Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Tag: crítica (Página 1 de 4)

O cartunista João Spacca comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Já que o João Spacca deve estar ocupado, desenhando um de seus cartuns, e já que ele comentou meu livro comigo apenas mediante um longo email pessoal — com questões e com uma abordagem que, em sua totalidade, não dizem respeito ao público em geral (sem falar nos spoilers) — selecionei apenas uns trechinhos para postar aqui:

“Não pensei que fosse capaz de dizer isto ao fim da leitura, mas “A Sábia Ingenuidade do Dr. Pinto Grande” [Editora Record] é um livro extraordinário.”

[…]

“O conto do velho veterano de guerra nos conduz a um extremo dramático constrangedor e quase insuportável. Até onde vai aquilo? O sadismo do outro velho provocando, o dr. Pinto Grande com seu método blasé de dar corda, o velho… não queria abrir o livro, mas ei-lo, Josif, o sérvio.”

[…]

Reli o caso d’A Menina Branca, paródia de O Gato Preto, com o mesmo prazer – eu havia esquecido o […]. Muito bom, o mais brasileiro de todos (por que escrevi isto?).

[…]

“O último é uma excelente aula sobre os bitcoins. […] Interessantíssimo o personagem, muito engenhoso o desfecho. A lógica do bitcoin, sua especificidade, relativa ao lugar único que ocupa no grande quebra-cabeça virtual, e a negação do papel do Estado em controlá-la – apoiada na pergunta “para que uma moeda precisa de um Estado? – parece irrefutável. Anotei em certo momento que os bitcoins pareciam as mônadas de Leibnitz, pensando que iria surpreender você com a metáfora, mas logo adiante o dr. Pinto Grande foi muito mais longe. Pinto Grande é foda.”

[…]

“No meio desse último conto é que a arquitetura do livro se cristalizou na minha cabeça, e então que a constatação de que estava lendo um livro extraordinário se fez presente com grande naturalidade. Então lembrei dos demais contos.”

[…]

“Dr. João Pinto Grande é um escada, aquele ator não muito expressivo que serve de apoio para outros, personalidades mais fortes ou engraçadas, fazerem o seu show (pronto, acabo de escrever didaticamente para o “grande público” 🙂 ”

[…]

“O professor Olavo sempre diz que criou o COF para formar pessoas com quem pudesse conversar. Talvez você escreva com uma finalidade semelhante. Nos seus contos vivem pessoas que, no meio de circunstâncias insólitas ou banais, são capazes de interpretar a experiência presente evocando grandes quadros conceituais que alargam o horizonte e apaziguam nossas angústias. Sem essa capacidade, nosso cotidiano se enche de preocupações de saúde, compras e receitas veganas – já que política em casa virou tabu. Termino o livro lamentando a falta de oportunidade desse tipo de conversações no dia-a-dia, com uma espécie de saudade desses encontros insólitos, como se uma fome diferente tivesse sido despertada para um alimento desconhecido e raro.
Adorei ter lido, Yuri […]”

Daniel Gil comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Resenha de Daniel Gil, poeta, ensaísta e secretário executivo da UFRJ, publicada pela Revista Amálgama:

A CONSCIÊNCIA DE YURI

É desconcertante solicitar ao funcionário da livraria um exemplar de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande (Editora Record). A experiência faceciosa já se inicia desde então, quando o próprio leitor se vê de repente partícipe do humor de Yuri Vieira.

O escritor — que também é cineasta premiado — apresenta nesse volume de contos uma expressiva evolução desde a sua estreia com A Tragicomédia Acadêmica: Contos Imediatos do Terceiro Grau. Suas sentenças concertam mais concisão e sonoridade; o arcabouço complexo de recursos literários, que desde sempre engendrou suas narrativas, agora alcança homogeneidade; seu humor e suas intenções, quando não propositalmente explícitos, submergem de maneira acabada e segura nas entrelinhas.

Conquanto seja uma coleção de contos — e eles subsistam independentemente —, perpassa, em quase todos, o personagem de nome risível que lhe oferece unidade e título: o advogado João Pinto Grande. Sua presença contínua, porém, nem sempre faz dele um protagonista nas urdiduras. O advogado é em certa medida um herói discreto e bonachão, caso venhamos a utilizar o conceito de herói no sentido romântico: aquele que demonstra como um homem poderia ser; no caso específico, um homem que não separa a sua inteligência de um rigoroso idealismo moral. A unidade entre as diferentes estórias, logo, dá-se também pelo coincidente recorte no tempo — condição importantíssima, devido à atualidade das questões e dos elementos envolvidos (do feminismo aos bitcoins).

Uma característica especialmente distintiva de A sábia ingenuidade…, para além do humor cômico, é a presença de personagens que carregam opiniões robustas a respeito de polêmicas nada aconselháveis, o que exige, ao mesmo tempo, uma demonstração de domínio técnico-literário na composição — bem sucedido, é preciso dizer — e um profundo interesse intelectual pelos problemas contemporâneos, incluindo a variedade de posicionamentos. A respeito das supostas opiniões do próprio Yuri, poderíamos assinalar a fala do Dr. Pinto Grande no conto “O pedinte do metrô”, ao divagar sobre Deus: “Por que um artista ou escritor pode se colocar dentro de sua obra, representando-se mediante um personagem-avatar, e Deus não o poderia?”. Algo semelhante já havia sido observado pelo personagem Paulo César, no conto “A teologia da maconha”.

No entanto, Yuri Vieira abala de maneira intermitente as impressões mais cômodas do leitor. No conto “Amarás ao teu vizinho”, por exemplo, o advogado de nome jocoso pensa consigo mesmo, ao se lembrar de uma conversa sobre Herman Hesse: “Ora, escritores de ficção são artistas, não necessariamente bons intelectuais, filósofos ou guias espirituais”. Ainda sobre essa consciente confusão de perspectivas, concebida com zelo em todo o livro, é necessário notar que o próprio contista é personagem no conto de abertura — por consequência, o único deles a ser narrado em primeira pessoa. Os pontos de vista, a despeito, são expostos ali de modo a largar o leitor no campo das incertezas, tanto mais quando de súbito rebentam elementos fantásticos em cena — mecanismo já consolidado no estilo de Yuri.

A palavra consciência pode ser talvez a que melhor se associe à feitura de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, uma vez que seja preciso uma percepção muito clara das próprias faculdades para realizar com arte esse trabalho. Sobretudo no risco, todo gesto mais ingênuo seria fatalmente salientado. Yuri Vieira parece então herdar instrumentos importantes de uma tradição de comicidade da literatura brasileira, seja na descrição de detalhes falsamente dispensáveis — que o aproxima de Nelson Rodrigues —, seja no confronto heteróclito e burlesco de figuras morais — ao estilo machadiano. Quando emprega novidade nesses pertences, ganha lugar entre os mais talentosos (e engraçados) prosadores da atualidade.

Luis Vilar comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Resenha de Luis Vilar, editor-geral do Grupo CadaMinuto:

DR. JOÃO PINTO GRANDE TEM ALGO A LHE DIZER…

O novo livro de Yuri Vieira é um primor. Com bom humor e coragem para adentrar em temas espinhosos, ainda que estes para muitos pareçam teoria da conspiração, Vieira traz uma coletânea de contos em A Sábia Ingenuidade de Dr. João Pinto Grand (Editora Record) que nos faz rir ao mesmo tempo em que tememos pelo futuro secularista onde vamos sendo jogados. Tudo isso em nome de um “mundo melhor” com tantos “progressismos”…

O conto de abertura, em que somos apresentados ao personagem Nathan, fala da face do mal e do quanto ele nos encanta com um inferno cheio de boas intenções. Bem como o quanto os engenheiros sociais se aproveitam de sentimentos ingênuos despertados por vocábulos soltos como “liberdade”, “opressão”, “justiça” etc.

É que estes podem ser subvertidos em determinados contextos, como já explicava George Orwell ao falar da “novilíngua”. Embasbacado, o outro personagem do diálogo — que leva o nome de Yuri — vai assistindo pasmo à explanação de idéias lógicas, mas inacreditáveis, diante da forma como aprendemos a absorver o secularismo e suas “conquistas”. Será que neste conto não estaria o alterego do autor ao ser despertado para o que antes não via?

As referências da obra também são riquíssimas, passando pela cultura pop e até citando livros como Submissão, de Michel Houellebecq, que fala de uma França já islamizada.

Vieira também trata — com humor — da instrumentalização das minorias, que era algo que já aparecia em sua primeira obra de contos publicada pela Vide Editorial: A Tragicomédia Acadêmica.

Neste segundo livro, assim como no primeiro, não há ponto sem nó. Tudo é devidamente encaixado para mexer com as sensações do leitor, como o susto cômico ao se deparar com Lúcifer tão cara-a-cara num diálogo festivo.

Por sinal, muitos dos diálogos construídos por Yuri Vieira lembram do processo da maiêutica socrática, só que ao invés da busca da verdade, temos a exposição da revelação maquiavélica das “engenharias sociais”, o que não deixa de ser uma VERDADE.

Os contos do autor me lembraram a máxima de Nietzsche de que a arte passa a existir para que a verdade tão nua e crua não nos destrua ou desespere.

Fico a imaginar o esforço do autor para dar humor a assuntos tão sérios e espinhosos de nosso tempo, como o conflito entre o cristianismo e o islamismo, analisando de maneira direta a essência de cada uma dessas crenças. Ele pontua as diferenças de uma forma que vivo tentando fazer, mas jamais consegui. E acreditem: isso é posto em dois parágrafos, salvo engano. Parágrafos cirúrgicos e irrefutáveis.

Por traz de cada conto há História, Geografia, Filosofia e Teologia. Há pontos que podem — posteriormente — ser esmiuçados pelo leitor em outras obras técnicas. Sem querer ou querendo (não sei a intenção do autor), o Dr. João Pinto Grande (com perdão do trocadilho) acaba sendo uma ferramenta de introdução (risos).

Se, no ano passado, Vieira foi o responsável pelo melhor livro de contos que li em 2016, agora em 2017, afirmo sem medo de errar: ele repete a dose. Como é bom dizer isso de brasileiros. Nos deixa a sensação de que a nossa alta cultura vai sendo recuperada por aí. Mais que isto: prova que alta cultura nada tem a ver com esnobismo, intelectualismos ou formas pedantes.

É tudo tão simples quanto entender a forma direta com a qual escreve Ortega y Gasset, por exemplo. Não há firulas no Logos.

Yuri Vieira nos traz uma literatura que não tem aquela face “engajada”, cheia de pretensões e interesses inconfessáveis. Ele simplesmente nos diz que a grama é verde, atendendo à profecia de Chesterton. Mas não deixa de ser profundo. Um conselho: ao terminar cada conto, busque refletir um pouco sobre as idéias principais contidas ali. Pesquise sobre os temas ali abordados e veja o quanto do humor de Vieira é revelador. Você sairá mais rico dessa obra.

Os meus dois contos preferidos do livro foram “O machista feminista” e “A teologia da maconha”. Como li a obra durante a madrugada dessa terça-feira, dia 31 de Outubro, em pleno Dia das Bruxas, ainda aprendi outra coisa com Yuri Vieira: a ter que gargalhar em silêncio para não acordar a minha esposa que dormia tranquilamente ao meu lado. Ao mesmo tempo que ria, também me desesperava um pouco com o oceano de loucuras por onde minha cama navegava.

…então NÃO COMPRE meu livro!

Veja o comentário que o leitor Guibson Dantas escreveu na Amazon sobre A Tragicomédia Acadêmica:

“Como acadêmico e ferrenho crítico do ambiente universitário brasileiro atual – repleto de comunistas que nunca leram nada, de liberais que mal sabem quem foi Adam Smith, de religiosos fanáticos e militantes gays fascistas -, resolvi comprar o referido livro na esperança de qualificar minhas críticas ou obter novas informações sobre o tema. Confesso que me decepcionei demais com o livro. Muito bobo, com contos juvenis e sem nexo. Sinceramente? Não gaste tempo com esse livro. A vida é curta.”

Entenderam? Ele comprou um livro de — como diria Harold Bloom — “LITERATURA DE IMAGINAÇÃO” para “qualificar minhas [as dele] críticas ou obter novas informações” sobre a encheção de saco política dos dias atuais. Se alguém tiver o mesmo intuito, então NÃO COMPRE MEU LIVRO! Só um sujeito completamente desprovido de cultura literária, de imaginação e, principalmente, de senso de humor pode pretender buscar essas coisas num livro de ficção, num livro humorístico. Seria como ler As Viagens de Gulliver em busca de novos pontos turísticos! Nunca tive a pretensão de escrever ensaios sobre a vida universitária e, caso a tivesse, teria escrito ensaios (surpresa!), e não esses dezenove contos cujas tramas e personagens me deram um imenso trabalho. (E nem preciso dizer que, na época em que os escrevi — 1996-1997 —, esses conflitos ideológicos não eram tão exacerbados, conspícuos e problemáticos como o são hoje.) Os contos são juvenis? Muito provavelmente, afinal eu os escrevi aos 25 anos de idade com a intenção de apresentar aos demais universitários um livro que eu gostaria de ter encontrado nas livrarias e que NUNCA ENCONTREI. Ora, a maioria dos estudantes é constituída de jovens, não vejo nenhum problema em me dirigir principalmente a eles. (Uma das epígrafes mostra que eu tinha plena consciência disso.)

Fico sempre muito contente e sinceramente agradecido quando alguém — no Facebook, por mensagem direta ou por email — elogia meu livro. E são muitas mensagens! Mas juro que cheguei a um momento da vida em que elogios e críticas são assimilados por minha consciência de uma forma muito semelhante: ou estão colocando meu ego para baixo, ou o estão colocando para cima. Sim, no fundo, é sempre uma questão de ego. E o ego, durante o processo de criação, não manda em nada! Eu sei qual é o valor do meu trabalho, conheço meus méritos e deméritos, minhas qualidades e defeitos, e por isso sou sempre o meu crítico mais ferrenho. Claro, quando as críticas são construtivas, mesmo sendo negativas, sempre as ouço e medito muito sobre seu conteúdo. Ora, não sou onisciente, um feedback justo, originado de uma perspectiva totalmente diferente da minha, é sempre proveitoso. No entanto, a “crítica” do leitor acima é apenas o comentário do “acadêmico” que comprou o livro errado: comprou ficção em vez de um estudo antropológico. Ora, para um suposto pesquisador da academia, a incapacidade de pesquisar a respeito de um livro antes de comprá-lo é algo cômico e, no fundo, apenas ressalta a substância dos contos: a universidade vive uma tragicomédia.

Agora, é bom receber elogios? Claro que é, mas não me permito acreditar plenamente neles, do contrário, poderia achar que já cheguei no ápice, esquecendo pois de me aprimorar. É chato receber críticas destrutivas? É óbvio que sim, mas tampouco me permito acatá-las, do contrário, não conseguirei me permitir a liberdade necessária para criar, pois essa liberdade exige autoconfiança e um enorme foda-se para as opiniões circundantes, sejam elas quais forem. O que me chateia, no caso presente, é que pretendo deixar de morar sob o viaduto — leram o texto anterior? — e os comentários de um leitor desavisado como esse apenas atrapalham a venda do livro. Como disse Monteiro Lobato em sua última entrevista, referindo-se a si mesmo: para um escritor profissional, “seu livro predileto é o que lhe dá mais dinheiro”. Assim, quem quiser realmente me deixar muitíssimo feliz, além de me elogiar diretamente, diga também o que achou do livro nos sites em que o comprou. Beleza? Muchas gracias.

Já assistiu à série The Affair? Não? Então veja!

Talvez eu já tenha sugerido aqui a série The Affair. Talvez não. Durante as duas primeiras temporadas, eu temia que a trama desandasse e a narrativa inteira redundasse num melodrama mexicano ou, o que seria ainda pior, num dramalhão de novela brasileira. Após a terceira temporada, já posso afirmar: nem uma coisa nem outra, trata-se de um drama adulto, envolvente, bem escrito. E me refiro a todas as temporadas. Como o próprio título indica, a série poderia se chamar: “Não cometerás adultério”. Mas tampouco se trata de uma obra moralista, isto é, ao menos não no sentido mais mesquinho do termo. O que ela faz, na verdade, é seguir, enquanto texto dramático, aquilo que William Faulkner declarou em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura:

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.”

A série The Affair, claro, não é perfeita. Mas é melhor do que a maioria das que tenho visto. E ainda resgata a mesma técnica narrativa utilizada por Ryūnosuke Akutagawa no conto “Dentro do Bosque”, na qual o assassinato de um samurai é narrado através de sete diferentes testemunhas, cada qual apresentando sua própria versão do crime. (Akira Kurosawa adaptou o conto para o cinema sob o título de “Rashomon”.) Na série, cada “capítulo” — em geral, dois por episódio — apresenta a mesma seqüência de eventos, mas alterando o ponto de vista da narrativa: os personagens envolvidos têm suas próprias versões dos fatos. Se no início isso nos causa certa aflição — do tipo “quem estará dizendo a verdade?” —, mais adiante percebemos que, não havendo um narrador neutro, todas essas versões são igualmente válidas, afinal, quantos casais, por exemplo, poderiam narrar seu primeiro encontro exatamente da mesma maneira? Justapostos, os capítulos têm um efeito impressionista. Ora, notamos aspectos distintos dos acontecimentos e somos impactados segundo nossos próprios interesses, valores, afetividades. Daí, na série, tudo se passar como se cada capítulo fosse a exploração da memória mesma do personagem enfocado, encontrando registros que, se diferem dos demais nos detalhes, não diferem na essência dos acontecimentos. O resultado pode ser perturbador em alguns momentos — roupas diferentes, lugares diferentes, atitudes diferentes, diálogos diferentes, etc., tudo para representar uma mesma situação — mas, ao mesmo tempo, sugere o quanto cada um dos personagens contamina a memória de suas experiências com suas próprias intenções, preconceitos, desconfianças, sentimentos, receios, temperamento e assim por diante. Há momentos em que a narrativa leva nossa afetividade para passear numa tremenda montanha russa de emoções: há conflitos, dores, sofrimentos, e até lirismo, para todos os gostos. A série, enfim, expressa de maneira pungente o quão frágeis e problemáticos se tornaram os relacionamentos nessa nossa época caótica, na qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”. E com um detalhe importante: há alguma luz no fim do túnel — embora, no final da viagem, nada mais seja como antes…

A expressão estética da verdade

Álvaro Lins

« Em arte, belo não é sinônimo de bonito. O artista procura, com a verdade, o que é característico. A expressão estética dessa verdade — bonita ou feia, elevada ou baixa, nobre ou sórdida — é que é a beleza em arte.»
Álvaro Lins

Minhas impressões sobre alguns filmes indicados ao Oscar 2015

Oscar 2015

Seguem minhas impressões sobre alguns filmes indicados ao Oscar deste ano:

Whiplash (2014): Treinamento musical à la SEALs. Sangue, suor e lágrimas. (Mais sangue do que você imagina.) O sargento não é negro, mas é durão e careca. Em vez de ir à guerra, vão ao jazz. Muito bom. Talento e muita força de vontade. Oscar de Melhor duelo mestre-discípulo.

Interstellar (2014): Após esquecer como se fabricam aspiradores de pó, terráqueos decidem abandonar a Terra. Viagem de volta para o futuro da maionese passando pelo passado poeirento. (Ninguém liga para o bisavô, nem sequer quando ele é astronauta.) No fundo, a única coisa que realmente me interessou nesse filme não está nele: como teria sido a espera de duas décadas do astronauta negro largado sozinho na nave espacial? Sinistro. Oscar de Melhor desperdício de premissa.

Nightcrawler (2014): Que bosta de filme! Uma câmera na mão (do protagonista psicopata) e uma droga de roteiro (na cabeça do diretor). Oscar para Melhor esposa que aceita trabalhar no filme pretensioso do marido.

The Grand Budapest Hotel (2014): Que belíssima e bem fotografada merda! Se você fuma maconha antes de entrar no cinema, irá curti-lo, pois, ao se perder no enredo graças a insights alheios à narrativa, não perderá nenhuma história que valha a pena acompanhar – e ainda curtirá a paisagem! (Não foi o meu caso.) Oscar de Melhores efeitos do THC.

Ida (2014): Noviça polonesa de origem judia deixa convento para descobrir, em companhia da tia juíza, o que foi feito de seus pais. Cicatrizes da Segunda Guerra. Anti-semitismo de vizinho interesseiro. Cena deprimente: um enterro ao som de L’Internationale. Bom filme. Antes de renunciar ao mundo é preciso experimentá-lo — ao menos um pouquinho.

The Imitation Game (2014): Que perda de tempo! Quanta mentira! Quer fazer uma cinebiografia? Então pare de contar lorotas: os poloneses já haviam quebrado o código da máquina Enigma anos antes dos ingleses; havia mulheres na equipe de criptógrafos (por isso é ridícula a crítica feminista em certa cena do filme; ora, o país já havia sido governado por duas grandes rainhas!); Turing não escreve sozinho uma carta para Churchill, mas, sim, em conjunto com os demais cientistas; ele não construiu aquele computador sozinho como quem trabalha na garagem de casa; eles, os cientistas, não decidiram por conta própria quais ofensivas nazistas seriam contra-atacadas; não se sabe realmente se Turing cometeu suicídio ou se foi “suicidado”, etc. Enfim, Oscar de Filme que mais irritou os poloneses, a exatidão e a veracidade.

Gone Girl (2014): Que pé no saco! Trama tão estúpida que nem dá vontade de comentá-la. (Ela, a girl, foi tarde e não devia ter voltado.) Em suma: clube da luta supostamente vencida pelo suposto sexo frágil. Oscar de Final mais deprimente.

Leviafan (2014): Bom. Livro de Jó em russo. Mas faltou a conclusão. Um detalhezinho só, no final. (Será possível que até o autor da Bíblia — “J”, segundo Harold Bloom — entenda mais de roteiro?) Mas continua sendo um bom filme. Vale a pena. Oscar de Que droga de vida.

The Theory of Everything (2014): Sessão da tarde. Físico que desconhece Wolfgang Smith ainda acredita existir uma Teoria de Tudo (TGU). Não havendo, torna-se famoso por uma teoria equivocada e por ser o primeiro a refutá-la. Mais um, menos um, igual a zero. Oscar de Melhor cara torta.

American Sniper (2014): Ótimo. “O verdadeiro guerreiro luta não porque odeia o que está à sua frente, mas porque ama o que está atrás.” (Chesterton) Os progressistas odeiam esse filme tanto quanto amam Che Guevara, o que diz muito sobre eles. Oscar de Melhor pontaria.

Boyhood (2014): Interessante, mas infelizmente não existe no Oscar a categoria “Melhor espera de crescimento de ator”. Precisava? [Muxoxo] Longa sessão da tarde. Sessão da tarde inteirinha. De toda uma tarde… Sim, interessante, mas também termina tragicamente: o coitado ingressa na universidade! Que horror. Oscar de Mais momentos propícios para se ir ao banheiro sem perder absolutamente nada do enredo.

Birdman (2014): Mimimi de ator hollywoodiano querendo reconhecimento da crítica nova-iorquina. Realismo esquizofrênico. Mais do mesmo cine-hospício. Aula de plano-sequência. (Lembra minha conversa com Dib Lutfi sobre o melhor câmera ser como alguém em projeção astral.) Oscar de Melhor corrida de táxi.

Foxcatcher (2014): Contra a vontade da aristocrática mãe, que prefere cavalos, Riquinho Rico compra lutadores para brincar com eles no quintal da sua mansão. Ou seja, mais cine-hospício. Neste caso, em doses homeopáticas. O que impressiona é que, apesar das frescuras, e nesta época em que toda cinebiografia quer-porque-quer provar que todo biografado foi gay, ninguém libera o fiofó. Steve Carell, como todo ator que interpreta malucos, corre o risco de levar um prêmio. Oscar de Melhor agarra-agarra sem conotação sexual.

Página 1 de 4

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén