9:38 amC. S. Lewis: Do ateísmo ao teísmo (documentário)

« Todos os livros estavam começando a se voltar contra mim. Na verdade, devo ter sido tão cego como um morcego por não ter visto, muito antes, a absurda contradição entre minha teoria de vida e minha verdadeira experiência enquanto leitor. Os mais religiosos eram claramente aqueles em que eu realmente podia me alimentar.»

8:45 amC. S. Lewis e o divórcio entre o Céu e o Inferno

C.S. Lewis

« O Sr. William Blake escreveu o livro O Matrimônio do Céu e do Inferno. Se escrevi sobre o abismo entre os dois, isto não é porque me julgo um antagonista à altura de tão grande gênio, nem mesmo porque esteja absolutamente certo de ter entendido o que ele pretendia; mas, num sentido ou outro a tentativa de realizar essa união é perene. Essa tentativa tem como base a crença de que a realidade jamais se apresenta a nós num sentido absoluto, havendo sempre uma opção inevitável a ser feita; mas que, com habilidade e paciência e (acima de tudo) tempo suficiente, algum meio de abranger ambas as alternativa pode ser sempre encontrado. Que o simples desenvolvimento, ajuste ou refinamento, irá de alguma forma transformar o mal em bem, sem que sejamos chamados para uma rejeição final e total de qualquer coisa que desejemos reter.

« Acredito que esta crença represente um erro desastroso. Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas. Em uma dessas viagens até mesmo a sua mão direita ou o seu olho direito podem estar entre as coisas que precisará deixar para trás. Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. Mesmo no nível biológico, a vida não é como um rio mas como uma árvore. Ela não se move na direção da unidade, mas se distancia dela e as criaturas se afastam cada vez mais das outras, à medida que se aperfeiçoam. O bem, quando amadurece, se mostra cada vez mais diferente, não só do mal, mas de qualquer outro bem.

« Não julgo que todos os que escolhem as estradas erradas perecem; mas o seu resgate consiste em serem colocados de volta na estrada certa. Uma soma errada pode ser corrigida, mas somente fazendo um retrospecto até achar o erro e continuando a partir desse ponto, e não apenas “avançando”. O mal pode ser desfeito, mas não pode “transformar-se” em bem. O tempo não pode curá-lo. O encanto precisa ser quebrado, pouco a pouco, “com murmúrios de trás para diante, a fim de obter a separação” — caso contrário não dá resultado. Continua prevalecendo a necessidade de alternativa. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a terra) não veremos o Céu. Acredito que qualquer homem que chegue ao Céu descobrirá que aquilo que abandonou (mesmo arrancando o seu olho direito) não ficou perdido: que o âmago daquilo que estava realmente buscando, mesmo em seus mais depravados desejos, continua ali, além de qualquer expectativa, esperando por ele nos “Países Altos”. Nesse sentido, os que tiverem completado a jornada (e somente estes) poderão verdadeiramente dizer que o bem é tudo e que o Céu está em toda parte. Mas nós, deste lado da estrada, não devemos tentar antecipar essa visão retrospectiva. Se fizermos isso, é provável que adotemos o falso e desastroso conceito de que tudo é bom e qualquer lugar é o Céu.

« E a terra? você pode perguntar. A terra, penso eu, não irá ser considerada por ninguém, no final, como sendo um lugar muito definido. Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.

« Só quero dizer mais uma ou duas coisas sobre este livro. Primeiro, devo reconhecer minha dívida de gratidão a um escritor cujo nome esqueci. Li um artigo seu numa revista americana chamada Scientifiction (Ficção Científica). A qualidade do meu material celeste, que não se curva nem quebra, foi-me sugerida por ele, embora tivesse feito uso da fantasia para um propósito diferente e muito engenhoso. O seu herói viajou para o passado: e ali, muito adequadamente, encontrou pingos de chuva que o feriam como balas e sanduíches que não se podiam comer — porque, naturalmente, nada no passado pode ser alterado. Com menos originalidade, mas (espero) com igual propriedade, transferi esta idéia para a eternidade. Se o autor dessa história porventura ler estas linhas peço que aceite minha gratidão. A segunda coisa é esta. Peço aos leitores que se lembrem tratar-se de uma fantasia. Ela tem naturalmente, ou foi essa a minha intenção, uma moral. Mas as condições além da morte não passam de uma suposição imaginaria: não são sequer um palpite ou uma especulação quanto ao que pode realmente aguardar-nos. A última coisa que desejo seria despertar curiosidade fatual quanto aos detalhes da vida após-morte.»

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O Grande Abismo (prefácio), de C.S. Lewis.

Este foi o livro que o poeta Bruno Tolentino me indicou após conversarmos longamente sobre Swedenborg, O Livro de Urântia, vida após a morte, projeções astrais, Salvação e quejandos. O título em inglês soa ainda mais antagônico ao livro de William Blake: “The Great Divorce”.

10:53 amDa “Filosofia Perene”: Aldous Huxley fala sobre fé

Aldous Huxley

« A palavra "fé" tem vários significados, que é impor­tante distinguir. Em certos casos é usada como sinônimo de "confiança", como quando dizemos que temos fé na habilidade diagnóstica do Dr. X ou na integridade do advogado Y. Análoga a esta é nossa "fé" na autoridade, a crença na probabilidade de que seja certo o que dizem certas pessoas sobre certas coisas, por causa de suas especiais condições. Outras vezes a "fé" significa crença em proposições que não tivemos ocasião de verificar por conta própria, mas que sabemos que poderíamos verificar, se tivéssemos o desejo e a oportunidade de fazê-lo, junto com a capacidade necessária para isso. Neste sentido da palavra, temos "fé", embora nunca estivemos na Austrália, na existência de uma criatura tal como o platypus; temos "fé" na teoria atômica, embora nunca fizemos os experi­mentos em que tal teoria se fundamenta e sejamos incapazes de compreender os cálculos matemáticos que a apóiam. E existe a "fé", que é uma crença em proposições que sabemos que não poderíamos verificar embora o quisésse­mos, tais como as do Credo de Atanasio ou as que constituem a doutrina da Imaculada Concepção. Esta classe de fé é definida pelos escolásticos como um ato do intelecto movido a assentir pela vontade.

« A fé nos três primeiros sentidos desempenha um papel muito importante, não só nas atividades da vida cotidiana, mas também até nas da ciência pura e aplicada. Credo ut intelligam — e também, deveríamos acrescentar, ut agam e ut uiuam. A fé é condição prévia de todo conhecimento sistemático, de todo obrar intencionado e de todo viver decente. As sociedades se mantêm, não principalmente pelo medo dos mais ao poder coativo dos menos, mas sim por uma difundida fé na decência de outros. Tal fé tende a criar seu próprio objeto, enquanto que uma difundida desconfiança mútua, devida, por exemplo, à guerra ou às dissensões domésticas, cria o objeto da desconfiança. Passando agora da esfera moral a intelectual, achamos a fé na raiz de todo pensamento organizado. A ciência e a tecnologia não poderiam existir se não tivéssemos fé na fidelidade do universo — se não acreditássemos implicitamente (para dizê-lo com as palavras de Clark Maxwell) que o livro da Natureza é realmente um livro e não uma revista, uma coerente obra de arte e não um tapete de retalhos. A esta fé geral na racionalidade e integridade do mundo, o buscador da verdade deve adicionar duas classes de fé especiais: fé na autoridade dos peritos qualificados, suficiente para lhe permitir aceitar sua palavra sobre afirmações que não comprovou pessoalmente; e fé em suas próprias hipóteses, suficiente para induzi-lo a comprovar suas crenças provisórias mediante a ação apropria­da. Esta ação pode confirmar a crença que o inspi­rou. Por outra parte, pode provar que a hipótese original estava mal fundada, e neste caso terá que ser modifica­da até que, conforme os fatos, e assim passe do reino da fé ao do conhecimento.

« A quarta classe de fé é o que usualmente se chama "fé religiosa". A qualificação é justa, não porque as outras classes de fé não sejam fundamentais em religião como o são nos assuntos seculares, mas sim porque este volitivo assentimento à proposições que se sabe que não são verificáveis ocorre em religião, e só em religião, como uma adição característica à fé como confiança, a fé na autoridade e a fé em proposições não verificadas, mas verificáveis. Esta é a classe de fé que, segundo os teólogos cristãos, justifica e salva. Em sua forma extrema e mais intransigente, tal doutrina pode ser muito perigosa. Eis aqui, por exemplo, uma passagem de uma das cartas de Lutero. Este peccator, etpecca fortiter; sedfortius crede et gaude in Christo, qui victor est peccati, mortis et mundi. Peccandum est quam diu sic sumus; vito haec non est habitatio justitiae. ("Sou pecador e peco fortemente; mas, mais fortemente, creio e alegro-me em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. Enquanto formos como somos, temos que ter pecados; esta vida não é a morada da retidão.") Ao perigo de que a fé na doutrina da justificação pela fé possa servir de desculpa ao pecado, e até de convite a pecar, deve acrescentar-se outro perigo, ou seja, o de que a fé que se supõe salvadora possa ser uma fé em proposições não meramente não comprovadas, mas sim repugnem à razão e ao sentido moral e estejam em completo desacordo com os resultados obtidos pelos quais cumpriram as condições de penetração espiritual na Natureza das Coisas. "Eis aqui o topo da fé — diz Lutero em De Servo Arbítrio —: acreditar que Deus, salva a tão poucos e condena a tantos, é misericordioso; é justo Quem, a seu prazer, fez-nos necessariamente destinados à condenação, de modo que parece deleitar-se na tortura dos miseráveis e ser mais merecedor de ódio que de amor. Se, por um esforço da razão, pudesse conceber como Deus, que mostra tanta ira e dureza, pode ser misericordioso e justo, não haveria necessidade de fé." A revelação (que, quando é genuína, é simplesmente o relato da experiência imediata dos que são bastante puros de coração e bastante pobres de espírito para poder ver Deus) não diz nada de todas estas doutrinas horríveis, às quais a vontade força o intelecto, que sente por isso uma relutância bastante natural e justa a dar assenti­mento. Tais noções não são produto da penetração dos santos, mas sim da atarefada fantasia de juristas, que estavam tão longe de transcenderem o eu e os prejuízos da educação, que tinham a louca presunção de interpretar o universo em termos da lei judia e Roma­na, com a que estavam familiarizados. "Ai de vós, os juristas!", disse Cristo. A acusação era profética e válida para todos os tempos.

« A medula e o coração espiritual de todas as religiões superiores é a Filosofia Perene; e se pode assentir às proposições da Filosofia Perene e obrar de acordo com elas sem ter que ir à classe de fé sobre a qual escrevia Lutero nas passagens precedentes. Deve, é óbvio, haver fé em sua condição de confiança — pois a confiança no próximo é o princípio da caridade para com os homens, e a confiança, não só na fidelidade material do universo, mas também em sua integridade moral e espiritual, é o princípio da caridade ou amor-conhecimento para com Deus. Deve haver também fé na autoridade — a autoridade daqueles cuja abnegação os pôs em condições de conhe­cer o Fundamento espiritual de todo ser, seja por contato direto ou por ouvi-la. E, finalmente, deve haver fé nas proposições a respeito da Realidade enunciadas por filó­sofos à luz de uma revelação — proposições que o crente sabe que pode comprovar por si mesmo, se estiver disposto a cumprir as condições necessárias. Mas, enquanto a Filosofia Perene seja aceita em sua simplicidade essencial, não há necessidade de volitivo assentimento à proposições das quais de antemão se sabe que não são comprováveis. Aqui é necessário observar que tais proposições podem chegar a ser verificáveis assim que uma intensa fé afete o substrato psíquico e assim crie uma existência cuja derivada objetividade po­de realmente descobrir-se "lá fora". Contudo, recordemos que uma existência que tira sua objetividade da atividade mental dos que acreditam intensamente nela não pode ser o Fundamento espiritual do mundo, e que uma mente atarefada na atividade volun­tária e intelectual que é a "fé religiosa" não pode achar-se no estado de renúncia ao eu e de atenta passividade que é a condição necessária ao conhecimento unitivo do Fundamento. Por isso afirmam os budistas que "a amorosa fé conduz ao céu; mas a obediência ao Dharma conduz ao Nirvana". A fé na existência e poder de qualquer entidade sobrenatural que seja menos que a Realidade espiritual última, e em qualquer forma de adoração que não alcance o abatimento de si mesmo, produzirá sem dúvida, se o objeto da fé é intrinsecamente bom, um melhoramento do caráter, e provavelmente a sobrevivência póstuma de melhorada personalidade em condições "celestiais". Mas esta sobrevivência pessoal dentro do que é ainda a ordem temporária não é a vida eterna da união atemporal com o Espírito. Esta vida eterna "está no conhecimento" da Divindade, não na fé em algo que seja menos que a Divindade.»

A imortalidade obtida pela aquisição de uma condição objetiva (por exemplo, a condição — alcan­çada pelas boas obras inspiradas pelo amor a algo inferior à Divindade suprema e pela crença nesse algo — de unir-se em ato ao adorado) está exposta a terminar; pois nas Escrituras se afirma distintamente que o Carma não é nunca causa de emancipação.

Shankara

« O Carma é a sucessão causal no tempo, da qual somos somente libertados "morrendo para" o eu tem­poral e nos unindo com o eterno, que está além do tempo e causa. Pois “quanto à noção de uma Primeira Causa, ou Causa Sui” (para citar as palavras do Dr. E R. Tennant, eminente teólogo e filósofo), “devemos, por um lado, ter presente que nos refutamos ao tentar estabelecê-la por extensão da aplicação da categoria causal, pois casualidade universalizada implica contradição; e, por outra parte, recordar que o Fundamento último sim­plesmente ‘É’." Só quando também o indivíduo "sim­plesmente é", em virtude de sua união, pelo amor-conhecimento, com o Fundamento, pode haver liberação completa e eterna.»
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A Filosofia Perene, de Aldous Huxley.

8:25 amPaul Johnson fala sobre criatividade e literatura

 Paul Johnson

« …o papel desempenhado pelas atividades. O castelo de cartas de Einstein era mais um exemplo de treinamento de caráter do que uma ajuda real ao pensamento criativo. Mas a maioria dos cientistas e muitos escritores têm sobre a mesa de trabalho apetrechos, bugigangas, jogos, quebra-cabeças, provavelmente por considerá-los úteis para o raciocínio. Não tenho dificuldade de concentração, e começo a escrever logo que sento à minha mesa (no cavalete ou na mesa de desenho), por isso não entendo com facilidade o raciocínio por trás desses apetrechos. Porém, em inúmeros casos, é evidente que a atividade espasmódica ou periódica ajuda o pensamento imaginativo. Assim, o fato de Dickens se levantar da mesa onde escrevia para fazer caretas diante de um espelho grande em seu estúdio não é, de forma alguma, algo incomum entre os escritores. Alguns deles desenvolvem tal resistência a escrever ou a continuar a escrever que é necessário recorrer a meios físicos para forçá-los a se concentrar. Certa ocasião, quando era editor, tive de trancar dois colaboradores em um sala vazia com uma máquina de escrever para que escrevessem ou terminassem um artigo, só permitindo que saíssem depois de concluído o trabalho. Mas muitos escritores não conseguem ter pensamentos criativos em uma sala de trabalho. Todos sabem que Wordsworth costumava compor seus versos enquanto caminhava ao ar livre, em torno do lago em Grasmere ou Rydal Water, ou descendo e subindo uma montanha. Ele memorizava as linhas que imaginava e só as colocava no papel quando voltava para casa. Às vezes, passavam-se vários dias, até semanas, para que ele colocasse no papel as palavras que tinha na cabeça. Não está claro se Wordsworth precisava caminhar para fazer poesia porque via coisas lá fora que poderia transformar em verso ou porque o simples movimento de caminhar estimulava seus pensamentos. Acredito na última opção, pois Wordsworth era, de alguma maneira, um homem distraído. Foi sua irmã Dorothy quem observou os trabalhos da natureza em detalhes surpreendentes e os anotou. Quando ambos estavam em Gowbarrow Bay, em Ullswater, quando os narcisos dançavam ao vento, foi Dorothy quem os observou e anotou em seu diário, transmitindo sua experiência visual ao irmão, que, algumas semanas mais tarde, compôs seu famoso poema. Sem Dorothy, o poema não existiria.

« No entanto, a experiência é a mãe, ou pelo menos uma das mães, da criatividade, e o que chamo de experiência é a combinação de observação e sentimento que leva a um momento criativo. Emily Dickinson não apenas observava as coisas na natureza (como Dorothy Wordsworth fazia); ela também se sentia forte, profunda ou perceptivelmente ligada a elas – e é isso que transforma seus pequenos poemas em algo de grande força e emoção. Os fortes sentimentos de Charlotte Brontë sobre sua vida, combinados a olhos e ouvidos perspicazes, a tornaram capaz de transformar a experiência, na primeira metade de Jane Eyre, em algo tão surpreendente em arte – um ato de criação raro, por sua beleza apaixonante, nos anais da literatura. Os escritores, em especial os romancistas, são extremamente criativos quando registram, embora transformados em ficção, suas experiências profundamente sentidas. Dickens sempre considerou David Copperfield seu melhor livro por esse motivo. Poder-se-ia dizer o mesmo sobre The Mill on the Floss, pois Maggie Tulliver é a jovem Mary Ann Evans, e tudo o que ela viveu e sentiu. Nesse romance maravilhoso, nas histórias de Scenes from Clerical Life, em Adam Bede e, até certo ponto, em Middlemarch, George Eliot escreve sobre coisas e pessoas que conheceu por intermédio da própria experiência direta e de seus sentimentos. Mais tarde, embora mais experiente como escritora, foi menos convincente. Para Daniel Deronda, seu romance sobre o problema judeu, e para Romola, passado na Florença renascentista, ela fez leituras cuidadosas, digeridas pela inteligência. Mas essas histórias não ganham vida do mesmo modo. Para o romancista, os livros não compensam a ausência do conhecimento direto e dos sentimentos. Flaubert escreveu Madame Bovary com emoção, a partir de suas últimas experiências com livros, e a diferença é clara. Bouvard et Pécuchet surgiu de uma biblioteca completa – natimorta. Quando vejo alguma romancista que conheço, sentada atrás de uma pilha de livros na sala de leitura da London Library, e tomando notas sem parar para seu próximo trabalho de ficção, digo com meus botões: “Ai, meu Deus!”

Continua…

8:32 amUm singelo videoclipe: “Fuck Me, Ray Bradbury!”

Algumas señoritas não têm a sorte de conhecer seu escritor predileto antes de ele ficar velhinho. Essa aí curte o Ray Bradbury, que completa este mês 90 anos de idade…

(Esse videoclipe me lembra este post que publiquei em meu antigo blog, O Garganta de Fogo. )

Continua…

8:44 amDo Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Episódio do Inimigo

« Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:

— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse —, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.

Disse-me, então, com voz firme:

— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:

— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.

— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

— Posso fazer uma coisa — respondi.

— Qual?

— Acordar.

E assim o fiz. »

Jorge Luis Borges

 

Teologia

« Como vocês não ignoram, viajei muito. Isso me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o Sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Essa gente crê nos sonhos. “No instante em que dormes”, explicaram-me, “conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno.” Se alguém argumentasse: “Nunca vi partir um homem adormecido; de acordo com minha experiência, permanecem deitados até que os despertem”, responderiam: “O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterrorizantes?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunha de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó”. »

H. Garro, Todo o mundo (1919)

Os dois textos acima são excertos do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges.

9:49 amOsman Lins e o mais profundo meio de comunicação

Osman Lins

« Nenhum meio de comunicação está apto a substituir a literatura. A liberdade de um escritor é a sua pobreza. Ele depende apenas de um lápis. Nem de papel ele necessita. Os muros das prisões estão cheios de palavras, de coisas escritas, de expressões humanas … Está havendo atualmente uma mística das conquistas científicas. Isso não significa que essas conquistas sejam mais avançadas. Elas são apenas mais novas. O fato de serem mais novas não significa que sejam mais avançadas. Nenhuma é tão avançada, enquanto conquista espiritual, como a escrita. Difícil será ultrapassar a capacidade crítica de uma obra literária. É, de todas as comunicações, a mais profunda.»

Osman Lins, citado por Ermelinda Maria Araújo Ferreira, no ensaio Motivos medievais em molduras hipertextuais (PDF).

9:45 amG.K. Chesterton fala sobre insanidade e criação literária

G.K. Chesterton

« É verdade que alguns falam, de modo superficial e leviano, da insanidade como sendo em si mesma atraente. Mas um momento de reflexão mostrará que, se uma enfermidade é atraente, trata-se em regra da enfermidade dos outros. Um cego pode ser um quadro pitoresco; mas exige-se um par de olhos para ver o quadro. De modo semelhante até mesmo a poesia mais louca da insanidade só pode ser apreciada por quem é sensato. Para o insano a insanidade é totalmente prosaica, porque é totalmente verdadeira.

« Um homem que imagina ser uma galinha é para si mesmo tão comum como uma galinha. Um homem que imagina ser um caco de vidro é para si mesmo tão sem graça como um caco de vidro. A homogeneidade de sua mente é o que o torna sem graça, e o que o torna louco. E somente pelo fato de percebermos a ironia de sua idéia que nós o achamos até engraçado; é somente pelo fato de ele não ver a ironia de sua idéia que ele é internado em Hanwell, não por outro motivo.

« Em resumo, as esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. É por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. É por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.

« Comecemos, então, com um manicômio. Dessa estalagem fantástica e perversa vamos partir para a nossa jornada intelectual. Ora, se devemos examinar rapidamente a filosofia da sanidade, a primeira coisa a fazer no caso é apagar um enorme erro comum. Por toda parte existe a noção de que a imaginação, especialmente a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental do homem. Geralmente se diz que os poetas não são confiáveis do ponto de vista psicológico, e geralmente faz-se uma vaga associação entre cingir a cabeça com uma coroa de louros e fazer loucuras. Os fatos e a história contradizem totalmente essa visão. A maioria dos poetas realmente grandes não só foi de gente sensata, mas também extremamente prática. Se Shakespeare um dia dominou cavalos, isso se deu por ser ele o homem mais indicado para fazêlo. A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui, em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação. A paternidade artística é tão sadia quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena observar que, quando um poeta foi realmente mórbido, o fato geralmente se deu porque ele tinha um ponto fraco de racionalidade no cérebro. Poe, por exemplo, foi realmente mórbido; não porque era poético, mas porque era especialmente analítico. Para ele até o jogo de xadrez era poético demais; ele não gostava de xadrez porque era um jogo cheio de peões e castelos, como um poema. Declaradamente, preferia as casas brancas do jogo de damas, por se parecerem mais com os meros pontos pretos num gráfico.

« Talvez o caso mais convincente seja este: apenas um grande poeta inglês enlouqueceu, Cowper. E ele foi definitivamente levado à loucura pela lógica, pela repulsiva e estranha lógica da predestinação. A poesia não foi seu mal, foi seu remédio. A poesia preservou-lhe em parte a saúde. Às vezes ele podia esquecer-se do rubro e sequioso interno, para o qual seu hediondo determinismo o arrastava em meio às águas caudalosas e as grandes e achatadas flores aquáticas do rio Ouse. Ele foi condenado por João Calvino; e quase foi salvo por John Gilpin.

« Em todas as partes vemos que os homens não enlouquecem sonhando. Os críticos são muito mais loucos que os poetas. Homero é completo e bastante calmo; os críticos é que o rasgam em trapos extravagantes. Shakespeare é exatamente Shakespeare; apenas alguns de seus críticos é que descobriram que ele era alguma outra pessoa. E embora João, o evangelista, tenha visto monstros estranhos em sua visão, ele não viu nenhuma criatura tão louca como um de seus comentadores. O fato geral é simples. A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental, como a exaustão física do sr. Holbein.

« Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.»

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Ortodoxia, de G.K. Chesterton (1874-1936)

9:58 amFerreira Gullar fala sobre a nova ortografia

Ferreira Gullar

« Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Coleções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é patrimônio do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambigüidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.»

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Leia a entrevista completa com Ferreira Gullar: "O acordo ortográfico é uma perda de tempo". (E veja também o que ele fala sobre Lula e Dilma.)

Fonte: www.ionline.pt

9:47 amBernardo Soares e aqueles que dominam o Diabo

Fernando Pessoa

« Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os cavoucos do mundo.

« Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações coletivas.

« O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever — já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta —, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver[?] Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado, com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?

« Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.

« Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.»

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Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).