8:21 amA mortadela dos nazistas

Há um documentário interessantíssimo no Netflix dividido em episódios: Nazi Secret Files. Por enquanto assisti a dois episódios: um sobre o uso de drogas pelos nazistas e outro sobre o messianismo hitlerista. (Eu já estava a par de muitos detalhes desse messianismo graças ao livro “O despertar dos mágicos”, de Pauwels e Bergier. Mas, sim, o documentário acrescenta novas descobertas.)

Ao final da Primeira Guerra, Hitler estava entre os milhares de soldados traumatizados. (Imagine: lutar com táticas do século XIX contra armas do século XX! Isso não podia acabar bem… Marchar contra metralhadoras e armas químicas não é o mesmo que marchar contra rifles carregados pela boca que disparam uma única carga por vez… E ainda não havia tanques de guerra para proteger o avanço das tropas… Enfim…) Seu trauma se manifestou como cegueira psicológica e, por isso, após exames, Hitler foi diagnosticado como “psicopata histérico”, que é uma forma da psicopatia na qual o doente, além do comportamento patológico, também somatiza sua afecção psíquica. (Antes da Segunda Guerra, Hitler “suicidou” o médico responsável pelo diagnóstico e deu fim aos arquivos referentes à sua doença.)

Durante o governo nazista, outro fato estranho se deu: boa parte da população alemã se viciou em Pervitin — parece Pervertidim, mas é Pervitin mesmo — uma droga cuja fórmula viera do Japão e que podia ser encontrada em qualquer farmácia, sendo consumida como uma espécie de… Red Bull. Sabe como é… melhora o ânimo, torna a pessoa mais concentrada, focada, sem qualquer cansaço e, por fim — o Red Bull não chega a tanto —, psicótica! Mas era vendida em pílulas. E não era outra coisa senão o produto que Walter White (Breaking Bad) tornou famoso: Crystal Meth, a metanfetamina. Quando a Segunda Guerra começou, todos os soldados recebiam, juntamente com sua ração diária, um tubo de comprimidos de metanfetamina. O próprio Hitler, que sempre acordava deprimido, só saía da cama após receber de seu médico particular uma injeção de metanfetamina. Agora me diga: ¿o que resulta da mistura de um psicopata histérico com crystal meth? Resposta: Hitler.

Os europeus não conseguiam entender o Blitzkrieg, a “guerra relâmpago”: ¿como aqueles milhões de soldados nazistas podiam marchar incansavelmente horas a fio, quase sem dormir, e ainda atacar seus inimigos de modo tão feroz e implacável? Resposta: messianismo turbinado com metanfetamina. Foi a mais louca das guerras, uma bad trip… afinal, após o uso prolongado, a metanfetamina cobra seu preço: os viciados se convertem em zumbis paranóicos! Eis outro fator que, unido a tantos outros, explica o fracasso alemão…

No final desse episódio (Nazis On Drugs), eu só pensava numa coisa: temos de agradecer ao PT que, em vez de metanfetamina ou cocaína das FARC, provê seus sequazes apenas de pão com mortadela…

P.S.: Agora já dá para entender de onde saiu isto.
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7:12 amMinha avó e o caso da jararaca

Minha falecida avó materna, uma camponesa típica, costumava narrar um curioso caso sobre um peão mordido por jararaca. Ele trabalhava no pasto, sol à pino, quebrando cupinzeiros com um enxadão, quando, ao abaixar-se para arrancar ao chão um último pedaço de cupinzeiro, de um buraco de tatu lhe deu o bote uma jararaca, mordendo-o na mão esquerda. Preso por instantes nesse transe, nesse dilema de saber que, caso fizesse torniquete, perderia a mão por gangrena, caso não fizesse, morreria, decidiu então, imbuído da praticidade de homem do campo, tomar do facão que trazia à cintura e, num golpe certeiro, decepou a própria mão envenenada, envolvendo o cotoco resultante num lenço. Não satisfeito — seu desapego com as coisas do mundo lhe exigia um ato brioso —, abaixou-se, pegou com a direita a mão esquerda pelo indicador, girou-a por sobre a cabeça para lhe dar impulso, e a jogou longe. Pronto: esse problema agora era passado. E só então matou a cobra…

Não se esqueça: aquilo que a jararaca morde apodrece e, por isso, tem de ser extirpado. Se não o for, morre o corpo inteiro.

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P.S.: Como bem lembrou o amigo Paulo Briguet, escritor paranaense: “E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena.” (Mt 5,30)

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4:53 pmAuto-humilhação petista

O sujeito que lê, entre muitíssimos outros, os livros República (Platão), Os Demônios (Dostoiévski), O que há de errado com o mundo? (Chesterton), A teoria da exploração do socialismo-comunismo (Böhm-Bawerk), O Homem Revoltado (Camus), A Invasão Vertical dos Bárbaros (Mário Ferreira dos Santos), Advertência ao Ocidente (Soljenítsin) A Nova Era e a Revolução Cultural (Olavo de Carvalho) e Ponerologia: Psicopatas no Poder (Lobaczewski), e que mesmo assim continua sendo um petista, um progressista, um comunista ou um revolucionário político qualquer, certamente sofre de analfabetismo funcional (e merece por isso nossa compaixão, haja vista o estado de decrepitude da educação brasileira) ou então de um tipo qualquer de psicose (e por isso devia recorrer a algum tipo de psicoterapia). Se é alguém que se recusa a ler livros desse gênero — livros que falam à inteligência, e não ao coração mediante ideologias irracionais e absurdas —, então o sujeito é apenas um fanático. Ou um preguiçoso. Se for um fanático, podemos compreender seu apoio a um oclocrata como Lula: é o que se espera de fanáticos, isto é, a paixão imune a toda prova em contrário, a todo fato, avessa à própria estrutura da realidade. Fanáticos políticos lêem apenas os catecismos da sua fé ideológica, prendendo-se a superstições tais como o socialismo e o comunismo. É até compreensível, embora deplorável. Por outro lado, se o sujeito for simplesmente um preguiçoso, do tipo que não lê sequer um best-seller ao ano, deveria evitar o vexame e parar de bater no peito, escrevendo aqui e ali, mal que mal, seus nonsenses político-econômicos e suas bravatas de sequaz. A defesa do maior bandido que este país já teve no governo não merece a auto-humilhação e a vergonha de quem devia estar simplesmente curtindo a vida.

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11:56 amEducando para a guerra

Certa vez, durante meu intercâmbio no Equador, iniciei sem querer-querendo uma tremenda polêmica em sala de aula. Era uma aula de geografia e, enquanto o professor discorria sobre as riquezas naturais do país, eu encarava incrédulo o mapa estampado no meu livro: nele, o rio Amazonas iniciava no Equador! Eu, que sempre fui um CDF, não conseguia compreender semelhante equívoco. Lá pelas tantas, levantei a mão e indaguei ao licenciado — no Equador, você sempre se dirige aos professores pelo título — indaguei se aquele livro estava atualizado. Respondeu que “sí” e me perguntou o porquê.

— Uê, licenciado, porque, neste mapa, o rio Amazonas começa no Equador, e isso não é verdade. O Amazonas começa no Peru.

Eu pensei que estava sendo útil, pensei que estava a corrigir o material didático do colégio, mas os olhares reprovadores de boa parte dos meus colegas, além da expressão de espanto do professor, indicavam um grande mico da minha parte.

— Senhor Vieira, o livro está certo: esse território pertence, sim, ao Equador. O Protocolo do Rio de Janeiro, de 1942, foi uma afronta ao nosso país. O Brasil, a Argentina, o Chile e os Estados Unidos, signatários do Protocolo, e anos depois a ONU, podem achar que o problema ficou no passado. Mas essa região, além de oferecer uma saída para o rio Amazonas, é rica em petróleo, e futuramente voltará a fazer parte do Equador.

Arqueei as sobrancelhas: — Então estou certo: não faz parte do Equador.

— Se um ladrão rouba o carro do seu pai e você o encontra na rua, ¿o que você diz? ¿”Olha lá o carro do ladrão”?

Finalmente compreendendo onde havia me metido, engoli em seco: — Não. Digo que é o carro do meu pai.

— Estamos conversados — concluiu, e me virou as costas voltando ao quadro negro.

Depois da aula, fui rodeado por vários colegas que me explicaram a situação: o Equador jamais engoliu o resultado da guerra ocorrida com o Peru entre 1941 e 1942. Tanto que, no início dos anos 1980, houve alguma escaramuça. Alguns estudantes, com ar patriótico, me diziam que aquilo iria ser corrigido muito em breve. Outros, como quem diz “ah, essa mania de guerra!”, sorriam cinicamente: não estavam nem aí para aquela história. Entre esses estava Paul Segovia, um sujeito engraçadíssimo, músico multi-instrumentista, um talento nato, que na época atuava no grupo de música andina Siembra, mas que, anos mais tarde, sem que eu me inteirasse daqui do Brasil, haveria de tornar-se o mais bem sucedido vocalista de rock da história do Equador, uma espécie de Jim Morrison local, que, tal como o americano, também morreria jovem, no ápice da carreira, de causas nebulosas.

Oye, hermano, não dê atenção a esses tromposos! Isso tudo é só desculpa para o Exército encher el culo de plata. Não vai ter guerra nenhuma. É mais fácil o Cotopaxi entrar em erupção do que rolar novamente outra briguinha com o Peru. E o Cotopaxi está dormindo desde 1904!

Naquela ocasião, concordei com Paul: já não vivemos numa América do Sul afeita a guerras. Claro que não ocorreria nada. Nem com o Peru nem com o Cotopaxi, vulcão que eu escalaria meses mais tarde. Tínhamos certeza de que tudo não passava de cara feia de professor e de desenhozinho de livro. Bem… no fundo, nós apenas gostávamos de acreditar nessa paz continental tanto quanto gostávamos da paz telúrica do vulcão. A marcha da história e a marcha da Terra, porém, não seguem os desejos humanos: cinco anos após meu retorno ao Brasil, uma nova guerra estourou entre os dois países, a Guerra de Cenepa, e, anos mais tarde, em 2015, o Cotopaxi entrou em erupção. A geração que conheci já vinha sendo preparada para esses acontecimentos havia anos. (Eu mesmo participara de simulações de evacuação, em caso de erupção vulcânica, promovidas pela defesa civil de Latacunga.) Quanto à guerra, ¿de que adianta um punhado de espertos acreditarem que nada de mais há de ocorrer quando todos os jovens do país estão sendo doutrinados? De resto, ¿você sabia que as crianças do Brasil estão sendo preparadas para uma guerra cultural? As guerras sempre começam no gabinete de algum intelectual, do contrário não estariam em livros didáticos antes de surgir no horizonte. ¿Você sabe o que andam ensinando às crianças brasileiras? Se não sabe, melhor pesquisar. Nós, escritores, já a estamos lutando. Como bem escreveu Louis Pauwels: «O público em geral não sabe que estamos em guerra civil nos meios da cultura. Contudo, o resultado dessa guerra determinará o destino cotidiano».

11:48 amParece, mas não estou

Quem costumava visitar diariamente este blog — e também meu antigo blog, O Garganta de Fogo (2002-2008) — deve estar achando que parei de escrever, que já não estou atento aos acontecimentos do nosso especialíssimo momento político e cultural, que morri, e assim por diante. Sim, numa simples visita, pode até parecer que estou alheio, mas não estou. Muito embora Zuckerberg fique com toda a plata publicitária, a questão é que, para quem costumava publicar posts para vinte ou cinqüenta leitores por vez, a publicação no Facebook se mostrou um melhor negócio: juntando amigos, seguidores e curtidas na página, lá no Facebook, ao menos seis mil pessoas têm acesso instantâneo aos meus textos.

Enfim, apesar disso, em respeito ao trabalho iniciado anos atrás, tentarei, aos poucos, ir atualizando este blog com postagens do meu perfil pessoal e da minha página. Por isso peço que não se chateie caso alguns artigos pareçam datados: no Facebook surgiram na crista da onda.

E obrigado pela insistência em vir procurar meus textos aqui. O contador de visitas, ao contrário do que eu mesmo acreditava, prova que este blog está bastante vivo.

12:06 pmLula: ministro da quadrilha e da corrupção

Ministrar é servir. Alguém duvida de que Lula e Dilma possuem o grau de cinismo e o grau de desonra necessários para que ele se sirva do cargo apenas para fugir à justiça? O ministério como fuga… Um sujeito sem escrúpulos como Lula mereceria uma prisão preventiva. Solta, a serpente arma um pandemônio (pandemônio é o melhor termo) para escapar da prisão.

E os lulistas são tão cínicos quanto. Se realmente estivessem preocupados com uma suposta “injustiça” da parte do juiz Moro, estariam agora mesmo protestando contra a sentença de Marcelo Odebrecht. Mas, pobre menino rico: Odebrecht não é um “deles”, não é um “excluído”, um “explorado”, um “operário”. Foi apenas usado como idiota-útil para garantir o financiamento da revolução continental do Foro de São Paulo. Alguém realmente consegue imaginar os mortadelas do MST protestando contra a prisão do empresário? Ora, ele não é um camarada? Um companheiro? Bem, a questão é que a ideologia dos sem-terra é tão cega que os cega até mesmo para aquilo que lhes convém.

O espírito revolucionário, niilista até a medula, não leva em consideração nenhuma moral, nenhuma virtude: os fins, isto é, a construção da Pátria Grande Socialista, justificam todos os meios, por mais criminosos que sejam. Num país realmente civilizado, todo político sabe que necessita de um “capital moral” para manter o cargo. Mesmo quando não é culpado de alguma acusação recebida, afasta-se do poder para buscar defender-se e limpar o nome. Porque possui honra, isto é, vergonha na cara. Há até aquele tipo, como já vimos algumas vezes no Japão, cuja desonra dói tanto que, descobertos seus crimes, chega até mesmo ao suicídio. Mas Lula e Dilma… Um chimpanzé de zoológico certamente tem mais vergonha na cara do que os dois juntos. Lula e Dilma são como aquele hipopótamo do zoológico de São Paulo que vi num passeio de escola nos anos 1970: não satisfeito com simplesmente virar as costas e cagar diante das crianças, ainda girou a cauda feito um ventilador, atirando merda para todos os lados, sujando inclusive os uniformes das crianças mais próximas. Cada dia a mais em que Lula passa fora da cadeia, e Dilma passa dentro do palácio, mais o país se torna hediondo, empestado dum fartum revolucionário de rachar narizes sãos…

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8:29 pmMarcel Proust e a memória

Marcel Proust

Assim, por muito tempo, quando despertava de noite e me vinha a recordação de Combray, nunca pude ver mais que aquela espécie de lanço luminoso, recortado no meio de trevas indistintas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou alguma projeção elétrica alumiam e secionam em um edifício cujas partes restantes permanecem mergulhadas dentro da noite: na base, bastante larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde chegaria o sr. Swann, inconsciente autor de minhas tristezas, o vestíbulo de onde me encaminhava para o primeiro degrau da escada, tão cruel de subir, que constituía por si só o tronco, muito estreito, daquela pirâmide irregular; e, no cimo, meu quarto, com o pequeno corredor de porta envidraçada por onde entrava mamãe; em suma, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo o que pudesse haver em torno, destacando-se sozinho na escuridão, o cenário estritamente necessário (como esses que se veem indicados no princípio das antigas peças, para as representações na província) ao drama do meu deitar; como se Combray consistisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se fosse sempre sete horas da noite. Na verdade, poderia responder, a quem me perguntasse, que Combray compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Mas como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim.

Morto para sempre? Era possível.

Há muito de acaso em tudo isso, e um segundo acaso, o de nossa morte, não nos permite muitas vezes esperar por muito tempo os favores do primeiro.

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.

É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de são Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primerio, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua felicidade, de sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da peça vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.

Por certo, o que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas debate-se demasiado longe, demasiado confusamente; mal e mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o ininteligível turbilhão das cores agitadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, de seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me indique de que circunstância particular, de que época do passado é que se trata.

Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe se jamais voltará a subir do fundo de sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de todo trabalho difícil, de toda obra importante, aconselhou-me a deixar daquilo, a tomar meu chá pensando simplesmente em meus cuidados de hoje, em meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.

E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. O simples fato de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeitarias, sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregara; as formas — e também a daquela conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob sua plissagem severa e devota — se haviam anulado ou então, adormecidas, tinham perdido a força de expansão que lhes permitiria alcançar a consciência. Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos dela (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se cobrem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninfeias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.

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“Em busca do tempo perdido – volume 1 – No caminho de Swann”, de Marcel Proust, tradução de Mario Quintana.

4:23 pmHilda Hilst e o feminismo

Em 1999, eu morava na Casa do Sol quando a jornalista Marilene Felinto foi entrevistar Hilda Hilst para a Folha de São Paulo. Ao telefone, ela disse que seria “a entrevista do século”. Feminista convicta, Felinto esperava encontrar uma escritora que professasse ideologia semelhante à sua, cheia de discursos anti-masculinos — mas quebrou a cara. Nunca me esquecerei da sua expressão desapontada quando partiu.

A certa altura, como quem cita uma bobagem juvenil já inexistente, e tentando provocar uma retratação de Hilda, a jornalista observou:

“Numa entrevista em 1949, você disse que o homem tem de ser psicologicamente mais forte do que a mulher e que a emancipação feminina é uma balela.”

Hilda respondeu: “Não só psicologicamente. Eu também gostava do macho mesmo, daqueles do tipo Ceasa sabe? Eu tive um homem, o João Ricardo, que já era lindo, deslumbrante e ainda fazia boxe, eu achava o máximo. Não dá para ser submissa diante de uma besta quadrada. Eu nunca tive interesse por nenhum homem molengão. Tinha de ter as duas coisas juntas, ser ao mesmo tempo brilhante e também um macho visível. E eu nunca consegui ter uma relação com uma mulher. Fui muito cantada por mulheres também. Mas eu vejo uma vagina, tenho horror, medo da gruta escura lá dentro”.

E Hilda ainda acreditava nisso. Só usou o tempo verbal no passado porque, quase duas décadas antes, aos 50 anos de idade, ela já havia desistido dos relacionamentos amorosos…

Aliás, outra atitude nada feminista da parte de Hilda ocorreu quando, em 1998, ela me disse que precisava de alguém para morar ali na Casa do Sol, alguém que fizesse as vezes de secretário. Lembrei-me então de uma amiga, ex-namorada, que estudava Letras na USP, e fiz a sugestão. Hilda replicou, causando-me espanto: “Não, mulher não. Mulheres são chatas demais, rasas”. E depois de um breve intervalo: “Por que não vem você morar aqui?” Eu fui.

Para encerrar: outro indício de que Hilda cantava e andava para o feminismo é o fato de que, em seus textos ficcionais, e com a única possível exceção de O Caderno Rosa de Lori Lamby, não há senão narradores masculinos.

7:14 pmAlbert Camus: Niilismo e História

albert camus

« Cento e cinquenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram reaparecer, sob máscaras diferentes, mas com obstinação, o mesmo rosto devastado — o do protesto humano. Todos, sublevados contra a condição e contra o seu Criador, têm afirmado a solidão da criatura e o nada de toda a moral. Mas todos, ao mesmo tempo, procuraram construir um reino puramente terrestre em que reinasse a regra por eles escolhida. Rivais do Criador, foram logicamente conduzidos a refazer por si próprios a criação. Aqueles que, pelo mundo que acabavam de criar, recusaram outra regra que não fosse a do desejo ou a do poder, precipitaram-se no suicídio ou na loucura e cantaram o apocalipse. Quanto aos outros, que pretenderam criar as suas regras por meio das próprias forças, escolheram uma parada vã: o parecer ou a banalidade, ou ainda o assassínio e a destruição. Mas Sade e os românticos, Karamazov ou Nietzsche só penetraram no mundo da morte porque desejaram a verdadeira vida. E com tanto empenho que, por efeito inverso, foi o apelo desesperado à regra, à ordem e à moral que ressoou neste universo louco. As suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que eles se desembaraçaram do fardo da revolta, fugiram à tensão que ela pressupõe e escolheram o conforto da tirania ou da servidão.

« A insurreição humana, nas suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser mais do que um longo protesto contra a morte, uma acusação enraivecida contra essa condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que se nos têm deparado, todas as vezes o protesto se dirige a quanto na criação é dissonância, opacidade, solução de continuidade.Trata-se, pois, essencialmente, de uma interminável reivindicação de unidade. A recusa à morte, o desejo de duração e de transparência são as molas reais de todas essas sublimes ou pueris loucuras. Tratar-se-á simplesmente de uma recusa covarde e pessoal ao ato de morrer? Não, pois muitos desses rebeldes pagaram o que era preciso para se alcandorarem à altura da sua exigência. O revoltado não reclama a vida, mas as razões da vida. Recusa a consequência trazida pela morte. Se coisa alguma dura, nada se justifica; o que morre é falho de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o significado da vida, a combater pela regra e pela unidade.

« O protesto contra o mal que reside mesmo no coração da revolta metafísica é, neste caso, significativo. Não é o sofrimento da criança que se deve considerar revoltante em si próprio, mas o fato de tal sofrimento não ser justificado. No fim das contas, a dor, o exílio, a claustração são por vezes aceites quando a medicina ou o bom senso no-los impõem. Aos olhos do revoltado, o que falta à dor neste mundo, como aos instantes de felicidade, é um princípio de explicação. A insurreição contra o mal mantém-se em primeiro lugar como uma reivindicação de unidade. No mundo dos condenados à morte, à opacidade mortal da condição, o revoltado opõe incansavelmente a sua exigência de vida e de transparência definitivas. Procura, sem o saber, uma moral ou um sagrado. A revolta é uma ascese, embora cega. Se nessa altura o revoltado blasfema, é na esperança de encontrar o novo deus. Sente-se abalado sob o choque do primeiro e do mais profundo dos movimentos religiosos, mas trata-se de um movimento religioso frustrado. Não é a revolta em si própria que se deve ter por nobre, mas sim o que ela exige, embora aquilo que ela obtiver se haja de considerar ainda ignóbil.

« Mas, pelo menos, há que saber identificar o que ela obtém de ignóbil. Cada vez que deifica a recusa total do que existe, o não absoluto, ela mata. Cada vez que cegamente aceita o que é e proclama o sim absoluto, mata igualmente. O ódio ao Criador pode converter-se em ódio da criação ou em amor exclusivo e provocante do que existe. Mas, em ambos os casos, ela vai dar ao assassínio e perde o direito ao seu nome de revolta. Pode ser niilista de duas maneiras e, em cada uma delas, por uma intemperança do absoluto. Existem aparentemente os revoltados que querem morrer e aqueles que querem dar morte. Mas trata-se dos mesmos indivíduos, queimados pelo desejo da verdadeira vida, frustrados no ser e preferindo nessa altura a injustiça generalizada a uma justiça mutilada. Atingido este grau de indignação, a razão converte-se em fúria. Se é certo que a revolta instintiva do coração humano avança a pouco e pouco ao longo dos séculos a caminho da sua máxima consciência, também cresceu, como vimos, em cega audácia até ao momento desmesurado em que decidiu responder ao crime universal pelo assassínio metafísico.

« O mesmo se, que já reconhecemos marcar o momento capital da revolta metafísica, realiza-se em todo o caso na destruição absoluta. Já não é a revolta nem a sua nobreza que resplandecem no mundo, mas sim o niilismo. E são as suas consequências que devemos recordar sem perder de vista a verdade das suas origens. Mesmo que Deus existisse, Ivan [Karamazov] não se teria entregado a Ele, mercê da injustiça feita ao homem. Mas uma ruminação mais longa desta injustiça, uma chama mais amarga transformaram o “mesmo que tu existisses” em “tu não mereces existir” e, depois, em “tu não existes”. As vítimas procuraram a força e as razões do crime último na inocência que elas reconheciam em si próprias. Desesperando da sua imortalidade, certos da sua condenação, decidiram matar Deus. Se não corresponde à verdade afirmar que, a partir desse dia, começou a tragédia do homem contemporâneo, também não é verdade que ela acabasse nessa altura. Esse atentado marca, pelo contrário, o momento mais alto de um drama começado a partir do fim do mundo antigo e cujas últimas palavras ainda não foram pronunciadas. A partir desse momento, o homem decide eximir-se à graça e viver pelos seus próprios meios. O progresso consiste, de Sade até aos nossos dias, em dilatar cada vez mais o recinto fechado onde, segundo a sua própria regra, reinava ferozmente o homem sem Deus. Levaram cada vez mais longe as fronteiras do campo murado perante a divindade, até converterem o universo inteiro numa fortaleza contra o deus decaído e exilado. O homem, ao cabo da sua revolta, enclausurava-se; a sua grande liberdade consistia unicamente, desde o castelo trágico de Sade até ao campo de concentração, em construir a prisão dos seus crimes. Mas o estado de sítio vai-se generalizando a pouco e pouco; a reivindicação de liberdade quer abranger toda a gente. Há então que edificar o único reino que se opõe ao da graça — o da justiça — e reunir enfim a comunidade humana sobre os escombros da comunidade divina. Matar Deus e edificar uma igreja, eis o movimento constante e contraditório da revolta. A liberdade absoluta converte-se enfim numa prisão de deveres absolutos, numa ascese coletiva, numa história por acabar. O século XIX, que é o da revolta, entra assim no século XX da justiça e da moral, onde cada um se ocupa em bater no peito. Chamfort, moralista da revolta, já lhe tinha criado a fórmula: “É preciso ser-se justo antes de se ser generoso, tal como se possuem camisas antes de se terem rendas”. Assim se renunciará à moral de luxo em proveito da áspera ética dos construtores. É este convulsivo esforço em direção ao império do mundo e da regra universal que teremos agora de focar.

« Chegamos ao momento em que a revolta, repelindo toda a espécie de servidão, pretende anexar por completo a criação. Sempre que um malogro se verificava, vimos já anunciar-se a solução política e conquistadora. Doravante, apenas conservará das suas aquisições — e com o niilismo moral — a vontade de poder. Em princípio, o revoltado apenas desejava conquistar o seu próprio ser e mantê-lo à face de Deus. Mas perde a memória das suas origens e, pela lei de um imperialismo espiritual, ei-lo a caminho do império do mundo através dos crimes, multiplicados ao infinito. Expulsou Deus do seu céu, mas o espírito de revolta metafísica, unindo-se então francamente ao movimento revolucionário e à reivindicação irracional da liberdade, vai paradoxalmente eleger como arma a razão, único poder de conquista que lhe parece puramente humano. Morto Deus, restam os homens, isto é, a história que se impõe compreender e construir. O niilismo que, no seio da revolta, submerge nesta altura a força da criação, acrescenta unicamente a seguinte afirmação: podemos edificá-la lançando mão de todos os meios. Aos crimes do irracional, o homem, numa terra que ele reconhece daí em diante como solitária, vai acumular os crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao “revolto-me”, “portanto existimos”, acrescenta, meditando prodigiosos desígnios e até a própria morte da revolta: “E encontramo-nos sós”.»

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Conclusão do segundo capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus.

1:20 pmHilda Hilst e seu radar mental

Sob a figueira da Casa do Sol, residência da poeta Hilda Hilst, há uma mesa de pedra ladeada por bancos também de pedra. Quando morei ali, essa mesa estava danificada, com o tampo ausente. Um dia lhe perguntei por quê:

— Foi o Jô Soares — respondeu. — Estávamos conversando sob a figueira e, quando ele se sentou na mesa, o tampo partiu em dois.

Eu ri, imaginando a situação constrangedora. Para romper aquela mesa de pedra grossa, só mesmo alguém com o peso do Jô Soares.

— E por que ele não a consertou, Hilda? Não custaria nada pra ele.

— Ah — suspirou ela. — Ele e a Teresa Austregésilo, mulher dele na época, estavam zangados comigo.

— Ué. E por quê? Você se chateou com a mesa e soltou os cachorros neles?

Ela fez um gesto de indiferença e completou sua taça com vinho do Porto: — Não, Yuri. Não me importo com essas coisas. É porque eu tinha dito a verdade pra eles. Não achava que fosse ofendê-los.

— Verdade? Sobre o quê? Às vezes você é uma taurina tão teimosa que acaba confundindo suas opiniões com verdades, né, Hilda. Já notei isso.

Ela me encarou, um ar irônico no olhar: — Nesse caso, era verdade mesmo, viu. Eles estavam com o bebê deles, o Rafael, que tinha apenas alguns meses de idade. Quando eu o peguei no colo, notei que havia algo errado. Ele não reagia a nenhum estímulo, não olhava pra gente, nada. Então me virei pra eles e disse: “Melhor vocês levarem esse menino ao médico. Ele não é normal”. Nossa… pra quê? Ficaram ofendidíssimos! Tomaram o garoto do meu colo, me falaram um monte de coisas, que louca era eu e assim por diante. Foram embora e nunca mais falaram comigo. Acontece que, um ou dois anos depois, descobriram que o Rafael realmente era autista.

— E mesmo assim nunca voltaram?

— Não.

Em 1999, com permissão da Hilda, um casal de amigos foi passar o feriado conosco. (Digamos que ela se chamava C e ele, B.) Hilda se encantou com ambos, achou C elegantérrima, mas sentiu algo mais forte por B. No autógrafo que fez ao livro Do Amor, que deu a ele, ela escreveu: “B, você é lindo!”. Ele se sentiu todo lisonjeado e me mostrou o autógrafo antes de partir. No dia seguinte, Hilda, pensativa, emitindo longas volutas de fumaça, me disse:

— Yuri, seu amigo tem os olhos idênticos aos do meu pai.

— Eu sei, Hilda. São verdes, né.

Ela me olhou cheia de gravidade: — Não, Yuri, não é isso: são olhos insanos…

Achei o fato curioso, cômico até, já que esse meu amigo, de fato, nunca foi uma pessoa convencional. Contudo, passados mais de quinze anos, o prognóstico de Hilda veio à tona: B é hoje tão esquizofrênico quanto o era Apolônio de Almeida Prado Hilst, pai dela. Nada mais triste do que uma doença mental e Hilda, cujos pais morreram internados em sanatórios, sabia disso.