Yuri Vieira é um escritor e cineasta paulistano. Estudou na Universidade de Brasília - onde cursou cinema com Nélson Pereira dos Santos - e, após residir durante dois anos com a escritora Hilda Hilst (de quem foi secretário pessoal e webmaster), trabalha hoje como roteirista e diretor de vídeos/cinema. Publicou seu primeiro livro A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau em 1998 e, em Abril de 2007, dirigiu seu primeiro curta-metragem de ficção, Espelho, o qual, além de receber o prêmio de melhor direção do 3.o FestCine GYN, participou como curta convidado do festival "No Siesta, Fiesta!" (Tromsø, Noruega, 2009) e da mostra “Verão Cinema e Outras Coisas” (Costa da Caparica, Portugal, 2009). É ainda colaborador dos sites Digestivo Cultural e Olho de Vidro (Sertão Filmes).
Nossa peça, que esteve em cartaz no SESC Copacabana durante o mês de Janeiro, está em cartaz no Teatro Municipal do Jockey, na Gávea. Veja mais informações no cartaz abaixo (clique na imagem para ampliá-la):
A trilha sonora original, composta por quizzik, pode ser ouvida online integralmente:
Domingo, dia 21 de Novembro, faleceu em São Paulo o compositor erudito José Antônio de Almeida Prado, membro da Academia Brasileira de Música e ex-aluno de Olivier Messiaen, compositor que, num campo de concentração nazista, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Conheci Almeida Prado em 1999, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst, sua prima. Nos dois anos em que lá morei, ele nos visitou em três ocasiões. Tínhamos longas conversas sobre arte, música, religião ― ele era católico ― e outros temas não muito ortodoxos. Num dia em que o acompanhei até uma farmácia para comprar insulina ― ele era diabético ―, Almeida Prado me disse: “Hildinha falou que você também está lendo sobre projeções astrais. É verdade?” Envergonhado como um garoto que tem as Playboys e Hustlers confiscadas pela mãe, que, por puro acaso, levantara o colchão para trocar aquele imundo lençol, comecei a gaguejar, afinal, não saio por aí revelando a meus amigos intelectuais, acadêmicos ou semelhantes tais gostos pervertidos de leitura. E ele: “É que tenho uma história que nunca contei a ninguém mas que gostaria de lhe contar”. Ufa, pensei. E acrescentei: “Manda bala, sou todo Ovídios”. E eis o que ouvi:
“Na noite em que comecei a compor o movimento das ‘Cartas Celestes’ que trata de Urano, fui acometido, ao piano, por um cansaço enorme, por um peso dolorido na nuca. Vendo que já era demasiado tarde ― e aproveitando que estava mesmo tendo dificuldades com a composição ― pus a um lado as partituras, o lápis e fui me deitar: ‘melhor retomar amanhã, quando estiver com melhor disposição’. Já na cama, deitado de costas, fiquei pensando no meu trabalho, na importância que aquela obra teria para mim e tal e, assim, fui caindo naquela letargia que antecede o sono. De repente, senti, sabe?, aquele tranco e, meio aflito, abri os olhos: Yuri, que susto! Eu estava flutuando em cima do telhado da minha casa! Quando eu já começava a me desesperar, acreditando estar morto, surgiu à minha frente uma esfera de luz azul que, rapidamente, veio a meu encontro e se chocou comigo. Na mesma hora já me vi dentro de uma espécie de tubo muito comprido ― aliás, as laterais pareciam a superfíce de um desses muros chapiscados ―, o qual me sugava como um aspirador. Quando a viagem acabou ― parecia uma viagem de elevador sem a inércia ― eu me encontrei flutuando sobre uma planície muito bonita e sob um céu de uma tonalidade e luz que eu nunca vira: esta não é a Terra, pensei. ‘Você está em Urano’, disse calmamente uma voz ao meu lado. Olhei em sua direção e vi um homem bastante alto, vestindo apenas uma túnica: ‘Não tenha medo, não vou lhe fazer mal.’ e, pegando-me pela mão, me levou a sobrevoar a região. Depois de me mostrar tudo ― vi diversos prédios afastados uns dos outros, como em Brasília, mas sem o menor sinal de ruas ― ele me olhou diretamente nos olhos e falou com bondade e firmeza: ‘Você notou? Não há o menor sinal de conflito aqui. Todos os que aqui estão vieram em missão de paz. Estamos aqui para ajudar seu planeta. Não estamos em guerra com ninguém. Portanto, volte ao seu trabalho e refaça todo o movimento sobre Urano das suas ‘Cartas Celestes’. Se permanecer como está, você estará mentindo, transmitindo uma mensagem falsa sobre nossa missão. Vá com Deus!” E, de súbito, a esfera de luz azul, vinda não sei de onde, chocou-se novamente comigo. Refiz o percurso pelo tubo de muro chapiscado e, então, sofri novo tranco, já em minha cama. Levantei elétrico, os pelos arrepiados, o corpo formigando. Corri para o piano e, de uma só vez, compus todo o novo movimento sobre Urano. E o cara tinha razão: antes ele estava muito Stravinsky, muito ‘Sagração da Primavera’.”
Ao terminar seu relato, Almeida Prado me disse: “Não vai sair contando isso por aí não, Yuri [ooops!], senão vão achar que tô doido e vão me tirar da UNICAMP. Se alguém me perguntar, não vou negar, mas também não vou confirmar”. E ria.
Em outra ocasião, Almeida Prado me falou de sua viagem até Medjugorje, na ex-Iugoslávia (Bósnia), aonde se dirigiu atraído pelos relatos da aparição de Nossa Senhora. Juntamente com outras dezenas de pessoas viu uma cruz de luz sobre Krizevak, a Montanha da Cruz. Uma chuva com cheiro de rosas caía sobre todos. Havia quase cem pessoas ali, mas nem todas eram capazes de enxergar a cruz. Comovido pela dádiva de poder vê-la, Almeida Prado se ajoelhou para orar e, então, ouviu a voz da mensageira celeste a falar em seu ouvido. Sentiu que ela o abraçava e o confortava. Disse-me que ela discorreu sobre seus problemas pessoais e o consolou. Sob a chuva, ele chorou de alegria. Sintetizou a experiência na composição para piano “Rosário de Medjugorje”.
Assim como Jacques Bergier e Louis Pauwels tão bem colocavam, acredito que nosso universo não pode ter outra natureza senão a do fantástico, a do imprevisível. Almeida Prado acreditava no mesmo e, quando encontrava pessoas que compartilhavam a mesma convicção, desfiava suas histórias.
Recebi o email abaixo de Daniel Mora Fuentes, do Instituto Hilda Hilst:
Caros,
O Instituto Hilda Hilst tem a felicidade de comunicar, nesta semana em que Hilda completaria 80 anos, o inicio do processo de tombamento da Casa do Sol, sede do Instituto, e também o lançamento de projeto arquitetônico de reforma e construção de teatro, biblioteca e residência de bolsistas. Recomendamos também reportagem especial sobre Hilda e o futuro do Inst. Hilda Hilst que irá ao ar no programa Metrópolis da TV Cultura, quarta-feira dia 21, as 20:30 hs.
Neste tombamento vale ressaltar a fundamental participação da Academia Paulista de Letras, Unicamp e Ed. Globo, além da amizade e empenho da amiga Lygia Fagundes Telles. Importante valorizar também a parceria com o escritório RBF Arquitetura e Planejamento, responsável pelo projeto arquitetônico para o futuro da Casa do Sol.
Outro evento interessante que circunda esta “semana Hilda Hilst” é o lançamento do livro “Porque Ler Hilda Hilst”, de Alcir Pécora, pela Ed. Globo, que contará com pocket-show de Zeca Baleiro e outros eventos interessantes.
Todos estão convidados (dia 21, 16hs, Livraria Cultura do Shopping Pompéia)!
Amanhã, 30 de Março, estarei no Pop House às 19 horas, onde contribuirei com o 2º Encontro de Tuiteiros Culturais de Goiás. (Veja a programação abaixo.) Falarei rapidamente sobre livros digitais (ebooks), sobre a nascente “impressão sob demanda” e, aproveitando a oportunidade, lançarei oficialmente meu livro “A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio“. Sendo um evento ligado à internet e à “era digital”, vale lembrar que não haverá exemplares “palpáveis” do livro, o que impossibilitará a tradicional “noite de autógrafos”. Mas será uma ótima “noite de conversas” e o livro estará, virtualmente, bem presente, e os interessados poderão receber sua versão em PDF gratuitamente. Mais tarde, já em sua casa, o leitor poderá adquirir pela internet, e receber pelo correio, a versão impressa através do Clube de Autores ou da agBook.
Conto com a presença dos amigos e demais interessados. (Culturaholics serão bem-vindos.)
O Evento:
1 – apresentação musical com @GeorgiaCynara;
2 – apresentação de @ReillyRangel e de Marcos Borges (@gentedeconteudo), da Tron Informática, sobre a experiência com a liberação das redes sociais em sua empresa;
3 – apresentação de @PabloKossa e @Fabricio_Nobre sobre Espaços Culturais em Goiás;
4 – lançamento do livro virtual de @yurivs, “A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio”.
Horário: 30 março 2010, das 19:00h às 22:00h. Local: Pop House Bar End.: Rua 1 145, 228 – Quadra 262, Lote 3, Setor Marista. Próximo ao Parque Areião, atrás do Quartel da PM. Cidade: Goiânia Mapa: http://twitpic.com/1au6an Telefone: (62) 4141-4922
Direção: Érica Casarin Geraldo. Elenco: Carlos Magno Costa Tavares Junior, Daniele Rodrigues da Cunha, Enilde Gonçalves da Costa, Eunice de Carvalho, Janete do Amaral, Jedson Dassaev Rodrigues de Medeiros, Mário Henrique Kunde, Raquel Deliberali, Willian Bernardo Luciano.
Local: Centro Cultural UNINTER – Rua Dr. Muricy 1088 – Centro — Curitiba – PR
Este parece ser o primeiro post deste blog — mas não é. Afinal, embora eu tenha mudado algumas vezes — e isso desde 2002 — de servidor, de CMS (Content Management System), de domínio, e até mesmo o nome do blog, eu não vejo nenhuma descontinuidade no processo. Este blog ainda é o meu blog, o mesmo que comecei a escrever em 1985, aos 14 anos, num caderno preterido pelas lições do colégio, isto é, o meu privativo blog primitivo. De fato, entre aquele e este, não há grande diferença. Talvez eu esteja apenas um pouco mais desencanado, um tanto mais tranqüilo, mais reticente — e só. Entende? Liguei o “foda-se”. Para quê tanta preocupação? Para quê tanta discussão online? (Sem debates públicos! Os comentários, por exemplo, só estão habilitados para trackbacks. Quem quiser me dizer algo, quem quiser iniciar um diálogo honesto, que utilize o formulário de contato; quem quiser se exibir, que saia nu pela rua ou crie seu próprio blog.) Poxa, como dizia o Heidegger — em outro contexto, obviamente –, “o medonho já aconteceu”. Logo, poderia ocorrer, neste mundo, algo pior que a Rebelião de Lúcifer? Algo pior que a queda do casal adâmico? É óbvio que não. Tudo o mais é conseqüência. Cabe a cada um escolher o lado pelo qual deseja lutar. E por mais que as coisas possam caminhar para trás, um dia elas fatalmente seguirão adiante. Mesmo que, para tanto, sejam necessários dez mil anos de idas e voltas e novas idas. (O Brasil precisará de uns cem mil.) E, se a realidade vier a meter bambus sob minhas unhas, meu espírito ficará resguardado em local muito seguro. Conquistei minha fé. E isso é o que importa.
Todo esse papo, aliás, não é senão um preâmbulo para postar e justificar aqui a foto da camiseta que criei e que acabou se tornando a imagem deste blog: o escritor Dostoiévski abraçado à modelo… Quem é ela? Sinceramente, eu não sei. Baixei a imagem dela da internet. (Escrevam-me antes de pensar em me processar, ok?) “É o Fidel?”, perguntou meu pai. Não, não é. É meu escritor russo predileto — intenso, estranho, religioso — abraçado à musa — linda, sensual — de alguém. (De quem? Bom, não tenho a menor idéia.) Enfim, decidi criar esse contraste entre a pujança interior dele e a beleza exterior dela, entre o espírito criador e a tentação. O resultado me pareceu — como direi? — terno, cômico, bizarro e, conforme me anunciou uma certa señorita, a minha cara! E só. (Acho que o amigo Fiódor, como legítimo escorpiano, o aprovaria.) E funciona: as pessoas se voltam para olhar minha camiseta quando passeio por aí.
Ah, quase me esqueço: sim, desisti de criar nomes para meu blog. Cada dia tinha uma idéia mais “genial” que a outra: cantandoeandando.com, escrevendoeandando.com, inutiliatruncat.com, blogexmachina.com, deusexblog.com, parardepensaremburrece.com, vaitecatar.com, etc. Bobagens. Para quê tanto esforço? Eu iria me enjoar do nome como me enjôo da roupa cotidiana. Aliás, meus amigos sempre se referiram a meu site assim mesmo, “blog do Yuri”. Sem falar que o último — O Garganta de Fogo –, que era um blog coletivo, acabou se transformando, de fato, numa garganta de fogo. Nomen est omen (Nome é destino). Mas eu sou de escorpião, um signo de água…
É isto. No mais, sejam bem-vindos a essa nova fase do “blog do Yuri”. (Se me der na telha, publicarei meus posts antigos aqui.)