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Rodrigo Constantino: “A imaginação moral de Yuri Vieira e A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Nunca tinha lido nada de Yuri Vieira. Que desperdício de tempo! O prejuízo foi meu, certamente. Li sobre seu livro A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau, em A corrupção da inteligência, de Flávio Gordon,  fiquei curioso e o comprei. E logo o devorei.

Lembrei, depois, que meu editor Carlos Andreazza tinha me mandado de presente seu novo livro, A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, cujo título já é uma comédia em si. Resultado: tive uma “overdose” de Yuri Vieira nos últimos dias, com a sensação de ter de recuperar o tempo perdido, de quando ainda não conhecia seus contos hilários, seu estilo envolvente.

Edmund Burke falou en passant do conceito de “imaginação moral”, que foi elaborado por Russell Kirk depois e se tornou uma ideia cara aos conservadores. G.K. Chesterton, T.S. Eliot, Tolkien e C.S. Lewis são exemplos claros de escritores que trabalharam bem com essa noção de “imaginação moral”, e transmitiram valores tradicionais por meio de suas histórias fantásticas e seus personagens encantadores.

Por acaso, terminei junto com os livros de Yuri a quinta e última temporada da série “Father Brown”, da BBC, inspirada no personagem criado por Chesterton, um dos meus favoritos (que delícia era ler seus contos antes de dormir!). Pois bem: o advogado de nome curioso, Dr. João Pinto Grande, remeteu-me ao Padre Brown, com sua postura cristã, seu desejo de realmente ajudar, fazer o bem, ser uma pessoa melhor, acreditar no outro, apostar no próximo, ter fé na humanidade, apesar de tudo.

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Yuri passa as mensagens que eu tento também transmitir em meus textos, mas com incrível leveza e contando uma história divertida, muitas vezes surreal, que prende o leitor do começo ao fim. Até mesmo uma aula de Bitcoin e de escola austríaca ele conseguiu encaixar num conto que ficou, acreditem, leve e divertido. Há críticas ao feminismo, ao esquerdismo em geral, ao vegetarianismo radical, e tudo isso navegando pelas questões religiosas profundas, com excelentes diálogos.

No livro anterior, tem umas histórias bizarras que se passam na UnB como cenário, contendo críticas ácidas ao nosso modelo de ensino, aos professores, reitores, artistas e também psicólogos. Numa das histórias, em que o “artista” se torna uma “estátua viva” por acidente e é considerado um gênio, eu chorei de rir, mas depois percebi que era legítimo só chorar mesmo, sem rir, pois chegamos a esse grau de maluquice com nosso relativismo estético:

Até que um dia, desmaiou de exaustão sobre uma de suas telas. Sua cara ficou estampada ali. “Fantástico!”, afirmaram os críticos. “Ele encontrou um estilo próprio. Sente-se sua marca, sua personalidade em cada uma de suas obras. Um gênio!”

[…]

Fazia esculturas com argila. Usava-as, quando ainda úmidas, como travesseiro. Sua casa tornara-se um processo de criação artística. Os críticos aplaudiam. O dinheiro e a fama entravam.

Não é à toa que se trata de uma tragicomédia! A história com a psicóloga também é extremamente engraçada, mas triste ao mesmo tempo, quando penso em tantos psicanalistas que conheço que são exatamente assim, super vaidosos, com um ego maior do que o mundo, tentando posar para a plateia em vez de realmente se conhecer a fundo, exatamente como a autoritária personagem que só se encontrou na academia, onde poderia exercer seu desejo de comando:

Quando se formou, Maria Eugênia foi trabalhar num sanatório. Não agüentou um mês. “Aqueles malucos! Nunca prestavam atenção no que EU dizia…” Depois tentou clinicar. Mas também não deu certo. “Os pacientes? Eles só queriam saber de si mesmos, não me deixavam falar…” Maria Eugênia teve, então, a feliz idéia de seguir a carreira acadêmica. “Mas Maria Eugênia…” “Cala a boca! Afinal quem que é a doutora aqui?” Havia encontrado o seu lugar. O lugar perfeito. Finalmente chegara onde ninguém seria louco o bastante a ponto de enfrentá-la. Os alunos a temiam e a admiravam. Nas reuniões e seminários era sempre sua a última palavra.

Se o leitor não conhece uma psi assim, é porque não conhece muitas psis. As taras moderninhas orientais, substitutas para uma religião mais exigente como o cristianismo, também são ironizadas nos contos, assim como o socialismo, a seita secular onipresente na academia. Um desses dinossauros viveu anos no esgoto e nem percebeu o tempo passar, exatamente como tantos militantes disfarçados de “professores” que pululam nossas salas de aula e não se deram conta da queda do Muro ainda:

Não acreditava que passara mais de vinte anos nos esgotos do Minhocão. Acabara o comunismo na União Soviética – acabara a União Soviética! – não havia mais o muro de Berlim e havia Mac Donald’s na China… Todos tinham um computador pessoal, internet e cartões magnéticos… Sim, ainda havia fome, miséria e injustiça… Mas, meu Deus, quantas transformações! E ele perdera vinte anos de vida! Tudo por causa dum relógio russo, comprado em Cuba, que usara todo aquele tempo e cujo ponteiro mal se movia. Triste, muito triste.

Nos contos novos, a criação do personagem Dr. Pinto Grande foi uma sacada e tanto, e em diferentes histórias lá está ele, o advogado humilde, que anda armado pois sabe que o mundo é uma selva, mas que está mais preocupado com os selvagens existentes em todos nós, que devem ser domados, domesticados, civilizados. Sua postura é elegante, contida, educada, e ele faz perguntas que levam o interlocutor a reflexões importantes sobre a essência da vida. E sempre com humor, claro, pois ele é fundamental para suportarmos melhor a vida:

Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, cheia de gente que tenta negar, não os aspectos nocivos da nossa animalidade intrínseca, mas a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

Tudo isso, repito, em histórias muito criativas, como as de Padre Brown, cuja pacata Kembleford seria o lugar mais perigoso do mundo, a julgar pela quantidade de assassinatos que o sagaz padre precisa desvendar. A influência de Chesterton parece evidente em Yuri, e não foi por acaso a escolha da epígrafe do livro, tirada de O que há de errado com o mundo, do escritor inglês: “Não apenas estamos todos no mesmo barco como também estamos todos mareados”.

Se essa mensagem for realmente absorvida, poderá haver mais tolerância de fato, mais humildade, mais boa vontade para com o próximo, mas sem romantismo bobo, sem falsas ilusões, sem a pretensão de que o amor seja suficiente para abandonarmos as nossas armas, necessárias para nossa defesa. Leiam Yuri Vieira! Estou certo de que não vão se arrepender, e terminarão a leitura pedindo mais Pinto Grande…

Fonte: Gazeta do Povo.

O crítico literário Rodrigo Gurgel fala sobre “A menina branca”

O crítico literário Rodrigo Gurgel (Folha de São Paulo e jornal Rascunho) comenta A menina branca, um dos contos do livro A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande:

Li, neste final de semana, “A menina branca”, do Yuri Vieira. Li esperando encontrar o afamado Dr. João Pinto Grande, que dá nome ao livro, mas ele não me concedeu a graça da sua presença.

Começo pelo fim: o destino de Edgard, protagonista da história, é o risco que todos correm neste país — todos que têm alguma consciência e desejam viver de forma honesta, trabalhando, pagando impostos e usufruindo de pequenas alegrias: o país luta contra essas pessoas. E quando digo país, não me refiro a uma entidade onírica, mas a parcela do povo, a pessoas concretas que nos rodeiam. Edgard experimenta isso da pior forma, traído, de maneira abjeta, por Virgínia, sua noiva — que, entre ele e a ideologia, ou seja, entre a realidade e a ilusão, prefere a segunda, mesmo que isso signifique destruir a primeira por meio de um gesto leviano. Não se trata, portanto, de simples escolha, mas de condenação: Virgínia acredita, como todos os revolucionários e ideólogos, que sacrificar a realidade contribuirá para tornar sua ilusão real. Ela me fez lembrar a professora Delphine Roux — covarde, neurótica e arrivista —, personagem de Philip Roth em “A marca humana”.

A história, entretanto, é mais complexa — há várias camadas de trama, incluindo deliciosas referências ao conto “O gato preto”, de Edgard Allan Poe, e a outros de seus escritos: o sabiá do protagonista, por exemplo, chama-se Nevermore.

Quem me conhece sabe que me aproximo de um texto esperando que ele me ofereça o melhor. Na maioria das vezes, contudo, tenho de me esforçar para que isso aconteça. Mas o narrador de “A menina branca” me sequestrou desde o início. Sua voz, irônica e sarcástica nos momentos certos; a maneira como elabora a introspecção de Edgard, principalmente quando precisa justificar seu desesperado gesto de violência; os diálogos que conduzem o leitor pelas emoções dos personagens, revelando o labirinto psicológico que se esconde por trás das aparências — tudo me agradou.

Yuri também demonstra timing perfeito e constrói uma linha de crescente emoção: a cada cena queremos ir adiante, até o final macabro, cujo humor, com pinceladas de grand guignol e nonsense, aprofunda a tragédia de Edgard. Final, aliás, conduzido por inesperado personagem, um “comissário do povo” no melhor estilo bolchevique — isto é, destituído de qualquer mínimo senso moral.

Só me resta, agora, prosseguir na leitura, para uma resenha completa, em que eu possa falar do famigerado Pinto Grande.

Postado no Facebook.

Honolulu, 13 de Janeiro de 2018 (conto)

Naquela manhã de sábado, William e Lindsay ainda dormiam em seus respectivos quartos, quando George C. Morgado, o pai, lhes bateu violentamente à porta:

— Bill! Levanta! Rápido! — e enquanto esmurrava a porta da filha: — Acorda, Lin! Vamos!

O homem estava tão agitado e seus gritos foram tão estridentes que as crianças, muito assustadas, deixaram a cama de um pulo:

— Que foi, papai? O que está acontecendo?

— Venham! — disse, arrastando-os pelas mãos.

— Calma, pai! Tá me machucando… — resmungou a menina, que vestia apenas uma camiseta enorme que lhe atingia os joelhos.

O pai, de olhos esbugalhados, a respiração opressa, não lhes fez caso: limitou-se a conduzi-los escada abaixo até a sala. Na cozinha, Martha, a mãe, enchia um engradado plástico com várias garrafas de água mineral, sacolas de pão, caixas de cereal, embalagens de comida congelada e demais mantimentos a esse modo. William não gostou nada de ver aquela agitação:

— Ah, não! Eu não vou acampar hoje! Tenho aula de surfe à tarde.

A mãe virou-se instantaneamente para ele: seus movimentos e sua agitação eram de puro frenesi.

— Pro porão! Pro porão! — gritou ela, fitando-os com uma expressão perplexa, insana.

Lindsay começou a chorar:

— Não fui eu! Não fui eu! Foi o Bill — protestou, sem saber do que falava, mas já prenunciando um castigo inédito qualquer.

Comovida, a mãe largou o engradado sobre a mesa e a pegou no colo:

— Calma, meu bem! Nós vamos sobreviver — retrucou, sem ter apreendido senão o choro da menina.

— Rápido, Martha! — berrou o pai, colocando uma mochila às costas. — Leve-a para o porão! Eu pego o engradado.

William assistia a tudo boquiaberto:

— O que está acontecendo com vocês dois? Alguém por acaso vem prender a gente?

Não responderam. Sustentando a menina no braço direito, a mãe o segurou com a outra mão, correndo em seguida até a porta do porão, onde se meteu escada abaixo arrastando o menino pelos degraus.

— Ai, mãe!

O pai veio logo atrás com o engradado, fechando atrás de si a porta, que era de metal e tinha uma tranca quádrupla por dentro. Lindsay soluçava.

— Calma, meu bem. Nós vamos sobreviver.

Martha esticou um colchonete no piso e se sentou nele, agarrada à filha. O menino não quis acompanhá-las.

— Vocês não vão explicar nada?

Nervosíssimo, George caminhava de um lado para o outro do pequeno cômodo, o celular em punho, o rosto iluminado pela tela brilhante.

— George, o que eles dizem? — perguntou Martha.

O marido estacou:

— A mesma coisa: “não é um exercício”.

— For God’s sake! — exclamou o garoto. — Do que vocês estão falando?!

O pai o fitou intensamente e pareceu meditar por alguns segundos. Por fim, tomou-o pelo braço e o levou até o lado oposto do porão. Então abaixou-se, encarando o filho:

— Bill, você já é praticamente um rapaz, vai completar doze anos no próximo mês. Eu preciso que você tenha coragem, porque vou te contar o que é, ok?

— Ok.

— Precisa agir como um homem. Entende?

O menino gostou de ser chamado de homem:

— Claro, papai — respondeu, o peito estufado.

George engoliu em seco:

— Veja a mensagem que o governo do Estado do Havaí nos enviou — e lhe indicou a tela do celular: “AMEAÇA DE MÍSSIL BALÍSTICO CHEGA AO HAVAÍ. PROCURE ABRIGO IMEDIATO. ISTO NÃO É UM EXERCÍCIO”.

— Não entendo, papai — tornou o menino, franzindo o cenho. — O que isso significa?

— Um ataque… — começou o pai, quase gritando, mas refreou-se. E então, olhando a esposa e a filha de esguelha, sussurrou: — Um ataque nuclear. A Coréia do Norte disparou mísseis contra nós.

O menino arregalou os grandes olhos azuis, fitou o pai, ensaiou uma expressão heróica de adulto e, de lábios trêmulos, perguntou:

— Não é… um trote? Pode ser uma pegadinha.

— Não, Bill. Os canais de TV e o rádio confirmaram a informação.

Essa notícia foi grave demais para aquele adulto recente — e o menino, pois, caiu em prantos.

— Não! Não! Não quero morrer! — finalmente gritou e, ato seguido, correu na direção do colchonete, atirando-se nos braços da mãe.

— Minhas crianças! Minhas crianças! — choramingava ela, afagando-os.

O pai sacudiu a cabeça, arrependido, e logo retomou sua peregrinação pelo porão, o celular em punho, o rosto pálido e iluminado como o de um vampiro à luz do luar. No WhatsApp, os parentes e amigos trocavam mensagens desesperadas, indagando uns aos outros se já estavam todos prontos para o impacto. Michael, pai de George, enviara uma mensagem amorosa, despendido-se do filho e afirmando que havia sido uma honra ter tido uma família tão liberal, tão progressista, tão inteligente, tão unida em prol dos mesmos ideais. Seu irmão, Michael Junior, ainda conseguia ter algum senso de humor em meio ao pânico geral: “Pelo menos não encontraremos mais republicanos lá no céu — se é que existe um céu”.

— Imbecil — murmurou George para si mesmo.

Enquanto continuava lendo essas mensagens, a esposa e os filhos pranteavam a morte iminente. Fitando-os com ternura, George pensou que havia chegado a hora das despedidas: aquele porão não fora construído para resistir a uma desgraça dessa escala. Quando, a passos lentos, começava a se dirigir até eles, veio o estrondo:

— PAM! PAM! PAM! PAM!

Martha e as crianças, em uníssono, gritaram histericamente. George quase descomeu o coração de tanto susto. Alguém batia na porta metálica do porão:

— George! Você tá aí? George!

Acreditando tratar-se de um parente ou de um amigo a buscar abrigo, George galgou rapidamente a escada de dois em dois degraus. E abriu a porta: era Tom, o jardineiro.

— Oi, George. O que você está fazendo trancado aí dentro? Quer que eu volte depois?

Estranhando toda aquela calma, perguntou de rebate:

— Tom, você não está sabendo de nada?! O que veio fazer aqui? E sua família?

O velho sorriu:

— Eu vim pegar o cortador de grama. Hoje é dia, né.

— Mas… e sua família?

— Estão bem, graças a Deus. Obrigado por perguntar. Quer que eu volte depois?

— Tom, a Coréia do Norte está nos atacando! Um míssil nuclear pode nos atingir a qualquer instante. Venha pra dentro! — e tentou puxar o velho pelo braço.

Tom se desvencilhou:

— Calma, George. Não vai acontecer nada. É uma bobagem.

— Mas o governo emitiu o alerta! Não é brincadeira!

— Ah, o governo… — suspirou o outro. — E você ainda acredita no governo? — e deu uma risadinha. — Vocês democratas são engraçados: se o Trump faz alguma coisa boa real, de verdade, vocês não acreditam. Se o governador democrata do Havaí diz que estamos sendo atacados pelo… como chama? King Kong-un?

— Kim Jong-un.

— Mesma coisa — e pigarreou. — Enfim, só porque o governo daqui é democrata vocês dão crédito pra ele. Uma bobagem.

George mal podia acreditar no estado de negação em que se encontrava mergulhado o velho jardineiro: estaria caduco?

— Tom, fique aqui com a gente. Ou então corra pra casa. Esqueça nosso jardim.

O velho voltou a rir:

— Sabe, George. Eu sou casado com uma nativa havaiana. Mas já fui casado antes, lá no Texas. Um dia, descobri que essa minha primeira mulher tinha um caso com um safado que morava a uma milha da minha casa. Peguei meu Colt 1911 e fui atrás do sujeito. Ele vivia nas aforas da cidade, já no meio do mato. Quando eu já estava dando a volta na casa, para surpreendê-lo pelos fundos, ouvi disparos de fuzil. Quase me atirei ao chão de tanto susto.

— Mas o que isso tem a… — começou George, aflito.

— Calma — atalhou-o o velho jardineiro, sorrindo. — Enfim… quando eu já ia me jogar ao chão, vi o sujeitinho treinando tiro ao alvo no meio da mata que tinha atrás da casa dele. O desgraçado tinha um fuzil AR-15! Sabe o que eu fiz?

— Hum.

— Meti o rabo entre as pernas, pedi o divórcio e me mudei para o Havaí: para não passar vergonha. E aí tive a sorte de conhecer a Mary.

— Pelo amor de Deus, Tom! O que você tá tentando me dizer, homem?

— Você viu o que os jornais disseram sobre o Trump no dia 3 de Janeiro? Disseram que, na noite anterior, ele havia respondido às ameaças do King Kong na internet.

— Kim Jong!

— Então! Foi o que eu disse! — e sorriu, concordante. — Enfim, ele respondeu às ameaças do coreano na internet, dizendo que o botão dele, Trump, o botão de disparar as bombas atômicas, é muito maior que o botão do ditadorzinho comunista. E que além disso é um botão que funciona! — e colocou a mão no ombro do interlocutor. — Olha, George, quando eu morava no Texas, eu era um cara bem doido: mas não era idiota! Esses tiranos podem não acreditar na existência das almas, mas acreditam na existência dos corpos e na perpetuação da sua própria dinastia, da sua descendência. Um ataque americano transformaria a Coréia do Norte num deserto. Ficaria pior que Cartago, faltando apenas que alguém lhe despejasse toneladas de sal. É óbvio que o King Kong sabe disso tão bem quanto eu.

Martha surgiu no topo da escada bufando, o pesado cortador de grama entre os braços:

— Pode ir cortar, Tom — disse, entregando-lhe a geringonça.

— Ah, obriga….

Mas, sem terminar de ouvi-lo, Martha apenas o empurrou para fora, fechando com estrondo a porta do porão:

— Você está maluco, George?! — rosnou ela, o dedo indicador em riste. — Quer passar os últimos minutos de nossas vidas conversando com um republicano que votou no Trump? É por culpa dessa gente que estamos sendo atacados.

A família, pois, permaneceu trancada no porão por mais meia hora, ao fim da qual o governo local se pronunciou confessando que havia ocorrido um erro da parte de um funcionário da Agência de Gestão de Emergência do Havaí: não havia nenhuma ameaça real. Quando voltaram à cozinha, viram pela janela que Tom ainda cortava tranquilamente a grama do jardim traseiro, enquanto, em meio ao rugido da máquina, cantarolava uma incompreensível canção country de amor e morte.

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Na Wikipédia: 2018 Hawaii false missile alert.

Daniel Gil comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Resenha de Daniel Gil, poeta, ensaísta e secretário executivo da UFRJ, publicada pela Revista Amálgama:

A CONSCIÊNCIA DE YURI

É desconcertante solicitar ao funcionário da livraria um exemplar de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande (Editora Record). A experiência faceciosa já se inicia desde então, quando o próprio leitor se vê de repente partícipe do humor de Yuri Vieira.

O escritor — que também é cineasta premiado — apresenta nesse volume de contos uma expressiva evolução desde a sua estreia com A Tragicomédia Acadêmica: Contos Imediatos do Terceiro Grau. Suas sentenças concertam mais concisão e sonoridade; o arcabouço complexo de recursos literários, que desde sempre engendrou suas narrativas, agora alcança homogeneidade; seu humor e suas intenções, quando não propositalmente explícitos, submergem de maneira acabada e segura nas entrelinhas.

Conquanto seja uma coleção de contos — e eles subsistam independentemente —, perpassa, em quase todos, o personagem de nome risível que lhe oferece unidade e título: o advogado João Pinto Grande. Sua presença contínua, porém, nem sempre faz dele um protagonista nas urdiduras. O advogado é em certa medida um herói discreto e bonachão, caso venhamos a utilizar o conceito de herói no sentido romântico: aquele que demonstra como um homem poderia ser; no caso específico, um homem que não separa a sua inteligência de um rigoroso idealismo moral. A unidade entre as diferentes estórias, logo, dá-se também pelo coincidente recorte no tempo — condição importantíssima, devido à atualidade das questões e dos elementos envolvidos (do feminismo aos bitcoins).

Uma característica especialmente distintiva de A sábia ingenuidade…, para além do humor cômico, é a presença de personagens que carregam opiniões robustas a respeito de polêmicas nada aconselháveis, o que exige, ao mesmo tempo, uma demonstração de domínio técnico-literário na composição — bem sucedido, é preciso dizer — e um profundo interesse intelectual pelos problemas contemporâneos, incluindo a variedade de posicionamentos. A respeito das supostas opiniões do próprio Yuri, poderíamos assinalar a fala do Dr. Pinto Grande no conto “O pedinte do metrô”, ao divagar sobre Deus: “Por que um artista ou escritor pode se colocar dentro de sua obra, representando-se mediante um personagem-avatar, e Deus não o poderia?”. Algo semelhante já havia sido observado pelo personagem Paulo César, no conto “A teologia da maconha”.

No entanto, Yuri Vieira abala de maneira intermitente as impressões mais cômodas do leitor. No conto “Amarás ao teu vizinho”, por exemplo, o advogado de nome jocoso pensa consigo mesmo, ao se lembrar de uma conversa sobre Herman Hesse: “Ora, escritores de ficção são artistas, não necessariamente bons intelectuais, filósofos ou guias espirituais”. Ainda sobre essa consciente confusão de perspectivas, concebida com zelo em todo o livro, é necessário notar que o próprio contista é personagem no conto de abertura — por consequência, o único deles a ser narrado em primeira pessoa. Os pontos de vista, a despeito, são expostos ali de modo a largar o leitor no campo das incertezas, tanto mais quando de súbito rebentam elementos fantásticos em cena — mecanismo já consolidado no estilo de Yuri.

A palavra consciência pode ser talvez a que melhor se associe à feitura de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, uma vez que seja preciso uma percepção muito clara das próprias faculdades para realizar com arte esse trabalho. Sobretudo no risco, todo gesto mais ingênuo seria fatalmente salientado. Yuri Vieira parece então herdar instrumentos importantes de uma tradição de comicidade da literatura brasileira, seja na descrição de detalhes falsamente dispensáveis — que o aproxima de Nelson Rodrigues —, seja no confronto heteróclito e burlesco de figuras morais — ao estilo machadiano. Quando emprega novidade nesses pertences, ganha lugar entre os mais talentosos (e engraçados) prosadores da atualidade.

Luis Vilar comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Resenha de Luis Vilar, editor-geral do Grupo CadaMinuto:

DR. JOÃO PINTO GRANDE TEM ALGO A LHE DIZER…

O novo livro de Yuri Vieira é um primor. Com bom humor e coragem para adentrar em temas espinhosos, ainda que estes para muitos pareçam teoria da conspiração, Vieira traz uma coletânea de contos em A Sábia Ingenuidade de Dr. João Pinto Grand (Editora Record) que nos faz rir ao mesmo tempo em que tememos pelo futuro secularista onde vamos sendo jogados. Tudo isso em nome de um “mundo melhor” com tantos “progressismos”…

O conto de abertura, em que somos apresentados ao personagem Nathan, fala da face do mal e do quanto ele nos encanta com um inferno cheio de boas intenções. Bem como o quanto os engenheiros sociais se aproveitam de sentimentos ingênuos despertados por vocábulos soltos como “liberdade”, “opressão”, “justiça” etc.

É que estes podem ser subvertidos em determinados contextos, como já explicava George Orwell ao falar da “novilíngua”. Embasbacado, o outro personagem do diálogo — que leva o nome de Yuri — vai assistindo pasmo à explanação de idéias lógicas, mas inacreditáveis, diante da forma como aprendemos a absorver o secularismo e suas “conquistas”. Será que neste conto não estaria o alterego do autor ao ser despertado para o que antes não via?

As referências da obra também são riquíssimas, passando pela cultura pop e até citando livros como Submissão, de Michel Houellebecq, que fala de uma França já islamizada.

Vieira também trata — com humor — da instrumentalização das minorias, que era algo que já aparecia em sua primeira obra de contos publicada pela Vide Editorial: A Tragicomédia Acadêmica.

Neste segundo livro, assim como no primeiro, não há ponto sem nó. Tudo é devidamente encaixado para mexer com as sensações do leitor, como o susto cômico ao se deparar com Lúcifer tão cara-a-cara num diálogo festivo.

Por sinal, muitos dos diálogos construídos por Yuri Vieira lembram do processo da maiêutica socrática, só que ao invés da busca da verdade, temos a exposição da revelação maquiavélica das “engenharias sociais”, o que não deixa de ser uma VERDADE.

Os contos do autor me lembraram a máxima de Nietzsche de que a arte passa a existir para que a verdade tão nua e crua não nos destrua ou desespere.

Fico a imaginar o esforço do autor para dar humor a assuntos tão sérios e espinhosos de nosso tempo, como o conflito entre o cristianismo e o islamismo, analisando de maneira direta a essência de cada uma dessas crenças. Ele pontua as diferenças de uma forma que vivo tentando fazer, mas jamais consegui. E acreditem: isso é posto em dois parágrafos, salvo engano. Parágrafos cirúrgicos e irrefutáveis.

Por traz de cada conto há História, Geografia, Filosofia e Teologia. Há pontos que podem — posteriormente — ser esmiuçados pelo leitor em outras obras técnicas. Sem querer ou querendo (não sei a intenção do autor), o Dr. João Pinto Grande (com perdão do trocadilho) acaba sendo uma ferramenta de introdução (risos).

Se, no ano passado, Vieira foi o responsável pelo melhor livro de contos que li em 2016, agora em 2017, afirmo sem medo de errar: ele repete a dose. Como é bom dizer isso de brasileiros. Nos deixa a sensação de que a nossa alta cultura vai sendo recuperada por aí. Mais que isto: prova que alta cultura nada tem a ver com esnobismo, intelectualismos ou formas pedantes.

É tudo tão simples quanto entender a forma direta com a qual escreve Ortega y Gasset, por exemplo. Não há firulas no Logos.

Yuri Vieira nos traz uma literatura que não tem aquela face “engajada”, cheia de pretensões e interesses inconfessáveis. Ele simplesmente nos diz que a grama é verde, atendendo à profecia de Chesterton. Mas não deixa de ser profundo. Um conselho: ao terminar cada conto, busque refletir um pouco sobre as idéias principais contidas ali. Pesquise sobre os temas ali abordados e veja o quanto do humor de Vieira é revelador. Você sairá mais rico dessa obra.

Os meus dois contos preferidos do livro foram “O machista feminista” e “A teologia da maconha”. Como li a obra durante a madrugada dessa terça-feira, dia 31 de Outubro, em pleno Dia das Bruxas, ainda aprendi outra coisa com Yuri Vieira: a ter que gargalhar em silêncio para não acordar a minha esposa que dormia tranquilamente ao meu lado. Ao mesmo tempo que ria, também me desesperava um pouco com o oceano de loucuras por onde minha cama navegava.

Dr. Pinto Grande: quase lá

Eu já havia reescrito e revisado tantas vezes os contos do meu próximo livro que já estava com raiva deles, algo do tipo “larga d’eu, diacho!”. E por isso, nos últimos meses, passei a dar atenção mormente aos problemas encontrados pelos revisores da Record, os quais, para meu refrigério, me fizeram atentar para as partes em vez do todo. No entanto, quase um mês após tudo parecer concluído, a editora me pediu para averiguar a diagramação do texto final e apontar as derradeiras alterações. E então — com essa “ameaça” damocleana de “última chance” sobre a cabeça — respirei fundo e decidi relê-lo de cabo a rabo: e não é que ri, meditei e me emocionei com meus próprios contos? Espero que os leitores d’A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande sintam, no mínimo, o mesmo que eu senti nesses últimos dias. E olha que eu tinha em mente todos os spoilers possíveis e imagináveis…

O dinheiro liberta

De braço com sua linda namorada — uma modelo muito disputada pelas mais exclusivas passarelas européias — um bilionário entrou a largos e confiantes passos naquele bar da moda. Atrás dele, praticamente correndo para acompanhá-los, vinha um séquito formado por uma lésbica, uma feminista, um gay, uma transexual, um drogadicto, um ladrão de caixas eletrônicos, um negro, um refugiado muçulmano, um índio, um comunista, um jornalista, um cineasta, um artista plástico e um ator de novelas. Ele e sua namorada se sentaram numa pequena mesa para dois e aquela gente, à guisa de coro grego, aglomerou-se às costas do casal, permanecendo de pé. O garçom aproximou-se, indagou se aquele grupo os estava incomodando, e o bilionário disse que não, que eram seus funcionários. O garçom, pois, deu de ombros, anotou os pedidos — incluindo uma única garrafinha de água para cada “coreuta” — e se retirou.

— Nossa — exclamou a namorada, sorrindo — não sabia que você curtia esse tipo de balada. Você é mesmo cheio de surpresas.

— Eu gosto do clima, do ambiente. O único problema é que aqui… — e então, atendendo a um gesto seu, o coreuta gay se inclinou e ouviu o que ele tinha a dizer.

E o gay, assumindo a posição de corifeu à frente do coro, completou a frase:

—…é que aqui tem muito viado.

O bilionário, sem ocultar um olhar dos mais severos, virou-se ligeiramente para seu funcionário.

— O problema é que aqui tem muuuuito viado! — repetiu o gay, desta vez praticamente aos berros, estendendo em seguida a mão. O bilionário retirou então cinco cédulas de 100 reais e as depositou discretamente naquela mão de longos dedos.

Os demais frequentadores do bar, ao ouvir aquilo, encheram-se de indignação, olhando com ar de censura na direção do casal. Contudo, percebendo que quem havia proferido aquelas palavras não era senão um sujeito que poderia ser confundido com um Cauby Peixoto ou um Liberace — o paletó coberto de lantejoulas, todo cheio de trejeitos, caras e bocas — deram de ombros: e sorriram.

O garçom voltou com as bebidas, o tira-gosto e as garrafinhas de água que, a pedido do bilionário, distribuiu à socapa, como se o coro e o casal não estivessem juntos.

— Pode ser — tornou a modelo, pegando o copo. — Mas eu os adoro! Quase todos os meus amigos são gays. Sem falar no meu maquiador, no meu cabeleireiro…

O bilionário sorriu, alteroso:

— Claro, claro. Os gays são ótimos! Meu advogado é gay. Mas ele só age como um…

— …viado espalhafatoso e sem noção!… — tornou a vociferar o coreuta gay, que recebeu imediatamente mais 500 reais.

— …quando está bêbado numa festa privada — concluiu o bilionário. — Mas, no trabalho, é um lorde. Gosto dos gays. Pelo menos não tentam ser fisicamente o que não são, como esses… — e fez outro gesto, desta vez, para a esquerda, sussurrando algo em seguida.

— …como esses travestis malucos! — berrou escandalosa e comicamente a transexual. — Eles querem ser tratados como mulheres, mas não podem parar de tomar hormônios femininos, pois todas as células do seu corpo são XY! — e, com isto, provocou risadas até mesmo numa mesa ocupada por um grupo que parecia ter chegado de uma parada gay.

E o bilionário, retirando mais 500 reais do bolso, a pagou.

— Credo! Travesti e transexual nem são a mesma coisa — objetou a modelo, rindo. — Como você é mau!

— Isso é ruim?

— Não, adoro homens malvados!

— Eu sei — tornou ele, cheio de si. — Como se isso não estivesse implícito na maneira como transamos — e sorriu, deslizando o dedo pelas gotículas de água condensada na lateral do copo. — Ora, mulher gosta mesmo é de… — e fez outro gesto seguido de mais sussurros.

— Mulher gosta mesmo é de apanhar! — gritou a coreuta feminista, assumindo a tarefa de corifeu. — Essas então, que se fazem de fodonas e que se dedicam exclusivamente às suas carreiras, nem se fala! E mulher que compete com o marido precisa de mais palmadas ainda! Mulher de verdade gosta é de se submeter — prosseguiu a feminista, exaltada —, principalmente naqueles momentos mais quentes do sexo — e, ao concluir, estendeu a mão. O bilionário lhe pagou 500 reais.

De todos as partes do bar, as pessoas a olhavam, mas nada diziam. Aquela ali devia ser meio maluca. “Não era aquela colunista da Folha de São Paulo?”, perguntavam-se. Enquanto isso, a modelo, com o olhar mais lânguido do mundo, toda apaixonada, beijou o bilionário ardentemente.

— Você é incrível! — murmurou ela.

— Se você diz… deve ser verdade! — e riu, másculo. — Acredito em você. Você não é nenhum desses… — e, sempre com a discrição de um ventríloquo, fez outro gesto acompanhado de novos sussurros.

Um sujeito grisalho, parecido com um conhecido apresentador da TV, deu um passo adiante e começou a berrar:

— Você merece confiança pois não é um desses jornalistas cheios de interesses escusos! Não é como um desses escravos de ideologias assassinas! — e, tendo dito isso, estendeu a mão. O bilionário o pagou e, antes de retomar a conversa com a namorada, pensou um pouco. Por fim, retirando mais 1000 reais do bolso, tornou a pagá-lo.

— Fale bem de mim no seu blog.

— Sim, senhor — sussurrou servilmente o jornalista que, por ter se esquecido de iniciar a fala com “olá, tudo bem?”, acabara não atraindo a atenção de ninguém.

O bilionário voltou-se novamente para a namorada.

— Onde estávamos?

— Você dizia que confiava em mim — e ela piscou repetidamente os grandes e belos olhos.

— Ah, é verdade — disse ele, bebendo em seguida mais um gole do drink. — E confio mesmo.

Ela apertou a mão dele:

— Amor, posso então te perguntar uma coisa?

— Claro. O que é?

— Por que você é tão rico? O que você faz da vida? Sempre quis saber…

— Ué, nunca te contei?

— Não.

— Que coisa — e franziu a testa, pensativo. — Acho tão normal ser rico que nunca penso nisso.

— Mas diz, vai.

— Uê, vivo de renda. Tenho cerca de dois bilhões de dólares investidos. Boa parte do meu dinheiro está em hedge funds. Também tenho carteiras de ações, que geram grandes dividendos. O restante eu mesmo invisto em startups e coisas assim.

Ela caiu na gargalhada.

— O que foi? — perguntou ele, rindo também.

— É que eu não entendi nada!

— Posso explicar se você…

— Não, não precisa — e continuou rindo. — Só me diz se não tem nada de ilegal nessas coisas.

— Não tem, é tudo legal. Você sabe: sou uma pessoa correta. Não lido com bandidos. Quer dizer… a não ser temporariamente com esse aí… — e moveu o queixo, indicando o ladrão de caixas eletrônicos ali no coro. — E sou assim simplesmente porque nunca me esqueço do meu avô paterno. De tanto que repetiu, acho que foi ele o inventor desse ditado popular que anda pela boca do povo.

— Que ditado?

O bilionário tornou a fazer o gesto e o ladrão, com uma meia feminina enfiada na cabeça e algemas nos braços, se adiantou para ouvir seu sussurro.

— Bandido bom é bandido morto! — vociferou o ladrão que, graças à sua suposta “fantasia”, arrancou risadas dos presentes. E o bilionário, naquelas mãos unidas por algemas, depositou 500 reais.

— Caraca! — tornou a modelo. — Seu avô também era malvadão, hem. Era gostoso como você?

— Mais bonito. Ao menos nas fotos, claro. Ele parecia um ator de cinema.

Ela arregalou os olhos:

— Você bem que podia ser ator! — e exaltou-se. — Eu conheço um diretor de novela! Se quiser…

— Deus me livre! — interrompeu-a, alegremente. — Imagine, de jeito nenhum. Tá, eu sei que há atores legais. Mas a maioria deles, principalmente os de novela… — e emitiu mais um gesto e mais sussurros.

O ator de novela assumiu a posição de corifeu e, num volume de trovão, deu voz ao pensamento do patrão:

— …a maioria dos atores de novela não passa, como dizia Hitchcock, de gado e por isso, quando não está sendo tocada pelos diretores e pelos roteiristas, está pastando na conversa fiada de algum teórico marxista, a quem essa maioria de atores só conhece de ouvir falar! — E o bilionário lhe murmurou mais algumas palavras. — Ou então esses atores estão pastando em alguma outra porcaria desse tipo, como a defesa das minorias, do meio-ambiente, dos traficantes, a multiplicação dos gêneros sexuais e assim por diante — e, ao final, o ator estendeu a mão.

Enquanto o bilionário o pagava, os circunstantes, cheios de curiosidade, dirigiam o olhar para o estranho coro:

— Aquele não é o ator que trabalhou na novela A Favorita?

— Não, não. É aquele figura da Caminho das Índias. Tava sumido, né?

— Bom, pelo menos ele ainda faz happenings. Acho chato e sem graça, mas já é alguma coisa.

E, com esse reconhecimento se espalhando pelo bar, surgiram mais risadas e comentários.

A modelo não desistia:

— Então você podia trabalhar no cinema!

— Já trabalhei, gata. Quer dizer, fui produtor de filmes. Financiei três longas-metragens.

— Sério? E vai fazer mais algum?

— Não, nem ferrando. O problema é que… — e lá veio mais um gesto e mais sussurros.

O cineasta se adiantou, assumindo a função de corifeu:

— …é que a maioria dos cineastas brasileiros ou só quer saber de dinheiro ou não sabe sequer escrever um roteiro coerente! — O bilionário sussurrou mais coisas. — Um dos diretores que financiei — prosseguiu o cineasta corifeu — morava num muquifo lá no centro da cidade. Ele sumiu por uns seis meses! Quando reapareceu, dirigia um carro zero quilômetro, morava num apartamento que comprara num bairro nobre e o filme… — e se inclinou para ouvir mais sussurros — … e o filme que me entregou foi feito com aquelas câmeras digitais antigas, aquelas miniDV, e com atores péssimos. Sem falar na trama sem pé nem cabeça e no roteiro sem começo, meio e fim. E o diretor se justificou dizendo que era um filme de arte! — O bilionário lhe soprou mais coisas ao ouvido. — Um grande filho da puta! — continuou o cineasta, aprumando-se. — Essa gente do cinema nacional está acostumada a receber dinheiro do Estado a fundo perdido e acha que pode fazer a mesma coisa com um financiador privado! Estão viciados nesse sistema, não valem nada! Estão se lixando para a fruição do público. Dos expectadores, eles só querem uma presença minimamente razoável para justificar mais um projeto. Os cineastas ligam o “foda-se” para o bom gosto e para as necessidades estéticas que todos temos. Eles se negam a alimentar de forma sadia a nossa imaginação!

— Nossa, amor, não sabia que aqui era sempre assim.

O bilionário pagou o cineasta, que voltou para o coro.

— Também, linda, quer o quê? Você passa a maior parte do tempo ou na Europa ou em Nova Iorque…

— É, tem isso.

— Uma coisa que eu não esqueço é um dos cenários do filme — continuou o bilionário. — O diretorzinho disse que um amigo dele, artista plástico, foi o responsável. Mas você sabe como eles são. Os artistas hoje… — e gesticulou novamente. O artista, pois, destacou-se do coro e sorveu-lhe as frases murmuradas.

— … os artistas hoje não têm a menor idéia do que seja a beleza nem sabem retratar a realidade ou mesmo expressar a contento as suas impressões — discursou aos berros o artista, que todos no bar conheciam. — Só querem saber de chocar e de serem originais! O problema é que não fazem nem uma coisa nem outra: querem apenas dinheiro, fama e sexo!

No bar, havia muitos murmúrios: “mas esse não é a estrela da Bienal de cinco anos atrás? Terá perdido o juízo?”

O bilionário, com seu jeitão entre o prestidigitador e o ventríloquo, lhe sussurrou mais coisas.

— Os artistas — prosseguiu o artista plástico — não chocam e não esfregam na cara de ninguém sequer um vislumbre das verdades que apenas um artista real seria capaz de intuir. A sociedade, aliás, já está muito mais chocante do que qualquer besteira que possam inventar. Quanto à originalidade… — e o artista voltou a aproximar o ouvido da boca do bilionário. — Quanto à originalidade, há por acaso gente mais original que nossos deputados e senadores? — e, de mão estendida, recebeu o dinheiro.

O bilionário deu continuidade ao raciocínio:

— Os políticos inventam as leis mais absurdas, meu amor! Que artista pode se equiparar a eles? — e gesticulou, promovendo novamente a corifeu o coreuta ladrão:

— Os políticos é que são criativos! — berrou o bandido. — Ao promover o desarmamento, proíbem os cidadãos de se defender por conta própria: um procedimento típico dos países totalitários! É assim em Cuba, na Venezuela, na Coréia do Norte! — O bilionário lhe soprou mais coisas. — No fundo — prosseguiu —, os governantes não se importam com acidentes caseiros ou com brigas nas ruas entre cidadãos armados. Seu medo das armas não é esse. Eles têm medo é de serem depostos dos seus palácios e gabinetes à força!

Quase começou um tumulto numa mesa próxima, mas os amigos daquele sujeito que vestia uma camiseta do Che Guevara convenceram-no de que se tratava de uma performance, talvez até de uma pegadinha.

— Pô, velho, o cara tá de algema e com uma meia na cabeça! É palhaçada, deixa pra lá.

O bilionário pagou novamente o ladrão e, simultaneamente, acenou tanto para o coreuta negro quanto para alguém que estava fora do bar, na calçada. Enquanto o coreuta negro se adiantava para ouvir suas palavras, dois policiais entraram e levaram o bandido. O bilionário fazia tudo isso com tão grande destreza, e de modo tão sorrateiro, que muitos fregueses acreditavam que aquele grupo estava ali justamente para provocá-lo e que ele apenas tentava convencê-los a deixarem-no em paz. Não viam que era ele o comandante da coisa toda. Pelo contrário: pareciam aguardar uma reação mais drástica da sua parte e se admiravam da sua paciência. Em momento algum notaram os diversos pagamentos.

— Vossas excremências, os deputados e senadores — gritou o funcionário negro, à frente do coro —, são tão originais, tão criativas, que criam cotas para negros a pretexto de qualquer besteira, como se os negros fossem café-com-leite em tudo e para sempre! Em breve, haverá cotas até mesmo para a fila do supermercado!

Aquelas palavras, vindas de um negro, chocaram os presentes, mas ninguém disse nada. Estaria doido? Ou também participava de uma performance? Seria aquilo um flash mob? Mas afinal… que estranho grupo era aquele? Quem eram aquelas figuras? Coitado daquele casal à frente delas!…

Obedecendo a novo gesto, o drogadicto substituiu o coreuta negro, que já embolsara seus 500 reais:

— Os políticos estão loucos de vontade é de liberar as drogas! — esbravejou ele, baseado entre os dedos, os olhos injetados como os de um vampiro. — Eles parecem ter saído daquele livro do Aldous… Aldous… Do que eu tava falando mesmo? — e deu mais um tapa no beque. O bilionário tornou a lhe sussurrar. — Livro do Huxley! Admirável… é… — e começou a tossir, quase soltando fumaça pelas orelhas. Ao fim de uns vinte segundos, recuperou o fôlego. — O que era mesmo? Ah, claro, vocês sabem, aquele livro em que todo mundo fica doidão, transa loucamente e não se importa de ser dominado pelos tiranos. — O bilionário insistiu. — Isso, véio! Então… É… E, com a venda de drogas, quem vai encher as mulas… hum? Ah, sim. Quem vai encher as burras de dinheiro será… — e se calou, pegando seu dinheiro.

O bilionário já havia alertado o comunista, que, parecendo um clone de Lênin, retomou o fio da meada:

— Quem vai faturar com as drogas, camaradas, será a narco-guerrilha comunista do continente, como as FARC, como os bolivarianos!

O rapaz da camiseta do Che Guevara voltou a se irritar, mas os amigos o seguraram mais uma vez.

Nesse entretempo, o bilionário já havia pago o comunista, que então deixou sua função de corifeu misturando-se aos demais coreutas.

A modelo não parava de encarar o namorado.

— Amor, você tá tão falante hoje. É tão inteligente! Me deixa arrepiada.

— Hum, muito bom saber disso. Gosto de te deixar arrepiada.

— Ainda bem que já me acostumei com seus Assistentes de Liberdade-de-expressão. Antes eu tinha receio de que você os levasse até para o quarto! Achei que você fosse doido.

Ele riu:

— Doido? Eu? Doida está a sociedade, linda. Ninguém pode mais falar o que pensa. Ou o que é pior: não pode falar nem o que lhe passa aleatoriamente pela cabeça num momento inocente qualquer. Ora bolas, a gente não expressa apenas nossas convicções e crenças! A gente faz brainstorm o tempo inteiro! A gente fala o que assimilou automaticamente dos amigos, da família, dos colegas, dos livros, dos filmes. E é por isso que, de repente, num lapso, às vezes solta uma palavra-bomba! Isso não significa que a gente seja criminosa, racista ou intolerante. São palavras ao vento! Forças de expressão! Figuras de linguagem! Somos modernos: nossa diversão é conversar! Somos humanos: nosso traço comum é a imperfeição!

— Eu sei, amor, eu sei, você já me explicou — e sorriu, o olhar transbordando de ternura e admiração. — Acho sua idéia genial. Meio cara, né, quase ninguém teria condições de fazer a mesma coisa. Imagine, andar com esse monte de gente por aí só para poder falar o que quiser…

Ele a encarou com um olhar cômico:

— Você devia ter me visto no dia em que fui à comemoração de vinte anos de formatura dos meus ex-colegas de faculdade: entrei na festa com cento e três assistentes! Gente para tudo quanto é assunto!

O casal riu gostosamente e depois se abraçou.

— Amor, você é muito engraçado! E sabe se safar de qualquer situação.

— Fazer o quê, né, gata? O dinheiro liberta.

Chamaram o garçom e pediram mais bebidas. Depois que o bilionário devolveu o cardápio à mesa, a namorada lhe disse ao ouvido:

— Tem uma garota muito bonita naquela mesa ali perto da parede que não pára de me encarar. Se quiser, eu dou um jeito de levá-la com a gente.

Ele fez uma careta de enfado.

— Uê, amor, não quer? Eu sei que você curte. Daquela vez foi demais, não foi?

— Foi demais naquela única tarde de sábado. Os três meses seguintes — nos quais sua amiga lésbica, sentindo-se excluída, ficou com ciumeira, me mandando ameaças de morte pelo celular e pelo Facebook — não foram nada legais. Essas “brincadeiras”, no final das contas, não valem a pena.

— Nossa, não sabia disso! Pensei que ela tinha apenas te trollado um pouco no WhatsApp.

— Trollado o quê! — retrucou ele. — A mulher tava pirada! No final das contas, essas lésbicas com atitude masculina são apenas… — e fez novo gesto seguido de novos sussurros.

A coreuta lésbica, que de relance parecia a Cássia Eller, se postou à frente do grupo e gritou:

— Lésbicas com atitude masculina são apenas homens sem bolas, homens estéreis! Não passam de homens que sofrem de TPM!

Olhares silenciosos e exasperados, vindos de todos os cantos do bar, pousaram nela. Mais uma doida autodestrutiva?

— E se vocês, meu amor — tornou o bilionário, passando o dinheiro para a coreuta —, já dizem que homem não presta, imagine então um homem que tem TPM?

A modelo gargalhou uma linda gargalhada. Ao fim de uns dez segundos, sentindo a ficha lhe cair, refreou-se:

— Ué. Você sabe que já transei com mulheres. Fui eu que levei a Cláudia na sua casa. Então por acaso eu também sou um homem que sofre de TPM?

Ele sorriu:

— Não, boba. Você é feminina demais. E toda suposta lésbica, quando feminina, não é senão… — e voltou a agitar a mão e a rumorejar instruções.

A lésbica voltou a gritar com sua voz grave:

— Toda suposta lésbica feminina não passa de uma hedonista cansada de esbarrar em homens frouxos ou grosseiros! E então se apega a uma outra lésbica dominadora e, claro, sem bolas!

— E você, gata — continuou o bilionário, pagando mais 500 reais à coreuta —, você não passa de uma safada que adora ser saciada. Se eu não a satisfizesse, quem o faria? Os homens de hoje tomam muito leite de soja…

Ela não estava muito satisfeita:

— Caraca, você é todo cheio de opinião, hem. Não acho que seja por aí.

— Tudo bem, minha linda — disse ele, beijando-a. — Você sabe que estou apenas conversando. E quero conversar livremente. Não estou num palanque ou no Congresso Nacional. Quando falam mal dos ricos ou dos machos alfas, eu nem me importo. E tampouco vou sair por aí tentando mudar a cabeça das pessoas ou impondo meu ponto de vista.

— Ah, é? — retrucou ela num tom infantil, mas indignado. — E essa sua turma gritando aí atrás não está impondo o ‘teu’ ponto de vista?

— Claro que não, gatinha! O problema é que, hoje em dia, nós não temos mais liberdade de falar uns dos outros. Antes de contratar essas pessoas, fui processado cinco vezes! E simplesmente por emitir, em público, algo que era apenas uma brincadeira, uma piada! Não tenho tempo de ficar meditando sobre todo assunto. Porra, todo mundo vive gravando e filmando o outro no celular! Somos todos espiões! É um horror!

— Hum.

— Então, quando quero falar de uma minoria específica, contrato alguém dessa minoria para falar por mim. Ninguém os leva a sério! Ninguém se importa com o que alguém fala sobre a minoria do qual faz parte. Se eles criticam seu próprio nicho, se criticam, digamos, os seus “mais iguais que outros”, esses “mais iguais” apenas pensam que estão ouvindo malucos. Não os rotulam imediatamente de fascistas, de nazistas ou de sei lá o quê. Mas cá entre nós: são malucos, sim. Mas por dinheiro!

Ela riu:

— Bobo!

— Mas é assim mesmo, gatinha! Se eu tivesse feito pessoalmente uma única dessas declarações de hoje, alguém já teria se aproximado para tomar satisfação ou me ameaçar. Toda essa patrulha à livre-expressão é obra de intelectuais e professores enlouquecidos que piram as cabeças dos estudantes universitários. Estes, por sua vez, espalham a loucura pelos quatro cantos do mundo, principalmente quando se formam e vão trabalhar na mídia, na imprensa e nas artes. E, claro, a loucura é obra também de políticos estúpidos que adoram criar leis bizarras para fomentar a divisão na sociedade: dividem para nos conquistar. Colocam todos contra todos! E então se entocam no poder, não saem de lá nunca mais! Não há mais povo unido para nada. Esses políticos parecem… sabe o quê?

— Hum.

E o bilionário chamou outro coreuta, desta vez o índio que, vestindo apenas shorts Adidas vermelho, e tendo o restante do corpo pintado de urucum e jenipapo, se aproximou. E o patrão lhe sussurrou dissimuladamente mais um discurso.

— Os políticos — gritou o novo corifeu a plenos pulmões — são como os índios: não querem trabalhar, só querem é garantir a posse de um território que não lhes pertence, vendendo depois tudo o que encontram nele! — O bilionário lhe soprou mais coisas. — No caso dos políticos, esse território é a sua fatia das coisas públicas, é sua fatia de poder. Querem apenas é deitar e rolar no dinheiro extorquido do povo mediante impostos e desviar as verbas das estatais!

Desta vez, o rapaz da camiseta de Che Guevara notou tudo o que acontecera: e não se segurou! Levantou-se subitamente com uma garrafa de cerveja em punho, quebrou-a pela metade na beirada da mesa e avançou para cima do bilionário:

— Seu cão imperialista! Eu sei o que você tá fazendo!

O casal arregalou os olhos e, paralisado, não pareceu mover um músculo sequer. Quando o rapaz já ia metendo a garrafa no pescoço do bilionário, o coreuta comunista se adiantou à frente do espantado coro, sacou um revólver da cintura e atirou à queima-roupa bem na estampa do Che Guevara: o agressor caiu primeiro sobre a mesa e, em seguida, escorregou para o chão. Enquanto as pessoas se jogavam ao chão ou corriam em desespero, o comunista se inclinou para frente e disse:

— Não vai me pagar? Acabei de salvar sua vida.

O bilionário não se comoveu:

— Eu não pago matador de aluguel e nem preciso de seguranças — e então, fazendo um movimento com o queixo, indicou para o coreuta a pistola que mantinha sobre o colo. — Se você não tivesse feito nada, eu o teria feito.

— Mas… e agora?

— Bom, você pode fazer o seguinte… — e lhe sussurrou ao ouvido.

O coreuta comunista se aprumou e começou a esbravejar:

— Vocês viram? Comunista adora matar comunista! Ninguém mata mais comunistas do que os próprios comunistas! Em todas essas ditaduras, milhões de comunistas dissidentes foram executados ou morreram em campos de concentração. Dezenas e dezenas de milhões! — e, tendo dito isso, estendeu a mão, recebendo mais 500 reais. E então fugiu.

Os demais coreutas estavam confusos e dispersos, não sabiam se permaneciam no local ou se iam embora. A modelo estava em estado de choque, sem atinar se devia manter-se sentada, se devia se jogar ao chão como muitos haviam feito, ou então correr para a rua. Claro que, para ela, nada mais fazia sentido.

— Gatinha do meu coração, você tá bem?

— Amor… amor… — ela chorava.

— Calma, meu bem, não aconteceu nada com a gente. E meu funcionário apenas nos defendeu.

Ela o encarou:

— Mas eu nunca tinha visto isso na minha vida! Toda essa violência, esse ódio…

Ele fez uma cara de espanto:

— Gatinha! Você mora em Nova Iorque, onde os terroristas derrubaram duas torres gigantescas, e comprou um apartamento em Paris perto do Bataclan, onde aconteceu aquela outra chacina. Que conversa é essa?

— Mas eu não tava nesses lugares em nenhuma dessas ocasiões!

— Bom, meu bem, é melhor então você já ir se acostumando. A Europa está se enchendo de refugiados — e moveu os dedos em ambos os lados da cabeça, sugerindo aspas para o termo: “refugiados”. — Essas cenas de violência vão continuar acontecendo aqui e ali. Porque esses caras… — e fez um gesto para os remanescentes do coro, finalmente convidando o coreuta islâmico a se adiantar. E lhe sussurrou algumas palavras.

— Esses refugiados — berrou o novo corifeu para os poucos ouvintes restantes — deviam ser obrigados a comer meio quilo de bacon antes de poder receber o visto para entrar num país! — E o bilionário lhe cochichou mais alguma coisa. — Somente um muçulmano fundamentalista se recusaria. E fundamentalistas são perigosos! — E o corifeu islâmico permaneceu em sua posição, sem se retirar para junto dos demais coreutas.

— Era só isso — disse-lhe o bilionário, levantando-se da cadeira. — Pode ir. Aqui o seu dinheiro.

— O senhor sabe o que é táqiya? — perguntou o empregado.

— Não faço idéia — respondeu, considerando aquela intervenção inconveniente. Não os contratara para que emitissem suas próprias palavras.

— É o direito que temos de ocultar nossa fé para enganar nossos inimigos. Você é um idiota materialista se acredita que o dinheiro pode comprar um muçulmano. Não é porque comi seu bacon que não sou um verdadeiro fiel — e, tendo dito isso, agarrou fortemente o braço esquerdo do bilionário. Em sua outra mão, havia uma granada, já sem o pino de segurança. — Allahu akbar!! — gritou com todo o ar que tinha nos pulmões.

— Corre, amor! Corre! — berrou o ingênuo bilionário que, tentando desvencilhar-se do terrorista, teve tempo apenas de colocar-se diante da namorada, protegendo-a: e a granada explodiu.

Com a explosão, os dois homens foram jogados para lados opostos. A modelo, afora o trauma e algumas escoriações, nada sofreu de grave, assim como tampouco se feriu qualquer outro frequentador daquele conhecido bar. O muçulmano permanecia estirado a um canto, o peito e o rosto esburacado por estilhaços; e o bilionário jazia de costas com um estranho ricto nos lábios: estava finalmente liberto deste mundo.

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