10:20 amVintila Horia fala sobre a psicanálise

Vintila Horia

« É evidente que a psicologia, sobretudo a freudiana — e Jung pressentiu-o logo desde o primeiro encontro com Freud — se transformou, com o tempo, numa filosofia, no sentido mais vulgar do termo. O homem para quem “Deus morreu”, como reza o desespero contemporâneo, tem que se refugiar numa algaravia. E aquele que não se quer politizar, ou vender a alma ao diabo, põe-se a acreditar na psicanálise ou nos seus sacerdotes. É todo um culto laico, engendrado por um profeta do século XX, de cuja propaganda se encarregaram, pelo menos ao princípio, as mulheres, como acontece na fase inicial de todas as religiões.»

Vintila Horia, em Viagem aos Centros da Terra.

12:35 pmVirginia Woolf fala sobre a experiência de escrever romances

woolf

« Mas para continuar a história das minhas experiências profissionais, eu ganhei uma libra, dez shillings e seis pence pela minha primeira resenha, e comprei um gato persa com os ganhos. Então tornei-me ambiciosa. Um gato persa até serve – eu disse –, mas um gato persa não é suficiente. E tenho que ter um carro. E foi assim portanto que me tornei romancista – porque é muito estranho que as pessoas dêem a você um carro se você lhes contar uma história. É uma coisa ainda mais estranha que não haja nada tão prazeroso no mundo quanto contar histórias. É muito mais prazeroso que escrever resenhas de romances famosos. E ainda, se for obedecer sua secretária e contar a vocês minhas experiências profissionais como romancista, devo contar-lhes uma experiência muito estranha que me aconteceu. E para entendê-la vocês devem primeiro tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Eu espero não estar revelando segredos profissionais ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser tão inconsciente quanto possível. Ele quer induzir a si mesmo a um estado de perpétua letargia. Ele quer que a vida continue com a máxima quietude e regularidade. Ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas dia após dia, mês após mês, enquanto ele está escrevendo, de forma que nada deve quebrar a ilusão em que ele está vivendo – de forma que nada deve perturbar ou inquietar as misteriosas bisbilhotices, impressões, tiros, golpes e descobertas súbitas daquele mesmo espírito tímido e ilusivo, a imaginação. Suspeito que esse estado seja o mesmo para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês figurem uma menina sentada com uma caneta na mão, que por minutos, e na verdade por horas, ela nunca molha no pote de tinta. A imagem que me vem à mente quando penso nessa menina é a de um pescador imerso em sonhos à beira de um lago profundo, segurando um caniço sobre a água. Ela estava deixando sua imaginação disparar desenfreada por entre todas as rochas e fendas do mundo que ficam submersas nas profundezas do nosso ser inconsciente. Agora veio a experiência, a experiência que acredito ser realmente mais comum com as mulheres escritoras que com homens. A linha correu pelos dedos da menina. Sua imaginação disparou. Buscou as lagoas, as profundezas, os lugares escuros onde cochila o maior peixe. E de repente, um estrondo. Uma explosão. Espuma e confusão. A imaginação havia se lançado contra algo duro. A garota foi despertada de seu sonho. Ela estava na verdade no estado de mais aguda e difícil aflição. Para falar se meias-palavras, ela tinha pensado em algo, algo sobre o corpo, sobre as paixões que para ela, como mulher, não seria apropriado dizer. Os homens, sua razão dizia, ficariam chocados. A consciência do que os homens diriam de uma mulher que falasse a verdade sobre suas paixões havia a despertado do estado de inconsciência da artista. Ela não podia mais escrever. O transe tinha acabado. Sua imaginação não podia mais funcionar. Eu acredito que isto seja uma experiência de fato comum com as mulheres escritoras – elas são impelidas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Porque apesar de os homens sensatamente se permitirem grande liberdade neste aspecto, eu duvido que eles percebam ou possam controlar a extrema severidade com que condenam tal liberdade nas mulheres.»

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Trecho de Profissões para mulheres, discurso proferido por Virginia Woolf na National Society for Women’s Service, em 21 de Janeiro de 1931, disponível neste livro.

1:02 pmViktor Frankl fala sobre a busca de sentido (entrevista)

Primeira parte:

Segunda parte:


Viktor Emil Frankl
(Viena, 26 de março de 1905 — 2 de setembro de 1997) foi um médico e psiquiatra austríaco, fundador da escola da Logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência. Saiba mais.

8:02 amReencarnação: uma paródia da Vida Eterna?

Roda da fortuna

Outro comentário do “Caro Amigo Desconhecido”, aliás, ex-desconhecido, ao menos para mim, já que apenas este ano vim a saber tratar-se de Valentin Tomberg:

« Preparar-se para uma vida terrestre futura, em lugar de se preparar para a Eternidade, vem a ser a cristalização no sentido da formação do ‘duplo etérico’ — do corpo do fantasma — que, por sua vez, poderia servir de ponte entre uma encarnação e outra e constituir o meio de se evadir do purgatório e de se evitar o confronto com a Eternidade. É necessário preparar-se, durante a vida terrestre, para o encontro com a consciência completamente despertada — o que é o purgatório — e para a experiência da Presença do Eterno — o que é o Céu — e não para a vida futura terrestre, o que seria a cristalização do ‘corpo do fantasma’. É mil vezes melhor nada saber sobre o fato da reencarnação e até negá-la do que voltar os pensamentos e os desejos para a vida futura terrestre e ser tentado a recorrer aos meios oferecidos pela promessa da imortalidade feita pela Serpente.»

(…)

« A Serpente do Gênesis não mentiu [sobre o fruto da árvore], ela opôs à imortalidade divina outra imortalidade, a da cristalização de baixo para cima ou da ‘Torre de Babel’. E apresentou programa temerário, mas real e realizável, com vistas a uma humanidade que seria composta dos vivos e dos fantasmas, reencarnando-se esses últimos quase imediatamente e evitando o caminho que leva ao Céu, passando pelo purgatório.»

Em outro capítulo, no qual discorre sobre o arcano “A Roda da Fortuna”, Tomberg fala sobre o Sabbath, mostrando como o “sábado” (o “sétimo dia”) seria uma abertura para a Eternidade na Roda do Tempo, isto é, seria a forma pela qual o tempo cíclico terrestre se transforma na espiral ascendente em direção à Divindade.

É possível, também, fazer uma analogia entre o Sabbath e o Dia Fora do Tempo do Calendário Maya. Colocando à parte os pseudo-esoterismos ligados a esse último, e estudando-o sem preconceitos, torna-se patente sua superioridade em termos de matemática e astronomia. Para o calendário Maya, não são necessários “anos bissextos” para corrigir o desvio padrão na contagem do tempo. O calendário leva em conta o movimento das galáxias, apresentando o transcorrer do tempo como uma espiral e não como um círculo fechado. O Dia Fora do Tempo é o dia que não pertence nem ao ano passado nem ao ano novo; é aquele dia em que o círculo se abre dando início a um novo anel na espiral. No entanto, esperar que esse simples fato matemático abra automaticamente a mente do ser humano à Eternidade não passa de ingenuidade. É necessário uni-lo ao simbolismo do Sabbath, é necessário uma intencionalidade, uma abertura voluntária. Tal como afirma o Livro de Urântia, “a sobrevivência eterna da personalidade depende inteiramente da escolha da mente mortal, cujas decisões determinam o potencial de sobrevivência da alma imortal”.

Em suma: quem não se dedica regularmente à meditação ou adoração de Deus, corre o risco de ficar preso no Eterno Retorno do tempo terrestre, espiritualmente estagnado. Aliás, se você for católico e, por isso, achou estranha a afirmação de que a reencarnação é um fato, devo lembrá-lo(a) que o trecho acima foi retirado do livro Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, publicado pela Paulus Editora, com prefácio do teólogo Hans Urs von Balthasar, amigo de Joseph Ratzinger (Bento XVI). (Veja o livro na mesa de João Paulo II.) Apenas isso já dá o que pensar…