Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Mujeres (Página 6 de 13)

Van Creveld: O sexo oprimido

Calipso e Ulisses

Historiador diz que os discriminados
são os homens e que eles têm menos
direitos que as mulheres

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Diogo Schelp

O historiador israelense Martin Van Creveld, de 57 anos, está acostumado a tratar de questões polêmicas. Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em história militar, Van Creveld é chamado com freqüência para opinar sobre conflitos mundiais, como os que atingem seu país. Lecionou nos principais institutos de estratégia, civis ou militares, do mundo ocidental, incluindo a Escola de Guerra Naval dos Estados Unidos. Pesquisador respeitado, nos últimos anos Van Creveld tem se dedicado também a estudar outro tema explosivo: a guerra dos sexos. Em seu mais recente livro, O Sexo Privilegiado, publicado neste ano na Alemanha e recheado de estatísticas, ele defende que são os homens – não as mulheres – os verdadeiros oprimidos pela sociedade. Ph.D pela London School of Economics, da Inglaterra, e autor de dezessete livros, entre os quais obras de referência no meio acadêmico, como O Futuro das Guerras e As Mulheres e a Guerra, Van Creveld faz questão de dizer que é casado e vive muito feliz com sua esposa. Na entrevista a seguir, ele explica sua teoria antifeminista.

Veja – O senhor é conhecido como historiador militar. Como se interessou pelo tema da discriminação contra os homens?
Van Creveld – 
Tudo começou alguns anos atrás, quando escrevi um livro sobre as mulheres e as guerras. Achei esse tema tão interessante que decidi fazer outro livro sobre o assunto. Como todo mundo, eu achava que os homens realmente oprimiam as mulheres e queria descobrir como era possível que essa situação pudesse persistir por milênios. Só depois de meses de pesquisa descobri que as evidências não davam suporte a minha tese e que, na realidade, são as mulheres o verdadeiro sexo privilegiado.

Veja – E por que isso acontece?
Van Creveld – 
Simples. Os homens não podem existir sem as mulheres. Já as mulheres, enquanto houver um único doador de sêmen, podem existir perfeitamente sem os homens. Essa condição natural condenou o sexo masculino a trabalhar mais pesado para sustentar o sexo feminino. Também teve como resultado o fato de que os homens são tratados com mais rigidez na educação infantil e perante a Justiça, além de estarem sempre prontos a morrer pelas mulheres em tempos de guerra ou de paz.

Veja – Por outro lado, no passado as mulheres eram condenadas a ficar em casa, não tinham a opção de trabalhar. Em muitas sociedades, isso ainda acontece. Tal fato não prova que as mulheres é que são oprimidas pelo homem?
Van Creveld –
 Não. Salvo raríssimos casos, o homem também não pode escolher se vai trabalhar ou não. Trabalhar, para o homem, é obrigação. Segundo a Bíblia, o trabalho foi um castigo dado para Adão, não para Eva. Além disso, as donas-de-casa são privilegiadas. De todos os grupos da população, elas são as que detêm a maior segurança e tempo disponível para dedicar a si próprias. Mesmo nas sociedades modernas, em que as mulheres já estão espalhadas no mercado de trabalho, as funções mais pesadas e sujas são realizadas por homens. Nos Estados Unidos, 93% dos mortos em acidentes de trabalho são homens. Isso ajuda a explicar outro indício de que as mulheres são privilegiadas: os homens vivem, em média, menos que elas. Por fim, poucas mulheres estão dispostas a sustentar o companheiro. Nos Estados Unidos, apenas 10% das mulheres ganham mais que o marido, e as estatísticas mostram que o índice de divórcio nesses casos é muito alto.

Veja – E quanto às mulheres terem garantido o direito ao voto apenas recentemente?
Van Creveld – 
As mulheres são, em média, menos criativas. Isso explica por que são os homens os responsáveis por praticamente todas as grandes invenções, descobertas e inovações humanas. Os homens quase sempre iniciam algo; as mulheres quase sempre os imitam. Os homens inventaram o impressionismo e, depois, uma ou duas pintoras os imitaram. Os homens construíram e dirigiram carros, depois as mulheres quiseram dirigir também. Os homens inventaram os computadores e as mulheres aprenderam a usá-los. Os homens lutaram para ter direito ao voto. As mulheres ficaram com inveja e fizeram a mesma reivindicação.

Veja – Se as mulheres é que sempre concentraram os privilégios, por que elas lutam, através do feminismo, para mudar sua situação?
Van Creveld –
 Como os homens, elas também querem ter mais privilégios. Como são, em média, mais fracas fisicamente que os homens, sua estratégia preferida para fazer isso é reclamar. Isso significa que, se todos os homens fossem enjaulados e todas as mulheres fossem declaradas donas de cada homem, elas continuariam reclamando. Para elas, reclamar funciona. Desde criança elas são criadas para acreditar nisso. Quando um garoto chora, ele é desprezado. Já as meninas, quando choram, são consoladas. O que é o feminismo se não uma eterna lamentação?

Veja – O senhor acredita que no mundo moderno as mulheres são ainda mais privilegiadas que no passado?
Van Creveld – 
Em meu livro eu mostro que a sociedade sempre fez a vida dos homens ser mais difícil que a das mulheres. Desde o início dos tempos os homens foram criados para produzir e dar e as mulheres sempre para receber e reproduzir. Os homens sempre tentaram dar à companheira uma vida mais fácil, mais segura e mais confortável. Recentemente, o feminismo ajudou as mulheres a ter privilégios adicionais. Portanto, elas são, realmente, ainda mais privilegiadas que no passado e os homens, ainda mais oprimidos.

Veja – Em tempo de guerra, crianças e mulheres formam a parcela da população que mais sofre. É verdade?
Van Creveld – 
Não. Em quase todas as formas de conflito armado os homens morrem em muito maior número que as mulheres. Há outras formas de sofrimento, mas eu não acredito que alguma possa ser pior do que morrer. A impressão de que as mulheres sofrem mais vem do fato de que os mortos (os homens), ao contrário dos vivos (as mulheres), não podem reclamar.

Veja – Os homens concentram mais riqueza e poder que as mulheres. Isso o senhor não contesta?
Van Creveld –
 Não. Mas isso não serve de prova de discriminação contra as mulheres. Sabe-se que, por liberarem mais testosterona, os homens são mais agressivos e portanto mais competitivos que as mulheres. São também mais fortes fisicamente, o que permite que exerçam funções de liderança com menos esforço. Além disso, eles abandonam com menos freqüência uma carreira; as mulheres costumam sair do mercado de trabalho para satisfazer seu desejo de ter filhos e criá-los. Para completar, os estudos mostram que, se na média homens e mulheres são igualmente inteligentes, no grupo de pessoas com QI mais elevado, acima de 180, a proporção é de sete homens para cada mulher. Tudo isso explica por que os homens tendem a ocupar mais cargos de chefia e a ter mais facilidade para ganhar dinheiro.

Veja – Em sua vida pessoal, o senhor também se sente discriminado?
Van Creveld – 
Como homem, eu sou constantemente discriminado em todas as formas de benefícios sociais. Por exemplo, minha esposa tem direito à licença-maternidade, eu não. O plano de saúde de minha universidade é mais benevolente na cobertura de doenças femininas, como o câncer de mama, que de doenças masculinas, como o câncer de próstata. Além disso, em Israel, como em muitos outros países, existe a crença de que as mulheres amam seus filhos mais do que os pais são capazes de amar. Não existe nada que prove que isso é verdade. No entanto, as leis tornam praticamente impossível para um pai divorciado obter a custódia dos filhos. Eu passei por um divórcio. A dor de não ter conseguido a guarda de meus filhos vai me acompanhar até meu último dia de vida.

Veja – As feministas têm um arsenal de estatísticas para provar que são oprimidas. Elas apontam, por exemplo, o fato de que, em alguns países, todo dia 6.000 meninas sofrem dolorosas cirurgias nos órgãos genitais para não ter mais prazer com o sexo.
Van Creveld –
 A clitoridectomia, como é chamada essa operação, é algo que velhas mulheres, agindo como suas ancestrais, impõem a jovens mulheres. Os homens dificilmente estão envolvidos nisso. Além disso, simplesmente não é verdade que a operação priva a mulher de prazer no sexo. Na maioria dos casos, isso não acontece. É um mito. Não esqueça também que o número de garotas que passam por isso não se compara ao número de garotos que passam pelo processo de circuncisão. Por que ninguém se levanta contra esse hábito? A resposta é simples: nós, homens, somos feitos para aceitar a dor.

Veja – No passado, as mulheres não eram mandadas para a guerra. Agora, vemos cada vez com mais freqüência garotas cometendo ataques suicidas em Israel e na Rússia, por exemplo. As mulheres perderam o privilégio de ser defendidas em tempo de guerra?
Van Creveld – 
A resposta está na palavra “mandadas”. No passado, e em muitos países até hoje em dia, um número incontável de homens é recrutado e “mandado” para a guerra. Isso nunca aconteceu com as mulheres. Mesmo em Israel, as poucas combatentes mulheres que temos são voluntárias. O mesmo acontece com as palestinas suicidas. Como em muitos outros terrenos da vida, as mulheres têm o direito de escolher, enquanto os homens têm de agir contra a vontade própria.

Veja – As feministas dizem que as mulheres são mais diplomáticas e menos violentas quando estão em funções de liderança ou que requeiram o uso da força. Nesse sentido, é interessante ter mulheres em corporações como a polícia e as Forças Armadas?
Van Creveld – 
Os machos são, em média, mais violentos que as fêmeas. Mas a história mostra que as líderes femininas estão fora do padrão médio das mulheres. Lembre-se de Indira Gandhi e Margaret Thatcher. Elas eram tão agressivas e belicosas quantos os homens, ou até mais. Mulheres que escolhem atuar na polícia, por exemplo, talvez tenham a mesma característica. Por outro lado, o corpo feminino é muito menos adequado para se envolver em situações de violência. No Exército americano, as recrutas têm só 55% de força na parte superior do corpo e 72% na parte inferior, em comparação aos homens. Ou seja, como os homens possuem maior capacidade de ganhar musculatura, em vez de o treinamento intensivo diminuir as diferenças entre os sexos, tende a aumentá-las ainda mais.

Veja – As mulheres, por questões físicas, são mais propensas a ser vítimas de abuso sexual que os homens. As feministas dizem que todo homem é um estuprador em potencial. O que o senhor acha disso?
Van Creveld – 
As mulheres, talvez por passarem mais tempo com os filhos, matam mais crianças que os homens. Alguém diz que toda mulher é uma assassina de crianças em potencial?

Veja – As estatísticas sobre agressões contra mulheres não colaboram com as teses feministas?
Van Creveld –
 Não as estatísticas que eu cito em meu livro. Pesquisas americanas e canadenses mostram que o número de agressões entre homens e mulheres é igual, 25% para cada sexo. Nos outros 50% dos casos, os ataques são mútuos. Além disso, 20% mais mulheres cometem danos graves aos seus parceiros. Mais: as mulheres cometem três vezes mais agressões com uso de armas do que os homens. Por fim, os homens, com medo de serem ridicularizados ou presos, costumam não dar queixa quando apanham de uma mulher.

Veja – A Justiça é mais branda com as mulheres?
Van Creveld – 
Sem dúvida. Em todas as sociedades modernas, as mulheres recebem menos condenações que os homens. E, quando são condenadas, cumprem penas menores do que outros homens que cometeram o mesmo crime. Na Inglaterra, entre 1984 e 1992, 23% das mulheres acusadas de homicídio foram absolvidas, enquanto apenas 4% dos homens foram considerados inocentes. Na Califórnia, nos Estados Unidos, em todo o século XX foram condenados à morte 468 criminosos. Apenas quatro eram do sexo feminino.

Veja – A discriminação contra o homem, da forma como o senhor a descreve, é um fato inalterável da natureza?
Van Creveld – 
Em muitos países, já existem movimentos para melhorar as condições de vida dos homens. Seu propósito é defender o sexo forte nas situações em que há mais discriminação, como nos divórcios e nas falsas acusações de abuso sexual ou de violência doméstica. Mas as coisas não tendem a mudar muito. O homem, como diz o provérbio árabe, é o jumento da casa. A natureza nos fez maiores, mais fortes e, nos casos extremos, até mais inteligentes. Tudo para sustentar e alimentar as mulheres. Afinal, antes disso uma mulher – nossa mãe – também nos carregou, nos alimentou e cuidou de nós.

Fonte: VejaEdição 1822, de 1° de outubro de 2003.

Camille Paglia: “Nós sufocamos os homens”

Camille Paglia

As mulheres ganharam. Ou, pelo menos, a maneira feminina de encarar o mundo vem levando a melhor – e isso não é necessariamente bom, diz Camille Paglia. Para ela, a valorização das características associadas às mulheres emparedou os homens e fez com que certas virtudes masculinas caíssem perigosamente em desuso. Em entrevista a Veja [5/3/2014], a autora de Personas Sexuais mostra que, aos 66 anos, continua sendo uma fervorosa dissidente do feminismo ortodoxo dos anos 60. Segundo ela, ao priorizarem o sucesso profissional, as mulheres da sua geração deram “de cara com a parede” – e em breve verão que as felizes de verdade não são as ricas e bem-sucedidas, mas as que, em vez de correr atrás do sucesso, se dedicaram a construir grandes famílias.

As mulheres venceram? 

Nosso mundo político e econômico certamente não é regido pelas mulheres. Os homens ainda são maioria, talvez porque seja mais fácil para eles trabalhar harmoniosamente em equipe. As mulheres, porém, reinam nos domínios emocional e psicológico. Valores femininos como cooperação, sensibilidade e compromisso hoje são promovidos em todas as escolas públicas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Fico preocupada com isso. Não é responsabilidade escolar moldar ou influenciar o caráter dos alunos. Então, sim, há uma vitória feminina no sistema de educação, e é por isso que tantos meninos se sentem sufocados ou presos nesse ambiente governado por mulheres.

Essa constatação veio da sua experiência de ser mãe de um menino? (Camille adotou Lucien, hoje com 11 anos) 

A maternidade apenas confirmou minhas opiniões. Nos meus trabalhos, sempre parti de uma observação social, e não de teorias criadas a priori. Ser mãe me permitiu outras descobertas, entre elas a existência de uma rede de mulheres com enorme poder de organização e capacidade de administrar o próprio tempo.

Mas os homens estão mais frágeis? 

A masculinidade tradicional está numa encruzilhada. O que os homens podem ser? Como eles podem se diferenciar das mulheres? Alguns não veem problema em receber ordens delas. Mas, para outros, é como se a masculinidade tivesse sido apagada, como se eles tivessem perdido sua posição dentro da família. Sentem-se sufocados e precisam estar com outros homens. Aí entram a pornografia, os clubes de strip-tease, os esportes: é quando os homens escapam para o mundo deles. Chutar uma bola no meio do campo é muito revigorante e bom para escapar das mulheres.

Em outras palavras, elas fazem com que eles se sintam errados o tempo todo? 

Sim! Em uma palavra: sim! Houve um tempo em que homens faziam coisas que as mulheres não podiam fazer. Então, ninguém questionava se eles “eram homens” ou não. Eu lembro que, em casa, depois do jantar, os homens ficavam na sala, falavam de carro, assistiam a algum esporte na TV. Enquanto isso, as mulheres conversavam arrumando a cozinha. Hoje, elas querem que o homem seja igual à mulher. Querem falar com ele do mesmo jeito que conversam com as amigas. Isso é com os gays! Os gays conversam por horas, fofocam, falam sobre a vida pessoal… Os héteros não. Eles não querem aprofundar-se nos sentimentos. Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim. Quando nasce uma criança, então, o homem é marginalizado. Pode escolher entre escapar de casa e ser apenas mais um dos planetas orbitando ao redor do “Sol”. Famílias de classe média são basicamente ambientes femininos. Tudo é bom e gentil, e os homens têm de mudar seu comportamento para se encaixar nelas. As mulheres pedem a eles que sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais. “Ah, meu marido é meu terceiro filho, é meu bebê.” Ouvimos isso o tempo todo. O problema número 1 é que as mulheres não estão receptivas aos homens. Elas precisam ouvi-los. O feminismo é duro demais com eles.

Ao longo do tempo, as mulheres incorporaram alguns atributos masculinos. Diz-se frequentemente que agora é hora de eles incorporarem atributos femininos. A senhora não concorda? 

Não. No que diz respeito aos governos ocidentais, por exemplo, a tendência é agirem no estilo “estado-babá”, cheios de complacência e cuidados, atributos associados ao universo femininos. Só que isto está incapacitando as nações de ficar seriamente em alerta contra as ameaças de terrorismo, por exemplo. As sociedades ocidentais são ingênuas e complacentes ao imaginar que todo mundo é naturalmente benevolente. Várias grandes civilizações entraram em colapso por se apresentar vulneráveis. A compaixão e a sensibilidade femininas são virtudes positivas, mas as maiores conquistas nas áreas de cultura e tecnologia ainda requerem certos traços masculinos, bem como planejar a defesa de uma sociedade sob ameaça de ataque.

Essa “lacuna” explicaria o fato de existirem poucas mulheres no poder? 

O líder de uma nação tem de ter diferentes atributos. Precisa saber compor, comandar, controlar os nervos – precisa combinar qualidades masculinas e femininas. Falta às mulheres uma educação voltada a desenvolver visões de longo prazo, capacidade de decisão, pensamento militar. Essa história de ser carinhosa e ter compaixão já está resolvida – vamos parar de falar disso. O que não é valorizado como deveria é a capacidade de decisão. E, do jeito que as mulheres são educadas, não vejo como essa mudança pode acontecer. Por exemplo: liderar uma nação significa cuidar também de suas questões militares. Isso requer um tipo de personalidade firme e assertiva. Por isso, em vez de estudarem questões de gênero, as mulheres que querem ascender politicamente deveriam estudar história militar e economia. Não é fixando proporções – “as mulheres têm de representar 50% dos legisladores” – que produziremos lideranças. O Brasil não tem a mesma obsessão pela questão militar que os Estados Unidos, por isso vocês têm uma mulher presidente.

Como a senhora avalia uma eventual candidatura de Hillary Clinton à Presidência em 2016? 

Hillary Clinton é completamente incompetente. Em tudo o que fez, não teve êxito. Seu currículo segue em branco, sem nenhuma grande conquista, exceto ter se casado com Bill Clinton. É incrível como temos poucas candidatas. Sempre achei que a senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, deveria ter tentado concorrer à Presidência, e não Hillary Clinton. O que precisamos aprender é como exercer a liderança e nos comunicar com as pessoas sem que nos sintamos diminuídas, da maneira como a Hillary Clinton faz. Ela é estridente, irritante, sempre sorrindo, sorrindo, sorrindo. E é mal-humorada, tola – o oposto do que queremos de um líder. Continuar a impulsioná-la vai atrasar a evolução feminina em décadas.

Quais as perspectivas femininas para as próximas décadas? 

Eu vejo um mundo muito instável à frente, tanto política quanto economicamente. Acho que essa maneira de encarar as coisas baseada em gêneros está errada. É como se as mulheres tivessem respostas para tudo. E, se não estão felizes, a culpa é dos homens. Temos de olhar para a natureza da vida moderna, para o nosso isolamento psicológico, para essa quebra da família tradicional, transformada em pequenos núcleos. Tudo isso resulta em ansiedade. As mulheres sentem que têm de ser essas pessoas bem-sucedidas, tudo na vida delas tem de estar relacionado com o poder feminino, com “encarar obstáculos”. É um modo de vida muito estressante.

E ainda há a questão não resolvida de como conciliar carreira e vida pessoal. Por que isso continua a ser um sofrimento? 

O feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina às conquistas profissionais. Uma coisa é exigir que se retirem as barreiras para o avanço social das mulheres e que se ofereçam a elas oportunidades, promoções, salários etc. Outra é supor que essas conquistas suprirão as demandas da vida pessoal – não suprirão. Questões pessoais são de uma natureza diferente das profissionais: têm a ver com sexo, procriação e viver a vida. Essas feministas anglo-americanas dos anos 60 têm uma visão mecânica do que é viver. Há ainda um grande problema com o sistema de carreira moderno. O modo de progredir profissionalmente faz com que seja difícil para elas lidar com os homens em pé de igualdade. A mulher precisa ter uma vida dupla: ser ambiciosa e dominadora no escritório, mas adaptar-se em casa para ser sexualmente desejada e emocionalmente carinhosa. Minha prioridade sempre foi esta: temos de parar de culpar os homens e começar a olhar o sistema e as mudanças ocorridas no trabalho e nos lares no último século.

Quais seriam as transformações mais significativas? 

Uma das que mais merecem atenção é o isolamento feminino. As pessoas amam ter privacidade, ter sua própria casa. O resultado disso é uma quantidade tremenda de trabalho doméstico que recai sobre as mulheres e do qual elas têm de dar conta sem a ajuda de outras mulheres. Não muito tempo atrás, as pessoas viviam em uma espécie de tribo, em que umas olhavam pelas outras. Minha mãe se lembra disso em sua infância na Itália. As mulheres reuniam-se, pegavam suas crianças e iam lavar roupa nas pedras. Havia uma comunidade de mulheres, uma vida social construída a partir dessas atividades. Hoje estamos muito felizes com as nossas máquinas de lavar e secar, mas o que isso significa? Isolamento total! A mulher está isolada, desconectada do mundo feminino. Quando você é parte de um grupo, você sabe quem você é, não precisa ir descobrir.

Recentemente, a senhora foi criticada por declarar que as mulheres deveriam pensar melhor no que vestem para não ficar tão vulneráveis. O que quis dizer? 

Eu apoio totalmente as mulheres que se vestem de maneira sexy. Mas quem faz isso tem de compreender que sinais está enviando. Quando disse isso, estava me referindo às garotas americanas brancas de classe alta, que frequentaram as melhores universidades e terão os melhores empregos. Elas usam roupas sexy, mas seu corpo está morto, sua mente está morta. Elas nem entendem o que estão vestindo.

Por que esse diagnóstico se restringe às americanas? 

Mulheres na Itália, França, Espanha, Brasil e outros países da América do Sul comunicam melhor sua sexualidade, estão mais confortáveis com seu corpo. Afro-americanas também sabem fazer isso. Mas as mulheres americanas brancas que estão cursando as melhores universidades… oh! Bom, você deve se lembrar de Sexy and the City. Elas são espertas e ambiciosas, mas vivem uma situação em que fazem sexo com uma incrível quantidade de homens e de repente é o homem quem escolhe com quem vai ficar e quando é a hora de casar. E, quando resolvem casar, querem as de 20 anos. É muito difícil. Antigamente não se fazia sexo antes de casar. Mas hoje… as mulheres são tediosas.

Tediosas? 

Quando eu vou a Nova York vejo essas mulheres nas ruas: bem cuidadas, lindas, bem-sucedidas, graduadas em Harvard, Yale e… tediosas! Te-di-o-sas. Não têm nenhuma mística erótica. Acho que o número de homens gays vem aumentando porque os homens são mais interessantes do que as mulheres.

Onde elas deveriam buscar a felicidade? 

Bem, achar que as mulheres profissionalmente bem-sucedidas são o ponto máximo da raça humana é ridículo. Vejo tantas delas sem filhos porque acreditaram que podiam ter tudo: ser bem-sucedidas e mães aos 40 anos. Minha geração inteira deu de cara com a parede. Quando chegarmos aos 70, 80 anos, acredito que a felicidade não estará com as ricas e poderosas, mas com as mulheres de classe média que conseguiram produzir grandes famílias.

Fonte: Veja – edição 2363.

Dez anos sem Hilda Hilst

Hilda Hilst faleceu há exatos dez anos (!!). Por isso, em sua homenagem, segue abaixo o início de um texto — que publicarei oportunamente com a coletânea O Exorcista na Casa do Sol — sobre algumas de minhas experiências na Casa do Sol, residência da escritora, onde morei de 1998 a 2000.

Yuri Vieira e Hilda Hilst, na Casa do Sol, 1999.
Yuri Vieira e Hilda Hilst na Casa do Sol, 1999.

A melhor das casas possíveis

Era um domingo qualquer de 1999 e, mesmo assim, eu não podia me dar ao luxo de dormir até tarde. Obviamente vontade não faltava; mas uma das minhas obrigações era estar de pé, todos os dias sem exceção, antes das oito da manhã. Não podia faltar às charlas matutinas no escritório da poeta Hilda Hilst – sempre muito divertidas, instrutivas, memoráveis e… tacitamente obrigatórias. Eu não era um hóspede com estadia previamente programada, no entanto, ao contrário de um mordomo ou de um jardineiro, tampouco tinha vínculo profissional. Tinha casa e comida – mas lavava minha própria roupa. Éramos amigos, de início, tanto quanto o são uma professora e seu aluno; mas nossa amizade se estreitaria e se aprofundaria no transcurso dos meses. Sim, no dia a dia, eu fazia as vezes de secretário e webmaster, mas era sempre apresentado pela poeta como seu “amigo Yuri, jovem escritor”. Em suma, estava ali para ajudá-la com o necessário – pagar contas, fazer compras, representá-la nas reuniões de condomínio, atender aos telefonemas, manter a correspondência em dia, controlar a agenda, manter o site atualizado, etc. – e, em troca, estudar e aprender o ofício. E o necessário costuma madrugar, como se sabe. Mas que eu sentia falta de dormir até tarde aos domingos, ah, isso eu sentia. Às vezes, eu até conseguia disfarçar um pouco: acordava às sete da manhã, chamava o ramal do escritório – no qual Hilda já se encontrava desde as seis –, interpretávamos mutuamente nossos sonhos noturnos, e depois… bem, depois, sem que ela soubesse, e ao contrário dos dias comuns, voltava a dormir outra meia hora, como se estivesse a alongar minha ida ao banheiro. Isso, claro, acabava encurtando o prazo real da minha toalete, mas, dependendo da densidade da preguiça, ou da ressaca de sábado, valia a pena.

“Ah, só mais dois minutinhos…”, e tornava a ressonar sob as cobertas.

Felizmente, naquele mês o escritor José Luis Mora Fuentes voltara à Casa do Sol para passar conosco uma curta temporada. Amigo de Hilda desde os anos sessenta, ele sabia como lidar com suas idiossincrasias melhor do que ninguém. Ele não a via como um monstro sagrado das letras ou como uma outsider eivada de misantropia, mas, sim, como uma amiga genial e geniosa. Sentia-se, pois, à vontade para dobrá-la com aquela irreverência que costumamos reservar apenas aos velhos camaradas. Quando ele chegava muito tarde ao escritório e ela, irritada, começava a lhe pregar um sermão, Mora Fuentes suspirava:

“Tá, Hilda, me dá uma suspensão, me manda pra madre superiora…” e, na maior fleuma, acendia um cigarro.

Ao perceber a inutilidade de exigir que um homem de quase cinqüenta anos de idade levantasse cedo num domingo, Hilda sorria, acrescentava alguma pilhéria — “Mas, Zé, eu é que sou a madre superiora deste lupanar… digo, deste lugar!” — e esquecia o assunto. Portanto, a chegada de Mora Fuentes à chácara contribuiu enormemente para me converter de aluno em amigo de fato. Até então — eu estava ali desde Setembro de 1998 — vinha levando minha relação com Hilda de um modo excessivamente tímido, formal. E, do ponto de vista da preguiça domingueira, estava na cara que a nova situação me beneficiaria mais do que a ninguém, afinal, se naquele domingo eu chegasse ao escritório por volta das dez, já estaria de bom tamanho, simplesmente porque estaria acordando antes do Zé Mora Fuentes. Ou seja, por contraste, ele também me ajudaria a evitar outro sermão semelhante ao que recebi, no ano anterior, na primeira vez em que dormi (e acordei tarde) na Casa do Sol. Sermão este cujo remake eu tentava evitar a todo custo, com disciplina militar e madrugadeira. E olha que naquela primeira ocasião, além do fato de ter sido um domingo frio e chuvoso, havia outra boa desculpa para ficar na cama: estava com minha então namorada…

Contudo, naquele domingo de 1999, fui despertado por batidas secas à porta do quarto. Pelo jeito, meu plano de testar a paciência dominical de Hilda não daria certo. Mal passava das oito da manhã e Mora Fuentes já estava de pé. Parecia muito preocupado.

“Desculpa te acordar, Yuri. É que tô achando que fiz uma besteira enorme.”

“Puts, o que aconteceu?”, resmunguei, esfregando os olhos.

Ele sorriu com um ar desanimado: “Ainda não rolou nada, mas vai rolar”.

“Como assim, Zé?”, e tentei encará-lo através da minha miopia sem óculos.

Mora Fuentes entrou no quarto, puxou a pesada cadeira de cedro e se sentou de costas para meu computador.

“Lembra do que te falei, de a gente tentar fazer a Casa do Sol reviver seus melhores dias, de fazer a Hilda voltar a se animar e até a, quem sabe, escrever?”

“Claro.”

“Então. Ontem um cara telefonou pra cá, disse que não vê a Hilda faz quase vinte anos, que tem saudade dela, da Casa e assim por diante. Disse que se chama Candide e eu me lembrei do nome. Sabia que ele realmente tinha nos visitado nos anos setenta, na época em que eu também morava aqui.”

“Hum.”

“Pois é, ontem me lembrei do nome, mas não tinha me lembrado da pessoa. Devo ter ficado com o cérebro entupido pelo personagem do Voltaire. Só agora, num relance, meio acordado meio sonhando, ainda deitado, me lembrei quem é o cara. Quase caí da cama.”

Eu ri: “Não vai me dizer que é um assassino psicopata…”

“Acho que falta bem pouco pra isso”, respondeu Mora Fuentes, em meio a um sorriso nervoso. “A questão é que, na última vez em que esse Candide esteve aqui, a Hilda o expulsou. O cara é completamente doido, pirado mesmo, Yuri. Ele conseguiu quebrar toda a harmonia da casa, deixava todo mundo irritado, tenso. Queria dar palpite em tudo, se intrometia em tudo e — o pior — achava que estava ajudando… Quando ele chegou, todo mundo estava ótimo; quando ele saiu, havia conflito sobre conflito, treta em cima de treta, todos os nervos em frangalhos… O Dante, que era o fortão da Casa, chegou a pegá-lo pelos fundos da calça e pela gola da camisa, e o atirou lá no meio do jardim. Entende? Do mesmo jeito que fazem esses leões-de-chácara nos night clubs hollywoodianos…”

“Caramba.”

“Agora não sei o que fazer.”

“Uê, Zé; é só não atender mais aos telefonemas dele.”

Mora Fuentes coçou a cabeça, suspirou: “O problema é que, com essa idéia de reviver os bons anos da Casa, pensei que ele realmente fosse um amigo antigo da Hilda e o convidei a vir aqui hoje. Ele ficou de fazer o almoço, Yuri”.

“Liga pra ele e cancela.”

“Já liguei e a pessoa que atendeu disse que ele já tinha saído, que está vindo de bicicleta.”

“Ai-ai-ai…”, resmunguei, já sentindo o dia que teríamos de enfrentar. “E a Hilda? O que ela disse?”

“Vou falar com ela agora. Quis te avisar antes pra você já se levantar e ficar esperto. Ele mora perto da UNICAMP, já deve estar chegando. Conforme for, teremos de unir nossas magrezas e jogá-lo juntos lá no meio do jardim”, e riu.

“Beleza, Zé. Vou reunir a tropa.”

Mora Fuentes saiu pelo átrio em direção ao escritório de Hilda. Quanto a mim, depois de me espreguiçar mortalmente por um ou dois minutos, fui ao banheiro. Nunca estou plenamente desperto antes dum banho. E ali, sob o chuveiro quente, fiquei me lembrando das inúmeras histórias de malucos atraídos pela lendária Casa do Sol. Hilda me contara vários casos, assim como seu ex-marido, Dante Casarini, o próprio Mora Fuentes e também J. Toledo, outro grande amigo dela. Todos tinham mil anedotas bizarras para narrar — personagens malucos a dar com o pau. E isso incluía não apenas visitantes ocasionais já conhecidos, como certos ex-namorados, mas até mesmo pseudo-gurus, leitores fanáticos, artistas surtados, caseiros birutas, cozinheiras hipocondríacas, faxineiras cleptomaníacas… um leque sem fim de gente desprovida de parafuso. Se Hilda tivesse vivido além de 2004, seu hipotético perfil no Orkut certamente teria participado da comunidade “Eu atraio loucos!”.

Houve, por exemplo, um caseiro muito mal encarado que respondia a tudo com monossílabos cavernosos e grunhidos gulturais. Quando ele cometia algum erro no trabalho, e alguém lhe chamava a atenção, seus monossílabos tornavam-se díssilabos, mas emitidos num tom ainda mais sinistro e imperscrutável, provavelmente envolvendo ameaças e imprecações. Ninguém nunca o entendia direito. O corolário disso é que ele acabava fazendo o que lhe dava na telha, já que as cabeças dos patrões, desorientadas e constrangidas por seus resmungos, costumavam se mover afirmativamente diante de suas propostas ininteligíveis, o que ele acabava interpretando como anuências voluntárias. Mas isso não durou muito. A certa altura, durante sua estada na Casa do Sol, cães começaram a desaparecer misteriosamente. E, é claro, todos sabiam que mexer com os cães da Hilda era o mesmo que mexer com ela. Assim, num final de semana em que esse caseiro fora visitar alguém em Campinas — aparentemente num puteiro —, Hilda instigou Dante e Mora Fuentes a entrar na casinha dele. Como tinham uma cópia da chave, foram revistá-la. Encontraram uma impressionante coleção de armas brancas: navalhas, punhais, adagas, facas de combate à la Rambo, espadas, espadins e por aí vai. E o pior: algumas tinham manchas de sangue! Ficaram chocados com a descoberta e Hilda, claro, apavorada. Colocaram tudo no lugar conforme haviam encontrado e, quando ele retornou, inventaram alguma desculpa mais ou menos esfarrapada para demiti-lo: falência geral, dívidas, doenças contagiosas, etc. E o sujeito, sempre grunhindo e resmungando, partiu dali a quatro ou cinco dias, sem causar qualquer problema, frustrando a paranóia geral.

“Anos depois, quando vi aquele filme com o Freddy Krueger, fiquei besta: o caseiro tinha uma camiseta listrada idêntica!”, comentou Mora Fuentes ao me narrar o causo.

No rol dos ex-namorados, marcou presença o próprio primo de Hilda: Wilson Hilst. Esse primo, segundo ela me confessou, havia sido seu último namorado e amante; e isso quando ela já alcançara os cinqüenta anos de idade. Contou-me inclusive que Ehud, personagem de seu livro A Obscena Senhora D, fora inspirado nele. Wilson, um homem dominador e de temperamento difícil, era piloto de avião e costumava visitá-la em sua Harley-Davidson Fat Boy. Cansada de suas paranóias e de seu ciúme doentio, Hilda decidiu findar o relacionamento, o que deu enorme trabalho a Mora Fuentes e a Dante (a essa altura ex-marido, mas ainda morador da Casa): ambos tiveram de negociar com o mancebo até a chegada da polícia, uma vez que, nessa ocasião, o amante manteve Hilda, ali mesmo na Casa do Sol, sob a mira de um revólver toda uma longa noite, ameaçando matá-la e suicidar-se em seguida.

“Você nem imagina o trabalho que essa mulher já nos deu…”, disse-me Dante, diante do olhar maroto de Hilda.

Anos após esse qüiproquó, Hilda acordou sobressaltada ao ouvir, adentrando sua chácara, o motor da Harley. Levantou-se, foi ao encontro do primo que tanto a amara, mas não encontrou ninguém. Ainda era madrugada, a casa estava vazia e a Lua iluminava o jardim fronteiro. Um tanto confusa, retornou a seu quarto e voltou a dormir. No dia seguinte, recebeu por telefone a notícia de que Wilson fora encontrado morto em seu monomotor — provavelmente assassinado por passageiros narcotraficantes.

Hilda atribuía essa “força de atração insana” não ao mistério que a cercava, mas à sua velha figueira, que supostamente teria poderes mágicos, e ao nome da chácara, afinal, o Sol costuma não apenas manter um grande número de planetas, planetóides e asteróides à sua órbita, mas também está sempre a atrair ocasionais cometas. Até mesmo o gaúcho Caio Fernando Abreu, então em sua fase de buscas, entrou para a lista de satélites desvairados. Esteve ali na Casa do Sol durante o ano de 1969, dando muito trabalho ao triângulo Hilda-Dante-Mora Fuentes, que se viu obrigado a fazer revistas periódicas ao quarto do então jovem escritor, o qual vivia deprimido e ameaçando suicidar-se. Qualquer objeto pontiagudo ou cortante, qualquer fio ou cordão que pudesse converter-se numa forca improvisada, comprimidos misteriosos, tudo era sistematicamente suprimido para evitar que Caio fizesse algum mal a si mesmo. Hilda me contou que Caio viu-se perseguido durante muitos anos por essa sombra temível, a morte — memento moris —, e que somente após descobrir-se um soropositivo entregou-se à Luz, passando finalmente a escrever-lhe cartas cheias de vida. Sim, de médico e louco…

“Yuri, gosto de você porque você é tão doido quanto eu”, confessou-me ela certa feita, sugerindo que, se eu fora parar ali, também devia retirar meu cavalinho da chuva da normalidade.

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[Seguem mais 80 páginas, descrevendo um dos dias mais bizarros que vivi na Casa do Sol…]

A Ária da Rainha da Noite

Preciso postar esta ária – Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen (A vingança do inferno arde em meu coração), também conhecida como Ária da Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica, de Mozart – apenas porque a ouvi umas dez vezes no último final de semana. A soprano Diana Damrau conjuga voz e interpretação impressionantes. (Vi outras sopranos que talvez cantem melhor do que ela, mas não com a mesma carga dramática, ajudada, é certo, por excelentes figurino, cenário e direção.)

Você vai querer o DVD depois desse vídeo…

The perfect bitch. :^)

O chilique do cabeleireiro diante da modelo (uma crônica)

(Creio que já contei esta história, mas vou contá-la de novo porque eu a acho muito interessante.)

No início dos anos 90, em São Paulo, no agora extinto Estúdio Abril — então o maior estúdio fotográfico da América Latina, comandado à mão de ferro por Pedro Martinelli —, um fotógrafo aguardava a modelo para realizar uma sessão de fotos para o editorial de uma das revistas da empresa. A garota, uma adolescente que ainda não conhecia muito bem os ossos do ofício, permanecia sentada no camarim, muda, de olhos arregalados, enquanto tentava entender os chiliques daquele cabeleireiro que não queria preparar seu penteado.

— Não faço — dizia ele, à meia voz. — Não faço de jeito nenhum! Nem a custo de reza.

— Meu, pára com isso! Pelo amor de Deus, o job tá atrasado — suplicava a estressada produtora.

O maquiador, sentado a um canto, aguardava sua vez de entrar em ação. Não podia começar seu trabalho antes que o cabelo estivesse pronto. Também estava impaciente, mas, tendo ouvido exclusiva e previamente os motivos do cabeleireiro, preferiu não interferir na questão. A verdade é que ele estava mais curioso para ver a reação da produtora e do fotógrafo ao fato do que desejoso de botar mãos à obra.

Um vulto surgiu à porta.

— Ela já tá pronta? — perguntou com afobação o assistente do fotógrafo.

Aquela afobação, é claro, era reflexo da pressão do chefe.

— Não — tornou a produtora, pálida. — Ele não quer fazer o cabelo dela.

— Como assim, meu?! Que viagem é essa?

A modelo, constrangida, ainda não entendia o que estava acontecendo. Na verdade, não acreditava que tivesse realmente algo a ver com a situação. Ela, ao contrário do maquiador — e devemos ao cabeleireiro ao menos essa gentileza —, vinha sendo poupada das razões daquele atraso. Percebendo isso, e diante daquela estranha atitude do cabeleireiro, a produtora achou melhor levar a discussão para fora do camarim, deixando a menina sozinha lá dentro. O assistente, o cabeleireiro e o maquiador a seguiram.

Ela baixou a voz:

— Vai, meu, fala. O que é que tá rolando?

— Não sei o que dá na cabeça dessas agências. Ficam trazendo essas meninas do interior, lá do fim do mundo, aqui pra São Paulo. Aí metem a gente numa coisa dessas.

— Mas que coisa? Fala logo, porra!

— Piolho! Ela tá cheia de piolhos! Não mexo nesse cabelo de jeito nenhum! — E acrescentou num esgar: — Ai, que nojo!!!

O assistente e a produtora arregalaram os olhos e não souberam o que dizer. O maquiador olhou para o lado e sorriu discretamente, gordo de satisfação. Os dois primeiros trocaram um olhar significativo. Essa era uma questão a ser resolvida com o fotógrafo, o qual, sem parar de olhar o relógio, retorcendo os lábios, continuava à espera da modelo. Foram até ele e a produtora soltou a bomba.

— Ela está com piolho.

— E daí? — retrucou o fotógrafo, lacônico, sem mover um músculo sequer.

A produtora alargou um sorriso cheio de surpresa, quase indignado.

— Como “e daí”? E daí que o cabeleireiro não vai preparar o cabelo dela.

— Então arranja outro.

— Com a garota cheia de piolhos?

O fotógrafo voltou a sentar-se com uma cara de cowboy que sabe das coisas e que já viu de tudo no deserto dos bastidores da fotografia de moda. Com ar absorto, acendeu um cigarro e, por instantes, admirou a fumaça. De repente, olhou para cima, na direção da produtora.

— Você ainda está aí? Arranja outro cara. Rápido!

— Mas qual cabeleireiro vai…

— Meu! Não interessa! — cortou-a o fotógrafo, sem se levantar. — A menina é linda, o sorriso dela é lindo, o corpo dela é maravilhoso, ela se sente livre, leve e solta na frente da câmera. Ela vai ficar mesmo que esteja contaminada com radiação.

— Mas nosso tempo…

— Não tem “mas”! — interrompeu-a, com energia. — Você já viu algum trabalho dela? Viu pelo menos o composite? — e ele então abriu os braços, sorrindo: — Meu, ela nasceu pra isso! Se esse cara aí não nasceu para engolir os sapos da função dele, eu é que não vou engoli-los por ele. Ele não sabe que o nome do sapo dele é piolho? Aliás, você viu se é verdade?

— Eu…

— E mesmo que seja, a menina não tem culpa, caramba! Você acha que ela é que teria ido atrás dos bichos? Claro que não! Você nunca teve piolhos por acaso? Eu já tive, todo mundo já teve. É como a piada da mulher que peida no ônibus, fica envergonhada e um bêbado diz: “Não se preocupe, minha senhora! Eu peido, tu peidas, ele peida, nós peidamos, vós peidais, eles peidam!” Entende? E daí? Sem falar que, assim como o pessoal da revista, eu também acho que essa garota tem tudo a ver com o editorial. Esse cara aí tá é precisando entender qual o lugar dele. Piolho? Piolho não aparece na foto! Porra, cada piolho que eu tenho de aturar… Por que ele não pode aturar os dele?

E a produtora, com um ar de “não está mais aqui quem falou”, foi até o cabeleireiro para dispensá-lo do job. O assistente a seguiu porque, agora, ele é que estava curioso para ver a reação do sujeito.

— O quê? Dispensado?! Ce tá brincando, né?

— É sério. Ou isso, ou você faz o cabelo dela.

— Não faço porra nenhuma! — disse ele, enfurecido, tencionando ir buscar a maleta no camarim. — Me tiram de casa logo hoje, nesse dia horroroso de frio, para trabalhar com uma piolhenta! Que uó!

O assistente assistia à cena contendo a custo um sorriso de puro regozijo. Já conhecia a “peça” que, a essa altura, recolhia suas coisas. A produtora, com o telefone à mão, pedia pelo ramal outro cabeleireiro.

Voltando do camarim, já com a maleta, o sujeito prosseguiu com sua ladainha venenosa:

— Uma menina bobinha, do interior, que não vai dar em nada. Ela não tem força! Estou há anos na função, eu sei do que estou falando. — E então, enquanto saía pelo corredor, ainda encontrou o momento certo para voltar-se e profetizar em tom dramático: — Ninguém vai se lembrar dela! — E partiu.

— Tem alguma coisa errada? — perguntou a modelo, assomando à porta do camarim com seu sorriso belo e inocente.

— Não — tornou o assistente, encarando-a, hipnotizado. — É que o cabeleireiro está doente. Vamos trazer outro já já.

— Ah, tá certo — disse ela, com simpatia e despreocupação. E, dando-lhe as costas, voltou ao camarim.

Até hoje nenhuma das pessoas que conheço sabe me dizer qual era o nome do cabeleireiro. Já Gisele Bündchen… ah, quem não a conhece?

Elizabeth Gilbert e Elif Shafak: duas escritoras, duas palestras

Elizabeth Gilbert: alimentando a criatividade

(Devo dizer que nunca li Elizabeth Gilbert, mas gostei muito de sua palestra no TED.)

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Elif Shafak: A política da ficção

(idem)

Hilda Hilst, o IPTU e a Chave da Cidade

Chave da Cidade

Quando Hilda Hilst faleceu, em 4 de Fevereiro de 2004, devia cerca de 800 mil reais de IPTU. Dois anos antes, a dívida era de 500 mil reais. Quando morei com ela, a dívida já era altíssima, salvo engano, aí pelos 300 mil reais. Mas, pouco antes de conhecê-la, quando a dívida já a assustava — ela caíra na armadilha de transformar uma área rural em loteamento, o que alterou o imposto de rural para urbano —, a Câmara de Vereadores de Campinas (SP) quis homenageá-la e, após votação, decidiu entregar-lhe a Chave da Cidade. Hilda foi então convidada para ir até a Câmara, mas deu de ombros: “Homenagem? Não quero homenagem, quero que revejam esse valor absurdo do meu IPTU”. Ela ganhava apenas 2000 reais por mês…

Os vereadores a esperaram em vão. No entanto, como a coisa já estava feita, decidiram enviar um representante à Casa do Sol, residência da autora, onde ele, um vereador (se não me falha a memória, o presidente da câmara), chegou todo sorridente com aquela Chave enorme nas mãos. O porteiro do condomínio anunciou a visita do sujeito, deixando Hilda irritada.

“Que petulância!”

Ela então, como costumava fazer em momentos assim, preparou sua performance: foi até o quarto e se “disfarçou” de velhinha. Sim, à época Hilda já tinha quase 70 anos de idade, mas seu espírito jamais faria alguém confundi-la com uma “velhinha”. Por isso, pegou duma bengala, jogou um xale sobre os ombros, encurvou-se e saiu caminhando como velhinha caquética até a entrada da casa, onde o vereador a esperava.

“Dona Hilda!”, começou ele, efusivo. “Vim lhe entregar a Chave da…”

“E o meu IPTU?”, cortou ela, seca.

Ele, pego de surpresa, gaguejou: “Mas, dona Hilda, nós… eu não tenho poder para isso… Vim apenas porque a Câmara resolveu lhe prestar uma homena…”

“O senhor por acaso já leu meus livros?”

Agora sim ele ficou branco. Engoliu em seco: “Não, senhora, nunca li nenhum dos seus livros”.

“Então, ponha-se daqui para fora. Meus leitores já me homenageiam quando lêem meus livros.”

O vereador ofendeu-se:

“Vim até aqui de boa vontade lhe prestar uma homenagem, lhe fazer um favor, e a senhora…”

“Favor o senhor faria se me chupasse a cona”, berrou ela, brandindo a bengala.

O vereador ficou roxo, não sabia onde enfiar a cara.

“Por favor, retire-se da minha casa”, tornou ela, com dignidade. “Vocês querem que eu pague uma fortuna para morar na minha própria casa e ainda acham que vão me comprar com uma chave idiota que não abre porta alguma? Pois diga a seus pares que os mandei enfiar, um de cada vez, a chave em seus respectivos cus. O senhor faça o mesmo.”

E então, desfazendo a corcunda, deu as costas ao homem e, pisando firme, imponente, caminhou para dentro de casa.

Até hoje ninguém sabe em qual excelentíssimo fiofó foi parar a chave.

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