10:32 amThomas Mann: o artista, a beleza e o abismo

Thomas Mann

« Lá estava sentado o mestre, o artista honrado, o autor do Miserável, que abdicara de maneira tão exemplarmente pura ao ciganismo e às profundezas turvas; que negara sua simpatia ao abismo e rechaçara o objeto, aquele que se elevara; dominador de toda a sua sabedoria e emancipado de toda ironia, habituado às obrigações que impunha a confiança em massa, ele, cuja fama oficialmente notabilizara seu nome e cujo estilo era dado como base para a educação dos rapazes – ali sentava, suas pálpebras estavam fechadas, só de vez em quando aparecia, por baixo e de lado para logo se esconder de novo, um irônico e desolado olhar, e seus lábios frouxos, avivados cosmeticamente, formavam palavras soltas daquilo que seu cérebro, meio dormente, produzia em estranha lógica de sonho.

« Porque a beleza, Fédon – tome bem nota disso – só a beleza é divina e visível ao mesmo tempo, e assim é também o caminho do sensual, é o caminho do artista para o espírito, pequeno Fédon. Mas crê você, meu querido, que aquele para quem o caminho ao espiritual passa pelos sentidos porventura possa alcançar a sabedoria e a dignidade? Ou acredita você (deixo-lhe a decisão) que este seja um caminho perigoso-encantador, na verdade um caminho errado e pecaminoso, que leva necessariamente à confusão? Pois deve saber que nós, artistas, não podemos seguir o caminho da beleza sem que Eros se associe e se arvore em guia; sim, sejamos heróis e honestos guerreiros a nosso modo, não obstante seremos como mulheres. A paixão é nossa elevação e nosso anseio deve continuar a ser o amor – isto é nosso prazer e nossa vergonha. Vê você, agora, que nós, poetas, não podemos ser sábios nem dignos? Que forçosamente nos perdemos, forçosamente continuamos devassos e aventureiros de emoções? A glorificação de nosso estilo é mentira e idiotice; nossa fama e posição de honra, uma farsa; a confiança do povo em nós, altamente ridícula; a educação do povo e da juventude pela arte é um arrojado e proibido empreendimento. Pois como poderia servir de educador aquele a quem é inata uma tendência incorrigível e natural para o abismo? Bem que gostaríamos de negá-lo e alcançar dignidade, mas para que lado quer que nos voltemos, ele nos atrai.

« Assim declinamos do reconhecimento solúvel, pois o reconhecimento, Fédon, não tem dignidade nem severidade; ele é sábio, compreensível, perdoa sem pose nem forma; ele tem simpatia para com o abismo, ele é o abismo. A este, pois, rejeitamos com determinação e daí em diante nossa aspiração é exclusivamente à beleza, isto quer dizer, à simplicidade, à grandeza e à nova severidade da segunda ingenuidade e da forma.

« Mas forma e ingenuidade, Fédon, levam à embriaguez e à cobiça, levam o nobre talvez à medonha injúria do sentimento, que sua própria bela severidade repudia como infame, levam ao abismo — também elas levam ao abismo. A nós, poetas, digo, levam para lá, pois nós não conseguimos elevar-nos, só conseguimos digressionar. E agora vou embora, Fédon, fique você aqui; e só quando não mais me vir, então vá também você.»

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A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

8:12 amSêneca: Da Brevidade da Vida (excerto)

 Sêneca

« Todos os espíritos que alguma vez brilharam consentirão neste único ponto: jamais se cansarão de se espantar com a cegueira das mentes humanas. Não se suporta que as propriedades sejam invadidas por ninguém, e, se houver uma pequena discórdia quanto à medida de seus limites, os homens recorrem a pedras e armas; no entanto, permitem que outros se intrometam em suas vidas, a ponto de eles próprios induzirem seus futuros possessores; não se encontra ninguém que queira dividir seu dinheiro, mas a vida, entre quantos cada um a distribui! São avaros em preservar seu patrimônio, enquanto, quando se trata de desperdiçar o tempo, são muito pródigos com relação à única coisa em que a avareza é justificada.

« Por isso, agrada me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos: "Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida do que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres prematuramente."

« Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis imortais.

« Ouvirás muitos dizerem: "Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos." E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!»

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Da Brevidade da Vida, de Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C. — 65 d.C.).

8:45 amC. S. Lewis e o divórcio entre o Céu e o Inferno

C.S. Lewis

« O Sr. William Blake escreveu o livro O Matrimônio do Céu e do Inferno. Se escrevi sobre o abismo entre os dois, isto não é porque me julgo um antagonista à altura de tão grande gênio, nem mesmo porque esteja absolutamente certo de ter entendido o que ele pretendia; mas, num sentido ou outro a tentativa de realizar essa união é perene. Essa tentativa tem como base a crença de que a realidade jamais se apresenta a nós num sentido absoluto, havendo sempre uma opção inevitável a ser feita; mas que, com habilidade e paciência e (acima de tudo) tempo suficiente, algum meio de abranger ambas as alternativa pode ser sempre encontrado. Que o simples desenvolvimento, ajuste ou refinamento, irá de alguma forma transformar o mal em bem, sem que sejamos chamados para uma rejeição final e total de qualquer coisa que desejemos reter.

« Acredito que esta crença represente um erro desastroso. Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas. Em uma dessas viagens até mesmo a sua mão direita ou o seu olho direito podem estar entre as coisas que precisará deixar para trás. Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. Mesmo no nível biológico, a vida não é como um rio mas como uma árvore. Ela não se move na direção da unidade, mas se distancia dela e as criaturas se afastam cada vez mais das outras, à medida que se aperfeiçoam. O bem, quando amadurece, se mostra cada vez mais diferente, não só do mal, mas de qualquer outro bem.

« Não julgo que todos os que escolhem as estradas erradas perecem; mas o seu resgate consiste em serem colocados de volta na estrada certa. Uma soma errada pode ser corrigida, mas somente fazendo um retrospecto até achar o erro e continuando a partir desse ponto, e não apenas “avançando”. O mal pode ser desfeito, mas não pode “transformar-se” em bem. O tempo não pode curá-lo. O encanto precisa ser quebrado, pouco a pouco, “com murmúrios de trás para diante, a fim de obter a separação” — caso contrário não dá resultado. Continua prevalecendo a necessidade de alternativa. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a terra) não veremos o Céu. Acredito que qualquer homem que chegue ao Céu descobrirá que aquilo que abandonou (mesmo arrancando o seu olho direito) não ficou perdido: que o âmago daquilo que estava realmente buscando, mesmo em seus mais depravados desejos, continua ali, além de qualquer expectativa, esperando por ele nos “Países Altos”. Nesse sentido, os que tiverem completado a jornada (e somente estes) poderão verdadeiramente dizer que o bem é tudo e que o Céu está em toda parte. Mas nós, deste lado da estrada, não devemos tentar antecipar essa visão retrospectiva. Se fizermos isso, é provável que adotemos o falso e desastroso conceito de que tudo é bom e qualquer lugar é o Céu.

« E a terra? você pode perguntar. A terra, penso eu, não irá ser considerada por ninguém, no final, como sendo um lugar muito definido. Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.

« Só quero dizer mais uma ou duas coisas sobre este livro. Primeiro, devo reconhecer minha dívida de gratidão a um escritor cujo nome esqueci. Li um artigo seu numa revista americana chamada Scientifiction (Ficção Científica). A qualidade do meu material celeste, que não se curva nem quebra, foi-me sugerida por ele, embora tivesse feito uso da fantasia para um propósito diferente e muito engenhoso. O seu herói viajou para o passado: e ali, muito adequadamente, encontrou pingos de chuva que o feriam como balas e sanduíches que não se podiam comer — porque, naturalmente, nada no passado pode ser alterado. Com menos originalidade, mas (espero) com igual propriedade, transferi esta idéia para a eternidade. Se o autor dessa história porventura ler estas linhas peço que aceite minha gratidão. A segunda coisa é esta. Peço aos leitores que se lembrem tratar-se de uma fantasia. Ela tem naturalmente, ou foi essa a minha intenção, uma moral. Mas as condições além da morte não passam de uma suposição imaginaria: não são sequer um palpite ou uma especulação quanto ao que pode realmente aguardar-nos. A última coisa que desejo seria despertar curiosidade fatual quanto aos detalhes da vida após-morte.»

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O Grande Abismo (prefácio), de C.S. Lewis.

Este foi o livro que o poeta Bruno Tolentino me indicou após conversarmos longamente sobre Swedenborg, O Livro de Urântia, vida após a morte, projeções astrais, Salvação e quejandos. O título em inglês soa ainda mais antagônico ao livro de William Blake: “The Great Divorce”.

8:26 amA Loucura vangloria-se pela criação da mulher (via Erasmo de Rotterdam)

Erasmo de Rotterdam

« Mas, já é tempo de que, seguindo o exemplo de Homero, passemos, alternadamente, dos habitantes do céu aos da terra, onde nada se descobre de feliz e de alegre que não seja obra minha.

« Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta mãe produtora do gênero humano, dispôs que em coisa alguma faltasse o condimento da loucura. Segundo a definição dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a diferença entre ambas é pelo menos de um para vinte e quatro. Além disso, relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. Depois, ainda não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que está sozinha, duas fortíssimas paixões, que são como dois impetuosíssimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, centro das vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência, que estende o seu império desde a mais tenra juventude até à idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses dois tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. Prescreve os deveres da honestidade, grita contra os vícios a ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer; mas os vícios riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosamente do que ela, até que a pobre soberana, não tendo mais fôlego, é constrangida a ceder e a concordar com os seus rivais.

« De resto, tendo o homem nascido para o manejo e a administração dos negócios, era justo aumentar um pouco, para esse fim, a sua pequeníssima dose de razão, mas, querendo Júpiter prevenir melhor esse inconveniente, achou de me consultar a respeito, como, aliás, costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim: — Senhor, — disse-lhe eu — dê uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do mesmo.

« Quando Plutão pareceu hesitar se devia incluir a mulher no gênero dos animais racionais ou no dos brutos, não quis com isso significar que a mulher fosse um verdadeiro bicho, mas pretendeu, ao contrário, exprimir com essa dúvida a imensa dose de loucura do querido animal. Se, porventura, alguma mulher meter na cabeça a idéia de passar por sábia, só fará mostrar-se duplamente louca, procedendo mais ou menos como quem tentasse untar um boi, malgrado seu, com o mesmo óleo com que costumam ungir-se os atletas. Acreditai-me, pois, que todo aquele que, agindo contra a natureza, se cobre com o manto da virtude, ou afeta uma falsa inclinação, ou não faz senão multiplicar os próprios defeitos. E isso porque, segundo o provérbio dos gregos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura. Assim também, a mulher é sempre mulher, isto é, é sempre louca, seja qual for a máscara sob a qual se apresente.

« Não quero, todavia, acreditar jamais que o belo sexo seja tolo ao ponto de se aborrecer comigo pelo que eu lhe disse, pois também sou mulher, e sou a Loucura. Ao contrário, tenho a impressão de que nada pode honrar tanto as mulheres como o associá-las à minha glória, de forma que, se julgarem direito as coisas, espero que saibam agradecer-me o fato de eu as ter tornado mais felizes do que os homens.

« Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros tiranos. Sabereis de que provém aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela barba cerrada, que muitas vezes fazem parecer velho um homem que se ache ainda na flor dos anos? Eu vo-lo direi: provém do maldito vício da prudência, do qual são privadas as mulheres, que por isso conservam sempre a frescura da face, a sutileza da voz, a maciez da carne, parecendo não acabar nunca, para elas, a flor da juventude. Além disso, que outra preocupação têm as mulheres, a não ser a de proporcionar aos homens o maior prazer possível? Não será essa a única razão dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados, dos perfumes, das essências aromáticas, e tantos outros artifícios e modas sempre diferentes de vestir-se e disfarçar os defeitos, realçando a graça do rosto, dos olhos, da cor? Quereis prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres sobre os homens? Os homens tudo concedem às mulheres por causa da volúpia, e, por conseguinte, é só com a loucura que as mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais essa conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras que se fazem com as mulheres, quando se anseia por extinguir o fogo do amor.

« Já vos revelei, portanto, a fonte do primeiro e supremo prazer da vida. Concordo que alguns existam (sobretudo certos velhos mais bebedores que mulherengos) cujo supremo prazer seja a devassidão. Deixo indecisa a questão de saber se é possível um bom banquete sem mulheres. O que é certo é que mesa alguma nos pode agradar sem o condimento da loucura. E tanto isso é verdade que, quando nenhum dos convidados se julga maluco ou, pelo menos, não finge sê-lo, é pago um bobo, ou convidado um engraçado filante que, com suas piadas, suas brincadeiras, suas bobagens, expulse da mesa o silêncio e a melancolia.»

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Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam (1466-1536).

8:38 amHarold Bloom e os livros que valem a pena ser lidos

 Harold Bloom

« Os motivos para ler, como para escrever, são muito diversos, e muitas vezes não claros mesmo para os leitores ou escritores mais autoconscientes. Talvez o motivo último para metáfora, ou para a escrita e leitura de uma linguagem figurativa, seja o desejo de ser diferente, estar em outra parte. Nesta afirmação eu sigo Nietzsche, que nos advertia que aquilo para que conseguimos encontrar palavras já está morto em nosso coração, de modo que há sempre uma espécie de desprezo no ato de falar. Hamlet concorda com Nietzsche, e os dois talvez tenham estendido o desprezo ao ato de escrever. Mas não lemos para descarregar nossos corações, portanto não há desprezo no ato de ler. As tradições nos dizem que o eu livre e solitário escreve para vencer a mortalidade. Creio que o eu, em sua busca para ser livre e solitário, em última análise lê com um só objetivo: encarar a grandeza. Esse confronto mal disfarça o desejo de juntar-se à grandeza, que é a base da experiência estética outrora chamada de o Sublime: a busca de uma transcendência de limites. Nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte, o esquecimento. Nossa esperança comum, tênue mas persistente, é alguma versão de sobrevivência.

« Encarar a grandeza quando lemos é um processo íntimo e dispendioso, e jamais esteve em grande voga crítica. Agora, mais que nunca, está fora de moda, quando a busca de liberdade e solidão é condenada como politicamente incorreta, egoísta e não adequada à nossa sociedade angustiada.»

(…)

« Que utilidade pode ter para um crítico individual, tão tardiamente na tradição, catalogar o Cânone ocidental como o vê? Mesmo nossas universidades de elite hoje estão inertes diante das continuadas levas de multiculturalistas. Ainda assim, ainda que nossas atuais modas prevaleçam para sempre, as escolhas canônicas de obras passadas e presentes têm seu próprio interesse e encanto, pois também elas fazem parte da continuada disputa que é a literatura. Todo mundo tem, ou deve ter, uma lista para uma ilha deserta, para o dia em que, fugindo de seus inimigos, seja lançado na praia, ou quando se afastar capengando, todas as guerras feitas, para passar o resto de seu tempo lendo tranqüilamente. Se eu pudesse ter um livro, seria Shakespeare completo; se dois, isso e a Bíblia. Três? Aí começam as complexidades. William Hazlitt, um dos poucos críticos definitivamente no Cânone, tem um esplêndido ensaio “Sobre a leitura de Velhos Livros”:

Não penso inteiramente o pior de um livro por ter sobrevivido ao autor uma ou duas gerações. Confio mais nos mortos que nos vivos. Os escritores contemporâneos podem em geral dividir-se em duas classes – nossos amigos e nossos inimigos. Dos primeiros, somos obrigados a pensar bem demais, e dos últimos estamos dispostos a pensar mal demais, receber muito prazer da folheada, ou julgar com justiça o mérito de uns e outros.

« Hazlitt manifesta uma cautela própria ao crítico numa era de crescente tardiedade. A superpopulação de livros (e autores), causada pela extensão e complexidade da história registrada do mundo, está no centro dos dilemas canônicos, hoje mais que nunca. “Que vou ler?” não é mais a questão, uma vez que tão poucos lêem hoje, na era da televisão e do cinema. A questão pragmática tornou-se: “Que não vou me dar o trabalho de ler?”»

(…)

« A ideologia desempenha um papel considerável na formação de um cânone literário se se quer insistir em que uma posição estética é em si uma ideologia, uma insistência comum a todos os seis ramos da Escola do Ressentimento: feministas, marxistas, lacanianos, neo-historicistas, desconstrucionistas, semióticos. Há, evidentemente, estética e estética, e os apóstolos que acreditam que o estudo literário deve ser uma franca cruzada pela transformação social obviamente manifestam uma estética diferente da minha versão pós-emersoniana de Pater e Wilde.»

(…)

« Por que, então, é a literatura tão vulnerável à investida de nossos idealistas sociais contemporâneos? Uma resposta parece ser a ilusão comum de que menos conhecimento e menos habilidade técnica são necessários para a produção ou compreensão da literatura de imaginação (como a chamávamos) que para outras artes.

« Se todos falássemos em notas musicais ou pinceladas, suponho que Stravinsky e Matisse estariam sujeitos aos riscos peculiares hoje sofridos pelos autores canônicos. Tentando ler muitas das obras apresentadas como alternativas do ressentimento ao Cânone, reflito que esses aspirantes devem acreditar que falaram prosa a vida inteira, ou então que suas sinceras paixões são já poemas, exigindo apenas uma pequena reescrita. Volto-me para minhas listas, esperando que os sobreviventes letrados encontrem entre si alguns autores e livros que ainda não encontraram, e colham as recompensas que só a literatura canônica oferece.»
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O Cânone Ocidental, de Harold Bloom.

8:25 amPaul Johnson fala sobre criatividade e literatura

 Paul Johnson

« …o papel desempenhado pelas atividades. O castelo de cartas de Einstein era mais um exemplo de treinamento de caráter do que uma ajuda real ao pensamento criativo. Mas a maioria dos cientistas e muitos escritores têm sobre a mesa de trabalho apetrechos, bugigangas, jogos, quebra-cabeças, provavelmente por considerá-los úteis para o raciocínio. Não tenho dificuldade de concentração, e começo a escrever logo que sento à minha mesa (no cavalete ou na mesa de desenho), por isso não entendo com facilidade o raciocínio por trás desses apetrechos. Porém, em inúmeros casos, é evidente que a atividade espasmódica ou periódica ajuda o pensamento imaginativo. Assim, o fato de Dickens se levantar da mesa onde escrevia para fazer caretas diante de um espelho grande em seu estúdio não é, de forma alguma, algo incomum entre os escritores. Alguns deles desenvolvem tal resistência a escrever ou a continuar a escrever que é necessário recorrer a meios físicos para forçá-los a se concentrar. Certa ocasião, quando era editor, tive de trancar dois colaboradores em um sala vazia com uma máquina de escrever para que escrevessem ou terminassem um artigo, só permitindo que saíssem depois de concluído o trabalho. Mas muitos escritores não conseguem ter pensamentos criativos em uma sala de trabalho. Todos sabem que Wordsworth costumava compor seus versos enquanto caminhava ao ar livre, em torno do lago em Grasmere ou Rydal Water, ou descendo e subindo uma montanha. Ele memorizava as linhas que imaginava e só as colocava no papel quando voltava para casa. Às vezes, passavam-se vários dias, até semanas, para que ele colocasse no papel as palavras que tinha na cabeça. Não está claro se Wordsworth precisava caminhar para fazer poesia porque via coisas lá fora que poderia transformar em verso ou porque o simples movimento de caminhar estimulava seus pensamentos. Acredito na última opção, pois Wordsworth era, de alguma maneira, um homem distraído. Foi sua irmã Dorothy quem observou os trabalhos da natureza em detalhes surpreendentes e os anotou. Quando ambos estavam em Gowbarrow Bay, em Ullswater, quando os narcisos dançavam ao vento, foi Dorothy quem os observou e anotou em seu diário, transmitindo sua experiência visual ao irmão, que, algumas semanas mais tarde, compôs seu famoso poema. Sem Dorothy, o poema não existiria.

« No entanto, a experiência é a mãe, ou pelo menos uma das mães, da criatividade, e o que chamo de experiência é a combinação de observação e sentimento que leva a um momento criativo. Emily Dickinson não apenas observava as coisas na natureza (como Dorothy Wordsworth fazia); ela também se sentia forte, profunda ou perceptivelmente ligada a elas – e é isso que transforma seus pequenos poemas em algo de grande força e emoção. Os fortes sentimentos de Charlotte Brontë sobre sua vida, combinados a olhos e ouvidos perspicazes, a tornaram capaz de transformar a experiência, na primeira metade de Jane Eyre, em algo tão surpreendente em arte – um ato de criação raro, por sua beleza apaixonante, nos anais da literatura. Os escritores, em especial os romancistas, são extremamente criativos quando registram, embora transformados em ficção, suas experiências profundamente sentidas. Dickens sempre considerou David Copperfield seu melhor livro por esse motivo. Poder-se-ia dizer o mesmo sobre The Mill on the Floss, pois Maggie Tulliver é a jovem Mary Ann Evans, e tudo o que ela viveu e sentiu. Nesse romance maravilhoso, nas histórias de Scenes from Clerical Life, em Adam Bede e, até certo ponto, em Middlemarch, George Eliot escreve sobre coisas e pessoas que conheceu por intermédio da própria experiência direta e de seus sentimentos. Mais tarde, embora mais experiente como escritora, foi menos convincente. Para Daniel Deronda, seu romance sobre o problema judeu, e para Romola, passado na Florença renascentista, ela fez leituras cuidadosas, digeridas pela inteligência. Mas essas histórias não ganham vida do mesmo modo. Para o romancista, os livros não compensam a ausência do conhecimento direto e dos sentimentos. Flaubert escreveu Madame Bovary com emoção, a partir de suas últimas experiências com livros, e a diferença é clara. Bouvard et Pécuchet surgiu de uma biblioteca completa – natimorta. Quando vejo alguma romancista que conheço, sentada atrás de uma pilha de livros na sala de leitura da London Library, e tomando notas sem parar para seu próximo trabalho de ficção, digo com meus botões: “Ai, meu Deus!”

Continua…

12:22 pmReflexões sobre Arte e Literatura no romance O Doutor Jivago

 Boris Pasternak

« Ao lado de meu serviço, do trabalho da terra ou da prática da Medicina, gostaria de tirar a lume uma obra duradoura, essencial, quer seja uma obra científica, quer uma obra de arte!

« Ao nascer todo homem é um Fausto que deve tudo abraçar, tudo experimentar, tudo exprimir. Foram os erros de seus predecessores e de seus contemporâneos que fizeram de Fausto um sábio. Os progressos das Ciências obedecem à lei da repulsão: para dar um passo adiante, é preciso começar por derrubar o domínio do terror e das falsas teorias.

« Mas foi o exemplo contagioso de seus mestres que fez de Fausto um artista. Os progressos da Arte se fazem segundo a lei da atração: para dar um passo adiante, é preciso começar por seguir e por imitar seus precursores e inclinar-se diante deles.

« Que é que me impede de fazer meu trabalho de médico e escrever? Penso que não são nem as privações, nem nossa vida errante, nem o sentimento de instabilidade que me causam todas essas mudanças, mas antes o espírito do tempo, esse espírito de ênfase agora tão difundido: o gênero “aurora do futuro”; “edificação dum novo mundo”; “archotes da humanidade”. Quando ouvimos tais frases, dizemos em primeiro lugar: que imaginação grandiosa, que riqueza! Mas vendo-se de perto, a ênfase só está ali por causa da ausência de talento.

« Só as coisas comuns são mágicas, desde que as aflore a mão do gênio. A melhor lição é-nos dada por Puchkin. Que hino à glória do trabalho consciencioso, dos hábitos quotidianos! Em nossos dias, o termo pequeno-burguês, homem da rua, tomou entre nós o valor duma censura. Os versos da Genealogia vão ao encontro dessa censura:

“Eu sou burguês, eu sou burguês”

E na Viagem de Onieguin:

“Tenho agora como ideal
“Uma bem boa dona de casa.
“Como desejo, um canto calmo,
“Sopa de couve — um terrinão!”

« Em tudo quanto é russo, o que prefiro agora é o espírito de infância de um Puchkin, dum Tchekhov, e a indiferença pudica deles a respeito de coisas tão barulhentas como os fins derradeiros da humanidade ou sua própria salvação. Tinham também suas idéias a esse respeito, mas não tinham a vontade de abordar tais assuntos tão pouco discretos; não era de seu gosto, nem de sua competência. Gogol, Tolstói, Dostoiévski preparavam-se para a morte, inquietavam-se, buscavam o sentido da vida, tiravam conclusões, mas, até o fim, estiveram absorvidos pelos miúdos cuidados com sua profissão de artistas e nesse encadeamento de pormenores sua vida passou imperceptivelmente, como se ela não fosse também senão um pormenor íntimo e que nada tinha que ver com os outros; e agora, esse pormenor pertence a todo mundo, e, como maçãs colhidas ainda verdes, amadurece sozinho, na posteridade, ganhando sempre em sabor e significação.»

(…)

« Em resposta à devastação que a morte deixara no grupo que o seguia a passos lentos, um movimento imperioso como o da água que se afunda a cavar seus turbilhões levava-o a sonhar e a pensar, a obstinar-se nas formas, a criar beleza. Mais claramente do que nunca, via agora que a Arte, sempre e sem trégua, tem duas preocupações. Medita incansavelmente na morte e, por esse meio, incansavelmente cria a vida. A grande Arte, a Arte verdadeira, aquela que se chama Apocalipse e que o completa.»

(…)

« Três anos de mudanças, de imprevistos, de viagens; a guerra, a revolução, todos os seus transtornos, as fuzilarias, as cenas de ruína, as cenas de morte, as destruições, os incêndios, tudo isso se transformou num vácuo, nu de qualquer sentido. Após longo intervalo, o primeiro acontecimento de importância era aquela corrida vertiginosa do trem para uma casa ainda intacta, da qual a menor pedra era preciosa. Era isto a vida, era isto a experiência, era este o alvo dos buscadores de aventuras, era esta a meta final da Arte: reencontrar os seus, retornar à casa, recomeçar a existência.»

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O Doutor Jivago, de Boris Pasternak (1890-1960)

9:08 amArnold Toynbee fala sobre literatura e a “verdadeira arte pela arte”

Arnold Toynbee

« Não acho que seja função da literatura propagar qualquer Weltanschauung particular, boa ou má. A literatura com objetivo social ou metafísico consciente será, talvez, contraproducente. Sua função apropriada é a de descrever e comentar os fatos e problemas da vida humana. Penso que ela deve ser sincera e corajosa.»

(…)

« A verdadeira arte pela arte é também arte pela vida. Claro, a arte se esteriliza se o artista se transformar num especialista profissional que escreve primária e exclusivamente para outros especialistas, e não para todos os seus semelhantes. Da forma como entendo a situação, essa não é a arte pela arte, mas a arte pelo artista. Trata-se de uma falsa visão até mesmo dos interesses do artista. Sustento, por conseguinte, que é lamentável, e sintoma de doença social, quando literatura, ciência ou erudição se tornam esotéricas.»

Arnold J. Toynbee

Fonte: Um dos meus velhos blocos de anotações…

8:32 amUm singelo videoclipe: “Fuck Me, Ray Bradbury!”

Algumas señoritas não têm a sorte de conhecer seu escritor predileto antes de ele ficar velhinho. Essa aí curte o Ray Bradbury, que completa este mês 90 anos de idade…

(Esse videoclipe me lembra este post que publiquei em meu antigo blog, O Garganta de Fogo. )

Continua…

8:44 amDo Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Episódio do Inimigo

« Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:

— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse —, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.

Disse-me, então, com voz firme:

— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:

— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.

— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

— Posso fazer uma coisa — respondi.

— Qual?

— Acordar.

E assim o fiz. »

Jorge Luis Borges

 

Teologia

« Como vocês não ignoram, viajei muito. Isso me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o Sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Essa gente crê nos sonhos. “No instante em que dormes”, explicaram-me, “conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno.” Se alguém argumentasse: “Nunca vi partir um homem adormecido; de acordo com minha experiência, permanecem deitados até que os despertem”, responderiam: “O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterrorizantes?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunha de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó”. »

H. Garro, Todo o mundo (1919)

Os dois textos acima são excertos do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges.

9:49 amOsman Lins e o mais profundo meio de comunicação

Osman Lins

« Nenhum meio de comunicação está apto a substituir a literatura. A liberdade de um escritor é a sua pobreza. Ele depende apenas de um lápis. Nem de papel ele necessita. Os muros das prisões estão cheios de palavras, de coisas escritas, de expressões humanas … Está havendo atualmente uma mística das conquistas científicas. Isso não significa que essas conquistas sejam mais avançadas. Elas são apenas mais novas. O fato de serem mais novas não significa que sejam mais avançadas. Nenhuma é tão avançada, enquanto conquista espiritual, como a escrita. Difícil será ultrapassar a capacidade crítica de uma obra literária. É, de todas as comunicações, a mais profunda.»

Osman Lins, citado por Ermelinda Maria Araújo Ferreira, no ensaio Motivos medievais em molduras hipertextuais (PDF).

9:45 amG.K. Chesterton fala sobre insanidade e criação literária

G.K. Chesterton

« É verdade que alguns falam, de modo superficial e leviano, da insanidade como sendo em si mesma atraente. Mas um momento de reflexão mostrará que, se uma enfermidade é atraente, trata-se em regra da enfermidade dos outros. Um cego pode ser um quadro pitoresco; mas exige-se um par de olhos para ver o quadro. De modo semelhante até mesmo a poesia mais louca da insanidade só pode ser apreciada por quem é sensato. Para o insano a insanidade é totalmente prosaica, porque é totalmente verdadeira.

« Um homem que imagina ser uma galinha é para si mesmo tão comum como uma galinha. Um homem que imagina ser um caco de vidro é para si mesmo tão sem graça como um caco de vidro. A homogeneidade de sua mente é o que o torna sem graça, e o que o torna louco. E somente pelo fato de percebermos a ironia de sua idéia que nós o achamos até engraçado; é somente pelo fato de ele não ver a ironia de sua idéia que ele é internado em Hanwell, não por outro motivo.

« Em resumo, as esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. E por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. E por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.

« Comecemos, então, com um manicômio. Dessa estalagem fantástica e perversa vamos partir para a nossa jornada intelectual. Ora, se devemos examinar rapidamente a filosofia da sanidade, a primeira coisa a fazer no caso é apagar um enorme erro comum. Por toda parte existe a noção de que a imaginação, especialmente a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental do homem. Geralmente se diz que os poetas não são confiáveis do ponto de vista psicológico, e geralmente faz-se uma vaga associação entre cingir a cabeça com uma coroa de louros e fazer loucuras. Os fatos e a história contradizem totalmente essa visão. A maioria dos poetas realmente grandes não só foi de gente sensata, mas também extremamente prática. Se Shakespeare um dia dominou cavalos, isso se deu por ser ele o homem mais indicado para fazêlo. A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui, em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação. A paternidade artística é tão sadia quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena observar que, quando um poeta foi realmente mórbido, o fato geralmente se deu porque ele tinha um ponto fraco de racionalidade no cérebro. Poe, por exemplo, foi realmente mórbido; não porque era poético, mas porque era especialmente analítico. Para ele até o jogo de xadrez era poético demais; ele não gostava de xadrez porque era um jogo cheio de peões e castelos, como um poema. Declaradamente, preferia as casas brancas do jogo de damas, por se parecerem mais com os meros pontos pretos num gráfico.

« Talvez o caso mais convincente seja este: apenas um grande poeta inglês enlouqueceu, Cowper. E ele foi definitivamente levado à loucura pela lógica, pela repulsiva e estranha lógica da predestinação. A poesia não foi seu mal, foi seu remédio. A poesia preservou-lhe em parte a saúde. As vezes ele podia esquecer-se do rubro e sequioso interno, para o qual seu hediondo determinismo o arrastava em meio às águas caudalosas e as grandes e achatadas flores aquáticas do rio Ouse. Ele foi condenado por João Calvino; e quase foi salvo por John Gilpin.

« Em todas as partes vemos que os homens não enlouquecem sonhando. Os críticos são muito mais loucos que os poetas. Homero c completo e bastante calmo; os críticos é que o rasgam em trapos extravagantes. Shakespeare é exatamente Shakespeare; apenas alguns de seus críticos é que descobriram que ele era alguma outra pessoa. E embora João, o evangelista, tenha visto monstros estranhos em sua visão, ele não viu nenhuma criatura tão louca como um de seus comentadores. O fato geral é simples. A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental, como a exaustão física do sr. Holbein.

« Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.»

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Ortodoxia, de G.K. Chesterton (1874-1936)

9:58 amFerreira Gullar fala sobre a nova ortografia

Ferreira Gullar

« Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Coleções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é patrimônio do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambigüidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.»

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Leia a entrevista completa com Ferreira Gullar: "O acordo ortográfico é uma perda de tempo". (E veja também o que ele fala sobre Lula e Dilma.)

Fonte: www.ionline.pt

9:47 amBernardo Soares e aqueles que dominam o Diabo

Fernando Pessoa

« Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os cavoucos do mundo.

« Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações coletivas.

« O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever — já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta —, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver[?] Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado, com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?

« Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.

« Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.»

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Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).

8:08 amAlmada Negreiros: «A poesia é a linguagem dos Iguais dispersos no Tempo»

Almada Negreiros (auto-retrato)

« A poesia é a linguagem dos Iguais dispersos no Tempo. Os iguais não se admiram entre si; confiam-se, ou melhor, são iguais.»

(…)

« Poesia é a vocação humana de não pôr parcialidade na Vida.»

(…)

« A Poesia conhece e não sabe.»

(…)

« Não fazer nada senão por pura simpatia. A simpatia é bastante. Nem amigos nem assuntos onde não esteja inteira a nossa simpatia. A simpatia tem, de fato, uma aparência agradável e é a única maneira de nos tornarmos invisíveis até chegados nós.»

(…)

« O saber é pouca coisa para quem conhece. O saber desencanta o mistério. O conhecimento vive cara a cara com o mistério.»

(…)

« Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.»

(…)

« Comprei um livro de filosofia.[…] Disseram-me que era necessário estar já iniciado, ora eu só tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo à imagem e semelhança de Deus. Não basta?»

[Algumas notas que tomei, anos atrás, de um livro de Almada Negreiros (1893-1970), cujo título não guardei…]

 

A pintura mais conhecida de Almada Negreiros é este retrato de Fernando Pessoa:

Fernando Pessoa por Almada Negreiros

E seu desenho mais conhecido:

Fernando Pessoa por Almada Negreiros




8:38 amUma palestra de Bruno Tolentino na UFRJ

O poeta Bruno Tolentino, que durante o ano de 1999 também morou na Casa do Sol (residência da escritora Hilda Hilst), tinha o costume — após encerrar seu trabalho diário no livro O Mundo como Idéia, que vinha finalizando —, de ir ou até o escritório da Hilda ou até meu quarto (que também era a biblioteca) e ficar até tarde da noite tecendo mil e um comentários sobre os mais diversos temas, principalmente literatura, filosofia, religião e política. (Digamos que tal ritual fazia parte da minha “pós-graduação desprovida do beneplácito do MEC”…)

Gostei de encontrar a palestra abaixo no You Tube porque ela, ao contrário de outras gravações que ouvi antes, apresenta Bruno exatamente como era nessas ocasiões: aberto, bem-humorado, brincalhão, brilhante, sagaz, sarcástico, erudito, tagarela…

A palestra, que a princípio trata da poesia de Vinicius de Moraes, está dividida em 12 partes (infelizmente há a intervenção inaudível de uma mulher nas últimas partes que irrita um bocado, mas não estraga o conjunto):


Continua…