8:21 amSão Paulo, a linguagem e os gritos das mulheres

Eugen Rosenstock-Huessy

(Eugen Rosenstock-Huessy)

Quase todas as civilizações não-cristãs preservam os sinais da irrupção da queixa legal e formal a partir de uivos e gritos naturais e animais. Espera-se que as mulheres contribuam com gritos selvagens, passionais e inarticulados de cego sentimento. Espera-se que os homens construam sobre esse estrato natural a estrutura da linguagem elevada e articulada. Tanto os ritos dionisíacos como os enlutados profissionais entre os judeus dos guetos poloneses cumprem ambas essas funções. As mulheres e as crianças gritam, choram, tremem; os homens agem e falam.
Tal divisão do trabalho parece provar que deparamos, aqui, com importante lei da história: um novo ritual, criado como vitória sobre um aspecto negativo da vida, consiste nos atos e gestos, sons e palavras pelos quais o aparecimento da ordem a partir do caos, da forma a partir da confusão, pode ser revivido todas as vezes que se executa o ritual. A situação negativa anterior torna-se parte do ritual, para que a solução positiva que se segue não fique incompreensível. Rituais cuja pré-história, cuja “irritação” deixa de ser compreensível não nos tocam. A reverência pelo poder humano de falar depende do nosso medo de submergir no estado animal. Em nosso meio, as mulheres podem manipular o discurso tanto quanto os homens. Mas no início de nossa era, e, como eu disse, fora do vital desabrochar cristão, esse não era e não é o caso. Nesses estratos, a espécie humana ainda está ocupada em representar o processo que vai do grito à fala, executando os procedimentos pelos quais essa emergência é alcançada.

O espírito procede, por um lado, na interação entre mulheres e crianças e, por outro, na interação dos homens. Esse é o significado do termo “processo do espírito”. A mente moderna não tem muito uso para esse termo criativo — ela poderia falar de “emergência desde o caos”. No entanto, a palavra “emergência” vai parar longe do ponto central do ritual. Emergimos da água, de um choque, de um feitiço, mas os elementos de que emergimos são deixados para trás. A emergência é um processo natural, e na natureza o indivíduo e o meio ambiente são vistos como entidades separadas. No ritual prevalece a atitude oposta: os gritos são transubstanciados, e a fala procede das origens mesmas: dos sons que compunham os gritos. Por milhares de anos, quando se cometia um assassínio, exigiu-se que os parentes do morto levassem o corpo ante os juizes. Na corte, a queixa era feita tanto pela lamentação das mulheres como pelas acusações verbais do parente mais próximo.

Esse dualismo tornou transparente o ‘concentus’ entre nossa natureza animal e nossa história formal. O homem primeiro gritou e depois falou, porque falar era o primeiro passo para longe do grito. Choros e gritos eram inseridos na cerimônia como medida da linguagem articulada. Tal interação na religião entre grito e nome, entre mulher e homem, representou a reconciliação entre nossa natureza animal e nossa natureza intelectual. Quando Paulo pediu que as mulheres fizessem silêncio na igreja, ele o fez num tempo em que era normal e esperado que as mulheres — as judias como as gentias — emitissem uivos e gritos terríveis, fossem sibilas e bacantes, chorassem passionalmente em cada funeral. Os modernos detratores de Paulo geralmente não têm a menor ideia do que estão atacando. Paulo tornou a linguagem formal acessível às mulheres, libertando-as do fardo do ritual pré-cristão em que derramavam cinzas sobre a cabeça, perfuravam os seios e emitiam longos e profundos gemidos durante muitos dias. Paulo estava diante de pessoas passionais que gaguejavam e tinham ataques ante a recente concessão de liberdade, pessoas que tinham sido obcecadas por espíritos e demônios de seu clã ou família.

A ‘taceat mulier’ [“Que a mulher se cale”] de Paulo lançou os fundamentos de uma nova verdade: de agora em diante, as mulheres poderiam participar da palavra, tanto quanto os homens. E sua ordem foi bem-sucedida. Já não receamos ouvir gritos histéricos na igreja. Nas reuniões religiosas, as mulheres comportam-se tão respeitosamente como os homens. E agora, as mulheres desprezam o reacionarismo de Paulo. Que elas se perguntem a si mesmas se, depois de Hitler, podem negar a existência da natureza animal do homem. Será impossível regredir à histeria? Será incompreensível um ritual que é oficiado pelo espírito e em que nós mesmos nos lamentamos de ter matado o filho de Deus? Se a “histeria” e a natureza animal tivessem desaparecido de todo, já não precisaríamos de ritual. Quando já não nascer nenhuma criança e a última geração viver para sempre, poderemos deixar de lado o ritual. O ritual insiste em que todas as nossas conquistas na história se fazem com base nos fundamentos elementares de nossa origem animal. Na história, portanto, não perdura nada que não seja incessantemente restabelecido. As línguas não “nascem”. O homem tem de aprender a falar, assim como tem de aprender a escrever. A fala da criança e a escrita do aluno não são senão pequenos fragmentos dos poderes conferidos ao homem pelo ritual tribal.

O ritual tribal comunicava religião, lei, escrita e fala. O ritual criou o tempo — como passado e futuro —, o poder — como liberdade e sucessão —, a ordem — como título e nome —, a expectativa — como cerimônia e vestuário —, a tradição — como canto fúnebre e mito do herói. O ritual ligou o homem ao tempo, e isso é expresso pelo termo “religião”. Dedicaremos uma seção especial à tragédia de tais “ligações”. Com efeito, as forças “ligantes” da religião tribal tornaram-se cruéis grilhões. Certamente não estou cego a essa crueldade. O melhor é sempre o berço da mais terrível corrupção. Mas, em primeiro lugar, a tribo deve ser avaliada positivamente, em sua grandeza, isto é, a grandeza de que, afinal, tenhamos aprendido a falar. Os evolucionistas não podem fazer justiça a essa grandeza, já que dão a linguagem por pressuposta. Quem vê emudecer todos os estratos da vida e tudo recair na estupidez ou na guerra civil, admira a realização graças à qual somos capazes de falar. É claro que o perpétuo pro-cessus por que os sons animais se podem transubstanciar em linguagem não foi nem é possível senão quando a alma inteira do homem, macho e fêmea, entra no pro-cessus. Não é importante senão aquilo para que tanto os homens como as mulheres contribuem.

Mas é exatamente esse o caráter do ritual. Ele baseia-se no choque de duas naturezas, a feminina e a masculina, e sobre essa base institui uma ordem que busca perpetuar-se. O ritual representa, incessantemente, a primeira vitória sobre a mudez. O ritual criou uma ordem duradoura, que ultrapassa em muito o momento.

À medida que percebemos a relação entre as horas sagradas do ritual e o longo futuro, podemos compreender outro aspecto da linguagem até agora incompreensível. Invariavelmente, as pessoas pensam que alguém um dia começou a chamar à cabeça “cabeça”, à mão “mão”, e que depois a palavra entrou no dicionário, e passou a ser usada por todos, e todos foram felizes para sempre. O oposto é o verdadeiro. Antes de nossa era, nenhuma palavra entrava em dicionário se não fosse usada em ritual. Então nenhuma palavra era palavra se não tivesse sido dita primeiramente como nome sagrado. Miosótis não eram “miosótis”, juncos não eram “juncos”, carvalhos não eram “carvalhos”, antes de o chefe ou o pajé se dirigirem a eles em ritual público e os convidarem a participar. As pessoas falavam com flores e animais, com fogo e água, com árvores e pedras num ritual, antes que qualquer um falasse deles. Assim, quando alguém falava com eles pela primeira vez em língua humana, recebiam nomes plenos e não palavras vazias.

Os filhotes e sua mãe podem apontar uma noz ou um graveto, podem gritar de alegria brincando com isto ou aquilo, lá e cá. Procuram, aqui e acolá, alimento, brinquedos e armas. Mas nenhum nome resulta de toda essa vida momentânea. O ritual é necessário para criar uma linguagem que atravesse cinquenta ou cento e cinquenta gerações. Essa linguagem é essencial para o ritual. O ritual está para o tempo assim como uma hora ou um dia estão para todo o passado, que o ritual revela com seus nomes, e para todo o futuro, que o ritual vela com seu vestuário cerimonial. O ritual era o mais demorado possível, porque ele encena o “para sempre e sempre”. O ritual cria, presumivelmente, uma ordem duradoura, que vai muito além do momento. A tarefa de formar uma taça de tempo de promessa e cumprimento parecia estupenda. A tribo podia celebrar durante três dias ou uma semana. Mas permanecia o fato de que as reuniões teriam de se dispersar mais cedo ou mais tarde; as pessoas precisavam voltar para casa. O ritual precisava compensar essa perda de continuidade e de presença física. A linguagem e o vestuário tornaram-se, então, os representantes do ritual para o tempo em que a tribo não estivesse reunida. A deficiência do ritual é que, comparados aos espaços de tempo que tenta abarcar, seus próprios procedimentos nunca são suficientemente longos. Em consequência, o ritual teve de criar representações duradouras. E foi tão bem-sucedido nisso, que ainda falamos línguas de seiscentos anos atrás. As línguas são imortais porque tinham por alvo a imortalidade!
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Trecho de “A Origem da Linguagem”, de Eugen Rosenstock-Huessy.

9:19 amComparando personagens de ficção

Nego se espanta com o surgimento súbito dessa enorme quantidade de “reaças” e “coxinhas”, mas é incapaz de perceber que a maioria dessas pessoas não é formada senão por pessoas sensatas a observar os acontecimentos políticos pelo viés do senso comum — que é o mais comum dos sensos. Senso ou sentido comum é aquela bússola moral que nossos bisavós e trisavós nos legaram. É imperfeita e incompleta, mas é a melhor que temos. A mesma bússola que a revolução cultural estimulada por Gramsci e pela Escola de Frankfurt, e espalhada aos quatro ventos pelas universidades do mundo inteiro, vêm tentando destruir nas últimas décadas. Felizmente, como bem mostra Andrew Lobaczewski, toda essa ilusão “ponerológica” tem perna curta. Um Riobaldo sempre será mais sábio que um professor da USP.

8:17 amZen petróleo

Há quem observe a roubalheira da Petrobrás — entre várias outras ladroagens governamentais — e fique quietinho, impassível, acreditando-se um monge zen-budista: “ah, essas coisas materiais não me atingem”. Quem reflete assim não entendeu o zen direito. A ver.
Quando certo mestre zen se deparou com dois grupos de monges brigando a chutes e ponta-pés, perguntou: “O que está acontecendo? Por que estão lutando desse jeito?”. Um deles respondeu: “Mestre, eles estão dizendo que este gato é deles, mas não é verdade, este gato pertence ao nosso mosteiro”. “Que mentira!”, retrucou um outro, “nós já cuidávamos desse gato no ano passado! Vocês o roubaram!”. E a porrada já ia voltar a comer quando o mestre gritou: “Chega!!!! Parem com isso!”, e então se aproximou do monge que mantinha o gato no colo: “Deixe-me vê-lo”. E o outro, de cabeça baixa, deu o gato para o mestre, que, após depositá-lo ao chão, retirou a espada da cintura e — ZAZ! — cortou o gato ao meio: “Pronto, agora cada mosteiro pode levar seu pedaço de gato”.
Quando Monteiro Lobato viajava pelo país com seus sócios, vendendo ações de sua companhia de petróleo a brasileiros comuns, era isso o que ocorria: o gato era distribuído entre todos. Mas, assim que o primeiro poço de petróleo jorrou, Getúlio Vargas o encampou (eufemismo estatal para roubar) e criou o Conselho Nacional do Petróleo, cujo corolário ainda de pé hoje se chama Petrobrás. Repito: Getúlio estatizou todos os poços de petróleo da época. Ou seja: a Petrobrás já nasceu de um roubo, trata-se de um gato morto, uma colagem de pedaços mortos. O melhor a fazer seria privatizar essa merda de uma vez por todas e parar com esse “o petróleo é nosso! o petróleo é nosso!”. Esse slogan foi criado na época de Vargas para justificar a mesmíssima pilhagem, uma vez que boa parte dos brasileiros que vinham comprando ações de empresas de petróleo privadas era imigrante e, por isso, tinha sobrenomes estrangeiros. Se você se tivesse um sobrenome italiano, japonês, alemão, polonês, etc. e tal, já não estaria incluído nesse “é nosso!”. Enfim, cortem logo a porra desse gato e deixem os empreendedores fazer o que sabem: alcançar e distribuir a prosperidade com eficiência e proporcionalidade.

2:24 pmO filho da puta do Brasil e etc.

Ontem, zapeando, esbarrei num trecho do filme “Lula, o filho (da puta) do Brasil”. (Imagine o descaramento: o Paramount Channel exibiu essa joça na Sexta-feira da Paixão!) Há uma cena em que ele fica bravo ao saber das ilegalidades do então presidente do sindicato de que era diretor. Aguardei a claque de risadas, mas não rolou. Por quê? Erro do editor de som? Mistério.

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Quer dar um presente para o pai da Dilma? Dica: “Pastoral Americana”, romance de Philip Roth. Nele fica bastante claro até onde uma figura como nossa presidanta, num país relativamente sadio, pode de fato chegar. (Bastou o tempo e a revolução cultural corroerem a saúde dos EUA para então se chegar ao Obama…)

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“A história moderna é o diálogo entre dois homens: um que crê em Deus, outro que acredita que ele é que é um deus.” Nicolás Gómez Dávila

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— Marisa, minha galega, põe mais água no feijão que o Leonardo Boff tá aí na porta.
— Leonardo Bosta?
— Fala baixo! Quer que ele faiba o que até a gente pensa dele?
— Mas foi você que acabou de chamar ele assim.
— Eu? Mas eu só dife que o Boff tá aí fora.
— Ó! Você falou de novo! Tem bosta lá fora.
— Ah, mulher, vê se te manca!
Lula sai da cozinha pisando firme. Marisa diz em voz alta:
— Uai. Levei tanto tempo para entender esse homem. Não é agora que vou consertar meu ouvido de novo, né.

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Seria legal disparar uma dessas pistolas de brinquedo e, durante um de seus discursos, pregar uma seta de plástico na testa do Stédile.

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ARGUMENTO DA MINHA NOVELA PARA A GLOBO
Estou pensando em escrever uma novela pra Globo. Irá se chamar “O Pinto do Elefante” e as ações serão centradas num circo, o Circo Brasil. O dono do circo terá um caso com o palhaço que o trairá com o leão. O leão comerá qualquer um que entrar na sua jaula. Quem entrar de frente será comido gastronomicamente. (O palhaço só entrará de costas.) A única heterossexual da novela será a mulher barbada, cujo relacionamento romântico com o anão atirador de facas estará no centro da trama. O anão terá no seu trailer vários posters do Tyrion Lannister, seu herói de Game of Thrones, o anão que papa várias mulheres lindas e imberbes. (Não precisa ir ao dicionário: imberbe significa “sem barba”.) Também haverá um triângulo amoroso entre o malabarista, o leão e o elefante. (A cena inicial da novela, que será do horário das seis — para as crianças assistirem — será um boquete do malabarista com o elefante.) No final da novela, sobrarão apenas o palhaço (que se chamará Lula), o leão (que, em homenagem ao conto “Uma paixão no deserto”, se chamará Balzac) e o elefante, que se casarão a três numa paródia de igreja dentro do próprio circo. Os demais personagens serão comidos pelo leão ao longo da trama. (Afinal, apesar de a maioria entrar de costas na jaula, se esquecerá de sair também de costas…) Tudo indica que o folhetim será um sucesso.

2:59 pmA sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande

(À maneira de Chesterton…)

Doutor Pinto pediu licença para ligar seu cigarro eletrônico e se sentou. Indicou a cadeira com a mão, aguardou alguns longos segundos, e nada. O rapaz mantinha-se de pé, do outro lado da mesa, visivelmente desconfortável: era óbvio que jamais estivera diante de um advogado na condição de cliente.

— O senhor não vai se sentar? Por favor, fique à vontade.

Roberto, um sorriso amarelo nos lábios, finalmente se sentou. Então olhou em torno, admirado com os quadros, com os livros na estante, com o aquário de peixes do mar. Devia estar pensando em quanto iria custar aquilo.

— O senhor dizia que pretende processar seus colegas de trabalho. Não vai me dizer o porquê?

— Racismo, doutor.

— Racismo. Certo, certo. Você deve estar se sentindo prejudicado na sua posição, imagino. É preterido nas promoções?

— Preterido?

— Sim, você certamente não recebe a devida atenção e reconhecimento por seu trabalho.

O outro pigarreou:
— Não é isso, doutor. Meu chefe e o dono da empresa também são negros. O problema são meus colegas. Fazem bullying comigo o tempo todo, me perseguem, zoam comigo.

— Você já levou o problema até seu superior?

— Já. Ele disse que eu tenho de parar de sorrir quando mexem comigo, que tenho de dizer que não gosto e pronto.

— E você já fez isso?

— Não consigo. Na hora, sem querer, eu sorrio, sei que estão brincando. Mas depois, em casa, fico relembrando, remoendo. E aí percebo o quanto são racistas, intolerantes e desrespeitosos.

—  Bom, você precisa saber que iniciar um processo é, por assim dizer, uma primeira instância apenas no sentido legal. Em termos de convivência social, é na verdade uma última instância, pra lá da gota d’água.

O rapaz se aprumou na cadeira e, talvez sob influxo de adrenalina, desatou a falar rápida e destemidamente:
— Eu sei o que o senhor está insinuando. Acha que devo conversar com todos eles em particular, ou talvez com todos juntos. Resolver tudo no gogó, tipo, “é conversando que a gente se entende”. Acha que eu preciso ser compreensivo e tolerante como eles jamais conseguiriam ser. Mas o problema é que eu também sei que essa atitude não leva a nada, não vale nada. Meus colegas são pessoas ignorantes, toscas e, se resolverem me poupar, vão acabar indo encher o saco de outra pessoa. Eu acredito que só irão parar com essa palhaçada se algo sério acontecer com eles. Acho que merecem ser processados pelo bem de outras pessoas, de outros negros que já não aguentam mais ser motivo de chacota.

Doutor Pinto franziu o cenho, pensativo. Então, pegando do iPad, abriu um aplicativo para fazer as anotações.

— Ok, senhor Roberto. Vamos começar do começo. O que é que eles fazem para perseguir você?

— Eles me chamam o tempo todo por um nome que odeio.

— Só por um nome? Ou por vários nomes? Apelidos talvez?

— Só por um. Quer dizer, tem um outro também. E depois riem da minha cara minutos a fio. Ficam no meu pé o dia inteiro, às vezes usam esses nomes até diante dos clientes.

— Posso saber que nomes são esses?

— Pode, sim: prompt de comando e cmd.

— Como? Desculpe, eu…

— Prompt de comando.

O advogado, confuso, ficou em silêncio por meio minuto. Então começou a desatarraxar a bateria do cigarro e, ainda cabisbaixo, a trocou por outra.

— O senhor não vai dizer nada, doutor?

— Desculpe, senhor Roberto. É que não faço a mais mínima idéia do que seja um… Prompt de Comando? Ceemedê? É uma sigla? Tem algo a ver com as Forças Armadas?

O rapaz riu:
— Meu Deus, o senhor não sabe o que é um Prompt de Comando?

— Por quê? O senhor vai fazer bullying da minha ignorância?

O rapaz fechou a cara instantaneamente.

— Bom — começou ele, esforçando-se para não iniciar um atrito — o doutor pode por favor abrir esse ultrabook aí? Vou lhe mostrar o que é um Prompt de Comando.

— Então tem a ver com computadores?

— Sim.

— Ah, compreendo. Apesar do cigarro eletrônico, que ganhei da minha esposa, sou um analfabeto tecnológico. Sei apenas ligar as coisas e usar suas funções mais óbvias e banais.

— Eu sei como é, doutor. Lá na empresa, nós trabalhamos com sistemas de informação e, por isso, sei o quanto as pessoas, apesar de usá-las, realmente desconhecem o funcionamento das máquinas. Mas, por favor, ligue seu ultrabook. É mais fácil mostrar do que explicar.

Doutor Pinto abriu, pois, a tampa do computador e acionou o botão. Graças à memória SSD, da qual ele tampouco imaginaria a razão de ser, a máquina ligou em menos de três segundos.

— Agora, por favor, aperte essa tecla com o símbolo do Windows e, em seguida, a letra “r”, de “run”.

— Executar? De inglês eu entendo.

— Isso.

— Pronto. E agora?

— Digite “cmd” nesse espaço aí e aperte Enter.

— Hum. Ok.

Uma pequena janela se abriu no meio da tela. E doutor Pinto ficou aguardando novas instruções, que não vieram.

— O que faço agora?

O outro se irritou:
— O senhor não percebeu, doutor?

— Percebeu o quê, seu Roberto?

— Esse é o Prompt de Comando.

— O quê? Essa janelinha?

— É!

Doutor Pinto franziu os lábios:
— Mas… e daí? O que tem essa janelinha?

— O senhor por acaso está zoando com a minha cara?

Doutor Pinto encarou-o cheio de espanto:
— Eu? Debochando do senhor? Por que estaria? Não o entendo!

— Doutor, essa janela é preta! Pretinha da silva!!

— E…?

— Como assim “e…”? Eles estão me chamando de preto, uê!

— E o senhor por acaso é preto?

— Claro que não! Sou da raça negra!

— Então por que está tão irritado? É como se alguém me chamasse de parafuso e isso me chateasse. O que eu tenho que ver com um parafuso? Nada.

— O senhor está tirando com a minha cara! — explodiu o rapaz.

Doutor Pinto abriu os braços, as palmas das mãos voltadas para cima:
— Juro que não! — e realmente parecia surpreso. — Ora, eu sei que antigamente as pessoas da raça negra odiavam ser chamadas de “negras” e preferiam o termo “preto”, e que hoje ocorre, sei lá por qual razão, justamente o contrário. Mas e daí? Por que o senhor se chateia com isso?

— Eles riem de mim!

— E o senhor sorri de volta.

— De puro nervosismo! —  e deu um tapa na mesa. — Caramba… ¿O senhor não viu como quiseram arrancar a pele do Pelé quando ele…

— A pele do Pelé… Parece nome de documentário.

— Doutor! O senhor está zoando comi…

— Não estou, seu Roberto! Não mesmo! Tenha calma. Por favor, volte a se sentar e se acalme.

O rapaz, mais abatido que irritado, refestelou-se na cadeira. E então, resfolegando, pediu um copo d’água, que a secretária, acionada pelo intercomunicador, apressou-se em fornecer.

— Doutor — voltou a falar, mais calmo —, como eu dizia, o senhor não viu o que fizeram com o Pelé quando ele disse que dava de ombros quando sofria racismo no futebol? Acabaram com ele! A gente não pode ser condizente com essas coisas.

— Desculpe, não passo os dias nas redes sociais, não sei exatamente o que fizeram com o Pelé ou o que disseram dele. Ouvi apenas que estavam bravos com ele. Mas sei muito bem o que ele fez consigo mesmo: é o esportista mais famoso de todos os tempos e um cara rico, de sucesso.

— Isso mostra apenas o quão egoís…

— Seu Roberto — interrompeu-o Doutor Pinto —, deixe-me contar-lhe duas histórias. Posso?

Roberto, apesar de visivelmente contrariado, assentiu com a cabeça.

— Seja sincero, seu Roberto. Você não acha engraçado um advogado cujo sobrenome seja “Pinto Grande”? Veja só! O senhor sorriu. Claro que acha cômico, um tal palavrão, grafado na fachada do meu escritório. Talvez tenha até tido dúvidas ao vir me procurar. Deve ter achado que não me levo a sério. Ou que sou tão bobo que nem percebo a piada embutida nisso. Ou, pelo contrário, que sou tão seguro de mim mesmo que não me incomodo… Pouco importa o que pensou. O fato é que o senhor vem me chamando de doutor, doutor, doutor, mas nem sei se, em algum momento, disse meu nome: doutor Pinto. Quanto mais meu nome completo: doutor João Pinto Grande. E Pinto Grande é realmente meu sobrenome!

Roberto, sem suportar a pressão interna, deu uma profunda risada. Doutor Pinto riu com ele.

— Percebe? Pois então. O senhor tem idéia da quantidade de assédio moral que sofri ao longo da vida? Minha infância e minha adolescência, até minha juventude, foram verdadeiros infernos. Cheguei a odiar meus pais por conta disso. Ironicamente, o Pinto é da minha mãe, e o Grande, do meu pai.

O rapaz caiu na gargalhada. Doutor Pinto, um ar irônico no rosto, altivo, aguardou-o paciente e compreensivamente.

— Desculpe, doutor — disse Roberto, afinal. — Não consegui me segurar.

— Não tem o menor problema. E nem é porque “estou acostumado”. É porque, hoje em dia, adoro meu nome. Enquanto ainda somos imaturos, sofremos com toda sorte de acidentes, de eventualidades, de contingências, de questões secundárias. A maturidade só vem ao fim de muita reflexão, de muita meditação, de muita aceitação. Principalmente da aceitação de nós mesmos. Quando eu era um jovem imaturo, meu nome sempre dificultou, entre outras coisas, arranjar uma namorada. Quando comecei a amadurecer, ele se tornou meu maior aliado nesse quesito! O maior sucesso! Mas estou me perdendo em circunlóquios. Deixe eu lhe contar a primeira história. Quando eu tinha quinze anos de idade, eu pensei em me matar.

Roberto arregalou os olhos e ficou ainda mais atento.

— Eu estudava no colégio Ateneu Dom Bosco —  continuou o doutor — e tinha colegas realmente infernais. Era algo estranho: os padres, ao contrário do que dizem, eram demasiado tolerantes. Na minha época, é verdade, já não havia reguadas, palmatórias ou joelhos no milho. Apenas aconselhamentos dos mais educados. Eu nunca atinava com o porquê de meus perseguidores não sofrerem penas maiores. Nunca receberam sequer uma suspensão! Claro, eu não era dedo-duro, mas esperava inutilmente que as testemunhas do meu contínuo assédio moral tomassem meu partido.

— Ninguém sabe o que vai dentro da gente.

—  Exato! Além de nós mesmos, nenhum outro humano está aqui dentro — e doutor Pinto apontou o próprio coração. — Mas, enfim, voltemos ao meu quase suicídio… Bom, no segundo ano colegial, veio estudar na minha sala um sujeito brutamontes dos mais expansivos, dominadores e territoriais. Era o típico macho alfa que precisava impor a qualquer custo o seu poderio, que precisava humilhar os machos mais fracos e conquistar o resto do bando. Ele não fazia isso por mal, percebi meses mais tarde, quando então nos tornamos amigos. No fundo, era praticamente uma imposição da natureza dele, à qual, com muito custo, ele finalmente aprendeu a dizer “não”. Tornar-se homem, em geral, é um aprender a dizer não à nossa animalidade, à nossa natureza, e não o contrário, como os hippies pensavam. Mas compreenda: esse dizer não… não é um “negar negativo”… — é, sim, um “negar positivo”, um aceitar e um driblar, é um ouvir e entender, mas discordar. No final das contas, você acaba percebendo que acontecem coisas assim e assado com nosso corpo, com nossa mente, que muitos impulsos se impõem, mas, conscienciosamente, tem de dar passagem apenas ao que nos leva ao bom, ao belo e ao justo. A tudo o que não presta, seu bom senso, que é o mais comum dos sensos, deve dizer “não!”.

— Entendo.

— Pois bem. Um dia, eu estava na fila da cantina e esse sujeito veio por trás de mim, colocou uma mão de cada lado dos meus ombros e, como direi?… ele me “masturbou”! Mas entre aspas! Quero dizer, sem encostar em mim senão as mãos, ele ficou friccionando meus braços para cima e para baixo, como se meu tronco fosse um corpo cavernoso e minha cabeça, a glande de um pênis. Enquanto o fazia, berrava: “E aí, Pintããão?!!”. Em volta, todos começaram a rir e a gritar “Pintão! Pintão!”. Tudo parecia ainda mais engraçado porque eu era baixinho e muito magro. Sabe como é, o contraste sempre causa frisson nos espectadores do que quer que seja. Naquele momento humilhante, minha única reação foi fugir da fila e correr para o banheiro. Chorei durante todo o intervalo, dentro de um dos reservados, e ninguém foi falar comigo. Ninguém! Eu era um Pinto Grande solitário.

Roberto sorriu: — Deve ter sido duro.

Doutor Pinto sorriu de volta: — Só quando eu me excito.

Riram juntos.

— Ao longo daquela semana — prosseguiu o doutor — esse cara me… me “cumprimentou” do mesmo jeito todas as vezes que me encontrou nas filas, nos corredores, dentro da sala, na escada, na calçada. Sim, para ele era um cumprimento. E dos mais divertidos! Era seu jeito de dizer “oi, magricela do nome ridículo”. E quem estivesse por perto sempre ria de mim, apontando-me o dedo. É óbvio que fiquei famoso no colégio, popular da pior maneira. Naquela semana de Fevereiro, eu só procurava as sombras, estava sempre me escondendo atrás das colunas, das esquinas dos prédios, das moitas, das árvores. Foi horrível. Já passara a infância toda fugindo do meu nome e agora enfrentava aquilo. Cheguei inclusive a levar um canivete para o colégio na sexta-feira e, quando ele me “masturbou-entre-aspas” de novo, antes da primeira aula, fiquei apertando a lâmina dentro do bolso, com medo e desejo de usá-la. Mas não a usei, o que se mostrou ainda mais humilhante para mim, pois me senti o mais vil dos covardes. No sábado, escrevi uma carta de suicídio, e passei todo o dia com uma lata de veneno no quarto, um veneno que minha mãe usava para borrifar as plantas do jardim. Ficava alternando os olhos entre a lata e o copo, o copo e a lata. Cheguei a escrever que a culpa da minha morte era dos meus pais, por terem me colocado um nome tão burlesco e absurdo. E, obviamente, nada fiz. Sobrevivi ao final de semana. Na segunda-feira, voltei ao colégio como um condenado à forca, resignado. Eu já havia sofrido muito graças ao meu nome, mas aquele gesto estúpido, bruto, daquele cara enorme, era demais para mim, o fim da picada. A humilhação me consumia. Mas… — e doutor Pinto fez uma pausa.

— Mas…?

— Mas uma coisa esquisita aconteceu. Inesperada. Com minha resignação e desamparo, eu parei de prestar atenção aos meus temores e receios, parei de olhar para dentro, e fiquei mais ligado, mais atento ao mundo. Estava tão certo de que tudo se repetiria, que nem sequer me importava mais. Sem saber, eu estava pronto para o que desse e viesse. Na verdade, foi minha primeira disposição desse tipo, a qual eu acabaria por perder e recuperar muitas e muitas vezes, até finalmente conquistá-la integralmente na maturidade.

— Resumindo: o senhor ligou o foda-se.

— Mais ou menos isso. Um “foda-se” acompanhado por uma atenção às coisas, uma contemplação, que me remetia à primeira infância. Sabe, né, aquela atenção cheia de pureza. Bastante semelhante à atitude de um lutador de arte marcial, que não podendo comparar o momento exato da luta ao treinamento prévio, não tendo tempo para rememorar teorias, porque isso o distrairia, tem apenas de reagir convenientemente à situação real.

— O senhor deu uma porrada no cara?

—  Não, nada disso. Eu me entreguei ao momento. Eu estava no corredor que dava acesso à minha sala e, de repente, o sujeito me segurou por trás. E, isso mesmo, me masturbou-entre-aspas pela milésima vez! Em volta, formou-se o público de sempre. Ele gritava: “E aí, Pintãããão?!”. Então aconteceu.

— Aconteceu o quê?

— Sem dar por mim, limpei a garganta e dei uma grossa cusparada.

— Nele?

— Não, ele estava atrás de mim, cuspi para frente.

— Não entendi.

— Tudo bem, eu também não entendi de primeira o tal Prompt de Comando — e o doutor sorriu. — Seu Roberto, o senhor sabe o que ocorre ao final da masturbação, não sabe?

O outro arregalou os olhos, compreendendo:
— Ah, entendi! O senhor gozou-entre-aspas?

— Exato. E todos caíram na mais épica das gargalhadas, percebendo que eu finalmente aderira à brincadeira. E o melhor: meu amigo brutamontes, apesar de também ter rido, ficou nitidamente decepcionado, visto que eu superara sua piada. Depois disso, ele repetiu a cena apenas mais uma vez, e eu voltei a cuspir. Ninguém mais se divertiu com a coisa. Era uma bobagem já batida, ultrapassada. E ele finalmente parou com aquilo.

— E todos pararam de chamá-lo de Pintão.

— Não, isso continuou até a faculdade — e o doutor sorriu, divertido. — Mas, na escola, fiquei com fama de ser alguém engraçado e inteligente, coisas que sempre atraem as mulheres. Tudo porque, em vez de me refugiar dentro de mim mesmo, eu agi naquela situação vendo a cena inteira, e não apenas sofrendo o meu próprio papel. Deixei de ser apenas um personagem e compartilhei a autoria da peça.

O rapaz coçou a cabeça, pensativo. Tamborilou os dedos na mesa. Por fim, disse:
— Bom, não sei exatamente como eu poderia aplicar isso ao meu caso…

— Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, com gente tentando negar, não de forma positiva nossa animalidade intrínseca, mas negar a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

— Hum.

— O que me leva à minha segunda história. Ainda quer ouvi-la?

— Sim, por favor.

— Seu Roberto, eu compartilho de certas crenças religiosas bastante, como dizer?… controversas? Sim, bastante controversas. Sou cristão, mas faço parte de uma linha minoritária… Bem, isso não importa. O que realmente interessa é: por que Deus, se é que o senhor crê em Deus — se não crê, pense de forma hipotética —, por que Deus criou as raças de cor na Terra? Ou melhor, por que Ele teria permitido tal coisa? Eu me refiro a todas as raças de cor: branca, amarela, vermelha, negra, etc.

— Não faço a menor idéia.

— O senhor acha que o mundo seria melhor se não houvesse diferenças de raça?

— Ah, doutor, certeza que sim. Se todos se misturassem, se fôssemos todos mestiços, ninguém iria brigar por causa disso.

Doutor Pinto deu uma longa tragada no cigarro eletrônico. Logo emitiu grandes volutas de vapor de propileno glicol. Ambos observaram aquela pseudo-fumaça por alguns momentos. Vendo que o rapaz permanecia atento, disse:
— Seu Roberto, o senso comum é a média da sabedoria de uma sociedade. É o mais confiável dos sentidos, dos sensos. Mas nem sempre está certo. Nem sempre se confunde com o verdadeiro bom senso, embora tenha o costume de confundir-se com ele e, no fundo, nasça dele. Como já disse, é triste que o senso comum e o bom senso estejam sendo solapados pelas ideologias e besteiras culturais da nossa época. Mas, na verdade, o senso comum é uma bagagem levada de geração em geração, a experiência coletiva, uma bagagem de valores e idéias que deram certo, que costumam ainda dar certo e que certamente, em sua maioria, ainda valerão no futuro. Já o bom senso não é uma bagagem: é o farejar do viajante atento.

— Certo.

— É praticamente senso comum o fato de que, se tivesse existido uma única raça na Terra, do início até agora, jamais teríamos as guerras e conflitos raciais que temos hoje. Mas a verdade é o exato oposto disso: se houvesse uma única raça de cor nesse mundo, o ser humano teria entrado em extinção há mais de 900 mil anos.

— Não vejo o porquê.

— A espécie de hominídeos conhecida hoje como Homo habilis não era ainda propriamente humana. Eram conscientes tais como os animais são conscientes, e isto significa: não eram autoconscientes. Sabiam de certas coisas — o que comer, o que não comer, quando fugir, quando lutar, o que era chuva, noite ou sol e assim por diante — mas não sabiam que sabiam. Tinham consciência de vários fenômenos do mundo, mas não tinham, enfim, consciência de si. O fenômeno “eu” lhes era desconhecido. Entende?

— Sim.

— Foi de um casal de hominídios Homo habilis que nasceu o primeiro casal de gêmeos da espécie Homo erectus. Esse casal fugiu da convivência de seus ancestrais animais — eram muito maltratados por eles — e deram origem à primeira espécie verdadeiramente humana: eles sabiam que sabiam, desenvolveram uma linguagem verbal primitiva e, o que é o mais humano, fizeram uso de seu livre-arbítrio, pois um fragmento de Deus passou a habitar suas mentes. Eles tomaram decisões e, graças a eles, estamos aqui agora.

— Você se refere a Adão e Eva.

— Não, Adão e Eva vieram pra cá milhares de anos depois.

O outro fez uma careta:
— Nossa, isso está muito confuso e não sei aonde você quer chegar.

— Calma. Você não precisa acreditar em mim. Entenda tudo isso apenas como hipótese, como mais uma possibilidade. Ora, os cientistas de hoje não sabem exatamente o que se passou. O que interessa para esta nossa discussão é o seguinte: os descendentes desse primeiro casal, quando centenas de anos depois já chegavam aos milhares, iniciaram lutas tremendas e encarniçadas, quase levando à extinção a primeira espécie verdadeiramente autoconsciente. Foram lutas por poder, por comida, por inveja, por território, por egoísmo, por mulheres, todas essas coisas que motivam os mais baixos instintos dos homens.

— Compreensível.

— Nessa época, ninguém mais confiava em ninguém, seus ascendentes mais antigos, que os fizeram parentes no passado, já haviam morrido, sua memória estava perdida, e todos, apesar de serem semelhantes, viam-se como totalmente distintos. Por analogia: numa terra de cegos, se ninguém nela tem um olho sequer, jamais se saberá que são todos cegos! Um ser de outra terra, dotado de olhos, veria a semelhança, mas eles, os cegos, não. Logo, por não haver razões evidentes para o surgimento da confiança mútua, de um arremedo da fraternidade espiritual, as alianças tornaram-se provisórias e volúveis. E tome guerra sobre guerra! Foi então que, por mandato de Deus, surgiram os primeiros humanos das diferentes raças de cor. Por mutação aparentemente espontânea. Essa nova semelhança, pela cor, não bastaria para gente extremamente sofisticada e avançada, como acreditamos ser hoje, chegar à paz. Mas trouxe a paz dentro dos grupos raciais da época. Havia uma confiança natural dentro de cada raça e a antiga desconfiança, que antes era geral e irrestrita, passou a dirigir-se apenas a outras raças. Percebe?

— Não vou negar: o raciocínio é interessante.

— Bom, foi assim que aconteceu. A guerra geral de todos contra todos tornou-se a guerra de uma raça contra outra e, ao mesmo tempo, e como corolário, veio a migração das diferentes raças pelos continentes. Cada um procurando o seu quadrado. No fundo, ninguém queria briga. Era melhor fazer a trouxa e pegar a estrada. Algumas raças quase desapareceram totalmente nesse processo, restando delas apenas algumas características genéticas transmitidas devido ao contato mútuo. Na verdade, não existem mais raças puras. A maneira como chegamos a isso pode parecer uma coisa terrível hoje, mas esse arranjo foi muito melhor do que nossa extinção. Deus escreve certo por linhas tortas.
Roberto estava pensativo. Os olhos perdidos algures. Por fim, descobrindo-se novamente dentro do escritório de um advogado, endireitou-se na cadeira e soltou um…

— Ufa!… Não foi fácil chegar até aqui.

— Não foi mesmo —  concordou doutor Pinto. — O senhor fala muito bem, seu Roberto, quase como um advogado de sucesso — e sorriu. — É formado em alguma coisa? Ou apenas lê a Bíblia. Pessoas que lêem a Bíblia falam muito melhor do que as demais. João Ferreira de Almeida, Deus o tenha, fez um serviço que foi muito além da salvação das almas.

— Sou formado em Administração de sistemas.

— Ah, é verdade. E o senhor tem economias?

— Bom, doutor Pinto, depois de tudo o que o senhor me disse hoje, eu preciso é ir pra casa pensar melhor. Sei que o senhor é ocupado e deve cobrar um valor elevado pelo seu tempo.

O doutor sorriu:
— Não, não, seu Roberto. Não estou de olho na sua carteira. O senhor é um rapaz inteligente e tenho certeza de que tem suas ambições e projetos. Se o senhor gosta tanto do que faz, e se tem algum dinheiro poupado, devia propor sociedade ao seu chefe. Como vai a saúde da empresa?

Roberto estava aturdido, um sorriso cheio de surpresa estampado no rosto:
— Como o senhor sabe que eu tinha essa idéia na cabeça? Minha namorada, que não é negra, e que por odiar o racismo insistiu comigo a vir recorrer ao senhor, vive me dizendo para propor sociedade ao meu patrão. Ela inclusive quer que eu use, além das minhas economias, as dela. Como o senhor sabia disso?

— O senhor lê códigos binários, seu Roberto. Eu leio pessoas. Eu vi sua expressão quando me disse que seu chefe e o dono da empresa também eram negros… O senhor devia fazer como nossos ancestrais Homo erectus e, enquanto não recebe o dom da plena maturidade — me desculpe, mas o senhor é muito jovem, praticamente um menino —, devia unir-se de forma apropriada a quem julga ser da sua turma. Faça como Pelé, seja um sucesso e vire chefe dos seus antagonistas. Não os processe, não os odeie, apenas jogue a piada de volta sobre eles. Não estou lhe dizendo para ser um racista, estou apenas aconselhando-o a ter senso de humor e jogo de cintura. Mas voltando… como vai a empresa? Está bem das pernas?

— Há muita concorrência, doutor.

— Vocês precisam é de uma eficiente estratégia de marketing. No seu lugar eu iria até seu patrão, mostraria o quanto economizou e proporia sociedade.

— E o senhor acha que isso seria jogar a piada de volta sobre meus colegas?

— Não inteiramente. Eu ainda não concluí. É o seguinte: o senhor tem de propor a sociedade e também sugerir um novo nome para a empresa: Prompt de Comando. Prompt quer dizer imediato, rápido, diligente. Um excelente nome. E uma foto do comando da empresa, com sócios negros, seria uma excelente propaganda.

Roberto deu uma súbita e gostosa risada:
— Doutor Pinto Grande, o senhor é foda!

— Eu sei, meu caro, nomen est omen: nome é destino.

E foi assim que surgiu a bem sucedida empresa de gerenciamento de sistemas Prompt de Comando, com filiais em quatro continentes.

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Leia outro conto: Doutor Pinto Grande e o pedinte do metrô.

9:59 pmCorrompendo um idealista (e outras postagens do Facebook)


(No cartum original, os personagens falam de Maluf, o aliado do PT que, segundo dizem, “rouba mas faz”.)

CORROMPENDO UM IDEALISTA

— Quanto você cobra para se desmoralizar?
— Pra me desmoralizar? Como assim?
— Sim, quanto você cobra para abrir mão do seu senso moral, da sua capacidade de reconhecer a honestidade, de reconhecer um comportamento ético, de buscar a verdade das coisas?
— Ah, tá, pode tirar seu cavalinho da chuva: não estou à venda.
— Nem por um carro zero quilômetro?
— É claro que não!
— E por um milhão de dólares?
— Você está me ofendendo!
— E que tal três fazendas com 5000 hectares cada uma? O hectare está a 3200 reais cada lá na região.
— Não!!
— Hum, já entendi o seu tipo…
— Não sou materialista, eu não me corrompo.
— Humm. Sei, sei… E se eu prometer dar bolsa família para todos os pobres do país, acabar com a fome e a miséria, abrir cisternas para os flagelados da seca, levar médicos para os confins do país, impedir a derrubada de árvores na Amazônia, além de outras coisinhas legais a esse modo?
— Sério? Você faria isso tudo?
— Claro! Contanto que você não se incomode com os MEIOS que irei utilizar para realizar tudo isso…
— Não, não me incomodo. Se é pelo bem! Por que não?
— Ótimo, ótimo. Você já sabe em qual número votar, naquele que dá muita sorte: o número de pessoas sentadas à mesa durante a Santa Ceia.
— Nunca tinha pensado nisso…
— Não importa, seu desejo será realizado, considere-se desmoralizado.
— Obrigado!
— O prazer… é nosso…
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NHENHENHÉM DE DESINFORMADOS

— Nossa, que discurso de ódio! Que belicismo! Isso é só uma eleição: o PT é seu oponente, não é seu inimigo.
— Não, meu oponente é o Aécio e, para você ver como sou democrático e tolerante, votarei nele assim mesmo. Quem se alia às Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, ao Movimiento de Izquierda Revolucionaria, chegando até mesmo a infiltrar militares cubanos entre os Mais Médicos, é que está sendo literalmente belicista. E o PT, mediante o Foro de São Paulo, é aliado arquiprovado dessa gente e de outros tão ruins quanto. Basta ver o que já fizeram com a Venezuela. Procure as atas do Foro no Google, estão todas na internet. Lula e Dilma estão colocando o país à mercê de forças inimigas. Em suma, o PT é realmente um inimigo e não apenas meu: é um inimigo do Brasil.
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ESCRUPULOSIDADE

Neguinho teimoso que não vai votar em ninguém porque “ambos os candidatos são ruins” ou, desculpe o pleonasmo, porque são ambos esquerdistas — e são mesmo, embora a quadrilha da Dilma, graças ao bolivariano Foro de São Paulo, seja muuuuuito mais perigosa —, é como o soldado que, no momento mais decisivo da batalha, lembra-se do Decálogo (“Não matarás!”) e prefira morrer pelas costas como desertor: enquanto ele sonha com suas asinhas de anjo, o exército inimigo avança para foder com sua família e com seu país.
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Aplaudiu a prisão dos Mensaleiros mas vai votar na Dilma: ¿que tal fazer um exame psiquiátrico? (post)

3:25 pmJean Wyllys e a vaca açougueira

Outro dia, vi no YouTube um vídeo no qual Jean Wyllys aparecia caracterizado como Che Guevara, usando até mesmo boina. Logo abaixo, um cara comentou: “Ver o Jean Wyllys vestido de Che Guevara é o mesmo que ver uma vaca vestida de açougueiro”. Sempre que me lembro disso dou risada. Quem for incapaz de compreender tal analogia precisa conhecer Reinaldo Arenas.

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Postei a observação acima no Facebook, a qual recebeu o seguinte comentário de Felipe Stefani:

Relato de Reinaldo Arenas, escritor homossexual cubano, encontrado numa nota do autor ao final do livro “A Velha Rosa/Arturo, a estrela mais brilhante”.

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“Nota do Autor
A dedicatória: “A Nelson, no ar” significa que dedico a meu amigo Nelson Rodríguez Leyva, autor do livro de contos ‘El regalo´, Ediciones R.,1964. Em 1965, Nelson foi internado em um dos campos de concentração para homossexuais – província de Camagüey – , esses campos eram conhecidos oficialmente com o nome de UMAP (Unidade Militar de Ajuda à Produção). Depois de três anos no campo de trabalho forçado, Nelson conseguiu baixa por ‘enfermidade mental´. Desesperado, em 1971, tentou, com uma granada de mão, desviar de sua rota um avião da Cubana de Aviación para a Flórida. Amedrontado e no transe de ser assassinado pelas escoltas militares do avião, Nelson jogou a granada, que explodiu. Mesmo assim, o aparelho aterrissou no aeroporto José Martí, em Havana. Nelson Rodríguez e seu amigo e acompanhante, o poeta Angel López Rabi – de 16 anos – , foram fuzilados.
Nelson deixou inédito um livro de relatos sobre sua experiência no campo de concentração. Esse livro, ao que parece, desapareceu nas mãos das autoridades cubanas. Algumas universidade dos Estados Unidos têm exemplares de ‘El regalo’, um belo livro juvenil.
Uma terceira pessoa, o escritor Jesús Castro Villalonga, que não ia no avião mas conhecia o plano, foi condenado a trinta anos de prisão, pena que ainda cumpre no presídio de La Cabaña, em Havana.
Penso nesse momento em que, granada na mão, sobrevoando a Ilha com seus campos de trabalho e seus cárceres, Nelson sentiu-se livre, no ar, quem sabe pela única vez em sua vida. Daí a dedicatória do livro.
E quanto aos originais deste relato, escrito em Havana em 1971, podem ser consultados na biblioteca da Universidade de Princeton, Nova Jersey.
Nova York, 1984”

7:07 amOs Náufragos – com Yuri Vieira

“Crítica cultural num Brasil que afunda.”

Tomei a liberdade de postar no meu canal do YouTube a entrevista que dei ao programa Os Náufragos, da RADIO VOX, ocorrida no final de 2013. Espero que os novos ouvintes perdoem minha metralhadora vocal que, movida a uma garrafa de café, saiu atropelando palavras e interlocutores.

Temas abordados: Universidade, política, Nietzsche, drogas, ateísmo, cientificismo, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, Olavo de Carvalho, cinema, roteiristas, narrativas, Espelho (meu curta-metragem), contos de fada, Chesterton, vida acadêmica, conselhos aos criadores, conceito de arte, Isaac Bashevis Singer, autopublicação, internet, inamizades, novos autores.

Os Náufragos é um programa da Radio Vox.

12:02 amDireitomeu e Esquerdoleta

Enquanto isso, no centro acadêmico de História:
— Ei! Tira a mão de cima de mim, seu reaça!
— Calma, garota — e sorriu, confiante. — Sabia que eu tenho algo que é meio torto pra esquerda?
— Ah, é? E você sabia que eu sei dar um gancho de direita?
— Tá vendo? A política não é uma barreira. A gente também pode chegar a um consenso…
Minutos depois, no alojamento estudantil:
— E foi assim que eu consegui este olho roxo.
— Que maneiro — admirou-se o amigo.

12:48 pmParafraseando Martin Niemöller

Quando tomaram toda aquela terra, eu calei-me, porque, afinal, eu não possuía terras. Quando eles descuraram a segurança, eu calei-me, porque, afinal, nenhum dos meus familiares sofreu latrocínio. Quando eles transformaram a educação superior em catequese progressista, eu não me importei, porque, afinal, eu já havia me formado e a universidade já não significava nada para mim. Quando eles desapropriaram imóveis nas cidades, eu não protestei, porque, afinal, eu não possuía imóveis. Quando contrataram médicos cubanos especialistas em doutrinação socialista, eu não protestei, porque, afinal, eu não era médico e o socialismo já era coisa do passado. Quando fizeram uma lista negra com jornalistas de oposição, todos conservadores, eu não reclamei, porque, afinal, eu não era jornalista e muito menos conservador. Quando roubaram dinheiro da Petrobrás, não me incomodei, porque, afinal, eu não possuía ações da Petrobrás. Quando indicaram juízes para o STF escolhidos por razões ideológicas, e não por mérito, calei-me, porque, afinal, nunca tive problemas com a justiça. Quando liberaram o uso de drogas apenas para financiar as atividades das FARC, eu não me escandalizei, porque, afinal, não uso drogas e a Colômbia fica longe daqui. Quando demitiram meus colegas cuja visão política era de direita, eu não me comovi, porque, afinal, eu não era de direita. Quando proibiram as orações em ambiente de trabalho, e os crucifixos nas paredes dos escritórios, eu não me chateei, porque, afinal, nunca fui religioso. Quando aumentaram os impostos para 60% do PIB, não me indignei, porque, afinal, não trabalho no setor privado — muito pelo contrário: sou funcionário público, ganho bem, tenho estabilidade, e uma maior arrecadação poderia significar mais aumentos no meu salário. Quando o país finalmente quebrou e eles resolveram colocar todos os idiotas na rua, além de mandar os idiotas que reclamaram para trás das grades, eu me fodi, porque, afinal, quem não era idiota já havia deixado o país e não sobrara mais ninguém para protestar…

Yuri Vieira

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« Em grego, idios quer dizer “o mesmo”. Idiotes, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.»

Olavo de Carvalho

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Para conhecer Martin Niemöller, clique aqui.