Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Pai-dos-burros

Aurélio

Ontem, Bárbara, minha sobrinha de 6 anos de idade, apareceu por aqui toda entretida com um dicionário de língua portuguesa.

— T’yuri, me fala uma palavra.

Eu dizia uma palavra qualquer e ela buscava o significado. Repetiu o procedimento algumas vezes. Lá pelas tantas eu lhe perguntei:

— Qual é o nome desse livro, Bárbara?

— Dicionário.

— Sim. Mas ele tem outro nome também.

— Qual?

— Pai-dos-burros.

Ela, sorrindo, e acostumada com minhas brincadeiras, me encarou com uma expressão de imensa incredulidade.

— É verdade — eu disse. — Procura aí para você ver.

Ainda desconfiada, começou a revirar as páginas e, de fato, encontrou a definição: “Pai-dos-burros: Bras. Fam. dicionário”. Ela então arregalou os olhos:

— Então todo mundo que olha no dicionário é burro?

— Não, esse nome é de brincadeira. Ninguém conhece todas as palavras que existem. Por isso todo mundo usa o dicionário.

— Menos o vô-dos-burros, né?

— Vô-dos-burros? — perguntei, rindo.

— É, o homem que escreveu o dicionário. O pai do pai-dos-burros. Pai do pai é vô, né.

Bárbara sempre tem razão.

Trânsito ideológico e um mantra canino

Esta noite sonhei que participava de uma reunião de amigos, numa casa desconhecida, e entre esses amigos estava a Carol Martins, que não vejo há muito tempo. Lá pelas tantas, ela se levantou do sofá, olhou em torno e se despediu dizendo: “Gente, preciso ir agora porque logo mais o trânsito estará muito ideológico”.

— Como assim ideológico, Carol? — perguntei, já achando aquele comentário genial.

— Ah, congestionamento, estresse, buzinas, xingamentos, barbeiros…

— E você faz parte dos motoristas conservadores ou dos progressistas?

— Não faço idéia — respondeu sorrindo.

— Você é do tipo que buzina para quem está na frente ou do tipo que ouve a buzina atrás?

— Ah, eu buzino. Então devo ser progressista, né, porque quero progredir pelas ruas e não me deixam!

— Ou então participa de buzinaços…— repliquei.

Só me lembro até aí. A partir de agora, chamarei o trânsito caótico de trânsito ideológico.

A Carol é a amiga a quem, na Casa do Sol, ensinei o mantra “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá”. Lembro que Hilda Hilst a achou “chiquérrima, elegantíssima”. Ela ocupou o quarto de hóspedes cuja parede dos fundos dava para o primeiro canil.

— Carol, se os cachorros perceberem sua presença e começarem a latir à noite, repita esse mantra e eles ficarão sossegados — aconselhei.

Ela riu, mas insisti que era sério, que usasse o mantra.

Na manhã seguinte, ela estava impressionada:

— Yuri! Deu certo! Eles latiram de madrugada, eu comecei com o “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá” e eles pararam. Onde você aprendeu isso? É algum tipo de mantra especial para cães?

— Não, Carol. É que no primeiro canil só há duas cadelas: a Lili e a Lalá.

Saudades das conversas engraçadas, Carol.

Homem também tem pêlo

Bete Coelho e Daniela Thomas

Em Junho de 1999, quando eu já morava na Casa do Sol havia quase nove meses, a atriz e diretora Bete Coelho e a figurinista e cenógrafa Daniela Thomas foram visitar Hilda Hilst. Ambas participavam do projeto de adaptação para teatro do livro O Caderno Rosa de Lori Lamby, cuja protagonista seria vivida por Iara Jamra. A peça, à qual assisti semanas mais tarde no Teatro N.Ex.T, no centro de São Paulo, ficou excelente, unindo na proporção ideal o humor e o horror deste que é o primeiro volume da Trilogia Erótica hilstiana. O sucesso ulterior da montagem, contudo, não impediu Hilda de indagar pela milésima vez:

— Por que ninguém se interessa em montar minhas peças? Por que só querem adaptar meus livros?

— Ai, Hilda! — suspirava ao telefone o amigo Mora Fuentes. — Quando você disser isso às moças, porque eu sei que você vai dizer, sua teimosa, não faça a reclamona, né. Você não está contente com o interesse delas pela Lori Lamby?

— Claro que sim, Zé. Elas são ótimas. Mas não é isso…

— Hilda — eu então dizia — quando suas peças forem publicadas, os diretores vão começar a montá-las. Muita gente nem sabe que você também é dramaturga.

— Faz trinta anos que as escrevi! Trinta anos!! — repetia, arregalando os olhos.

E foi mais ou menos nesse clima que, num dia frio e ensolarado, recebemos as visitas. Em ocasiões assim, Hilda fazia questão da minha presença, entre outras coisas, para ser sua memória recente auxiliar.

— Yuri, quem é mesmo o autor dessa biografia do James Joyce que estou lendo?

— Richard Ellmann, Hilda.

— É verdade. Só me vinha à cabeça Richard Francis Burton. Mas é óbvio que se tratava de outro Richard.

Ela vivia citando autores e livros e, como eu vinha organizando sua biblioteca, cabia a mim correr atrás dos mesmos, pois ela sempre queria ler um trecho ou outro para seu interlocutor. Vale lembrar também que, como toda figura pública, Hilda Hilst se transformava nesses contatos com leitores e fãs. No dia a dia, eu até me esquecia de que ela estava prestes a completar setenta anos de idade: conversávamos como se ambos tivéssemos dezesseis. Claro, não foi assim desde nosso primeiro contato. Nossa amizade foi evoluindo. Mas essa diferença entre o antes e o depois saltava aos meus olhos quando, em minha presença, outras pessoas a encontravam pela primeira vez: de repente, minha “amiga adolescente que se interessava pelas mesmas coisas que eu”, e que só vestia a carapuça de mestra quando eu dizia uma grande besteira, se transformava em quem realmente era: um colosso literário. Ninguém que a tenha conhecido em sua casa jamais esquecerá de sua presença marcante, de sua sinceridade sem papas na língua e de sua modéstia aristocrática. Quando as visitas iam embora, ela me perguntava:

— Como me saí? — e então sorria. Tinha plena consciência do teatro do mundo e de seu papel nele.

Recebemos o anúncio da portaria do condomínio e nos preparamos para recepcionar Bete Coelho e Daniela Thomas. Hilda decidiu recebê-las à mesa de jantar, diante da lareira, já que o escritório estava inusualmente frio. Chico, o caseiro, abriu o portão e o carro veio estacionar diante do alpendre. Os cães, obviamente, fizeram o escarcéu de sempre, rodeando o carro e aguardando as visitantes com todos os volumes e tons de latido. Eram cerca de quinze cães.

— Olá, tudo bem? — eu disse, recebendo Daniela à porta e lhe estendendo a mão.

— Oi — respondeu, ligeiramente ansiosa, aceitando o cumprimento e me encarando por trás das grossas armações dos óculos. Uns dez cães a rodeavam, os pequenos latiam estridentemente.

— A Bete não vai entrar? — perguntei.

— Ela não quer sair do carro! Morre de medo de cachorros.

Ih, lascou-se!, pensei com meus botões. Hilda jamais sairia de casa para conversar com alguém pela janela de um automóvel. Ela simplesmente não confiava em quem não se dava com animais. Meu lado diplomático começou a se preocupar: e se isso fizesse Hilda não dar sua benção à peça? Não, ela não cancelaria sua autorização, mas aquela situação poderia azedar o trabalho de alguma forma. Talvez até aproveitasse o episódio como desculpa para não ir assistir à montagem. Embora estivesse mantendo um bom diálogo com Iara Jamra, por quem sentia grande simpatia, antipatizar com a diretora, por causa dos cães, não resultaria em nada de bom.

Entramos e Daniela cumprimentou Hilda com efusão. Após os salamaleques, indiquei a cadeira para que se sentasse.

— Cadê a Bete? — perguntou Hilda, que até então exalava pura simpatia. Pronto, pensei, vai começar.

— Ela não quer sair do carro — respondeu Daniela. — Está com medo dos cachorros. Não imaginava que se agitariam tanto.

O semblante de Hilda anuviou-se:

— Ué. Pensei que ela quisesse muito conversar comigo.

— E quer. Mas…

— Eles só ficam agitados no início, Daniela — atalhei. — Olha só como eles já se acalmaram. Bastou você se sentar.

— Eu vou lá falar com ela — respondeu, levantando-se e pressentindo nuvens de tempestade.

Daniela saiu e Hilda me encarou, uma expressão desgostosa nos lábios.

— Era só o que faltava — resmungou.

Infelizmente os cães acompanharam Daniela e retomaram a balbúrdia, o que, claro, só iria contradizer seus argumentos. Bete Coelho certamente não estaria disposta a ser um coelho numa caçada inglesa. Hilda, concentrada e já visivelmente irritada, fumava seu Chanceller. Aguardamos em silêncio. Ao cabo de dois ou três minutos, Daniela retornou: sozinha!

— Desculpa, Hilda — começou, embaraçada. — Não adianta. Ela está mesmo com medo.

Como Hilda nada respondesse, e pelo andar da carruagem talvez já não dissesse mais nada, decidi ir testar meus próprios argumentos.

— Eu falo com ela.

Fui até o carro e dei umas duas batidinhas no vidro. Bete Coelho abriu a janela. Os cabelos curtos e muito negros deixavam sua pele ainda mais pálida.

— Oi, Bete. Meu nome é Yuri. Sou secretário da Hilda.

— Oi, Yuri. Ela está muito chateada comigo?

— Um pouco. Mas você não precisa ficar com medo dos cachorros. Eles latem muito apenas quando vêem a pessoa pela primeira vez. Depois se acostumam e ficam quietos. Nunca morderam ninguém.

— Eu sei. Eu entendo que seja assim. Mas é involuntário! Juro! Estou em conflito aqui. Quero sair, mas não consigo.

Seu olhar comprovava sua angústia. Ela chegara à Casa do Sol e não veria Hilda Hilst? Como era possível?

— Olha — propus — você pode vir comigo. Vem segurando no meu braço. Você vai confirmar que cão que late não morde.

— Obrigada, Yuri — retrucou, desconsolada. — Mas não vai dar. É um problema que tenho. Estou até tratando essa fobia com meu psicanalista.

Nesse momento, trinta milhões de neurônios modificaram suas sinapses em meu cérebro e uma lâmpada, que só eu vi, acendeu sobre minha cabeça. Justamente naquele mês, eu e Hilda estávamos lendo e discutindo o livro “A Negação da Morte”, de Ernest Becker. Nele, através principalmente de Otto Rank e Kierkegaard, Becker busca provar que só há uma maneira de escapar à neurose causada pela verdade de que todos morreremos um dia: voltar à transferência original. Na psicanálise, grosso modo, transferência seria o processo pelo qual confiamos nossa segurança psíquica a algo que nos ultrapassa, que nos transcende, a algo que esteja fora e acima de nós mesmos. Quando o bebê está mamando, sua mãe é a fonte e a mantenedora de toda a sua saúde mental. Ele transfere suas necessidades mais profundas para ela. Ali, em seus braços, não há neurose, não há medo, não há ameaças de destruição. Conforme a criança vai crescendo e se tornando um adulto, sua transferência vai sendo dirigida para outras pessoas ou coisas: para o pai, para um namorado, para um trabalho, para uma crença, para uma ideologia e assim por diante. Quanto mais incerto, mortal ou volúvel for o alvo de sua transferência, mais neurótica se tornará a pessoa e, por isso, de mais mentiras existenciais necessitará para não mergulhar na loucura de se ver apenas como um animal que em breve irá morrer. E não há ninguém que viva sem estar preso a esse processo, por mais inconsciente que seja, por mais que seja oculto o alvo de sua transferência. Daí o estado de verdadeiro “escândalo”, no sentido bíblico, isto é, de abalo da fé, quando tal alvo se desfaz no ar ou cai em desgraça. Nada explica melhor um crime passional, quando o marido, traído pela esposa, mata-a e em seguida dá um tiro na cabeça. Nada explica melhor o suicídio de nazistas que, de repente, descobrem que o Führer está morto. Becker, portanto, desenvolve seu pensamento até nos mostrar que a única transferência perene, indestrutível e legítima é aquela que tem Deus por alvo. Seria essa a transferência original. Enfim, eu olhava para Bete Coelho e me vinham à cabeça todas essas coisas. Mas é claro que eu não iria lhe dizer: “Tenha fé em Deus, Bete, e nada vai lhe acontecer”. Não. Vestida com roupas escuras e pálida como uma freqüentadora do Hell’s Club, que eu também freqüentei — sempre curti música eletrônica —, essa não parecia de modo algum a abordagem correta. O fato é que eu também sabia que, numa psicanálise, a terapia torna-se muito mais efetiva quando, entre paciente e psicanalista, ocorre a transferência, quando o psicanalista se torna a salvaguarda do equilíbrio psíquico do paciente. Portanto, eu me inclinei em sua direção, sorri e lhe disse:

— Bete, tenho certeza de que, se você conseguisse enfrentar essa fobia agora e, apesar de todos esses cachorros, fosse até a sala conversar com a Hilda, seu psicanalista ficaria muito orgulhoso de você… — e, tendo dito isso, dei-lhe as costas e voltei à sala.

— Cadê ela, Yuri? — perguntou Hilda.

— Já está vindo.

— Sério?

— Sério.

E, de fato, em menos de dois minutos, Bete Coelho surgiu à porta por si só, os olhos vidrados, direcionados para frente, evitando olhar para baixo. Os cães, que haviam me acompanhado, cercaram-na latindo muitíssimo, mas ela, rígida, corajosa, permaneceu como uma estátua, os braços colados ao corpo. Com passos curtos e cuidadosos, mais parecia se deslocar sobre rodinhas do que caminhar. Dirigiu-se então até Hilda, que se levantou e a abraçou.

— É um prazer, Hilda. Me desculpa.

— Não entendi esse pânico todo — repreendeu-a Hilda, num tom bem humorado. — Você por acaso também tem medo de homem? Homem também tem pêlo. Sabia?

Todos riram dessa observação e Bete Coelho se sentou na cadeira que lhe indiquei. As conversas prosseguiram de forma amena e, graças à bravura da atriz-diretora, que confirmou Sócrates, segundo o qual corajoso não é quem não sente medo, mas, sim, quem o sente e o enfrenta, semanas mais tarde a própria Hilda foi assistir à montagem de O caderno Rosa de Lori Lamby. Porque, sinceramente, caso a autora tivesse antipatizado com Bete, teria sido muito difícil para Mora Fuentes arrastá-la da Casa do Sol até o teatro. (Ah, vale lembrar que, além de pêlos, alguns homens também têm boas idéias.)

A rave do Safatle

Doze anos atrás eu quase conheci pessoalmente o Vladimir Safatle. Foi numa chácara da Serra da Cantareira, em São Paulo. Ao menos me disseram que era ele: “Vladimir, o goiano que é professor de filosofia na USP, tá aí”. Mas, enquanto eu, sentadinho em posição de lótus, curtia tranqüilamente a minha ayahuasca, o cara, juntamente com um amigo, fugia da chácara doidão, assustado porque lhe haviam dito que aquela “balada” seria uma rave, mas, segundo ele então passou a acreditar, na verdade não passava do estranho culto de uma “seita” qualquer. Seita? Nem notei. Enfim… Até hoje fico tentando imaginar como teria sido a badtrip desse cara, com a cachola esquerdista pra lá de psicodélica, circulando pelos labirintos da capital paulista… Credo. Foi certamente algo à la Thomas Pynchon, cujos personagens paranóicos são “perseguidos”, não apenas por seitas, mas também por mega-corporações, pela CIA, pela NSA, o FBI, os Illuminati e assim por diante.

Ah, a minha doce e perigosa fase de maluquices…

Outro “causo” do Bruno Tolentino

tolentino

Às vezes me vêm à lembrança algumas conversas marcantes que tive com o poeta Bruno Tolentino. Ele tinha o costume de pilheriar no tom mais sério e, caso o interlocutor não percebesse o humor clandestino, seguia em frente, como se nada tivesse acontecido. Sempre com a ironia mais fina, inglesa. E era assim com qualquer um, uma espécie de teste instantâneo de QI para conversações: se a pessoa risse, ele aprofundava a conversa; se não risse, ele ficava no raso. Contudo, quando tinha maior confiança no interlocutor, quando já havia amizade, Bruno levava seu ferrão escorpiano direto ao alvo. E eu, escorpiano mirim, dava gargalhadas com suas tiradas. Sim, em geral porque revelavam a mim mesmo meus próprios pensamentos não verbalizados — como quando, certa feita, na Casa do Sol, conversamos sobre um escritor que conhecíamos pessoalmente, o qual o havia presenteado com seu livro de contos.
— E então, Bruno? — indaguei, curioso. — Você gostou do livro? Ele escreve bem?
— Você já viu a cara da mulher dele? — replicou de pronto, causando-me um sorriso prévio de quem tenta adivinhar o que vem em seguida.
— Claro que já. Por quê?
— O ar de bruxa doida… Os olhos vazios… Sempre descabelada… Aqueles gritinhos à guisa de risos… O jeito de se sentar com as pernas abertas, o tronco encurvado… Reparou?
Eu ria: — Aham.
— E você já conversou com ela, Yuri?
— Já. Por quê?
— É uma tortura! Uma mesmice sem fim, um monte de chavões e besteiras. A mulher é a frivolidade em pessoa. Os olhos dela só brilham quando alguém fala em dinheiro.
— A Hilda me disse a mesma coisa — e ri novamente.
— Pois é — e calou-se. Ficou lá, concentrado, retirando os livros duma caixa de papelão. Eu ainda aguardava a resposta à minha pergunta inicial e… e nada. Ele havia se esquecido dela.
— Bruno — observei, ao fim de um longo minuto — você acabou não me dizendo se ele escreve bem ou não.
Ele então me encarou e sorriu escorpianamente:
— E você acha, Yuri, que alguém que escolhe se casar com uma mulher dessas saberia escolher as palavras certas para formar sequer uma boa frase?
(Estou rindo de novo.)

No Paiz dos Yankees

Adolfo Caminha

Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel…, o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um bock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.

―Leva-me para o Brazil, Manoel… (ella só o tratava por Manoel).

―Sim, filha, depois havemos de ver isso…

―I love you very much…

―Oh! yess… I think so…

Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n’um quarto d’hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.

Um bello dia:

Elle―Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanhã.?.

Ella (surprehendida)―What do you say?!

Elle (trincando um rabanete)―É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.

Ella (cruzando o talher)―Impossivel! Por que já não me disseste?

―Para te poupar o desgosto…

―Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã…

―Assim é preciso. São cousas da vida…

―Não, não, meu amor (my love) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?

E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima…

Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.

Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.

Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.

Almirante Barroso, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena… Ultimos preparos.

No cáes agita-se uma multidão compacta.

De repente surge á tona d’agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d’outro, e acena para terra ao som de―vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador…

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, The Warriaro, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do Barroso, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n’uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.

As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.

E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:

Good bye!

Good bye! repete a mesma voz avelludada como um carinho…

Olhámos uns para os outros commovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?

A voz era de mulher, não restava duvida…

Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel…, a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o Barroso desappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:

Good bye, Manoel! Good bye!

E dizer que a Dama das Camelias é uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!…

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n’uma saudade profunda, n’um longo adormecimento d’alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.

[…]

No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o paiz dos yankees, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o coração de alegria.

Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n’um cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.

Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da morte não os preoccupa: um yankee triste é cousa rara e toma proporções de phenomeno.

Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua patria mais do que qualquer outro povo.

A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.

Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.

Emquanto as nações da Europa degladiam-se n’uma lucta continua, perdendo na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, n’um dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.

Go ahead! never mind; help yourself!―eis a maxima de todo yankee. Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no proprio valor.

ceará―1890.
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Trechos de No Paiz dos Yankees, de Adolpho Caminha.

O chilique do cabeleireiro diante da modelo (uma crônica)

(Creio que já contei esta história, mas vou contá-la de novo porque eu a acho muito interessante.)

No início dos anos 90, em São Paulo, no agora extinto Estúdio Abril — então o maior estúdio fotográfico da América Latina, comandado à mão de ferro por Pedro Martinelli —, um fotógrafo aguardava a modelo para realizar uma sessão de fotos para o editorial de uma das revistas da empresa. A garota, uma adolescente que ainda não conhecia muito bem os ossos do ofício, permanecia sentada no camarim, muda, de olhos arregalados, enquanto tentava entender os chiliques daquele cabeleireiro que não queria preparar seu penteado.

— Não faço — dizia ele, à meia voz. — Não faço de jeito nenhum! Nem a custo de reza.

— Meu, pára com isso! Pelo amor de Deus, o job tá atrasado — suplicava a estressada produtora.

O maquiador, sentado a um canto, aguardava sua vez de entrar em ação. Não podia começar seu trabalho antes que o cabelo estivesse pronto. Também estava impaciente, mas, tendo ouvido exclusiva e previamente os motivos do cabeleireiro, preferiu não interferir na questão. A verdade é que ele estava mais curioso para ver a reação da produtora e do fotógrafo ao fato do que desejoso de botar mãos à obra.

Um vulto surgiu à porta.

— Ela já tá pronta? — perguntou com afobação o assistente do fotógrafo.

Aquela afobação, é claro, era reflexo da pressão do chefe.

— Não — tornou a produtora, pálida. — Ele não quer fazer o cabelo dela.

— Como assim, meu?! Que viagem é essa?

A modelo, constrangida, ainda não entendia o que estava acontecendo. Na verdade, não acreditava que tivesse realmente algo a ver com a situação. Ela, ao contrário do maquiador — e devemos ao cabeleireiro ao menos essa gentileza —, vinha sendo poupada das razões daquele atraso. Percebendo isso, e diante daquela estranha atitude do cabeleireiro, a produtora achou melhor levar a discussão para fora do camarim, deixando a menina sozinha lá dentro. O assistente, o cabeleireiro e o maquiador a seguiram.

Ela baixou a voz:

— Vai, meu, fala. O que é que tá rolando?

— Não sei o que dá na cabeça dessas agências. Ficam trazendo essas meninas do interior, lá do fim do mundo, aqui pra São Paulo. Aí metem a gente numa coisa dessas.

— Mas que coisa? Fala logo, porra!

— Piolho! Ela tá cheia de piolhos! Não mexo nesse cabelo de jeito nenhum! — E acrescentou num esgar: — Ai, que nojo!!!

O assistente e a produtora arregalaram os olhos e não souberam o que dizer. O maquiador olhou para o lado e sorriu discretamente, gordo de satisfação. Os dois primeiros trocaram um olhar significativo. Essa era uma questão a ser resolvida com o fotógrafo, o qual, sem parar de olhar o relógio, retorcendo os lábios, continuava à espera da modelo. Foram até ele e a produtora soltou a bomba.

— Ela está com piolho.

— E daí? — retrucou o fotógrafo, lacônico, sem mover um músculo sequer.

A produtora alargou um sorriso cheio de surpresa, quase indignado.

— Como “e daí”? E daí que o cabeleireiro não vai preparar o cabelo dela.

— Então arranja outro.

— Com a garota cheia de piolhos?

O fotógrafo voltou a sentar-se com uma cara de cowboy que sabe das coisas e que já viu de tudo no deserto dos bastidores da fotografia de moda. Com ar absorto, acendeu um cigarro e, por instantes, admirou a fumaça. De repente, olhou para cima, na direção da produtora.

— Você ainda está aí? Arranja outro cara. Rápido!

— Mas qual cabeleireiro vai…

— Meu! Não interessa! — cortou-a o fotógrafo, sem se levantar. — A menina é linda, o sorriso dela é lindo, o corpo dela é maravilhoso, ela se sente livre, leve e solta na frente da câmera. Ela vai ficar mesmo que esteja contaminada com radiação.

— Mas nosso tempo…

— Não tem “mas”! — interrompeu-a, com energia. — Você já viu algum trabalho dela? Viu pelo menos o composite? — e ele então abriu os braços, sorrindo: — Meu, ela nasceu pra isso! Se esse cara aí não nasceu para engolir os sapos da função dele, eu é que não vou engoli-los por ele. Ele não sabe que o nome do sapo dele é piolho? Aliás, você viu se é verdade?

— Eu…

— E mesmo que seja, a menina não tem culpa, caramba! Você acha que ela é que teria ido atrás dos bichos? Claro que não! Você nunca teve piolhos por acaso? Eu já tive, todo mundo já teve. É como a piada da mulher que peida no ônibus, fica envergonhada e um bêbado diz: “Não se preocupe, minha senhora! Eu peido, tu peidas, ele peida, nós peidamos, vós peidais, eles peidam!” Entende? E daí? Sem falar que, assim como o pessoal da revista, eu também acho que essa garota tem tudo a ver com o editorial. Esse cara aí tá é precisando entender qual o lugar dele. Piolho? Piolho não aparece na foto! Porra, cada piolho que eu tenho de aturar… Por que ele não pode aturar os dele?

E a produtora, com um ar de “não está mais aqui quem falou”, foi até o cabeleireiro para dispensá-lo do job. O assistente a seguiu porque, agora, ele é que estava curioso para ver a reação do sujeito.

— O quê? Dispensado?! Ce tá brincando, né?

— É sério. Ou isso, ou você faz o cabelo dela.

— Não faço porra nenhuma! — disse ele, enfurecido, tencionando ir buscar a maleta no camarim. — Me tiram de casa logo hoje, nesse dia horroroso de frio, para trabalhar com uma piolhenta! Que uó!

O assistente assistia à cena contendo a custo um sorriso de puro regozijo. Já conhecia a “peça” que, a essa altura, recolhia suas coisas. A produtora, com o telefone à mão, pedia pelo ramal outro cabeleireiro.

Voltando do camarim, já com a maleta, o sujeito prosseguiu com sua ladainha venenosa:

— Uma menina bobinha, do interior, que não vai dar em nada. Ela não tem força! Estou há anos na função, eu sei do que estou falando. — E então, enquanto saía pelo corredor, ainda encontrou o momento certo para voltar-se e profetizar em tom dramático: — Ninguém vai se lembrar dela! — E partiu.

— Tem alguma coisa errada? — perguntou a modelo, assomando à porta do camarim com seu sorriso belo e inocente.

— Não — tornou o assistente, encarando-a, hipnotizado. — É que o cabeleireiro está doente. Vamos trazer outro já já.

— Ah, tá certo — disse ela, com simpatia e despreocupação. E, dando-lhe as costas, voltou ao camarim.

Até hoje nenhuma das pessoas que conheço sabe me dizer qual era o nome do cabeleireiro. Já Gisele Bündchen… ah, quem não a conhece?

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