5:24 pmFernão Mendes Pinto conta por que fugiu apavorado do Reino de Quedá

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Do que passei até chegar ao reino de Quedá, na costa da terra firme de Malaca, e do que aí me aconteceu

Ao outro dia seguinte pela manhã nos partimos deste ilhéu de Fingau, e corremos a costa do mar Oceano em distância de vinte e seis léguas, até abocar o estreito de Minhagaruu, por onde tínhamos entrado, e passados à contracosta destoutro mar mediterrâneo, seguimos nossa derrota ao longo dela até junto de Pullo Bugay, donde atravessamos a terra firme, e aferrando o porto de Junçalão, corremos com ventos bonanças dois dias e meio, e fomos surgir no rio de Parlés do reino de Quedá, no qual estivemos cinco dias surtos, por nos não servir o vento, e neles o Mouro e eu, por conselho de alguns mercadores da terra fomos ver o Rei, com uma adiá ou presente (como lhe nos cá chamamos) de algumas peças suficientes a nosso propósito, o qual nos recebeu com mostras de bom gasalhado. Neste tempo que aqui chegamos estava el-Rey celebrando com grande aparato e pompa fúnebre de tangeres, bailes, gritas, e de muitos pobres a que dava de comer, as exéquias da morte de seu pai, que ele matara às punhaladas para se casar com sua mãe, que estava já prenhe dele, e por cuidar as murmurações que sobre este horrendo e nefandissíssimo caso havia no povo, mandou lançar pregão, que sob pena de gravíssimas mortes ninguém falasse no que já era feito, por razão do qual, nos disseram aí, que por outro novo modo de tirania tinha já mortos os principais senhores do reino, e outra grande soma de mercadores, cujas fazendas mandou que fossem tomadas para o fisco, o que lhe importou mais de dois contos d’ouro, e com isto era já neste tempo que aqui cheguei, tamanho o medo em todo o povo, que não havia pessoa que ousasse soltar palavra pela boca. E porque este mouro Coja Ale que vinha comigo, era de sua natureza solto da língua, e muito atrevido em falar o que lhe vinha à vontade, parecendo-lhe que por ser estrangeiro, e com nome de feitor do Capitão de Malaca, poderia ter mais liberdade para isto que os naturais, e que o Rei lho não acoimaria a ele como fazia aos seus, sendo um dia convidado doutro Mouro que se dava por seu parente, mercador estrangeiro natural de Patane, parece ser segundo me depois contaram que estando eles no meio do banquete, já bem fartos, vieram os convidados a falar neste feito tão publicamente, que ao Rei, pelas muitas escutas que nisto trazia, lhe deram logo rebate, o qual sabendo o que passava, mandou cercar a casa dos convidados, e tomando-os a todos, que eram dezessete, lhos trouxeram atados. Ele em os vendo, sem lhes guardar mais ordem de justiça, nem os querer ouvir de sua boa ou má razão, os mandou matar a todos com uma morte cruelíssima, a que eles chamam de gregoge, que foi serrarem-os vivos pelos pés, e pelas mãos, e pelos pescoços, e por derradeiro pelos peitos até o fio do lombo, como os eu vi depois a todos. E temendo-se el-Rey que pudesse o Capitão tomar mal mandar-lhe ele matar o seu feitor na volta dos condenados, e que por isso lhe mandasse lançar mão por alguma fazenda sua que lá tinha em Malaca, me mandou logo naquela noite seguinte chamar ao jurupango onde então estava dormindo, sem até aquela hora eu saber alguma coisa do que passava. E chegando eu já depois da meia-noite ao primeiro terreiro das casas, vi nele muita gente armada com terçados, e cofos, e lanças, a qual vista sendo para mim coisa assaz nova, me pôs em muito grande confusão, e suspeitando eu que poderia ser alguma traição das que já em outros tempos nesta terra houve, me quisera logo tornar, o que os que me levavam não consentiram dizendo, que não houvesse medo de coisa que visse, porque aquilo era gente que el-Rey mandava para fora a prender um ladrão, da qual reposta confesso que não fiquei satisfeito, e começando eu já neste tempo a tartamelear, sem poder quase pronunciar palavra que se me entendesse, lhes pedi assim como pude, que me deixassem tornar ao jurupango em busca de umas chaves que me lá ficaram por esquecimento, e que lhes daria por isso quarenta cruzados logo em ouro, a que eles todos sete responderam, nem que nos dês quanto dinheiro há em Malaca, porque se tal fizermos, nos mandará el-Rey cortar as cabeças. Neste tempo me cercaram já outros quinze ou vinte daqueles armados, e me tiveram todos fechado no meio: até que a manhã começou a esclarecer, que fizeram saber a el-Rey que estava eu ali, o qual me mandou logo entrar, e só Deus sabe como o pobre de mim então ia, que era mais morto que vivo. E chegando ao outro terreiro de dentro, o achei em cima de um elefante, acompanhado de mais de cem homens, afora a gente da guarda, que era em muito mor quantidade, o qual quando me viu da maneira que vinha, me disse por duas vezes, jangão tacor, não tenhas medo, vem para cá, e saberás o para quê te mandei chamar, e acenando com a mão fez afastar dez ou doze daqueles que ali estavam, e a mim me acenou que olhasse para ali, eu então olhando para onde ele me acenava, vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos, todos metidos num charco de sangue, um dos quais conheci que era o mouro Coja Ale feitor do Capitão que eu trouxera comigo, da qual vista fiquei tão pasmado e confuso, que como homem desatinado me arremessei aos pés do elefante em que el-Rey estava, e lhe disse chorando, peço-te senhor que antes me tomes por teu cativo, que mandares-me matar como a esses que aí jazem, porque te juro à lei de Cristão que o não mereço, e lembro-te que sou sobrinho do Capitão de Malaca, que te dará por mim quanto dinheiro quiseres, e aí tens o jurupango com muita fazenda, que também podes tomar se fores servido; a que ele respondeu, valha-me Deus, como? tão mau homem sou eu que isso faça? não hajas medo de coisa nenhuma, assenta-te e descansarás, que bem vejo que estás afrontado, e depois que estiveres mais em ti te direi o porquê mandei matar esse mouro que trouxeste contigo, porque se fora Português, ou Cristão, eu te juro em minha lei que o não fizera, inda que me matara um filho; então me mandou trazer uma panela com água, de que bebi uma grande quantidade, e me mandou também abanar com um abano, em que se gastou mais de uma grande hora. E conhecendo ele então que estava eu já fora do sobressalto, e que podia responder a propósito, me disse, muito bem sei Português que já te diriam como os dias passados matara eu meu pai, o qual fiz porque sabia que me queria ele matar a mim, por mexericos que homens maus lhe fizeram, certificando-lhe que minha mãe era prenhe de mim, coisa que eu nunca imaginei, mas já que com tanta sem razão ele tinha crido isto, e por isso tinha determinado de me dar a morte, quis-lha eu dar primeiro a ele, e sabe Deus quanto contra minha vontade, porque sempre lhe fui muito bom filho, em tanto, que por minha mãe não ficar como ficam outras muitas viúvas, pobres e desamparadas, a tomei por mulher, e enjeitei outras muitas com que dantes fui cometido, assim em Patane, como em Berdio, Tanauçarim, Siaca, Iambé, e Andraguiré, irmãs e filhas de Reis, com que me puderam dar muito dote. E por cuidar murmurações de maldizentes que falam sem medo quanto lhe vem à boca, mandei lançar pregão que ninguém falasse mais neste caso. E porque esse teu mouro que aí jaz, ontem estando bêbado, em companhia de outros cães tais como ele, disse de mim tantos males que tenho vergonha de tos dizer, dizendo publicamente em altas vozes, que eu era porco, e pior que porco, e minha mãe cadela saída, me foi forçado por minha honra mandar fazer justiça dele, e de estoutros perros tão maus como ele. Pelo que te rogo muito como amigo, que te não pareça mal isto que fiz, porque te afirmo que me magoarás muito nisto, e se por ventura cuidas que o fiz para tomar a fazenda do Capitão de Malaca, crê de mim que nunca tal imaginei, e assim lho podes certificar com verdade, porque assim te juro em minha lei, porque sempre fui muito amigo de Portugueses, e assim o serei enquanto viver. Eu então ficando algum tanto mais desassombrado, conquanto não estava ainda de todo em mim, lhe respondi que sua alteza em mandar matar aquele mouro, fizera muito grande amizade ao Capitão de Malaca seu irmão, porque lhe tinha roubado toda sua fazenda, e a mim por isso já por duas vezes me quisera matar com peçonha, só por lhe eu não poder dizer as embrulhadas que tinha feitas, porque era tão mau perro que continuamente andava bêbado, falando quanto lhe vinha à vontade, como cão que ladrava a quantos via passar pela rua. Desta minha resposta, assim tosca, e sem saber o que dizia, ficou el-Rey tão satisfeito e contente, que chamando-me para junto de si me disse, certo que nessa tua resposta conheço eu seres muito bom homem, e muito meu amigo, porque de o seres te vem não te parecerem mal as minhas coisas, como a esses perros cães que aí jazem, e tirando da cinta um cris que trazia guarnecido douro, mo deu, e uma carta para Pero de Faria de muito ruins desculpas do que tinha feito. E despedindo-me então dele pelo melhor modo que pude, e com lhe dizer que havia ainda ali de estar dez ou doze dias, me vim logo embarcar, e tanto que fui dentro no jurupango, sem esperar mais um momento, larguei a amarra por mão, e me fiz à vela muito depressa, parecendo-me ainda que vinha toda a terra após mim, pelo grande medo, e risco da morte em que me vira havia tão poucas horas.

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Este é o Capítulo XIX do livro Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. (Ortografia atualizada por Yuri Vieira.)

Este texto daria um ótimo filme, ¿não? Como se nota aí acima, o argumento já está prontinho. Aliás, os dois volumes da Peregrinação dariam vários filmes… (Leia mais sobre o livro aqui.)

10:31 amJohn Donne: “Não perguntes por quem os sinos dobram”

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"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Meditações VII, John Donne

Com o grande número de catástrofes naturais ocorrendo em seqüência — tsunami no Índico (2004), em Sumatra (2009), terremotos no Haiti (2010), no Chile (2010), enchentes e deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro (2011), e mais terremotos na Nova Zelândia (2011) e, agora, no Japão (2011) — o comentário acima é mais que pertinente. Há sempre alguém assistindo à notícia de um desses acontecimentos com o coração distante, sem imaginar que há a possibilidade de participar como personagem de uma próxima ocorrência. Necessitamos uns dos outros. A compaixão deve estar sempre conosco. Memento mori.

7:47 amClaude Lévi-Strauss habla de Goiânia y de otras ciudades brasileñas

Claude Lévi-Strauss

« En esas ciudades de síntesis del Brasil meridional, la voluntad secreta y testaruda que se revela en el emplazamiento de las casas, en la especialización de las arterias, en el estilo naciente de los barrios, parecía tanto más significativa cuanto que, contrariándolo, prolongaba el capricho que había dado origen a la empresa. Londrina, Nova-Dantzig, Rolandia y Arapongas — nacidas de la decisión de un equipo de ingenieros y financieros — volvían suavemente a la concreta diversidad de un orden verdadero, como un siglo antes lo había hecho Curitiba, y como quizás hoy lo hace Goiánia.

« Curitiba, capital del Estado de Paraná, apareció en el mapa el día en que el gobierno decidió hacer una ciudad: la tierra que se adquirió a un propietario fue cedida en lotes lo suficientemente baratos como para crear una afluencia de población. El mismo sistema se aplicó más tarde para dotar de una capital — Belo Horizonte — al Estado de Minas. Con Goiánia se arriesgaron aún más, pues el primer objetivo había sido el de fabricar la capital federal del Brasil a partir de la nada.

« Aproximadamente a un tercio de la distancia que separa, a vuelo de pájaro, la costa meridional del curso del Amazonas, se extienden vastas mesetas olvidadas por el hombre desde hace dos siglos. En la época de las caravanas y de la navegación fluvial podían atravesarse en unas semanas para remontarse desde las minas hacia el norte; así se llegaba a la ribera del Araguaia, y por él se bajaba en barca hasta Belém. Único testigo de esta antigua vida provinciana, la pequeña capital del Estado de Goiás, que le dio su nombre, dormía a 1000 kilómetros del litoral, del que se encontraba prácticamente incomunicada. En un paraje rozagante, dominado por la silueta caprichosa de los morros empenachados de palmas, calles de casas bajas descendían por las cuchillas, entre los jardines y las plazas donde los caballos transitaban ante las iglesias de ventanas adornadas, mitad hórreos, mitad casas con campanarios. Columnatas, estucos, frontones recién castigados por la brocha con un baño espumoso como clara de huevo y teñido de crema, de ocre, de azul o de rosa, evocaban el estilo barroco de las pastorales ibéricas. Un río se deslizaba entre malecones musgosos, a veces hundidos bajo el peso de las lianas, de los bananeros y de las palmeras que habían invadido las residencias abandonadas; éstas no parecían marcadas con el signo de la decrepitud; esa vegetación suntuosa agregaba una dignidad callada a sus fachadas deterioradas.

« No sé si hay que deplorar o regocijarse con lo absurdo: la administración había decidido olvidar Goiás, su campiña, sus cuestas y su gracia pasada de moda. Todo ello era demasiado pequeño, demasiado viejo. Se necesitaba una tabla rasa para fundar la gigantesca empresa con la que soñaban. Se la encontró a 100 kilómetros hacia el este, en la forma de una meseta abierta sólo por pasto duro y zarzales espinosos, como azotada por una plaga que hubiera destruido toda fauna y toda vegetación. Ningún ferrocarril, ninguna carretera conducía a ella, sino tan sólo caminos adecuados para los carros. Se trazó en el mapa un cuadrado simbólico de 100 kilómetros de lado, correspondiente a ese territorio, sede del distrito federal, en cuyo centro se levantaría la futura capital. Como no había allí ningún accidente natural que importunara a los arquitectos, éstos pudieron trabajar en el lugar como si lo hubieran hecho sobre planos. El trazado de la ciudad se dibujó en el suelo; se delimitó el contorno y dentro de él se marcaron las diferentes zonas: residencial, administrativa, comercial, industrial y la reservada a las distracciones; éstas son siempre importantes en una ciudad pionera: hacia 1925, Marilia, que nació de una empresa semejante, sobre 600 casas construidas contaba con casi 100 prostíbulos, en su mayoría consagrados a esas francesinhas que con las monjas constituían los dos flancos combatientes de nuestra influencia en el extranjero; el Quay d’Orsay lo sabía muy bien y todavía en 1939 dedicaba una fracción sustancial de sus fondos secretos a la difusión de las revistas “ligeras”. Algunos de mis colegas no me desmentirán si hago recordar que la fundación de la Universidad de Rio Grande do Sul, el Estado más meridional del Brasil, y la preeminencia que allí se dio a los maestros franceses, tuvieron por origen el gusto por nuestra literatura y nuestra libertad que una señorita de virtud ligera inculcó a un futuro dictador, en París, durante su juventud.

« De la noche a la mañana los diarios se llenaron de carteles que ocupaban páginas enteras. Se anunciaba la fundación de la ciudad de Goiánia; en torno de un plano detallado, tal como si la ciudad hubiera sido centenaria, se enumeraban las ventajas que se prometían a los habitantes: vialidad, ferrocarril, derivación de aguas, cloacas y cinematógrafos. Si no me equivoco, al principio, en 1935-1936 hasta hubo un período en que la tierra era ofrecida en primer lugar a los adquisidores que pagaban las costas. Pues los abogados y los especuladores eran los primeros ocupantes.

« Visité Goiánia en 1937. Una llanura sin fin con algo de terreno baldío y de campo de batalla, erizada de postes eléctricos y de estacas de agrimensura, que dejaba ver unas cien casas nuevas dispersas en todas direcciones. La más importante era el hotel, paralelepípedo de cemento que, en medio de semejante llanura, parecía un aeropuerto o un fortín. De buen grado se le hubiera podido aplicar la expresión «baluarte de la civilización» en un sentido no figurado sino directo, que así empleado tomaba un valor singularmente irónico, pues nada podía ser tan bárbaro, tan inhumano, como esa empresa en el desierto. Esa construcción sin gracia era lo contrario de Goiás; ninguna historia, ninguna duración, ninguna costumbre había saturado su vacío o suavizado su dureza; uno se sentía allí como en una estación o en un hospital, siempre pasajero, jamás residente. Sólo el temor a un cataclismo podía justificar esta casamata. En efecto, se había producido uno y su amenaza se veía prolongada en el silencio y la inmovilidad que reinaba. Cadmo, el civilizador, había sembrado los dientes del dragón. Sobre una tierra desollada y quemada por el aliento del monstruo se esperaba que los hombres avanzaran.»

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Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss.

(Traduzido do francês ao espanhol por Noelia Bastard.)

8:05 amMonteiro Lobato fala sobre os Amigos do Brasil

Monteiro Lobato

Amigos do Brasil! Pois há disso? Há. Houve e há estrangeiros que se apaixonam das nossas coisas, vêm estudá-las e de volta às suas terras dão-se ao sentimentalismo de querer bem ao país onde a primavera e o estado de sítio são eternos.

O saudoso e recém falecido J. C. Branner, reitor da Universidade de Stanford, estudou na mocidade a nossa geologia e de regresso, até o fim da vida, conservou-se um amigo do Brasil. Quando publiquei meu primeiro livro recebi dele uma carta que conservo como prêmio Discutia a “geringonça”, ou gíria como dizemos hoje, e falava disso com a segurança do homem de ciência para o qual tudo quanto representa criação tem valor.

Na Alemanha tivemos sempre inúmeros amigos, a partir do grande Martius. Hoje também os temos e um deles é o Dr. Frederico Sommer, que se empenha em verter e lá publicar os livros mais característicos da nossa literatura.

Até na França, tão de si própria, temos amigos. Mr. Le Gentil dedica-se a estudos brasileiros e em companhia de M. Gahisto, Martinenche e outros mantém na Revue de l’Amerique Latine uma seção dedicada amorosamente ao Brasil. Não contentes, criaram na Sorbonne um centro de estudos brasileiros e cuidam agora de constituir uma biblioteca de livros brasileiros. Tudo isto sem subvenções, à custa de enormes esforços e ao arrepio da nossa muçulmana indiferença. (Aviso aos autores de livros: essa biblioteca da Sorbonne aceita com grande prazer e pede a remessa de obras nacionais para lá, sobretudo as científicas. Endereço: Mr. Le Gentil, Centro de estudos portugueses, Sorbonne, Paris).

Outro, de nome menos conhecido entre nós, é Mr. Jean Turiau (Boulevard Murat, 29, XVIme). Já residiu no Brasil, conhece as nossas coisas e as rememora com saudades. O Brasil é uma coisa deliciosa vista assim de longe. Um meu amigo, grande patriota, dizia sempre: — Meu ideal é a diplomacia. Viver do Brasil mas longe dele, de modo a sentir sempre doces saudades da pátria, que delícia!

Mas Turiau quer bem a isto aqui e gostos não se discutem. Trabalha em traduções e vai tornando conhecida em França a nossa esfarrapada literatura. Na última carta que me escreveu lamenta-se da sua situação de funcionário público, como toda gente em França, situação que lhe não permite adquirir obras sobre o Brasil. E chora por uma Rondônia, por uma História do Brasil, de Rocha Pombo, trop chère… (Aviso aos srs. Roquette Pinto e a Rocha Pombo: não percam a oportunidade de um tal leitor. Nada há mais raro e que mais honre a um escritor do que um bom leitor).

A interpenetração literária é o que há de mais profícuo na aproximação dos povos. Só ela suprime as muralhas que a estupidez dos governos ergue. Só ela demonstra que somos todos irmãos no mundo, com as mesmas vísceras, os mesmos defeitos, os mesmos ideais. Se a França tornou-se amada entre nós a ponto de bombardear Damasco e esmagar Abd-el-Krim sem que isso nos arrepie as fibras da indignação, deve-o aos senhores Perrault, Lafontaine, Hugo, Maupassant, Taine, Anatole e quantos mais nos trouxeram para aqui esta sensação da irmandade do homem. Se a Alemanha não se gozou de idênticas simpatias é que víamos os atos de violência dos seus homens de governo e não havia dentro de nós, para atenuar-lhes a repercussão, o coxim de veludo da literatura alemã bem absorvida como temos a francesa.

Grande serviço, pois, prestam aos povos esses homens beneméritos que trabalham na difusão da literatura alheia em seus próprios países. Estão a preparar os preciosos coxins de veludo, amortecedores dos choques. Criam a compreensão e a tolerância. Demonstram, com a exibição de documentos humanos, que somos iguais, todos filhos do mesmo macaco que rachou a cabeça ao cair do pau.

Mas o nosso descaso é imenso. Nenhuma livraria do Rio, por exemplo, tem à venda essa revista da América Latina. Por que? Não há procura. Estupidificados pelo estado de sítio crônico, parece que um desalento nos ganhou a todos, um desânimo de tudo, indiferença de chim.

Se alguma coisa valesse alguma coisa nesta terra: eis a frase com que um jornalista traduz tal estado d’alma. Frase horrível, reflexo do desespero do desânimo, e, no entanto, lógica, sempre que um povo perde a sua liberdade e tomba no boçalismo da escravidão. Mas tudo passa. Depois da noite vem o dia. Depois da Idade Média vêm os 89. Tolice é desesperar. Esperemos, e enquanto esperamos não contaminemos com o nosso desalento de escravos os abnegados pioneiros das nossas letras em França. É noite? Não importa. Também de noite se trabalha e não há trabalho mais abençoado do que o que se faz dentro da noite para apressar a vinda do dia claro. E é trabalhar para um dia melhor meter mãos à obra da difusão literária.

Os morcegos passam e os livros ficam.

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Na Antevéspera, de Monteiro Lobato.

1:41 pmQuatro contribuições brasileiras ao pensamento universal

Olavo de Carvalho

« Mas, como dizia Reinhold Niebuhr, a consciência do homem está sempre um pouco acima da sociedade em que vive. O melhor do que o Brasil guardou para o futuro está nas criações do gênio individual. Ao contrário do que se passa com a língua e com a religião nacionais, elas sobrevivem às perguntas: Qual o valor da contribuição brasileira para a inteligência humana em sua caminhada sobre a Terra? Demos à humanidade algo de que ela realmente necessite, ou limitamo-nos a solicitar sua atenção para as nossas necessidades?

« Na esfera do pensamento — e excluindo portanto as manifestações artísticas, que escapam ao tema do presente capítulo —, o Brasil deu pelo menos quatro contribuições maiores, que sobreviverão à passagem dos séculos. Absolutamente incomparáveis, a sociologia de Gilberto Freyre, o pensamento jurídico e político de Miguel Reale, a obra crítica e historiográfica de Otto Maria Carpeaux e a filosofia de Mário Ferreira dos Santos são os pontos mais altos alcançados pelo pensamento brasileiro no seu esforço de cinco séculos para erguer-se à escala do universalmente humano. Se o povo brasileiro fosse varrido da existência na data de hoje, seria a eles que caberia comparecer em nosso nome ante o trono do Altíssimo para responder à cobrança temível: — Que fizeste dos talentos que te dei?

« As razões que sustentam essa avaliação podem ser resumidas em quatro palavras, que definem as esferas de realização abrangidas por cada uma dessas obras ciclópicas: cada uma delas é, mais que qualquer outra produzida neste país, abrangente, consistente, única e universal. Estes quatro adjetivos não têm apenas uma função enfática e laudatória, mas traduzem critérios precisos:

« 1° Cada uma delas abrange numa visão sintética a totalidade temática e problemática de um determinado campo do conhecimento até o ponto a que este havia chegado, em sua evolução histórica, no momento em que essa obra atingia seu ponto culminante.

« 2° Cada uma delas possui uma unidade orgânica que coere em torno de princípios fundamentais simples a vastidão do campo abrangido.

« 3° Cada uma delas é sem similares que as possam substituir em qualquer outra língua ou cultura.

« 4° Cada uma delas fala aos homens de todos os quadrantes, levando-lhes, desde o Brasil, um conhecimento essencial, a respeito não apenas do Brasil, mas a respeito deles mesmos e do mundo em que vivem. Dito de outro modo: nessas obras e somente através delas entramos plenamente no diálogo universal dos homens, superando o complexo egocêntrico de uma cultura voltada para si mesma.

« Todas elas e somente elas atendem a esses requisitos.

« Se alguém quiser por em dúvida a validade dos quatro critérios, movido por escrúpulos que lhe pareçam muito científicos no que diz respeito à possibilidade de fixar objetivamente o “mais alto” e o “menos alto”, direi que toma suas inibições pessoais como rigores de método.»

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O Futuro do Pensamento Brasileiro – Estudos sobre nosso lugar no mundo, de Olavo de Carvalho.

3:25 pmNo Pressure: ato falho ecofascista?

Quando assistimos ao curta-metragem No Pressure, nossa primeira impressão é a de que estamos vendo uma crítica ácida aos ambientalistas radicais, esses que, em vez de debater racionalmente com base em evidências, preferem eliminar toda dissensão a seu ponto de vista. (Isso quando não anunciam ― tal como um professor da PUC-GO deixou claro durante um programa sobre meio-ambiente que dirigi ― que seria muito melhor eliminar certos seres humanos a vê-los “acabar com o meio-ambiente”. Seu depoimento foi tão radical e absurdo, verdadeiramente eco-terrorista, que jamais entraria na edição final do programa piloto. Há um teaser aqui.) Enfim, ver o curta-metragem acima é como assistir a uma versão do South Park com atores reais. Só há um problema: trata-se, na verdade, de uma peça publicitária bancada por ambientalistas! (É uma campanha da ActionAid, da The Carbon Trust e da The Energy Saving Trust. A direção é de Richard Curtis, o mesmo de Notting Hill e Bridget Jones’s Diary.)

Ficam, pois, três perguntas: 1) Você achou o vídeo engraçado?; 2) Você não sentiu nenhuma pressão para concordar com eles?; 3) Não seria um ato falho eco-fascista?

Caso ache que estou exagerando, então imagine a mesma ideia aplicada às campanhas políticas da Dilma, do Serra, da Marina… Os eleitores dos adversários sendo explodidos… Qual seria a reação da famigerada opinião pública? Qual seria a sua reação?

6:17 pmJosé Bonifácio fala do Caráter Geral dos Brasileiros et cetera

José Bonifacio de Andrada e Silva

« É preciso sacrificar-se para o bem do Brasil, e tu não verás este bem. Os campos estão cheios de sementeiras de flores e tu não as gozarás… Vivamos hoje se no-lo permitem; não lutemos contra o Destino.»

(…)

« Se me acusarem de plagiário, direi com Byron que não faço escrúpulo de servir-me dos pensamentos alheios, que me parecem felizes. Quanto Shakespeare não tirou dos seus contemporâneos e quanto o nosso Camões!»

(…)

« Devemos saber ignorar em paz muita coisa grande.»

(…)

« O viajeiro, que como eu há tanto tempo viaja, é como o homem que come muito sem tempo de digerir. Desejo voltar à pátria para poder fazer boa digestão e ruminar o que hei visto.»

(…)

« La Vita Nuova de Dante é o breviário do amor. Dante é intraduzível. Podem-se verter os pensamentos, mas não a beleza, a simplicidade clássica.»

(…)

« O homem de bem projeta e espera; o ambicioso agita-se e precipita-se.»

(…)

« O déspota que não pode ser amado quer ser temido.»

(…)

« O brasileiro, que possui uma terra virgem debaixo de um céu amigo, recebeu das mãos da benigna natureza todo o físico da felicidade, e só deve procurar formá-lo em bases morais de uma boa Constituição que perpetue nossos bons costumes. Devemos ser os chins do Novo Mundo sem escravidão política e sem momos. Amemos pois nossos usos e costumes, ainda que a Europa se ria de nós.»

(…)

« Um grande poeta não pode ser ateu ou indiferente.»

(…)

« No Brasil, a virtude quando existe é heróica porque tem de lutar com a opinião e o governo.»

(…)

« No Brasil, há um luxo grosseiro a par de infinitas privações de coisas necessárias.»

(…)

« De que servia fazer leis se a sua execução estava entregue à mais infame corrupção?»

(…)

« As nações pouco cultas, mas vivas e impetuosas como a nossa, detestam novidades de prática, mas abraçam logo todas as especulativas, sejam quais forem.»

(…)

«Não é senhor de si quem a outrem sujeitou a língua. Um só homem, que queira e saiba falar a tempo, faz calar e tremer a muitos, pode ser a conservação de um povo inteiro que o silêncio perderia. A verdade muda introduz a tirania.»

(…)

« Caráter geral dos Brasileiros. Os Brasileiros são entusiastas do belo ideal, amigos da sua liberdade e mal sofrem perder as regalias que uma vez adquiriram. Obedientes ao justo, inimigos do arbitrário, suportam melhor o roubo que o vilipêndio; ignorantes por falta de instrução, mas cheios de talento por natureza; de imaginação brilhante e por isso amigos de novidades que prometem perfeição e enobrecimento; generosos mas com bazófia; capazes de grandes ações, contanto que não exijam atenção aturada e não requeiram trabalho assíduo e monotônico; apaixonados do sexo por clima, vida e educação. Empreendem muito, acabam pouco. Serão os Atenienses da América se não forem comprimidos e desanimados pelo despotismo.»

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Trechos de José Bonifácio, com textos selecionados por Octavio Tarquínio de Sousa. Para ler sobre José Bonifácio de Andrada e Silva

8:34 amAlguns poemas de Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

O COVEIRO

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.
Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: “Eterno companheiro
Da morte, quem matou-te o coração?”
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!
Depois, tomando a enxada, gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente:
- “Ai, foi por isso que me fiz coveiro!”

O LUPANAR

Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,
Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

O MARTÍRIO DO ARTISTA

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetas células guarda!
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

A ESPERANÇA

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.
Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a Crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro – avança!
E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da Morte a me bradar; descansa!

AMOR E CRENÇA

Sabes que é Deus? Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?
Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?
Ah! Se queres saber a sua grandeza
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp’la do Céu santa e infinita!
Deus é o Templo do Bem. Na altura imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a crença,
Ama, pois, crê em Deus e… sê bendita!

AMOR E RELIGIÃO

Conheci-o: era um padre, um desses santos
Sacerdotes da Fé de crença pura,
Da sua fala na eternal doçura
Falava o coração. Quantos, oh! Quantos
Ouviram dele frases de candura
Que d’infelizes enxugavam prantos!
E como alegres não ficaram tantos
Corações sem prazer e sem ventura!
No entanto dizem que este padre amara.
Morrera um dia desvairado, estulto,
Su’alma livre para o céu se alara.
E Deus lhe disse: “És duas vezes santo,
Pois se da Religião fizeste culto,
Foste do amor o mártir sacrossanto.”

SONETO

A praça estava cheia. O condenado
Transpunha nobremente o cadafalso,
Puro do crime, isento de pecado,
Vítima augusta de indelével falso.

E na atitude do Crucificado,
O olhar azul pregado n’amplidão,
Pude rever naquele desgraçado
O drama lutuoso da Paixão.

Quando do algoz cruento o braço alçado
Se dispunha a vibrar sem compaixão
O golpe na cabeça do culpado

Ele, o algoz – o criminoso – então,
Caiu na praça como fulminado
A soluçar: perdão, perdão, perdão!

ARIANA

Ela é o tipo perfeito da ariana.
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dimana.

As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.

Enquanto o amante pálido, a seu lado,
Medita, a fronte triste, o olhar velado,
No Mistério da Carne Soberana.

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Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos

8:44 amCláudio Moreno: “Deixem nossa ortografia em paz!”

Cláudio Moreno

« Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo.

« Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssmos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo.

« Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz!»

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Arquivem esta reforma! E já!, de Cláudio Moreno.

Dentre todos os artigos e comentários que li a respeito da famigerada nova ortografia e do cinzento Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, os mais sãos, os mais lúcidos e relevantes foram escritos pelo professor Cláudio Moreno. Eu, que ainda não engoli essas mudanças, que no máximo arrisquei a grafar, com peso na consciência, uma que outra “idéia” sem acento, não podia ficar mais satisfeito ao encontrar tão preparado combatente: Cláudio Moreno não perdoa o desengonçado Acordo Ortográfico. A leitura de seus textos me traz alívio – suas ironias e metáforas são irresistíveis – e me deixa mais seguro de que resistir a essa arbitrariedade é o melhor caminho. Sugiro os artigos abaixo:

9:58 amFerreira Gullar fala sobre a nova ortografia

Ferreira Gullar

« Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Coleções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é patrimônio do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambigüidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.»

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Leia a entrevista completa com Ferreira Gullar: "O acordo ortográfico é uma perda de tempo". (E veja também o que ele fala sobre Lula e Dilma.)

Fonte: www.ionline.pt

9:29 amAlexander Solzhenitsyn: « Alerta ao Ocidente »

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« Por terem os avós e os pais tampado os ouvidos aos gemidos do mundo e fechado os olhos aos seus abismos — por tudo isso — irá pagar a geração atual.»

(…)

« Nós, os povos oprimidos da Rússia, os povos oprimidos da Europa Oriental, percebemos dolorosamente o catastrófico enfraquecimento da Europa. Nós lhes oferecemos a experiência dos nossos sofrimentos — nós gostaríamos que vocês a assimilassem, sem pagar o incomensurável preço em mortes e escravidão, como nós pagamos. Mas a vossa sociedade se afasta das nossas vozes, que tentam adverti-los. E, provavelmente, devemos reconhecer desolados que a experiência de vida não se transmite. Todos devem viver tudo por si mesmos…»

(…)

« …ficamos sabendo que Dostoiévski, se errou, foi para o lado menor: de 1917 a 1959, o socialismo custou à atual União Soviética 110 milhões de pessoas!»

Alerta ao Ocidente, de Alexander Solzhenitsyn (1918-2008).

9:05 amFernão Mendes Pinto e sua peregrinação pelo oriente do século XVI

Fernão Mendes Pinto

« Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos de vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos de vida que passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezessete vendido, nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Maçácar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor onipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida.»

Assim se inicia o relato de 774 páginas (divididas em dois volumes) do aventureiro e explorador português Fernão Mendes Pinto (1510?–1583), que com uma prosa dinâmica e direta, mas de poder narrativo sempre envolvente, nos transporta através de tempestades e batalhas em alto-mar, de terras e povos estranhos, de paisagens e animais fantásticos, de reis, rainhas, mouros, piratas e assim por diante. Impressiona, por exemplo, ler sobre a preparação, em Goa, Índia, de uma armada composta por 225 navios portugueses — entre naus, caravelas, galeões, galés, fustas, etc. — para a batalha que deveria ter sido travada com 50 navios muçulmanos: foram necessários cinco dias para embarcar um total de 40 mil homens. (Taí um filme que gostaria de ver.) Com a mesma sintaxe viva, colorida, Mendes Pinto também nos faz gargalhar ao relatar seu encontro com o rei de Quedá, o qual havia – assim afirmavam seus súditos – assassinado o pai e se casado com a própria mãe, grávida do filho incestuoso. O detalhe tragicômico é que o rei mandava executar sumariamente qualquer um que comentasse o fato…

Estudiosos chamam a atenção para o fato de este livro, apesar de ser considerado “uma das obras capitais da formação do nosso idioma enquanto língua literária”, não ter se tornado tão conhecido e louvado como os Lusíadas, de Camões. Talvez, especulam, porque o autor, em meio a situações fantásticas, não poupa seus compatriotas de um enfoque realista, isto é, mesmo sendo virtualmente tementes a Deus, no geral não eram nada santos…

Também é interessante notar que Machado de Assis tinha para com Fernão Mendes Pinto (e também para com Gomes Eanes Zurara) a mesma consideração que eu, há pelo menos quinze anos, tenho para com Antônio Vieira: autores aos quais recorremos para revitalizar nosso próprio uso da língua ou, como escreveu Machado, para estudar “as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles [Mendes Pinto e Zurara] mil riquezas, que à força de velhas se fazem novas”.

É possível ler online à versão original da Peregrinação aqui. Mas não aconselho, porque a ortografia da época, sendo muito distinta – bastante curiosa, na verdade –, impede a fluidez da leitura. O melhor é adquirir a versão adaptada à ortografia atual por Maria Alberta Menéres e publicada pela Editora Nova Fronteira: volume 1 e volume 2.

12:10 pmPensamentos memoráveis no romance Eumeswil, de Ernst Jünger

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Do romance Eumeswil (1977), de Ernst Jünger, 454 páginas:

« Onde a vida se apresenta sem véus, como na nudez, no rapto e nos antigos sacrifícios, paga-se em sangue e ouro. Que o ouro é melhor, o homem sabe e a mulher melhor ainda; e este saber sobreviverá aos Estados, por muitos que sejam os que desmoronem ou floresçam.

« Tirar o ouro dos indivíduos, negar-lhes o direito a ele, eis o que tentam os Estados, enquanto o indivíduo procura escondê-lo de suas vistas. Querem “o melhor para ele”… por isso lhe tiram seu ouro e o armazenam em cofres e pagam com papel, cujo valor diminui a cada dia.

« Quanto mais domesticado é o homem, mais se deixa enganar por qualquer mentira. Mas o ouro é digno de fé. Tem seu valor em si, nele não há engodo. Esta realidade é patente entre nós; é uma das vantagens de Eumeswil.»

(…)

« Permito-me repetir que prefiro a história da cultura à dos Estados. Com aquela começa e acaba a humanidade. Portanto, concedo também maior importância à história da corte, inclusive seus amores e intrigas do que à história política e dos partidos. A história é feita pelos homens e, no máximo, regulada pelas leis; daí sua inesgotável capacidade de surpresas

(…)

« O cuidado com que o Domo utiliza a linguagem contrasta de modo estranho com o desalinho costumeiro em Eumeswil. Só se escutam frases desgastadas, de contornos imprecisos como as moedas do mendigo — e, naturalmente, mais nos lábios de universitários que no porto e no mercado. Nem sempre foi assim: os camponeses, os artesãos, os caçadores, os soldados, os velhacos sempre souberam utilizar imagens fortes.

« A “popularização” acabou com tudo isto. Para tanto contribuíram eumenistas do talento de um Sperling e um Kessmuller. O objetivo era acabar com a linguagem elevada. “O estilo é o homem”… era preciso acabar com isto; era preciso impedir que se reconhecesse a classe espiritual de um homem pelo seu modo de falar. Surgiu aqui uma vulgarização da linguagem, que já não era própria nem dos de cima nem dos de baixo.

« Na verdade, nem todos os cálculos deram certo. Inclusive nas épocas em que desaparecem os bons marceneiros, um bom armário ou um simples tabuleiro bem-feito se destacam do resto. Igualmente, quando as elites são raras ou estão reduzidas a indivíduos isolados, as palavras claras, precisas, sólidas convencem o homem sem cultura — precisamente este, o não-deformado pela cultura. Ele pressente — e isto o tranqüiliza — que o poderoso, apesar de sua força, reconhece regras e leis. Caesar non supra grammaticos. Um consolo para épocas decadentes.»

(…)

« A tortura do historiador e sua transformação em anarca vem da convicção de que não se pode eliminar o cadáver e que sempre haverá novos enxames de abutres e moscas pressurosos ao seu redor… isto é, o pensamento de que, consideradas as coisas em seu conjunto, o mundo é imperfeito e deve ter havido desde o princípio algum erro de planejamento

(…)

« Rosner é um materialista da mais pura cepa e, como tal, inteligente demais para ser darwinista. Poderia ser considerado seguidor de certos neovitalitas.»

(…)

« O contemporâneo só tem capacidade para configurar fatos. É contado como voto, como contribuinte e assalariado, como espécie que sobrevive nos arquivos dos registros civis e nos ministérios. Sua memória desce à sepultura junto com seus netos.

« A capacidade de configurar anedotas é mais poderosa, é fecunda em história. Nela se condensa o gênero com seus caracteres próprios; fixa-se durante séculos. Pelo cristal se conhece uma montanha e, pela moeda, um metal. Aqui não existe um privilégio de papas e imperadores: um monge, um camponês, um bufão podem fazê-lo com maior eficácia.

« A capacidade de configurar mitos é, em contrapartida, a-histórica, não está submetida a uma origem e uma evolução; repercute de maneira incalculável e imprevisível sobre a história. Não pertence ao tempo, e sim o cria.

« É por isso que em épocas de declínio em que a substância histórica está esgotada e já nem sequer consegue garantir a ordem zoológica da espécie, sempre se lhe viu indissoluvelmente acoplada uma expectativa surda e inexpressa. A teologia desaparece sob a areia, cede lugar à teognose: já não se quer saber nada mais sobre os deuses; quer-se vê-los.»

(…)

« Em todo caso, o primeiro Estado Mundial teria sido inimaginável sem a repercussão niveladora da técnica, e mais concretamente da eletrônica… também poderia dizer-se (mais uma vez como Bruno) que “foi subproduto”. Vigo, que tem pela técnica uma antipatia visceral, concorda plenamente.»

(…)

« O tirano será substituído pelo demagogo. O demagogo conduz o timão através do sistema de realizar plebiscitos quando bem lhe aprouver. A arte está no modo de formular a pergunta; se este ponto for bem resolvido, a resposta será esmagadoramente afirmativa, não só em virtude do número, como também em virtude da uniformização espiritual, que chegará até as elites

(…) Continua…

12:23 pmMarc Chagall fala sobre o amor e a arte

Marc Chagall (1887-1985)

« Tudo pode mudar em nosso mundo desmoralizado exceto o coração, o amor do homem e seu empenho em conhecer o divino. A pintura, como toda a poesia, tem uma parte no divino; as pessoas sentem isso hoje, do mesmo modo que costumavam sentir outrora. Que pobreza cercou minha infância, que provações experimentou meu pai, com seus nove filhos! E, no entanto, ele estava sempre cheio de amor e, à sua maneira, era um poeta. Foi através dele que pressenti, pela primeira vez, a existência da poesia neste mundo. Depois senti-a durante as noites quando contemplava o céu escuro. Aprendi então que também existia um outro mundo. Isso fez brotar lágrimas em meus olhos, tão profunda foi a comoção que se apossou de mim.»

Marc Chagall (1887-1985)

Algumas pinturas de Chagall (clique sobre as imagens para ampliá-las):

Chagall - A Crucificação Branca (1938) Chagall - Passeio (1917) Chagall - Aniversário (1915) Chagall - Mensagem bíblica (1960-1966) Chagall - Matrimônio chagall - Auto-retrato com paleta (1917)

Veja mais trabalhos de Marc Chagall, aqui.

9:30 amO Penitente, de Isaac Bashevis Singer

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« Uma das paixões mais vazias do homem moderno é ler jornais para ficar a par das últimas notícias. As notícias são sempre ruins e envenenam sua vida, mas o homem moderno não pode viver sem este veneno. Ele precisa saber de todos os assassinatos, de todas as curras. Precisa saber de todas as loucuras e falsas teorias. O jornal não lhe basta. Ele busca notícias adicionais no rádio e na televisão. As revistas são publicadas com a soma de todas as notícias da semana e as pessoas relêem que crime este ou aquele malfeitor cometeu e o que cada idiota disse. A loucura da política apanhou até a nossa chamada ortodoxia. E quanto à paixão por dinheiro! Se você ler a imprensa ortodoxa, vai tomar conhecimento de uma única mensagem em todo artigo e reportagem: “Doe dinheiro!”. Eles precisam de intermináveis quantias de dinheiro para construir yeshivas [escola para formação de rabinos], para manter — como colocam eles — o judaísmo. É uma mentira completa. As grandes yeshivas, as brilhantes salas de aula, a boa comida, os exames — tudo isto é pantomima. Já existem colégios ortodoxos ou universidades na América que ensinam à juventude um pouco da Torá e muito goyishkeit [em iídiche, goy (não-judaico) e ishkeit (modo de ser)]. Os estudantes estão, supostamente, sendo treinados para se adaptar a ambos, mundanismo e Deus. O fato é que uma vez que você está ajustado ao mundo não pode mais estar ajustado a Deus. Aquelas crianças balbuciam em hebraico moderno, com sua pronúncia sefardita, lerão, cedo ou tarde, todos os livros imundos que são traduzidos aqui. O hebraico deve permanecer uma língua sagrada, não uma linguagem usada em clubes noturnos.

« Eu dissera àquela devassa, Priscilla, que o Deus judeu era um “ídolo” para mim. Talvez quisesse dizer isso na época. A fé não é uma coisa fácil de conquistar. Bem depois que me tornei um judeu com barba e madeixas, ainda necessitava de fé. Mas a fé, gradualmente, cresceu dentro de mim. As ações devem vir primeiro. Bem antes de a criança saber que tem um estômago, quer comer. Bem antes de você alcançar a fé total, deve agir de um jeito judeu. O judaísmo leva à fé. Sei agora que existe um Deus. Creio em Sua Providência. Todas as vezes que me aflijo ou uma das minhas crianças fica doente, rezo ao Todo-Poderoso.

« Não quero me vangloriar de que minha fé seja absoluta. Talvez não exista esta coisa de fé total. Mas acredito mais hoje do que jamais acreditei antes. Darwin e Karl Marx não revelaram o segredo do mundo. De todas as teorias sobre a criação, a exposta no Gênesis é a mais inteligente. Tossa essa conversa sobre névoas primitivas ou a Grande Explosão é um violento disparate. Se alguém encontrasse um relógio numa ilha e dissesse que ele se fez por si mesmo ou que se desenvolveu através da evolução, seria considerado um lunático. Mas, conforme a ciência moderna, o universo evoluiu todo por sua conta. ¿O universo é menos complicado que um relógio?

« Sei o que você quer me perguntar — se ainda estou interessado em sexo. Creia-me, uma mulher pura, decente, pode proporcionar a um homem mais satisfação física do que todas as prostitutas refinadas do mundo. Quando um homem dorme com uma mulher moderna, ele realmente vai para a cama com todos os seus amantes. Eis por que há tantos homossexuais hoje, porque o homem moderno está dormindo espiritualmente com incontáveis outros homens. Ele constantemente quer se sobressair no sexo porque sabe que sua parceira o está comparando com os outros. Esta é também a causa da impotência, da qual tantos sofrem. Eles transformaram o sexo num mercado com competidores. O homem de hoje precisa e convencer de que ele é o maior amante e que, em comparação, Casanova era um garoto de escola. Ele também tenta convencer a mulher, mas ela sabe mais.

« A mulher está na mesma posição. Sabe que seu marido tem e teve muitas outras mulheres e quer competir com elas, ser mais esperta e mais bonita do que elas são. O homem moderno injetou competição em áreas em que ela não pertence. Toda vida moderna é uma série de provas para determinar quem é o mais alto, o maior, o mais forte; capaz de atuar melhor que os outros. A mulher de hoje anseia ser a mais bela criatura sobre a Terra.

« Entre aqueles judeus com os quais vivo, não existe nenhuma pessoa grande ou pequena. Um homem passa mais tempo com a Torá; outro, recitando salmos. Um tem mais tempo para estudar, outro deve trabalhar para viver. Ninguém se compara, ninguém se mede em relação aos outros e o ponto principal é que não há nenhuma busca de lucro. Eles se libertam da pior paixão humana — a necessidade de ser rico.

« Eu seria mentiroso se lhe dissesse que tudo é suavidade e luz entre nós. Aqui também há pessoas más. O Espírito do Mal não foi liquidado. Mesmo quando sento e estudo o Gemara, tenho pensamentos fúteis que caberiam mais a um beduíno. Um momento não passa sem tentações. Satã está constantemente no ataque. Ele nunca fica cansado. Mas liguei-me no judaísmo com laços que são difíceis de cortar. Estes laços são minha barba, minhas madeixas, minhas crianças e, agora, minha idade também.

« Às vezes o Mal me diz: “O que acontecerá, Joseph Shapiro, se você morrer e não houver nada depois daqui? Você será uma pilha de sujeira, cego, mudo, uma pedra, uma bolha de lama”. Eu o escuto e respondo: “Minha mortalidade não provaria que Deus está morto e que o universo é um acidente físico ou químico. Vejo um plano e uma intenção consciente em todo ser, no homem e nos animais, bem como nos objetos inanimados. A graça de Deus muitas vezes está escondida, mas sua ilimitada sabedoria é vista por todos, mesmo que o chamem de natureza, substância, absoluto ou qualquer outro nome. Creio em Deus, na Sua Providência e na livre determinação do homem. Aceitei a Torá e seus comentários porque tenho certeza de que não existe nenhuma escolha melhor. Esta fé continua crescendo o tempo todo dentro de mim”.»

O Penitente (1983), de Isaac Bashevis Singer, 143 páginas.

12:11 pmEntrevista com a blogueira cubana Yoani Sánchez

Os vídeos abaixo foram gravados e estão disponíveis graças ao site Saraiva Conteúdo. (Leia o depoimento de Marcio Debellian a respeito dessa entrevista com Yoani Sánchez.)

(Via @joseroldao.)