8:32 amSe beber…

menor_volante

— Ah, não! Uma blitz!! Anda, filho, troca de lugar comigo, rápido!

— Mas, pai, eu…

— Vamos logo! Quer ver seu pai na cadeia, é? Não viu que eu bebi uma taça de vinho na casa da sua avó?

— Mas…

— Não tem mais nem menos! Vai, se mexe.

— Pai, eu tenho doze anos de idade! O senhor ficou maluco?

— Não se preocupe, é como aquele carrinho de bate-bate do parque de diversões, não tem mistério.

— Mas aí tem três pedais. E eu não sei usar essa alavanca da marcha.

— O câmbio.

— É, não sei usar o câmbio.

— Eu engato a primeira aqui e você vai devagarzinho até lá.

O menino obedece e, não conseguindo parar, enfia o carro na lateral do carro da polícia, que resulta bastante amolgado.

— Que sorte! —, diz a mãe ao telefone minutos depois. — Imagine se eles tivessem usado o bafômetro em você.

— Pois é. Estaria perdido, um crime bem pior.

— E de onde você tirou essa idéia?

— Uê, dos traficantes, claro. Eles não usam menores de idade para cometer crimes e se safarem em seguida?

— Genial, meu bem! Genial!

8:15 amFilme em família

Filme em família

Você faz a maior propaganda de um filme e chama a família inteira para vê-lo. Empolgados, aquele cheiro de pipoca já no ar, todos se acomodam pelos sofás, poltronas e tapetes cobertos de almofadas. Apesar do insistente burburinho, o filme começa. A platéia é finalmente absorvida pelo silêncio. Parece um bom sinal, mas não é. Corridos vinte minutos, já estão dormindo suas irmãs, seus irmãos, seus cunhados, suas cunhadas, seus sobrinhos, seus pais, seus tios e assim por diante. Ouve-se um ronco aqui, outro ali. O que fazer? Bem, agora já foi, mas, da próxima vez, utilize a “Técnica Capitão Nascimento de Concentração”, isto é, distribua granadas de mão sem o pino de segurança entre os presentes e avise: “Quem dormir explodirá a si mesmo e matará consigo meia-dúzia de parentes!” Sim, você não vê a hora de colocar o plano em prática…

8:02 amSomebody That I Used To Know e suas paródias

Esses vídeos já estão no YouTube faz tempo, mas que tal juntá-los num único post?

O original

O cover

Algumas paródias

Continua…

9:05 amA viagem astral de Machado de Assis

Machado de Assis costumava publicar crônicas sob diversos pseudônimos. Apenas 40 anos após sua morte descobriu-se que, entre eles, encontrava-se o pseudônimo “Lelio”. Imagino que o utilizava quando sua abordagem do tema ultrapassava seu parâmetro normal de deboche. A crônica abaixo — Balas de Estalo — foi publicada no jornal Gazeta de Notícias, edição do dia 5 de Outubro de 1885, e trata de um tema então em moda: o espiritismo. Nele, Machado relata uma suposta viagem astral com um desenlace dos mais inesperados…

9:15 amNinjas na sala de cinema

No Prince Charles Cinema, na Leicester Square, em Londres, já não há impunidade para atiradores de pipoca, atendedores de celular, digitadores de smartphone e cochichadores em geral. Em qualquer um desses casos, dois ninjas podem surgir do nada e fazê-los ficar quietinhos. A idéia é genial, não?

Eis o depoimento de um dominado pelos Ninjas:

“Normalmente odeio pessoas barulhentas nos cinemas, mas recebi o telefonema de um amigo e, como o filme estava apenas começando, pensei que poderia atendê-lo numa boa. A última coisa que eu esperava era que duas pessoas, completamente cobertas de preto, fossem aparecer de repente, diante de nossas poltronas, para pedir a mim e a meus amigos que nos calássemos. No início, foi realmente assustador, mas logo me inteirei que era um tanto quanto cômico e uma ótima maneira de me mostrar o impacto que eu estava causando ao meu redor. Tal situação certamente me fez desligar o aparelho e me deixou calado pelo resto do filme.”

Mas será que isso daria certo no Nuovo Cinema Paradiso?

Leia mais no Slashfilm.com.

(Via @iedamarcondes.)
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Publicado no Digestivo Cultural.

8:13 amNovo livro: “Mestre de um Universo” (impresso e ebook)

São vinte e seis contos e crônicas escritos entre os anos 1990 e início dos anos 2000, tratando dos mais diversos temas, mormente cinema, política, religião, drogas, amor, etc. Todos trazem, de uma forma ou de outra, o peso da “virada do milênio” e muito humor.

A capa foi feita a partir de uma pintura do artista plástico Domício Ferreira.

Tanto o ebook (formato EPUB) quanto o livro impresso, já estão à venda na AgBook e no Clube de Autores. A versão para Kindle pode ser adquirida na Amazon.com, nesta página.

Para adquirir outros livros, visite minhas páginas na Amazon, no Clube de Autores e na AgBook.

3:22 pmEnquanto isso, no banheiro feminino…

 

Banheiro feminino

“Ei, por que você tá me olhando desse jeito?”

“Por nada.”

“Essa voz…”

“Que que tem minha voz?”

“Aaah! Você é homem! Sai daqui!”

“Não saio não.”

“Então eu vou gritar!”

“Mas eu sou crossdresser.”

“Hã?! Crós o quê?”

“Crossdresser. Estou vivenciando meu lado feminino.”

“Tá bom… Só porque tá vestido de mulher…”

“É verdade.”

“Se é verdade, tava me olhando por quê?”

“Para aprender a me portar melhor como mulher, ora.”

“Hum, sei… Muito esquisito isso.”

“É sério. Por exemplo: gostei da sua idéia de cobrir o vaso com papel antes de se sentar. Toda mulher faz isso?”

“O quê? Você tava me espiando no reservado?”

“Dei uma olhadinha por cima, de pé na privada aí do lado. Achei muito interessante.”

“Seu safado!”

“Safado não. Respeite minha opção. Quero ser tratado como mulher. É meu direito.”

“Não acredito que agora sou obrigada a ouvir isso…”

“Obrigada a ouvir você não é, mas é obrigada a aceitar. Se me tirarem daqui, posso processar você e o dono do bar.”

“Tá legal, calma. Só que primeiro eu preciso me acostumar com a idéia, né. Até meu avô já se vestiu de mulher — mas isso era no carnaval, poxa!”

“Certo, eu entendo. Meus tios também faziam isso lá no Rio. Mas, enquanto você se acostuma, posso pedir um favor?”

“Que favor?”

“Depois que você faz xixi, na hora de se enxugar, você esfrega o papel na xoxota ou só o encosta de leve?”

“Ah, pelo amor de Deus! Me poupe, né!”

“Poxa, é uma pergunta relevante. Cerveja faz a gente vir aqui toda hora. E imagino que, se você esfrega o papel cada vez que faz xixi, acaba ficando toda assada, né.”

“Por que você não pergunta isso pra sua mãe, hem?”

“Bom, minha mãe já faleceu…”, responde, com a voz embargada.

“Ah, desculpe, não quis…”

“Tudo bem…”, diz ele, uma expressão triste no olhar.

“Não faz essa cara, falei sem saber.”

“Bom, se você me fizer um favor, juro que vou me sentir melhor.”

“Ai… O que é agora?”

“Posso passar o papel em você pra eu sentir como é?”

“O quê?! Ficou maluco, é?”

“Maluco não: maluca!”

“Tá: maluca. Ficou maluca, é?”

“Deixa, vai. Só um pouquinho.”

“Nem ferrando!!”

“Então deixa pelo menos eu ver você fazendo. Não deu pra ver olhando de cima.”

“Ai, caramba… Tá bom, tá bom.”

“Eba.”

“Mas já vou te avisando: se você encostar um dedo em mim, eu grito; viu?”

“Viu.”

Ela volta ao reservado, pega um pedaço de papel, levanta a saia, arria a calcinha.

“Hum, bigodinho de Hitler, né.”

“Pára com isso e presta atenção: só vou mostrar uma vez.”

Ela encosta em si mesma o papel dobrado algumas vezes, pressionando de leve.

“Ah, eu sabia! Sem esfregar.”

“Pois é…”

Ele estende a mão e, afastando o papel de cima da xoxota, verifica se ela ficou mesmo sequinha.

“Aaaaah!”, ela grita, derrubando-o com um chute no rosto e ajeitando novamente a roupa.

“Socoooorro!!!”, ele berra ainda mais alto do que ela.

Uma policial uniformizada entra no banheiro: “O que está acontecendo aqui?”

“Esse homem me atacou!”, diz a mulher.

“Eu?”, contesta ele, sentado no chão, o nariz sangrando. “Quem é que foi nocauteado aqui? Quem é a vítima?” E para a policial: “Ela não respeitou minha opção. Sou crossdresser, se a senhora não a prender agora, vou acionar a Coordenadoria Estadual de Políticas para a Diversidade Sexual. Vocês duas estarão violando a lei estadual 10.948/2001.”

A policial, engolindo em seco, segura a mulher pelo braço: “A senhora está presa”.

“O quê?! Ficou maluca?!! Não seja idiota, não caia na conversa desse cretino!”

“Quieta! Não me desacate!”, e então a algema, levando-a dali cheia de autoridade.

“Ai, ai, nada como usar o feminismo a meu favor… ”, suspira o crossdresser. “Qual outro bar tem umas gatas como essa mesmo? Esse aqui já era…”

E, levantando-se, saiu em direção à porta, equilibrando-se como podia em seus saltos que destoavam completamente da sua saia fora de moda.

4:11 pmEx-namoradas e desarmamento civil

 

"Ei, sua ex-namorada tá morando no mesmo prédio que eu."

"Ah, é?"

"É. E continua muito gata, a gente sempre se encontra no elevador."

"Sei."

Silêncio.

"Que cara é essa?"

"Minha cara, uê."

"Tá com ciúme, é? Pensei que você é que tinha terminado com ela."

"E foi mesmo."

"Então não pode ter ciúmes, poxa. Aliás, você nunca teve ciúme de ex-namorada…"

"A gente muda. Aprende a se deixar envolver de verdade…"

"Eu ia chamar ela pra sair. Você ficaria grilado?"

O outro vacila alguns segundos. Por fim, indaga: "Você ainda é defensor do desarmamento civil?"

"Que que isso tem a ver?"

"Responde primeiro."

"Sou a favor, sim."

"E por que é a favor?"

"Caralho, a gente já discutiu isso mil vezes…"

"Refresca minha memória, vai."

"Tá bom. Caramba… É o seguinte: eu acho que, em casos extremos, a pessoa que tem uma arma pode perder o controle emocional e fazer besteira."

"Sei. Você acha que o autodomínio é uma utopia então…"

"O completo autodomínio é."

"Você se lembra do que eu acho disso, né."

"Ah, lá vem você com aquele papo de que fez CPOR, de que é tenente da reserva, que tem arma e que sabe usar…"

"E não só."

"Ah, claro: você também se acha supercontrolado, vive repetindo que atiraria apenas na coxa ou no ombro de um assaltante e que nem uma briga de trânsito com um completo babaca iria te tirar do sério…"

"E você duvida disso."

"Duvido! Duvido meeeesmo. Acho que todo mundo tem seu limite."

"Acha mesmo?"

"Acho."

"A gente pode fazer um teste."

"Que teste?"

"Sai com minha ex-namorada e fica com ela. Juro que tentarei me controlar. Vamos ver quem tem razão."

"Por acaso isto é uma ameaça, é?"

"Claro que não — é uma experiência. Você parece acreditar muito na sua tese. Eu, por exemplo, acredito apenas que essa garota foi, ou é, sei lá… enfim, que ela foi importante pra mim."

"Hum."

"E então? Topa ver qual de nós tem razão sobre o autodomínio?"

O outro deu um sorriso amarelo. No dia seguinte, mal cumprimentou a garota ao vê-la na portaria do prédio…

4:08 pmUm papo estranho

 

"Meus velhos amigos estão no Facebook, mas nunca conversam comigo."

"Os meus tampouco, na verdade, nem respondem minhas mensagens diretas."

"Os meus respondem no máximo com um ‘sim’, um ‘não’ ou um ‘talvez’."

"Por que será?"

"Ah, deve ser por causa de política ou de religião. Com o tempo as pessoas vão notando as diferenças de opinião e vão se afastando. Cada macaco no seu galho."

"Muito chato isso."

"Nem me fala."

"Mas acho que comigo isso acontece por outras razões…"

"Por exemplo?"

"Ah, a maioria parou de falar comigo depois que entrei numa festa armado, atirando em todo mundo."

"Como é?!"

"Sério, mas não matei ninguém não. Era um revólver de espoleta."

"Ah, bom…"

"Mas ninguém achou graça. Com a paranóia geral, ficaram foi putos, pensando que era de verdade. Teve gente que se jogou debaixo da mesa; muito engraçado. A namorada de um amigo meu me xingou pra caramba, aí chamei ela de puta e tal."

"Credo."

"Ah, mas era uma vagabundinha mesmo. Já tinha dado pra todo mundo, só ele não sabia. Até aquele momento, claro. E sobrou pra mim: o cara me encheu de porrada."

"Puts…"

"Pelo menos não foi como numa outra festa, onde servi um space cake pra galera."

"Que que é isso?"

"Um bolo feito de maconha, porra."

"Ah, tá…"

"Aí sim quiseram me matar… Todo mundo alucinando e tal. Chamaram a polícia, imagine. Esse pessoal careta, quando finalmente fica louco, perde as estribeiras…"

"Você parece ser meio psico, né."

"Psico? Só eu?"

"Bom, eu nunca fiz esse tipo de coisa. No máximo declaro abertamente minhas posições sobre política, religião…"

"E só eu sou psicótico?"

"E o que há de psicótico em assumir minhas idéias numa rede social?"

"Bom, nisso não há nada de psicótico, mas, se você já se esqueceu, estamos ambos com o pau de fora conversando no Chatroulette.com…"

"Hum, é verdade. Já tinha até abstraído. Mas é que, caramba, só tem pau de fora aqui e as garotas nunca conversam com a gente."

"Tá, mas é injusto, numa situação como essa, eu ser o único psicótico…"

"Ok, ok, me desculpa."

"Pelo menos a gente consegue conversar, ao contrário do que ocorre com nossos antigos amigos."

"Isso é verdade."

"A gente podia se adicionar no Facebook…"

"Tá louco, meu! Você acha que vou adicionar um cara de quem só vi o pau! Tá achando que sou bicha? Vai se ferrar, cara!"

"Ah, vai você, seu idiota!"

E então ambos apertaram no "Next".

7:55 amO amigo do escritor

 

Ui, ele é escritor!

"E aí? Leu o livro que lhe dediquei?"

"Ué, você me dedicou um livro?"

"Puts, quantas vezes terei de repetir que dediquei? Umas mil, setecentas e vinte e três vezes? Caralho, e olha que já faz dois anos que o publiquei!"

"Cadê o livro?"

"Na loja, claro. No site. Você nem comprou, né."

"E ainda preciso comprar?"

"Como é?! É óbvio que precisa!! Eu lhe dediquei um livro e ainda espera ganhá-lo de graça?! Quer comer minha bunda também? A da minha namorada? Que figura… Cobra caro cada segundo do trabalho que faz mas quer meu trabalho de graça… Depois ainda tem coragem de me dizer que escolhi uma carreira que não dá dinheiro…"

"Se você me dedicou, devia me dar o livro."

"Não acredito que você falou isso… Não acredito… Eu NÃO TENHO o livro! Eu apenas o escrevi. Não tenho dinheiro sobrando pra ficar comprando meu próprio livro só para dá-lo aos amigos."

"Credo, que mau humor…"

"Mau humor vírgula. Quer saber? Não dedico livro pra mais ninguém. Gente mais indiferente, credo."

"Se você não tem dinheiro pra me dar o livro, o problema não é meu…"

"A questão não é essa. Meu dinheiro é para outras coisas mais urgentes. Não é pra dar livro pra quem não o quer ler. Aliás, já coloquei a versão em ebook no seu iPad mil anos atrás. E de graça! Não é possível que não o viu no iBooks. Ou agora vai dizer que só lê livro de papel?"

"Não. Na verdade, não gosto de literatura nacional…"

"Certo, certo. Vai se ferrar então. Vai ver o BBB. Cada uma que a gente tem de ouvir…"

Enquanto o escritor sai, pisando duro, o outro, um enorme sorriso no rosto, volta a abrir o livro do amigo. De papel. Já está na página 77…

(Publicado no Digestivo Cultural.)