Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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No cu, gaivota!

Nego fica reclamando que Olavo de Carvalho fala muito cu, que fala de cu… ai ai. Que preguiça! (Apud Macunaíma.) (Estou acostumado com esse palavreado porque cresci ouvindo minha avó materna: “cadê o ‘sei-lá-o-quê’? Diacho, deve estar socado no cu do capeta!”; “nossa, olha a tempestade que evem aculá: o capeta deve estar com o cu arreganhado”, etc., etc.) Hilda Hilst era outra: também mandava um monte de gente ir tomar nesse desprezado lugar — entre amigos, unia o indicador ao polegar e, enquanto movia os demais dedos como uma asa, dizia “no cu, gaivota!” — e ainda me sugeriu a leitura do excelente livro de Ernest Becker: A Negação da Morte. Nele, vemos que boa parte desses narizes torcidos diante de nossa faceta mais animalesca não passa de repressão ao “medo da morte”. Eis um techo:

E nesta outra foto, temos Hilda, acompanhada pelo amigo José Luis Mora Fuentes, fazendo seu famigerado gesto de “no cu, gaivota!”:

Terra à vista

No livro Ortodoxia, Chesterton afirma que, incapaz de seguir a religião corrente — no caso inglês, a Igreja Anglicana —, decidiu inventar sua própria heresia. E assim o fez. Por fim, sentiu-se como um náufrago que, chegando a uma ilha supostamente deserta, descobre anos depois que não havia aportado senão às costas de uma ilha tão grande e tão habitada quanto a própria Inglaterra… Isto é: criou sua própria heresia, sentindo-se solitário nela, para finalmente descobrir que sua heresia era apenas a ortodoxia católica: não estava numa ilha deserta.

O curioso é que isso, ao longo da vida, também ocorre com nossos conceitos e com nossa conduta. Frustados com os inúmeros fracassos advindos da observância de algum ditame pequeno-burguês, ou então de algum outro progressista, começamos a buscar valores e significados mais profundos em nós mesmos, no nosso íntimo. Ora, Deus está dentro de cada um de nós! Em algumas pessoas, claro, enterrado beeeeeem lá no fundo, oculto sob uma massa de besteiras ideológicas e de sujeiras convencionais sem fim. E então, ao encontrar tais valores e significados, obviamente graças apenas a Ele, a pessoa acredita ser o único habitante dessa ilha de conduta moral — embora sempre tensa e problemática — de conduta moral quase paradisíaca. Quase paradisíaca ao menos para a própria consciência, o que é mais do que o suficiente, pois os dramas e conflitos desta vida não se extinguem por passe de mágica. (Ora, até Cristo, a consciência pura encarnada, morreu na cruz deste mundo.)

Enfim, o sujeito se acha numa ilha deserta e, de repente, esbarra na própria avó, aquela velha que reza todo santo dia pela família inteira: ela sempre esteve na ilha! Tal como a mãe dela, e a mãe da mãe dela, e o pai da mãe da mãe dela e assim por diante. Salvar-se do naufrágio do mundo é agarrar-se ao eterno madeiro flutuante, que sempre nos espera à margem do espaço, desde antes do início dos tempos — e com ele seguir até o porto seguro da única ilha que realmente importa habitar. Inventar uma ilha, como na origem latina da palavra — “invenção” é descoberta —, é apenas redescobrir o já descoberto. Não há nada de novo sob o sol…

Cu infantil

Já que Olavo de Carvalho andou criticando no Facebook o “ódio ao cu” — ódio tão comum entre aqueles que rejeitam sua própria natureza mortal — vou contar uma história anal da Hilda Hilst. (E é mesmo sobre o cu dela.)

Hilda me contou que, quando tinha uns 24 ou 25 anos, tentou fazer sexo anal com Cassito (Cássio Rodrigues), o mesmo namorado com quem viajara pela primeira vez à Europa. Acontece que a coisa não saiu conforme o esperado e ela se machucou. Confessou então o caso à sua perplexa mãe, Bedecilda, que propôs levá-la ao médico para um exame. Hilda não queria ir, estava morrendo de vergonha de admitir o incidente diante de terceiros — afinal, eram os anos 1950 e coisa e tal —, mas, sob a pressão da mãe, e das dores, foi. Uma vez no consultório, extremamente tensa, aguardou que o médico terminasse as perguntas de praxe — deve haver uma praxe para assuntos relativos ao cu —, para depois orientá-la quanto aos procedimentos. Sua mãe, claro, a acompanhava: uma moça não se submeteria a uma situação dessas sozinha. O médico, pois, um senhor já de idade, muito sério, pediu-lhe que se despisse atrás de um biombo e que depois subisse na maca. Ela o obedeceu e, em seguida, se deitou de bruços. O médico então lhe disse para ficar de quatro e ela, olhando de soslaio para a mãe, novamente se submeteu ao arranjo, mas agora com a vergonha a deixar-lhe o rosto mais roxo do que o roxo do… você sabe. Por fim, o médico a penetrou com o dedo e começou a verificar onde ela estava ferida. Nesse momento, de tão nervosa, ela deu uma primeira risada.

— Hildinha! O que é isso?! — censurou-a a pasmada mãe.

Com a bronca, o riso tornou-se descontrolado e se converteu numa gargalhada interminável.

— Pára, Hildinha! Pára!

Quanto mais a mãe a repreendia, mais nervosa ela ficava e mais risadas dava. O médico, mortalmente constrangido, resolveu encerrar o exame, mas encontrou um problema: conforme ria, Hilda lhe prendia o dedo com seu esfíncter!

— Hilda — começou, em tom grave e oficial —, se você não parar de rir, não vou conseguir tirar o dedo!

A gargalhada, que ela mal começara a controlar, voltou a libertar-se, e intensificou-se a ponto de a fazer perder o fôlego. E sentiu o médico colocar a outra mão em sua nádega para forçar a saída do dedo.

— Hildinha, minha filha! Quer me matar de vergonha?!

E, como quem abre um champanhe, o médico retirou o dedo com um leve estampido.

— E depois, Hilda? O que aconteceu? — perguntei-lhe, entre risadas, quando me narrou o caso.

— Ah, depois eu me vesti e ficamos os três ali, olhando para o chão, um mais sem graça que o outro, sem ninguém se referir ao fato. E, no final, enquanto me prescrevia uma pomada, o médico me disse: “Nunca mais faça sexo anal, Hilda. Você tem o cu infantil. Não convém”.

E essa é a história do cu infantil da Hilda Hilst. :^)

P.S.: Eu já não havia contado essa história?

Hilda e Cassito, em 1955. Esse é o cara que, muito chateado por Hilda ter rompido o namoro com ele, metralhou a portaria do prédio onde ela morava…

Ninguém acredita em mim

— E daí que sou vinte anos mais velho do que você? O Chaplin era trinta e sete anos mais velho do que a Oona, tiveram oito filhos e foram super felizes.

— Mas o Chaplin era o Chaplin e morava numa mansão na Suíça. Você é escritor num país onde ninguém lê e mora debaixo da ponte.

— Não é uma ponte! É um viaduto! E eu já ajeitei tudo por lá. Está limpinho, fiz uma paredinha — pra quem passar de carro na marginal não ver a gente — e até arranjei um colchão de casal no lixão. Já dormi três dias nele e só encontrei uma pulga. Qual o problema?

— Você tá tirando com a minha cara, né? Você realmente acha que eu iria morar debaixo do viaduto com você?

— Mas você disse que me amava! Quem ama confia e se esforça junto, dá apoio, cresce com o outro!

— Crescer debaixo da ponte, digo, do viaduto? Eu tenho cara de pilar agora? Não ponho os pés lá nem morta.

— Mas você já dormiu lá comigo quando nos conhecemos.

— Eu estava bêbada quando nos conhecemos. E achei que você era desses que curtem transar em lugares públicos.

— Mas a gente não foi lá para transar! Era só pra gente ter um pouco de privacidade.

— Pois é, eu percebi. Não estava entendendo nada até você enfiar a mão naquele buraco e tirar uma caixa de som bluetooth. E ainda quis dançar tango comigo no meio da marginal! Você é completamente louco. Privacidade, sei… Vai embora e me deixa em paz.

— Tá bom, tá bom. Mas, dentro de cem anos, quando eu estiver dando uma festa na minha mansão lá no Céu, com Machado de Assis, Graciliano Ramos, Camões, Shakespeare, Cervantes, Hilda Hilst, Henry Miller e companhia ilimitada como convidados, nem tente entrar de penetra.

— Ah, sai daqui, seu doido! Você tá precisando é tomar lítio.

— Beleza. Fica aí com seus pretendentes cheios da grana, chatos e sem imaginação.

— Fico mesmo! Não nasci pra ser mulher de maluco.

Ele sai, tira o celular do bolso e liga para o editor:

— E aí? Como vão as vendas?

— Rapaz, você está arrebentando! Finalmente vai tirar a barriga da miséria.

— Ótimo, mas você acha que eu teria o suficiente para comprar uns presentinhos caros?

— Cara, agora você pode até dar carros zero quilômetro de presente.

— Não, não. Eu quero é mandar fazer uma dúzia de mãos de ouro com o dedo em riste. Preciso presentear uma galera aí.

— Ué. Pode fazer. Vai dar e vai sobrar.

— Beleza. Era só isso. Preciso desligar. Tenho de arrumar minha mudança. Tá na hora de tirar minhas coisas do viaduto.

— Ahahahahaha! Você e esse papo de viaduto. Conta outra, seu maluco!

Ele desliga o telefone e pensa: ué, por que será que ninguém nunca acredita em mim?

Dois romancistas e um filho – por Carlos Heitor Cony

Conforme comentei com Rodrigo Gurgel e Filipe Trielli, na crônica abaixo Carlos Heitor Cony fala do Diário Secreto de Humberto de Campos, no qual o autor narra um encontro com o médico de José de Alencar: segundo esse médico, um dos filhos desse escritor era, na verdade, filho de Machado de Assis. Eis portanto a suposta origem do romance Dom Casmurro: Machado tentando imaginar-se na pele do colega que ele também traiu… Será verdade?

DOIS ROMANCISTAS E UM FILHO
Carlos Heitor Cony

Não me considero culpado de falta para com a memória dos dois mestres literários

JANEIRO DE 2000 – Caiu do céu um pretexto para desistir da Academia. Em agosto passado, quando morreu o Herberto Sales, fui apanhado de surpresa pelos amigos de lá e não tive como reagir.

Recebi hoje amável cartão do Josué Montello encaminhando cópia da carta que ele escreveu ao presidente da Academia, solicitando que seja recolhido o livro que a diretoria anterior mandou distribuir como relatório das atividades acadêmicas em 1999.

Entre outras considerações sobre a publicação, Josué dá destaque ao recorte de uma revista (“Veja”) que comentou, à maneira dela, as duas crônicas que escrevi logo após o júri promovido pela Folha sobre o suposto adultério de Capitu.
Fiz parte do júri que tinha como mérito mostrar a força de Machado de Assis: cem anos após a publicação de seu romance, ele era discutido num auditório lotado, em sessão presidida por um ministro do Supremo Tribunal Federal (Sepúlveda Pertence), com advogados e testemunhas de defesa (Rosiska) e acusação (eu próprio).

Logo após o júri, publiquei duas crônicas sobre o assunto, tendo como base o relato de Humberto de Campos sobre uma visita que ele fizera a seu médico, Afonso Mac Dowell, o qual lhe revelara que Mário de Alencar, filho de José de Alencar, era na verdade filho de Machado de Assis. Donde a conclusão, não minha, mas de Humberto de Campos: o filho de Capitu era a transposição para o romance de um fato real vivido por Machado de Assis.

O “Diário Secreto” foi publicado anos após a sua morte, primeiramente em “O Cruzeiro”. Com tiragem de 700 mil exemplares, era a principal vitrine da vida brasileira. Posteriormente, o mesmo diário foi publicado em livro (possuo a segunda edição, o que mostra que não se trata de obra clandestina).

A revista que comentou minhas duas crônicas considerou-as como “mexerico” (palavra defasada, só possível num texto mal escrito). E transcreveu o trecho do Humberto de Campos, transferindo desta maneira o mexerico para o cronista maranhense. Limitei-me a citá-lo.

Josué foi mencionado na matéria, é atualmente o maior conhecedor da vida de Machado de Assis. Também foi citado o Antônio Olinto, que lembrou o fato de Mário de Alencar tratar Machado como pai em suas cartas -o que nada significa, além da expressão de um carinho especial. Mário ficou devendo sua entrada para a Academia a Machado. Fato que Magalhães Jr., citado também por mim, atribuía ao “nepotismo” do primeiro presidente da ABL.

Como se nota, uma polêmica bizantina, com um toque de mau gosto, só justificada pela realização do júri e pelo interesse que o caso Capitu ainda desperta na literatura nacional.
A diretoria da Academia, no exercício de 1999, ao publicar em livro a repercussão de suas atividades na mídia, incluiu a matéria da revista -e o Josué, zeloso guardião da honra dos grandes ícones das nossas letras, principalmente de Machado e Alencar, considerou um “achincalhe à honra e à dignidade de um dos nossos confrades”.

E falando de Alencar, diz que o romancista “compartiu a sua vida digna com uma alta dama da sociedade fluminense, a Exma. Senhora D. Georgiana Cockrane de Alencar, com quem teve seis filhos” – cito textualmente a carta de Montello.
Este é o fato que me dá pretexto para tirar meu time de campo. No mérito da questão, eu me limitara a lembrar o trecho do “Diário Secreto” de Humberto de Campos. Se houve achincalhe, como diz o Josué, não foi de minha parte.

Não tenho culpa de a revista ter aproveitado o episódio, de interesse restrito à vida literária, para tentar fazer um escândalo às custas de Alencar e Machado. Não me considero culpado de qualquer falta para com a memória dos dois mestres. São personalidades públicas, pertencem à nossa história, como Victor Hugo e Sainte-Beuve pertencem à história da França.

Desditas conjugais são comuns, dentro e fora da literatura, bastando lembrar Júlio César, Napoleão, Luiz 16, d. João 6º. A lista é enorme e realmente universal, parece que começou com Abraão, que apresentava sua mulher, Sara, como sua irmã aos reis do deserto -o que transformou o Pai dos Crentes num verdadeiro patriarca.

Fonte: Folha de São Paulo.

Livro é instrumento

Já comentei isso antes, mas direi novamente: para o escritor, todo livro é um instrumento, não é um ídolo a ser disposto e venerado num altar. Não é uma jóia rara a ser tratada com mais carinho que um bebê recém nascido. Parece estranho? Calma, vou me explicar.

No primeiro mês que morei com Hilda Hilst, ela me passou um livro do Thomas Merton — um no qual, entre outros artigos, ele analisava o romance “O Doutor Jivago”, de Boris Pasternak — e me pediu que o lesse. Dias depois, quando o devolvi, ela o folheou e me deu uma bronca.

— Mas você não leu nada!

Fiquei espantado: — Ué, claro que li!! — E então lhe mostrei minhas anotações, com diversos trechos copiados, os quais ainda guardo comigo. Ela não ficou satisfeita:

— Mas se você não sublinhar e rabiscar o livro, como vou saber quais trechos lhe chamaram a atenção? Vou ter de pegar seu caderninho? Tem de rabiscar!

Fiquei mais espantado ainda: — Mas o livro é seu, Hilda!

— E daí? Não vou levá-los para o túmulo comigo. Aliás, até nos seus livros você marca tudo com uma timidez esquisita. Tá com medo do livro? O livro é seu, não é de nenhuma biblioteca.

E, para me mostrar o quanto ela estava se lixando para os pudores de outros leitores, devolveu meu exemplar d’O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, que ela não apenas havia sublinhado de cabo a rabo, mas até mesmo enchido de anotações nas bordas.

— Olha só — disse —, agora você pode folhear seu livro, voltar aqui e discutir comigo os trechos que marquei que também lhe interessam. E você deve marcar para si mesmo todos os livros que lê. Seu livro é uma ferramenta para você consultar sempre que precisar. Ou você tem memória de elefante para tudo o que lê? Eu não tenho.

— Tá certo.

— Só uma coisa… — tornou ela, em voz baixa, como quem pretende contar um segredo. — Sublinhe, rabisque, inclusive os meus. Mas, se algum dia emprestar seus livros para um idiota, para um atoleimado, não lhe diga nada disso. Diga que seus livros são sagrados e que só você pode rabiscá-los.

Eu ri: — Entendi.

Vivendo, lendo, sublinhando, relendo e aprendendo.

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Publicado no Facebook.

Por que Bruno Tolentino chateava Hilda Hilst

Conforme escrevi n’O Garganta de Fogo em 2003, devido às “fofocas literárias” que eu andava postando, um amigo falecido em 2009, o escritor José Luis Mora Fuentes, me disse ao telefone que eu estava parecendo “a Hebe Camargo da literatura”. Bem, um dos temas de conversação mais apreciados pela Hilda Hilst — mediante a qual conheci Mora Fuentes — era justamente os detalhes bizarros e picantes da vida de autores consagrados já falecidos. Sim, é óbvio que essas informações não levam a nada, são futilidades e de nada ajudam na compreensão das respectivas obras, que muitas vezes permanecem além da compreensão do próprio autor. Contudo, se essas conversas não elevavam nossas almas, ao menos nos faziam dar muitas risadas. E todo esse preâmbulo é apenas para explicar por que, a certa altura da estada de Bruno Tolentino na Casa do Sol — residência de Hilda —, ela começou a se chatear com a presença dele.

Os amigos esquerdistas dela podem jurar de pés juntos que foi por causa da ligação dele com Olavo de Carvalho, ou porque ele, sozinho, já era muito reaça, ou então porque Bruno gostava de discorrer interminavelmente sobre o cânone literário e sobre o verdadeiro significado de cada escritor na história da literatura, coisa que, em seus últimos anos, aborrecia Hilda grandemente. Enfim, eu estava lá e não foi nada disso. O fato é que toda noite Hilda se punha diante da TV para assistir às suas novelas e, ainda de ir dormir, a um filme qualquer. Antes da chegada de Bruno, de modo geral, apenas eu e Hilda participávamos dessas sessões cinéfilas, recorrendo a um velho aparelho VHS. Noutras ocasiões, estavam também presentes o próprio Mora Fuentes, Edson Costa Duarte (amigo dela, mais conhecido pelo apelido de “Vivo”) e Chico, o caseiro. Hilda tinha grande intimidade conosco e se comportava como bem queria, sentada na sua poltrona, bebericando o seu uísque ou o seu vinho, entre os dedos o cigarro Chanceller (“o fino que satisfaz”) e assim por diante. E é nesse “assim por diante” que estava o busílis…

Uma noite, durante um dos muitos filmes a que assistíamos juntos, já acompanhados por Bruno Tolentino e por Antônio Ramos, seu secretário ex-morador de rua, Hilda permaneceu num silêncio constrangedor, evitando responder às perguntas e aos comentários feitos por Bruno ou por qualquer um de nós, tanto ao longo quanto ao final do filme. Naquela ocasião, ela parecia especialmente rabugenta, disparando-nos olhares ferinos em momentos que, em si mesmos, não traziam nenhuma pista das suas ocultas razões. Isto ocorreu, segundo minhas anotações, quando Bruno já estava na casa conosco havia quase nove meses. O caso é que Bruno, percebendo que não haveria debates sobre o filme, e já cansado, levantou-se da cadeirinha — ele jamais dividia o sofá com os inúmeros cachorros — e, acompanhado por Antônio, retirou-se para seus aposentos. Um ou dois minutos após sua partida, Hilda virou-se para mim e me perguntou quanto tempo Bruno ainda pretendia permanecer na casa.

— Não sei, Hilda. Mas ele deve viajar para o Rio, onde ficará hospedado com a velha babá dele.

— Não tenho nada contra o Tolentino — disse ela. — Mas acho que ele já devia ir embora.

Mora Fuentes, que era de esquerda e não simpatizava nem um pouco com os pontos de vista explicitados por Bruno em nossas inúmeras discussões, interveio:

— Uê, Hilda. Se você quiser, a gente conversa com ele.

Ela fez um muxoxo, suspirou e decidiu se explicar: — Ele parece levar tudo muito a sério, até quando conta anedotas. Se pelo menos eu me sentisse mais à vontade na presença dele…

Eu estranhei: — Uê, Hilda. E desde quando você não se sente à vontade na sua própria casa? Não vejo diferença.

— Não vê? — perguntou, fitando-me diretamente nos olhos. — Então ouça.

E então, apoiando os cotovelos na mesinha à sua frente — na qual conservava invariavelmente o cinzeiro e o copo de uísque — inclinou-se para frente, ergueu a bunda e, para nosso espanto, soltou um sonoro e interminável peido. Caímos na gargalhada.

— É verdade! — comentei. — Você nunca peida quando o Bruno está aqui na sala com a gente.

— Pois é, eu fico a ponto de explodir! — retrucou, com sua modulação de menina sapeca.

— Ai, Hildeta! — Mora Fuentes não parava de rir. — E qual o problema de peidar na frente do Bruno? Os incomodados que se mudem!

— Eu não! — tornou ela, cheia de dignidade. — Ele não está sempre nos contando que esteve na Academia Brasileira de Letras conversando não sei com quem? Cada vez que volta do Rio, ele traz uma fofoca nova de um escritor que eu nem sabia que ainda estava vivo. Se eu peidar na frente dele, logo todos os escritores do Brasil vão dizer que, além de eu ser uma velha louca com a casa abarrotada de cachorros, também sou uma desavergonhada peidorreira. Nem pensar.

No dia seguinte, tivemos de dizer ao Bruno que Hilda não andava muito bem de saúde e que desejava uma casa menos movimentada. Felizmente, aplacando nosso constrangimento, Bruno respondeu que havia acabado de encontrar outro lugar para morar e que, inclusive, já estava encaixotando suas coisas, o que era verdade. Em suma: Bruno Tolentino deixou a Casa do Sol… movido a gases!

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