Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Política (Página 10 de 20)

Agenda: Grinding America Down (2010) – documentário legendado

Leia sobre o filme no IMDB.

Schopenhauer fala sobre a honra

Arthur Schopenhauer

Agora que nós, brasileiros, temos um “deputado presidiário” — o execrando senhor Natan Donadon (ex-PMDB-RO) — vale a pena reler Schopenhauer e entender em que grau esse criminoso, com o auxílio de seus pares (nos dois sentidos), e com o pretexto absurdo de defender a própria honra, afronta a honra do cargo que ocupa.

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[…] O assunto deste capítulo, que é aquilo que representamos no mundo, isto é, o que somos aos olhos dos demais, pode ser dividido, como temos dito, em honra, posição e glória.

Para nossos propósitos, a posição pode ser lançada por terra em poucas palavras, por importante que pareça aos olhos da multidão e dos filisteus, e por grande que possa ser sua utilidade como engrenagem da máquina do Estado. É um valor convencionado ou, mais precisamente, um valor fingido; sua ação tem por resultado uma consideração dissimulada, e a coisa toda é uma farsa para a multidão. As condecorações são letras de câmbio tiradas da opinião pública; seu valor se funda no crédito do girador. Entretanto, e sem falar de todo o dinheiro que poupam ao Estado como um substituto para as recompensas pecuniárias, não deixam de ser uma instituição das mais felizes, supondo que sua distribuição seja feita com discernimento e justiça. Com efeito, a multidão tem olhos e ouvidos, mas pouco além disso, muito pouco juízo, e sua própria memória é limitada. Muitos méritos estão fora da esfera de sua compreensão; outros são compreendidos e aclama-se a sua aparição, mas são prontamente esquecidos. Sendo assim, julgo muito conveniente que uma cruz ou uma estrela proclamem à multidão, em qualquer lugar e sempre: Este homem não é vosso semelhante; tem méritos! Entretanto, as condecorações perdem seu valor quando são distribuídas de forma injusta, irracional ou excessiva. Assim, um príncipe deveria ter tanta cautela em concedê-las como um comerciante em firmar letras de câmbio. A inscrição pour le mérite [pelo mérito] em uma condecoração é um pleonasmo; toda condecoração deveria ser pour le mérite, ça va sans dire [pelo mérito, supõe-se].

A questão da honra é muito mais difícil e ampla que a da posição. Primeiramente temos de defini-la. Se a esse propósito dissesse que a honra é a consciência exterior e a consciência é a honra interior, talvez essa definição pudesse agradar alguns; mas seria uma explicação mais pomposa que clara e fundamentada. Portanto, afirmo que, objetivamente, a honra é a opinião que os demais têm sobre nosso valor e, subjetivamente, o respeito que temos por essa opinião. Segundo essa visão, ser um homem de honra exerce uma influência muito salutar sobre o indivíduo, mas de modo algum puramente moral.

A raiz e a origem do sentimento de honra e de vergonha, inerente a todo homem que não esteja completamente corrompido, e o grande valor atribuído ao primeiro, serão expostas nas considerações seguintes. O homem, por si só, pode muito pouco, como um Robinson Crusoé numa ilha deserta; unicamente em sociedade com os outros é e pode muito. Torna-se ciente dessa condição assim que sua consciência, ainda que pouco, começa a desenvolver-se e desperta nele o desejo de ser considerado como um membro útil da sociedade, capaz de exercer seu papel como homem, pro parte virili, e que tem direito assim a participar das vantagens da sociedade humana. Consegue ser um membro útil da sociedade executando, primeiro, aquilo que se exige e espera de qualquer homem em qualquer posição, e depois aquilo que se exige e espera dele na posição particular que ocupa. Entretanto, percebe rapidamente que o importante não é ser um homem útil em sua própria opinião, mas na dos demais. Essa é a origem do ardor com que mendiga a opinião favorável dos outros e do valor elevado que lhe atribui. Ambas as tendências se manifestam com a espontaneidade de um sentimento inato, que se denomina o sentimento de honra e, em certas circunstâncias, o sentimento de pudor (verecundia). Esse é o sentimento que faz o indivíduo corar ante o pensamento de perder na opinião dos demais, ainda que seja inocente, e ainda quando a falta revelada não seja mais que uma infração relativa, isto é, assumida arbitrariamente. Por outro lado, nada fortalece mais sua coragem e sua determinação que a certeza adquirida ou renovada da boa opinião dos homens, porque lhe assegura a proteção e o socorro das forças reunidas do conjunto, que constitui um baluarte infinitamente mais poderoso contra os males da vida que suas forças sozinhas.

A variedade de relações nas quais um homem pode se situar ante os demais de modo a obter sua confiança, isto é, uma boa opinião, origina muitas espécies de honra. Essas relações são principalmente o meum e o tuum, depois o cumprimento das obrigações e, por último, a relação sexual. A essas correspondem a honra burguesa, a honra do cargo e a honra sexual, cada uma das quais apresentando ainda subdivisões.

A honra burguesa possui a esfera mais extensa; consiste na pressuposição de que respeitaremos absolutamente os direitos de cada um, e que, por conseguinte, nunca empregaremos em nosso proveito meios injustos ou ilícitos. É a condição para a nossa participação em todas as relações pacíficas com os homens. Basta, para perdê-la, uma só ação que seja enérgica e manifestamente contrária a essas relações pacíficas, algo que acarrete punições legais, com a condição de que o castigo tenha sido justo. Entretanto, em última análise, a honra repousa sempre sobre a convicção da imutabilidade do caráter moral, em virtude do qual uma só má ação é um indicador seguro da mesma natureza moral de todas as ações subsequentes, desde que se apresentem circunstâncias semelhantes. É o que indica também a expressão inglesa character, que significa renome, reputação, honra. Por isso, a perda da honra é irreparável, a menos que se deva a uma calúnia ou a falsas aparências. Assim, pois, há leis contra a calúnia, contra a difamação e contra as injúrias; porque a injúria, o simples insulto, é uma calúnia sumária, sem indicação de motivos. Em grego, se poderia muito bem reproduzir desta forma: ἔστι ἡ λοιδορία διαβολὴ σύντομος [a injúria é uma calúnia abreviada], máxima que não se encontra, todavia, expressa em nenhuma outra parte. É evidente que aquele que insulta não tem nada de real nem verdadeiro a produzir contra o outro, do contrário o enunciaria na forma de premissas e deixaria tranquilamente aos que lhe escutam o cuidado de tirar a conclusão; em vez disso, apresenta a conclusão e omite as premissas. Conta com a suposição de que procede assim somente em favor da brevidade. A honra burguesa toma seu nome, é verdade, da classe burguesa, porém sua autoridade se estende a todas as classes indistintamente, sem excetuar sequer as mais elevadas. Ninguém pode prescindir dela, sendo uma questão das mais sérias que merece a precaução de não ser considerada superficialmente. Todo aquele que viola a fé e a lei será, para sempre, um homem sem fé e sem lei, haja o que houver, seja o que for, os frutos amargos que essa perda traz consigo não tardarão em produzir-se.

A honra tem, em certo sentido, um caráter negativo, por oposição à glória, cujo caráter é positivo. Porque a honra não é a opinião que se enuncia sobre certas qualidades especiais, pertencentes a um só indivíduo, mas a que se enuncia sobre qualidades comumente pressupostas, que esse indivíduo se vê obrigado a possuir igualmente. A honra afirma apenas que esse sujeito não é uma exceção, enquanto que a glória afirma que é uma. A glória deve, pois, ser adquirida; a honra, pelo contrário, só necessita não ser perdida. Por conseguinte, ausência de glória é obscuridade, algo negativo; ausência de honra é vergonha, algo positivo. Porém, não devemos confundir essa condição negativa com a passividade; pelo contrário, a honra tem um caráter puramente ativo. Com efeito, procede unicamente de seu sujeito; está fundada em suas ações, e não em ações de outros ou em fatos exteriores; é, portanto, parte daquilo que depende de nós. Essa é, como veremos a seguir, a marca distintiva entre a verdadeira honra e a honra cavalheiresca ou falsa honra. A honra não pode ser atacada exteriormente senão pela calúnia, e o único meio de defesa é uma refutação acompanhada da publicidade necessária para desmascarar o caluniador.

O respeito que se atribui à idade parece fundamentar-se em que a honra dos jovens, ainda que admitida por suposição, não tenha sido posta à prova; por conseguinte, não existe, propriamente falando, mais que o crédito. Porém, homens de mais idade puderam comprová-la no curso da vida, se por sua conduta souberam conservar sua honra. Porque nem os anos em si, visto que os animais chegam também a uma idade avançada e às vezes mais avançada que a do homem, nem tampouco a experiência como simples conhecimento mais íntimo da marcha do mundo, justificam o respeito dos mais jovens pelos mais velhos, algo que se exige universalmente. A simples debilidade senil daria mais direito ao desdém que à consideração. É notável, todavia, que haja no homem certo respeito inato, realmente instintivo, pelos cabelos brancos. As rugas, sinal muito mais infalível da velhice, não inspiram esse respeito. Nunca se fez menção às rugas respeitáveis, mas sempre aos veneráveis cabelos brancos.

O valor da honra é apenas indireto; porque, como se explicou no começo deste capítulo, a opinião dos demais a nosso respeito não pode ter valor para nós senão na medida em que determina, ou pode eventualmente determinar, sua conduta para conosco. Ainda assim, isso se aplica apenas enquanto estivermos entre os homens. Isso porque, como no estado de civilização devemos inteiramente à sociedade nossa segurança e nossa propriedade, como ademais necessitamos dos outros em qualquer empreendimento, e como devemos conquistar sua confiança para que entrem em relação conosco, sua opinião será de grande valor aos nossos olhos, mesmo que esse valor seja sempre indireto – e não vejo como poderia ser direto. Nesse sentido, disse também Cícero: De bona autem fama Chrysippus quiden et Diogenes, detracta utilitate, ne digitum quidem, ejus causa, porrigendum esse dicebant. Quibus ego vehementer assentior [Crisipo e Diógenes diziam que uma boa reputação, fora sua utilidade, não merecia que se levantasse um dedo por ela. Concordo inteiramente com eles. (De finibus, III, 17.)]. Do mesmo modo, Helvécio desenvolve extensamente essa idéia em sua obra capital De l’esprit (discurso III, capítulo XIII) e chega a esta conclusão: Nous n’aimons pas l’estime pour l’estime, mais uniquement pour les avantages qu’elle procure [não amamos o apreço pelo apreço, senão unicamente pelas vantagens que proporciona]. Como os meios não podem ter mais valor que o fim, a máxima a honra é mais importante que a vida, como temos dito, é um exagero.

Isso no que diz respeito à honra burguesa. A honra do cargo é a opinião geral de que um homem incumbido de um emprego possui efetivamente todas as qualidades exigidas e cumpre estritamente as obrigações de seu cargo. Quanto mais importante e ampla é a esfera de influência de um homem no Estado, mais elevado e influente é o posto que ocupa e mais elevada deve ser também a opinião que se tem das qualidades intelectuais e morais que o fazem digno desse posto. Por conseguinte, possui um grau de honra correspondentemente superior, como evidenciado pelos seus títulos, condecorações etc., e também pelo comportamento diferenciado dos demais para com ele. Em mesma escala, a posição de um homem é a que determina o grau particular de honra que se lhe deve, mesmo que esse grau possa modificar-se em função da capacidade das massas em compreender a importância dessa posição. Mas sempre se atribuirá mais honra ao que tem obrigações especiais a cumprir que ao simples burguês, cuja honra se funda principalmente em qualidades negativas.

A honra do cargo exige, ademais, que aquele que ocupa um posto faça respeito à causa de seus colegas e de seus sucessores. Isso é realizado através do rígido cumprimento de seus deveres e também pelo fato de nunca deixar impune nenhum ataque contra o posto ou contra si mesmo, enquanto funcionário; em outras palavras, não permitindo que se chegue a dizer que não cumpre meticulosamente os deveres de seu cargo ou que esse não tem qualquer utilidade para o país. Pelo contrário, deve provar através de punições legais que tais ataques eram injustos.

Como subdivisões dessa honra, encontraremos a do empregado, do médico, do advogado, de todo professor público, de todo graduado, em suma, de todo aquele que foi publicamente declarado capaz de realizar algum trabalho intelectual, tendo, desse modo, se comprometido a executá-lo; em uma palavra, a honra de todos os que se comprometeram publicamente com alguma tarefa. Nesta categoria deve incluir- se também a verdadeira honra militar; esta consiste no fato de que todo homem que se comprometeu a defender sua pátria possui realmente as qualidades necessárias para tal, principalmente o valor, a bravura e a força, e que está realmente disposto a defendê-la até a morte e a não abandonar a bandeira, à qual prestou juramento. É dada aqui à honra do cargo uma significação muito mais ampla que a normal, em que designa o respeito devido pelos cidadãos ao próprio cargo.[…]

Fonte: Aforismos para a Sabedoria de Vida, por Arthur Schopenhauer.

Cubão, o país do futuro do pretérito

Cubão

Tudo começou com o discurso dum candidato na TV: “Brasil é um nome muito capitalista — é o nome de um produto comercial! Pau Brasil! Vamos deixar esse negócio de Pau e mudar para Cubão”.

Dito e feito.

Uma estudante de intercâmbio é recebida pelos colegas:
— ¿De onde você é?
— Do Cubão. Antes da Revolução se chamava Brasil.
— Hum. Você é a primeira pessoa do Cubão que conheço.
— Obrigada. Aqui sou a única. Mas lá todo mundo é do Cubão. Igualdade é isso.

Um turista cubãozense é interpelado por um cidadão português:
— ¿O Partido dos Totalitaristas mudou o nome do seu país para Cubão em homenagem a Cuba?
— Não. Foi porque eles gostavam de enrabar o povo.
— Ah!

Em 2024, numa aula de história:
— ¿E o primeiro presidente eleito após a mudança do nome do país para Cubão foi…?
— Gisele Bundchen, ¿fessora?
— Não! Já disse mil vezes: Jean Wyllys! Jean Wyllys!
— Muito capciosa a sua pergunta, fessora…

Enquanto isso, na Itália:
— Nossa, aquele traveco deve ter uns dois metros de altura!
— Ê, Cubão!
— Como?!…
— ¿Tá me estranhando? É o país de origem! O país!
— Ah, é mesmo. São todos de lá. Mas ainda não me acostumei com a mudança. Gostava de Brasil. Soava bem.
— É, mas levaram tanto pau que tiveram de se adaptar…
— Cubão. Quem diria…

Um pouco de Maio, Junho e Julho…

Algumas pessoas não conseguem compreender certos fatos, não porque sejam burras, pois são até inteligentes, mas simplesmente porque lhes falta imaginação. A imaginação é a base da inteligência: o que não é imaginado torna-se impossível e, por isso, impensável. Quando uma pessoa recebe uma informação ou um dado da realidade que não tem eco em sua imaginação, ela não consegue alcançar senão uma “compreensão” verbal dos mesmos. De fato, essa “compreensão verbal” não é compreensão em absoluto. É estar preso a jogos de palavras, é encarar a linguagem como puro flatus vocis: vento sonoro. Para aquele que é incapaz de uma imaginação aprofundada, os conceitos utilizados não possuem substância. O reino do possível (do imaginável) é o primeiro passo em direção aos reinos consecutivos do verossímil, do provável e do verdadeiro. Sem imaginação é impossível escalar a montanha do Entendimento, essa que leva ao cume da verdade. A imaginação é o acampamento base: a fonte de recursos e provisões para a aventura filosófica.

É papel da literatura de imaginação tornar a realidade pensável.

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Engraçado, a Marcha para Jesus foi provavelmente a única manifestação sem a presença de Judas: segundo consta, apesar dos milhares e milhares de participantes, ninguém ali explodiu sequer um estalo de salão.

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Ei, broto, leia com a voz do Roberto Carlos: “São tantas manifestações”.

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Revoltou-se porque não aguentava mais ouvir promessas — então ouviu mais promessas e ficou satisfeito.

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Foi à rua protestar com o coração sincera e legitimamente indignado — mas a cabeça, após uma lavagem cerebral de anos, permanecia dominada.

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Saiu à rua porque não aguentava mais ser enganado — então a resposta do governo o enganou e ele ficou quietinho em casa.

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Sugestão de leitura para esses dias turbulentos: Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, na tradução de Paulo Bezerra.

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Terá lido Tolstói Os Demônios? Irônico como Dostoiévski previu, na figura de Stiepan Trofímovitch, a morte do colega durante uma fuga das mais ingênuas. A única grande diferença é que, enquanto agonizava, e ao contrário de Tolstói, o coitado do professor Vierkhoviénski finalmente compreendeu o sentido do verdadeiro Cristianismo.

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Essas críticas à polícia lembram as críticas ao “bombardeio cirúrgico” dos americanos na guerra do Iraque — o bom-mocismo quer 100% de precisão robocópica em meio ao caos.

Ora, Shit happens

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Mordido por um vampiro, o gigante levanta-se e sofre convulsões — tarde demais, seu sangue já está contaminado…

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Sugestão para cartaz de passeata: “Queremos álcool no Biotônico!”.

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Achávamos que os estádios não estariam de pé a tempo, mas, em vista do vandalismo, parece que serão as únicas construções de pé em 2014.

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Dr Jekyll vai protestar na passeata mas, coitado, não entende por que o vândalo do Mr Hyde tem sempre de quebrar tudo no final…

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A [pontinhos, pontinhos, pontinhos] foi um movimento espontâneo, antigovernamental, que se espalhou por todo o [pontinhos, pontinhos, pontinhos] , aparentemente sem liderança, direção, controle ou objetivos muito precisos. Geralmente é considerada como o marco inicial das mudanças sociais que culminaram com a [pontinhos, pontinhos, pontinhos]. → http://bit.ly/1923VmX

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Não sei por que os gays gayzistas (os gays normais não são melindrosos) estão reclamando da tal “cura gay” — parece que o remédio é um supositório deste tamanho.

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Redes sociais, esse Maelstrom do século XXI.

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Matéria fueda na revista Alfa: “O Cabra Sensível”. Fala sobre como o Bolsa Família retirou o poder dos homens, tornando-os submissos às “patroas”. Como só a mulher recebe a grana (ou em pelo menos 90% dos casos), e como o desemprego está sempre batendo à porta dos homens (graças, é claro, ao próprio governo), nego baixa a cabeça. Ou seja, o Bolsa Família é uma arma contra o “patriarcado” e contra o “machismo”.

Essa gente à sinistra é muito esperta mesmo…

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Faça amigos até os trinta e tantos anos de vida; depois, após longo afastamento, aguarde a morte para revê-los no Céu ou no Inferno.

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Em espanhol, “heder’ significa “feder”, e “hediondo”, “fedido”. Ou seja: todo mundo já sabia que um corrupto é hediondo, os senadores não precisavam colocar isso no papel. (Alguém imagina que Lula seja cheiroso? Ou Sarney? Ou Collor?)

Aliás, segundo Swedenborg, quando um corrupto é levado do Inferno para o Céu como visitante, ele, assim que lá chega, começa a implorar que o levem de volta, pois,no Céu, a verdade se manifesta e ele não consegue suportar o próprio cheiro, acreditando que o Céu é que está fedendo — e então, devido à ignorância, perpetua sua estada nas sociedades infernais, onde as verdades se escondem.

Nós outros, sabedores do problema, tomaremos um banho no Purgatório antes de seguir viagem…

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Estamos em 2013 e você ainda não adquiriu um Kindle, um Kobo ou sequer um Sony Reader — os inventores do papiro e do pergaminho estão lá no Céu de queixo caído, mal podendo crer em tal notícia.

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Quando finalmente ocorreu a Revolução de 1917, a parcela esclarecida da população russa foi pega de surpresa, afinal, esse tal de socialismo era apenas uma conversa fiada dos anos 1840 e 1850. (Sabe, né? Coisa velha em que ninguém mais acredita…)

Se os russos, que respeitavam a literatura, não ouviram Dostoiévski, quantos brasileiros, que desprezam o verdadeiro conhecimento, irão ouvir um filósofo?

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Meu coração, cujo ritmo não é alterado pela seleção brasileira desde 1990, é tão futebolisticamente neutro que eu poderia ser árbitro de um jogo do Brasil. Seria divertido, nego me xingando de traidor para baixo e me ameaçando por causa de uma arbitragem super correta. B^)

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— Gostou do meu batom vinho?
— Hmm, sua maquiadavélica…

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Tarantino, quanto você cobraria para ser DJ numa festa lá em casa?
— Fuck you, you motherfucker!!

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Na verdade — quem poderá negá-lo? — o fígado do Lou Reed foi extremamente tolerante.

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Dominique Venner, que se suicidou ontem na catedral de Notre-Dame, deve ter morrido em vão: somente os islâmicos admiram mártires suicidas.

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A maioria das discussões filosóficas, religiosas e políticas da internet não passa de logomaquia.

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No Houaiss:

logomaquia Datação: 1858

n substantivo feminino
1 discussão gerada por interpretações diferentes do sentido de uma palavra; querela em torno de palavras
2 Derivação: por extensão de sentido.
emprego de termos não definidos num discurso, numa argumentação; palavreado vão
3 Uso: pejorativo.
querela em torno de coisas insignificantes

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Somente um hacker poderia levar a cabo uma efetiva Desobediência Civil: meter um trojan no sistema da Receita Federal que devolvesse a grana dos impostos e tributos diretamente para as contas bancárias dos contribuintes — voilà!

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Aquele cuja fé não repousa senão na imanência e que, mesmo assim, ainda não chegou ao solipsismo, sofre ou de falta de imaginação ou de preguiça de pensar — ou de ambas.

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Esse negócio de acesso biométrico aos caixas eletrônicos significa duas coisas: mais seqüestros relâmpagos e (novidade) ladrões de dedo.

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Verificar os caminhos sem blitz na volta para casa após a balada ainda é a razão mais convincente para se adquirir um smartphone.

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Algumas etnias indígenas acreditavam que a fotografia poderia roubar a alma do fotografado e, com o Facebook, passaram a ter certeza disso.

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Na CNN: nos EUA, ao longo de dez anos três irmãos de nome Castro mantiveram em cativeiro três mulheres — mais cinqüenta anos e teriam igualado o cativeiro imposto a toda uma população pelos irmãos Castro de Cuba.

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Saudade, essa força de gravidade do amor.

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Brazilian Wax → depilação completa dos pelos púbicos que deixa sua genitália lisinha;
Brazilian Tax → depenação completa por parte do poder público que deixa seu bolso lisinho.

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Receita de pavê nerd: quebre ao meio rosquinhas Mabel e coloque-as numa tigela; cubra-as com iogurte do seu sabor predileto; deixe a tigela 1 hora no congelador. Sirva-a para si mesmo enquanto assiste ao The Big Bang Theory.

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Sonhos lúcidos são dez mil vezes melhores que o melhor vídeo game.

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Obviamente, a retirada de cruzes das repartições públicas faz parte do plano de dominação dos vampiros.

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Devia rolar um corredor polonês para os mensaleiros. (Infelizmente, com tantos brasileiros comprados por esmolas oficiais, teríamos de importar os poloneses.)

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— Sabe por que é ruim ser um solteirão? — pergunta ela.
— Por quê?
— Você morre mais cedo…
— Que ótimo! Então não precisarei me suicidar.

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Dizem que Deus é para losers. “Ah, fulano sifu e aí virou crente.” Mas não fracassaremos todos no final? O que é a morte senão o fracasso do corpo?

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Não sei qual ator conseguiu ser mais insuportável: se Cary Grant em His Girl Friday (1940), ou se Tom Ewell em The Seven Year Itch (1955).

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Espero que Dante Alighieri esteja certo e o Inferno seja mesmo uma espécie de zoológico aberto à visitação: caso não lhes seja concedida a Graça, será legal ir dar pipoca para Lula & Cia. E também para esses meninos que matam gente como gente grande. E para pilotos remotos de drone. E para… Puts, a lista é muito grande. Deixa pra lá.

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“De perto, ninguém é normal.” Certo, mas se permitirmos que a norma seja destruída, como saberemos o que é “perto”? Ninguém mais saberá qual é a distância segura e todos pisarão nos calos uns dos outros.

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Segundo Edgar Allan Poe, as quatro condições elementares da felicidade são: a vida ao ar livre; o amor de uma mulher; o desapego a toda ambição; e a criação de uma nova beleza.

No entanto…

« A verdade parece ser que o gênio da mais alta categoria vive num estado de perpétua hesitação entre a ambição e o desprezo por ela.»
Edgar Allan Poe

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O Brasil é um mindfuck.

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Seja ou não um escritor, a vida é sempre você diante do papel em branco.

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Fonte: Meu FB.

Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo

Comunismo = Nazismo

Como colaborador da Wikipédia, fiz uma tradução meia-boca do artigo sobre a “Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo” e da própria declaração, cujo texto propriamente dito é este:

A declaração clama:

1– “levar a toda Europa o entendimento de que os regimes totalitários nazista e comunista precisam ser julgados por seus próprios e terríveis méritos, isto é, por suas políticas destrutivas impostas mediante a aplicação sistemática de formas extremas de terror e a supressão de todas as liberdades civis e humanas, pela eclosão de guerras agressivas e — como parte inseparável de suas ideologias — pelo extermínio e deportação de nações inteiras e de grandes grupos populacionais; e por tudo isso tais regimes devem ser considerados os principais desastres que macularam o século 20”

2– “o reconhecimento de que muitos crimes cometidos em nome do comunismo devem ser considerados crimes contra a humanidade, servindo portanto como um aviso para as gerações futuras, tal como os crimes nazistas foram considerados pelo Tribunal de Nuremberg”

3– “a formulação de uma abordagem comum sobre os crimes dos regimes totalitários, nomeadamente dos Regimes Comunistas, e a ampliação em toda a Europa da consciência relativa a esses crimes comunistas, definindo claramente uma atitude comum para com eles”

4– “a introdução de legislação que dê permissão aos tribunais para julgar e punir os perpetradores dos crimes comunistas e compensar suas vítimas”

5– “garantir o princípio da igualdade de tratamento e não discriminação das vítimas de todos os regimes totalitários”

6– “a pressão europeia e internacional para a condenação efetiva dos crimes comunistas do passado e para a luta eficaz contra os crimes comunistas em curso”

7– “o reconhecimento do comunismo como parte integrante e terrível da história comum da Europa”

8– “a aceitação da responsabilidade pan-europeia nos crimes cometidos pelo comunismo”

9– “o estabelecimento do dia 23 de Agosto, o dia da assinatura do pacto Hitler-Stalin, conhecido como o Pacto Molotov-Ribbentrop, como o dia de recordação das vítimas de ambos os regimes totalitários, os regimes nazista e comunista, tal como a Europa recorda as vítimas do Holocausto em 27 de janeiro ”

10– “atitudes responsáveis dos Parlamentos Nacionais no que se refere ao reconhecimento dos crimes comunistas como crimes contra a humanidade, levando a uma legislação apropriada, e ao monitoramento parlamentar dessa legislação”

11– “o debate público eficaz sobre o uso comercial e político indevido dos símbolos comunistas”

12– “a continuação das audiências da Comissão Europeia sobre as vítimas de regimes totalitários, com vista à elaboração de uma comunicação da Comissão”

13– “o estabelecimento em países europeus, que tenham sido governados por regimes comunistas totalitários, de comitês compostos por peritos independentes, com a tarefa de recolher e avaliar informações sobre as violações dos direitos humanos a nível nacional sob o regime comunista totalitário, com vistas a colaborar estreitamente com um comitê de especialistas do Conselho da Europa”

14– “assegurar um quadro jurídico internacional claro visando um acesso livre e irrestrito aos arquivos que contêm informações sobre os crimes do comunismo”

15– “a criação de um Instituto da Memória e Consciência Europeias”

16– “a organização de uma conferência internacional sobre os crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários, com a participação de representantes de governos, parlamentares, acadêmicos, especialistas e ONGs, com resultados a serem amplamente divulgados em todo o mundo”

17– “o ajuste e revisão de livros de história da Europa para que as crianças possam aprender e ser alertadas sobre o comunismo e seus crimes, tal como são ensinadas a avaliar os crimes nazistas”

18– “o debate amplo e minucioso em toda a Europa da história e do legado comunista”

19– “a comemoração conjunta no próximo ano do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, do massacre da Praça Tiananmen e das mortes na Romênia”

A declaração cita a Resolução 1481 do Conselho da Europa, bem como “resoluções sobre os crimes comunistas adotadas por vários Parlamentos nacionais”. A Declaração foi precedida pela Audiência Pública Europeia sobre Crimes Cometidos por Regimes Totalitários.

Presidente Dilma e sua Rede de Intrigas

Esta inesquecível cena é do filme Rede de Intrigas (Network, 1976):

E esta foi gravada na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, no exato minuto em que a presidAnta Dilma Rousseff fazia seu pronunciamento:

Mais uma, do mesmo dia:

A vida imitando a arte…

E eu já havia escrito sobre isso em 2005.

(Via Blog do Coronel.)

James Shikwati: “Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!”

A entrevista abaixo foi publicada na revista Der Spiegel em 2005, mas, como os equívocos de que trata ainda resistem, volto a postá-la aqui.

Shikwati

Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência

O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.

DER SPIEGEL – Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África…

James Shikwati – Pelo amor de Deus, parem com isso!

DS – Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.

Shikwati – Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.

DS – O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?

Shikwati – Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.

DS – Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.

Shikwati – Mas são os próprios quenianos quem deveria ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU –que é uma agência maciça de “apparatchiks” que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África…

DS – Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados…

Shikwati – … e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.

DS – Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.

Shikwati – Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais –traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.

DS – A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?

Shikwati – É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.

DS – Mas naquela época não existia a Aids.

Shikwati – Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.

DS – E por quê?

Shikwati – A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.

DS – Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.

Shikwati – Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano –uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois–, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.

DS – Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.

Shikwati – Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: “O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos”.

DS – No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas…

Shikwati – … e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha — pelo triplo do preço. Isso é loucura!

DS – … e esperamos que seja uma exceção.

Shikwati – Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.

DS – Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?

Shikwati – No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.

DS – Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.

Shikwati – Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente –e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!

DS – O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.

Shikwati – E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas –que seu exército matou no país vizinho, o Congo.

DS – O que os alemães deveriam fazer?

Shikwati – Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés.

Der Spiegel ,Thilo Thielke
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte:  SPIEGEL Interview with African Economics Expert

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Outro post no mesmo espírito: Ngozi Okonjo-Iweala: “Quer ajudar a África? Faça negócios aqui”.

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