10:13 amDe um conto de James Joyce

James Joyce em 1904, aos 22 anos.

« A cada passo, aproximava-se de Londres, distanciava-se da vida antiartística e medíocre que levava. Uma luz começou a brilhar no fundo da sua alma. Não era muito velho — tinha trinta e dois anos. Podia-se dizer que seu espírito apenas alcançava a maturidade. Havia tantos sofrimentos e impressões que desejava expressar em versos. Sentia-o dentro de si. Procurou analisar-se para ver se possuía uma alma de poeta. Melancolia era a nota predominante em seu temperamento. Mas essa melancolia, pensou, era moderada por acessos de fé, resignação e alegria singela. Se conseguisse expressar isso num livro de poemas, talvez o ouvissem. Jamais seria popular, ele o sabia. Não atingiria as multidões, mas poderia atrair um pequeno círculo de espíritos afins.»

Trecho de Uma pequena nuvem, um dos contos mais patéticos (no melhor sentido do termo) do livro Dublinenses, de James Joyce.

10:02 amGabriel García Márquez fala sobre a arte literária

gabo

« O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de  começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, longitude, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar, e se a gente não fica corrigindo o livro pelo resto da vida é porque o mesmo rigor de ferro, que faz falta para começá-lo, se impõe na hora de terminá-lo. O conto, por sua vez, não tem princípio nem fim: anda ou desanda. E se desanda, a experiência própria e a alheia ensinam que, na maioria das vezes, é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo.»

(…)

« Sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. ¿Como saber então qual deve ser a última? É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto.»

(…)

« Às vezes me sentia escrevendo pelo puro prazer de narrar, que é talvez o estado humano que mais se parece à levitação.»

Gabriel García Márquez

Obs.: Trechos de uma entrevista retirados de um dos meus velhos blocos de anotações que, como já disse em outros posts, também nesse caso, infelizmente, não traz indicações de fonte.

Curiosidade: Bruno Tolentino, que conheceu García Márquez pessoalmente, me disse que foi praticamente impossível ter um diálogo sério com ele, haja vista os vários baseados que ele, Márquez, não parava de fumar…

8:43 pmNovo livro: A Bacante da Boca do Lixo (download gratuito)

A Bacante da Boca do Lixo

Quero anunciar o lançamento do meu livro A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio. Trata-se de uma coletânea de contos, crônicas e um ensaio escritos entre 1993 e 2008. Todos os textos trazem – seja de modo explícito ou implícito – um pouco do clima apocalíptico que contagiou aqueles anos. (Em breve lançarei outro volume, no mesmo tom, de título O Exorcista na Casa do Sol e Outros Escritos da Virada do Milênio.)

O livro impresso pode ser adquirido aqui.

O ebook pode ser baixado gratuitamente aqui.

1:07 pmO Marceneiro e o Poeta ou Antônio Ramos e Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

Antônio estava debruçado sobre um banco de madeira rústico, que ele, com a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor avaliar o estrago causado pelos cupins. Com uma verruma, ia seguindo e alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis pessoas sentadas lado a lado —, e tinha orifícios de cupim por toda sua extensão. O Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em nosso refúgio de escritores?

“¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é mais eficiente na destruição do banco?”

Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: “Pois é… Isso aqui é como combater um câncer… A gente precisa retirar o que tá podre antes de iniciar o tratamento.”

“Humm… Você então trabalha mesmo como marceneiro, né.”

“Bom, a marcenaria é meu salva-vidas…”

Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio, mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei, embaraçado com minha tarefa.

“¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?”

“Ele me disse que voltava em uma semana.”

“¿E você va–”

“¿Ela tá com medo de mim, não tá?”, me interrompeu, sem deixar de mirar o banco.

Eu sorri: “Na verdade… sim. Quer dizer, não é bem meeedo…”

“Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?”

“Exatamente”, respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e que não era dado a rodeios. “Mas você não precisa ficar chateado com ela.”

“Não, claro que não, eu entendo.”

“Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?”

Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa franqueza mútua, tivesse sido quebrado.

Continua…

9:18 pmReedição do livro “A Tragicomédia Acadêmica” (download gratuito)

Gostaria de avisar aos leitores deste blog que meu livro “A Tragicomédia Acadêmica — Contos Imediatos do Terceiro Grau”, cuja primeira edição data de 1998, foi reeditado por intermédio do Clube de Autores, o primeiro serviço que alia a impressão sob demanda à venda online na internet brasileira.

Para adquirir meu livro impresso, clique aqui ou aqui.

Caso queira baixar o ebook (PDF) gratuitamente e ler algumas opiniões a respeito dele, clique aqui.

Se Deus quiser — e eu tomar vergonha na cara — irei publicar outros dois até o final do ano.

2:51 amMeu conto no Festival de teatro de Curitiba

Meu conto “Frida — uma singela homenagem a Paulo Coelho” foi adaptado para teatro pelo grupo curitibano “Madame Vós – Uma Cia de Teatro” e será apresentado no Festival de Curitiba nos dias 22, 23, 24 e 25 de Março.

Leia mais no site do festival.

Ficha técnica

Direção: Érica Casarin Geraldo. Elenco: Carlos Magno Costa Tavares Junior, Daniele Rodrigues da Cunha, Enilde Gonçalves da Costa, Eunice de Carvalho, Janete do Amaral, Jedson Dassaev Rodrigues de Medeiros, Mário Henrique Kunde, Raquel Deliberali, Willian Bernardo Luciano.

Local: Centro Cultural UNINTER – Rua Dr. Muricy 1088 – Centro — Curitiba – PR