Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Mário Ferreira dos Santos: A luta contra o espírito criador

«  Uma das outras terríveis características de nossa época é a luta contra o criador. Desconfia-se, nega-se, anatematiza-se o criador. O que vale é a falsa criação. E esta caracteriza-se apenas por tomar abstratamente um valor, que é integrante de uma totalidade, exagerá-lo de tal modo que se julgue que isso é criador. É o que se faz na arte. Salienta-se a composição, e acima de tudo a composição, salienta-se a construção, e acima de tudo a construção, salienta-se o geométrico, e acima de tudo o geométrico, etc. Desse modo, temos uma arte monstruosa, porque ela toma o que é natural e desmesura-o exageradamente. É o que se faz hoje, pensando-se “descobrir um novo veio”, “realizar uma obra autêntica”, “trazer uma mensagem”, e expressões semelhantes. Na verdade, tudo isso realiza a frustração da criação. E os pobres ingênuos artistas que seguem esse caminho, insatisfeitos e derrotados, terminam apavorados por verificar que nada fizeram, que foram apenas iludidos por promessas vãs. E muitos valores são destruídos, assim, caindo, desesperançados numa repetição cansativa e monótona, quando não na esterilidade mais completa. Tudo isso ainda é barbarismo.

«  Diz-se que, certa ocasião, Beethoven, quando jovem, procurou Mozart para que lhe ministrasse aulas de piano. Este o recebeu e executou ao piano, uma frase musical, e disse-lhe: “Improvise!” E Beethoven pôs-se a improvisar. Mozart retirou-se para uma sala ao lado, onde estavam alguns amigos, e chamando-lhes a atenção para os sons que saíam do piano, disse-lhes: “A música deste menino ainda revolucionará o mundo!” Citamos isso de memória, porque a validez histórica não é o que importa aqui, mas a significação do fato. Hoje, um aluno que pretendesse procurar um mestre, este lhe diria: “Vá ao piano e execute um estudo de Chopin!” Para ele o que importa não é o criador, mas o repetidor, e repetir, repetir ritmos, repetir sempre é próprio do bárbaro, é a satisfação mais completa do bárbaro. Hoje não se desejam mais os criadores, mas os repetidores. O papel do mestre é corrigir, ensinar, apoiar, estimular a criar e não frustrar, criar obstáculos à criação, fomentar a desconfiança nas próprias forças, promover a incapacidade. Não é, sem dúvida, a sua verdadeira missão culta; mas a missão bárbara é impedir a criação. Entre os bárbaros, os inovadores são olhados como criminosos, são castigados e expulsos até da tribo. Quem proponha um pensamento novo, estranho ao aceito pela tribo, através das gerações, é um perigoso inovador, um perturbador, um corruptor, porque a coerência da tribo está ameaçada. Mas a cultura é uma conquista constante de estágios cada vez mais altos. O que esta deseja é erguer o homem aos degraus mais elevados e não fazêlo estacionar em patamares.

«  Pois observe-se hoje o que se faz nas universidades. Não é o que dizemos? Não se coage com energia o aluno para que não tente provar alguma coisa nova, expor criticamente um pensamento, ensaiar uma nova maneira de ver as coisas? Quão distante estamos nós daquela Idade Média (que os tolos querem chamar de época de trevas), em que se exigia, para o estudante de Filosofia, que comentasse as Sentenças de Pedro Lombardo com argumentos próprios, e só se dava valor ao trabalho que apresentasse alguma originalidade, novos argumentos, e respondesse com mais firmeza aos argumentos falsos, trouxesse novas demonstrações; em suma, que fosse criador! Hoje, um aluno que tente fazer isso, peca contra a pureza do barbarismo, ofende a essa nova e falsa sacralidade que se prega.

«  A luta contra a criação é uma das mais lamentáveis práticas empregadas hoje para estancar a capacidade criadora. O que o bárbaro quer é a horizontalidade tribal, a homogeneidade plana, o vale, o pântano, onde há lugar para todos os sapos e vermes.

«  A luta contra a criação não vem de hoje. Já se instaurou há mais de dois séculos. E tem dado seus frutos: a esterilidade de nossa época. Vejamos por partes. O medo de criar levou à seguinte situação: nestes dois séculos, os autodidatas criaram mais que os homens de escolaridade. Não é de admirar que, numa pesquisa realizada por um grande jornal americano, se chegasse à conclusão que a humanidade mais deve aos autodidatas que aos homens de escolaridade rígida. E isso se deve ao simples fato de aquele não ter à sua frente o “mestre”, que constantemente o está alertando contra a temeridade de criar. Como na matéria a que se dedica é senhor da sua vontade, é senhor da sua criação, não há óbices à sua atividade. Não lhe custa experimentar, tentar, errar e até acertar.

«  Quando um autor escreve uma centena de livros de Filosofia, isso causa espanto, apesar de ter havido, em outras épocas, autores que escreveram matéria que ocuparia, não centenas, mas até milhares de volumes nas dimensões dos que costumamos publicar hoje. A esterilidade é espantosa, e quando há alguma multiplicação é repetição, como se vê em certos pintores modernos. Ora, o bárbaro é estéril. O barbarismo é o contrário da criação. Temos, pois, uma semelhança espantosa hoje: o homem, cada dia que passa, diminui em sua capacidade de criar. As exceções, quase todos autodidatas, já não são suficientes para levar avante a criação cultural. Não é, pois, de admirar que haja autores que falem na nossa esterilidade como constitutiva do período cultural que vivemos, como decorrente da própria cultura, que esgotou as suas veias. Não é verdade, porém. Nossa cultura não esgotou ainda todas as suas possibilidades. Podem homens de prestígio afirmarem que secaram todas as fontes, mas eles se enganam. Podem afirmar que nada mais temos que fazer do que viver a civilização, porque a cultura está anquilosada e morta; que só nos resta aproveitar a técnica e usufruir dos bens criados. Não é verdade. Há ainda muitos mananciais e há muitas promessas. É natural que aqueles que só têm os olhos voltados para o que é degenerescência, abandono, esterilidade, aqueles que só dirigem os seus olhos para os espécimes, que representam o deserto cultural, pensem assim. Mas se eles quisessem procurar no campo da Filosofia, da própria Ciência, os que estão abrindo novos horizontes, apesar da resistência tremenda que lhes fazem os despeitados e estéreis, compreenderão que há ainda muitas auroras para luzir. É este, realmente, um tema de máxima importância e serviu para maiores análises em obras nossas, onde estudamos a possibilidade de criação em nosso ciclo cultural, opondo-nos à visão pessimista de Spengler, Toynbee e muitos outros, que nos julgam estéreis, sem esperanças, senão vagas, e muito condicionais, sobre novos veios de criação, por estarem envoltos pela barbárie que nos ameaça.»

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Trecho de Invasão Vertical dos Bárbaros (1967), de Mário Ferreira dos Santos.

Bruno Tolentino e a Tia Chauí

Bruno Tolentino

CONVITES À FILOSOFIA

 

O último ataque de sabedoria

da bela doutora Chauí

me deixou perplexo! Um dia

num canteiro de Alexandria

a única flor que eu não colhi

passou horas e horas ali

explicando filosofia

a um cliente da casa… Lili,

se fazia chamar a guria.

 

No batente contraíra o mal

que não desgruda quando ataca

e a paixão do conceito. Polaca

(uma ex-noviça, por sinal),

escapara ao torrão natal

na valise de um industrial,

mas matara-o de morte macaca

e agora despachava-os de maca

rumo à enfermaria geral!

 

Sabia tudo de Epicuro,

o seu xodó. Falava bem,

punha qualquer um de pau duro

com as dissertações e o vaivém

das mãos sábias, no claro-escuro

à beira-leito… Jurar não juro,

mas, se não convertia a ninguém,

fascinava o varão maduro

e os mais inespertos também.

 

Clandestino e errante, eu sabia

que, sem Visto no baixo Egito,

se me pegassem estava frito:

dormia ali durante o dia,

hotel nem morto! O arranjo previa

apenas que o moço bonito

dormisse sozinho e, repito,

eu dormia a manhã toda, ouvia

Lili me explicar o infinito

 

e Epicuro lá para as duas;

cerca das quatro, quatro e meia,

devolvia o cascalho à bateia

e reganhava o ouro das ruas,

as semi-ninfas semi-nuas

ficavam para trás, a feia

das grandiosas semi-luas

e a estupenda Lili. Cantei-a

de mil maneiras, das mais cruas

 

às mais cruéis, das mais virís

às mais dúcteis, mas não houve jeito:

epicurava ao pé do leito,

mas de graça não dava! Fiz

o que pude, o malandro perfeito,

mas epicurista aprendiz

é mesmo um pedestre, e bem feito!

Ah, pudesse este meu país

resistir às nativas Lilis,

 

seus babados e baboseiras,

como a pérola de Alexandria

resistiu-me semanas inteiras!

Manual de filosofia

a noite toda dá em olheiras,

mas é mal incurável, mania

até mesmo de ex-futuras freiras

filosófico-epicureiras

como as há também, quem diria,

 

neste nosso agreste jardim.

Minha Santa Teresa, eu li

o manual da nossa Lili

de cabo a rabo! É verdade sim,

li tudinho, e ansioso torci

pela guria até ao fim…

Mas uma cena que nunca esqueci,

dentre as lufadas de jasmim

daquela mansão sem jardim

 

veio a mim como uma chibatada:

vi minha Lili de olhos belos,

de calcinha toda rendada

num florido patamar de escada

como a jovem do poema de Eliot

e sofri! Aquela madrugada

eu voltara mais cedo, os melros

começavam a cantar na estrada:

Lili desatara os cabelos,

 

largara Epicuro e, à janela,

chorava, chorava… A verdade

chegara muito perto dela,

com a imperdoável crueldade

das horas vazias, aquela

era a hora da verdade. Bela,

descabelada e sem vontade

de iludir-se, dava pena vê-la:

afinal esquecia a vaidade,

 

desmentia a reputação

de Diótima eslava e selvagem

e soluçava de pé no chão…

Levei comigo aquela imagem

anos a fio, desde então

sinto certa camaradagem

com todas as fêmeas que em vão

pensam que sabem o que não sabem.

Soube que morreu no Sudão

 

alguns anos depois. De frio.

Esfriara a pérola ardente,

murchara quando um livre docente

desmanchara-lhe fio por fio

a douta cabeleira insciente

aquela noite… Conheci-o,

um professoreco insolente

de Liceu: humilhou friamente

minha flor, e Epicuro, o vadio,

nem se importou, fez-lhe o favor

de abandoná-la nua e crua

à escolástica do inquisidor.

Se a nossa doutora não for

tão sensível, a sorte é sua,

talvez ainda possa dispor

da arte fria de um cliente-instrutor;

recomendo uma noite sem lua

em Alexandria: há uma rua

transversal entre o velho mar,

o Maryût e a Rodovia

dos Ingleses; nela há um solar

que todos conhecem, de dia

a casa é fácil de encontrar;

o tal professor não saía

de lá, com certeza há de estar.

Não ensina filosofia,

ensina as Lilis a acordar.

 

 

EM RETROSPECTO

 

Pobre pequena,

sofreu demais!

Com aquela cena

perdeu a paz,

não se viu mais

feliz, serena,

era só ais…

Já a Marxilena

é um monstro horrendo:

eu fico lendo

Tia Chauí

e me arrependo

do que senti

pela Lili!

Poemas extraídos do livro Os Sapos de Ontem, de Bruno Tolentino.

Da Beleza e Consolação — uma entrevista com Roger Scruton

Sobre o filósofo Roger Scruton.

Religião e Sociedades Secretas – podcast com Olavo de Carvalho

Há exatos seis anos, publiquei meu sexto podcast com o filósofo Olavo de Carvalho, no qual conversamos sobre “Religião e Sociedades Secretas”. (Veja os tópicos logo abaixo de cada parte.) Volto a postá-lo aqui, em duas partes, porque, dentre todos os gravados naquele ano (2006), foi exatamente este o que mais me marcou. A primeira parte — que chamo de “lado A” — foi ouvida, até o momento, mais de 97 mil vezes. A segunda parte (“lado B”), por alguma razão que desconheço, foi danificada no YouTube quando já havia sido ouvida mais de 22 mil vezes. Voltei a postá-la novamente e, hoje, conta 5160 acessos. Não sei o porquê dessa discrepância de acessos entre as duas partes, mas a questão é que considero a segunda parte tão ou mais importante que a primeira. Creio que, na primeira, Olavo prepara a mesa enquanto que, na segunda, ele nos serve um banquete. O que Olavo fala sobre a fé, nessa segunda parte, é algo que jamais esquecerei. Não sugiro que seja ouvida antes ou em vez da primeira parte, mas, sim, que não seja deixada de lado. Você irá entender o porquê.


Neste sexto bate-papo, “lado A”, o filósofo Olavo de Carvalho discorre sobre os seguintes temas: Islã, Frithjof Schuon, religião comparada, judaísmo/hinduísmo/budismo; Conceito de religião, revelação e doutrina; Cristianismo, o indiví­duo, fé e crença; a filosofia perene; Martin Heidegger; religião evolutiva?; Islã e terrorismo; queda do Império Romano, os feudos, a Igreja Católica, racionalismo e moral cristã; Emmanuel Swedenborg, a Bí­blia; ateus; sociedades secretas, Maçonaria, os Illuminati; René Guénon, o caos e a unidade do Islã, califado mundial; etc.


Neste sexto podcast, “lado B”, Olavo discorre sobre os seguintes tópicos: pensamento epidérmico e pensamento profundo; diferença entre Deus e Alá; fraternidade; a conversão acentuadamente “civil” islâmica e a conversão estritamente espiritual cristã; o Verbo Divino; Fé e confiança; a conversão não é instantânea; a Salvação; o pensamento de Jacques Derrida como testemunho da perdição da alma; a Imortalidade; o Livro de Urântia (Urantia Book); a Bí­blia e a literatura; a Bí­blia como chave para interpretação da vida pessoal; alma fechada e alma aberta; a diferença entre o poeta e o louco; “Deus não é objeto para o pensamento”; “o desconstrucionismo, o marxismo e a psicanálise defendem-se da crí­tica tal como o faz o homossexualismo”; unidade planetária e globalização; abismos culturais; George Soros; “os quatro graus de credibilidade”; maturidade intelectual; uma dica de filme; o lançamento de sua rádio online (TrueOutspeak).

Aulas de filosofia de Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) nasceu em Tietê, Estado de São Paulo, tendo passado sua infância e adolescência em Pelotas, Rio Grande do Sul. Licenciou-se em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de Porto Alegre. Mudou-se para São Paulo, onde fundou duas editoras para publicação e divulgação de suas obras: Editora Logos e Editora Matese.

Escritor e pensador extraordinariamente fecundo, publicou, em menos de quinze anos, a coleção “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”, que abrange 45 volumes, parte de caráter teorético e parte histórico-críticos. Em 1957, publicou “Filosofia Concreta”, que estabelece o seu modo de filosofar. Mário Ferreira dos Santos considera a Filosofia como ciência rigorosa, aceitando o que é demonstrado e não o problemático e provável. Para ele, a Filosofia possui o genuíno valor de ciência, seja na investigação e na sistematização, seja na análise e na síntese de temas expositivos e polêmicos. Em 1959, a edição de “Métodos Lógicos e Dialéticos” expõe uma nova metodologia para guiar com segurança o estudioso no campo do saber.

A década de 1960 foi o período em que suas obras tiveram maior difusão em todo o território nacional.

Trecho d’A República, de Platão: Sócrates descreve as quatro formas de deterioração do Estado

Sócrates

Antes de ler o diálogo abaixo, extraído d’A República, de Platão, vale lembrar que a proposta de Sócrates, no texto, não é descrever um Estado utópico. Ao responder a uma pergunta sobre a natureza da Justiça, e consequentemente sobre o que seria um “homem justo”, Sócrates propõe a analogia entre um ser humano e uma cidade-estado, uma vez que esta, sendo grande, teria elementos mais palpáveis e conspícuos, ou seja, elementos mais fáceis de se discernir e analisar. Assim, Sócrates descreve a cidade-estado, e suas diferentes formas de governo, para poder definir a natureza do “homem justo” em contraste com outros tipos de “homens degenerados”. (Yuri Vieira)

Glauco — Não vejo nisso dificuldade. Depois de teres esgotado o que diz respeito ao Estado, dizias quase o mesmo que agora, afirmando que achavas bom o Estado que acabavas de descrever [aristocracia] e o homem que lhe era semelhante, e isso, ao que tudo indica, apesar de teres a capacidade de nos falar de um Estado e de um homem ainda mais belos. No entanto, tu acrescentaste que as outras formas de governo são falhas, uma vez que aquela é boa. Dessas outras formas, ao que me lembro, afirmaste haver quatro espécies dignas de atenção e das quais importava ver os defeitos, assim como os dos homens que lhes são semelhantes, com o fito de que, depois de tê-los analisado e reconhecido qual o melhor e qual o pior, estivéssemos aptos a julgar se o melhor é o mais feliz, e o pior, o mais infeliz, ou se não é assim. Então, como eu indaguei quais seriam as quatro formas de governo, Polemarco e Adimanto interromperam-nos, e aí iniciaste a discussão que nos conduziu até este ponto.

Sócrates — Lembras-te disso com muita clareza.

Glauco — Assim, faz igual aos pugilistas e concede-me outra vez a mesma posição e, tendo em vista que te faço a mesma questão, procura dizer o que estavas para responder.

Sócrates — Farei, se o puder.

Glauco — Desejo saber quais são os quatro governos de que falavas.

Sócrates — É fácil satisfazer-te, pois que os governos a que me refiro são conhecidos. O primeiro e muito elogiado é o de Creta e da Lacedemônia; o segundo, que só se louva em segundo lugar, chama-se oligarquia. Trata-se de um governo repleto de vícios vários. Oposto a este vem, em seguida, a democracia. Por fim, vem a soberba tirania, contrária a todos os outros e que é a quarta e a última doença do Estado. Conheces acaso outro governo que se possa ordenar numa classe bem distinta? As monarquias hereditárias, os principados venais e governos que se lhes assemelham não são, em dada medida, senão formas intermediárias e encontram-se tanto entre os bárbaros como entre os gregos.

Glauco — Realmente dizem que os há muitos e estranhos.

Sócrates — Sabes que há tantas espécies de caráter como formas de governo? Ou pensas que essas formas provêm dos carvalhos e da rocha, e não dos costumes dos cidadãos, que arrastam todo o resto para o lado para que pendem?

Glauco — Não podem originar-se senão daí.

Sócrates — Portanto, se existem cinco espécies de cidades, o caráter da alma, nos indivíduos, será, igualmente, em número de cinco.

Glauco — Com toda a certeza.

Sócrates — Analisamos anteriormente o que corresponde à aristocracia e afirmamos, com razão, que é bom e justo.

Glauco — Sim.

Sócrates — Isto posto, não convirá passar em revista os caracteres inferiores: em primeiro lugar, o que ama a vitória e a honra, baseado no exemplo do governo da Lacedemônia; em segundo o oligárquico, o democrático e o tirânico? Depois de reconhecermos qual o mais injusto, oporemos este ao mais justo e poderemos aí terminar o nosso exame e ver como a pura justiça e a pura injustiça agem, respectivamente, no que diz respeito à felicidade ou à infelicidade do indivíduo, para que siga o caminho da injustiça, se nos deixarmos convencer por Trasímaco, ou a da justiça, se cedermos às razões que se manifestam a seu favor.

Glauco — Concordo plenamente, é assim que se deve proceder.

Sócrates — E, já que começamos por examinar os costumes dos Estados antes de analisarmos os dos particulares, sendo este método o mais claro, não devemos agora considerar primeiro o governo da honra, ao qual, como não tenho designação a dar-lhe, chamarei timocracia, e passar logo após ao exame do homem que se lhe assemelha, depois ao da oligarquia e do homem oligárquico; então lançar vistas para a democracia e o homem democrático; e por fim, em quarto lugar, considerar a cidade tirânica, depois a alma do tirânico, e procurar julgar com conhecimento de causa a indagação que nos propomos?

Glauco — Isso seria agir com disciplina a essa análise e a esse julgamento.

Sócrates — Tentemos, caro Glauco, explicar de que maneira se faz a transição da aristocracia para a timocracia. Não é uma verdade inconteste que toda constituição se modifica de acordo com quem detém o poder, quando a discórdia grassa entre os seus membros, e assim, enquanto está de acordo consigo mesma, por muito pequena que se mostre, é impossível abalá-la?

Glauco — Assim me parece.

Sócrates — Nesse caso, como a nossa cidade será abalada? Por onde se infiltrará, entre os guardiões e os chefes, a discórdia que cada um destes lançará contra o outro e contra si mesmo? Desejas que, como Homero, conjuremos as Musas para que nos digam: ‘Quem os impeliu à discórdia?’ Suponhamos que, brincando e se divertindo conosco como com crianças, falam, como se os seus discursos fossem sérios, no tom inflamado da tragédia.

Glauco — Como assim?

Sócrates — Mais ou menos desta forma: é difícil que um Estado constituído como o vosso venha a se alterar. Porém, como tudo o que nasce é passível de corrupção, este sistema de governo não durará eternamente, mas dissolver-se-á, e aqui tens o modo. Há, para as plantas enraizadas na terra e para os animais que vivem à sua superfície, ciclos de fecundidade ou de esterilidade que afetam a alma e o corpo. Estes ciclos surgem quando as revoluções periódicas completam as circunferências dos círculos de cada espécie, e são curtas para as que têm uma vida curta, longas para as que têm uma vida longa. Pois bem, por muito sábios que sejam os chefes da cidade que vós educastes, não conseguirão nada pelo cálculo unido à experiência, quer suas gerações sejam boas ou não venham a existir. Estas coisas escapar-lhes-ão e farão filhos quando não o deveriam fazer. (…) É este número geométrico total que determina os bons e os maus nascimentos e, quando os vossos guardiões, não o conhecendo, unirem moças e rapazes fora de propósito, os filhos que nascerem desses casamentos não serão favorecidos nem pela natureza nem pela fortuna. Os seus antecessores colocarão os melhores à cabeça do governo, mas, como disso são indignos, logo que assumirem os cargos dos seus pais passarão a menosprezar-nos, apesar de serem guardiões, não honrando, como deveriam, primeiramente a música, em seguida a ginástica. Assim, tereis uma geração nova bem menos culta. Daí sairão chefes pouco capazes de zelar pelo Estado e que não sabem notar a diferença nem das raças de Hesíodo nem das vossas raças de ouro, prata, bronze e feno. Deste modo, misturando-se o ferro com a prata e o bronze com o ouro, resultará destas misturas um defeito de conveniência, de regularidade e de harmonia que, uma vez instaurado, engendra sempre a guerra e o ódio. E esta a origem que se deve atribuir à discórdia, em toda parte que se declare.

Glauco — Devemos reconhecer que as Musas responderam bem.

Sócrates — Certamente, visto que são Musas.

Glauco — E então? O que dizem elas além disso?

Sócrates — Uma vez instaurada a divisão, as duas raças de feno e bronze aspiram a enriquecer e a adquirir posses de terras, casas, ouro e prata, ao passo que as raças de ouro e prata, sendo ricas por natureza, tendem para a virtude e a manter a antiga constituição. Depois de muitas violências e lutas, concorda-se em dividir as terras e ocupá-las, bem como às casas, e aqueles por quem anteriormente zelavam como seus concidadãos, como homens livres e amigos, agora subjugam-nos, tratam-nos como periecos e servidores, e continuam eles a ocupar-se da guerra e da guarda dos outros.

Glauco — Sim, parece-me que é daí que se origina essa mudança.

Sócrates — Aí está! Um tal governo não estará situado entre a aristocracia e a oligarquia?

Glauco — Estará, com certeza.

Sócrates — Vês então como se fará a mudança. Mas qual será a sua forma? Não é evidente que deverá imitar, por um lado, a constituição anterior e, por outro, a oligarquia, mas que terá também alguma coisa que lhe será própria?

Glauco — Assim me parece.

Sócrates — Pelo respeito aos chefes, pela aversão dos guerreiros à agricultura, às artes manuais e às outras profissões lucrativas, pela instituição das refeições em comum e a prática dos exercícios ginásticos e militares, por todos estes aspectos, não recordará a constituição anterior?

Glauco — Sim.

Sócrates — Mas o medo de nomear os sábios para as magistraturas, visto que aqueles que se terão não serão mais simples e firmes, mas de caráter dúbio; a inclinação para o caráter irascível e mais simples, moldado mais para a guerra do que para a paz; a estima em que se terão as manhas e os estratagemas guerreiros; o hábito de ter sempre a arma à mão: a maior parte dos aspectos deste gênero não lhe serão específicos?

Glauco — Sim.

Sócrates — Tais homens serão cobiçosos de riquezas, como os cidadãos dos Estados oligárquicos; adorarão com paixão, às ocultas, o ouro e a prata, porquanto terão armazéns e tesouros particulares, onde as suas riquezas estarão escondidas, e também habitações protegidas por muros, verdadeiros ninhos privados, nas quais gastarão à larga com mulheres e com quem muito bem lhes apetecer.

Glauco — Eis aí uma grande verdade.

Sócrates — Serão apegados às suas riquezas porque as veneram e não as possuem às claras, e, por outro lado, pródigos com os bens dos outros, para satisfazerem as suas paixões. Se fartarão dos prazeres em segredo e, como crianças aos olhares do pai, fugirão aos olhares da lei, em conseqüência de uma educação não baseada na persuasão, mas na violência, em que se desprezou a verdadeira Musa, a da dialética e da filosofia, e se deu mais importância à ginástica do que à música.

Glauco — E claramente a descrição de um Estado composto de bem e mal.

Sócrates — Isso mesmo, é composto. Há nele um único aspecto que é nitidamente distinto, resultante do fato de nele predominar o elemento irascível: é a ambição e o amor das honrarias.

Glauco — Certamente.

Sócrates — Aí estão a origem e o caráter deste governo. Fiz apenas um esboço, e não um retrato detalhado, porque só por este esboço podemos distinguir o homem mais justo do homem mais injusto e, por outro lado, seria uma tarefa muitíssimo longa descrever sem nada omitir todas as constituições e todo caráter.

Glauco — Tens razao.

Sócrates — Agora, dize qual é o homem que corresponde a este governo, como se compreende e qual é o seu caráter.

Adimanto — Suponho que deve assemelhar-se a Glauco, aqui presente, ao menos no que se refere à ambição.

Sócrates — Talvez. Mas, ao que me parece, pelos aspectos que vou dizer, a sua natureza é diferente da de Glauco.

Adimanto — Quais são eles?

Sócrates — Tu deves ser mais presunçoso e mais avesso às Musas, apesar de amá-las, alegrando-se em escutar, mas não sendo de maneira nenhuma orador. Para com os escravos, um homem assim mostrar-se-á rígido, em vez de os desprezar, como faz aquele que recebeu uma boa educação. Será cordial para com os homens livres e muito submisso para com os magistrados. Desejoso de alcançar o mando e as horas, aspirará a isso não pela eloqüência, nem por nenhum outro predicado do mesmo gênero, mas pelos seus feitos guerreiros e pelos talentos militares e será um aficionado pela ginástica e pela caça.

Adimanto — É esse mesmo o caráter que é similar a tal forma de governo.

Sócrates — Um homem desse tipo poderá, durante a mocidade, desprezar as riquezas, mas com o correr dos anos mais as amará, porque a sua natureza incita-o à avareza, e a sua virtude, privada do seu melhor guardião, não é pura.

Adimanto — Qual é esse guardião?

Sócrates — A razão aliada à música. Só ela, quando entranhada na alma, se mantém toda a vida como defensora da virtude.

Adimanto — Boas falas.

Sócrates — Assim é que o jovem ambicioso é a imagem do governo timocrático.

Adimanto — Com certeza.

Sócrates — Origina-se mais ou menos do seguinte modo: por vezes é o jovem filho de um homem de bem, habitante de uma cidade mal governada, que evita as honras, os cargos, os processos e todos os incômodos deste gênero e que aceita a mediocridade, para tentar se ver livre de aborrecimentos.

Adimanto — E como se origina?

Sócrates — Primeiramente, ouve a mãe queixar-se por o marido não pertencer ao grupo dos governantes, o que a faz se sentir diminuída junto das outras mulheres. Por vê-lo desinteressado de enriquecer, não sabendo nem lutar nem usar a censura, quer em particular, perante os tribunais, quer em público, indiferente a tudo em tal matéria; por notar que está sempre ocupado consigo mesmo e não tem por ela nem estima nem desprezo. Indigna-se com tudo isso, dizendo ao jovem filho que o seu pai não é um homem, que lhe falta energia e cem outras coisas que as mulheres costumam dizer em tais casos.

Adimanto — E mesmo essa a atitude que no mais das vezes tomam conforme com a sua natureza.

Sócrates — E tu sabes que até os criados dessas famílias que parecem bem-intencionados costumam usar, em segredo, a mesma linguagem com as crianças; e, quando percebem que o pai não persegue um devedor ou uma pessoa que o ofendeu, exortam o filho a se vingar de semelhante gente, quando for grande, e a mostrar-se mais viril que o pai. Mal sai de casa, passa a ouvir outros comentários semelhantes e vê que aqueles que não se ocupam senão dos seus negócios na cidade são tratados como imbecis e tidos em pouco apreço, ao contrário dos que se ocupam dos negócios dos outros, que são honrados e louvados. Então, o jovem, vendo e ouvindo isso tudo, por um lado, e, por outro, escutando os discursos do pai, vê de perto as suas ocupações e compara-as com as dos demais. Então, sente atração pelos dois lados: pelo pai, que planta e faz crescer o elemento racional da sua alma, e pelos outros, que fortalecem os seus desejos e paixões. Como o seu caráter não é mau por natureza, pois apenas esteve ele em más companhias, escolhe o meio entre os dois partidos que o atraem, entrega o governo da sua alma ao princípio intermédio de ambição e cólera e torna-se um homem orgulhoso e amante de horas.

Adimanto — Descreveste muito bem a origem e o desenvolvimento desse caráter.

Sócrates — Temos aí a segunda constituição e o segundo tipo de homem.

Adimanto — Temos.

Sócrates — Agora, falaremos, como Ésquilo, “de outro homem alinhado em face de outro Estado”, ou seria melhor, seguindo a ordem que adotamos, começarmos pelo Estado?

Adimanto — Assim me parece bem.

Sócrates — Creio que a oligarquia é o governo que se segue ao precedente.

Adimanto — Que espécie de governo entendes por oligarquia?

Sócrates — O governo fundamentado no recenseamento, em que os ricos mandam e onde o pobre não participa no poder.

Adimanto — Entendo.

Sócrates — Não devemos começar por dizer como se passa da timocracia à oligarquia?

Adimanto — Sim, devemos.

Sócrates — Na realidade, até um cego seria capaz de ver como se faz esta passagem.

Adimanto — Como?

Sócrates — Esse tesouro que cada um enche de ouro põe a perder a timocracia. Em primeiro lugar, os cidadãos descobrem motivos de despesa e, para os satisfazer, deturpam a lei e desobedecem-lhe, eles e as suas mulheres.

Adimanto — E verossímil.

Sócrates — Depois, pelo que suponho, um vê o outro e se põe a imitá-lo, e assim a massa acaba por se lhes assemelhar.

Adimanto — Deve ser assim.

Sócrates — A partir disso, a sua avidez pelo ganho progride rapidamente e quanto mais amor têm pela riqueza menos o têm pela virtude. Em verdade, o que há de diferente entre a riqueza e a virtude não é que, colocadas cada uma num prato de uma balança, tomam sempre uma direção contrária?

Adimanto — Com toda certeza.

Sócrates — Concluo, então, que, quando a riqueza e os homens ricos são honrados numa cidade, a virtude e os homens virtuosos são tidos em menor estima.

Adimanto — É evidente.

Sócrates — É de nossa natureza entregarmo-nos ao que é honrado e desprezarmos o que é desdenhado.

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Socrate — um drama sinfônico de Erik Satie

Socrate, drama sinfônico para quatro sopranos e pequena orquestra, com textos de Platão traduzidos por Victor Cousin.

I partie: Portrait de Socrate (Le banquet)
(Danielle Millet – Alcibiade)

II partie: Bords de I’llissus
(Andrea Guiot – Socrate; Andrée Esposito – Phèdre)

III partie: Mort de Socrate
(Mady Mesplé – Phédon)

Orchestre de Paris
Pierre Dervaux

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