4:08 pmUm papo estranho

 

"Meus velhos amigos estão no Facebook, mas nunca conversam comigo."

"Os meus tampouco, na verdade, nem respondem minhas mensagens diretas."

"Os meus respondem no máximo com um ‘sim’, um ‘não’ ou um ‘talvez’."

"Por que será?"

"Ah, deve ser por causa de política ou de religião. Com o tempo as pessoas vão notando as diferenças de opinião e vão se afastando. Cada macaco no seu galho."

"Muito chato isso."

"Nem me fala."

"Mas acho que comigo isso acontece por outras razões…"

"Por exemplo?"

"Ah, a maioria parou de falar comigo depois que entrei numa festa armado, atirando em todo mundo."

"Como é?!"

"Sério, mas não matei ninguém não. Era um revólver de espoleta."

"Ah, bom…"

"Mas ninguém achou graça. Com a paranóia geral, ficaram foi putos, pensando que era de verdade. Teve gente que se jogou debaixo da mesa; muito engraçado. A namorada de um amigo meu me xingou pra caramba, aí chamei ela de puta e tal."

"Credo."

"Ah, mas era uma vagabundinha mesmo. Já tinha dado pra todo mundo, só ele não sabia. Até aquele momento, claro. E sobrou pra mim: o cara me encheu de porrada."

"Puts…"

"Pelo menos não foi como numa outra festa, onde servi um space cake pra galera."

"Que que é isso?"

"Um bolo feito de maconha, porra."

"Ah, tá…"

"Aí sim quiseram me matar… Todo mundo alucinando e tal. Chamaram a polícia, imagine. Esse pessoal careta, quando finalmente fica louco, perde as estribeiras…"

"Você parece ser meio psico, né."

"Psico? Só eu?"

"Bom, eu nunca fiz esse tipo de coisa. No máximo declaro abertamente minhas posições sobre política, religião…"

"E só eu sou psicótico?"

"E o que há de psicótico em assumir minhas idéias numa rede social?"

"Bom, nisso não há nada de psicótico, mas, se você já se esqueceu, estamos ambos com o pau de fora conversando no Chatroulette…"

"Hum, é verdade. Já tinha até abstraído. Mas é que, caramba, só tem pau de fora aqui e as garotas nunca conversam com a gente."

"Tá, mas é injusto, numa situação como essa, eu ser o único psicótico…"

"Ok, ok, me desculpa."

"Pelo menos a gente consegue conversar, ao contrário do que ocorre com nossos antigos amigos."

"Isso é verdade."

"A gente podia se adicionar no Facebook…"

"Tá louco, meu! Você acha que vou adicionar um cara de quem só vi o pau! Tá achando que sou bicha? Vai se ferrar, cara!"

"Ah, vai você, seu idiota!"

E então ambos apertaram no "Next".

3:50 amMárcia e o desconhecido do MSN

 

 

Márcia iniciou o MSN e a janela com o convite se abriu: um certo Alessandro queria adicioná-la. Era bonito na foto e, no texto do convite — “Oi, te achei interessante. Posso te adicionar?”—, havia o endereço do perfil dele no Facebook. Decidiu, pois, dar uma checada antes. Viu que ele tinha apenas uns quarenta amigos — o que lhe pareceu pouco, talvez estivesse há pouco tempo naquela rede social —, notou que ele morava e trabalhava na mesma cidade, que tinham muitos interesses em comum e o principal: pelas demais fotos via-se que era realmente um homem muito bonito, um sujeito a exalar um ar de confiança dos mais impressionantes. Claro, um piloto de helicóptero — uau! — não podia ser alguém sem auto-estima. O aparelho pode até preferir o combustível, mas os passageiros querem mesmo é alguém que lhes transmita segurança.

“Ok”, pensou ela, “vou dar uma chance pra esse cara”, e aprovou o convite. Ele, que já estava online, iniciou o contato imediatamente.

“Oi, tudo bem?”

“Tudo, e com você?”, devolveu ela.

E iniciaram um longo diálogo que durou mais de três horas. Descobriram gostos em comum, falaram de livros, filmes, viagens, esportes radicais, gastronomia e até de astrologia tradicional, que a ela nunca interessou muito, mas que, em vista das descrições que ele lhe fazia com base apenas na data de nascimento dela, muito a tocou. Não era um homem qualquer. Via-se que conhecia os mais diversos temas. E como escrevia bem! Transmitia maturidade. Muito diferente de outros homens a quem ela dera uma brecha pela internet e que apenas a deixaram constrangida e irritada.

“Acho que estou prestes a cometer uma loucura”, escreveu ela, por fim.

“E que loucura seria essa?”

“Acho que vou aceitar seu convite para esse passeio de helicóptero.”

“Mesmo?”

“Mesmo.”

“Isso não é tão louco assim. Eu piloto muito bem. Estará em boas mãos.”

Ela hesitou alguns instantes. Mas preferiu abrir o jogo: “O problema é que sou casada”.

“Hum, entendo. Mas não se preocupe, vou respeitar você.”

“Rsrsrsrsrsrs”, digitou ela. “Mas é que estou pensando em me separar do meu marido. A loucura que estou falando é a seguinte: você consegue pilotar enquanto uma mulher chupa seu pau?”

Ele demorou segundos demais para responder. Ela quase se arrependeu da ousadia. Então ela viu que ele digitava algo. E leu: “Bom, como profissional, acho que seria uma péssima idéia e realmente não deixaria você fazer isso comigo em pleno vôo. Mas podemos, antes ou depois do passeio — você escolhe a ordem — podemos passar uma tarde num motel”.

“Perfeito!”, disse ela. “Quando?”

Marcaram o encontro. E desconectaram. Ela estava decidida a ter essa aventura. Estava cansada da distância que o marido deixara crescer entre eles, cansada da sua falta de iniciativa, do seu desânimo, das suas reclamações e de sua eterna depressão. Ele vivia colocando a culpa dessa vida atolada no governo, nos ex-sócios, na falta de visão do brasileiro comum, enfim, a culpa era sempre de um outro, ele jamais assumia sua falta de atitude. Ele, que fora um homem cheio de sonhos e planos, uma pessoa criativa e muito inteligente, depois que se tornara Fiscal Federal na fronteira, costumava agora passar metade do mês noutra cidade, sempre se comunicando de uma forma amargurada, seca, como se não gostasse mais da vida ou, quem sabe, como se não gostasse mais dela. Já Rafael, o marido, não sabia o que pensar. Para não perder sua esposa, que tanto amava, de fato trocara seus sonhos por um emprego estável que pagava bem. Quantas vezes ouvira os amigos a lhe dizer que precisava deixar de viver no mundo da Lua? Quantas vezes lhe disseram que uma família precisa de segurança material e não de viagens na maionese artística? Mas agora estava fora de si. Não sabia se matava a si próprio, se matava Márcia, ou se as duas coisas. Desde o casamento, quatro anos antes, ele vivia criando perfis e contas de MSN falsos para testar a fidelidade da esposa. Mas essa estranha mania se acentuara com esse novo emprego, que o mantinha longe, numa cidade aborrecida, cultivando meramente os ciúmes e a preocupação. Sua imaginação não o abandonava, vivia martirizando-o. Imaginava a esposa sozinha, ainda jovem, bonita, sem filhos, sem ter o que fazer na capital… Entrava então no Flickr, copiava mil fotos de diversos estranhos, ficava dias preparando um perfil no Facebook, convidando pessoas aleatoriamente para dar uma certa credibilidade àquela vida falsa sem amigos reais, e até aquele momento, por mais que tivesse tentado, na pele de um outro, seduzi-la com palavras, promessas, lascívia e até dinheiro, a esposa sempre se esquivara, alegando amar o marido e afirmando enfaticamente que havia aceitado o convite apenas por achar que se tratava de algum contato profissional. Desta vez, porém, ela não passou no seu teste.

7:55 amO amigo do escritor

 

Ui, ele é escritor!

"E aí? Leu o livro que lhe dediquei?"

"Ué, você me dedicou um livro?"

"Puts, quantas vezes terei de repetir que dediquei? Umas mil, setecentas e vinte e três vezes? Caralho, e olha que já faz dois anos que o publiquei!"

"Cadê o livro?"

"Na loja, claro. No site. Você nem comprou, né."

"E ainda preciso comprar?"

"Como é?! É óbvio que precisa!! Eu lhe dediquei um livro e ainda espera ganhá-lo de graça?! Quer comer minha bunda também? A da minha namorada? Que figura… Cobra caro cada segundo do trabalho que faz mas quer meu trabalho de graça… Depois ainda tem coragem de me dizer que escolhi uma carreira que não dá dinheiro…"

"Se você me dedicou, devia me dar o livro."

"Não acredito que você falou isso… Não acredito… Eu NÃO TENHO o livro! Eu apenas o escrevi. Não tenho dinheiro sobrando pra ficar comprando meu próprio livro só para dá-lo aos amigos."

"Credo, que mau humor…"

"Mau humor vírgula. Quer saber? Não dedico livro pra mais ninguém. Gente mais indiferente, credo."

"Se você não tem dinheiro pra me dar o livro, o problema não é meu…"

"A questão não é essa. Meu dinheiro é para outras coisas mais urgentes. Não é pra dar livro pra quem não o quer ler. Aliás, já coloquei a versão em ebook no seu iPad mil anos atrás. E de graça! Não é possível que não o viu no iBooks. Ou agora vai dizer que só lê livro de papel?"

"Não. Na verdade, não gosto de literatura nacional…"

"Certo, certo. Vai se ferrar então. Vai ver o BBB. Cada uma que a gente tem de ouvir…"

Enquanto o escritor sai, pisando duro, o outro, um enorme sorriso no rosto, volta a abrir o livro do amigo. De papel. Já está na página 77…

(Publicado no Digestivo Cultural.)

6:19 pmRainer Maria Rilke e as “falsas profissões semi-artísticas”

Rainer Maria Rilke

« Paris, dia posterior ao Natal, 1908

« O senhor deve saber, caro senhor Kappus, como estou alegre por ter em mãos esta sua bela carta. As notícias que me dá, reais e explícitas como são desta vez, parecem-me boas, e quanto mais considero o assunto, mais as percebo como sendo boas de fato. Na verdade, pretendia lhe escrever isso para a noite de Natal, mas, em função do trabalho variado ao qual dedico minha vida ininterruptamente neste inverno, a velha festa chegou tão depressa que mal tive tempo para tomar as providências necessárias, muito menos para escrever.

« Entretanto pensei no senhor muitas vezes nesses dias festivos e fiquei imaginando como devia estar em seu forte solitário, entre as montanhas isoladas, sobre as quais se precipitam aqueles grandes ventos do sul, como se quisessem devorá-las.

« Deve ser imenso o silêncio em que tais ruídos e movimentos têm lugar. E quando se pensa que a tudo isso ainda se acrescenta a presença do mar longínquo, ressoando talvez como o tom mais íntimo daquela harmonia pré-histórica, só se pode desejar ao senhor que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em sua pessoa a grandiosa solidão que não poderá mais ser riscada de sua vida. Essa solidão permanecerá e atuará, de modo decisivo e sutil, em tudo o que o senhor tem a experimentar e a fazer, como uma influência anônima, como o sangue de antepassados que percorre as nossas veias continuamente, compondo com o nosso próprio sangue o que somos de único e irrepetível a cada nova guinada de nossa vida.

« Sim, alegra-me que o senhor tenha essa existência firme e manifesta, esse título, esse uniforme, esse serviço, tudo de palpável e delimitado que, em tais circunstâncias, com uma guarnição isolada e não muito numerosa, ganha seriedade e necessidade. Acima do caráter brincalhão e da vadiação que fazem parte da profissão militar, tudo isso significa uma aplicação diligente e não só permite, mas justamente educa uma atenção independente. O fato de nos encontrarmos em situações que trabalham em nós, que de tempos em tempos nos põem diante de grandes coisas da natureza, é tudo que se faz necessário.

« Também a arte é apenas um modo de viver, e é possível se preparar para ela sem saber, vivendo de uma maneira ou de outra. Em tudo o que é real há mais proximidade dela do que nas falsas profissões semi-artísticas que, ao simular uma proximidade da arte, na prática negam e atacam a existência de qualquer arte. Por exemplo, todo o jornalismo faz isso, assim como quase toda a crítica e três quartos do que se chama e pretende ser chamado de literatura. Alegra-me, em suma, que o senhor tenha superado o perigo de cair nessa armadilha e se encontre em meio a uma realidade bruta, solitário e corajoso. Espero que o próximo ano o mantenha assim e o fortaleça.

« Sempre seu, Rainer Maria Rilke.»

____
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke.

5:40 pmDrummond e Pessoa: novas gravações

Adicionei mais algumas gravações — feitas por mim, claro — de textos e poemas de Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. Não deixe de ouvir outras na página de áudio do blog.

Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade:

  •   Receita de Ano Novo (1,6 MiB, 19 hits)

  • Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Passagem das Horas (a), de Fernando Pessoa:

  •   Passagem das Horas (a) (7,2 MiB, 39 hits)

  • Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Minha pátria é a língua portuguesa, de Fernando Pessoa (Bernardo Soares):

Trecho do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa. (Gravado durante uma ressaca. Sim, prefiro gravar com voz de ressaca.)

  •   Minha pátria é a língua portuguesa (3,6 MiB, 29 hits)

  • Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

3:30 pmNelson Rodrigues, Gustavo Corção e a bacanal…

Nelson Rodrigues

SÓRDIDO

Começa perguntando:

— Topas uma farrinha hoje?

Do outro lado, Camarinha boceja:

— Hoje não posso. Outro dia.

E o Nonato: — Escuta, seu zebu. Tem que ser hoje. Vamos hoje. Escuta, Camarinha. Eu acabo de ler o Corção. Deixa eu falar. E quando leio o Corção tenho vontade de fazer bacanais horrendas, bacanais de Cecil B. de Mille!

Novo bocejo do Camarinha:

— Não faz piada!

Com alegre ferocidade, Nonato continua: — “Piada, vírgula! Batata!”. Sua tese era a de que o Corção “compromete os valores que defende”.

E insistia, com jucunda agressividade:

— Por causa do Corção já desisti da vida eterna. Já não quero mais ser eterno, percebeste? Quando penso na virtude do Corção, eu prefiro, sob a minha palavra de honra: prefiro ser um canalha abjeto!

O Camarinha achava graça. Por fim, admitiu:

— Está bem. Vamos fazer a farra. Levo aquelas duas garotas.

— Leva. E olha: — rachamos as despesas.

O LANTERNEIRO

Deixa o telefone e anuncia para os companheiros: — “Hoje vou fazer uma bacanal de Cecil B. de Mille!”.

Uma datilografa, de óculos e maus dentes, sorri-lhe, melíflua: — “O senhor gosta de uma boa pândega!”.

Foi aí que, num repelão teatral, Nonato puxa do bolso o artigo do Corção. Esfrega-o na cara dos colegas:

— Vê como o artigo do Corção cheira mal!

A datilógrafa (ainda por cima dentuça) geme, extasiada: — “O senhor é um número! Uma bola!”.

E, então, com uma falsa gravidade, o rapaz estende-lhe o recorte:
— Fora de brincadeira, a senhora leia! Por obséquio, leia. Depois me diga se tenho ou não tenho razão. Certas virtudes fedem. A do Corção é dessas!

Do fundo do escritório, veio o Zé Geraldo, tropeçando nas cadeiras. Era um “lanterneiro” frenético. Começa:

— Você, olha! Um momento! O Corção está muito acima de você. Muito acima. Você não tem nem competência para entender o Corção!

Com um alegre tom polêmico, o outro replicava:

— Depois de ler o Corção, eu tenho vontade de roubar galinhas! De agarrar mulher no peito, “à galega”! E, se hoje vou fazer uma farra sórdida, agradeça ao Corção!

Ao lado, meio atônita, a datilógrafa ouvia só. Instintivamente, farejou o recorte. E, fosse por sugestão ou por outro motivo qualquer, achou que o artigo exalava realmente um odor esquisito.

O  lanterneiro” estrebucha: “Sórdido!”.

Ao que Nonato replicou na sua fúria radiante:

— A minha sordidez fede menos que a virtude do Corção!


A BACANAL

A briga deu em nada. Às seis horas sai o Nonato, às carreiras. Encontra-se com o Camarinha, na esquina de México com Araújo Porto Alegre. O outro parecia lúgubre.

Rosna:

— Mixou.

— O que é que mixou?

— A farra.

Protesta: — “Mas não me diga uma coisa dessas! Eu já estava todo engatilhado!”.

Contou que lera o Corção e que o artigo lhe dera uma violenta nostalgia do excremento. O outro explicava, com certo humor:

— Eu já sou normalmente sórdido, mesmo sem ler o Corção. Mas o caso é o seguinte: — uma das pequenas, a menorzinha, comeu uma empada que fez mal e…

Nonato pôs as mão na cabeça: — “Que peso! Que azar!”. Caminhando com o amigo em direção ao “Pardelas”, fazia-lhe apelos:

— Arranja outra! Outras! Tu conheces todo mundo!

— Dou um jeito — prometeu o Camarinha.

Entram no “Pardelas”, sentam-se. Dentro em pouco, estão bebendo. Mais uns quinze, vinte minutos e o chope começa a atuar nos dois. Nonato continua na idéia fixa:

— Por causa do Corção, já chutei a vida eterna. Prefiro apodrecer dignamente.

Estão semibêbados. Súbito, o Camarinha levanta a cabeça: — Descobri. Tenho uma mulher pra ti. Uma cara. Boa pra burro.

Com o olhar apagado, quer saber: — “Quem é?”.

Camarinha passa as costas da mão na boca encharcada. Disse (ri pesadamente):

— Surpresa.

O próprio Camarinha paga a despesa. Saem, com um equilíbrio meio deficiente. Nonato faz perguntas: “Onde é? Eu conheço?”. A resposta foi a mesma:

— Surpresa.

Tomam um táxi. Nonato insiste: “Diz logo! Não chateia!”.

O outro reage, ofendido: — “Você confia ou não confia em mim?”.

Respondeu que confiava. Mas o Camarinha era um bêbado insistente:

— Se não confia, a gente salta!

— Confio. Em você, confio. Juro.

Quando param, Nonato dormia no ombro do Camarinha. Este teve de sacudi-lo. Pagam e descem. Nonato olha em torno. Reconhece a praça Saenz Peña. Com a vista turva e as pernas bambas, é puxado pelo amigo. Apesar de tudo, Camarinha é o mais sóbrio. Dobram uma esquina. Nonato, que pouco andava por aqueles lados, estava perdido. Súbito, Camarinha estaca: — “É aqui”. Crispa a mão no braço do outro e baixa a voz:

— Eu quero me vingar dessa cara. Eu te apresento e olha: — antes de sair, você dá a ela cinco cruzeiros. Cinco. Eu quero humilhar. Dá-lhe cinco cruzeiros. Se não tem trocado, toma aqui. Olha. Aqui, cinco cruzeiros. Toma. Segura.

Nonato embolsa a cédula. Empurra o portão e entram. Batem. Uma moça (linda, linda) abre. Camarinha a afasta, com um palavrão. Nonato parou:

— Mas essa é tua mulher!

Ela não se mexe, firme, ereta. Camarinha ri pesadamente:

— É minha mulher. Me traiu. Eu descobri e todo dia trago um. Ouviu? Trago um e o sujeito paga cinco cruzeiros. Hoje é você. Entra ali. Naquela porta. Ali.

Sem uma palavra, a mulher foi na frente. Nonato tem um esgar de choro: —“Mas é tua esposa!”.

O outro sacode: “Vai ou te arrebento!”.

Empurra-o. Nonato caminha, entra. A mulher fecha a porta à chave. Olham-se. Ela espera. Nonato começa:

— Eu não tocarei na senhora. Não tocarei.

E, súbito, cai-lhe aos pés. De joelhos, abraçado às suas pernas, repetia: — “Minha santa! Oh, minha santa!”. Na sua tristeza quase doce, ela passou-lhe, de leve, a mão pela cabeça.

________

Conto extraído do livro A vida como ela é… — O homem fiel e outros contos, de Nelson Rodrigues

 

Aliás, cá entre nós, esse livro do Nelson Rodrigues me lembrou um comentário do Mário Ferreira dos Santos, no livro A invasão vertical dos bárbaros, a respeito dos literatos brasileiros. Estava na cara que se referia a Nelson Rodrigues… :^)

4:02 pmO Outsider: o drama moderno da alienação e da criação – Colin Wilson

Colin Wilson

« A obra de T. E. Lawrence introduziu novas implicações em nosso estudo dos “problemas do Outsider”, que ficarão mais claros ao revermos o caminho percorrido até agora. Lawrence tem características em comum com todos os Outsiders que comentamos, e nele podemos ver o ponto para onde alguns deles tendiam.

« Com Barbusse, pudemos ver que o problema do Outsider é o problema da negação da auto-expressão. Isso nos leva a perguntar se o Outsider é, conseqüentemente, um problema meramente sociológico. A introdução, no folheto de H. G. Wells, de um aspecto claramente não-sociológico nos levou, naturalmente, a Roquentin, onde constatamos que o problema é, de fato, metafísico.

« Camus e Hemingway ressaltaram a sua natureza prática. É o problema de viver; o problema de esquema ou finalidade da vida. O Outsider é aquele que não pode aceitar a vida tal como ela é, que não pode considerar sua existência, ou a de qualquer outro, como necessária. Ele vê “muito fundo, e demais”. É ainda uma questão de auto-expressão.

« Em The Secret Life vemos o Outsider separado das outras pessoas por uma inteligência que impiedosamente destrói os valores delas e o impede de se expressar pela incapacidade de recolocar novos valores. Seu problema é de “Vanitatum vanitas” do Eclesiastes; nada vale a pena ser feito.

« O Outsider romântico ampliou a abordagem ao mostrar que o problema não é necessariamente de homens desiludidos. Em um nível diferente, o romântico vive o problema em seu esforço por dar corpo ao ideal romântico. A conclusão de Hesse foi: mais auto-análise, “para atravessar de novo o inferno do ser interior”. O Outsider precisa se conhecer mais. Isso implica o caminho de Roquentin e o caminho de Mersault; o caminho da análise metafísica e o caminho da aceitação da vida física. Mas o fracasso final, tanto de Goldmund como do Magister Ludi, os caminhos da carne e do espírito, nos deixam diante da afirmação de Strowde: Nada vale a pena ser feito, nenhum caminho é melhor do que outro.

« É T. E. Lawrence quem finalmente indica o caminho da saída para o impasse. Os outros aceitaram como um problema de uma única variável, por assim dizer. Um “caminho” precisa ser procurado. A questão “um caminho para quem?” seria respondida por Roquentin ou Strowde: “Um caminho para mim, obviamente”. Lawrence deu um grande passo à frente: “Você não é o que pensa ser”. Em vez de dizer: Nada vale a pena ser feito, dever-se-ia dizer: “Eu não sou digno de fazer qualquer coisa”. A pergunta de Oliver Gauntlett: “Onde está o inimigo?” foi respondida por Lawrence: “Você pensa que é você”. A verdadeira guerra de Oliver é a guerra contra si mesmo. Lawrence estabeleceu a distinção vital em uma sentença: “De fato, não gostava daquele eu mesmo que eu podia ver e ouvir”. “Ele não é ele mesmo”, dissera o professor de Kennington. Lawrence não se divide em duas partes como Haller para depois dizer: “O homem odeia o lobo”. Lawrence odiava o complexo todo de corpo, mente, emoções, e suas idéias a respeito de si mesmo que constituíam uma proteção constante, sufocante, em torno de seus impulsos vitais.

« Esta é uma situação que de forma alguma é desconhecida dos santos e dos místicos; a infelicidade de Lawrence é não ter encontrado, até agora, um biógrafo qualificado para tratar de seus conflitos espirituais. As noções correntes de um “enigma de Lawrence” culminaram com a tentativa feita por Aldington de explicar Lawrence em termos da inadequada psicologia de Freud. Mas o “enigma de Lawrence” foi esclarecido por ele mesmo em The Seven Pillars. O homem não é uma unidade; é muitas. Entretanto, para que qualquer coisa valha a pena ser feita, é preciso que ele se torne uma unidade. O reino dividido precisa ser unificado. A enganosa visão de personalidade que nossa civilização ocidental promove e glorifica aumenta a divisão interior; Lawrence reconheceu isto como sendo o inimigo. Portanto, a guerra contra esta descoberta é, inevitavelmente, uma revolta contra a civilização ocidental.

« O feito de Lawrence nos leva mais adiante ainda. A guerra não deve ser travada pela mera razão. A razão deixa a personalidade à vontade em seu próprio campo. O poder da vontade é imenso quando apoiado pela intenção moral. O único papel da razão é o de estabelecer a intenção moral pela auto-análise. Uma vez definido o inimigo, a vontade pode operar e o limite de seu poder sobre o corpo é só o limite da intenção moral que o apóia.

« Se o nosso raciocínio estiver correto, o problema do Outsider não é novo; Lawrence mostra que a história dos profetas de todos os tempos segue um esquema: nascidos numa civilização, eles rejeitam os seus padrões de bem-estar material e se retiram para o deserto. Quando voltam, é para pregar a rejeição do mundo: a intensidade do espírito contra a intensidade da segurança material. As angústias do Outsider são as dores de dente do profeta. Ele se refugia em seu quarto, como uma aranha num canto escuro; vive sozinho, quer evitar as pessoas. “Para os pensadores do deserto, o impulso para Nitria sempre foi irresistível.” Ele pensa, analisa, “desce dentro de si mesmo”: “Não porque provavelmente encontrassem Deus habitando lá, mas porque na solidão eles ouviam melhor a palavra viva que traziam consigo”. Aos poucos a mensagem emerge. Não necessariamente uma mensagem positiva; e por que haveria de ser, se o impulso que impele para ela é negativo — o desgosto?

« O profeta é um homem de integridade espiritual maior que a de seus semelhantes; a tibieza deles o revolta e ele se sente impelido a dizer-lhes isso. Em seu estágio embrionário como Outsider ele não se conhece suficientemente bem para compreender a força propulsora que está por trás de seus sentimentos. Por esta razão, sua maior ocupação está me pensar e não em fazer. Nos Outsiders de que vamos tratar no resto desde livro, observaremos a emergência do elemento distintamente profético que habita o Outsider.»

* * *

(…)

« Hulme considerava o seu Speculations como um prolegômeno à leitura de Pascal. A minha aspiração, ao escrever este estudo sobre o Outsider, era a de fornecer uma introdução a um campo ainda mais vasto, a um campo limitado por Shaw e Gurdjieff, de um lado, e por um protestante ortodoxo como Kierkegaard, ou um católico ortodoxo como Newman, de outro. Com tal objetivo, de fato cobri boa parte do assunto já brilhantemente tratado no livro de Reinhold Niebuhr, Natureza e Destino do Homem e em várias obras de Berdyaev; devo reconhecer minha dívida para com eles bem como para com os impressionantes ensaios de Eliot sobre o humanismo e a atitude religiosa (dívida, aliás, que tenho em comum com muitos outros da minha geração). Revendo o passado, acho que provavelmente nenhum livro de cem mil palavras poderia atingir este objetivo. Se este livro puder servir de estímulo a uma releitura de Shaw, terá cumprido plenamente sua finalidade. Na época em que este livro foi escrito, Shaw sofria um processo de desvalorização sem paralelos desde o esquecimento de Shakespeare no século XVII. Tal desvalorização de um grande mestre religioso seria o pior sintoma possível de nossa época, não fosse o crescente interesse pelos pensadores existencialistas como Berdyaev, Kierkegaard, Camus. Para que a “nova idade religiosa” de Hulme surja antes que nossa civilização se destrua a si mesma, seria necessário um esforço intelectual de gestação que envolvesse todo o mundo civilizado.»

« Restam ainda muitas dificuldades que não podem ser abordadas aqui. O problema que se coloca para a “civilização” é o da adoção de uma atitude religiosa que possa ser assimilada tão objetivamente quanto as manchetes dos jornais de domingo passado. Para o indivíduo, porém, o problema é exatamente o inverso: o esforço consciente de não limitar a quantidade de experiência vista e tocada; o intolerável esforço de expor as áreas sensíveis do ser ao que talvez possa feri-las; a tentativa de ver como um todo, embora o instinto de autopreservação se debata contra a dor da expansão interior, e todos os impulsos de preguiça espiritual se ergam em vagas de sono a cada nova tentativa. O indivíduo inicia esta longa tentativa como um Outsider; e pode terminá-la como um santo.»
_______

Trecho de O Outsider: o drama moderno da alienação e da criação, de Colin Wilson.

5:24 pmFernão Mendes Pinto conta por que fugiu apavorado do Reino de Quedá

fmendes_pinto_selo_

Do que passei até chegar ao reino de Quedá, na costa da terra firme de Malaca, e do que aí me aconteceu

Ao outro dia seguinte pela manhã nos partimos deste ilhéu de Fingau, e corremos a costa do mar Oceano em distância de vinte e seis léguas, até abocar o estreito de Minhagaruu, por onde tínhamos entrado, e passados à contracosta destoutro mar mediterrâneo, seguimos nossa derrota ao longo dela até junto de Pullo Bugay, donde atravessamos a terra firme, e aferrando o porto de Junçalão, corremos com ventos bonanças dois dias e meio, e fomos surgir no rio de Parlés do reino de Quedá, no qual estivemos cinco dias surtos, por nos não servir o vento, e neles o Mouro e eu, por conselho de alguns mercadores da terra fomos ver o Rei, com uma adiá ou presente (como lhe nos cá chamamos) de algumas peças suficientes a nosso propósito, o qual nos recebeu com mostras de bom gasalhado. Neste tempo que aqui chegamos estava el-Rey celebrando com grande aparato e pompa fúnebre de tangeres, bailes, gritas, e de muitos pobres a que dava de comer, as exéquias da morte de seu pai, que ele matara às punhaladas para se casar com sua mãe, que estava já prenhe dele, e por cuidar as murmurações que sobre este horrendo e nefandissíssimo caso havia no povo, mandou lançar pregão, que sob pena de gravíssimas mortes ninguém falasse no que já era feito, por razão do qual, nos disseram aí, que por outro novo modo de tirania tinha já mortos os principais senhores do reino, e outra grande soma de mercadores, cujas fazendas mandou que fossem tomadas para o fisco, o que lhe importou mais de dois contos d’ouro, e com isto era já neste tempo que aqui cheguei, tamanho o medo em todo o povo, que não havia pessoa que ousasse soltar palavra pela boca. E porque este mouro Coja Ale que vinha comigo, era de sua natureza solto da língua, e muito atrevido em falar o que lhe vinha à vontade, parecendo-lhe que por ser estrangeiro, e com nome de feitor do Capitão de Malaca, poderia ter mais liberdade para isto que os naturais, e que o Rei lho não acoimaria a ele como fazia aos seus, sendo um dia convidado doutro Mouro que se dava por seu parente, mercador estrangeiro natural de Patane, parece ser segundo me depois contaram que estando eles no meio do banquete, já bem fartos, vieram os convidados a falar neste feito tão publicamente, que ao Rei, pelas muitas escutas que nisto trazia, lhe deram logo rebate, o qual sabendo o que passava, mandou cercar a casa dos convidados, e tomando-os a todos, que eram dezessete, lhos trouxeram atados. Ele em os vendo, sem lhes guardar mais ordem de justiça, nem os querer ouvir de sua boa ou má razão, os mandou matar a todos com uma morte cruelíssima, a que eles chamam de gregoge, que foi serrarem-os vivos pelos pés, e pelas mãos, e pelos pescoços, e por derradeiro pelos peitos até o fio do lombo, como os eu vi depois a todos. E temendo-se el-Rey que pudesse o Capitão tomar mal mandar-lhe ele matar o seu feitor na volta dos condenados, e que por isso lhe mandasse lançar mão por alguma fazenda sua que lá tinha em Malaca, me mandou logo naquela noite seguinte chamar ao jurupango onde então estava dormindo, sem até aquela hora eu saber alguma coisa do que passava. E chegando eu já depois da meia-noite ao primeiro terreiro das casas, vi nele muita gente armada com terçados, e cofos, e lanças, a qual vista sendo para mim coisa assaz nova, me pôs em muito grande confusão, e suspeitando eu que poderia ser alguma traição das que já em outros tempos nesta terra houve, me quisera logo tornar, o que os que me levavam não consentiram dizendo, que não houvesse medo de coisa que visse, porque aquilo era gente que el-Rey mandava para fora a prender um ladrão, da qual reposta confesso que não fiquei satisfeito, e começando eu já neste tempo a tartamelear, sem poder quase pronunciar palavra que se me entendesse, lhes pedi assim como pude, que me deixassem tornar ao jurupango em busca de umas chaves que me lá ficaram por esquecimento, e que lhes daria por isso quarenta cruzados logo em ouro, a que eles todos sete responderam, nem que nos dês quanto dinheiro há em Malaca, porque se tal fizermos, nos mandará el-Rey cortar as cabeças. Neste tempo me cercaram já outros quinze ou vinte daqueles armados, e me tiveram todos fechado no meio: até que a manhã começou a esclarecer, que fizeram saber a el-Rey que estava eu ali, o qual me mandou logo entrar, e só Deus sabe como o pobre de mim então ia, que era mais morto que vivo. E chegando ao outro terreiro de dentro, o achei em cima de um elefante, acompanhado de mais de cem homens, afora a gente da guarda, que era em muito mor quantidade, o qual quando me viu da maneira que vinha, me disse por duas vezes, jangão tacor, não tenhas medo, vem para cá, e saberás o para quê te mandei chamar, e acenando com a mão fez afastar dez ou doze daqueles que ali estavam, e a mim me acenou que olhasse para ali, eu então olhando para onde ele me acenava, vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos, todos metidos num charco de sangue, um dos quais conheci que era o mouro Coja Ale feitor do Capitão que eu trouxera comigo, da qual vista fiquei tão pasmado e confuso, que como homem desatinado me arremessei aos pés do elefante em que el-Rey estava, e lhe disse chorando, peço-te senhor que antes me tomes por teu cativo, que mandares-me matar como a esses que aí jazem, porque te juro à lei de Cristão que o não mereço, e lembro-te que sou sobrinho do Capitão de Malaca, que te dará por mim quanto dinheiro quiseres, e aí tens o jurupango com muita fazenda, que também podes tomar se fores servido; a que ele respondeu, valha-me Deus, como? tão mau homem sou eu que isso faça? não hajas medo de coisa nenhuma, assenta-te e descansarás, que bem vejo que estás afrontado, e depois que estiveres mais em ti te direi o porquê mandei matar esse mouro que trouxeste contigo, porque se fora Português, ou Cristão, eu te juro em minha lei que o não fizera, inda que me matara um filho; então me mandou trazer uma panela com água, de que bebi uma grande quantidade, e me mandou também abanar com um abano, em que se gastou mais de uma grande hora. E conhecendo ele então que estava eu já fora do sobressalto, e que podia responder a propósito, me disse, muito bem sei Português que já te diriam como os dias passados matara eu meu pai, o qual fiz porque sabia que me queria ele matar a mim, por mexericos que homens maus lhe fizeram, certificando-lhe que minha mãe era prenhe de mim, coisa que eu nunca imaginei, mas já que com tanta sem razão ele tinha crido isto, e por isso tinha determinado de me dar a morte, quis-lha eu dar primeiro a ele, e sabe Deus quanto contra minha vontade, porque sempre lhe fui muito bom filho, em tanto, que por minha mãe não ficar como ficam outras muitas viúvas, pobres e desamparadas, a tomei por mulher, e enjeitei outras muitas com que dantes fui cometido, assim em Patane, como em Berdio, Tanauçarim, Siaca, Iambé, e Andraguiré, irmãs e filhas de Reis, com que me puderam dar muito dote. E por cuidar murmurações de maldizentes que falam sem medo quanto lhe vem à boca, mandei lançar pregão que ninguém falasse mais neste caso. E porque esse teu mouro que aí jaz, ontem estando bêbado, em companhia de outros cães tais como ele, disse de mim tantos males que tenho vergonha de tos dizer, dizendo publicamente em altas vozes, que eu era porco, e pior que porco, e minha mãe cadela saída, me foi forçado por minha honra mandar fazer justiça dele, e de estoutros perros tão maus como ele. Pelo que te rogo muito como amigo, que te não pareça mal isto que fiz, porque te afirmo que me magoarás muito nisto, e se por ventura cuidas que o fiz para tomar a fazenda do Capitão de Malaca, crê de mim que nunca tal imaginei, e assim lho podes certificar com verdade, porque assim te juro em minha lei, porque sempre fui muito amigo de Portugueses, e assim o serei enquanto viver. Eu então ficando algum tanto mais desassombrado, conquanto não estava ainda de todo em mim, lhe respondi que sua alteza em mandar matar aquele mouro, fizera muito grande amizade ao Capitão de Malaca seu irmão, porque lhe tinha roubado toda sua fazenda, e a mim por isso já por duas vezes me quisera matar com peçonha, só por lhe eu não poder dizer as embrulhadas que tinha feitas, porque era tão mau perro que continuamente andava bêbado, falando quanto lhe vinha à vontade, como cão que ladrava a quantos via passar pela rua. Desta minha resposta, assim tosca, e sem saber o que dizia, ficou el-Rey tão satisfeito e contente, que chamando-me para junto de si me disse, certo que nessa tua resposta conheço eu seres muito bom homem, e muito meu amigo, porque de o seres te vem não te parecerem mal as minhas coisas, como a esses perros cães que aí jazem, e tirando da cinta um cris que trazia guarnecido douro, mo deu, e uma carta para Pero de Faria de muito ruins desculpas do que tinha feito. E despedindo-me então dele pelo melhor modo que pude, e com lhe dizer que havia ainda ali de estar dez ou doze dias, me vim logo embarcar, e tanto que fui dentro no jurupango, sem esperar mais um momento, larguei a amarra por mão, e me fiz à vela muito depressa, parecendo-me ainda que vinha toda a terra após mim, pelo grande medo, e risco da morte em que me vira havia tão poucas horas.

____

Este é o Capítulo XIX do livro Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. (Ortografia atualizada por Yuri Vieira.)

Este texto daria um ótimo filme, ¿não? Como se nota aí acima, o argumento já está prontinho. Aliás, os dois volumes da Peregrinação dariam vários filmes… (Leia mais sobre o livro aqui.)

4:25 amColin Wilson fala sobre a esposa de William Blake: “Uma tal mulher poderia ter salvo Nietzsche da insanidade”

Colin Wilson

« William Blake passou a vida em completa obscuridade; sua voz sempre teve um tom profético, mas ele nunca falou de um púlpito popular. Enquanto viveu, foi considerado louco, maníaco; nem mesmo seus amigos acreditavam em seu gênio. Blake não se perturbava; continuava trabalhando regularmente, produzindo seus quadros impopulares e seus poemas épicos menos populares ainda, vivendo como podia. Assumiu o saudável ponto de vista dos estóicos gregos, segundo o qual nada lhe faltava de que realmente precisava:

Tenho alegria mental e saúde mental
E amigos mentais e bens mentais
Tenho uma esposa que amo e que me ama
Tenho tudo menos riqueza material.

« A luta de Blake foi muito parecida com a de Nietzsche; e as semelhanças entre os dois na maneira de ver o mundo são espantosas, se considerarmos os oitenta anos de diferença entre o nascimento de um e de outro: Blake é contemporâneo do dr. Johnson, e Nietzsche, de Dostoiévski. Blake, em todo caso, teve a sorte de ter uma esposa que compartilhava de suas lutas, uma jovem absolutamente dócil que sempre viu o marido como um grande homem. Uma tal mulher poderia ter salvo Nietzsche da insanidade.

« A fama, acreditava Blake, era desnecessária para o gênio. O homem nasce só e morre só. Se ele permitir que suas relações sociais o enganem, levando-o a esquecer sua fundamental solidão, estará vivendo uma felicidade ilusória.»

______
Trecho de O Outsider, de Colin Wilson.

7:15 pmLiteratura e decomposição do idioma

Olavo de Carvalho

« Dou graças aos céus por não ser escritor de ficção nos dias que correm, quando se tornou impossível conciliar linguagem coloquial e correção da gramática.

« Leiam Marques Rebelo ou Graciliano Ramos e entenderão o que estou dizendo. Os personagens deles falavam com extrema naturalidade sem incorrer em solecismos. Hoje em dia, tudo o que se pode fazer é escrever como gente nos trechos narrativos e descritivos, deixando que nos diálogos os personagens falem como macacos nerds. É a literatura exemplificando o abismo entre a linguagem culta e a fala cotidiana. Mas a existência desse abismo prova, ao mesmo tempo, a inutilidade social de uma literatura que já não poderia ser compreendida pelos seus próprios personagens.

« Antigamente esse dualismo extremo de linguagem culta e vulgar só aparecia quando o autor queria documentar a fala das classes muito pobres, afastadas da civilização por circunstâncias econômicas ou geográficas insanáveis.

« Na era Lula tornou-se necessário usá-lo para reproduzir a fala de um presidente da República – e, depois, a de senadores, deputados, líderes empresariais e tutti quanti. Um jornalista decente já não pode escrever na linguagem de seus entrevistados. Não há mais medida comum entre a consciência e os dados que ela apreende. Isso é o mesmo que dizer que já não é mais possível elaborar intelectualmente a realidade, ao menos sem improvisar arranjos linguísticos que estão acima do alcance da maioria.»
_____

Olavo de Carvalho, no artigo O Brasil falante

Tenho sofrido com esse pobrema

11:22 amFinanciando projetos criativos

Quem já entrou com algum projeto numa dessas inúmeras leis de incentivo sabe o quão desestimulante é a burocracia que envolve o processo em todas as suas etapas. Sem falar do viés ideológico – canhoto, destro ou maneta – que costuma permear os critérios daqueles que aprovam ou rejeitam tais projetos. Daí ser uma boa notícia saber que já há, no Brasil, um serviço semelhante ao do Kickstarter, uma plataforma para buscar financiamento colaborativo a projetos que envolvem criatividade: o Catarse. Como funciona? Simples, basta você escrever um projeto para sua peça (ou filme, livro, exposição etc.), definir e expor o que promete dar em troca aos financiadores, gravar um vídeo no qual poderá esmiuçar a coisa toda com mais ênfase, e então publicar tudo isso no Catarse. Logo que o montante atingir o limite mínimo exigido, você receberá o dinheiro para viabilizar seu trabalho. Assim, seu sucesso dependerá tanto da sua capacidade de execução quanto da de divulgação e convencimento. Ou seja, você não dependerá de nenhum burocrata!

Se o cara abaixo tivesse recorrido a um serviço como esse, talvez não tivesse desistido do cinema…

_____
Publicado originalmente no Digestivo Cultural.

8:40 pmFaça gratuitamente o download dos meus ebooks nos formatos PDF, EPUB (Sony Reader, iPad, Positivo Alfa, etc.) e MOBI (Kindle, iPhone, Android, Blackberry)

A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau

Um livro de contos que satiriza todos os âmbitos da vida universitária.

A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio

Coletânea de contos, crônicas e um ensaio escritos entre 1993 e 2008. Todos os textos trazem – seja de modo explícito ou implícito – um pouco do clima apocalíptico que contagiou aqueles anos.

Caso você possua um iPad e prefira ler o livro em PDF, use este aplicativo de leitura gratuito.

5:29 amJoaquim Nabuco: o estilo do escritor está pronto aos vinte e um anos

Joaquim Nabuco

“Antes de ler Bagehot, eu tinha lido muito sobre a Constituição inglesa. Tenho diante de mim um caderno de 1869, em que copiava as páginas que em minhas leituras mais me feriam a imaginação, método de educar o espírito, de adquirir a forma do estilo, que eu recomendaria, se tivesse autoridade, aos que se destinam a escrever, porque, é preciso fazer esta observação, ninguém escreve nunca senão com o seu período, a sua medida, Renan diria a sua eurritmia, dos vinte e um anos. O que se faz mais tarde na madureza é tomar somente o melhor do que se produz, desprezar o restante, cortar as porções fracas, as repetições, tudo o que desafina ou que sobra: a cadência do período, a forma da frase ficará, porém, sempre a mesma. O período de Lafayette ou de Ferreira Viana, de Quintino ou de Machado de Assis, é hoje, com as modificações da idade, que são inevitáveis em tudo, o mesmo com que eles começaram. Está visto que eu não incluo nos começos de um escritor as tentativas que cada um faz para chegar à sua forma própria; o que digo é que o compasso se fixa logo muito cedo, e de vez, como a fisionomia. Nesse livro de minhas leituras de 1869, quarto ano da Academia, encontro no índice, com muita Escravidão e muito Cristianismo, muita Eloqüência inglesa, muito Fox e Pitt.”

_____

Minha Formação, de Joaquim Nabuco.

9:13 amAdmirável e só para selvagens, no SESC Copacabana (teatro)

Admirável e Só para Selvagens

O futuro já dura muito tempo no século 27, quando Bernard e Lenina se vêem imersos na experiência de um reality show. Confinados, vão lidar pela primeira vez, quem diria, com o impacto das próprias emoções. Isso porque eles fazem parte de uma experiência para mostrar como a vida funciona sem o Soma, a substância legalizada pelo Estado e que subtrai qualquer sensação de desconforto e angústia, trazendo felicidade perene aos cidadãos da Nova Ordem Mundial.

Bernard e Lenina são vigiados 24 horas por Mustafá Mond, um dos poderosos administradores do Estado Mundial, que prega a abolição da Arte, da Religião e do Amor em favor do bem-estar da comunidade. Apesar do discurso cético, Mustafá passa boa parte do tempo filosofando a respeito de Shakespeare e da Bíblia. Seu interlocutor é John, sujeito criado na não civilizada Reserva de Selvagens e que por isso tem uma visão de mundo humana e sensível.

É neste mosaico incomum de personalidades que se passa a peça Admirável e só para selvagens, direção de Hugo Rodas e Miriam Virna, que também integra o elenco junto com Alessandro Brandão.

Consagrada em Brasília, a peça estreou no Rio dia 7 de janeiro de 2011, na sala Multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana, RJ. A temporada vai até 30 de janeiro. Ingressos a R$ 16, classificação etária 14 anos. Admirável e só para selvagens é livremente inspirada inspirado no clássico Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932. Nestes 78 anos, a obra inspirou filmes, peças e inundou corações e mentes ao preconizar um mundo onde o consumo e a busca pelo prazer e pelos excessos ganhariam protagonismo. Do livro original, Miriam Virna e o dramaturgo Yuri Vieira retiraram o arcabouço principal e centraram a peça em quatro personagens. Miriam interpreta Lenina e Mustafá Mond, enquanto Alessandro interpreta Bernard e John, o Selvagem.

"Li este livro na adolescência e fiquei muito impactada, como, aliás, todas as gerações até hoje. Desde 2006 venho desenvolvendo o projeto que ganha forma definitiva agora com a estréia no Rio. Trata-se de uma novela futurista sobre temas surpreendentemente contemporâneos", destaca Miriam Virna que este ano montou "Fragmentos de Sonhos do Menino da Lua", no CCBB-RJ, com sucesso de crítica e público.

Apesar da aura futurista e tecnológica, o espetáculo tem como carro-chefe o trabalho dos atores. Ambos estão em cena sem o apoio de adereços, troca de figurinos ou saídas pela coxia. "É um trabalho que valoriza a interpretação e o texto." Dois elementos da encenação que dialogam e dão suporte à proposta são a iluminação – assinada pelo premiado Renato Machado – e a trilha, criada para o espetáculo e executada pelo DJ Quizzik. Acontece também um trabalho marcante de sonorização, através do uso de microfones que ampliam e modificam as vozes dos atores.

"Se na juventude ao ler este livro me surpreendi, hoje, aos 70 anos, percebo a atualidade brutal que a história propõe, a mensagem é mais forte agora do que antigamente", observa o consagrado diretor Hugo Rodas. Para o ator Alessandro Brandão, a peça faz um retrato do mundo atual. "As pessoas hoje não sabem como preencher as próprias vidas e mergulham no excesso de bebida, internet e droga, o que faz crescer a distância entre o que realmente é essencial", diz.

Sobre os diretores

Hugo Rodas, ganhador do Prêmio Shell de Direção pelo espetáculo "Dorotéia", é um dos diretores mais irreverentes do país. Trabalhou com Antônio Abujamra, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e com José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina. É Professor adjunto Notório Saber da Universidade de Brasília, onde leciona há mais de 15 anos e onde tem formado várias gerações de atores. Fixou residência em Brasília em 1975, onde tem realizado trabalhos importantes e inovadores. Seus mais recentes espetáculos fora da capital federal foram uma parceria com Antonio Abujamra (Os Demônios) e Denise Stoklos. Figura emblemática, Hugo Rodas é, sem dúvida, o grande nome de teatro em Brasília.

A brasiliense Miriam Virna é diretora de teatro de destaque na capital Federal. Radicada no Rio de Janeiro, Miriam foi premiada pelos espetáculos "As Ridículas de Molière" (2008) e "Contos de Alcova" (2006) pelo Prêmio SESC do Teatro Candango que levaram Melhor Espetáculo, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino e Melhor Direção. Cinco de seus espetáculos foram indicados entre as melhores produções em seus respectivos anos pelo jornal Correio Braziliense. Em 2010 realizou temporada do "Fragmentos de Sonhos do Menino da Lua" no CCBB, quando recebeu críticas favoráveis do JB, O Globo e Veja Rio. Miriam foi uma das diretoras convidadas a dirigir Hugo Rodas no espetáculo "7 x Rodas", que estreou em outubro de 2010 no CCBB Brasília.

Palavra do público

Mensagem do Rogério Favilla, músico e compositor carioca, cujo conteúdo ele me autorizou a divulgar:

Caro Yuri,
Assisti ao Admirável no sábado passado com minha esposita, e achei – desculpe o clichê – um trabalho de Admirável Teatro Novo! O texto e a textura da encenação, música (adorei o som), figurino, trabalho de corpo, o inteligente uso dos microfones e efeitos de voz, a trilha como elemento orgânico da montagem, nos envia imediatamente ao mundo huxleriano…
Congratulações sinceras, pela parte que te toca. Pretendo assistir de novo com meu filho adolescente.
Tenho visto tanta baboseira, tanta banalidade e vulgaridade nos palcos, que só tenho a dizer: até que enfim, Teatro!
Abraços
RoFavilla

Recomendação

Recomendação do filósofo Olavo de Carvalho, em seu programa de rádio online True Outspeak:

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Ficha técnica

Direção: Hugo Rodas e Miriam Virna
Direção de Produção: Miriam Virna
Produção Executiva: Claudia Charmillot
Assistente de produção: Gisela Munk
Adaptação e dramaturgia: Yuri Vieira e Miriam Virna
Elenco: Alessandro Brandão e Miriam Virna
Assistente de Direção: Patrícia Gois
Trilha sonora original (e operação): DJ Quizzik
Cenário: Hugo Rodas
Figurino e Visagismo: Marcus Barozzi
Iluminação: Renato Machado

Temporada até 30 de janeiro de 2010
Espaço Sesc | Sala Multiuso

Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160. Copacabana – RJ.
Tel. 21 2547-0156.
Classificação etária: 14 anos| Duração: 70 minutos
Sexta e sábado, às 20h. Domingo, às 19h.
Lotação: 60 pessoas
Ingressos: R$ 16 (inteira); R$ 8 (meia-entrada); R$ 4 (comerciários)

Página no FaceBook.

7:55 pmEça de Queiroz e as razões de Ulisses ao abandonar a mulher perfeita

von-kugelgen-erich-calypso-and-odysseus

« Era, com efeito, a hora em que homens mortais e deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dele as ninfas, servas da deusa, colocaram os bolos, os frutos, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num trono de ouro puro, a deusa recebeu da intendenta venerável o prato de ambrosia e a taça de néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sede, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando pensativamente o herói, soltou estas palavras aladas:

« – Oh! Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da pátria… Ah!, se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!… Mas desejas voltar à esposa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrelas puras…

« O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como costumava na Assembléia dos Reis, à sombra das altas popas, diante dos muros de Tróia, disse:

« – Oh deusa venerável, não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores de decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congênere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergéis, enquanto tu ao meu lado, pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, a ambrosia divinal. Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio… E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência de deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade; e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a força do meu entendimento! Oh deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que, como deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia de sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais:

« "Foi culpa tua, mulher!", erguendo, em frente à lareira, uma alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!

« Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de ouro vazia e serenamente a deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sobre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.

« No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o mar um vapor rúbido e dourado. Em breve os caminhos da ilha se cobriram de sombras. E sobre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses sem o desejo, e a deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.»

_______

Trecho do conto A Perfeição, de Eça de Queiroz.

Tudo indica que o salário de Calipso também era maior que o de Ulisses. Sem falar que, ao contrário dele, ela tinha curso superior. Sim, o novo sexo frágil não é tão novo assim…

7:15 amWilliam Somerset Maugham e o casal incompatível de O Fio da Navalha

William Somerset Maugham

- É aqui que vives? – perguntou Isabel. Ele riu baixinho ao ver a expressão do seu rosto.

- Sim. Moro aqui desde que vim para Paris.

- Mas por quê?

- É cômodo. Fica perto da Bibliothèque Nationale e da Sorbonne. – Larry apontou para uma poria que ela não notara. – Tem quarto de banho. Tomo o café da manhã aqui e geralmente janto naquele restaurante onde almoçamos hoje.

- É horrivelmente sórdido.

- Oh, não; está muito bom. Não desejo mais do que isto.

- Mas que tipo de gente mora aqui?

- Não sei. No sótão, alguns estudantes. Dois ou três solteirões, funcionários públicos; uma atriz do Odéon, aposentada; no outro quarto com casa de banho, a amante de um sujeito que a vem visitar de quinze em quinze dias, às quintas-feiras; e mais alguns forasteiros. É um lugar muito sossegado e familiar.

Isabel ficou um tanto desconcertada e, vendo que Larry disso se apercebera e achava graça, quase se melindrou.

- Que livro é aquele, enorme, ali sobre a mesa? – perguntou ela.

- Aquele? É o meu dicionário grego.

- Quê? – exclamou Isabel.

- Calma. Ele não tem garras.

- Estás a estudar grego?

- Estou. Por quê? Porque me deu vontade. – Larry fitava-a com um sorriso nos olhos e Isabel correspondeu a esse sorriso.

- Não achas que devias contar-me o que andaste a fazer todo este tempo que estiveste em Paris?

- Tenho lido muito. Oito ou dez horas por dia. Tenho ido a conferências na Sorbonne. Creio que li tudo quanto há de importante na literatura francesa, e posso ler o latim, prosa, pelo menos, com a mesma facilidade com que leio o francês. Claro que o grego é mais difícil. Mas tenho um ótimo professor. Antes de chegares, ia três noites por semana a sua casa.

- E qual a finalidade de tudo isto?

- Adquirir cultura – respondeu ele, sorrindo.

- Não me parece muito prático.

- Talvez não seja e, por outro lado, talvez seja. Mas é divertidíssimo. Não podes imaginar como é emocionante ler a Odisséia no original. A gente tem a impressão de que bastaria ficar na ponta dos pés e estender as mãos para tocar as estrelas.

Larry levantou-se, como que impulsionado pela excitação que dele se apoderara, e pôs-se a andar de um lado para o outro do quartinho.

- Há um ou dois meses, estive a ler Spinoza. Creio que não o entendo ainda muito bem, mas que delícia!… É como a gente descer do seu próprio avião num grande planalto, nas montanhas. Solidão e ar tão puro que intoxica como um vinho e faz a gente sentir-se como um rei!

- Quando é que pretendes voltar para Chicago?

- Chicago? Não sei. Não pensei nisso.

- Disseste que, se ao cabo de dois anos não alcançasses o que buscavas, darias a experiência por mal sucedida.

- Não me seria possível voltar agora. Estou no limiar. Vejo vastas planícies do espírito à minha frente, acenando-me, e estou ansioso por explorá-las.

- Que esperas encontrar?

- Respostas às minhas perguntas. – Larry relanceou a Isabel um olhar quase brincalhão, de modo que, se o não conhecesse tão bem, poderia pensar que ele estava a troçar. – Quero ter a certeza da existência ou da não existência de Deus. Quero conhecer a origem do mal. Quero saber se tenho uma alma imortal, ou se a morte põe fim a tudo.

Isabel ficou de respiração suspensa. Não se sentia à vontade quando Larry se exprimia desta forma, e deu graças a Deus por ele ter falado tão despreocupadamente, no habitual tom de conversa, que lhe permitiu dominar o constrangimento.

- Mas, Larry, há milhares de anos que a Humanidade faz essas perguntas – replicou ela, sorrindo. – Se tivessem resposta, certamente há muito já teriam sido respondidas.

Larry riu-se.

- Não rias como se eu tivesse dito alguma tolice – replicou secamente Isabel.

- Pelo contrário, acho muito bem observado. Mas, por outro lado, a gente pode argumentar que o fato de os homens fazerem essas perguntas há milhares de anos prova que não podem deixar de perguntar, e continuarão a perguntar. Além do mais, não é verdade que ninguém encontrou resposta. Existem mais respostas do que perguntas, e a muitas pessoas elas satisfizeram plenamente. O velho Ruysbroeck, por exemplo.

- Quem é?

- Oh, apenas um tipo que não conheci no colégio – respondeu Larry petulantemente.

Isabel não entendeu o que ele quisera dizer, mas não insistiu.

- Acho isto muito infantil. São coisas que excitam a imaginação dos segundanistas, mas de que eles se esquecem por completo quando saem do colégio. Têm de ganhar a vida.

- Não os censuro. Mas, vês, tenho a vantagem de possuir o suficiente para viver. De contrário, teria de fazer como os outros e procurar ganhar dinheiro.

- Mas não dás valor ao dinheiro?

- Nenhum – respondeu sorrindo.

- Quanto tempo achas que isso levará?

- Não posso saber. Cinco anos. Dez.

- E depois? Que pretendes fazer com toda essa sabedoria?

- Se algum dia adquirir sabedoria, creio que serei então bastante sábio para saber o que fazer com ela.

Isabel apertou violentamente as mãos e inclinou-se para a frente.

- Estás tão deslocado, Larry. És americano. O teu lugar não é aqui, é na América.

- Voltarei quando estiver pronto.

- Mas estás a perder tanta coisa! Como é que consegues ficar aqui nesta pasmaceira, quando estamos a viver a mais maravilhosa aventura que o Mundo jamais conheceu? A Europa está pronta. Somos a maior, a mais poderosa nação do Mundo. Caminhamos aos saltos. Nada nos falta. É teu dever participar do progresso da tua pátria. Já te esqueceste, não sabes como é empolgante a vida na América, hoje em dia. Tens a certeza de que não estás a agir assim por não teres coragem de enfrentar o trabalho que aguarda todo o americano? Oh, sei que de certo modo trabalhas, mas não será isto apenas uma maneira de fugir às tuas responsabilidades? Será alguma coisa mais do que uma espécie de ociosidade laboriosa? Que fim levaria a América, se todos se esquivassem como tu?

- És muito severa, querida – replicou sorrindo. – A resposta a isso é que nem todos sentem o que eu sinto. Felizmente para eles, talvez, a maioria dos homens está pronta a seguir o curso normal; esqueces-te de que tenho tanta sede de saber como… Gray, por exemplo, tem de ganhar rios e rios de dinheiro. Serei, por acaso, traidor à minha pátria só pelo fato de querer passar alguns anos a educar-me? É possível que, ao terminar, possa dar à Humanidade alguma coisa que ela tenha prazer em receber. Não é certo, naturalmente; mas, se falhar, estarei na mesma posição do homem que entra num negócio e não consegue vencer.

- E quanto a mim? Não tenho valor algum para ti?

- Muitíssimo. Quero que te cases comigo.

- Quando? Daqui a dez anos?

- Não. Agora. O mais depressa possível.

- Como? Minha mãe não está em condições de me dar um dólar. Além do mais, mesmo que pudesse, não o faria. Acharia um erro ajudar-te a viver na ociosidade.

- Não quero nada de tua mãe – replicou Larry. – Tenho três mil dólares anuais. Isto é mais do que suficiente, aqui em Paris. Poderíamos ter uma casa pequena e uma bonne à tout faire. Seria tão divertido, querida!

- Mas, Larry, ninguém pode viver com três mil dólares anuais.

- Claro que pode. Inúmeras pessoas vivem com muito menos.

- Mas não quero viver assim. Não há razão para isso.

- Tenho vivido com metade.

- Mas como! – Ela olhou para o sujo quartinho com um estremecimento de repulsa.

- Isto significa que tenho algumas economias. Poderíamos ir a Capri na lua-de-mel e à Grécia no Outono. Tenho uma vontade louca de ir até lá. Não te lembras de que falávamos em viajar juntos pelo Mundo?

- Claro que desejo viajar. Mas não desta forma. Não quero ir em segunda classe, nos navios, nem me hospedar em hotéis de terceira categoria, sem casa de banho, nem comer em restaurantes baratos.

- Em Outubro passado, viajei assim por toda a Itália. Diverti-me imenso. Poderíamos percorrer o Mundo inteiro, com três mil dólares por ano.

- Mas quero ter filhos, Larry.

- Está bem. Irão conosco.

- És tão tolo! – disse ela, rindo. – Sabes quanto custa ter um filho? Violet Tomlinson teve um, no ano passado, e fez tudo com a maior economia possível, mas mesmo assim gastou mil e duzentos e cinqüenta dólares. E quanto pensas que ganha uma ama? – Isabel animava-se, à medida que as idéias lhe ocorriam. – És muito pouco prático. Não sabes o que me pedes. Sou nova, quero divertir-me. Quero fazer o que os outros fazem. Quero ir a festas, quero ir a bailes, quero jogar o golfe e andar a cavalo. Quero vestir-me bem. És capaz de imaginar o que significa para uma mulher não se sentir tão bem vestida como as outras do seu meio? Compreendes o que significa, Larry, ter de comprar os vestidos usados das amigas que se fartaram deles, e ficar agradecida quando, por piedade, alguém se lembra de lhe fazer presente de um que seja novo? Não poderia nem mesmo ir a um cabeleireiro decente! Não quero andar de ônibus quero o meu carro particular. E que pensas que iria fazer o dia inteiro enquanto estivesses a ler na biblioteca? Andar pelas ruas, namorando as vitrinas, ou sentar-me no jardim do Luxemburgo, a vigiar os meus filhos para que nada lhes acontecesse? Não poderíamos ter amigos…

- Oh, Isabel – interrompeu ele.

- Não do tipo a que estou habituada. Oh, sim, os amigos do tio Elliott de vez em quando nos convidariam, em consideração por ele, mas não poderíamos aceitar porque não teria vestido, nem estaríamos em posição de lhes retribuir as gentilezas. Não quero ter relações com uma porção de gente mal vestida e suja; nada teria a dizer-lhes, nem eles a mim. Quero viver, Larry. – De súbito, percebeu a expressão dos seus olhos, afetuosos como sempre, quando pousados nela, mas levemente irônicos. – Achas que sou tola, não é verdade? Achas que sou fútil e maldosa.

- Não, não acho. É muito natural que digas o que estás a dizer. – Larry estava de pé, de costas para a lareira. Isabel ergueu-se e aproximou-se; fitaram-se frente a frente.

- Larry, se não possuísses um dólar, mas tivesses um emprego que te rendesse três mil dólares por ano, não hesitaria em me casar contigo. Cozinharia, arrumaria as camas, pouco me importaria com vestidos, faria qualquer sacrifício e acharia tudo divertidíssimo, pois estaria certa de que seria apenas uma questão de tempo, até venceres. Mas isso que queres significa viver miseravelmente, sordidamente, a vida inteira, sem uma esperança pela frente. Não passaria de uma escrava até ao dia da minha morte. E para quê? Para que pudesses passar anos a procurar respostas a perguntas que tu próprio consideras insolúveis. Estás em erro. Um homem tem de trabalhar. E para isso que está no Mundo. É assim que contribui para o bem-estar da comunidade.

- Em resumo, é meu dever instalar-me em Chicago e entrar para o escritório de Henry Maturin. Achas que, pelo fato de convencer os meus amigos a adquirirem títulos em que Henry Maturin está interessado, contribuiria grandemente para o bem-estar da comunidade?

- É preciso que haja corretores no Mundo. É uma maneira muito decente e honrosa de ganhar a vida.

- Pintaste um quadro muito negro da vida em Paris com um rendimento módico. Sabes, não é bem assim. Uma mulher pode vestir-se muito bem sem procurar Chanel. Nem todas as pessoas interessantes vivem na vizinhança do Arc de Triomphe e da Avenue Foch. Para falar a verdade, são mesmo poucas, porque em geral as pessoas interessantes não têm grande fortuna. Conheço muita gente aqui, pintores, escritores e estudantes, franceses, americanos e de outras nacionalidades, que considero muito mais interessantes do que as definhadas marquesas e as narigudas duquesas de Elliá. Tens uma inteligência viva e bastante senso de humor. Garanto que acharias divertido vê-los trocar idéias à mesa, mesmo que o vinho fosse somente vin ordinaire e o jantar não fosse servido por um mordomo e dois lacaios.

- Não sejas tolo, Larry. Claro que acharia divertido. Sabes que não sou esnobe. Teria prazer em conhecer gente interessante.

- Sim, num vestido de Chanel. Pensas que eles perceberiam que consideravas aquilo como uma espécie de aventura? Não se sentiriam à vontade, nem tu tampouco; e não tirarias nenhum proveito, a não ser o de poderes depois contar a Emily de Montadour e a Gracie de Château-Gaillard como acharas divertido ficar conhecendo uma porção de boêmios excêntricos, no Quartier Latin.

Isabel encolheu levemente os ombros.

- Talvez tenhas razão. Eles não são do tipo de gente com quem estou habituada a conviver. Não são do tipo de gente com quem eu possa ter afinidade.

- Em que ficamos, então?

- Exatamente onde começamos. Moro em Chicago desde que me entendo por gente. Ali estão os meus amigos, todos os meus interesses. Ali me sinto em casa. É a minha terra, Larry, como é também a tua. Minha mãe está doente e não se restabelecerá. Mesmo que quisesse, não a poderia deixar.

- Isto significa que, a não ser que esteja disposto a voltar para Chicago, não te casarás comigo?

Isabel hesitou. Amava Larry. Queria casar-se com ele. Desejava-o com toda a força dos seus sentidos e sabia-se desejada por ele. Não achava possível que, chegado o momento decisivo, ele não fraquejasse. Teve medo, mas precisava de arriscar.

- Sim, Larry, significa isso.

Ele riscou um fósforo na lareira, um daqueles antigos fósforos franceses, de enxofre, que nos enchem as narinas de um odor acre, e acendeu o cachimbo. Depois, passando por Isabel, foi postar-se à janela e ficou a olhar para fora. Guardou silêncio por um espaço de tempo que pareceu interminável. Isabel continuou de pé, no mesmo lugar onde estivera em frente dele, e olhou para o espelho, mas com olhos que nada viam. O coração batia-lhe loucamente e estava morta de apreensão. Finalmente, Larry voltou-se:

- Gostaria de poder levar-te a compreender como a vida que te ofereço é mais cheia do que qualquer outra que possas ter imaginado. Gostaria que pudesses ver como a vida do espírito é mais emocionante e rica em experiência. É ilimitada. E tão feliz! Só uma coisa se lhe compara: quando se está sozinho num avião, alto, bem alto, circundado apenas pelo infinito. Aquela amplidão é intoxicante. A gente experimenta tão intensa sensação de júbilo que não a trocaria por todas as riquezas e glórias deste Mundo. Há poucos dias, estive a ler Descartes. Que desembaraço, que graça, que dez. Céus!

Isabel interrompeu-o, em tom de desespero:

- Mas, Larry, não vês que me pedes uma coisa para a qual não fui feita, pela qual não me interesso, e não me quero interessar? Quantas vezes terei de repetir que sou apenas uma rapariga medíocre, normal, que tenho vinte anos, que daqui a dez estarei velha, que me quero divertir enquanto posso? Oh, Larry, gosto tanto, tanto, de ti! Isso é uma fantasia; não te conduzirá a parte alguma. No teu próprio interesse, imploro-te que desistas. Sê homem, Larry, e cumpre o teu dever de homem. Estás a perder anos preciosos, de que outros estão a tirar o máximo proveito. Larry, se me tens amor, não me trocarás por um sonho. Já te divertiste bastante. Volta conosco para a América.

- Não posso, querida. Seria uma verdadeira morte para mim. Seria atraiçoar a minha alma.

- Oh, Larry, por que falas dessa forma? É assim que se exprimem as mulheres histéricas, metidas a intelectuais. Que significa? Nada. Nada. Nada.

- Significa exatamente o que sinto – respondeu ele com um estranho brilho nos olhos.

- Como é que podes brincar? Não vês que isto é muito sério? Chegamos à encruzilhada, e o que fizermos agora irá afetar toda a nossa vida.

- Sei isso. Crê-me, estou a falar sério.

Ela suspirou.

- Se não queres ser razoável, então não há mais nada a dizer.

- Mas não creio que não seja razoável. Acho que só disseste disparates.

- Eu? – exclamou Isabel. – Se não se sentisse tão infeliz, teria rido. – Meu pobre Larry, estás doido varrido.

Lentamente, tirou do dedo o anel de noivado, colocou-o na palma da mão e ficou a contemplá-lo. Era um rubi quadrado, incrustado num fino aro de platina, e Isabel apreciara-o muito.

- Se gostasses de mim, não me farias sofrer tanto.

- Gosto de ti. Infelizmente, às vezes, nós não podemos fazer o que nos bem parece sem causar sofrimento a alguém.

Ela estendeu a mão onde estava o rubi e obrigou-se a sorrir.

- Aqui está, Larry.

- De nada me serve. Não queres guardá-lo como lembrança da nossa amizade? Podes usá-lo no dedo. Isto não altera a nossa amizade, não é assim?

- Sempre hei-de gostar de ti, Larry.

- Guarda-o, então, que me darás prazer.

Ela hesitou. depois enfiou o anel no dedo da mão direita.

- É grande de mais.

- Podes mandá-lo apertar. Vamos ao bar do Ritz, tomar um drink.

- Está bem. – Isabel admirou-se de tudo se ter passado tão simplesmente. Não chorara. Nada parecia ter mudado; só já não se casaria com Larry. Mal podia acreditar que estava tudo acabado. Ficou um tanto mortificada pelo fato de não ter havido uma violentíssima cena. Tinham resolvido o caso quase tão friamente como se estivessem a discutir a escolha de uma casa de aluguel. Sentia-se como que lesada, mas, ao mesmo tempo, experimentou uma ligeira satisfação por se terem comportado de maneira tão civilizada. Daria muito para conhecer exatamente os sentimentos de Larry, na ocasião. Mas isso era sempre difícil de saber. O rosto suave, os olhos escuros, eram uma máscara que mesmo Isabel, que o conhecia há tantos anos, jamais poderia penetrar.

Ao entrar, tirara o chapéu e pusera-o sobre a cama; agora, em frente do espelho, colocava-o de novo e, arranjando o cabelo, perguntou:

- Apenas por curiosidade: querias desmanchar o nosso noivado?

- Não.

- Pensei que talvez fosse um alívio para ti. – Como Larry não respondesse, ela voltou-se com um sorriso alegre e acrescentou: – Estou pronta.

Ao sair, Larry fechou o quarto. Quando entregou a chave ao homem da portaria, este envolveu-os num olhar de insolente cumplicidade. Isabel não pôde deixar de perceber que idéia o homem fazia da ida deles ao quarto.

- Não creio que aquele tipo tenha muita fé na minha virgindade disse ela.

Foram de táxi ao Ritz e ali tomaram uma bebida. Falaram de coisas triviais, aparentemente sem constrangimento, como dois velhos amigos que se vêem todos os dias. Embora Larry fosse calado por natureza, Isabel era tagarela, com ampla reserva de conversa fiada, e estava decidida a não permitir que entre eles se estabelecesse um silêncio que seria depois difícil de romper. Não queria que Larry pensasse que lhe guardava ressentimento, e o orgulho obrigava-a a agir de forma a não lhe deixar suspeitas de que estava magoada e infeliz. Dali a pouco, sugeriu que Larry a levasse até casa. Quando chegaram à porta, Isabel disse alegremente:

- Não te esqueças de que vens almoçar conosco amanhã. Não há perigo! – Ela apresentou-lhe a face para ser beijada e passou pela porte-cochère.

_________

O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham.

(Tradução de Úgia Junqueira Smith.)

Esse romance foi adaptado ao cinema em 1946 (com Tyrone Power) e em 1984 (com Bill Murray). São muito bons, mas, em ambos os casos, vem à tona aquele velho truísmo: o livro é muito melhor que o filme.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...