ela lera a passagem da Ressurreição de Lázaro. Nos primeiros tempos do presídio pensava que ela havia de importuná-lo com a religião e que se poria a falar do Evangelho e a aborrecê-lo com o livreco. Mas, com o maior assombro da sua parte, nem uma só vez ela lhe falou nisso, nem uma vez sequer lhe tinha proposto o Evangelho. Fora ele quem lho pedira, um pouco antes de ter adoecido, e ela levou-lho em silêncio. Até então ele nem sequer o abrira. Agora também não o abriu, mas ocorreu-lhe um pensamento: &quot;Poderia, por agora, a sua crença, não ser a minha também? Pelo menos os seus sentimentos, as suas aspirações&#8230;&quot; Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura&#8230;</p>
<p>« Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa&#8230; mas a nossa presente narrativa termina aqui.»</p>
<p>______</p>
<p><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/154338/?franq=140868" target="_blank"><em>Crime e Castigo</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fi%C3%B3dor_Dostoi%C3%A9vski" target="_blank">Fiódor Dostoiévski</a>.</p>
</blockquote>

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		<title>Alguns poemas de Augusto dos Anjos</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 11:34:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><strong> </strong></p>
<p><strong><img style="display: block; float: none; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px;" title="Augusto dos Anjos" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/09/augusto_anjos.jpg" border="0" alt="Augusto dos Anjos" width="187" height="243" /> </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>O COVEIRO</strong></p>
<p style="text-align: center;">Uma tarde de abril suave e pura<br />
Visitava eu somente ao derradeiro<br />
Lar; tinha ido ver a sepultura<br />
De um ente caro, amigo verdadeiro.<br />
Lá encontrei um pálido coveiro<br />
Com a cabeça para o chão pendida;<br />
Eu senti a minh&#8217;alma entristecida<br />
E interroguei-o: &#8220;Eterno companheiro<br />
Da morte, quem matou-te o coração?&#8221;<br />
Ele apontou para uma cruz no chão,<br />
Ali jazia o seu amor primeiro!<br />
Depois, tomando a enxada, gravemente,<br />
Balbuciou, sorrindo tristemente:<br />
- &#8220;Ai, foi por isso que me fiz coveiro!&#8221;</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>O LUPANAR</strong></p>
<p style="text-align: center;">Ah! Por que monstruosíssimo motivo<br />
Prenderam para sempre, nesta rede,<br />
Dentro do ângulo diedro da parede,<br />
A alma do homem polígamo e lascivo?!<br />
Este lugar, moços do mundo, vede:<br />
É o grande bebedouro coletivo,<br />
Onde os bandalhos, como um gado vivo,<br />
Todas as noites, vêm matar a sede!<br />
É o afrodístico leito do hetairismo,<br />
A antecâmara lúbrica do abismo,<br />
Em que é mister que o gênero humano entre,<br />
Quando a promiscuidade aterradora<br />
Matar a última força geradora<br />
E comer o último óvulo do ventre!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>O MARTÍRIO DO ARTISTA</strong></p>
<p style="text-align: center;">Arte ingrata! E conquanto, em desalento,<br />
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,<br />
Busca exteriorizar o pensamento<br />
Que em suas fronetas células guarda!<br />
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!<br />
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,<br />
Como o soldado que rasgou a farda<br />
No desespero do último momento!<br />
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!&#8230;<br />
É como o paralítico que, à míngua<br />
Da própria voz e na que ardente o lavra<br />
Febre de em vão falar, com os dedos brutos<br />
Para falar, puxa e repuxa a língua,<br />
E não lhe vem à boca uma palavra!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>O MORCEGO</strong></p>
<p style="text-align: center;">Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.<br />
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:<br />
Na bruta ardência orgânica da sede,<br />
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.<br />
&#8220;Vou mandar levantar outra parede&#8230;&#8221;<br />
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho<br />
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,<br />
Circularmente sobre a minha rede!<br />
Pego de um pau. Esforços faço. Chego<br />
A tocá-lo. Minh&#8217;alma se concentra.<br />
Que ventre produziu tão feio parto?!<br />
A Consciência Humana é este morcego!<br />
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra<br />
Imperceptivelmente em nosso quarto!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>A ESPERANÇA</strong></p>
<p style="text-align: center;">A Esperança não murcha, ela não cansa,<br />
Também como ela não sucumbe a Crença.<br />
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,<br />
Voltam sonhos nas asas da Esperança.<br />
Muita gente infeliz assim não pensa;<br />
No entanto o mundo é uma ilusão completa,<br />
E não é a Esperança por sentença<br />
Este laço que ao mundo nos manieta?<br />
Mocidade, portanto, ergue o teu grito,<br />
Sirva-te a Crença de fanal bendito,<br />
Salve-te a glória no futuro &#8211; avança!<br />
E eu, que vivo atrelado ao desalento,<br />
Também espero o fim do meu tormento,<br />
Na voz da Morte a me bradar; descansa!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>AMOR E CRENÇA</strong></p>
<p style="text-align: center;">Sabes que é Deus? Esse infinito e santo<br />
Ser que preside e rege os outros seres,<br />
Que os encantos e a força dos poderes<br />
Reúne tudo em si, num só encanto?<br />
Esse mistério eterno e sacrossanto,<br />
Essa sublime adoração do crente,<br />
Esse manto de amor doce e clemente<br />
Que lava as dores e que enxuga o pranto?<br />
Ah! Se queres saber a sua grandeza<br />
Estende o teu olhar à Natureza,<br />
Fita a cúp&#8217;la do Céu santa e infinita!<br />
Deus é o Templo do Bem. Na altura imensa,<br />
O amor é a hóstia que bendiz a crença,<br />
Ama, pois, crê em Deus e&#8230; sê bendita!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>AMOR E RELIGIÃO</strong></p>
<p style="text-align: center;">Conheci-o: era um padre, um desses santos<br />
Sacerdotes da Fé de crença pura,<br />
Da sua fala na eternal doçura<br />
Falava o coração. Quantos, oh! Quantos<br />
Ouviram dele frases de candura<br />
Que d&#8217;infelizes enxugavam prantos!<br />
E como alegres não ficaram tantos<br />
Corações sem prazer e sem ventura!<br />
No entanto dizem que este padre amara.<br />
Morrera um dia desvairado, estulto,<br />
Su&#8217;alma livre para o céu se alara.<br />
E Deus lhe disse: &#8220;És duas vezes santo,<br />
Pois se da Religião fizeste culto,<br />
Foste do amor o mártir sacrossanto.&#8221;</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>SONETO</strong></p>
<p style="text-align: center;">A praça estava cheia. O condenado<br />
Transpunha nobremente o cadafalso,<br />
Puro do crime, isento de pecado,<br />
Vítima augusta de indelével falso.</p>
<p style="text-align: center;">E na atitude do Crucificado,<br />
O olhar azul pregado n&#8217;amplidão,<br />
Pude rever naquele desgraçado<br />
O drama lutuoso da Paixão.</p>
<p style="text-align: center;">Quando do algoz cruento o braço alçado<br />
Se dispunha a vibrar sem compaixão<br />
O golpe na cabeça do culpado</p>
<p style="text-align: center;">Ele, o algoz &#8211; o criminoso &#8211; então,<br />
Caiu na praça como fulminado<br />
A soluçar: perdão, perdão, perdão!</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>ARIANA</strong></p>
<p style="text-align: center;">Ela é o tipo perfeito da ariana.<br />
Branca, nevada, púbere, mimosa,<br />
A carne exuberante e capitosa<br />
Trescala a essência que de si dimana.</p>
<p style="text-align: center;">As níveas pomas do candor da rosa,<br />
Rendilhando-lhe o colo de sultana,<br />
Emergem da camisa cetinosa<br />
Entre as rendas sutis de filigrana.</p>
<p style="text-align: center;">Dorme talvez. Em flácido abandono<br />
Lembra formosa no seu casto sono<br />
A languidez dormente da indiana.</p>
<p style="text-align: center;">Enquanto o amante pálido, a seu lado,<br />
Medita, a fronte triste, o olhar velado,<br />
No Mistério da Carne Soberana.</p>
<p style="text-align: center;">______</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/27467/?franq=140868" target="_blank"><em>Eu e Outras Poesias</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Augusto_dos_Anjos" target="_blank"><strong>Augusto dos Anjos</strong></a></p>
</blockquote>

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		<title>&#8220;Grande Sert&#227;o: Veredas&#8221;: as p&#233;rolas de sabedoria de Riobaldo</title>
		<link>http://blogdo.yurivieira.com/2010/09/grande-sertao-veredas-sabedoria-riobaldo/</link>
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		<pubDate>Fri, 17 Sep 2010 19:10:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mujeres]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>

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<blockquote><p>«‘Que-Diga’? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!»</p>
<p>*</p>
<p>« Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão ‘encosto’.»</p>
<p>*</p>
<p>« Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.»</p>
<p>*</p>
<p>« O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…»</p>
<p>*</p>
<p>« O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que mata só para ver alguém fazer careta…»</p>
<p>*</p>
<p>« Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.»</p>
<p>*</p>
<p>« Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado.»</p>
<p>*</p>
<p>« Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.»</p>
<p>*</p>
<p>« Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não subtrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei!»</p>
<p>*</p>
<p>« E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro!»</p>
<p>*</p>
<p>« Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável.»</p>
<p>*</p>
<p>« Acho proseável.»</p>
<p>*</p>
<p>« Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até a hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: –‘Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…’ – ciente me respondeu.»</p>
<p>*</p>
<p>« Guerra diverte – o demo acha.»</p>
<p>*</p>
<p>« Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma!»</p>
<p>*</p>
<p>« Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dela a gente tudo vendo.»</p>
<p>*</p>
<p>« Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.»</p>
<p>*</p>
<p>« Viver é um descuido prosseguido.»</p>
<p>*</p>
<p>« Um homem consegue intrujar de tudo; só de ser inteligente e valente é que muito não pode.»</p>
<p>*</p>
<p>« Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!»</p>
<p>*</p>
<p>« O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão.»</p>
<p>*</p>
<p>« O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia.»</p>
<p>*</p>
<p>« Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.»</p>
<p>*</p>
<p>« Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada.»</p>
<p>*</p>
<p>« Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ontem amanhã: é sempre.»</p>
<p>*</p>
<p>« Não sabe que quem é mesmo inteirado valente, no coração, esse também não pode deixar de ser bom?!» (<em>Essa é do, da, ah, você sabe, da Diadorim.</em>)</p>
<p>*</p>
<p>« Nasci devagar. Sou é muito cauteloso.»</p>
<p>*</p>
<p>« O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.»</p>
<p>*</p>
<p>« O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.»</p>
<p>*</p>
<p>« (…) peguei saudade dos passarinhos de lá, do poço no córrego, do batido do monjolo dia e noite, da cozinha grande com fornalha acesa, dos cômodos sombrios da casa, dos currais adiante, da varanda de ver nuvens.» (<em>Esse trecho vai aqui apenas porque é a descrição exata da fazenda da </em><a href="http://blog.karaloka.net/2005/04/30/cu-do-capeta/" target="_blank"><em>minha avó</em></a>.)</p>
<p>*</p>
<p>« Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou-amigo-é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.»</p>
<p>*</p>
<p>« A natureza da gente é muito segundas-e-sábados.»</p>
<p>*</p>
<p>« Quanto pior mais baixo se caiu, maismente um carece próprio de se respeitar.»</p>
<p>*</p>
<p>« Medo de errar é a minha paciência.»</p>
<p>*</p>
<p>« Do escurão, tudo é mesmo possível.»</p>
<p>*</p>
<p>« (…) mulher que não ria – esse lenho seco.»</p>
<p>_________</p>
<p><em><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/31884/?franq=140868" target="_blank">Grande Sertão: Veredas</a></em>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Guimar%C3%A3es_Rosa" target="_blank">Guimarães Rosa</a>.</p></blockquote>

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		<title>A Loucura vangloria-se pela cria&#231;&#227;o da mulher (via Erasmo de Rotterdam)</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 11:26:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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<p><img title="Erasmo de Rotterdam" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: block; float: none; margin: 10px auto; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="265" alt="Erasmo de Rotterdam" src="http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2010/08/erasmo.jpg" width="197" border="0" /> </p>
<blockquote><p>« Mas, já é tempo de que, seguindo o exemplo de Homero, passemos, alternadamente, dos habitantes do céu aos da terra, onde nada se descobre de feliz e de alegre que não seja obra minha. </p>
<p>« Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta mãe produtora do gênero humano, dispôs que em coisa alguma faltasse o condimento da loucura. Segundo a definição dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a diferença entre ambas é pelo menos de um para vinte e quatro. Além disso, relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. Depois, ainda não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que está sozinha, duas fortíssimas paixões, que são como dois impetuosíssimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, centro das vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência, que estende o seu império desde a mais tenra juventude até à idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses dois tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. Prescreve os deveres da honestidade, grita contra os vícios a ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer; mas os vícios riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosamente do que ela, até que a pobre soberana, não tendo mais fôlego, é constrangida a ceder e a concordar com os seus rivais. </p>
<p>« De resto, tendo o homem nascido para o manejo e a administração dos negócios, era justo aumentar um pouco, para esse fim, a sua pequeníssima dose de razão, mas, querendo Júpiter prevenir melhor esse inconveniente, achou de me consultar a respeito, como, aliás, costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim: — Senhor, — disse-lhe eu — dê uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do mesmo. </p>
<p>« Quando Plutão pareceu hesitar se devia incluir a mulher no gênero dos animais racionais ou no dos brutos, não quis com isso significar que a mulher fosse um verdadeiro bicho, mas pretendeu, ao contrário, exprimir com essa dúvida a imensa dose de loucura do querido animal. Se, porventura, alguma mulher meter na cabeça a idéia de passar por sábia, só fará mostrar-se duplamente louca, procedendo mais ou menos como quem tentasse untar um boi, malgrado seu, com o mesmo óleo com que costumam ungir-se os atletas. Acreditai-me, pois, que todo aquele que, agindo contra a natureza, se cobre com o manto da virtude, ou afeta uma falsa inclinação, ou não faz senão multiplicar os próprios defeitos. E isso porque, segundo o provérbio dos gregos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura. Assim também, a mulher é sempre mulher, isto é, é sempre louca, seja qual for a máscara sob a qual se apresente. </p>
<p>« Não quero, todavia, acreditar jamais que o belo sexo seja tolo ao ponto de se aborrecer comigo pelo que eu lhe disse, pois também sou mulher, e sou a Loucura. Ao contrário, tenho a impressão de que nada pode honrar tanto as mulheres como o associá-las à minha glória, de forma que, se julgarem direito as coisas, espero que saibam agradecer-me o fato de eu as ter tornado mais felizes do que os homens. </p>
<p>« Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros tiranos. Sabereis de que provém aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela barba cerrada, que muitas vezes fazem parecer velho um homem que se ache ainda na flor dos anos? Eu vo-lo direi: provém do maldito vício da prudência, do qual são privadas as mulheres, que por isso conservam sempre a frescura da face, a sutileza da voz, a maciez da carne, parecendo não acabar nunca, para elas, a flor da juventude. Além disso, que outra preocupação têm as mulheres, a não ser a de proporcionar aos homens o maior prazer possível? Não será essa a única razão dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados, dos perfumes, das essências aromáticas, e tantos outros artifícios e modas sempre diferentes de vestir-se e disfarçar os defeitos, realçando a graça do rosto, dos olhos, da cor? Quereis prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres sobre os homens? Os homens tudo concedem às mulheres por causa da volúpia, e, por conseguinte, é só com a loucura que as mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais essa conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras que se fazem com as mulheres, quando se anseia por extinguir o fogo do amor.</p>
<p>« Já vos revelei, portanto, a fonte do primeiro e supremo prazer da vida. Concordo que alguns existam (sobretudo certos velhos mais bebedores que mulherengos) cujo supremo prazer seja a devassidão. Deixo indecisa a questão de saber se é possível um bom banquete sem mulheres. O que é certo é que mesa alguma nos pode agradar sem o condimento da loucura. E tanto isso é verdade que, quando nenhum dos convidados se julga maluco ou, pelo menos, não finge sê-lo, é pago um bobo, ou convidado um engraçado filante que, com suas piadas, suas brincadeiras, suas bobagens, expulse da mesa o silêncio e a melancolia.»</p>
<p>_____</p>
<p><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/179132/?franq=140868" target="_blank"><em>Elogio da Loucura</em></a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd%C3%A3o" target="_blank">Erasmo de Rotterdam</a> (1466-1536).</p>
</blockquote>

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		<title>Um singelo videoclipe: &#8220;Fuck Me, Ray Bradbury!&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Aug 2010 11:32:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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		<description><![CDATA[Algumas señoritas não têm a sorte de conhecer seu escritor predileto antes de ele ficar velhinho. Essa aí curte o Ray Bradbury, que completa este mês 90 anos de idade&#8230; (Esse videoclipe me lembra este post que publiquei em meu antigo blog, O Garganta de Fogo. ) &#8220;Fuck Me, Ray Bradbury!&#8221; (Letra e interpretação: Rachel Bloom) [...]
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<p>Algumas señoritas não têm a sorte de conhecer seu escritor predileto antes de ele ficar velhinho. Essa aí curte o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ray_Bradbury" target="_blank">Ray Bradbury</a>, que completa este mês 90 anos de idade&#8230;</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="500" height="306" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/e1IxOS4VzKM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0&amp;color1=0xe1600f&amp;color2=0xfebd01" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="500" height="306" src="http://www.youtube.com/v/e1IxOS4VzKM?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0&amp;color1=0xe1600f&amp;color2=0xfebd01" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>(Esse videoclipe me lembra <a title="Literatura não é rock" href="http://blog.karaloka.net/2006/02/10/literatura-nao-e-rock/" target="_blank">este post</a> que publiquei em meu antigo blog, <em>O Garganta de Fogo</em>. )</p>
<blockquote><p><strong><span id="more-944"></span><br />
&#8220;Fuck Me, Ray Bradbury!&#8221;</strong><br />
(Letra e interpretação: Rachel Bloom)</p>
<p>Steve called me up and said: &#8220;Wanna hang out tonight?<br />
We could see an indie film or just grab a bite.&#8221;<br />
I said: &#8220;Oh, Steve, you&#8217;re cute, but a movie&#8217;s not what I need.<br />
No offence, but I&#8217;d rather stay home and read.&#8221;</p>
<p>Fuck Me, Ray Bradbury<br />
The greatest Sci-Fi writer in history<br />
Oh Fuck Me, Ray Bradbury</p>
<p>Since I was twelve, I&#8217;ve been your number one fan<br />
Kiss me, you Illustrated Man.<br />
I&#8217;ll feed you grapes and Dandelion Wine,<br />
And we&#8217;ll read a little Fahrenheit 69.<br />
You&#8217;re a prolific author, Ray Bradbury (Spoken)</p>
<p>Come on baby, I&#8217;m down on one knee<br />
I carved our names on a Halloween Tree<br />
You write about earthlings going to Mars<br />
And I write about blowin&#8217; you in my car<br />
You won an Emmy Award for the screen play adaptation of Halloween Tree (Spoken)</p>
<p>Fuck Me, Ray Bradbury<br />
The greatest Sci-Fi writer in history<br />
Oh Fuck Me, (fuck me) Ray Bradbury</p>
<p>S is for Space, L is for love<br />
S is for Space, L is for lo-o-o-ove<br />
S is for Space, L is for love<br />
S is for Space, L is for lo-o-o-o-o-ove<br />
Houston, we have a throb-lem (Spoken)</p>
<p>Fuck Me, Ray Bradbury<br />
The greatest Sci-Fi writer in history<br />
Oh Fuck Me, (fuck me) Ray Bradbury</p>
<p>O-o-oh<br />
Fuck Me, Ray Bradbury (fuck me)<br />
The greatest Sci-Fi writer in history<br />
Cause when you fuck me<br />
Ray Bradbury</p>
<p>Something Wicked This Way Will Come<br />
Something Wicked This Way Will Come<br />
Something Wicked This Way Will Come<br />
Something Wicked This Way Will Come</p>
<p>And by come, I mean ejaculate on a book. (Spoken)</p></blockquote>
<p> Atualização de 11/09/2010: E não é que miss <a href="http://twitter.com/Racheldoesstuff" target="_blank">@Racheldoesstuff</a> realmente <a href="http://www.facebook.com/photo.php?pid=102885&#038;id=111614618892303" target="_blank">conseguiu se encontrar com Ray Bradbury</a>?</p>

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