Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Mujeres (Página 4 de 13)

Outro “causo” do Bruno Tolentino

tolentino

Às vezes me vêm à lembrança algumas conversas marcantes que tive com o poeta Bruno Tolentino. Ele tinha o costume de pilheriar no tom mais sério e, caso o interlocutor não percebesse o humor clandestino, seguia em frente, como se nada tivesse acontecido. Sempre com a ironia mais fina, inglesa. E era assim com qualquer um, uma espécie de teste instantâneo de QI para conversações: se a pessoa risse, ele aprofundava a conversa; se não risse, ele ficava no raso. Contudo, quando tinha maior confiança no interlocutor, quando já havia amizade, Bruno levava seu ferrão escorpiano direto ao alvo. E eu, escorpiano mirim, dava gargalhadas com suas tiradas. Sim, em geral porque revelavam a mim mesmo meus próprios pensamentos não verbalizados — como quando, certa feita, na Casa do Sol, conversamos sobre um escritor que conhecíamos pessoalmente, o qual o havia presenteado com seu livro de contos.
— E então, Bruno? — indaguei, curioso. — Você gostou do livro? Ele escreve bem?
— Você já viu a cara da mulher dele? — replicou de pronto, causando-me um sorriso prévio de quem tenta adivinhar o que vem em seguida.
— Claro que já. Por quê?
— O ar de bruxa doida… Os olhos vazios… Sempre descabelada… Aqueles gritinhos à guisa de risos… O jeito de se sentar com as pernas abertas, o tronco encurvado… Reparou?
Eu ria: — Aham.
— E você já conversou com ela, Yuri?
— Já. Por quê?
— É uma tortura! Uma mesmice sem fim, um monte de chavões e besteiras. A mulher é a frivolidade em pessoa. Os olhos dela só brilham quando alguém fala em dinheiro.
— A Hilda me disse a mesma coisa — e ri novamente.
— Pois é — e calou-se. Ficou lá, concentrado, retirando os livros duma caixa de papelão. Eu ainda aguardava a resposta à minha pergunta inicial e… e nada. Ele havia se esquecido dela.
— Bruno — observei, ao fim de um longo minuto — você acabou não me dizendo se ele escreve bem ou não.
Ele então me encarou e sorriu escorpianamente:
— E você acha, Yuri, que alguém que escolhe se casar com uma mulher dessas saberia escolher as palavras certas para formar sequer uma boa frase?
(Estou rindo de novo.)

Crescendo (curta-metragem)

Eis um excelente curta-metragem!

As Musas Olavettes

Musas Olavettes

No Facebook, foi lançada este ano uma página chamada Musas Olavettes. Sim, há mulheres lindas ali. (Já imaginou? Mulheres lindas, inteligentes e imunes a idiotas úteis? Pois é.) Até possuo um caminhão para semelhantes areias, mas ele está sem óleo diesel e eu moro longe, o que me torna, em comparação com outros homens, praticamente um rato. E gatas não dão atenção a ratos. Por isso, a única coisa que eu poderia oferecer a uma daquelas musas seria uma cantada (quase) irresistível.

Imagine a cena:

Ela estará sentada no balcão de um bar de hotel cinco estrelas, compenetrada, tomando um cappuccino enquanto lê O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Embevecido, tímido, mas me fazendo de abestalhado, eu me aproximarei e direi:

— Oi, baby — e lhe darei uma piscadela bem cafajeste.

Ela, claro, levantará uma única sobrancelha e me disparará um olhar de direita, fatal e congelante, sem mover a cabeça e sem emitir qualquer palavra. Em seguida, dará um discreto e belo suspiro de indiferença, voltando a encarar o livro e prosseguindo com a leitura. Conhecedor do meu trunfo, puxarei um banquinho e então me sentarei ao lado dela, pedindo um uísque ao barman, que obviamente me entregará a bebida com um sorriso de piedade. Aquela beldade, acreditará ele, é muito livro para minha estante.

— ¿Você não é amiga da Carolina? — perguntarei, voltando à carga.

— Não — responderá ela, num murmúrio cheio de enfado.

Eu voltarei ao silêncio, contemplando o exterior do hotel, o lindo jardim, as árvores, as palmeiras dançantes, os hóspedes que se refrescam à beira da piscina. Não deixarei o mote passar em branco.

— Você já conheceu a piscina?

Ela permanecerá muda, talvez concentrada, talvez irritada, mas plenamente decidida a me ignorar e a tomar conhecimento de coisas muito mais importantes.

Eu insistirei em puxar assunto:

— O hotel é muito chique, né. ¿Mas você notou que não tinha manteiga no café da manhã?

E ela nada, nem tchuns.

— Os caras só me trouxeram margarina — prosseguirei, com um esgar de nojo. — ¿Você sabe quais são os ingredientes da margarina?

Incapaz de conter-se, e dando vazão a seu agastamento, ela me dirá:

— Acho que você ainda não notou, mas… ¿você sabia que está me incomodando?

Vitorioso, darei meu sorriso másculo e irônico de Jim Carrey cheirado, e retrucarei:

— ¿E você sabia que Olavo de Carvalho fala de mim à página 320 do livro que você está lendo?

Ela arregalará os olhos cheia de espanto.

— Sim — continuarei — e ele nem está me detonando: está me elogiando! Verdade. E isso significa que, para você não ser uma idiota, baby, além da Carolina, da piscina e da margarina — e começarei a cantarolar —, você também precisa saber de mim! Baaaby! Baaaaby! Eu sei que é assim!! Baaaby! Baaaby! Há quanto tempo!! — E para arrematar a cantada, direi: — Veja aí meu nome, baby: página 320! E depois me mande um recado pela portaria, isto é, caso queira jantar comigo esta noite…

E, triunfante, sairei do bar, sem atentar para o fato de que será assim que conseguirei uma namorada brasileira para o João Pereira Coutinho, colunista da Folha de São Paulo, hospedado no mesmo hotel, e citado pelo Olavo no mesmo parágrafo do mesmíssimo artigo. E eu obviamente ficarei a ver navios… Mas, ora bolas, ¿que poderei fazer? Deus sabe que sou apenas um rato, um liteRato…

Direitomeu e Esquerdoleta

Enquanto isso, no centro acadêmico de História:
— Ei! Tira a mão de cima de mim, seu reaça!
— Calma, garota — e sorriu, confiante. — Sabia que eu tenho algo que é meio torto pra esquerda?
— Ah, é? E você sabia que eu sei dar um gancho de direita?
— Tá vendo? A política não é uma barreira. A gente também pode chegar a um consenso…
Minutos depois, no alojamento estudantil:
— E foi assim que eu consegui este olho roxo.
— Que maneiro — admirou-se o amigo.

O casal de náufragos

Shipwrecked Couple

J.R.R. Tolkien tem razão: neste mundo decaído, um homem e uma mulher devem amar-se, não como se fossem a “estrela guia” um do outro — porque afinal são ambos humanos, demasiado humanos —, mas, sim, como se fossem dois náufragos agarrados à mesma tábua numa noite escura.
Deus é que é a “estrela guia”. E sobreviver espiritualmente a esse naufrágio terrestre há de ser muito romântico… (Isso talvez explique o sucesso sem fronteiras do filme “Titanic”…)

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Imagem: O casal de náufragos, de Bohuslav Barlow.

Clarice Lispector: “Eu sei que Deus existe”

clarice lispector

« Macabéa [A hora da estrela], que, a exemplo de Clarice [Lispector], medita sobre o nada e “banha-se no não”, é uma espécie de santa: “Na pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou”. Macabéa “reduzira-se a si. Também eu”, escreve Clarice, “de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus”.

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?”

« A pergunta torturante persiste. “Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia”, Clarice escreveu sobre Macabéa. Mas finalmente ela própria sabia quem Ele era. Quando o livro saiu, em outubro de 1977, ela mandou um exemplar a Alceu Amoroso Lima, o mesmo escritor católico que, com o pseudônimo Tristão de Athayde, fizera um ensaio introdutório para a primeira edição de ‘O lustre’. Naquele livro, ele escrevera, 31 anos antes, “há a mais completa ausência de Deus”. Agora ele recebia um exemplar de ‘A hora da estrela’ com uma inscrição na caligrafia trêmula de Clarice: “Eu sei que Deus existe”. [Clarice morreu dois meses depois]»

Trecho da biografia Clarice, escrita por Benjamin Moser.

De quatro

de quatro

Quando ele a penetrou por trás, ela perguntou:

— Em quem você vai votar?

Ficou aturdido por alguns segundos, sem saber em qual cintura colocar as mãos: na própria ou na dela?

— Que pergunta é essa? — resmungou, contrariado. — Isso lá é hora de falar sobre as eleições?

— Você vai votar na Marina?

Ele brochou instantaneamente.

— Pelo amor de Deus, Sílvia! Isso é coisa que se faça? Acabou com meu tesão.

— Então você vai votar na Dilma, né.

— Puta merda! Agora vou precisar de uma pinça pra poder mijar.

— Nossa, desculpa.

— Desculpa, vírgula. Você teria me atrapalhado muito menos se tivesse falado da menina do Exorcista e virado a cabeça para trás.

— Ai, Jorge, credo! É que eu não sabia que você vai votar no Aécio.

— Eu não voto em progressista, gata! — soltou, irritado. — A não ser, talvez, no segundo turno, quando for necessário votar no menos daninho de todos. Agora pára com isso e me diz algo que me deixe animado de novo.

Ela ficou em silêncio, absorta. Desconfiado, Jorge espiou por cima do ombro dela.

— Ah, não! Não acredito que você está no Facebook! Desliga o celular, cazzo!

— Calma. Só vou responder essa enquete sobre as eleições e já desligo.

Ele se levantou e começou a vestir a cueca.

— Ok, fica aí. Eu vou dormir porque amanhã preciso acordar mais cedo.

Ele se deitou de lado, dando as costas para a esposa, que a essa altura estava postando uma mensagem no grupo feminino do WhatsApp do qual fazia parte: “Gente, se vocês têm um marido conservador que não lhes dá descanso, descobri um jeito de escapulir dele muito melhor do que a desculpa da dor de cabeça!”.

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