Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Página 51 de 80

Monteiro Lobato fala sobre os Amigos do Brasil

Monteiro Lobato

Amigos do Brasil! Pois há disso? Há. Houve e há estrangeiros que se apaixonam das nossas coisas, vêm estudá-las e de volta às suas terras dão-se ao sentimentalismo de querer bem ao país onde a primavera e o estado de sítio são eternos.

O saudoso e recém falecido J. C. Branner, reitor da Universidade de Stanford, estudou na mocidade a nossa geologia e de regresso, até o fim da vida, conservou-se um amigo do Brasil. Quando publiquei meu primeiro livro recebi dele uma carta que conservo como prêmio. Discutia a “geringonça”, ou gíria como dizemos hoje, e falava disso com a segurança do homem de ciência para o qual tudo quanto representa criação tem valor.

Na Alemanha tivemos sempre inúmeros amigos, a partir do grande Martius. Hoje também os temos e um deles é o Dr. Frederico Sommer, que se empenha em verter e lá publicar os livros mais característicos da nossa literatura.

Até na França, tão de si própria, temos amigos. Mr. Le Gentil dedica-se a estudos brasileiros e em companhia de M. Gahisto, Martinenche e outros mantém na Revue de l’Amerique Latine uma seção dedicada amorosamente ao Brasil. Não contentes, criaram na Sorbonne um centro de estudos brasileiros e cuidam agora de constituir uma biblioteca de livros brasileiros. Tudo isto sem subvenções, à custa de enormes esforços e ao arrepio da nossa muçulmana indiferença. (Aviso aos autores de livros: essa biblioteca da Sorbonne aceita com grande prazer e pede a remessa de obras nacionais para lá, sobretudo as científicas. Endereço: Mr. Le Gentil, Centro de estudos portugueses, Sorbonne, Paris).

Outro, de nome menos conhecido entre nós, é Mr. Jean Turiau (Boulevard Murat, 29, XVIme). Já residiu no Brasil, conhece as nossas coisas e as rememora com saudades. O Brasil é uma coisa deliciosa vista assim de longe. Um meu amigo, grande patriota, dizia sempre: — Meu ideal é a diplomacia. Viver do Brasil mas longe dele, de modo a sentir sempre doces saudades da pátria, que delícia!

Mas Turiau quer bem a isto aqui e gostos não se discutem. Trabalha em traduções e vai tornando conhecida em França a nossa esfarrapada literatura. Na última carta que me escreveu lamenta-se da sua situação de funcionário público, como toda gente em França, situação que lhe não permite adquirir obras sobre o Brasil. E chora por uma Rondônia, por uma História do Brasil, de Rocha Pombo, trop chère… (Aviso aos srs. Roquette Pinto e a Rocha Pombo: não percam a oportunidade de um tal leitor. Nada há mais raro e que mais honre a um escritor do que um bom leitor).

A interpenetração literária é o que há de mais profícuo na aproximação dos povos. Só ela suprime as muralhas que a estupidez dos governos ergue. Só ela demonstra que somos todos irmãos no mundo, com as mesmas vísceras, os mesmos defeitos, os mesmos ideais. Se a França tornou-se amada entre nós a ponto de bombardear Damasco e esmagar Abd-el-Krim sem que isso nos arrepie as fibras da indignação, deve-o aos senhores Perrault, Lafontaine, Hugo, Maupassant, Taine, Anatole e quantos mais nos trouxeram para aqui esta sensação da irmandade do homem. Se a Alemanha não se gozou de idênticas simpatias é que víamos os atos de violência dos seus homens de governo e não havia dentro de nós, para atenuar-lhes a repercussão, o coxim de veludo da literatura alemã bem absorvida como temos a francesa.

Grande serviço, pois, prestam aos povos esses homens beneméritos que trabalham na difusão da literatura alheia em seus próprios países. Estão a preparar os preciosos coxins de veludo, amortecedores dos choques. Criam a compreensão e a tolerância. Demonstram, com a exibição de documentos humanos, que somos iguais, todos filhos do mesmo macaco que rachou a cabeça ao cair do pau.

Mas o nosso descaso é imenso. Nenhuma livraria do Rio, por exemplo, tem à venda essa revista da América Latina. Por que? Não há procura. Estupidificados pelo estado de sítio crônico, parece que um desalento nos ganhou a todos, um desânimo de tudo, indiferença de chim.

Se alguma coisa valesse alguma coisa nesta terra: eis a frase com que um jornalista traduz tal estado d’alma. Frase horrível, reflexo do desespero do desânimo, e, no entanto, lógica, sempre que um povo perde a sua liberdade e tomba no boçalismo da escravidão. Mas tudo passa. Depois da noite vem o dia. Depois da Idade Média vêm os 89. Tolice é desesperar. Esperemos, e enquanto esperamos não contaminemos com o nosso desalento de escravos os abnegados pioneiros das nossas letras em França. É noite? Não importa. Também de noite se trabalha e não há trabalho mais abençoado do que o que se faz dentro da noite para apressar a vinda do dia claro. E é trabalhar para um dia melhor meter mãos à obra da difusão literária.

Os morcegos passam e os livros ficam.

_______

Na Antevéspera, de Monteiro Lobato.

“O assassino” — um conto de Arthur Schnitzler

Arthur Schnitzler - 1878

Um jovem, doutor em direito canônico e romano, sem exercer sua profissão, órfão de pai e mãe, vivendo em circunstâncias confortáveis, benquisto por sua agradável companhia, estabelecera havia mais de um ano uma relação com uma moça de origem humilde, que, sem parentes como ele, não tinha necessidade de levar em consideração a opinião alheia. Logo no início do relacionamento, menos por bondade ou paixão do que pela necessidade de gozar sua felicidade da forma mais tranqüila possível, Alfred levara a amante a deixar seu emprego como balconista numa respeitada loja vienense. Mas, depois que, durante longo tempo, embalado pela grata ternura da amante e pelo mais confortável gozo da liberdade comum, se sentira melhor do que durante qualquer relacionamento amoroso anterior, começou a sentir paulatinamente aquela inquietude promissora, sua velha conhecida, que, em outros casos, lhe prenunciava o fim iminente da relação amorosa, um fim que, neste caso, parecia não ser ainda previsível. Já estava se vendo, em sua mente, como companheiro de sina de um amigo de juventude que, envolto fazia anos num relacionamento similar, era obrigado a levar agora uma vida retirada e limitada, como enfadado pai de família; e algumas horas, que sem intuições dessa espécie lhe teriam oferecido o mais puro dos prazeres, ao lado de um ser tão gracioso e suave como Elise o era, começaram a lhe causar enfado e sofrimento. Embora tivesse a capacidade e, fato ao qual gostava de atribuir maior valor ainda, a deferência de não deixar Elise nada notar desses estados de alma, eles possuíam, todavia, o poder de fazê-lo procurar novamente com maior freqüência os círculos da alta burguesia, dos quais havia se afastado quase que por completo no decorrer do último ano. E quando, por ocasião de uma festa dançante, uma dama muito cortejada, filha de um próspero industrial, veio a seu encontro com surpreendente amabilidade, fazendo-o ver muito subitamente uma possibilidade fácil de estabelecer uma relação que fosse mais adequada à sua posição social e à sua fortuna, começou a sentir aquela outra, que havia começado como uma aventura alegre e desembaraçada, como um incômodo grilhão de que um jovem de seus méritos poderia se desvencilhar sem escrúpulos. Contudo, a sorridente calma com que Elise sempre tornava a recebê-lo, sua entrega sempre igual nas horas em que estavam juntos e que agora iam se tornando mais escassas, a ingênua segurança com que ela o deixava partir de seus braços para um mundo que lhe era desconhecido, tudo isso não apenas afastava de seus lábios, todas as vezes, as palavras de despedida, antes sempre prestes a serem proferidas, mas também o enchia de uma espécie de torturante compaixão, cujas manifestações quase inconscientes só poderiam parecer, a uma mulher tão crédula como Elise, novos e mais densos sinais de sua inclinação. E assim a coisa chegou a um ponto em que Elise acreditava ser adorada por ele, de forma mais cálida do que nunca, justamente nas ocasiões em que ele voltava de um encontro com Adele; quando ele, agitado pela lembrança de olhares doces e interrogativos, apertos de mão cheios de promessas e, finalmente, em meio à embriaguez dos primeiros beijos escondidos, voltava para aquela casa dedicada só a ele e a seu amor; e em lugar de despedir-se com um adeus, como se dispusera a fazer ainda no limiar da porta, Alfred deixava a amante todas as manhãs com novas juras de eterna fidelidade.

Assim passaram-se os dias entre as duas aventuras; finalmente só restou a decisão sobre qual anoitecer seria mais apropriado para a inevitável explicação a Elise; a saber, se seria a noite anterior ao noivado com Adele, ou a seguinte; e na primeira dessas duas noites, como ainda ficara um prazo pela frente, Alfred compareceu à casa da amante num estado de espírito quase tranqüilizado pelo hábito desse seu jogo duplo.

Encontrou-a pálida, como nunca a vira antes, recostada num canto do divã; ela também não se ergueu como de costume quando de sua entrada, para oferecer-lhe testa e os lábios aos beijos de boas-vindas, mas mostrou um sorriso cansado, um pouco forçado, de tal forma que, simultaneamente com uma sensação de alívio, cresceu em Alfred a conjetura de que a notícia de seu iminente noivado tivesse chegado até ela, não obstante todas as precauções, seguindo o caminho enigmático de todos os boatos. Mas, apesar de todas as precipitadas perguntas, nada ficou sabendo a não ser que Elise, de tempos em tempos, sofria de espasmos no coração, fato que ela ocultara até então, e que desses espasmos em geral ela rapidamente se restabelecia; só que, dessa vez, seus efeitos ameaçavam ser mais duradouros do que nunca. Alfred, consciente de suas intenções culposas, ficou tão tocado com estas revelações que exagerou em suas manifestações de compaixão e bondade; e, antes da meia-noite, sem compreender como poderia ter chegado tão longe, havia desenvolvido com Elise o plano de uma viagem em comum, durante a qual ela encontraria com certeza a cura para aqueles desagradáveis ataques.

Ler mais

A amizade e o entusiasmo pela vida

urantia

"O isolamento tende a exaurir a carga de energia da alma. A associação com os semelhantes é essencial para a renovação do gosto pela vida e é indispensável à manutenção da coragem para lutar nas batalhas conseqüentes da ascensão aos níveis mais elevados da vida humana. A amizade intensifica as alegrias e glorifica os triunfos na vida. As ligações humanas de amor e intimidade tendem a aliviar o sofrimento das penas da vida e a dificuldade de muitas amarguras. A presença de um amigo acentua toda a beleza e exalta toda a bondade. Por meio de símbolos inteligentes, o homem torna-se capaz de vivificar e aumentar as capacidades de apreciação dos seus amigos. Uma das glórias que coroam as amizades humanas é esse poder e possibilidade de estímulo mútuo da imaginação. Um grande poder espiritual é inerente à consciência da devoção, de todo o coração, a uma causa comum, à lealdade mútua a uma Deidade cósmica."

_________

The Urantia BookDocumento 160: Rodam de Alexandria

Lelê, de Chico Corrêa e Eletronic Band

Com desenhos do Shiko.

Lin Yutang fala sobre a arte de ler

 Lin Yutang

A leitura, ou o gozo dos livros, foi sempre contada entre os encantos da vida culta e é respeitada e invejada por aqueles que raramente se concedem esse privilégio. É fácil compreendê-lo quando comparamos a diferença entre a vida de um homem que não lê e a de um homem que lê. O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Este conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns de seus pesares pessoais, ou discute com ele uma forma especial ou um aspecto da vida de que o leitor nada sabe. Um autor antigo o põe em comunhão com um espírito morto há já muito tempo, e, à medida que lê, começa a imaginar como seria esse autor antigo fisicamente e que espécie de pessoa seria. Tanto Mêncio como Ssema Ch’ein, o maior historiador chinês, expressaram a mesma idéia. Poder viver duas horas, sobre doze, em um mundo diferente e furtar os pensamentos ao apelo presente imediato, é este um privilégio que deve causar inveja às pessoas que vivem encerradas na sua prisão corporal. Tal mudança do ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico.

Mas há mais do que isto. O leitor se vê levado sempre a um mundo de pensamentos e reflexões. Embora se trate de um livro de fatos objetivos, há uma diferença entre ver esses fatos, ou vivê-los, e ler sobre eles nos livros, porque então os fatos assumem sempre a qualidade de um espetáculo, e o leitor se converte em espectador desapaixonado. A melhor leitura é, pois, a que nos leva a esse mundo contemplativo, e não a que se ocupa unicamente do registro dos fatos. Considero que não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais, pois os comuns leitores de jornais se preocupam antes de tudo em obter notícias sobre fatos e acontecimentos.

A melhor fórmula sobre a finalidade da leitura, a meu ver, foi dada por Huang Shanku, poeta Sung e amigo de Su Tungp’o, que disse: “Um intelectual que nada leu durante três dias sente que a sua conversação não tem sabor (que se torna insípida) e a sua cara se torna odiosa de ver (ao espelho)”. O que quis dizer é que a leitura dá ao homem certo encanto e sabor, que é o objeto da leitura, e só pode chamar-se arte a leitura com esse objetivo. Não se lê “para melhorar o espírito”, pois quando se começa a pensar em melhorar o espírito, desaparece todo o prazer da leitura. Este é o tipo de pessoas que dizem com os seus botões: “Devo ler Shakespeare, Sófocles e Cervantes, para poder ser um homem culto”. Estou certo de que um homem assim nunca será culto. Uma noite se obrigará a ler Hamlet, e sairá disso como de um mau sonho, com o único benefício de poder dizer que “já leu” Hamlet. Todo aquele que leia um livro como quem cumpre uma obrigação, é porque não compreende a arte da leitura. Essa leitura com intuitos de negócio é como a leitura de arquivos, por um político, antes de pronunciar um discurso. É apenas pedir conselho e informação de negócios, e não ler.

Ler para cultivar o encanto do aspecto físico e do sabor na palavra é, segundo Huang, a única espécie de leitura que se pode admitir. Este encanto do aspecto deve ser interpretado, evidentemente, como algo mais que a beleza física. Huang não se refere à fealdade em sua frase. Há caras feias que têm um encanto fascinador e caras formosas que são insípidas para quem as olha. Entre os meus amigos chineses há um cuja cabeça têm a forma de uma bomba e, contudo, vê-lo é sempre um prazer. A cara mais linda dentre as dos autores ocidentais contemporâneos, pelo que pude observar nas fotografias, era a de G. K. Chesterton. Tinha um tão diabólico conglomerado de bigodes, óculos, emaranhadas pestanas e carregadas sobrancelhas! Ao olhá-la, sentia-se que dentro daquela fronte havia uma boa quantidade de idéias em ação, prontas para saltar, a qualquer momento, por aqueles olhos estranhamente penetrantes. Aquela cara era uma das que Huang chamaria formosas, uma cara que não era feita pelos pós e a pintura, mas pela pura força do pensamento. Quanto ao sabor da palavra, tudo depende da forma de ler. Que se tenha “sabor” ou não quando se fala, isto depende do método de leitura. Se um leitor frui sabor nos livros, demonstrará esse sabor em suas conversações, e se tem sabor em suas conversações, tê-lo-á no que escreve.

Considero o sabor, ou gosto, como a chave de toda leitura. Segue-se daí que o gosto é seletivo e individual, como o gosto na comida. A forma mais higiênica de comer é, afinal de contas, a de comer o que nos agrada, pois só então se poderá ter segurança da digestão. Quando se lê, como quando se come, o que faz bem a um pode matar a outro. O mestre não pode forçar seus discípulos a que gostem do que a ele agrada como leitura, e um pai não pode esperar que os filhos tenham o mesmo gosto que ele. E se o leitor não tem gosto no que lê, perde o seu tempo. Já o disse Yüan Chunglang: “Podeis deixar de lado os livros que não vos agradam: os outros que os leiam”.

Não pode, pois, haver livros que a gente deva ler. Porque os nossos interesses intelectuais crescem como uma árvore ou fluem como um rio. enquanto haja seiva adequada, há de crescer de algum modo a árvore; e enquanto haja água do manancial, o rio continuará correndo. Quando a água topa com um escolho de granito, não faz mais que rodeá-lo; quando encontra um vale baixo e aprazível, detém-se e espraia-se por um momento; quando se encontra num fundo tanque da montanha, está contente de quedar-se ali; e salta nas cataratas. Assim, sem esforço algum, sem propósito determinado, chegará certamente um dia ao mar. Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período de sua vida. Chego a crer que a leitura, como o casamento, está determinada pelo destino, ou yinyüan. Embora haja certo livro que todos devem ler, como a Bíblia, há um momento para fazê-lo. Quando os pensamentos e a experiência de uma pessoa não chegaram a certo ponto para ler uma obra-prima, esta só lhe deixará um mau sabor. Confúcio diz: “Aos cinqüenta anos, pode-se ler o Livro das Mutações”, o que significa que não o devemos ler aos quarenta e cinco. O leitor obtém uma sabedoria quando lê o Livro das Mutações aos quarenta anos, e outra espécie de sabedoria quando o lê aos cinqüenta anos, depois de ter visto mais mudanças na vida. Portanto, todos os bons livros podem ser relidos com proveito e renovado prazer. Quando estudante, fizeram-me ler Westward Ho! e Henry Esmond, mas, embora fosse capaz de apreciar Westward Ho! quando não tinha vinte anos, o verdadeiro sabor de Henry Esmond me escapou completamente, até que refleti, anos mais tarde, e suspeitei que havia neste livro muito mais encanto do que me fora possível apreciar.

A leitura, pois, não é um ato simples; tem duas faces: o autor e o leitor. O ganho provém tanto da contribuição do leitor, por meio da sua visão íntima e da sua experiência, como do autor. Com respeito às Analectas de Confúcio, disse o confucionista Ch’eng Yich’uan, da época Sung: “Há leitores e leitores. Alguns lêem as Analectas e sentem que nada aconteceu, a alguns agradam uma ou duas passagens, e outros começam a sacudir as mãos e a dançar sem querer”.

Considero o descobrimento do autor favorito de cada um como o momento definitivo da sua evolução intelectual. Há algo que se chama afinidade de espíritos, e, entre os antigos e modernos autores, devemos procurar aquele cujo espírito seja semelhante ao nosso. Só desta maneira se pode auferir real proveito da leitura. Cumpre ser independente e procurar por conta própria os mestres. Ninguém pode dizer quem será o autor favorito de cada qual: talvez nem o próprio leitor possa dizê-lo. É como o amor à primeira vista. Não se pode dizer ao leitor que ame a este ou àquele autor; mas quando se encontra com o autor a quem ama, sabe-o por uma espécie de instinto. Conhecemos casos famosos a este respeito. Há sábios que viveram em épocas diferentes, separados por muitos séculos, mas com maneiras de pensar e de sentir tão semelhantes que, ao se encontrarem nas páginas de um livro, pareciam uma única pessoa que encontrava a própria imagem. Dizem os chineses, desses espíritos semelhantes, que são reencarnações da mesma alma, como se dizia de Su Tungp’o que era uma reencarnação de Tchuang-tsé, ou de T’ao Yüanming, e de Yüan Chunglang que era uma reencarnação de Su Tungp’o. Su Tungp’o disse que, quando leu pela primeira vez Tchuang-tsé, teve a sensação de que desde a meninice tinha estado a pensar as mesmas coisas e a formar os mesmos pontos de vista. Quando Yüan Chunglang descobriu uma noite Hsü Wench’ang, autor contemporâneo a quem não conhecia, em um pequeno livro de poemas, saltou da cama e chamou aos gritos o seu amigo, e seu amigo começou a ler e gritou por sua vez, e logo ambos leram e gritaram de tal modo que o servente ficou intrigadíssimo. George Eliot diz que a sua primeira leitura de Rousseau foi um choque elétrico. Nietzsche sentiu o mesmo no tocante a Schopenhauer, mas Schopenhauer era um mestre ranzinza e Nietzsche um discípulo teimoso, e era natural que o aluno se rebelasse mais tarde contra o mestre.

Só essa espécie de leitura, esse descobrimento do autor favorito pode fazer bem. Como acontece com um homem que se enamora à primeira vista, tudo é como deve ser. A noiva tem a estatura exata, o rosto exato, o cabelo da cor exata, a voz de exata qualidade, e a forma exata de falar e de sorrir. O mesmo acontece com o autor: seu estilo, seu ponto de vista são exatamente o que se esperava encontrar. E logo começa o leitor a devorar cada palavra e cada linha que escreve o autor e, como há afinidade espiritual, absorve e digere tudo o que lê. O autor aplicou sobre ele a sua magia, e alegra-o estar debaixo do sortilégio, e, com o tempo, a sua voz e as suas maneiras e o jeito de sorrir e de falar se vão tornando como os do autor. Assim se impregna do seu amante literário, de cujos livros extrai o sustento para a alma. Ao fim de alguns anos, quebra-se o encanto e cansa-se um pouco desse amante literário, e procura outros e, depois de ter uns três ou quatro e havê-los devorado completamente, surge ele próprio como autor. Há muitos leitores que nunca se enamoram, como esses moços ou moças que vivem em galanteios e são incapazes de sentir um profundo afeto por uma pessoa em particular. Podem ler todo e qualquer autor e nunca chegam a coisa alguma.

Tal conceito da arte de ler destrói por completo a arte da leitura como dever ou obrigação. Na China, anima-se amiúde os estudantes a que estudem amargamente. Houve um famoso sábio que estudava amargamente e que cravava um alfinete na barriga da perna toda vez que lhe sucedia adormecer durante o estudo. Houve outro que fazia com que a criada ficasse a seu lado enquanto ele estudava de noite, para despertá-lo quando ele adormecesse. Isto é uma insensatez. Se alguém tem um livro ante os olhos e adormece enquanto um sábio autor antigo está lhe falando, faz muito bem em ir para a cama. Nem a picada de um alfinete na barriga da perna, nem as sacudidelas da criada lhe farão bem algum. Um homem assim perdeu todo senso do prazer da leitura. Os sábios que valem alguma coisa não sabem o que significa “estudar com afinco”. Amam os livros e os lêem porque não podem evitá-lo, nada mais.

Resolvida esta questão, também se dá resposta à do momento e local em que se deve ler. Não há momento nem locais especiais para ler. Quando se tem vontade de ler, deve-se ler em qualquer parte. Se se conhece o gozo da leitura, ler-se-á na escola ou fora dela, e apesar de todas as escolas. Pode-se estudar assim nas melhores escolas. Tseng Kuofan, numa das cartas à família, referindo-se ao desejo expresso por um de seus irmãos menores de ir à capital estudar numa escola melhor, respondeu que: “Se se tem desejo de estudar, pode-se estudar numa casa de campo, ou mesmo num deserto ou numa rua cheia de gente, e até como lenhador ou guardador de porcos. Mas se não se tem desejo de estudar, então não somente é inadequada para o estudo a escola de campo, mas também uma quieta casa de campo ou uma ilha de fadas”. Há pessoas que adotam posturas importantes defronte à mesa quando querem ler um pouco, e logo se queixam de que não podem ler porque o quarto está demasiado frio, ou a cadeira é muito dura, ou muito forte a luz. E há escritores que se queixam de não poder escrever porque há muitos mosquitos, ou porque o papel é muito brilhante, ou vem muito ruído da rua. O grande sábio Sung, chamado Ouyang Hsiu, confessou as três ocasiões ou lugares em que criava as suas melhores obras: no travesseiro, montado a cavalo e durante a toilette. Outro famoso sábio Ch’ing, Ku Ch’ienli, era conhecido pelo seu costume de “ler os clássicos confucianos completamente nu, no verão”. Em compensação, se não nos agrada a leitura, não faltam motivos para não ler em nenhuma das estações do ano:

Estudar na primavera é traição;
Não há como o estio para o sono;
E espera, enquanto o inverno vai tangendo o outono,
Que a primavera seja a próxima estação.

Em que consiste, pois, a verdadeira arte da leitura? A resposta, muito simples, é tomar um livro e ler quando se tem vontade. Pega a gente um lindo volume de Lisao, ou de Omar Khayyam, e vai, de mãos dadas com o seu amor, ler à margem de um rio. Se há boas nuvens no céu, pode-se ler as nuvens e esquecer o livro, ou ler o livro e as nuvens ao mesmo tempo. Às vezes, um bom cachimbo, ou uma taça de chá, constituem o momento mais perfeito. Ou talvez por uma noite nevada, sentado ante o fogo, quando canta uma chaleira e há uma boa bolsa de fumo ao alcance da mão, a gente reúne dez ou doze livros de filosofia, economia, poesia, biografia e os empilha no divã e depois preguiçosamente os folheia e mergulha suavemente naquele que mais atrai a atenção, de momento. Chin Shengt’an considera que um dos maiores prazeres da vida é ler um livro proibido, a portas fechadas, por uma noite de neve.

A melhor descrição do prazer da leitura, encontrei-a na autobiografia da maior poetisa chinesa, Li Ch’ingchao (Yi-an, 1081-1141). Ela e seu marido costumavam ir ao templo, onde se vendiam livros de segunda mão e cópias de inscrições em pedra, no dia em que ele recebia sua mensalidade como estudante da Academia Imperial. No regresso compravam também algumas frutas e, chegados em casa, começavam a descascá-las, ou a beber chá, enquanto comparavam as variações em edições diferentes. No seu esboço autobiográfico, diz ela:

“Eu tenho boa memória, e, sentados a sós depois de comer, no Salão do Regresso à Casa, costumávamos preparar chá e, mostrando os livros nas estantes, dizíamos em que linha, de que página, e de que volume de certa obra se achava determinada passagem, para quem acertava, e o que ganhava tinha o privilégio de beber primeiro sua taça de chá. Quando um dos dois acertava, erguíamos muito alto a taça e rompíamos em gargalhadas, tanto que às vezes se derramava o chá sobre as nossas vestes e não o podíamos beber. Que contentes estávamos por viver e envelhecer num mundo assim! Por isso mantínhamos alta a cabeça, embora vivêssemos na pobreza e cheios de cuidados… Com o tempo a nossa coleção foi aumentando, e os livros e objetos de arte se empilharam em mesas e escrivaninhas e camas, e nós os gozávamos com os olhos e com o espírito, e discutíamos sobre eles, saboreando uma felicidade muito superior à dos que gozam dos cachorros, dos cavalos, da música e da dança…”

Li escreveu isto na velhice morto já seu marido, quando era uma velha solitária que fugia de um lugar para outro, durante a invasão do norte da China pelas tribos Chin.

________

A Importância de Viver, de Lin Yutang (tradução de Mário Quintana).

Vincent Van Gogh fala da incompreensão do público

Vincent Van Gogh

(…) Levo as coisas com paciência, na falta de outro modo de suportá-las, mas esta contínua contrariedade com os modelos é bem irritante. Espero fazer esses dias um estudo de loureiros-rosa. Se pintássemos polidamente Bouguereau, as pessoas não teriam vergonha de se deixar pintar; mas creio que o fato de acharem que o que eu faço é “mal feito”, que não é mais que quadros cheios de tinta, me fez perder muitos modelos. Então as honradas putas têm medo de se comprometer e de que zombem de seus retratos. E há com o que quase se desanimar, quando sentimos que poderíamos fazer tantas coisas se as pessoas tivessem um pouco mais de boa vontade. Não posso me resignar a dizer que “as uvas estão verdes”, não me consolo por não ter mais modelos.

Enfim, é preciso ter paciência e voltar a procurar outros…

E se, quando jovens, podemos acreditar que pelo trabalho assíduo podemos satisfazer nossas necessidades, isto atualmente torna-se cada vez mais duvidoso. Disse de novo a Gauguin, em minha última carta, que se pintássemos como Bouguereau poderíamos esperar ganhar alguma coisa, mas que o público jamais mudará, e só gosta de coisas suaves e polidas. Tendo um talento mais austero, não se deve contar com o produto do próprio trabalho; a maioria das pessoas inteligentes o suficiente para compreender e gostar dos quadros impressionistas são e continuarão a ser pobres demais para comprá-los. Será que Gauguin ou eu trabalharemos menos só por causa disto? Não – mas seremos obrigados a aceitar a pobreza e o isolamento social como coisas inerentes. E, para começar, instalemo-nos aonde a vida for mais barata. Tanto melhor se o sucesso vier, tanto melhor se algum dia pudermos viver mais folgadamente.

O que me toca o coração na obra de Zola é esta figura de Bongrand-Jundt.

É tão verdadeiro o que ele diz: “Acreditam, infelizes, que quando o artista conquistou seu talento  e sua reputação, passa a estar ao abrigo? Pelo contrário, a partir de então fica-lhe proibido produzir algo que não seja totalmente bom. Sua própria reputação o obriga a cuidar tanto mais de seu trabalho, quanto as chances de venda se rarefazem. Ao menor sinal de fraqueza, toda a malta invejosa lhe cai em cima e destrói exatamente essa reputação e essa fé que um público inconstante e traiçoeiro momentaneamente teve nele”.

Mais forte que isto é o que diz Carlyle:

“Conheceis aqueles vagalumes que no Brasil são tão luminosos, que à noite as damas fincam com alfinetes em suas cabeleiras; a glória é muito boa, mas, vede, ela é para o artista o que o alfinete é para esses insetos.

“Quereis triunfar e brilhar; sabeis exatamente o que estais desejando?”

Ora, eu tenho horror ao sucesso, receio a ressaca de um sucesso dos impressionistas, os dias já difíceis de hoje nos parecerão mais tarde ter sido “os bons tempos”.

Pois bem, Gauguin e eu temos que nos prevenir, temos que trabalhar para ter um telhado sobre a cabeça, camas, enfim, o indispensável para agüentar o cerco do fracasso, que durará por toda nossa existência, e temos de nos fixar no lugar mais barato. Só então teremos a tranqüilidade necessária para produzir bastante, mesmo vendendo pouco ou não vendendo nada…

Concluo: viver mais ou menos como monges ou eremitas, tendo o trabalho como primeira paixão, com a resignação do bem-estar. (…)

Agosto de 1888

______

Cartas a Théo, de Vincent Van Gogh

José Antônio de Almeida Prado (1943-2010)



Domingo, dia 21 de Novembro, faleceu em São Paulo o compositor erudito José Antônio de Almeida Prado, membro da Academia Brasileira de Música e ex-aluno de Olivier Messiaen, compositor que, num campo de concentração nazista, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Conheci Almeida Prado em 1999, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst, sua prima. Nos dois anos em que lá morei, ele nos visitou em três ocasiões. Tínhamos longas conversas sobre arte, música, religião ― ele era católico ― e outros temas não muito ortodoxos. Num dia em que o acompanhei até uma farmácia para comprar insulina ― ele era diabético ―, Almeida Prado me disse: “Hildinha falou que você também está lendo sobre projeções astrais. É verdade?” Envergonhado como um garoto que tem as Playboys e Hustlers confiscadas pela mãe, que, por puro acaso, levantara o colchão para trocar aquele imundo lençol, comecei a gaguejar, afinal, não saio por aí revelando a meus amigos intelectuais, acadêmicos ou semelhantes tais gostos pervertidos de leitura. E ele: “É que tenho uma história que nunca contei a ninguém mas que gostaria de lhe contar”. Ufa, pensei. E acrescentei: “Manda bala, sou todo Ovídios”. E eis o que ouvi:

“Na noite em que comecei a compor o movimento das ‘Cartas Celestes’ que trata de Urano, fui acometido, ao piano, por um cansaço enorme, por um peso dolorido na nuca. Vendo que já era demasiado tarde ― e aproveitando que estava mesmo tendo dificuldades com a composição ― pus a um lado as partituras, o lápis e fui me deitar: ‘melhor retomar amanhã, quando estiver com melhor disposição’. Já na cama, deitado de costas, fiquei pensando no meu trabalho, na importância que aquela obra teria para mim e tal e, assim, fui caindo naquela letargia que antecede o sono. De repente, senti, sabe?, aquele tranco e, meio aflito, abri os olhos: Yuri, que susto! Eu estava flutuando em cima do telhado da minha casa! Quando eu já começava a me desesperar, acreditando estar morto, surgiu à minha frente uma esfera de luz azul que, rapidamente, veio a meu encontro e se chocou comigo. Na mesma hora já me vi dentro de uma espécie de tubo muito comprido ― aliás, as laterais pareciam a superfíce de um desses muros chapiscados ―, o qual me sugava como um aspirador. Quando a viagem acabou ― parecia uma viagem de elevador sem a inércia ― eu me encontrei flutuando sobre uma planície muito bonita e sob um céu de uma tonalidade e luz que eu nunca vira: esta não é a Terra, pensei. ‘Você está em Urano’, disse calmamente uma voz ao meu lado. Olhei em sua direção e vi um homem bastante alto, vestindo apenas uma túnica: ‘Não tenha medo, não vou lhe fazer mal.’ e, pegando-me pela mão, me levou a sobrevoar a região. Depois de me mostrar tudo ― vi diversos prédios afastados uns dos outros, como em Brasília, mas sem o menor sinal de ruas ― ele me olhou diretamente nos olhos e falou com bondade e firmeza: ‘Você notou? Não há o menor sinal de conflito aqui. Todos os que aqui estão vieram em missão de paz. Estamos aqui para ajudar seu planeta. Não estamos em guerra com ninguém. Portanto, volte ao seu trabalho e refaça todo o movimento sobre Urano das suas ‘Cartas Celestes’. Se permanecer como está, você estará mentindo, transmitindo uma mensagem falsa sobre nossa missão. Vá com Deus!” E, de súbito, a esfera de luz azul, vinda não sei de onde, chocou-se novamente comigo. Refiz o percurso pelo tubo de muro chapiscado e, então, sofri novo tranco, já em minha cama. Levantei elétrico, os pelos arrepiados, o corpo formigando. Corri para o piano e, de uma só vez, compus todo o novo movimento sobre Urano. E o cara tinha razão: antes ele estava muito Stravinsky, muito ‘Sagração da Primavera’.”

Ao terminar seu relato, Almeida Prado me disse: “Não vai sair contando isso por aí não, Yuri [ooops!], senão vão achar que tô doido e vão me tirar da UNICAMP. Se alguém me perguntar, não vou negar, mas também não vou confirmar”. E ria.

Em outra ocasião, Almeida Prado me falou de sua viagem até Medjugorje, na ex-Iugoslávia (Bósnia), aonde se dirigiu atraído pelos relatos da aparição de Nossa Senhora. Juntamente com outras dezenas de pessoas viu uma cruz de luz sobre Krizevak, a Montanha da Cruz. Uma chuva com cheiro de rosas caía sobre todos. Havia quase cem pessoas ali, mas nem todas eram capazes de enxergar a cruz. Comovido pela dádiva de poder vê-la, Almeida Prado se ajoelhou para orar e, então, ouviu a voz da mensageira celeste a falar em seu ouvido. Sentiu que ela o abraçava e o confortava. Disse-me que ela discorreu sobre seus problemas pessoais e o consolou. Sob a chuva, ele chorou de alegria. Sintetizou a experiência na composição para piano “Rosário de Medjugorje”.

Assim como Jacques Bergier e Louis Pauwels tão bem colocavam, acredito que nosso universo não pode ter outra natureza senão a do fantástico, a do imprevisível. Almeida Prado acreditava no mesmo e, quando encontrava pessoas que compartilhavam a mesma convicção, desfiava suas histórias.

Tenha uma boa viagem, amigo. Vá com Deus.

Página 51 de 80

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén