Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Psicologia (Página 5 de 7)

O Outsider: o drama moderno da alienação e da criação – Colin Wilson

Colin Wilson

« A obra de T. E. Lawrence introduziu novas implicações em nosso estudo dos “problemas do Outsider”, que ficarão mais claros ao revermos o caminho percorrido até agora. Lawrence tem características em comum com todos os Outsiders que comentamos, e nele podemos ver o ponto para onde alguns deles tendiam.

« Com Barbusse, pudemos ver que o problema do Outsider é o problema da negação da auto-expressão. Isso nos leva a perguntar se o Outsider é, conseqüentemente, um problema meramente sociológico. A introdução, no folheto de H. G. Wells, de um aspecto claramente não-sociológico nos levou, naturalmente, a Roquentin, onde constatamos que o problema é, de fato, metafísico.

« Camus e Hemingway ressaltaram a sua natureza prática. É o problema de viver; o problema de esquema ou finalidade da vida. O Outsider é aquele que não pode aceitar a vida tal como ela é, que não pode considerar sua existência, ou a de qualquer outro, como necessária. Ele vê “muito fundo, e demais”. É ainda uma questão de auto-expressão.

« Em The Secret Life vemos o Outsider separado das outras pessoas por uma inteligência que impiedosamente destrói os valores delas e o impede de se expressar pela incapacidade de recolocar novos valores. Seu problema é de “Vanitatum vanitas” do Eclesiastes; nada vale a pena ser feito.

« O Outsider romântico ampliou a abordagem ao mostrar que o problema não é necessariamente de homens desiludidos. Em um nível diferente, o romântico vive o problema em seu esforço por dar corpo ao ideal romântico. A conclusão de Hesse foi: mais auto-análise, “para atravessar de novo o inferno do ser interior”. O Outsider precisa se conhecer mais. Isso implica o caminho de Roquentin e o caminho de Mersault; o caminho da análise metafísica e o caminho da aceitação da vida física. Mas o fracasso final, tanto de Goldmund como do Magister Ludi, os caminhos da carne e do espírito, nos deixam diante da afirmação de Strowde: Nada vale a pena ser feito, nenhum caminho é melhor do que outro.

« É T. E. Lawrence quem finalmente indica o caminho da saída para o impasse. Os outros aceitaram como um problema de uma única variável, por assim dizer. Um “caminho” precisa ser procurado. A questão “um caminho para quem?” seria respondida por Roquentin ou Strowde: “Um caminho para mim, obviamente”. Lawrence deu um grande passo à frente: “Você não é o que pensa ser”. Em vez de dizer: Nada vale a pena ser feito, dever-se-ia dizer: “Eu não sou digno de fazer qualquer coisa”. A pergunta de Oliver Gauntlett: “Onde está o inimigo?” foi respondida por Lawrence: “Você pensa que é você”. A verdadeira guerra de Oliver é a guerra contra si mesmo. Lawrence estabeleceu a distinção vital em uma sentença: “De fato, não gostava daquele eu mesmo que eu podia ver e ouvir”. “Ele não é ele mesmo”, dissera o professor de Kennington. Lawrence não se divide em duas partes como Haller para depois dizer: “O homem odeia o lobo”. Lawrence odiava o complexo todo de corpo, mente, emoções, e suas idéias a respeito de si mesmo que constituíam uma proteção constante, sufocante, em torno de seus impulsos vitais.

« Esta é uma situação que de forma alguma é desconhecida dos santos e dos místicos; a infelicidade de Lawrence é não ter encontrado, até agora, um biógrafo qualificado para tratar de seus conflitos espirituais. As noções correntes de um “enigma de Lawrence” culminaram com a tentativa feita por Aldington de explicar Lawrence em termos da inadequada psicologia de Freud. Mas o “enigma de Lawrence” foi esclarecido por ele mesmo em The Seven Pillars. O homem não é uma unidade; é muitas. Entretanto, para que qualquer coisa valha a pena ser feita, é preciso que ele se torne uma unidade. O reino dividido precisa ser unificado. A enganosa visão de personalidade que nossa civilização ocidental promove e glorifica aumenta a divisão interior; Lawrence reconheceu isto como sendo o inimigo. Portanto, a guerra contra esta descoberta é, inevitavelmente, uma revolta contra a civilização ocidental.

« O feito de Lawrence nos leva mais adiante ainda. A guerra não deve ser travada pela mera razão. A razão deixa a personalidade à vontade em seu próprio campo. O poder da vontade é imenso quando apoiado pela intenção moral. O único papel da razão é o de estabelecer a intenção moral pela auto-análise. Uma vez definido o inimigo, a vontade pode operar e o limite de seu poder sobre o corpo é só o limite da intenção moral que o apóia.

« Se o nosso raciocínio estiver correto, o problema do Outsider não é novo; Lawrence mostra que a história dos profetas de todos os tempos segue um esquema: nascidos numa civilização, eles rejeitam os seus padrões de bem-estar material e se retiram para o deserto. Quando voltam, é para pregar a rejeição do mundo: a intensidade do espírito contra a intensidade da segurança material. As angústias do Outsider são as dores de dente do profeta. Ele se refugia em seu quarto, como uma aranha num canto escuro; vive sozinho, quer evitar as pessoas. “Para os pensadores do deserto, o impulso para Nitria sempre foi irresistível.” Ele pensa, analisa, “desce dentro de si mesmo”: “Não porque provavelmente encontrassem Deus habitando lá, mas porque na solidão eles ouviam melhor a palavra viva que traziam consigo”. Aos poucos a mensagem emerge. Não necessariamente uma mensagem positiva; e por que haveria de ser, se o impulso que impele para ela é negativo — o desgosto?

« O profeta é um homem de integridade espiritual maior que a de seus semelhantes; a tibieza deles o revolta e ele se sente impelido a dizer-lhes isso. Em seu estágio embrionário como Outsider ele não se conhece suficientemente bem para compreender a força propulsora que está por trás de seus sentimentos. Por esta razão, sua maior ocupação está me pensar e não em fazer. Nos Outsiders de que vamos tratar no resto desde livro, observaremos a emergência do elemento distintamente profético que habita o Outsider.»

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(…)

« Hulme considerava o seu Speculations como um prolegômeno à leitura de Pascal. A minha aspiração, ao escrever este estudo sobre o Outsider, era a de fornecer uma introdução a um campo ainda mais vasto, a um campo limitado por Shaw e Gurdjieff, de um lado, e por um protestante ortodoxo como Kierkegaard, ou um católico ortodoxo como Newman, de outro. Com tal objetivo, de fato cobri boa parte do assunto já brilhantemente tratado no livro de Reinhold Niebuhr, Natureza e Destino do Homem e em várias obras de Berdyaev; devo reconhecer minha dívida para com eles bem como para com os impressionantes ensaios de Eliot sobre o humanismo e a atitude religiosa (dívida, aliás, que tenho em comum com muitos outros da minha geração). Revendo o passado, acho que provavelmente nenhum livro de cem mil palavras poderia atingir este objetivo. Se este livro puder servir de estímulo a uma releitura de Shaw, terá cumprido plenamente sua finalidade. Na época em que este livro foi escrito, Shaw sofria um processo de desvalorização sem paralelos desde o esquecimento de Shakespeare no século XVII. Tal desvalorização de um grande mestre religioso seria o pior sintoma possível de nossa época, não fosse o crescente interesse pelos pensadores existencialistas como Berdyaev, Kierkegaard, Camus. Para que a “nova idade religiosa” de Hulme surja antes que nossa civilização se destrua a si mesma, seria necessário um esforço intelectual de gestação que envolvesse todo o mundo civilizado.»

« Restam ainda muitas dificuldades que não podem ser abordadas aqui. O problema que se coloca para a “civilização” é o da adoção de uma atitude religiosa que possa ser assimilada tão objetivamente quanto as manchetes dos jornais de domingo passado. Para o indivíduo, porém, o problema é exatamente o inverso: o esforço consciente de não limitar a quantidade de experiência vista e tocada; o intolerável esforço de expor as áreas sensíveis do ser ao que talvez possa feri-las; a tentativa de ver como um todo, embora o instinto de autopreservação se debata contra a dor da expansão interior, e todos os impulsos de preguiça espiritual se ergam em vagas de sono a cada nova tentativa. O indivíduo inicia esta longa tentativa como um Outsider; e pode terminá-la como um santo.»
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Trecho de O Outsider: o drama moderno da alienação e da criação, de Colin Wilson.

Henry Miller fala sobre a verdadeira vitalidade

Henry Miller

« UMA DAS coisas que mais impressionam na América, nesta minha viagem, é que os homens promissores, os homens de alegre sabedoria, os homens que inspiram esperança neste período tão desanimador de nossa história, são ou meninos mal saídos da adolescência ou meninos de setenta anos ou mais.

« Na França, os velhos, principalmente os de origem camponesa, são uma alegria e uma inspiração a se imitar. São como grandes árvores que nenhuma tempestade consegue derrubar; irradiam paz, serenidade e sabedoria. Na América, os velhos são, em geral, uma tristeza, principalmente os bem-sucedidos que prolongam sua existência muito além dos termos naturais por meio de respiração artificial, por assim dizer. São horríveis exemplos vivos da arte do embalsamador, cadáveres semoventes manipulados por um séquito de atendentes muito bem pagos que são uma vergonha para a sua profissão.

« As exceções à regra — e o contraste é abismal — são os artistas, e por artistas quero dizer os criadores, independentemente do seu campo de operação. A maioria deles começou a desenvolver, a revelar sua individualidade depois dos quarenta e cinco anos, idade que a maior parte das empresas industriais deste país fixou como o fim da linha. Deve-se admitir, incidentalmente, claro, que o trabalhador médio, que atuou desde a adolescência como um robô, está pronto para a lixeira nessa idade. E aquilo que é verdadeiro para o robô comum é, em grande parte, verdadeiro para o robô mestre, o chamado capitão da indústria. Só sua riqueza permite que ele alimente e mantenha uma débil e oscilante chama. No que diz respeito à verdadeira vitalidade, depois dos quarenta e cinco anos somos uma nação de destruídos.

« Mas existe uma classe de homens resistentes, antiquados o suficiente para se terem mantido asperamente individuais, abertamente desdenhosos da moda, apaixonadamente dedicados a seu trabalho, imunes ao suborno e à sedução, que trabalham longas horas, muitas vezes sem recompensa ou fama, que são motivados por um impulso comum: a alegria de fazer o que bem entendem. Em algum momento ao longo do trajeto eles se destacaram dos outros. Os homens de que estou falando são identificáveis a um mero olhar: seu rosto registra algo muito mais vital, muito mais eficiente, do que a sede de poder. Eles não procuram dominar, mas realizar-se. Operam a partir de um centro que está em repouso. Evoluem, crescem, alimentam só por serem o que são.

« Essa questão, a relação entre sabedoria e vitalidade, me interessa porque, ao contrário da opinião geral, nunca fui capaz de olhar a América como jovem e vital, mas sim como prematuramente envelhecida, como uma fruta que apodreceu antes de ter a chance de amadurecer. A palavra-chave para descrever o vício nacional é desperdício.
E as pessoas que são esbanjadoras não são sábias nem conseguem se manter jovens e vigorosas. Para transmutar energia a níveis superiores e mais sutis é preciso conservar a energia. O pródigo logo fica esgotado, vítima das próprias forças com as quais brincou tão tola e descuidadamente.

« Até mesmo as máquinas têm de ser manuseadas com perícia para se obter delas o máximo resultado. A menos, como é o caso da América, que sejam produzidas em tais quantidades que possamos jogá-las fora antes que fiquem velhas e inúteis. Mas, quando se trata de jogar fora seres humanos, a história é outra. Seres humanos não podem ser desligados como máquinas. Existe uma curiosa correlação entre fecundidade e lixo. O desejo de procriar parece morrer quando o período de utilidade é fixado na prematura idade de quarenta e cinco anos.

« Poucos são os que conseguem escapar do rolo compressor. Sobreviver apenas, apesar das condições, não confere mérito nenhum. Animais e insetos sobrevivem quando tipos superiores são ameaçados de extinção. Para viver além do declínio, para trabalhar pelo prazer de trabalhar, para envelhecer com graça conservando todas as faculdades, entusiasmos e auto-respeito, é preciso estabelecer valores diferentes daqueles adotados pela massa. É preciso um artista para abrir essa brecha na muralha. Um artista é primordialmente alguém que acredita em si mesmo. Ele não reage aos estímulos normais: não é nem um burro de carga nem um parasita. Vive para se expressar e ao fazê-lo enriquece o mundo.

« O homem em quem estou pensando neste momento, o doutor Marion Souchon, de Nova Orleans, não é nada típico. É, de fato, uma curiosa anomalia e por essa razão muito mais interessante para mim. Hoje um homem de 70 anos, cirurgião famoso e bem-sucedido, começou a pintar seriamente com a idade de 60 anos. E não abandonou a prática médica ao fazê-lo. Cinqüenta anos atrás, quando começou a estudar medicina, seguindo os passos do pai, ele instaurou para si mesmo um regime espartano ao qual se manteve fiel desde então.

« Um regime que, devo dizer, lhe permite fazer o trabalho de três ou quatro homens e continuar cheio de vitalidade e otimismo. É seu costume levantar-se às cinco da manhã, tomar um desjejum leve e ir para a sala de operação, depois para o consultório, onde desenvolve seus deveres de funcionário de uma companhia de seguros, responde à correspondência, atende pacientes, visita hospitais e assim por diante. Na hora do almoço, já realizou o trabalho duro de um dia inteiro. Durante os últimos dez anos tem conseguido encontrar todos os dias um tempinho para dedicar à pintura, para ver a obra de outros pintores, conversar com eles, estudar o seu métier como se fosse um jovem de 2 anos que apenas começou carreira. Ele não sai do consultório para um estúdio — pinta no próprio consultório. No canto de uma salinha forrada de livros e estátuas fica um objeto que parece um instrumento musical coberto. No momento em que se vê sozinho, vai até esse objeto, abre-o, e se põe a trabalhar. Toda a sua parafernália de pintura está contida nessa caixa musical negra de aspecto misterioso.

« Quando a luz enfraquece, ele continua com luz artificial. Às vezes, tem uma hora para passar assim, às vezes quatro ou cinco. É capaz de, sem aviso prévio, sair do cavalete e realizar uma delicada operação cirúrgica. O que não é pouco e, no caso de um artista, um procedimento, no mínimo bastante não-ortodoxo.

« Quando perguntei a ele se não pensava fazer da pintura sua única atividade, sobretudo agora que lhe restavam poucos anos pela frente, ele disse que havia rejeitado a idéia porque "Tenho de ter uma outra ocupação para ser variado o grande prazer de trabalhar sem nunca me cansar." Depois de várias visitas, tive a audácia de reformular a questão. Não me parecia possível que um homem tão apaixonado por sua pintura como ele e que, além disso, estava evidentemente tentando concentrar o trabalho de vinte anos em quatro ou cinco, que um homem assim pudesse não enfrentar algum tipo de problema com essa vida dupla ou múltipla. Se fosse um mau pintor, ou um mau cirurgião. Se fosse um mestre numa coisa e um diletante na outra, eu não teria me dado ao trabalho de continuar com o assunto. Mas ele é, reconhecidamente, um dos grandes cirurgiões do seu tempo e, quanto a sua pintura, não há dúvidas, principalmente na opinião de outros artistas consideráveis, de que se trata de um artista sério cuja obra está se tornando dia a dia mais importante, crescendo a uma velocidade assustadora. Ele acabou me confessando que estava começando a se dar conta de que "essa coisa chamada pintar é algo que agita a alma, mexe com a cabeça, absorve tempo, é absolutamente exigente e monopoliza todo o ser da pessoa e acaba por transcender quaisquer outros interesses." "É", acrescentou reflexivo, "tenho de admitir que isso perturbou o ritmo de minha vida, lançou-me em uma jornada inteiramente nova."

« Era o que eu queria ouvir. Se ele não tivesse admitido isso, eu teria formado uma opinião muito diferente dele. Quanto às razões para continuar com sua outra vida, sinto que não tenho nada a ver com isso.

« "Se tivesse a chance de recomeçar sua vida toda de novo," perguntei, "essa vida seria muito diferente da que conhecemos? Você teria digamos, colocado a arte na frente da medicina?"
"Eu teria feito exatamente a mesma coisa de novo," respondeu sem hesitar nem um momento. "A cirurgia era o meu destino. Meu pai foi um cirurgião notável e um exemplo maravilhoso de sua profissão A cirurgia é ciência e arte combinadas e por essa razão, por ora, satisfaz a minha necessidade de arte."

« Fiquei curioso para saber se a preocupação com a pintura havia aguçado o seu interesse pelos aspectos metafísicos da vida. "Vou responder da seguinte maneira," disse ele. "Uma vez que a vida em todos os seus aspectos humanos foi o trabalho de minha vida, pintar veio a ser apenas uma ampliação dessa esfera. O sucesso que eu possa ter tido como médico, atribuo a meu conhecimento da natureza humana. Tratei a mente das pessoas tanto quanto seus corpos. A pintura, sabe, é muito semelhante à prática da medicina. Embora ambas tratem do físico, a sua maior influência e força é, sem nenhuma dúvida, psíquica. A palavra significa para o paciente a mesma coisa que a linha e a forma para o pintor. É quase incrível como uma mera palavra, um ponto ou uma linha podem moldar e influenciar a vida de um indivíduo. Não é assim?"

« No curso de nossa discussão, fiz uma outra descoberta que confirmou minhas intuições e que foi a seguinte: que desde a infância ele tivera o desejo de pintar e desenhar. Quando tinha seus 21 anos, divertia-se fazendo aquarelas. Depois de um lapso de quase trinta anos, passou a esculpir figuras em barro e madeira. Exemplos dessa última direção estavam espalhados por seu minúsculo escritório, todas de figuras históricas pelas quais havia se fascinado no curso de sua vasta leitura. Era uma outra ilustração de sua paixão e dedicação. Como preparação para um giro pelo mundo ele começara a ler história e biografias. Circunstâncias além do seu controle fizeram com que a viagem fosse abortada, mas os livros nas estantes da parede, que ele leu com ardor e empenho, testemunhavam a paixão com que se atira a tudo.

« Homens assim, pensei comigo, ao sair de seu consultório essa noite, são o que há de mais próximo a sábios e santos no mundo profano. Como esses, eles praticam concentração, meditação e devoção. São absolutamente obsessivos ao se consagrar a uma tarefa; seu trabalho, que é puro e descompromissado, é uma prece, uma oferenda que fazem cada dia ao Criador.

«Só no reino ou no domínio em que operam é que diferem das grandes figuras religiosas.»

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Trecho do livro Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller.

Robert A. Johnson fala sobre o amor romântico e o amor divino

Tristão e Isolda

« A tragédia é que Tristão, com todas as possibilidades de vir a ter uma vida de relacionamentos, cercado de calor humano, nega-se o direito de vivê-los. Curiosamente, não há nada que ele precise fazer: só precisa abrir os olhos, despertar para as riquezas que o cercam e vivê-las. Mas essas brumas do idealismo romântico, essa mácula do mundo humano, impedem que ele alcance justamente esse amor que tanto deseja. Ao rejeitar Isolda das Mãos Brancas, ele renova seu pacto com a morte.

« Esse padrão de amor romântico repete-se constantemente na vida das pessoas de hoje. Ao viver um relacionamento ou um casamento, o homem sente-se vagamente insatisfeito: ou a vida não tem suficiente significado, ou ele sente falta da empolgação e do enlevo que sentia antes. Ao invés de compreender que está sentindo a falta do amor divino – a experiência interior da anima, que é de sua própria responsabilidade – ele põe a culpa na mulher. Ela não o está fazendo feliz; ela não é suficientemente boa; ela não realiza os seus sonhos. Apesar de ela lhe dar tudo o que está ao alcance de uma mulher mortal, ele a rejeita e continua procurando Isolda a Bela. Ele sempre pressupõe que em algum lugar, em alguma mulher ou em alguma aventura, irá encontrar Isolda a Bela, e será, então, capaz de possuí-la fisicamente e encontrar nela o significado de sua vida e sua realização. E assim denegrimos o amor humano, assim rejeitamos Isolda das Mãos Brancas, assim renovamos nosso juramento coletivo de "servir a um só amor".

« O amor humano, simbolizado por Isolda das Mãos Brancas, é totalmente diferente daquilo que chamamos de "apaixonar-se". Para o homem, amar segundo a maneira humana do feminino terrestre, significa que ele terá de direcionar seu amor para um ser humano mortal, não para a imagem idealizada que projeta. Significa relacionar-se com uma pessoa de verdade, identificar-se com ela, reconhecer o seu valor e os seus elementos sagrados, tal como ela é, na sua totalidade – com seu lado sombrio, suas imperfeições e tudo aquilo que a torna um ser mortal comum. "Estar apaixonado" é diferente: não é algo direcionado para uma mulher; é algo dirigido para a anima, o ideal do homem: seu sonho, sua fantasia, sua esperança, suas expectativas, sua paixão por um ser interior que ele sobrepõe à mulher exterior.

« Isso explica porque uma parte tão grande deste "amor" entre Tristão e Isolda a Bela é tão inequivocamente egocêntrico. Tristão quer que Isolda sofra, que se junte a ele na sua infelicidade, porque seu amor não está realmente dirigido para Isolda como mulher mortal, mas para si mesmo! Ele está preocupado com as suas próprias projeções, com a sua própria paixão – esta paixão cuja culpa ele joga na poção do amor, mas que ele faz questão de alimentar com sucessivas viagens até Isolda.

« Isolda, de maneira similar, não parece preocupar-se com a felicidade ou com o bem-estar de Tristão. Ela se preocupa em saber se ele a coloca em primeiro lugar, se sua aliança é somente com ela, se ele continuará a representar com ela o drama que a transporta para o "bosque encantado". Eles não estão preocupados com a felicidade ou o bem-estar ou a sobrevivência do outro, mas apenas em renovar a própria paixão, em serem transportados para um lugar mágico, em usar o outro para manter o drama passional em andamento. No final de suas vidas, sua única preocupação é usarem-se mutuamente para se libertarem completamente da terra mesquinha e alçarem vôo para aquele mundo imaginário e mágico, onde "maravilhosos trovadores cantam suas canções eternamente". Na verdade, eles não se amam, usam-se mutuamente para viverem as experiências ardentes e passionais que desejam ter.

« Isto, independentemente de o admitirmos ou não, é o amor romântico. Em Tristão e em Isolda, o egoísmo, o uso do outro para criar a paixão pela paixão, é tão evidente, tão ingênuo, tão infantil, que se torna inequívoco. Mas as nossas próprias versões do amor romântico, dificilmente chegam a ser mais sutis. Simplesmente nunca entra em nossa cabeça romântica que possa existir algo de estranho em procurar um assim chamado "amor" para conseguir a minha realização, para dar vazão às minhas emoções, para tornar realidade os meus sonhos, as minhas fantasias, a minha "necessidade de ser amado", o meu ideal do amor perfeito, a minha segurança, o meu entretenimento.

« Quando genuinamente amamos outra pessoa, trata-se de um ato espontâneo do ser, uma identificação com a outra pessoa que leva a reconhecê-la, a valorizá-la e a honrá-la, que nos leva a desejar a felicidade e o bem-estar dessa pessoa. Nesses raros momentos em que estamos amando, e não concentrados no nosso próprio ego, paramos de perguntar que sonhos vamos realizar através dessa pessoa, que vibrantes e extraordinárias aventuras ela nos irá proporcionar.

« Existem dois casamentos que Tristão precisa fazer. O primeiro é interno, com sua própria alma, com Isolda a Bela. Esse casamento ele precisa fazer indo ao seu mundo interior, praticando sua religião, fazendo seu trabalho interior, vivendo com os deuses desse mundo interior. O segundo é com Isolda das Mãos Brancas, e esse casamento significa uma união com outro ser humano, significa aceitá-la como tal. Significa também fazer outros relacionamentos – fazer amigos por exemplo, e assumi-los como seres humanos.

« Podemos compreender esses dois casamentos como o reflexo das duas naturezas que se misturam dentro do homem: a humana e a divina. Para nós ocidentais, o grande símbolo dessas duas naturezas em integração é Cristo, e as dimensões dessa realidade são expressas de forma perfeita no simbolismo da doutrina cristã da Encarnação. Nela é dito que Deus veio habitar o mundo físico e o redimiu; Deus torna-se humano! As conseqüências dessa crença, tomadas como símbolo, são enormes. Significam que este mundo físico, este corpo físico e esta vida mundana que levamos na terra também são sagrados. Significam que os demais seres humanos têm o seu próprio valor intrínseco: eles não estão aqui meramente para que possamos ver refletida neles nossa fantasia de um mundo mais perfeito ou para que transportem nossas projeções de anima, ou ainda que se juntem a nós na representação de uma alegoria de um outro mundo. O mundo físico, mundano, comum, tem sua própria beleza, sua validade própria e sua próprias leis para serem observadas.

« Existe uma asserção no Zen: "Esta terra – eis o Caminho! "O Caminho para a iluminação, para a alma, não é pelas nuvens, não é pela negação da terra: ele é encontrado dentro desta vida mortal, dentro da simplicidade das nossas tarefas mundanas e dos nossos relacionamentos com pessoas comuns. Tudo isso está expresso na realidade simbólica da Encarnação.

« A Encarnação nos fala do paradoxo de duas naturezas: o amor divino e o amor humano, ambos misturados num único cálice, ambos contidos num mesmo ser humano. A Encarnação nos diz que Deus se fez carne, e o Deus encarnado, Cristo, era ao mesmo tempo humano e divino. Nesta imagem está refletida a natureza dupla do ser humano, os dois amores que, legitimamente, exigem nossa lealdade e a integração que devemos fazer de ambos. Portanto, a Encarnação nos mostra que o mundo divino e o mundo pessoal coexistem dentro de cada ser humano, e é quando as duas naturezas vivem juntas numa integração consciente que uma pessoa se torna um self consciente.

« Independentemente de quais possam ser nossas idéias sobre a Encarnação histórica real, precisamos reconhecer as impressionantes conseqüências do Deus-feito-homem como um símbolo, como um modelo arquetípico arraigado no inconsciente ocidental. É uma realidade psicológica, um princípio unificador que atua em nós de dentro para fora, pouco importando se temos ou não consciência disso. Vamos viver essa natureza dual de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.

« A Encarnação simboliza a integração; a poção do amor simboliza a mistura desordenada. Se admitirmos conscientemente nossa natureza dual, conseguiremos a integração transcendental; se a tomarmos ao acaso, sem consciência, teremos a poção do amor. A história psicológica do Ocidente é esta: na medida em que deixamos de aceitar seriamente a Encarnação, mesmo como realidade simbólica, a verdade da nossa natureza dual é relegada ao underground. Inconscientemente, o amor divino, e todo o paradoxo do amor divino e do amor humano, infiltram-se na poção do amor. É lá que ambos se encontram atualmente, borbulhando num caldeirão de projeções, misturados na sopa do amor romântico.»

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We – A Chave da Psicologia do Amor Romântico, Robert A. Johnson

Eça de Queiroz e as razões de Ulisses ao abandonar a mulher perfeita

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« Era, com efeito, a hora em que homens mortais e deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dele as ninfas, servas da deusa, colocaram os bolos, os frutos, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num trono de ouro puro, a deusa recebeu da intendenta venerável o prato de ambrosia e a taça de néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sede, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando pensativamente o herói, soltou estas palavras aladas:

« – Oh! Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da pátria… Ah!, se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!… Mas desejas voltar à esposa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrelas puras…

« O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como costumava na Assembléia dos Reis, à sombra das altas popas, diante dos muros de Tróia, disse:

« – Oh deusa venerável, não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores de decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congênere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergéis, enquanto tu ao meu lado, pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, a ambrosia divinal. Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio… E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência de deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade; e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a força do meu entendimento! Oh deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que, como deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia de sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais:

« "Foi culpa tua, mulher!", erguendo, em frente à lareira, uma alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!

« Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de ouro vazia e serenamente a deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sobre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.

« No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o mar um vapor rúbido e dourado. Em breve os caminhos da ilha se cobriram de sombras. E sobre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses sem o desejo, e a deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.»

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Trecho do conto A Perfeição, de Eça de Queiroz.

Tudo indica que o salário de Calipso também era maior que o de Ulisses. Sem falar que, ao contrário dele, ela tinha curso superior. Sim, o novo sexo frágil não é tão novo assim…

Albert Camus fala sobre o absurdo e o suicídio

Albert Camus

« Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.

« Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou os que multiplicam por dez toda a paixão de viver, provavelmente só há dois métodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que pode nos permitir aquiescer ao mesmo tempo à emoção e à clareza. Em um assunto simultaneamente tão modesto e tão carregado de patético, a dialética clássica e mais sábia deve, pois dar lugar – convenhamos – a uma atitude intelectual mais humilde e que opera tanto o bom senso como a simpatia.

« O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este se prepara no silêncio do coração, da mesma forma que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma tarde ele dá um tiro ou um mergulho. De um administrador de imóveis que tinha se matado, me disseram um dia que ele perdera a filha há cinco anos, que ele mudara muito com isso e que essa história “o havia minado”. Não se pode desejar palavra mais exata. Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos. O verme se acha no coração do homem. É ali que é preciso procurá-lo. É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.

« Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Os jornais falam freqüentemente de “profundos desgostos” ou de “doença incurável”. Essas explicações são válidas. Mas seria preciso saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não lhe falou em tom indiferente. Este é o culpado. Pois isso pode ser o suficiente para precipitar todos os rancores e todos os aborrecimentos ainda em suspensão.[i]

« Mas, se é difícil fixar o instante preciso, o procedimento sutil em que o espírito se decidiu pela morte, é mais fácil extrair do próprio gesto as conseqüências que pressupõe. Matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la. Mas não nos deixemos levar tanto por essas analogias e voltemos à linguagem corrente. É somente confessar que isso “não vale a pena”. Naturalmente, nunca é fácil viver. Continua-se a fazer gestos que a existência determina por uma série de razões entre as quais a primeira é o hábito. Morrer voluntariamente pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.

« Qual é, portanto, esse sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário à vida? Um mundo que se pode explicar mesmo com parcas razões é um mundo familiar. Ao contrário, porém, num universo subitamente privado de luzes ou ilusões, o homem se sente um estrangeiro. Esse exílio não tem saída, pois é destituído das lembranças de uma pátria distante ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade. Como já passou pela cabeça de todos os homens sãos o seu próprio suicídio, se poderá reconhecer, sem outras explicações, que há uma ligação direta entre este sentimento e a atração pelo nada.

« O assunto deste ensaio é precisamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se tomar por princípio que, para um homem que não trapaceia, o que ele acredita verdadeiro deve lhe pautar a ação. A crença na absurdidade da existência deve, pois, lhe dirigir o comportamento. É uma curiosidade legítima se indagar claramente, e sem falso pateticismo, se uma conclusão de tal ordem exige que se abandone o mais que depressa uma condição incompreensível. Refiro-me aqui, é claro, a homens dispostos a estarem de acordo consigo mesmos.

« Apresentado em termos claros, esse problema pode parecer ao mesmo tempo simples e insolúvel. Mas se supõe erroneamente que problemas simples suscitam respostas que não o são menos e que a evidência implica evidência. A priori, e invertendo os termos da questão, assim como alguém se mata ou não se mata, parece só haver duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Isso seria belo demais. Mas é preciso incluir a parte daqueles que, sem consumar interrogam sempre. Mas, chego, aqui, a ironizar: se trata de maioria. De igual modo, vejo que os que respondem não podem agir como se pensassem sim. Com efeito, se concordo com o critério nietzschiano, eles pensam sim de um modo ou de outro. Ao contrário, acontece muitas vezes que aqueles que se suicidam estavam convencidos do sentido da vida. Tais contradições são constantes. Pode-se mesmo dizer que elas nunca foram tão vivas quanto neste ponto em que a lógica, inversamente, parece tão desejável. É um lugar-comum comparar as teorias filosóficas com o comportamento daqueles que as professam. Mas é preciso ressaltar que, entre os pensadores que não admitiram um sentido de vida, com exceção de Kirílov, que pertence à literatura, de Peregrinos, que se origina da lenda,[ii] e de Jules Lequier, que aventa a hipótese, nenhum conciliou sua lógica a ponto de recusar sua vida. Por zombaria , menciona-se muito Schopenhauer ao fazer o elogio do suicídio ante uma mesa bem fornida. Aí não há nenhum motivo para brincadeira. Esse modo de não levar a sério o trágico não é tão grave, mas acaba por julgar um homem.

« Diante de tais contradições e tais obscuridades, é preciso acreditar, conseqüentemente, que não há nenhuma relação entre a opinião que se pode ter sobre a vida e o gesto que se faz para deixá-la? Nada de exageros nesse sentido. No apego de um homem à vida há alguma coisa de mais forte que todas as misérias do mundo. O julgamento do corpo vale tanto quanto o do espírito e o corpo recua ante o aniquilamento.

« Adquirimos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar. Nessa corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo mantém esta vantagem inalterável. Enfim, o essencial dessa contradição se acha no que denominarei a escapada por ser, ao mesmo tempo, um tanto menos e mais que o entretenimento no sentido pascaliano. A escapada mortal que constitui o terceiro tema deste ensaio é a esperança. A esperança de uma outra vida que é preciso "merecer” ou a trapaça dos que vivem não para a própria vida mas para alguma grande idéia que a ultrapassa ou a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa.

« Assim, tudo contribui para embaralhar as cartas. Não é à toa que até agora fizemos trocadilhos e fingimos acreditar que recusar à vida um sentido conduz necessariamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na realidade, não há nenhuma correspondência obrigatória entre esses dois julgamentos. Apenas é necessário se recusar a se deixar perder no meio das confusões, das dissociações ou inconseqüências até o momento apontadas. É preciso separar tudo e ir direto ao verdadeiro problema. Uma pessoa se mata porque a vida não vale a pena ser vivida, eis sem dúvida uma verdade – improfícua, no entanto, pois não passa de um truísmo. Mas esse insulto à existência, esse desmentido em que ela é mergulhada provém do fato de ela não ter nenhum sentido? Se sua absurdidade exige que se lhe escape pela esperança ou pelo suicídio, eis o que se precisa clarear, perseguir e ilustrar, afastando tudo o mais. É o absurdo que domina a morte: é preciso dar a este problema precedência sobre os outros, fora de todos os métodos de pensamento e dos jogos do espírito desinteressado. Os matizes, as contradições, a psicologia que um espírito "objetivo" sempre consegue introduzir em todos os problemas não têm lugar nessa pesquisa e nessa paixão. O que aí é necessário é tão-somente um pensamento injusto, isto é, lógico. Isso não é fácil. É sempre cômodo ser lógico. É quase impossível ser lógico até o fim. Os homens que morrem por suas próprias mãos seguem assim até o fim a inclinação do seu sentimento. A reflexão sobre o suicídio me dá, então, a oportunidade de tratar do único problema que me interessa: existe uma lógica até a morte? É algo que eu só posso ficar sabendo se perseguir, sem paixão desordenada, e apenas sob a luz da evidência, o raciocínio cuja origem assinalo aqui. É o que chamo um raciocínio absurdo. Muitos chegaram a começá-lo. Não sei se se contentaram com isso.

« Quando Karl Jaspers, ao mostrar que era impossível fazer do mundo uma unidade, escreve que "Essa limitação me conduz a mim mesmo, aí onde eu não tenho como me livrar, um pouco antes, de um ponto de vista objetivo que só faço representar, aí onde nem eu mesmo ou a existência de outrem já não pode se tornar objeto para mim", evoca, além de tantos outros, esses lugares desertos e sem água onde o pensamento atinge os seus confins. Além de tantos outros, sim, não há dúvida, mas sob que pressões para se livrarem disso! A essa última volta, em que o pensamento vacila, muitos homens chegaram, e entre os mais humildes. Esses, então, renunciavam ao que tinham de mais caro e que era sua vida. Outros, príncipes diante do espírito, abdicaram também, mas foi no suicídio de seu pensamento, em sua mais pura revolta que o fizeram. O verdadeiro esforço, ao contrário, é de não ceder o tanto quanto possível e examinar de perto a vegetação barroca desses lugares distantes. A perspicácia e a tenacidade são espectadores privilegiados para o jogo inumano em que o absurdo, a esperança e a morte se alternam nos seus lances. O espírito pode então analisar as imagens dessa dança ao mesmo tempo elementar e sutil, ilustrando-as e revivendo-as ele próprio antecipadamente.»


[i] Não deixemos passar a oportunidade de assinalar o caráter desse ensaio. O suicídio pode, de fato, estar ligado a considerações muito mais honrosas. Por exemplo: os suicídios políticos ditos de protesto na revolução chinesa. [A edição original de O Mito de Sísifo é de 1942: o autor, portanto, certamente ainda não tivera conhecimento do fenômeno Kamikase, que lhe despertaria a atenção para outros, análogos, na civilização japonesa. Sua nota, porém, antecipa a consideração do auto-sacrifício dos bonzos na antiga Saigon, hoje Ho Chi Minh, durante a guerra do Vietnã (N. do T.)]

[ii] Ouvi falar de um rival de Peregrinos, escritor do pós-guerra que, depois de terminar o primeiro livro, suicidou-se com o intuito de atrair atenção para a sua obra. A atenção realmente foi atraída, mas o livro foi considerado ruim.

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O Mito de Sísifo, de Albert Camus.

Thomas Wolfe fala sobre a solidão e seu antídoto, o amor

Thomas Wolfe

« Minha vida, mais do que a vida de qualquer pessoa que conheço, foi passada em solidão e peregrinações. Por que isto é verdade, ou como aconteceu, não sei dizer: mas assim é. Desde os meus quinze anos – exceto por um único intervalo –, tenho vivido uma vida tão solitária quanto é possível a um homem moderno. Quero dizer com isso que o número de horas, dias, meses e anos que passei sozinho descrevem a experiência da solidão humana exatamente como eu a conheci.

« A razão que me impele a fazer isto não é que eu considere meu conhecimento da solidão diferente, em qualidade, daquele dos outros homens. Muito pelo contrário. Toda a convicção de minha vida hoje baseia-se na crença de que a solidão, longe de ser um fenômeno raro e curioso, é o fator central e inevitável da existência humana. Quando examinamos os momentos, os atos, as afirmações de todos os tipos de pessoas – não somente a dor e o êxtase dos grandes poetas, mas também a enorme infelicidade da alma mediana, como fica evidente nas inúmeras palavras estridentes de insulto, ódio, desprezo, desconfiança e escárnio que sempre raspam nossos ouvidos quando a multidão de gente passa por nós nas ruas –, descobrimos, creio, que todas estão sofrendo pela mesma coisa. A causa final da queixa delas é a solidão.

« Se minha experiência de solidão não é diferente da de outros homens em qualidade, acho, no entanto, que ela é mais aguda em intensidade. Isto me dá, portanto, a maior autoridade do mundo para falar sobre o tema, sobre nossa queixa geral, pois acredito conhecer mais sobre isso do que qualquer pessoa de minha geração. Ao dizer isto, estou simplesmente afirmando um fato da maneira que o vejo, embora reconheça que pode soar como arrogância ou vaidade. Mas antes que alguém se precipite nessa conclusão, deixe-me considerar como seria estranho encontrar arrogância em alguém que viveu sozinho tanto quanto eu. A cura mais assegurada para a vaidade é a solidão. Pois, mais do que outros homens, nós que vivemos no cerne da solidão somos sempre vítimas do autoquestionamento. Sempre e sempre, em nossa solidão, sentimentos vergonhosos de inferioridade erguem-se de repente para nos esmagar numa torrente de horror, descrença e desolação; para adoecer e corromper nossa saúde e nossa confiança; para contaminar a própria raiz de nossa alegria forte e exultante. O eterno paradoxo disto é que, se um homem deve conhecer o trabalho triunfante da criação, ele é obrigado a resignar-se em longos períodos de solidão, e amargar a solidão que furta dele a saúde, a confiança, a crença e a alegria, que são essenciais ao trabalho criativo.

« Para viver sozinho como tenho vivido, um homem deveria ter a confiança em Deus, a fé tranqüila de um santo monástico, a invencibilidade implacável de Gibraltar. Sem isto, há épocas em que qualquer coisa, tudo, os incidentes mais triviais, as palavras mais casuais conseguem num instante privar-me de minha couraça, enfraquecer minha mão, apertar meu coração num terror gélido, encher minhas entranhas com a substância cinzenta da impotência arrepiante. Às vezes não passa de uma sombra cruzando o sol; às vezes nada é senão a luz tórrida e turva de agosto, ou a feiúra despojada e o decoro sórdido das ruas do Brooklyn, esmaecendo na paisagem enfadonha daquela luz turva, e evocando a miséria insuportável de prostitutas incontáveis e vidas indefiníveis. Às vezes é apenas o horror estéril do concreto cru, ou então o calor chispando nos milhões de carros que passam disparados pelas ruas tórridas, ou ainda os monótonos terrenos de estacionamentos, cobertos de escória de hulha, ou o estrondo violento, a balbúrdia da Ferrovia Elevada, ou a multidão de gente que caminha pela terra, avançando sempre, numa fúria exacerbada, indo apressada para lugar nenhum.

« Pode ainda ser apenas uma frase, um olhar, um gesto. Pode ser a fria e desdenhosa inclinação de cabeça que um almofadinha contido e afetado da Park Avenue dispensa quando lhe apresentam alguém, como se para dizer: “Você é um nada”. Ou pode ser também uma referência sarcástica, um repúdio por parte de um crítico, numa revista semanal da classe alta. Ou ainda uma carta de uma mulher dizendo que estou perdido e arruinado, que meu talento desapareceu, todos os meus esforços são falsos e inúteis – só porque renunciei à verdade, à visão de mundo e à realidade que tão maravilhosamente pertencem a ela.

« E às vezes é menos que tudo isso – nada que eu possa ver, tocar, escutar ou definitivamente recordar. Pode ser tão vago quanto uma espécie de horrenda atmosfera da alma, sutilmente composta de toda a fome e fúria, de todo o desejo impossível que minha vida já experimentou. Pode, também, ser uma lembrança meio esquecida do vermelho frio e pálido das tardes de domingo de inverno em Cambridge; e de um rosto lívido, estético e sensível, que despertou minha atenção por seu discurso sincero naquela mesma tarde de domingo em Cambridge, dizendo-me que todas as minhas esperanças da juventude eram ilusões lamentáveis, e que minha vida inteira resultaria em nada, enquanto o vermelho da luz pálida de março refletia-se no rosto lívido com uma impotência desoladora, extinguindo instantaneamente de meu sangue todas as paixões da juventude.

« Sob a evocação dessas luzes e dessas atmosferas, dessas palavras frias e desdenhosas, dessa gente cheia de escárnio e afetação, toda a música e alegria do dia esvai-se como uma vela apagada, a esperança me parece perdida para sempre, e toda a verdade que eu já tenha descoberto e conhecido parece-me falsa. Num momento como esse o homem solitário sente que toda a evidência de seus próprios sentidos o traiu, e que nada vive ou se move na terra a não ser criaturas da morte-em-vida – aquelas de corações frios e apertados, de rins doentios, que para sempre existem no vermelho pálido da luz de março e das tardes de domingo.»

(…)

« Então de repente, um dia, por nenhuma razão aparente, sua fé e sua confiança na vida renascem numa maré enchente. Despertam nele com uma força jubilante e invencível, escancarando uma janela na vasta parede do mundo, restaurando tudo em formas de um brilho imortal. Miraculosamente restabelecido e seguro de si mesmo, ele se lança de novo na lida triunfante da criação. Toda a sua velha força lhe pertence de novo: ele sabe o que sabe, ele é o que é, ele encontrou o que encontrou. Vai dizer a verdade que está dentro dele, vai dizê-la nem que o mundo inteiro a negue, afirmá-la nem que um milhão de homens gritem que ela é falsa.

« Num tal momento de triunfante confiança, com este sentimento dentro de mim, ouso agora afirmar que conheço a solidão tão bem quanto qualquer homem, e escreverei agora sobre ela como se ela fosse minha própria irmã, que é. Vou retratá-la para você com tanta fidelidade à sua imagem verdadeira que ninguém que leia isso duvidará de sua fisionomia quando a solidão doravante lhe aparecer.

« A mais trágica, sublime e bela expressão da solidão humana que jamais conheci é aquela que li no Livro de Jó; e a maior e mais filosófica é o Eclesiastes. Devo aqui destacar um fato que diverge tanto de tudo o que me ensinaram a respeito da solidão quando eu era criança, a respeito da tessitura trágica da vida, que quando o descobri fiquei perplexo e incrédulo, duvidando do peso opressor da evidência que se revelava a mim. Mas lá estava ele, tão sólido quanto uma rocha, para não ser removido ou negado; com o passar dos anos, a verdade desta descoberta tornou-se parte da estrutura de minha vida.

« O fato é este: o homem solitário, que é também o homem trágico, é invariavelmente o homem que mais ama a vida – ou seja, é o homem feliz. Nessas declarações não há paradoxo algum. Uma condição implica na outra, e a torna necessária. A essência da tragédia humana está na solidão, não no conflito, quaisquer que sejam os argumentos sustentados pelo teatro. Da mesma forma que o grande escritor trágico (digo “escritor trágico” para distinguir de “escritor de tragédias”, pois certas nações, a romana e a francesa entre elas, não tiveram grandes escritores trágicos; pois Virgílio e Racine não foram senão grandes escritores de tragédia), da mesma forma que o grande escritor trágico – Jó, Sófocles, Dante, Milton, Swift, Dostoiévski – sempre foi o homem solitário, assim também ele foi o homem que mais amou a vida e que teve o mais profundo senso de felicidade. A verdadeira qualidade e substância da felicidade humana encontra-se nos trabalhos desses grandes escritores trágicos como em nenhum outro lugar, em nenhum outro registro da vida do homem sobre a terra. Como prova disso, posso dar aqui uma ilustração conclusiva:

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Marcel Proust fala sobre a leitura

Marcel Proust

« Para nós, que pretendemos discuti-la aqui, em si mesma, sem nos ocupar de suas origens históricas, a tese de Ruskin pode ser resumida de modo bastante exato por estas palavras de Descartes, quando diz que “a leitura de todos os bons livros é como uma conversação com as pessoas mais honestas dos séculos passados e que foram seus autores”. Provavelmente Ruskin não tenha conhecido esse pensamento, aliás um pouco seco, do filósofo francês, mas é ele, na realidade, que encontramos em toda a sua conferência, apenas envolvido num ouro apolíneo no qual se dissipam as brumas inglesas, e semelhante àquele cuja glória ilumina as paisagens de seu pintor preferido. “Supondo, diz ele, que tenhamos a vontade e a inteligência de escolher bem nossos amigos, quão poucos entre nós têm o poder para fazê-lo e quanto é limitada a esfera de nossa escolha. Não podemos conhecer quem queremos… Podemos, com muita sorte, entrever um grande poeta e escutar o som de sua voz, ou fazer uma pergunta a um homem de ciência que nos responderá amavelmente. Podemos usurpar dez minutos de entrevista no gabinete de um ministro, ter uma vez na vida o privilégio de deter o olhar de uma rainha. Contudo, esses acasos fugitivos, nós os cobiçamos, dispendemos nossos anos, nossas paixões e nossas faculdades perseguindo um pouco menos que isso, enquanto, durante esse tempo, há uma sociedade que nos é sempre aberta, pessoas que nos falariam o quanto quiséssemos, seja qual for a nossa posição. Esta sociedade, porque ela é tão numerosa e tão dócil e que podemos fazê-la esperar perto de nós durante um dia inteiro — reis e homens de Estado esperam pacientemente não para dar uma audiência, mas para consegui-la — não iremos jamais procurá-la nestas antecâmaras mobiliadas de modo simples que são as prateleiras de nossas bibliotecas, não escutamos jamais uma só palavra do que teriam a nos dizer.” “Vocês me dirão talvez, continua Ruskin, que se vocês preferem conversar com os vivos é porque vocês vêem os seus rostos, etc.”, e refutando esta primeira objeção, depois uma segunda, mostra que a leitura é exatamente uma conversação com homens muito mais sábios e mais interessantes que aqueles que podemos ter a chance de conhecer à nossa volta. Procurei mostrar nas notas que se seguem a este volume que a leitura não poderia ser assimilada a uma conversação, mesmo com o mais sábio dos homens; que a diferença essencial entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menor sabedoria, mas a maneira pela qual a gente se comunica com eles, a leitura, ao contrário da conversação, consistindo para cada um de nós em receber a comunicação de um outro pensamento, mas permanecendo sozinho, isto é, continuando a desfrutar do poder intelectual que se tem na solidão e que a conversação dissipa imediatamente, continuando a poder ser inspirado, a permanecer em pleno trabalho fecundo do espírito sobre si mesmo.»

(…)

« E nisto reside, com efeito, um dos grandes e maravilhosos caracteres dos belos livros (que nos fará compreender o papel, ao mesmo tempo essencial e limitado que a leitura pode desempenhar na nossa vida espiritual) que para o autor poderiam chamar-se “Conclusões” e para o leitor “Incitações”. Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. Estes desejos, ele não pode despertar em nós senão fazendo-nos contemplar a beleza suprema à qual o último esforço de sua arte lhe permitiu chegar. Mas por uma lei singular e, aliás, providencial da ótica dos espíritos (lei que talvez signifique que não podemos receber a verdade de ninguém e que devemos criá-la nós mesmos), o que é o fim de sua sabedoria não nos aparece senão como começo da nossa, de sorte que é no momento em que eles nos disseram tudo que podiam nos dizer que fazem nascer em nós o sentimento de que ainda nada nos disseram. Aliás, se lhes fizermos perguntas, às quais não podem responder, também pedimos-lhes repostas que não nos instruirão em nada. Porque é um efeito do amor que os poetas consigam fazer com que demos uma importância literal a coisas que não são para eles mais do que significativas de emoções pessoais. Em cada quadro que nos mostram, parecem dar-nos apenas uma ligeira impressão de uma paisagem maravilhosa, diferente do resto do mundo e no coração da qual gostaríamos que eles nos fizessem penetrar.»

(…)

« Este é o preço da leitura e esta é a sua insuficiência. É dar um papel muito grande ao que não é mais que uma iniciação para uma disciplina. A leitura está no limiar da vida espiritual; ela pode nela nos introduzir, mas não a constitui.

« Há, contudo, certos casos patológicos, por assim dizer, de depressão espiritual para os quais a leitura pode tornar-se uma espécie de disciplina curativa e se encarregar, por incitações repetidas, de reintroduzir perpetuamente um espírito preguiçoso na vida do espírito. Os livros desempenham então um papel análogo ao dos psicoterapeutas para certos neurastênicos.

« Sabe-se que, em certas afecções do sistema nervoso, o doente, sem que tenha nenhum de seus órgãos atingidos, é mergulhado numa espécie de impossibilidade de querer, como numa rotina profunda da qual não pode escapar sozinho e na qual acabará por perecer se uma mão poderosa e segura não lhe for estendida. Seu cérebro, suas pernas, seus pulmões, seu estômago continuam intactos. Não têm nenhuma incapacidade real de trabalhar, de andar, de expor-se ao frio, de comer. Mas estes diferentes atos, que ele seria absolutamente capaz de realizar, ele é incapaz de querer realizá-los. E uma degradação orgânica, que terminaria por tornar-se equivalente a uma doença que ele não tem, seria a conseqüência irremediável da inércia de sua vontade, se o estímulo que ele não pode encontrar em si mesmo não lhe viesse de fora, de um médico que queira por ele, até o dia em que sejam pouco a pouco reeducadas suas diversas vontades orgânicas. Ora, existem certos espíritos que poderiam ser comparados a esses doentes e que uma espécie de preguiça ou de frivolidade impedem de descer espontaneamente às regiões mais profundas de si mesmos onde começa a verdadeira vida do espírito. Não basta que sejam conduzidos uma vez para que sejam capazes de descobrir e de explorar as verdadeiras riquezas, que lá subjazem, mas, sem essa intervenção estrangeira, eles vivem na superfície num perpétuo esquecimento de si mesmos, numa espécie de passividade que os torna o brinquedo de todos os prazeres, os diminui até o tamanho dos que os cercam e os agitam, e, semelhantes a este cavalheiro que, convivendo desde a sua infância com salteadores de estrada, não se lembrava mais de seu nome, por ter há muito cessado de utilizá-lo, eles terminariam por abolir em si próprios todo sentimento e toda lembrança de sua nobreza espiritual, se um estímulo exterior não viesse, de alguma forma, reintroduzir força na vida do espírito, no qual subitamente reencontram o poder de pensar por si mesmos e de criar. Ora, este estímulo que o espírito preguiçoso não pode encontrar em si próprio e que deve vir de outrem, é claro que deve recebê-lo no seio da solidão fora da qual, como vimos, não se pode produzir esta atividade criativa que é preciso ressuscitar. Da pura solidão o espírito preguiçoso não pode tirar nada, pois é incapaz de, sozinho, pôr em movimento sua atividade criativa. Mas a mais elevada conversação, os conselhos mais profundos também de nada serviriam, já que essa atividade original, eles não a podem produzir diretamente. O que é preciso, portanto, é uma intervenção que, vinda de um outro, se produza no fundo de nós mesmos, é o estímulo de um outro espírito, mas recebido no seio da solidão. Ora, vimos que essa era precisamente a definição de leitura e que não era conveniente senão à leitura. A única disciplina que pode exercer uma influência favorável sobre estes espíritos é, portanto, a leitura: como queríamos demonstrar, à maneira do que dizem os geômetras. Mas ainda aqui a leitura não age senão sob a forma de um estímulo que não pode de modo algum substituir-se à nossa atividade pessoal; ela se contenta em nos devolver o seu uso como nas afecções nervosas às quais aludimos há pouco, o psicoterapeuta não faz mais que restituir ao doente a vontade de se servir de seu estômago, de suas pernas, de seu cérebro, que permaneceram intactos. Aliás, seja porque todos os espíritos participam mais ou menos dessa preguiça, dessa estagnação nos níveis mais baixos, seja porque, sem que lhe seja necessária, a exaltação que acompanha certas leituras tem uma influência propícia sobre o trabalho pessoal, cita-se mais de um escritor que amava ler uma bela página antes de se pôr a trabalhar. Emerson raramente começava a escrever sem reler algumas páginas de Platão. E Dante não é o único poeta que Virgílio conduziu às portas do Paraíso.

« Na medida em que a leitura é para nós a iniciadora cujas chaves mágicas abrem no fundo de nós mesmos a porta das moradas onde não saberíamos penetrar, seu papel na nossa vida é salutar. Torna-se perigosa, ao contrário, quando, em lugar de nos despertar para a vida pessoal do espírito, a leitura tende a substituir-se a ela, quando a verdade não aparece mais como um ideal que não podemos realizar senão pelo progresso íntimo de nosso pensamento e pelo esforço do nosso coração, mas como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros como um mel todo preparado pelos outros e que não temos senão de fazer o pequeno esforço para pegar nas prateleiras das bibliotecas e, em seguida, degustar passivamente num repouso perfeito do corpo e do espírito.»

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Sobre a Leitura, de Marcel Proust (trad. de Carlos Vogt).

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