Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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O motorista negro e a camisinha cor-de-rosa

Em 1997, por indicação da minha amiga Monica Fernandes, consegui trabalho na Chroma Filmes, ex-Adrenalina Filmes, uma produtora de cinema paulistana, na qual assumi a posição de assistente de produção. Trabalhei em menos de uma dezena de filmes publicitários porque, mais tarde, em 1998, eu e alguns amigos abrimos nosso próprio estúdio. Mas, dentre todos os filmes em que trabalhei na Chroma, o de que mais me lembro foi um comercial de chiclete. (Não consigo encontrar nenhum dos filmes no YouTube, provavelmente porque a produtora não existe há anos e também porque já há outras produtoras homônimas.) Enfim, o caso é que passamos uns dois dias rodando o comercial no Clube de Regatas Tietê, cujo protagonista era um time de basquete espantoso que mais parecia uma versão local dos Harlem Globetrotters: aqueles caras gigantes, todos negros, não erravam uma bola!

Após gravar as cenas de jogo, as cenas da platéia — na qual eu mesmo tive de participar como figurante, com um pseudo-entusiasmo nascido da minha pungente necessidade de dinheiro — chegou o momento de rodar as cenas de primeiro plano, as quais incluíam a de um jogador que deveria inflar uma enorme bola com a goma do chiclete. (O chiclete, aliás, ao sair do pacote, tinha o formato de uma bola de basquete, incluindo a divisão em gomos. Seu interior, como a do concorrente mais famoso, tinha um líquido viscoso adocicado, o qual, nas cenas de detalhe, foi fakeado com xampu, corante e mel, já que no lugar do chiclete, nessa ocasião, foi utilizado um mocape do tamanho de uma bola de futebol, mocape esse criado por um japonês formado em engenharia naval.)

Voltando… a questão é que nenhum dos jogadores selecionados conseguia fazer uma bola convincente com o chiclete! E isso simplesmente porque o chiclete era uma boa porcaria. Partiu-se então para os mais diversos substitutos: três chicletes ao mesmo tempo, chicletes concorrentes, bexigas de borracha, etc. mas nada dava certo, Na época, não havia computação gráfica no Brasil com qualidade suficiente para enganar o público e satisfazer o Odorico Mendes, diretor do comercial. E então alguém teve a grande idéia:

— Por que não usamos uma camisinha?

— Sim, concordou o diretor, pode dar certo.

E então, claro, sobrou para o coitado do assistente de produção, eu, ir comprar uma camisinha que deveria ter a ponta arredondada — sem aquele apêndice que visa conter o esperma — e o principal: deveria ser cor-de-rosa. Fui até a van (ou seria uma Kombi?) e saí com o motorista nessa busca frenética, deixando todo um set de filmagens de braço cruzado a me aguardar com aquela paciência áspera e fatal que só os profissionais de São Paulo conhecem. (E é por isso que o nome Adrenalina era muito mais condizente com a produtora do que o agradável Chroma.) Passamos por umas três farmácias que só possuíam as tradicionais Jontex e Olla “cor da pele” — informação essa que passei ao motorista, que se irritou, porque era um negro de dois metros de altura, com um torso de geladeira — e, finalmente, numa quarta farmácia, após deixar o gaiato, porém irritado, motorista na van, vi-me de repente cercado por prateleiras com as mais diversas marcas de camisinhas. Já fui logo dizendo à atendente:

— Qual dessas é cor-de-rosa?

Ela me encarou de um jeito estranho, suspicaz, como se eu fosse um fetichista de um tipo inédito:

— Não sei. Mas deve estar escrito nos pacotes, não?

E, apressado, comecei a ler rótulo por rótulo, abrindo alguns que tinham a embalagem rosada e me decepcionando com o resultado:

— Você vai pagar por essas.

— Claro que vou. Vai separando aí.

Lá pelas tantas, após um intervalo de tempo que pode ter sido tanto de cinco quanto de quinze minutos — já estava imaginando a bronca do diretor e por isso o tempo se dilatava —, entrou na farmácia o negão de dois metros de altura com torso de geladeira tamanho família:

— E aí, Yuri? Já comprou a camisinha? Eu tenho que cumprir o horário, não posso ficar tanto tempo por conta.

A vendedora, o farmacêutico, os demais fregueses, enfim, todos arregalaram os olhos e nos observaram com um silêncio dos mais constrangedores e inconvenientes, alguns com uma ruga na testa, fruto de alguma cena imaginada a contragosto. Por que aquele rapaz franzino e tímido estava comprando camisinhas acompanhado por um negro enorme?

Olhei irritado para o sujeito:

— Por que você não esperou lá na van? Devia estar com o motor ligado.

— Eu tô com o motor ligado.

Olhei para fora e vi que, de fato, o maluco tinha largado o carro ligado junto ao meio-fio. Mas também notei que essa declaração dele fez com que algumas pessoas olhassem para a sua braguilha… Isso foi o suficiente para me deixar roxo de raiva. E de vergonha, claro. Felizmente, para meu alívio, dez segundos depois encontrei uma marca importada cuja camisinha era cor-de-rosa, de ponta arredondada e que ainda tinha sabor morango.

— Perfeita! — disse o motorista, aumentando o meu constrangimento e a minha irritação.

Paguei por todas as camisinhas cujo pacote abri, pela escolhida e corremos para o Clube de Regatas. Estava com mais pressa de sair dali do que de chegar ao set de filmagens. Uma vez no set, a chefe de produção, ao me ver, fechou a cara e correu na minha direção:

— Porra, meu! Finalmente! O Odorico já tava querendo o meu fígado.

— Ele vai curtir essa aí — respondi, entregando o pacote para o assistente de direção, que viera atrás dela.

Assim que o assistente saiu, ela se virou novamente para mim e, num tom meio aliviado, meio seco, disse:

— Beleza. Cadê as notas?

Arregalei os olhos e comecei a suar frio: eu esquecera as notas fiscais! Limitei-me a sacudir a cabeça negativamente e a mostrar as mãos vazias. Para quê… a mulher soltou os cachorros sobre mim, gritando histericamente, o que atraiu as atenções de todo o ginásio. Lembro que os epítetos mais elogiosos foram “burro” e QI Zero”.

— Como é que eu vou justificar esse gasto no orçamento agora? Vou descontar do seu cachê!

Concordei e fiquei xingando-a por dentro. Eu nunca esquecera as notas fiscais antes, mas era a primeira vez que trabalhava com ela. Não disse nada. De que adiantaria dizer que o negão de dois metros de altura atrapalhara minha concentração lá na farmácia? Naquela época eu era tremendamente tímido e não tinha o menor jogo de cintura em situações desse gênero. Hoje em dia, eu até me viraria para o cara e diria na frente de todos: “E aí, Zezão? Acha que essa cabe em você? A minha eu já achei: e é muito maior que a sua”. Em suma: vivendo, se fodendo e aprendendo.

Efeito madeleine

Por essa eu não esperava: meu cigarro eletrônico me causou recentemente um “efeito madeleine” (vide Proust) ou então, para que as crianças me entendam, um “efeito ratatouille”.

Como costumo vapear onde quer que eu esteja — sempre com a desculpa de que não estou emitindo fumaça mas vapor (logo, como diria Glauber Rocha, “não me encham o saaaaaacoo!”) — resolvi comprar essências com cheiros menos provocativos, do tipo que não transforme pessoas aparentemente normais em trolls anti-tabagistas mentalmente programados pela Organização Mundial da Saúde. (Poxa, até em bar de motoqueiros já me pediram para parar de “fumar”! Nego anda tão “leite de soja” que nem um bar com essa galera visualmente agressiva aceita fumantes.) Enfim, minhas essências com odor e sabor de cachimbo francês, de tabaco da Virginia, etc. estavam me causando atritos com a sociedade titereada. Então resolvi comprar duas essências “fofas” para misturar com uma base “austera” de charuto cubano: uma de chocolate, outra de cappuccino. Semanas atrás testei a mistura de cappuccino com charuto cubano: aprovada! Ninguém reclamou e o sabor de charuto continuou lá. Mais tarde, com o tanque já vazio, preparei uma mistura de charuto cubano com chocolate. E quando traguei… puts… fui transportado novamente para minha infância… e me lembrei de uma cena enterrada a sete palmos na minha memória…

Eu e um colega de colégio — cujo pai, assim como o meu, também era funcionário da VASP — estávamos no clube da empresa, não no de campo, mas no da cidade, aquele próximo ao Aeroporto de Congonhas. Nessa época devíamos ter uns onze ou doze anos de idade e, como meu pai era o presidente do clube, costumávamos andar por ali como se estivéssemos em casa. Na ocasião, não fazia frio, eram umas sete da noite, havíamos acabado de jogar futebol de salão e, cansados, nos dirigimos ao balcão do bar para pedir um refrigerante, onde nos sentamos ao lado de dois pilotos que fumavam cachimbos. Sabíamos que eram pilotos não apenas porque usavam o uniforme típico, mas porque um deles só se dirigia ao mais velho como “comandante”. (Nessa época eu ainda confundia pilotos com comissários.) Lá pelas tantas, enquanto eu falava qualquer coisa a meu amigo, notei que ele permanecia de olhos fechados, completamente alheio às minhas palavras, um ar extático estampado no rosto.

— Que cara é essa, meu? — perguntei.

— Cara de chocolate — respondeu.

— Hum?

Ele abriu os olhos e, inclinando-se na minha direção, sussurrou:

— Eles estão fumando chocolate!

De fato, sorvendo o ar com maior atenção, notei que aquela fumaça espessa realmente recendia à chocolate — claro, à chocolate e a algo, por assim dizer, mais adulto.

— Puts! É mesmo!

— Quando eu crescer — tornou ele — também vou fumar cachimbo.

De fato, anos mais tarde, ele até tentou fumar cachimbo, mas preferiu se ater ao Marlboro Light e a outros fumos mais controversos… Bem, isso não vem ao caso. A questão que importa é: Proust tinha razão, pois certas memórias realmente permanecem guardadas à chave, uma chave feita de sensações. E é por isso que o cheiro de bala de coco sempre me lembra as gargalhadas da minha mãe e da minha tia Lourdes, exaustas por esticar a quatro mãos a massa açucarada numa fria tarde paulistana, que o sabor de pé-de-moleque me lembra uma tarde qualquer na casa da minha avó paterna no Rio de Janeiro e que o som de algumas freadas súbitas de carros me lembra o berro agonizante de um porco, numa manhã ensolarada e fria de Julho, em Goiás, na fazenda da minha avó materna.

O Feitiço de Áquila na Casa do Sol

Por volta das oito da manhã, entrei no escritório da Hilda Hilst, a qual, como sempre, já estava debruçada sobre uma pilha de livros abertos — era sua maneira de ler: sempre que se cansava de um livro, puxava um outro para o topo e retomava a leitura no ponto marcado. Quando me viu, colocou um cristal de rocha do tamanho de um punho sobre a página aberta e me encarou:

— Bom dia, querido.

— Bom dia, Hilda.

— Você viu se o Bruno já acordou?

Ela se referia ao poeta Bruno Tolentino, seu mais novo hóspede.

— Encontrei com ele às sete e meia lá na cozinha. Ele não veio aqui?

— Não sei. Vim pra cá às seis e meia, mas tive de voltar pro banheiro. Comi alguma coisa ontem que me fez mal.

— Na verdade, acho que o problema é que você ‘finalmente’ comeu alguma coisa, né. Você quase não se alimentado e, quando come, parece se esquecer de que algo tem de sair.

— Pode ser — respondeu, sorrindo e abanando-se com o leque. — Mas cadê o Bruno? Não tomou o café ainda?

— Ele foi dormir, Hilda. Passou a noite inteira escrevendo.

— Credo! Faz mais de uma semana que ele está aqui e ainda não conseguimos conversar direito. Ele dorme o tempo todo!

— Ele tem dormido muito mesmo. O Antônio disse que ele anda cansado. Mas, muitas vezes, a gente acha que ele está dormindo quando, na verdade, está é finalizando O Mundo Como Idéia.

— Bom, qualquer dia ele vai entrar em sincronia com a Casa. Todo mundo entra.

E então conversamos sobre assuntos variados: o rosto de Camões que lhe apareceu na parede do banheiro, sugerindo-lhe o início de um poema — “Que este amor não me cegue nem me siga…” —, as cartas obscenas de James Joyce à sua esposa Nora, nossos sonhos e assim por diante. Depois nos entregamos a nossas respectivas leituras e, lá pelas onze e meia, Hilda me pediu para lhe servir sua primeira taça diária de vinho do Porto. Uma hora mais tarde, “más feliz que una lombriz”, Hilda se levantou de súbito:

— Vou deitar um pouco, Yuri.

— Peço pra Juliana preparar seu almoço às duas?

— Ah, não sei. Esse negócio de comer pra depois ter de ir ao banheiro é muito trabalhoso — e riu.

— Poxa, Hilda. Espere chegar em Marduk antes de parar de comer. Senão o Zé vai encher o nosso saco e, claro, você não vai conseguir parar de pé.

Ela me respondeu com um gesto de enfado e, de braço comigo, caminhou até a porta do quarto, onde se fechou.

Pouco antes das duas, enquanto eu e Antônio, secretário do Bruno, almoçávamos, Bruno apareceu na cozinha:

— A Hilda já almoçou?

— Ainda não. Foi se deitar e ainda não levantou.

— Toda vez que vou ao escritório, ela está dormindo. Ela só está acordada na hora da novela? Não dá pra conversar na hora da novela.

Eu ri: — Ela também acha que você dorme o tempo inteiro. Ela acorda bem cedo. O esquema aqui é de mosteiro.

— Só que tem mais vinho que hóstia neste mosteiro… — tornou ele, sorrindo ironicamente.

— Bom, depois que ela ficou sabendo que deve mais de quinhentos mil reais de IPTU, resolveu investir em mais garrafas de vinho. Não a culpo: está numa enrascada e, mesmo se conseguisse uma boa editora, jamais teria dinheiro suficiente.

— Quinhentos mil… — balbuciou ele. — Este país é um absurdo.

— Pois é.

— Melhor eu me adequar à regra local, né — disse, após um minuto. — Já combinamos que irei revisar o teatro dela. Quero fazer isso em voz alta, diante dela.

De fato, semanas mais tarde, foi assim que Bruno revisou o Teatro Completo da Hilda: uma leitura em voz alta, na presença de Hilda, de Zé Mora Fuentes e de mim mesmo. Mas, voltando ao dia em questão, enquanto ele enchia a xícara de café, comentei:

— Vocês estão parecendo os personagens do filme O Feitiço de Áquila: quando um está consciente, o outro não está.

— Ladyhawke?

— Acho que é.

— Bom, a Hilda gosta mais de cachorros do que eu. Ela podia ser o lobo e eu, a águia. O signo de escorpião também já foi representado pela águia.

Antônio finalmente se manifestou: — Quem mais está lucrando com isso é o Yuri.

— Eu? Por quê?

— Uê, você tem dois professores particulares e um não atrapalha a aula do outro.

— Isso é verdade — tornei. — Pena que nenhum dos dois tenha gostado das minhas poesias.

— O que você faz na prosa é que é ‘poiesis’ — disse Bruno, muito sério. — Já os poemas que me mostrou são apenas letras de música, não possuem musicalidade em si mesmos.

— A Hilda me disse a mesma coisa.

— Claro, para ser um poeta, você tem de ler mais poesia. E, se quiser, vai chegar lá — acrescentou.

— Aí é que está: não me vejo como poeta. Ao menos não na expressão. Quero continuar com os contos e, assim que puder, partir para os romances.

— Potencial e talento você tem. Só tem de tomar cuidado para não se perder. Não vá, por exemplo, fazer como a Hilda e ficar correndo atrás do James Joyce.

Eu ri: — Não pretendo.

— Ótimo. Ulisses é um embuste. A poesia e o teatro da Hilda são maravilhosos, mas, com uma exceção ou outra, no geral, Joyce atrapalhou a prosa dela.

— Acha isso mesmo?

— Não me entenda mal: ela escreve muitíssimo bem, mesmo em prosa. Mas, ao contrário da poesia, em que ela é genial, na prosa ela não sai da sombra do irlandês maluco. No teatro, a gente nota a influência de Beckett, mas ela não se intimida e está toda lá. Nos contos, pelo menos nos que eu li, a gente sente que foi tudo escrito por um Kafka que leu James Joyce. Onde ela está?… — e fez uma pausa, pensativo. — Bom, pelo menos nas crônicas ela é engraçada, está presente.

Antônio riu: — Com mais essa aula e as da Hilda, você já deve uns quinhentos mil pra cada professor, Yuri. A Hilda vai poder pagar a dívida dela.

— Quinhentos mil?! — tornou Bruno, arqueando as sobrancelhas. — As aulas que esse menino está recebendo não têm preço!

Depois do almoço, Bruno se retirou para seu quarto, retomando a escrita d’O Mundo Como Idéia. Hilda só foi aparecer lá pelas três:

— O Bruno já almoçou?

— Já.

— Cadê ele?

— Voltou pro quarto.

— Foi dormir de novo?!

— Não, tá escrevendo.

Ela sorriu, um tanto contrariada: — Nossa, como esses escritores são anti-sociais! Ficam se isolando, não param de escrever.

— Tipo aquela poeta doida que se refugiou num sítio perto de Campinas, né. Aquela que mandava o marido ir comer a empregada para ela poder escrever.

Hilda, que já acendia o cigarro, deu uma risada solta: — Mas ela agora é só uma velha louca cheia de cachorros. E não escreve mais!

Voltamos às nossas leituras.

— Você já leu os livros do Bruno, Hilda? — perguntei, minutos depois.

— Li o que ele me deu: As Horas de Catarina. E também esse outro que me emprestou: Os Sapos de Ontem.

— O que achou?

— Ele é um poeta de verdade. É difícil encontrar um. Mas Os Sapos de Ontem é chatérrimo! Eu também não gosto das besteiras dos concretistas, mas o Bruno é muito enrolado para escrever em prosa, fica tergiversando e tem um estilo muito afetado, bossa… — e então se refreou, tentando lembrar de alguma coisa.

— Bossa o quê, Hilda?

— Como se chamava aquele crítico que aparece no filme que vimos outro dia?

— No filme Carrington?

— Isso.

Eu sabia a quem ela se referia — Lytton Strachey — mas tampouco me lembrei do nome naquele momento.

— Ah, não importa. São semelhantes: ferinos, mas empolados.

— Bom, mas parece que ambos, ao criticar outros escritores, se referem justamente à afetação vazia destes.

— Pode ser. Mas ele é melhor na poesia do que nos ensaios.

Lição daquele dia: acredite mais nos seus olhos e na sua consciência do que naquilo que um escritor fala do outro, afinal, é possível que ambos estejam… certos! Sim, certos. Porque, se “o estilo é o próprio homem”, e se há personalidades com as quais nos damos melhor do que com outras, muitas vezes nos damos igualmente bem com escritores entre os quais, lá entre eles, não há plena afinidade.

Hilda Hilst: “Que besteira, meu Deus!”

Em 1998, pouco antes de me mudar para a Casa do Sol, a revista Bundas — lançada pelo Ziraldo no ano seguinte em oposição paródica à revista Caras — enviou um jornalista para entrevistar Hilda Hilst. Nessa entrevista, como é de praxe entre a nossa intelligentsia, foi-lhe perguntado algo sobre sexo e ela respondeu que já não atribuía tanta importância ao tema, tendo inclusive abraçado a castidade desde que completara 50 anos. Não me recordo do conteúdo exato da matéria publicada, mas me lembro bem do exemplo dado por ela para ilustrar esse desinteresse recente: certa feita, um amigo-secretário lhe pediu para usar seu banheiro privado, uma vez que o chuveiro do banheiro de hóspedes estava queimado. Minutos depois, enquanto ela se dirigia para o quarto, esse amigo surgiu à sua frente, no corredor, completamente nu, distraído, enxugando os cabelos com a toalha. Ela então olhou para o pau dele e… caiu na gargalhada. Ele, que não a havia visto, ficou deveras encabulado com aquela reação:

— O que é que foi, Hilda?

Ela apontou para o pau dele e, ainda às gargalhadas, quase sem fôlego, comentou:

— Mas é por isso?! É por causa dessa coisa que tanta gente chora pelos cantos, que tanta gente se mata? Que besteira, meu Deus!

Eu sei que amigo era esse, mas, infelizmente, a matéria foi publicada apenas em 1999, quando ele já havia se mudado da casa, e, claro, a coisa toda sobrou para mim, o novo “amigo secretário”. Durante pelo menos dois anos tive de ouvir:

— Yuri, o que a Hilda viu de tão engraçado e ridículo no seu pau?

— Não era o meu, cacete!!

— Yuri, é verdade que seu pau fez a Hilda desistir para sempre do sexo?

— Não era o meu, porra!

O lema da revista Bundas era: “Quem coloca a bunda em Caras não coloca a cara na Bundas”. Mas, caramba, precisavam colocar um pau? (Não era o meu, caralho.)

Breaking Chiquititas

Depois de anos a fio sugerindo-lhe a série Breaking Bad, minha irmã finalmente deu o braço a torcer — e, claro, Melissa ficou viciada na tortuosa história do senhor White. Ontem, ela esteve aqui com minha sobrinha, Bárbara, e me perguntou se eu voltaria a assistir a um ou dois episódios com ela. Claro que eu quis. Enquanto acompanhávamos as sangrentas enrascadas em que se metiam os protagonistas, Bárbara ia e vinha pela casa, ou então ficava noutro canto jogando vídeo game. Concluídos os episódios, Bárbara veio até nós e perguntou:

— Mãe, por que você fica reclamando sempre que termina de ver essa série?

— É porque não é igual às séries que você vê, meu amor. Sempre acontece alguma coisa no fim que deixa a gente com vontade de ver mais. Não é como a iCarly, que tem uma historinha com começo, meio e fim a cada episódio.

— Então como é?

— Uê. É como se fosse um filme enorme dividido em várias partes. E o filme sempre continua, não termina nunca.

— Ah, então é igual às Chiquititas! A história sempre continua.

Nesse momento eu me virei para as duas com o ar mais impassível do mundo.

— Isso — tornou minha irmã, em sincera concordância. — É igualzinho às Chiquititas. A mesma coisa.

Então eu intervim, no tom mais sério possível: — Sim, Breaking Bad é EXATAMENTE igual às Chiquititas.

Melissa virou-se para mim e só então, pensando melhor no que dissera, caiu na gargalhada.

Eu teria me esquecido dessa história caso, hoje, a Bárbara não tivesse me provado que as séries realmente se parecem.

— Tio Yuri, por que você acha que Breaking Bad é diferente das Chiquititas?

— Porque tem um monte de bandidos na série, gente má.

— Então são iguais mesmo — respondeu. — Nas Chiquititas tem três meninas más: a Carmen, a Matilde e a Cíntia.

— Sério?

— Sério. Elas ficam tentando roubar o tesouro. E uma delas até vai presa.

Conclusão: há mais Breaking Bad no mundo infantil do que julga nossa vã adultice.

Memento mori

Os generais romanos, após uma vitória, desfilavam pela cidade numa biga acompanhados por um escravo a pé que, a cada tantos passos, lhes sussurrava: “Lembra-te de que és mortal!”. Hoje, ao menos aqui em casa, isso não é necessário: todo santo dia o telefone fixo toca e, quando o atendo, uma gravação diz: “Boa tarde! Aqui é da funerária blablablá e temos diversos planos, etc.”.

Calma. Um dia a gente chega lá.

Cu infantil

Já que Olavo de Carvalho andou criticando no Facebook o “ódio ao cu” — ódio tão comum entre aqueles que rejeitam sua própria natureza mortal — vou contar uma história anal da Hilda Hilst. (E é mesmo sobre o cu dela.)

Hilda me contou que, quando tinha uns 24 ou 25 anos, tentou fazer sexo anal com Cassito (Cássio Rodrigues), o mesmo namorado com quem viajara pela primeira vez à Europa. Acontece que a coisa não saiu conforme o esperado e ela se machucou. Confessou então o caso à sua perplexa mãe, Bedecilda, que propôs levá-la ao médico para um exame. Hilda não queria ir, estava morrendo de vergonha de admitir o incidente diante de terceiros — afinal, eram os anos 1950 e coisa e tal —, mas, sob a pressão da mãe, e das dores, foi. Uma vez no consultório, extremamente tensa, aguardou que o médico terminasse as perguntas de praxe — deve haver uma praxe para assuntos relativos ao cu —, para depois orientá-la quanto aos procedimentos. Sua mãe, claro, a acompanhava: uma moça não se submeteria a uma situação dessas sozinha. O médico, pois, um senhor já de idade, muito sério, pediu-lhe que se despisse atrás de um biombo e que depois subisse na maca. Ela o obedeceu e, em seguida, se deitou de bruços. O médico então lhe disse para ficar de quatro e ela, olhando de soslaio para a mãe, novamente se submeteu ao arranjo, mas agora com a vergonha a deixar-lhe o rosto mais roxo do que o roxo do… você sabe. Por fim, o médico a penetrou com o dedo e começou a verificar onde ela estava ferida. Nesse momento, de tão nervosa, ela deu uma primeira risada.

— Hildinha! O que é isso?! — censurou-a a pasmada mãe.

Com a bronca, o riso tornou-se descontrolado e se converteu numa gargalhada interminável.

— Pára, Hildinha! Pára!

Quanto mais a mãe a repreendia, mais nervosa ela ficava e mais risadas dava. O médico, mortalmente constrangido, resolveu encerrar o exame, mas encontrou um problema: conforme ria, Hilda lhe prendia o dedo com seu esfíncter!

— Hilda — começou, em tom grave e oficial —, se você não parar de rir, não vou conseguir tirar o dedo!

A gargalhada, que ela mal começara a controlar, voltou a libertar-se, e intensificou-se a ponto de a fazer perder o fôlego. E sentiu o médico colocar a outra mão em sua nádega para forçar a saída do dedo.

— Hildinha, minha filha! Quer me matar de vergonha?!

E, como quem abre um champanhe, o médico retirou o dedo com um leve estampido.

— E depois, Hilda? O que aconteceu? — perguntei-lhe, entre risadas, quando me narrou o caso.

— Ah, depois eu me vesti e ficamos os três ali, olhando para o chão, um mais sem graça que o outro, sem ninguém se referir ao fato. E, no final, enquanto me prescrevia uma pomada, o médico me disse: “Nunca mais faça sexo anal, Hilda. Você tem o cu infantil. Não convém”.

E essa é a história do cu infantil da Hilda Hilst. :^)

P.S.: Eu já não havia contado essa história?

Hilda e Cassito, em 1955. Esse é o cara que, muito chateado por Hilda ter rompido o namoro com ele, metralhou a portaria do prédio onde ela morava…

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