12:06 pmLula: ministro da quadrilha e da corrupção

Ministrar é servir. Alguém duvida de que Lula e Dilma possuem o grau de cinismo e o grau de desonra necessários para que ele se sirva do cargo apenas para fugir à justiça? O ministério como fuga… Um sujeito sem escrúpulos como Lula mereceria uma prisão preventiva. Solta, a serpente arma um pandemônio (pandemônio é o melhor termo) para escapar da prisão.

E os lulistas são tão cínicos quanto. Se realmente estivessem preocupados com uma suposta “injustiça” da parte do juiz Moro, estariam agora mesmo protestando contra a sentença de Marcelo Odebrecht. Mas, pobre menino rico: Odebrecht não é um “deles”, não é um “excluído”, um “explorado”, um “operário”. Foi apenas usado como idiota-útil para garantir o financiamento da revolução continental do Foro de São Paulo. Alguém realmente consegue imaginar os mortadelas do MST protestando contra a prisão do empresário? Ora, ele não é um camarada? Um companheiro? Bem, a questão é que a ideologia dos sem-terra é tão cega que os cega até mesmo para aquilo que lhes convém.

O espírito revolucionário, niilista até a medula, não leva em consideração nenhuma moral, nenhuma virtude: os fins, isto é, a construção da Pátria Grande Socialista, justificam todos os meios, por mais criminosos que sejam. Num país realmente civilizado, todo político sabe que necessita de um “capital moral” para manter o cargo. Mesmo quando não é culpado de alguma acusação recebida, afasta-se do poder para buscar defender-se e limpar o nome. Porque possui honra, isto é, vergonha na cara. Há até aquele tipo, como já vimos algumas vezes no Japão, cuja desonra dói tanto que, descobertos seus crimes, chega até mesmo ao suicídio. Mas Lula e Dilma… Um chimpanzé de zoológico certamente tem mais vergonha na cara do que os dois juntos. Lula e Dilma são como aquele hipopótamo do zoológico de São Paulo que vi num passeio de escola nos anos 1970: não satisfeito com simplesmente virar as costas e cagar diante das crianças, ainda girou a cauda feito um ventilador, atirando merda para todos os lados, sujando inclusive os uniformes das crianças mais próximas. Cada dia a mais em que Lula passa fora da cadeia, e Dilma passa dentro do palácio, mais o país se torna hediondo, empestado dum fartum revolucionário de rachar narizes sãos…

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8:29 pmMarcel Proust e a memória

Marcel Proust

Assim, por muito tempo, quando despertava de noite e me vinha a recordação de Combray, nunca pude ver mais que aquela espécie de lanço luminoso, recortado no meio de trevas indistintas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou alguma projeção elétrica alumiam e secionam em um edifício cujas partes restantes permanecem mergulhadas dentro da noite: na base, bastante larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde chegaria o sr. Swann, inconsciente autor de minhas tristezas, o vestíbulo de onde me encaminhava para o primeiro degrau da escada, tão cruel de subir, que constituía por si só o tronco, muito estreito, daquela pirâmide irregular; e, no cimo, meu quarto, com o pequeno corredor de porta envidraçada por onde entrava mamãe; em suma, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo o que pudesse haver em torno, destacando-se sozinho na escuridão, o cenário estritamente necessário (como esses que se veem indicados no princípio das antigas peças, para as representações na província) ao drama do meu deitar; como se Combray consistisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se fosse sempre sete horas da noite. Na verdade, poderia responder, a quem me perguntasse, que Combray compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Mas como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim.

Morto para sempre? Era possível.

Há muito de acaso em tudo isso, e um segundo acaso, o de nossa morte, não nos permite muitas vezes esperar por muito tempo os favores do primeiro.

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.

É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de são Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primerio, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua felicidade, de sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da peça vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.

Por certo, o que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas debate-se demasiado longe, demasiado confusamente; mal e mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o ininteligível turbilhão das cores agitadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, de seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me indique de que circunstância particular, de que época do passado é que se trata.

Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe se jamais voltará a subir do fundo de sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de todo trabalho difícil, de toda obra importante, aconselhou-me a deixar daquilo, a tomar meu chá pensando simplesmente em meus cuidados de hoje, em meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.

E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. O simples fato de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeitarias, sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregara; as formas — e também a daquela conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob sua plissagem severa e devota — se haviam anulado ou então, adormecidas, tinham perdido a força de expansão que lhes permitiria alcançar a consciência. Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos dela (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se cobrem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninfeias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.

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“Em busca do tempo perdido – volume 1 – No caminho de Swann”, de Marcel Proust, tradução de Mario Quintana.

4:23 pmHilda Hilst e o feminismo

Em 1999, eu morava na Casa do Sol quando a jornalista Marilene Felinto foi entrevistar Hilda Hilst para a Folha de São Paulo. Ao telefone, ela disse que seria “a entrevista do século”. Feminista convicta, Felinto esperava encontrar uma escritora que professasse ideologia semelhante à sua, cheia de discursos anti-masculinos — mas quebrou a cara. Nunca me esquecerei da sua expressão desapontada quando partiu.

A certa altura, como quem cita uma bobagem juvenil já esquecida, e tentando provocar uma retratação de Hilda, a jornalista observou:

“Numa entrevista em 1949, você disse que o homem tem de ser psicologicamente mais forte do que a mulher e que a emancipação feminina é uma balela.”

Hilda respondeu: “Não só psicologicamente. Eu também gostava do macho mesmo, daqueles do tipo Ceasa sabe? Eu tive um homem, o João Ricardo, que já era lindo, deslumbrante e ainda fazia boxe, eu achava o máximo. Não dá para ser submissa diante de uma besta quadrada. Eu nunca tive interesse por nenhum homem molengão. Tinha de ter as duas coisas juntas, ser ao mesmo tempo brilhante e também um macho visível. E eu nunca consegui ter uma relação com uma mulher. Fui muito cantada por mulheres também. Mas eu vejo uma vagina, tenho horror, medo da gruta escura lá dentro”.

E Hilda ainda acreditava nisso. Só usou o tempo verbal no passado porque, quase duas décadas antes, aos 50 anos de idade, ela já havia desistido dos relacionamentos amorosos…

Aliás, outra atitude nada feminista da parte de Hilda ocorreu quando, em 1998, ela me disse que precisava de alguém para morar ali na Casa do Sol, alguém que fizesse as vezes de secretário. Lembrei-me então de uma amiga, ex-namorada, que estudava Letras na USP, e fiz a sugestão. Hilda replicou, causando-me espanto: “Não, mulher não. Mulheres são chatas demais, rasas”. E depois de um breve intervalo: “Por que não vem você morar aqui?” Eu fui.

Para encerrar: outro indício de que Hilda cantava e andava para o feminismo é o fato de que, em seus textos ficcionais, e com raríssimas exceções, ela preferia adotar o ponto de vista masculino.

7:14 pmAlbert Camus: Niilismo e História

albert camus

« Cento e cinquenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram reaparecer, sob máscaras diferentes, mas com obstinação, o mesmo rosto devastado — o do protesto humano. Todos, sublevados contra a condição e contra o seu Criador, têm afirmado a solidão da criatura e o nada de toda a moral. Mas todos, ao mesmo tempo, procuraram construir um reino puramente terrestre em que reinasse a regra por eles escolhida. Rivais do Criador, foram logicamente conduzidos a refazer por si próprios a criação. Aqueles que, pelo mundo que acabavam de criar, recusaram outra regra que não fosse a do desejo ou a do poder, precipitaram-se no suicídio ou na loucura e cantaram o apocalipse. Quanto aos outros, que pretenderam criar as suas regras por meio das próprias forças, escolheram uma parada vã: o parecer ou a banalidade, ou ainda o assassínio e a destruição. Mas Sade e os românticos, Karamazov ou Nietzsche só penetraram no mundo da morte porque desejaram a verdadeira vida. E com tanto empenho que, por efeito inverso, foi o apelo desesperado à regra, à ordem e à moral que ressoou neste universo louco. As suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que eles se desembaraçaram do fardo da revolta, fugiram à tensão que ela pressupõe e escolheram o conforto da tirania ou da servidão.

« A insurreição humana, nas suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser mais do que um longo protesto contra a morte, uma acusação enraivecida contra essa condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que se nos têm deparado, todas as vezes o protesto se dirige a quanto na criação é dissonância, opacidade, solução de continuidade.Trata-se, pois, essencialmente, de uma interminável reivindicação de unidade. A recusa à morte, o desejo de duração e de transparência são as molas reais de todas essas sublimes ou pueris loucuras. Tratar-se-á simplesmente de uma recusa covarde e pessoal ao ato de morrer? Não, pois muitos desses rebeldes pagaram o que era preciso para se alcandorarem à altura da sua exigência. O revoltado não reclama a vida, mas as razões da vida. Recusa a consequência trazida pela morte. Se coisa alguma dura, nada se justifica; o que morre é falho de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o significado da vida, a combater pela regra e pela unidade.

« O protesto contra o mal que reside mesmo no coração da revolta metafísica é, neste caso, significativo. Não é o sofrimento da criança que se deve considerar revoltante em si próprio, mas o fato de tal sofrimento não ser justificado. No fim das contas, a dor, o exílio, a claustração são por vezes aceites quando a medicina ou o bom senso no-los impõem. Aos olhos do revoltado, o que falta à dor neste mundo, como aos instantes de felicidade, é um princípio de explicação. A insurreição contra o mal mantém-se em primeiro lugar como uma reivindicação de unidade. No mundo dos condenados à morte, à opacidade mortal da condição, o revoltado opõe incansavelmente a sua exigência de vida e de transparência definitivas. Procura, sem o saber, uma moral ou um sagrado. A revolta é uma ascese, embora cega. Se nessa altura o revoltado blasfema, é na esperança de encontrar o novo deus. Sente-se abalado sob o choque do primeiro e do mais profundo dos movimentos religiosos, mas trata-se de um movimento religioso frustrado. Não é a revolta em si própria que se deve ter por nobre, mas sim o que ela exige, embora aquilo que ela obtiver se haja de considerar ainda ignóbil.

« Mas, pelo menos, há que saber identificar o que ela obtém de ignóbil. Cada vez que deifica a recusa total do que existe, o não absoluto, ela mata. Cada vez que cegamente aceita o que é e proclama o sim absoluto, mata igualmente. O ódio ao Criador pode converter-se em ódio da criação ou em amor exclusivo e provocante do que existe. Mas, em ambos os casos, ela vai dar ao assassínio e perde o direito ao seu nome de revolta. Pode ser niilista de duas maneiras e, em cada uma delas, por uma intemperança do absoluto. Existem aparentemente os revoltados que querem morrer e aqueles que querem dar morte. Mas trata-se dos mesmos indivíduos, queimados pelo desejo da verdadeira vida, frustrados no ser e preferindo nessa altura a injustiça generalizada a uma justiça mutilada. Atingido este grau de indignação, a razão converte-se em fúria. Se é certo que a revolta instintiva do coração humano avança a pouco e pouco ao longo dos séculos a caminho da sua máxima consciência, também cresceu, como vimos, em cega audácia até ao momento desmesurado em que decidiu responder ao crime universal pelo assassínio metafísico.

« O mesmo se, que já reconhecemos marcar o momento capital da revolta metafísica, realiza-se em todo o caso na destruição absoluta. Já não é a revolta nem a sua nobreza que resplandecem no mundo, mas sim o niilismo. E são as suas consequências que devemos recordar sem perder de vista a verdade das suas origens. Mesmo que Deus existisse, Ivan [Karamazov] não se teria entregado a Ele, mercê da injustiça feita ao homem. Mas uma ruminação mais longa desta injustiça, uma chama mais amarga transformaram o “mesmo que tu existisses” em “tu não mereces existir” e, depois, em “tu não existes”. As vítimas procuraram a força e as razões do crime último na inocência que elas reconheciam em si próprias. Desesperando da sua imortalidade, certos da sua condenação, decidiram matar Deus. Se não corresponde à verdade afirmar que, a partir desse dia, começou a tragédia do homem contemporâneo, também não é verdade que ela acabasse nessa altura. Esse atentado marca, pelo contrário, o momento mais alto de um drama começado a partir do fim do mundo antigo e cujas últimas palavras ainda não foram pronunciadas. A partir desse momento, o homem decide eximir-se à graça e viver pelos seus próprios meios. O progresso consiste, de Sade até aos nossos dias, em dilatar cada vez mais o recinto fechado onde, segundo a sua própria regra, reinava ferozmente o homem sem Deus. Levaram cada vez mais longe as fronteiras do campo murado perante a divindade, até converterem o universo inteiro numa fortaleza contra o deus decaído e exilado. O homem, ao cabo da sua revolta, enclausurava-se; a sua grande liberdade consistia unicamente, desde o castelo trágico de Sade até ao campo de concentração, em construir a prisão dos seus crimes. Mas o estado de sítio vai-se generalizando a pouco e pouco; a reivindicação de liberdade quer abranger toda a gente. Há então que edificar o único reino que se opõe ao da graça — o da justiça — e reunir enfim a comunidade humana sobre os escombros da comunidade divina. Matar Deus e edificar uma igreja, eis o movimento constante e contraditório da revolta. A liberdade absoluta converte-se enfim numa prisão de deveres absolutos, numa ascese coletiva, numa história por acabar. O século XIX, que é o da revolta, entra assim no século XX da justiça e da moral, onde cada um se ocupa em bater no peito. Chamfort, moralista da revolta, já lhe tinha criado a fórmula: “É preciso ser-se justo antes de se ser generoso, tal como se possuem camisas antes de se terem rendas”. Assim se renunciará à moral de luxo em proveito da áspera ética dos construtores. É este convulsivo esforço em direção ao império do mundo e da regra universal que teremos agora de focar.

« Chegamos ao momento em que a revolta, repelindo toda a espécie de servidão, pretende anexar por completo a criação. Sempre que um malogro se verificava, vimos já anunciar-se a solução política e conquistadora. Doravante, apenas conservará das suas aquisições — e com o niilismo moral — a vontade de poder. Em princípio, o revoltado apenas desejava conquistar o seu próprio ser e mantê-lo à face de Deus. Mas perde a memória das suas origens e, pela lei de um imperialismo espiritual, ei-lo a caminho do império do mundo através dos crimes, multiplicados ao infinito. Expulsou Deus do seu céu, mas o espírito de revolta metafísica, unindo-se então francamente ao movimento revolucionário e à reivindicação irracional da liberdade, vai paradoxalmente eleger como arma a razão, único poder de conquista que lhe parece puramente humano. Morto Deus, restam os homens, isto é, a história que se impõe compreender e construir. O niilismo que, no seio da revolta, submerge nesta altura a força da criação, acrescenta unicamente a seguinte afirmação: podemos edificá-la lançando mão de todos os meios. Aos crimes do irracional, o homem, numa terra que ele reconhece daí em diante como solitária, vai acumular os crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao “revolto-me”, “portanto existimos”, acrescenta, meditando prodigiosos desígnios e até a própria morte da revolta: “E encontramo-nos sós”.»

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Conclusão do segundo capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus.

1:20 pmHilda Hilst e seu radar mental

Sob a figueira da Casa do Sol, residência da poeta Hilda Hilst, há uma mesa de pedra ladeada por bancos também de pedra. Quando morei ali, essa mesa estava danificada, com o tampo ausente. Um dia lhe perguntei por quê:

— Foi o Jô Soares — respondeu. — Estávamos conversando sob a figueira e, quando ele se sentou na mesa, o tampo partiu em dois.

Eu ri, imaginando a situação constrangedora. Para romper aquela mesa de pedra grossa, só mesmo alguém com o peso do Jô Soares.

— E por que ele não a consertou, Hilda? Não custaria nada pra ele.

— Ah — suspirou ela. — Ele e a Teresa Austregésilo, mulher dele na época, estavam zangados comigo.

— Ué. E por quê? Você se chateou com a mesa e soltou os cachorros neles?

Ela fez um gesto de indiferença e completou sua taça com vinho do Porto: — Não, Yuri. Não me importo com essas coisas. É porque eu tinha dito a verdade pra eles. Não achava que fosse ofendê-los.

— Verdade? Sobre o quê? Às vezes você é uma taurina tão teimosa que acaba confundindo suas opiniões com verdades, né, Hilda. Já notei isso.

Ela me encarou, um ar irônico no olhar: — Nesse caso, era verdade mesmo, viu. Eles estavam com o bebê deles, o Rafael, que tinha apenas alguns meses de idade. Quando eu o peguei no colo, notei que havia algo errado. Ele não reagia a nenhum estímulo, não olhava pra gente, nada. Então me virei pra eles e disse: “Melhor vocês levarem esse menino ao médico. Ele não é normal”. Nossa… pra quê? Ficaram ofendidíssimos! Tomaram o garoto do meu colo, me falaram um monte de coisas, que louca era eu e assim por diante. Foram embora e nunca mais falaram comigo. Acontece que, um ou dois anos depois, descobriram que o Rafael realmente era autista.

— E mesmo assim nunca voltaram?

— Não.

Em 1999, com permissão da Hilda, um casal de amigos foi passar o feriado conosco. (Digamos que ela se chamava C e ele, B.) Hilda se encantou com ambos, achou C elegantérrima, mas sentiu algo mais forte por B. No autógrafo que fez ao livro Do Amor, que deu a ele, ela escreveu: “B, você é lindo!”. Ele se sentiu todo lisonjeado e me mostrou o autógrafo antes de partir. No dia seguinte, Hilda, pensativa, emitindo longas volutas de fumaça, me disse:

— Yuri, seu amigo tem os olhos idênticos aos do meu pai.

— Eu sei, Hilda. São verdes, né.

Ela me olhou cheia de gravidade: — Não, Yuri, não é isso: são olhos insanos…

Achei o fato curioso, cômico até, já que esse meu amigo, de fato, nunca foi uma pessoa convencional. Contudo, passados mais de quinze anos, o prognóstico de Hilda veio à tona: B é hoje tão esquizofrênico quanto o era Apolônio de Almeida Prado Hilst, pai dela. Nada mais triste do que uma doença mental e Hilda, cujos pais morreram internados em sanatórios, sabia disso.

6:17 pmII Encontro de escritores Brasileiros na Virginia

escritores_virginia

De 25 a 28 de Novembro, a convite do Inter-American Institute e do filósofo Olavo de Carvalho, estarei nos Estados Unidos para participar do II Encontro de Escritores Brasileiros na Virginia. Também participarão os escritores Rodrigo Gurgel, Paulo Briguet, Érico Nogueira e Stella Caymmi.

O encontro terá como tema o atual estado da alta cultura no Brasil. Os debates serão transmitidos via streaming.

Para mais informações, visite esta página.

2:41 amPêro de Magalhães Gândavo e o verdadeiro nome da nossa terra

Concordo com Pero de Magalhães Gândavo: Terra de Santa Cruz é um nome melhor que Brasil. Um país com nome de produto extrativista não passa de um país com um povo venal…

” Reinando aquelle mui Catholico e Serenissimo Principe El Rey Dom Manuel, fez-se huma frota para a India, de que ia por Capitam mór Pedralvarez Cabral, que foi a segunda navegaçam que fizerão os Portuguezes para aquellas partes do Oriente. A qual partio da Cidade de Lisboa a nove de Março no anno de 1500. E sendo jà entre as IIhas do Cabo Verde, as quaes ião demandar para fazer ahi agoada, deu-lhes hum temporal, que foi causa de as nam poderem tomar, e de se apartarem alguns navios da companhia. E depois de haver bonança junta outra vez a frota, empégarão-se ao mar, assi por fugirem das calmarias de Guinè que lhes podião estorvar sua viagem, como por lhes ficar largo poderem dobrar o Cabo de Boa Esperança. E avendo jà hum mez que ião naquella volta navegando com vento prospero, forão dar na Costa desta Provincia: ao longo da qual cortárão todo aquelle dia, parecendo a todos que era alguma grande llha que ali estava sem haver piloto nem outra pessoa alguma que tivesse noticia della nem que presumisse que podia estar terra firme para aquella parte Occidental. E no logar que lhes pareceu della mais accomodado, surgirão aquella tarde, onde logo tiverão vista da gente da terra: de cuja semelhança nam ficarão pouco admirados, porque era differente da de Guiné, e fóra do comum parecer de toda outra que tinhão visto. Estando assi surtos nesta parte que digo saltou aquella noite com elles tanto tempo, que lhes foi forçado levarem as ancoras, e com aquelle vento que lhes era largo por aquelle rumo, forão correndo a costa atè chegarem a hum porto limpo, e de bom surgidouro, onde entrarão: ao qual pozeram então este nome que hoje em dia tem de Porto Seguro, por lhes dar colheita, e os assegurar do perigo da tempestade que levavão Ao outro dia seguinte sahio Pedralvarez em terra com a maior parte da gente na qual se disse logo missa cantada, e houve prégaçam: e os Indios da terra que ali se ajuntarão ouvirão tudo com muita quietaçam, usando de todos os actos e cerimonias que vião fazer aos nossos: e assi se punhão de giolhos e batião nos peitos como se tivérão lume de Fé, ou que por alguma via lhes fora revelado aquelle grande e inefabil misterio do Santissimo Sacramento, no que se mostravão claramente estarem dispostos para receberem a doctrina Christã a todo o tempo que lhes fosse denunciada como gente que nam tinham impedimento de idolos, nem professava outra Lei alguma que podesse contradizer a esta nossa, como adiante se verà no capitulo que trata de seus costumes. Então despedio logo Pedralvarez hum navio com a nova a ElRey Dom Manuel, a qual foi delle recebida com muito prazer e contentamento: e dahi por deante começou logo de mandar alguns navios a estas partes e assi se foi a terra descobrindo pouco a pouco, e conhecendo de cada vez mais, até que depois se veio toda a repartir em Capitanias e a povoar da maneira que agora está. E tornando-a Pedralvarez, seu descobridor, passado alguns dias que ali esteve fazendo sua agoada e esperando por tempo que lhe servisse, antes de se partir por deixar nome áquella Provincia, por elle novamente descoberta, mandou alçar huma cruz no mais alto lugar de uma arvore, onde foi arvorada com grande solenidade e bençãos de Sacerdotes que levava em sua companhia, dando á terra este nome de Santa Cruz: cuja festa celebrava naquelle mesmo dia a Santa Madre Egreja,que era aos tres de maio. O que nam parece carecer de Misterio, porque assi como nestes Reinos de Portugal trazem a cruz no peito por insignia da Ordem e Cavallaria de Christus, assi prouve a elle que esta terra se descobrisse a tempo que o tal nome lhe podesse ser dado neste Santo dia, pois havia de ser possuida de Portuguezes, e ficar por herança de patrimonio ao Mestrado da mesma Ordem de Christus. Por onde nam parece razam que lhe neguemos este nome, nem que nos esqueçamos delle tam indevidamente por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pao da tinta começou de vir a estes Reinos; ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas para que nesta parte magoemos ao Demonio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memoria da Santa Cruz e desterra-la dos corarões dos homens, medeante a qual somos redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir seu nome e chamemos-lhe Provincia de Santa Cruz, como em principio (que assi o amoesta tambem aquelle illustre e famoso escritor João de Barros na sua primeira Década, tratando deste mesmo descobrimento) porque na verdade mais he destimar, e melhor soa nos ouvidos da gente Christã o nome de hum pao em que se obrou o misterio de nossa redençam que o doutro que nam serve de mais que de tingir pannos ou cousas semelhantes.

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História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Magalhães Gândavo.

2:02 amTolstói fala sobre os “grandes homens”, o bem e o mal

Liev Tolstói

Dir-se-ia que perante esta fuga doida dos Franceses, quando eles faziam tudo para se perderem a si mesmos, quando todos os seus movimentos, desde o desvio pela estrada de Kaluga até à fuga atrás do chefe do exército, eram desprovidos de qualquer bom senso, dir-se-ia que, ao menos, para este primeiro período da campanha, os historiadores, que atribuem a ação das massas à vontade de um só homem, confessassem o erro das suas teorias ao descreverem esta retirada. Montanhas de livros se escreveram sobre esta campanha e em toda a parte se encontram exaltadas as disposições tomadas por Napoleão, a argúcia dos seus planos e das suas manobras e o gênio dos seus marechais.

Explicam-nos, por uma série de profundos raciocínios, o motivo da retirada dos Franceses de Maloiaroslovets por uma estrada devastada quando se lhes deixava a passagem livre por uma região rica em abastecimentos e se lhes oferecia o caminho paralelo que seguiu posteriormente Kutuzov para os perseguir. Também se nos explica assim a retirada de Smolensk para Orcha. Em seguida traçam-nos um quadro do comportamento heróico de Napoleão em Krasnoie, onde, ao que parece, teve intenção de travar batalha e pôr-se à frente das suas tropas. E mostram-no-lo de um lado para o outro, com uma vara de olmo na mão, dizendo:

— Já estou farto de fazer de imperador, é tempo de fazer de general. — O que o não impediu, pouco depois, de prosseguir na fuga, abandonando à sua triste sorte todos os corpos de exército dispersos que o seguiam.

Descrevem-nos igualmente a bravura dos marechais, particularmente a de Ney, bravura que se limitou a operar um desvio pela floresta a fim de atravessar o Dniepre de noite e fugir na direção de Orcha, depois de perder as bandeiras, a artilharia e nove décimos dos efetivos.

Enfim, o abandono pelo grande imperador do seu heróico exército é-nos apresentado como uma grande ação e um rasgo de gênio. Até mesmo o empreendimento final da sua fuga, que em qualquer língua só pode ter um nome, a última das cobardias, ato que envergonharia uma criança, até mesmo isso encontra a sua justificação na pena dos historiadores.

Quando já lhes não é possível estenderem mais o fio elástico dos raciocínios, quando o ato é realmente contrário ao que os homens chamam o bem e a justiça, recorrem, à míngua de argumentos, à noção de grandeza. A grandeza parece excluir a possibilidade de apreciar o bem e o mal. O mal não existe para o que é grande. Quem é grande nunca poderá ser acusado de uma atrocidade.

«É grande!», dizem os historiadores, e então deixa de existir o bem e o mal, para só haver o que é grande e o que não é grande. O que é grande é o bem, o que não é grande, o mal. O grande é, segundo eles, privilégio de indivíduos especiais que recebem a classificação de heróis. Napoleão, muito bem embrulhado numa peliça, volta para casa, deixando morrer não só companheiros, mas pessoas que, assim ele o confessou, arrastara atrás de si. Para si mesmo diz: sou o grande, e a alma tranquiliza-se-lhe.

«Do sublime ao ridículo vai apenas um passo», dizia Napoleão, e o sublime era ele próprio. E de há cinquenta anos para cá o universo inteiro repete: «Sublime! Grande! Napoleão, o Grande! Do sublime ao ridículo vai apenas um passo!»

E a ninguém ocorre que confessar que a grandeza está para além do bem e do mal é como reconhecer, ao mesmo tempo, a sua inferioridade e a sua infinita pequenez. Para nós, que recebemos de Cristo a medida do bem e do mal, nada existe fora dessa medida. Não há autêntica grandeza sem espontaneidade, bondade e verdade.

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Livro 4º, Terceira Parte, Capítulo XVIII, do romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói.

11:26 pmO machista feminista

Tempos atrás participei de um encontro literário na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, onde, ao longo de uma semana, debati com outros autores as perspectivas da literatura brasileira neste novo milênio. Foi lá que, entre outros, conheci pessoalmente Elisa Andrade Buzzo, Luis Eduardo Matta, Miguel Sanches Neto, André de Leones, Fabrício Carpinejar e Antonio Prata, com quem, na última noite, dividi uma carona oferecida pela esposa de Julio Daio Borges, organizador do evento. Embora o encontro tenha sido muito interessante — principalmente porque pela primeira vez eu participava de algo do gênero enquanto escritor convidado, e não como leitor —, este relato nada tem a ver com o evento em si, com os demais colegas ali presentes ou sequer com literatura — ao menos não diretamente. O fato é que, justamente no dia em que Daniela Rede, minha bela e auto-proclamada assessora de imprensa, não pôde comparecer, fui abordado ao final do debate daquela noite por um sujeito de ar simultaneamente astuto e simpático.

— Li seu livro — revelou ele, após apertar-me a mão e me cumprimentar pelas intervenções daquela noite.

— ¿Foste tu? — repliquei, sorrindo.

Ele riu: — Escritores brasileiros estão sempre achando que não são lidos.

— Deve ser por causa do xerox das faculdades e dos ebooks piratas — retruquei. — O que o bolso não vê, o coração não sente.

Alto, metido num elegante paletó escuro feito sob medida, em lustrosos sapatos Oxford, exibindo um reluzente Cartier dourado no pulso, óculos de Clark Kent, o cachecol posto à la “forca”, tal como agora se usa — em vez de à la “estrangulamento”, se é que me entendem —, esse cara bem vestido parecia um desses freqüentadores de vernissages que vemos em filmes alemães ou franceses. Com isso, quero dizer que se tratava de alguém que, a despeito de sua aparência de intelectual, também tinha um quê de empresário de sucesso, e nitidamente atraía a atenção feminina circundante. No fundo, ele parecia alguém montado para a ocasião — ou seja, se aquela fosse uma reunião de navegadores, ele teria aparecido em trajes de marinheiro de revista de moda.

— Também acompanho seu blog — tornou ele.

— ¿Você? Pensei que apenas um punhado de universitários lia meu blog.

— Bom, fiquei sabendo desses debates por causa dele.

O sujeito, que se apresentou como Nathan, após tratar por alto de alguns temas sobre os quais eu havia escrito naquela semana, talvez para me provar que realmente era meu leitor, ofereceu-me uma carona até a Vila Madalena, onde residia o amigo com quem eu estava hospedado, e também me perguntou se eu não queria aproveitar os bares da região para beber alguma coisa. ¿Carona e drinques ofertados por alguém que comprou meu livro? Claro que aceitei.

— ¿Sua mulher não veio com você hoje? — perguntou quando nos dirigimos à porta da frente.

— Não, não veio. E ela, infelizmente, não é minha mulher.

— Uma linda garota. Eu a vi aqui ontem à noite.

Saímos da Casa. Ele tinha um desses Jeeps Cherokee blindados, uma mania entre os endinheirados paranóicos de São Paulo, pois, apesar de pesados e de beberem feito loucos, em nosso restrito mercado eram os mais indicados para sobreviver à guerrilha urbana de todos os dias. Lá dentro, no banco de trás, muitos livros empilhados.

— Você por acaso não é um editor… ¿ou é?

— Não, não. — E vendo meu desapontamento involuntário: — Não precisa fazer essa cara. Você logo logo terá um bom editor. Basta esquecer um pouco os contos e escrever um romance.

— Ou arranjar um agente literário — acrescentei.

— Um agente, não! Uma agente — e Nathan sorriu.

Quando ainda percorríamos a avenida Pacaembu, ele começou a entrar no assunto que realmente lhe interessava:
— ¿Yuri, você já trabalhou como ghost-writer?

— Não e, sinceramente, nunca tive interesse. Gosto de assumir o que escrevo. Prefiro publicar algo ruim com meu nome do que publicar uma obra prima anonimamente. Coisas do ego.

— Entendo. Mas você não se importaria de aconselhar quem nunca escreveu um livro, ¿não é?

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ATENÇÃO: O conto, que me parece muito longo para o blog, continua aqui.

8:31 pmTEOLOGIA DA MACONHA — um conto BASEADO em fatos reais

— Paulinho! Vem cá pra você ver o que foi que eu achei!

Quando ouviu o chamado da mulher pelo vão da escada, Paulo César estava no segundo andar daquele sobrado geminado do município de Diadema. Estava entretido no quarto principal, retirando sapatos, botas e tênis de uma caixa de papelão e ocupando o pouco espaço que ela lhe deixara no armário. Haviam acabado de mudar-se — eram recém casados — mas ele já a conhecia o suficiente para saber que, sempre que o tratava pelo diminutivo, algum fruto proibido viria por aí. Ele tinha certeza de que Eva, ao oferecer o fruto da árvore que estava no meio do Jardim, o teria oferecido ao Adãozinho, jamais ao Adão.

— Já vou, Anita! — respondeu altissonante, imaginando que lá embaixo iria vê-la debruçada sobre uma caixa cheia de apetrechos eróticos, provavelmente com um par de algemas nas mãos ou, quem sabe, já vestida com corpete e cinta-liga. Aquela amiga que a esposa arranjara na igreja parecia ter lido apenas o famigerado Cinqüenta Tons de Cinza. Novo Testamento? Que Novo Testamento? Não que ele não gostasse das brincadeiras — gostava muito — mas isso era dica de leitura para se ouvir após um culto?

Paulo César saiu pelo corredor, pé ante pé, desviando-se como podia das muitas caixas ainda fechadas. Mudança era uma coisa divertida nos primeiros dois dias, depois virava um martírio. Onde iriam meter tantas coisas? Anita parecia uma curadora de museu ou uma colecionadora viciada no eBay. “Eu sou aquariana!”, repetia sem parar, defendendo suas inúmeras posses. Ele, que esteve tantas vezes no quarto dela, enquanto ela ainda morava com os pais, jamais imaginou que a então namorada escondia tantas bugigangas em outros aposentos.

— O que foi, Bonita? — indagou ao descer o último degrau e vê-la ajoelhada diante de uma caixa. Não, ela não estava de corpete e muito menos com algemas.

Anita virou o rosto para ele, sorrindo: — Eu tava revirando os bolsos dessa mochila que a gente usou na viagem pra Chapada e olha só o que encontrei — e, erguendo o braço, mostrou-lhe um baseado roliço, branco e teso, como se ela o tivesse acabado de bolar.

Ele fez uma careta cheia de desconfiança: — Tá brincando que você achou isso…

— Sério, amor!

— Bonita, Bonita… — censurou-a.

Ela se levantou, ofendida: — Você acha que vou mentir pra você na nossa primeira semana de casa nova, Paulo César?

Quando ela o tratava pelo nome completo, não havia por que duvidar do que dizia.

— Desculpa, Bonita. É que essa viagem pra Chapada já tem quase três anos e o beque está inteirinho. Olha aí!

— É porque ele tava dentro desse tubo que você mesmo comprou no DealExtreme, lembra? Olha — e lhe indicou um tubo metálico, rosqueado, que se abria ao meio para guardar trecos. Parecia um supositório de presidiário de dez centímetros (dez centímetros o tubo, não o presidiário), mas era apenas um chaveiro bastante útil. Paulo inclusive se lembrou de lhe ter dito à época: “Papillon, lá na Ilha do Diabo, teria adorado guardar sua grana no fiofó com isto aqui”. Mas ela não sabia quem era Henri Charrière, nem tinha lido o livro ou visto o filme. Por isso tampouco se lembrou agora dessa referência que teria devolvido ao marido, logo de cara, a culpa pelo tráfico involuntário.

— Tá certo, gata. Mea-culpa. Mas e daí?

— Uê! Vamos fumar!

Ele arregalou os olhos: — Tá maluca?! Depois de tudo o que a gente já passou?

Era verdade. Em anos pregressos, ambos tiveram graves problemas com drogas. Paulo nunca foi um verdadeiro viciado, desses que são fiéis a uma substância específica, mas havia experimentado de quase tudo: chá de cogumelo, chá de lírio, ayahuasca, mescalina, ácido lisérgico, special K, ecstasy, skank, freebase, haxixe e, claro, a simples e ordinária maconha. Tudo envolvido numa frágil aura de misticismo e de busca interior que apenas o levaram ao solipsismo e às portas do suicídio. Cada viagem era uma aventura existencial: “É como pegar uma onda”, dizia aos amigos. “Você só precisa deixar o ego de lado, relaxar e dropar. É assim que os surfistas sobrevivem”. E mais tarde ele descobriu que é buscando ondas cada vez maiores que os surfistas finalmente morrem… Já Anita, com a lealdade das amantes, contentou-se em cheirar cocaína anos a fio, tendo depois experimentado, graças a ele, durante as festas a que acorreram juntos, ecstasy e ácido. E, sim, também a maconha, que mais tarde ela passou a comprar e a lhe fornecer porque gostava de ouvi-lo viajar na, conforme diziam, “maionese cósmica”. Ele, que tinha pais evangélicos, crescera ouvindo sobre Deus e Jesus, substituindo-Os, na adolescência, pelo cientificismo do século e, mais tarde, pelo agnosticismo psicodélico-eletrônico do tipo que, durante a dança, espera ver Shiva baixar a qualquer momento — contanto, é claro, que se tome a droga certa na dose certa com o DJ certo… Faltou pouco para ele escrever sua própria versão de Ecce Homo e, como Nietzsche, chegar à conclusão de que não era outro senão o próprio Deus. Aliás, faltou pouco apenas para escrever o livro, porque, de fato, Paulo César chegou à conclusão de que era — assim deixou escrito em nota de despedida — o “Deus Supremo” e de que se matava para, mediante seu próprio sacrifício, trazer de volta à Terra a Era de Ouro. Felizmente, o tiro da Beretta .22 não lhe atingiu o coração e ele despertou, dias depois, numa cama de hospital. Nessa mesma época, ele e Anita estavam separados havia vários meses e ela, alternando depressões com episódios de síndrome de pânico, abandonou a faculdade e já não saía de casa. Ela, que sempre vira na convivência com os amigos o sentido da vida, já não podia encontrá-los, pois todos mantinham o vício e poderiam levá-la de volta ao pó. Por fim, debilitada e vazia, a garota resignou-se e aceitou a proposta dos pais. Ambos voltaram, pois, e sem qualquer premeditação, a encontrar-se numa clínica de reabilitação para drogadictos. Foi lá, de mãos dadas, que Paulo César e Anita, após vencerem grande resistência, finalmente entenderam o significado da Vida Eterna e o valor da lealdade ao Pai Celestial. Um ano e meio depois, estavam casados.

— Mas você mesmo disse outro dia, Paulo: Deus também fala com a gente através das coincidências. Esse vai ser nosso beque de despedida!

— Anita, você tá cansada de saber que eu posso ficar paranóico e ter uma carrada de flashbacks e badtrips.

Ela riu: — Deixa de ser besta! A gente tá na nossa casa. O que pode acontecer de errado?

Ele se sentou no sofá, cabisbaixo: — Sei lá. Um ataque nuclear da Coréia do Norte. O primeiro terremoto de São Paulo em quinhentos anos. Uma invasão extraterrestre. Um apocalipse zumbi… Sem falar que esse beque deve ter sido produzido pelas FARC e deve ter financiado o PT, o Foro de São Paulo, o PCC…

— Ai, não. Você já tá exagerando de novo. As FARC mexem com cocaína, não vendem maconha.

— Como você sabe?

— Uê. Os caras querem dinheiro e cocaína é que dá dinheiro. Eles são comunistas. São loucos, mas não são burros.

Ele a encarou, irônico: — Isso é um resquício daquela sua mania de achar que eu fico mais divertido doidão, né, sua sacana? Você nem percebia que me mantinha maluco só pra sugar meu humor… meu amor! — e a abraçou, puxando-a para o colo.

— Você fica maravilhoso doido! É verdade. Mas você é muito melhor agora, com Deus no coração. Você era um menino, agora é um homem — e ela o beijou na testa, carinhosamente.

— Sei…

— É sério. E se eu gostava quando você ficava doido, era porque eu sentia uma overdose da sua personalidade. Sou viciada em você. Só que você tem trabalhado tanto, anda cansado, não escreve mais letras pra sua banda, só fala de Direito e leis, conversa pouco comigo… Estou com síndrome de abstinência de você.

— É só uma fase, Bonita. O noivado acabou, agora vai ser diferente. A gente está montando nossa base.

— Eu sei.

— Pois é. Então pra que fumar hoje?

— Porque a gente precisa encerrar aquele ciclo, Paulinho! Encerrar de um jeito positivo, porque não foram experiências apenas ruins. E lembra do que você me falou quando a gente se conheceu: “nunca tome uma decisão condicionada pelo medo”. Você tá com medo de fumar agora, não tá? Depois de todas as drogas que a gente usou, acha que um beque vai nos perder? Acha que Deus vai deixar de olhar pela gente por causa de uma última viagem? Por causa de uma substância química? Você acha que tem uma ANVISA no Paraíso? Um DENARC? A gente tinha problemas e se deixava levar pelas drogas porque não conhecia Deus. Mas agora a gente O conhece! Nenhum de nós guardou este baseado de propósito, e Ele sabe disso. Talvez Ele queira ensinar alguma coisa pra gente. A gente já teve tantos insights assim! E esta é nossa nova casa, nossa nova vida, nosso direito.

Paulo César estava quase convencido: — Você sabe que a cada direito corresponde um dever, não é? Um direito, sem a contrapartida de um dever, é uma ilusão. Entende?

— Que seja.

— Bonita — tornou ele, com paciência — se alguém telefonar pra gente com um pneu furado, pedindo socorro, ajuda ou qualquer coisa assim, não posso sair de casa. Você sabe que, se eu fumar, vou ficar noiado na rua, com receio de ser parado pela polícia, de assaltos, de acidentes. Não porque vou travar de pavor, mas porque vou falar as coisas erradas para as pessoas erradas. Quando fico maluco, deixo de mandar na minha imaginação e passo a ser controlado por ela. Imagino todo tipo de situação e fico achando que estou tendo premonições… Imagino um arrastão no meio do congestionamento e já acredito que está mesmo para acontecer… É assustador… Se a gente fumasse, a gente ia ter de ficar quietinha aqui, no sofá, ouvindo música e namorando por horas e horas. Namorando sem fuc-fuc, né, porque eu fico muito mental e me esqueço de que tenho pinto quando estou doidão.

Ela riu: — Eu sei disso! Mas sexo verbal também faz seu estilo. Você fica incrível! Adoro seu Mister Hyde. Morro de rir.

— Eu sabia que você ia acabar vindo com essa legiãozice… — e Paulo sorriu, persuadido. — É a última vez então.

— Eba!

— Última vez! Promete?

Ela voltou a se levantar, empolgada: — Combinado! Prometo, de verdade. E a gente desliga celular, o fixo, desliga tudo. Ninguém vai tirar a gente daqui. Ninguém sabe nosso endereço ainda.

— Beleza.

Começaram os preparativos: afastaram as caixas de papelão a um canto da sala, desenrolaram o tapete, jogaram as almofadas no sofá, encontraram e acenderam o abajur alaranjado, um resquício do quarto dela na casa dos pais. Para não deixar o cheiro escapar, Paulo fechou janelas, vitrôs e basculantes. Anita foi à cozinha e deixou à mão um grande salame e uma garrafa de vinho — a de vinho branco, pois a de vinho tinto ela dera de presente à vizinha, uma mulher de meia-idade com quem simpatizara de imediato, cuja parede, em sendo uma casa geminada, compartilhavam. Também deixou sobre a bancada um pote com castanhas de caju e outro de Nutella. A larica estava garantida. Voltou à sala e acendeu o incenso de Patchouli.

— Não acredito que você já acendeu essa coisa. Esse cheiro atravessa até a parede, Anita. Incenso é coisa de maconheiro. Todo vizinho sabe disso.

— Pára de bobagem, Paulinho — replicou ela, sorrindo. — A gente não mora na Vila Madalena ou numa rave. A gente mora num bairro familiar de Diadema, aqui ninguém tá ligado nisso.

— Deve ter mais traficante e maconheiro aqui no “D” paulista do que no restante do “ABC”.

— Ah, vai! — e riu.

Paulo César havia trocado a roupa justa por um abrigo de moletom e, com a expressão mais preguiçosa do mundo, já estava aboletado no sofá. Anita, com uma blusinha justa e shortinho jeans, se refestelou ao seu lado. Paulo gostava de ver as alças do sutiã dela disputarem com as alças da blusa aqueles frágeis ombros. Ouviam Portishead numa caixa acústica JBL Pulse que, além de sons, emitia luzes coloridas para todos os lados. Para selecionar as músicas, Paulo fez questão de utilizar o tablet chinês via bluetooth, pois os celulares deviam permanecer desligados. Quando se deram por satisfeitos, ele então colocou o beque na boca e o acendeu com um isqueiro Bic. Deu uma primeira e longa tragada. Em seguida, passou-o para ela, que fez o mesmo sem deixar de tossir profusamente num primeiro momento. Nada augurava o que teriam de enfrentar naquela noite.

— Nossa, que pancada! — disse ela, em meio à tosse. — Não perdeu a potência.

— Maconha é igual vinho: quanto mais velha, melhor. Você não sabia que foi assim que o Spielberg e o George Lucas tiveram a idéia do roteiro dos Caçadores da Arca Perdida? Estavam no Egito e compraram uma maconha encontrada no túmulo de Tutancâmon.

— Sério, meu?!! Que louco! Não sabia.

Ele riu: — Sua boba, eles estavam numa praia do Havaí gastando a grana que o George Lucas tinha ganhado com Guerra nas Estrelas. Nada de marijuana. Aposto que bebiam margaritas.

— Ah, seu besta! — e lhe deu um tapa na coxa.

Paulo César pegou o beque de volta e deu outra tragada. Dessa vez foi ele quem tossiu até perder o fôlego. Ela ficou observando-o, divertida.

— Castigo por você ficar mangando de eu.

— Por falar em mangar de você e no Darth Vader…

— Ué, quem falou em Darth Vader?

— Não falamos?

— Não. Você só falou do filme Guerra nas Estrelas.

— Ah, então — disse ele, pensativo — por falar nisso, acho que vou aceitar o convite do Doutor Pinto Grande e vou trabalhar com ele.

— Ah, não acredito!

Ele ficou sério: — Não sei qual é o seu problema com o Doutor Pinto Grande. É amigo do meu pai. Além d’ele ter me dado uma super força quando eu estava mal, ele é um ótimo advogado e já não tem sócios.

— Eu não tenho nada contra o Pinto Grande.

Ele riu: — Ainda bem, né, senão teríamos problemas.

— O problema — prosseguiu ela, ignorando-o — não é a pessoa dele. Eu só não acho legal ter de dizer depois: meu marido trabalha com o Pinto Grande. Ou ainda: meu marido passa quase todo o dia com o Pinto Grande. Isso não pega nada bem.

— Nós vamos ser sócios, boba.

— Você não tem nem dois anos de OAB.

— Doutor Pinto confia no meu taco. Confia em mim. Diz que temos a mesma visão de mundo. Meu nome até fará parte do nome da empresa.

— Ah, que lindo: Pinto Grande & Carvalho Advogados Associados. Você já sabe como vão pronunciar isso por aí, né.

Ele deu a primeira gargalhada.

— Tô falando sério, Paulinho. Não pega bem — protestou ela, tomando-lhe em seguida o beque e voltando a fumar.

— Pinto Grande & Caralho Advogados Associados!

— Não tem a menor graça — retrucou ela. — E ainda não entendi o que o Darth Vader tem a ver com a história.

Paulo César parou de rir: — Darth Vader? Não seria porque o chapéu dele parece uma cabeça de pinto bem grande?

Agora foi ela quem caiu na gargalhada: — Seu besta! Aquilo não é um chapéu! É um capacete, uma máscara, um elmo — e voltou a rir.

— Em espanhol seria “sombrero” — observou Paulo, muito sério. — Um sombrero preto.

Ela quase engasgou com as risadas: — Pára! Pára! Darth Vader não é um mariachi mexicano pra usar sombrero. Pára de falar dele!

— Uê, parar? Foi você quem falou no Darth Vader.

— Eu?! Você é que se lembrou do seu Pinto quando falou no Darth Vader.

— Do meu pinto?

— Do senhor Pinto… do doutor Pinto Grande, droga!

— Ah, é verdade! — concordou ele, pensativo. — Por que será?

— Ai, meu Deus, pára! Como é que eu vou saber? — e Anita continuava rindo, trêmula e divertida.

Ele ficou em silêncio por algum tempo, admirando a beleza da esposa: o desenho da boca carnuda e dos olhos grandes, o contraste entre as clavículas e o seio, o jeito de segurar o cigarro, a maneira felina como se sentava escorada nele, as pernas encolhidas sobre o sofá, as rótulas conspícuas. Como era bela! Como era feminina! E não parava de rir. Quanto mais sério ele lhe parecia, mais ela ria.

— Tá satisfeita? — indagou Paulo, divertido. — Olha só como a juventude fica completamente retardada quando fuma maconha…

Ela estava aflita, perdida entre o riso e a curiosidade: — Por favor, tente lembrar do que você tava falando! Tá me torturando não saber o que o Darth Vader tem a ver com o Pinto Grande!

— A gente devia ir agora no Facebook e confessar pra todo mundo que somos dois coxinhas ex-malucos que voltaram a cair na tentação da maconha, que agora até corremos o risco de apanhar do Capitão Nascimento, de saco plástico na cabeça e tudo: “São vocês, da direita religiosa doidona, que financiam essa merda!”.

De joelhos sobre as almofadas, derrubando cinza no sofá, ela voltou a gargalhar e, em seguida, a tossir.

— Ah, lembrei! — tornou Paulo, surpreso com a própria memória e não fazendo o menor caso da crise de tosse dela. — Eu só ia dizer que, de acordo com o doutor Pinto Grande, Lúcifer é uma espécie de Darth Vader do nosso universo. Na verdade, o doutor disse que a realidade é o inverso do filme: que Lúcifer é que acreditava estar lutando contra um suposto imperialismo universal de Cristo.

— Ai, toma aí — disse Anita, confusa, estendendo a mão com o baseado. — Já fiquei muito doida, acho que minha tolerância estava a zero. Até parece que tomei ácido… E se você voltar a misturar Pinto Grande, Lúcifer e Darth Vader na mesma frase, vou cair morta aqui, só não sei se de rir ou se de excesso de piração. Fiquei perdidinha…

— É, parece que agora o Portishead está tocando sua música: Unable so lost / I can’t find my way…

— Bobo, tô perdidinha é com sua conversa. Você já sabe qual é nosso Caminho e eu também sei — e ela buscou o olhar do marido, que lhe sorriu e a beijou nos lábios.

— Claro que sei, Bonita da minha vida.

— Bom, acho que já podemos dar tchau pro nosso último beque e jogar ele na privada, né. A partir de agora, caretas para siempre. E partiu larica!

Ele protegeu o baseado: — Calma, mulher! Já tô viajando, mas quero ficar no mesmo nível que você — e colocando o cigarro na boca, deu mais uma profunda e longa tragada. Por fim, segurou o fôlego, esperando absorver o máximo possível de THC.

— Pra quem não queria fumar… — comentou ela, a boca seca, os olhos injetados, vendo-o converter-se na sua própria versão de Mister Hyde.

Paulo então soltou o ar de uma só vez e se sentiu trêmulo, suando frio: — Nossa, Bonita, minha pressão baixou completamente… — e foi se esticando no sofá até deitar-se de costas, mantendo-a entre as pernas. — Puts… Agora, sim…

— Posso jogar fora? — perguntou ela, tirando-lhe o beque da mão.

— Quem? Eu? Pode me jogar fora. Tô destruído.

Assim que ela se levantou com a intenção de ir ao banheiro, soou a campainha da porta.

— Isso foi da música? — estranhou ele.

— Não, amor — respondeu ela, olhando na direção da janela da frente, que era ampla e ia quase do chão ao teto.

Ele arregalou os olhos: — Tá brincando que tem gente na porta logo agora! Que horas são?

— Acho que umas onze. Talvez meia-noite, não sei.

Anita se aproximou da janela e abriu uma fresta da cortina para espiar a frente da casa.

— Que bizarro, Paulo…

— Quem é?

— Se não for o Darth Vader em pessoa, é um daqueles tripulantes do Globo da Morte.

Ele se sentou no sofá, a cabeça à roda, confuso: — Não brinca, Anita. Do que é que você tá falando?

— Vem ver, Paulo. É um cara de boné e uniforme escuro.

Paulo César olhou pela fresta da cortina e, ao ver o visitante, entrou em pânico: — Não é boné: é boina! É a ROTA, Anita! — falou à meia voz, mas com firmeza.

— A ROTA?! Dando batida na nossa casa? Não é possível! Isso não é coisa da polícia civil?

— Devia ser, mas esse aí é da ROTA! Certeza.

A campainha voltou a soar, desta vez com maior insistência.

— Limpa o sofá, Anita, essa cinza… Me dá isso aí! Vou jogar a ponta no vaso — e correu para o banheiro, o coração a mil. — Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… — repetia em voz alta, lembrando-se do adágio que ouvia desde criança: “A ROTA atira primeiro e só depois pergunta quem você é”. — Fodeu, caralho!

— E se a gente fingir que nem tá ouvindo, Paulo? A música tá alta.

— É óbvio que o cara viu a gente na janela, Anita! Enquanto essa sala não tiver uma cortina decente, vai parecer que a gente tá numa vitrine. Dá pra ver nossas sombras chinesas lá de fora.

— Sombras chinesas? Como assim?

Mas ele já não a ouvia. Havia acabado de descobrir que a descarga não estava funcionando. O beque boiava na água do vaso sanitário. O que fazer? Se demorasse a atender a porta, é óbvio que o policial forçaria a entrada e começaria a revistar toda a casa. Provavelmente todo um batalhão aguardava suas ordens para invadir a residência. E se houvesse mais algum baseado perdido no meio daquela bagunça? E se a esposa tivesse esquecido uma trouxinha de cocaína dentro duma bolsa antiga? Caramba! Paulo não podia deixar Anita passar por isso. Assumiria toda a culpa. Talvez fosse melhor ir lá fora agora mesmo, os braços levantados, e se entregar.

— É, vou me entregar… Vou me entregar… — murmurou para si mesmo.

A campainha soou pela terceira vez. O policial manteve o dedo no interruptor por três infinitos segundos. Durante esse longo espaço de tempo, numa busca espontânea por um motivo mais verossímil, Paulo visualizou toda uma complexa perseguição a um bandido qualquer, a qual certamente teria culminado em sua casa. Sim, talvez fosse isso, a ROTA não fica entrando na casa das pessoas à toa. “E se o ladrão estiver escondido aqui?”, pensou ele. “Talvez alguém tenha pulado o muro e esteja escondido no nosso quintal!” Correu então até a cozinha e abriu a porta dos fundos. Olhou para a pia e tomou da primeira faca que encontrou, uma faca de mesa, dessas de passar manteiga no pão. Tomado por súbita valentia, saltou para o gigantesco quintal de meros cinco metros de largura por quatro de comprimento. Deu três passos até o tanque de lavar roupa, sob a pequena laje, e espreitou dentro dele com a atitude astuta e lépida de um gato em plena caça. Estava pronto para o ataque, mas não havia ninguém ali. A máquina de lavar, logo ao lado, que ele trouxera de seu apartamento de solteiro, era pequena, mas ele abriu-lhe a tampa assim mesmo e ameaçou com a faca a escuridão das suas entranhas. O gostoso cheiro de amaciante de roupas invadiu suas narinas e, satisfeito, fechou os olhos, esquecendo-se do resto do mundo por um infinito instante. Mal passou por sua cabeça que até mesmo um gato teria dificuldades de entrar naquela geringonça.

— Paulo, o que você tá fazendo?

Caiu em si: — Hum? Nada, Anita.

— O cara ainda tá lá fora! Acho que não vai desistir. Eu abri todas as janelas pra sair esse cheiro de maconha.

— A da frente também?!

— Não, né. Não sou tão trouxa.

Ele correu até a porta dos fundos, segurou a esposa pelos ombros e a encarou, a expressão transtornada: — Bonita, eu tô muito doido… Acho que só agora tá batendo… Não consigo pensar direito… Acho que… — e então, alarmado, lembrou-se do beque e, sem concluir a frase, correu esbaforido, deixando a esposa plantada entre os móveis e as grandes caixas de papelão e os eletrodomésticos da cozinha. Uma vez no banheiro, sem pensar meia vez sequer, ajoelhou-se, resgatou o baseado de dentro do vaso sanitário e o meteu na boca, engolindo-o com dificuldade.

— Eca! O que você tá fazendo? — espantou-se ela, já às suas costas.

— Sumindo com as evidências — respondeu, sentindo aquele incômodo volume entalado no esôfago.

— Que nojo! Por que não deu descarga?

— Não tá funcionando — resmungou, sem se erguer.

Colocando uma mão sobre a cabeça do marido, Anita apiedou-se dele: — Era só abrir o registro, meu amor! Lembra que a gente tinha fechado ele antes de trazer a mudança? A torneira da pia estava pingando.

Paulo abraçou as pernas dela: — Ora comigo, meu amor. Ora comigo! Eu tô aflito… Meus pensamentos não me obedecem… Fico esquecendo que estou maluco… Você sabe que esse é o grande perigo… Se eu der bandeira e for preso por uso de drogas, vou perder o registro da OAB… Saca? A gente vai ficar na rua da amargura, ou pior!, a gente vai acabar numa rua da Cracolândia… — e arregalou os olhos, acreditando piamente no que dizia. — Você sabe que minha banda nunca deu dinheiro, né… E não entendo de mais nada a não ser de leis… Meu trabalho… A gente precisa começar nossa família em paz, Bonita! Ora comigo.

A campainha tocou pela quarta vez e, logo em seguida, ouviram palmas. Palmas de mãos que pareciam bem grandes e pesadas. Como que atingida subitamente por um raio, Anita culpou-se pela situação. Acostumada a sentir-se segura ao lado daquele homem tão denodado, tão protetor, percebeu que o temor dele a afetava com pungência. Finalmente sentiu que corriam perigo e que só contavam com Deus. Anita, pois, ajoelhou-se de frente para o marido, tomou-lhe as mãos nas suas e inexplicavelmente serena, cheia de fé, fechou os olhos e pronunciou em voz alta: — Pai nosso que estais no Céu, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, e espiritualmente presente nos nossos corações; meu Deus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Criador do Universo, eu vos peço paz de espírito, discernimento e coragem para mim e para meu amor; que o Espírito Santo, doador de nossas mentes, possa nos orientar neste momento de dificuldade e angústia; que vossa Centelha possa dirigir nossos pensamentos e livrar nossa imaginação da paranóia; meu Pai amado, nós violamos a lei dos homens, mas nada fizemos com má intenção diante de vossos olhos… Por favor, dai-nos vossa benção e nos protegei como sempre o tendes feito… Amém.

— Amém — disse Paulo. E ficaram em silêncio alguns segundos, perdendo-se nos olhos um do outro. — Você é linda, Anita — murmurou ele, comovido.

Ela o beijou e, apoiando-se nos ombros dele, levantou-se: — Bom… Melhor a gente ver o que esse cara da ROTA tá querendo, né.

— Eu tô mais calmo, Bonita — tornou Paulo, levantando-se também. — Mas minha cabeça… minhas idéias continuam girando… a taquicardia a mil… a onda tá no auge… não sei se vou conseguir me controlar.

— Meu amor, quem é mais forte: a maconha ou o Espírito Infinito? Confia!

— Não sei como colocar isso… em prática… — disse ele, a voz embargada. — Você não tem idéia do esforço que estou fazendo… pra conseguir falar com você…

— Bom, primeiro, respire fundo e devagar. Depois, faça o que Jesus ordenou aos apóstolos: não tente nem queira dizer nada por si mesmo: que o Espírito Santo fale por seus lábios — e sorrindo, ela acrescentou: — E coloque este colírio, meu amor!

Ele também sorriu, vencido, e tomou o tubo de Moura Brasil da mão dela: — Você… é demais.

Voltaram, pois, para a sala e Anita voltou a abrir a cortina, desta vez, fazendo um gesto para o policial como quem diz: já vamos! A perseverança do sujeito era impressionante. Ela tinha sorte de não ter a imaginação tão excitável quanto a do marido, do contrário, em vez de ansiosa, já estaria apavorada. Paulo abriu a porta lateral que dava para o corredor contíguo à garagem e, rígido como um funâmbulo de circo, se dirigiu ao inesperado visitante noturno. Equilibrava-se num fiozinho de sanidade, tendo como rede de segurança apenas a fé em Deus, sobre um abismo de aflição e de agitação mental.

— Boa… noite — disse.

— Boa noite — respondeu o homem, seco. — O senhor é o doutor Paulo César?

— Sim, sou eu — tornou o rapaz, perplexo com o fato de o policial saber seu nome.

— Será que posso entrar por alguns minutos?

Paulo procurou no próprio pulso um relógio inexistente e, embaraçado pelo gesto inútil, falou vagarosamente: — Posso saber do que se trata? É muito tarde pra…

— Ah, perdão. Meu nome é Jairo. Sargento Jairo de Queirós. Sou seu vizinho. Sua esposa esteve conversando com a minha hoje de manhã.

Aquela notícia poderia ter trazido algum alívio ao jovem advogado, mas tudo o que lhe veio à mente foi: “Que merda, ele sentiu o cheiro do beque”.

— O senhor pode abrir o portão? Não é bom que as pessoas me vejam aqui na sua porta.

Neste momento, a despeito do influxo de adrenalina, Paulo César dropou a onda: percebendo sua completa impotência diante daquela situação anormal, decidiu seguir o fluxo dos acontecimentos sem se opor, sem se rebelar, sem se preocupar com a própria segurança. Sabia que, caso deixasse as rédeas nas mãos do seu ego, iria desequilibrar-se, tomar uma “vaca” e chocar-se contra os recifes do fundo do mar da realidade. Não podia se dar a essa luxuosa morte de surfista mental, precisava pensar em Anita. Portanto, submisso, sem discutir, levou a chave à fechadura e permitiu a entrada do sargento da ROTA.

— Vamo entrar, senhor…?

— Jairo.

— Seu Jairo. Tá frio aqui fora — disse o anfitrião, lacônico, ainda sentindo o beque entalado no esôfago. O visitante o encarou e ele, cortês, fez um gesto com a mão para que o policial seguisse à sua frente. Este, sem nada dizer, dirigiu-se lentamente até a porta da frente, adentrando a casa sem qualquer cerimônia. Ainda no corredor, Paulo tentou averiguar se aquele coldre estava ou não vazio, mas, devido à penumbra, permaneceu na dúvida. Na sala, Anita estava sentada no sofá e já bebericava duma taça de vinho. Em menos de um minuto, ela montara uma cena de casal apaixonado: as taças, a garrafa, um cobertor sobre as pernas… Ao notar a presença do visitante, levantou-se e sorriu:

— Boa noite — disse ela, com simpatia.

— Boa noite. Você deve ser a dona Anita.

Paulo interveio, vacilante: — Amor, este é o sargento…

— Jairo — completou o outro.

— Isso. Jairo. Nosso vizinho. Você conheceu a mulher dele hoje.

Ela arregalou os olhos: — Ah, sim! Mas ela não me disse que o senhor era da polícia.

— Hoje em dia é muito perigoso ser da polícia — replicou o homem, visivelmente vexado. — A gente raramente fala sobre meu trabalho com quem ainda não conhece. Sabe como é, o bairro anda muito perigoso. Nunca venho para casa uniformizado. Hoje é uma exceção.

— Bom… — disse Anita, voltando a tomar assento. — Desculpe a bagunça, a gente ainda não terminou de arrumar a mudança. O senhor não quer se sentar? — e lhe indicou uma poltrona, no lado oposto da sala, que ela certamente havia liberado da pilha de caixas de papelão enquanto os dois homens ainda estavam na garagem.

— Obrigado — murmurou o sargento, indo sentar-se na pontinha da poltrona, longe do espaldar, a coluna arqueada para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Paulo e Anita trocaram um olhar furtivo: o sujeito não se sentia nada confortável, parecia antes tomado de extrema pressa, talvez até mesmo de repulsa. Parecia ter nojo da poltrona. Seria aversão a maconheiros?

— O senhor quer beber alguma coisa? — perguntou Paulo, disfarçando intensa tremura e sentando-se no sofá junto à esposa, de quem tomou a taça: precisava empurrar aquele baseado para o estômago.

— Não, obrigado — respondeu o sargento, olhando para o chão. Estava na cara que o policial pretendia dar-lhes um sermão, talvez até mesmo acusá-los formalmente por uso de entorpecentes. Aquela indisposição era certamente fruto de alguma discussão prévia com a esposa, a qual, devido a uma provável simpatia por Anita, não queria ver o jovem casal em dificuldades.

— Olha… — começou Paulo, quase gaguejando. — O senhor nos desculpe pela demora em atender a porta. A gente estava com o som ligado, conversando e…

— Não precisa se desculpar, doutor Paulo — interrompeu-o Jairo, sem erguer o rosto. — Eu é que tenho de pedir desculpas. Sei que são recém casados e que devo ter interrompido um momento de intimidade. Estou envergonhado com minha insistência. Mas é que preciso muito conversar com vocês…

Anita e Paulo voltaram a entreolhar-se.

— Minha esposa me disse que vocês são evangélicos, mas vejo que bebem álcool. A senhora até nos presenteou com uma garrafa de vinho.

— Eu fui criada numa família católica — corrigiu-o Anita. — Os pais do Paulo são protestantes. Se álcool fosse uma coisa assim tão ruim, o primeiro milagre de Jesus não teria sido a transformação de água em vinho. O senhor não acha?

O homem agora esfregava o rosto com ambas as mãos: — Mas vocês são pessoas religiosas, não são? — indagou, com certa irritação na voz.

— Nós confiamos em Deus — respondeu Paulo, levantando-se, visivelmente agitado. Pressentia que uma acusação de hipocrisia se formava na mente do policial. Teria de confessar, não podia deixar o bigode daquele homem distraí-lo. O nariz do sujeito parecia um ovo pousado sobre uma enorme moita negra. Que bigodão! Coisa de mariachi, pensou. Lembrou-se então do tal sombrero preto do Darth Vader e, na tentativa de evitar uma gargalhada insana e iminente, tentou prender a respiração. Tremia ainda mais. Era inevitável, chegara a hora. Seu corpo não queria obedecê-lo. Ou gargalhava, ou confessava. O esforço que vinha despendendo para controlar os pensamentos não implicava um sucesso equivalente no tocante ao corpo. Suas mãos denunciavam algo como Parkinson, a voz lhe saía com dificuldade. Era como um flashback simultâneo de ecstasy, ácido e anfetamina, sob influência dos quais o corpo não sossega senão ao dançar.

— Quero perguntar uma coisa pra vocês. É importante — prosseguiu o vizinho, declaração essa que colocou o alarmado advogado em movimento.

Ao ver o marido encaminhar-se cambaleante até o sargento, Anita, que por segundos havia se deixado distrair pela intensa larica, teve um sobressalto. Tentou segurá-lo pela mão, mas não o alcançou. Não quis levantar-se e agarrá-lo, pois pareceria, se não suspeito, no mínimo estranho. Sua cabeça se pôs à roda. Veio-lhe então à mente, em rápida sucessão, fragmentos de diversas discussões mantidas com ele sobre o trabalho da polícia, mormente a maneira como a imagem que tinham dos policiais mudou da água para o vinho assim que deixaram a clínica de reabilitação. Lembrou-se do acidente de carro que sofreu com o pai, de como a polícia militar, solícita, os ajudou. Recordou do seqüestro relâmpago que sofrera um ano antes e de como desejara e rezara por uma ação policial, a qual de fato ocorreu sem qualquer resultado negativo, com os bandidos presos. Lembrou-se também da época em que, agrilhoada pelo vício à cocaína, não via aqueles homens senão como inimigos, uma atitude bastante comum aos consumidores de todos os tipos de drogas, atitude que inevitavelmente resvala na mais ancestral das paranóias: o temor à autoridade. Para um viciado em plena viagem psíquica, nada mais assustador do que a presença súbita de um policial. Seria como agitar uma gaiola diante de um canário. E a jovem acabou por recordar de outro seqüestro relâmpago, este mais infame, sofrido por um amigo, que caíra nas mãos de policiais corruptos com uma quantidade razoável de cocaína. Em vez de prendê-lo conforme à lei, os policiais o detiveram no carro enquanto sua namorada teve de ir sacar alguns milhares de reais para pagar o resgate… Essas lembranças contraditórias lhe invadiam a mente. Há bons homens, há homens maus, pensava. Que tipo de policial seria o sargento Jairo? Anita respirou fundo. A culpa que sentia por ter induzido o marido a fumar maconha justamente naquele dia recrudesceu. E, atordoada, finalmente notou que Paulo, em meio a seu sofrimento moral, desde o começo não pretendia senão confessar-se.

— Esta semana, eu matei uma pessoa — tornou Jairo, interrompendo os pensamentos da jovem e os passos de Paulo, que estacou a meio caminho. — Quero saber se vou pro Inferno! — concluiu e, esmagado por uma dor pungente, o sargento começou a soluçar.

Anita empalideceu. Paralisada, nem sequer piscava. Sua coragem jogou as cartas na mesa e abandonou o jogo. Não sabia o que dizer ou fazer. Penetrara num mundo novo, desconhecido, destes que só existem nos filmes e nos noticiários. Seu olhar ia do sargento ao marido e deste ao primeiro numa velocidade incrível. O que aconteceria agora? Foi Paulo quem rompeu o silêncio.

— O senhor matou um bandido?

— Não — respondeu Jairo, atormentado. — Matei uma moça. Uma mãe. Ela tinha apenas vinte e seis anos. Faz quatro dias que não consigo dormir.

— Por que o senhor a matou? — prosseguiu Paulo, num tom de voz excepcionalmente calmo.

— A gente tava numa diligência — disse Jairo, em meio aos soluços, a cabeça ainda abaixada. — Houve um assalto a um caixa eletrônico. Com explosivos. A gente tava perto. Então fomos chamados e, depois de uma curta perseguição, conseguimos interceptar o carro dos suspeitos. Eles bateram noutro carro que estava estacionado e não conseguiram continuar. O pára-choque do carro deles ficou preso no pára-lamas do outro. Aí eles se esconderam atrás dos carros e ficaram disparando contra a gente. Uns cinco caras. Um deles tinha um fuzil utilizado apenas pelo exército. Foi no início da madrugada, mas ainda tinha gente na rua. No centro da cidade é desse jeito. O movimento não tem fim.

— E essa moça estava na rua.

— Eu sabia que um dia iria acabar matando alguém — continuou Jairo, desconsolado, ignorando a observação. — Mas eu vinha me preparando para lidar com a morte de um bandido, não com isso! Faz parte da guerra matar o inimigo, mas eu não estava preparado para matar uma pessoa inocente. É claro que não! É como uma doença horrível, a gente pensa que só acontece com os outros. Eu já tinha ferido alguns suspeitos durante diligências, perseguições, mas nunca tinha matado ninguém. A polícia não é como as pessoas imaginam, não é um bando de justiceiros com licença para matar e que mata o tempo inteiro. É claro que sempre tem um espírito de porco no meio, uma maçã podre. É claro que mesmo a gente, lá dentro, ouve falar de grupos de extermínio. Mas quem não quer se envolver nem fica sabendo se é ou não um boato! Já disse: é coisa de espírito de porco! E esse tipo de gente está em todo lugar, não é exclusividade nossa. A maioria dos policiais só tá fazendo seu trabalho, sustentando a própria família.

O sargento voltou a afundar o rosto nas mãos e chorou baixinho, emitindo um som sibilante de pavio aceso, como se uma bomba estivesse a ponto de explodir. Anita permanecia muda, o coração confrangido. Estava mais impressionada com a tranqüilidade repentina manifestada pelo marido do que com as revelações do policial. O mais estranho é que Paulo estava agora ereto e já não tremia.

— Eu vou para o Inferno? — tornou a indagar Jairo, num sussurro plangente. E, pela primeira vez desde que se sentara ali, ergueu o rosto para encarar seu interlocutor. Tinha os olhos injetados, o rosto inchado e rubro.

Paulo se aproximou e colocou a mão direita em seu ombro:

— A Realidade não é uma máquina que responde automaticamente a certas ações, sargento.

— Não matarás! — citou Jairo, angustiado. — Não é esse o primeiro mandamento?

Paulo sorriu, compassivo: — Não. O primeiro mandamento é “Amarás a Deus sobre todas as coisas”. E isso também quer dizer: amarás a Deus até mesmo mais do que amas ao teu próprio sofrimento.

— Mas eu matei, doutor Paulo! Eu matei! A moça estava lá, no carro estacionado. Ela tinha dois filhos e eu matei ela! — e voltou a ocultar o rosto nas mãos. — A coitada tinha se escondido quando ouviu os primeiros tiros… E num momento tenso, de cessar fogo, se levantou para espiar pela janela…

Paulo se agachou diante do policial:

— Seu Jairo, o senhor não confia em Deus?

— Como posso confiar em alguém que nem sei se realmente existe?

Paulo sorriu: — Pela ciência e pela filosofia, qualquer um pode concluir que o universo foi causado por algo além dele mesmo. E, sendo o universo complexo e obediente a leis, essa Causa só pode ser inteligente. Antes de haver coisas que sigam leis, é preciso que haja a criação dessas leis, e as leis não são materiais.

— Eu entendo o que você quer dizer, mas isso não me satisfaz.

— É por isso que Deus, por ser mais inteligente e amoroso do que suas criaturas, decidiu revelar-se na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um Deus entre nós! Isso satisfaz… — e Paulo buscou o olhar do policial. — Aliás, se um escritor é capaz de criar um personagem para representar a si mesmo dentro de um livro, relacionando-se assim com outros personagens, por que Deus não poderia atuar da mesma maneira diante da sua Criação? Deus é menos do que um escritor? Um efeito não pode ser maior do que sua causa! O homem não é maior e mais esperto do que Deus!

O sargento aceitou o olhar do advogado: — Este mundo já é quase um Inferno, doutor Paulo. Às vezes penso que Deus não existe porque há maldade demais no mundo. O senhor não faz idéia das coisas que vejo no dia a dia.

— Nosso mundo não é um mundo normal, seu Jairo. Vivemos isolados, em quarentena cósmica, porque houve a Rebelião de Lúcifer e a desobediência do casal adâmico. Mas, mesmo que não vejamos qualquer mudança material durante nossa vida na carne, essa situação fatalmente terá um fim. Precisamos ter esperança e confiar na bondade divina.

— Não sei… Eu… não sei…

— O mais importante é que, enquanto indivíduos, podemos nos reconectar a Deus agora mesmo. A quarentena se refere apenas à coletividade, apenas ao planeta. Você pode conversar com Deus neste instante. Ele não é um amigo imaginário. Você deve achar que a religião se baseia apenas na imaginação, né. Ora, tudo, até mesmo a ciência, se baseia na imaginação. Há montes de princípios e postulados que são dados como certos, mas que não podem ser provados. Entende? “Todos os ângulos retos são iguais” diz um desses postulados. Ok, mas você acha que alguém saiu comparando todos os ângulos retos do universo para saber se isso é verdade? Claro que não, seria impossível. É praticamente a fé que sustenta as ciências e as matemáticas. Se um cientista não percebe isso, é porque está filosoficamente cego. E essa fé deles tem como base nossa capacidade de imaginar certos princípios como sendo reais. Se você acha que Deus é mero fruto da imaginação, tente falar com Ele. Insista até começar a falar a partir do coração. Porque o mais impressionante é que Ele, a Seu próprio modo, quando ouve nossa sinceridade, nos responde. Essa resposta pode não ser instantânea, mas ela eventualmente chega até nós.

Anita estava embasbacada com aquela cena. Não esperava presenciar tão prontamente uma tal performance. O marido mudara da água para o vinho! Talvez por ainda estar sob efeito do baseado, ela apreciava a cena completamente desligada do espírito da época. Até a luz lhe parecia diferente, como se os três estivessem sob a iluminação de tochas. Ela já não vivia o século XXI. Sentia-se como uma romana, nas catacumbas, diante do discurso de um velho e sábio apóstolo. Percebia como o policial realmente sofria uma reforma em suas feições, sentindo-se paulatinamente consolado. Era como testemunhar um milagre.

— Mas, doutor Paulo — tornou o sargento, a voz embargada —, se isso for verdade, por que o mandamento diz “não matarás”? Não cometi um pecado? Já não estou condenado? Quer dizer que só tenho de falar com Deus e pronto, estou salvo?

Paulo levantou-se e deu alguns passos pela sala. Anita teve a impressão de que mantinha os olhos fechados. Então ele se voltou novamente para o policial: — Seu Jairo, uma tradução mais correta do mandamento seria “não assassinarás”. Quer dizer: mesmo que o uso da força seja necessário, não tenha a intenção de matar! Muitas vezes, a misericórdia necessita da força para auxiliar o mais fraco, já que este pode estar sofrendo sob os pés de um sujeito mais forte cujo coração não possui senão malícia. Um guerreiro, um soldado, deve agir como os samurais: cumprindo seu dever sem envolver seu ego, sem envolver sua própria vontade. É o que eles chamam de “não-ação”, a ação não motivada pelo ego, mas, sim, por um bem maior. Mesmo um pai de família, numa sociedade livre, aberta, uma que não seja dominada pelo Estado, tal como a nossa infelizmente é, tem o dever de manter uma arma em casa para proteger sua família. E, se necessário, ele deve entregar a própria vida para salvar a de sua esposa e filhos. Um policial de verdade tem de agir da mesma forma. Não pode deixar-se envolver emocionalmente, não deve odiar os bandidos, que são seus inimigos — mas tampouco deve abster-se de combatê-los sempre que ameacem a sociedade.

— Mas eu não matei um bandido… Matei uma inocente!

— Eu sei, seu Jairo. Mas foi um acidente, não foi? Você não teve a intenção de matá-la.

O policial o encarou com desespero no olhar: — Eu pensei que a cabeça dela fosse a cabeça de um dos assaltantes atrás do carro. E, sim, eu queria matar ele! Ele não pretendia se entregar, estava atirando para matar a gente. Mas então isso aconteceu. E a culpa agora está me matando… Se eu estivesse com a cabeça fria, como o senhor está dizendo… Se eu não estivesse com tanto medo de morrer… — e o sargento voltou a chorar baixinho, encolhido, sacudindo o corpo para frente e para trás, preso de imensa angústia.

Paulo voltou-se para a esposa: — Anita, meu bem, ajoelhe-se aqui ao nosso lado — e tocando o ombro do policial: — Sargento Jairo, ajoelhe-se aqui à minha frente. Vou rezar um Pai Nosso por você e, em seguida, pedir em oração por sua alma. O perdão é a única salvação. Deus já o perdoou, mas o senhor só sentirá a ação desse perdão quando perdoar a si mesmo. Para tanto, o único pré-requisito é o arrependimento sincero. E vejo que você está arrependido.

— Eu não rezo desde moleque — murmurou seu Jairo, ajoelhando-se. — Acho que nem me lembro mais como é.

— Não se preocupe. Apenas ouça minhas palavras. O Pai Nosso traz em si todos os elementos importantes, tudo o que podemos pedir e oferecer a Deus. Funciona como um protocolo formal, uma maneira de estabelecer a conexão. Depois, com a oração, falamos diretamente a Deus, informalmente, tal como somos e sentimos, como quem se dirige a um amigo. Entende?

— Entendo.

— Agora fechem os olhos.

Anita e seu Jairo, de joelhos, fecharam os olhos. Paulo César, com autoridade, retomou a palavra: — Pai nosso que estais no Céu, no centro mesmo de todas as coisas, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, núcleo singular do Universo Central Modelo, e espiritualmente presente no meu coração e no coração de meus irmãos, mortais ascendentes; santificado seja o vosso nome, meu Deus!, meu Deus!, meu Deus!… Venha a nós o vosso Reino, venha a nós os laços da vossa Família Cósmica… E seja feita, não a minha, não a nossa, mas a vossa vontade, assim na Terra como em toda vasta Criação… O pão nosso de cada dia dai-nos hoje: o pão para o corpo, o pão para a mente, o pão para o espírito… E perdoai as nossas ofensas e as nossas dívidas cármicas, na medida em que nós perdoamos a nossos ofensores e a nossos devedores… E não nos deixeis, Senhor, cair em tentação: na tentação da ira, do medo, do desespero… na tentação da inveja, do ciúme, do ressentimento… na tentação da preguiça, da covardia e do isolamento… Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação! Mas, se escorregarmos, Senhor, livrai-nos de todo o mal! Porque vosso é o Poder, o Reino e a Glória, pelos séculos dos séculos… Amém!

— Amém — repetiram em uníssono Anita e Jairo, emocionados.

Paulo prosseguiu: — Senhor, estamos diante de nosso próximo, de nosso vizinho, o sargento Jairo de Queirós, cujo coração está despedaçado pela culpa. Vós sabeis, Senhor, melhor do que eu, o quão arrependido ele está pela morte que causou. Uma família perdeu sua mãe e Jairo sente grande dificuldade de se perdoar. Sabemos que ele não se consolará de uma hora para outra, sabemos que ele provavelmente sentirá necessidade de pedir perdão à própria família que ele atingiu tão duramente. Mas vós, meu Pai, sabeis que ele é um bom homem, uma pessoa reta e que, mesmo tendo se esquecido de vós por tanto tempo, tem procurado observar a justiça no seu dia a dia. Por favor, meu Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, pedimos por este homem, que também é um pai de família e que, agora, retorna à vossa Família Universal. Ajudai-o, Senhor, a compreender o significado e o valor dessa triste experiência. Que ele cresça em fé, em paciência e amor, e possa dedicar-se com ainda mais afinco à difícil tarefa que lhe cabe. A vida e a segurança de muitíssimas pessoas depende do serviço dele e de seus colegas. Aqui, juntos, agradecemos por essa Graça, Pai. Que assim seja.

— Que assim seja — repetiu Anita.

Nisto, o sargento se jogou aos pés de Paulo em prantos:

— Obrigado, doutor! Obrigado!

Paulo se abaixou e o abraçou. Ficaram assim, quase dois minutos sem que ninguém dissesse uma única palavra. Anita chorava em silêncio, tocada no mais fundo de sua alma. O choro do policial era agora de alívio. Uma força sobrenatural apoderara-se dele e seu rosto finalmente trazia a marca da esperança. Paulo sabia que ainda haveria uma que outra recaída. Mas o primeiro passo fora dado.

O sargento, então, afastando-se de Paulo e enxugando os olhos com as costas da mão direita, pediu um copo d’água, que Anita apressou-se em lhe servir. O casal observava agora a fragilidade e a humanidade daquele homem que, minutos antes, tanto medo lhes impingira. A vida é muita estranha.

— Agradeço imensamente a vocês dois — disse ele, já de pé. — Preciso ir pra casa agora, minha mulher deve estar preocupada. Vim direto pra cá, ela ainda não sabe que voltei do trabalho — e estendeu uma mão para Anita, que a apertou timidamente.

Quando o policial já saía pela porta aberta por Paulo, Anita voltou a chamá-lo:

— Seu Jairo! O senhor está esquecendo disto aqui! — e, segurando pela pontinha do cano, lhe estendeu um revólver calibre 38 que ficara caído ao tapete.

— Obrigado, dona Anita. Me desculpe — e lhe sorriu, tomando a arma e devolvendo-a ao coldre.

Paulo o acompanhou até o portão e, quando o sargento já ia se afastando, parou, coçou a cabeça, retornou e lhe disse:

— Doutor Paulo César, posso lhe pedir uma última coisa?

— Claro, seu Jairo.

O outro limpou a garganta, embaraçado, e disse, quase sussurrando: — Por favor, não fume mais maconha. O senhor é bom demais pra isso. E deve estar ciente do mal que o tráfico de drogas causa à sociedade.

Paulo, sem nenhum constrangimento, sorriu: — Então o senhor percebeu?

— Claro, faz parte do meu trabalho, né.

— Não se preocupe, seu Jairo. Um amigo meu costuma dizer que muitos caminhos levam a Deus, que até mesmo o diabo pode nos levar a Deus. O diabo que me levou a Deus foram as drogas. O mesmo aconteceu com Anita. E, hoje, enquanto desempacotávamos a mudança, encontramos um último baseado e caímos em tentação! Mas, tal como disse agorinha, ao rezar, nosso Pai Celestial, apesar de nosso escorregão, não apenas nos livrou do mal, mas também nos ajudou a realizar um grande bem.

— O senhor viu aquele filme Os Intocáveis? — tornou Jairo.

— Com Kevin Costner?

— Esse mesmo. E aquele ator que foi o melhor 007.

— Sean Connery.

— Isso, acho que é esse. Então… no final, após prender Al Capone, um repórter se aproxima do Eliot Ness dizendo que as bebidas alcoólicas tinham acabado de ser liberadas, o que ele faria a respeito, já que tinha enfrentado o contrabando e o comércio delas por tanto tempo.

— Acho que me lembro disso.

— E o Eliot Ness diz: se já liberaram o álcool, vou tomar um drink.

Paulo riu.

— Eu fumaria um cigarro desses com você, doutor Paulo, se um dia fosse liberado. Mas, por enquanto, só há crime por trás disso, muitas mortes.

— Seu Jairo, eu agradeceria seu convite, mas me recusaria. O senhor certamente nunca foi um usuário de drogas. Não deve saber como o uso crônico dessas substâncias pode despertar nossos monstros e pavores. Aliás, eu quase me borrei nas calças quando o vi pela janela…

Agora foi o sargento quem riu.

— Sem falar — prosseguiu Paulo — que a atual onda de liberação das drogas vem sendo orquestrada para dar ainda mais poder aos produtores, já que eles compartilham dessa mesma ideologia política que manda hoje em nossa vida. Parece que essa ideologia é mais efetiva quando a mente da população está distraída ou assustada.

— Bom, disso eu não entendo nada, doutor. Mas… enfim, eu precisava dizer isso pro senhor.

Apertaram as mãos com firmeza, olhando-se fraternalmente nos olhos um do outro, e o sargento então dirigiu-se à casa ao lado, fechando o portão com estrondo.

Quando Paulo entrou na sala, Anita estava no sofá, sentada de pernas cruzadas, com dois dedos metidos no pote de Nutella. Ele se aproximou e desabou ao lado dela.

— Paulo, tô tão orgulhosa de você! As coisas que você disse…

— Bonita — disse ele, exausto — não faço a mais mínima idéia do que foi que eu disse! Lembro de partes! A maconha acabou com minha memória.

— Não! Você não se lembra porque foi o Espírito Santo!

— …acobertado pelo beque.

— Bobo — e o beijou ternamente. — Pelo menos o sargento não desconfiou de nada, né.

— Ah, é. Não desconfiou de nadica de nada — gracejou ele. — Mesmo assim — e a puxou pelo braço, deitando-a no colo — você merece umas palmadas pelo que me aprontou hoje. Sua Eva!

— Se me machucar, vou à delegacia da mulher, viu — replicou, divertida.

— Vai não. O mais provável é que você vá contar tudo pra sua amiga do Cinqüenta Tons de Cinza.

Ela riu. E ele lhe deu umas boas palmadas.