Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Dilma e a Pastoral Americana

Durante os debates do Encontro de Escritores organizado pelo Olavo de Carvalho nos EUA, mencionei o romance Pastoral Americana, escrito por Philip Roth. Falávamos, se não me falha a memória, sobre como certos acontecimentos na vida social, política e cultural estão prefigurados na literatura. E então comentei sobre como, a meu ver, teria sido a vida de Dilma Rousseff caso ela tivesse nascido nos EUA: basta acompanhar a vida da personagem Merry no referido romance. Para quem estiver sem tempo — a tradução brasileira tem 478 páginas — sugiro o filme Pastoral Americana, de 2016, disponível na Netflix, cuja trama é bastante fiel à do livro. (Claro, o cinema, contrastado à literatura, dificilmente atinge a mesma profundidade de expressão, mas, para quem quiser ter um lampejo sobre o que eu quis dizer, já é um bom começo.)

O romance, obviamente, não retrata apenas um modelo americano da nossa ex-presidente: mostra principalmente a transformação “antes da Federal / depois da Federal”, por assim dizer, de boa parte dos jovens do Ocidente e seu corolário, isto é, a situação na qual terminam seus pais, uma situação muito mais grave do que um mero “choro de chuveiro”.

No Brasil as pessoas babam na gravata há tanto tempo que Merry chegou a ser eleita… presidentA.

Stárietz Zossima: o mundo superior

Muitas coisas deste mundo nos são dissimuladas, mas em compensação Deus nos concedeu a misteriosa sensação do laço vivo que nos une ao outro mundo, o mundo celeste, superior; e, aliás, as próprias raízes dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos não estão em nós, porém em outra parte. E é por isso que os filósofos dizem que não se pode conhecer na terra a essência das coisas. Deus tomou sementes que pertenciam a outros mundos, semeou-as nesta terra e cultivou o seu jardim. O que podia germinar cresceu, mas tudo que se podia desenvolver não viveu senão graças ao sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos; se esse sentimento enfraquece ou desaparece da tua alma, tudo o que floriu dentro de ti morrerá.

Stárietz Zossima em Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.

Eugene O’Neil: o papel do escritor

Cumpre ao dramaturgo, hoje em dia, cavar até às raízes do mal moderno tal como o sente – a morte do antigo Deus e o fracasso da ciência e do materialismo em apresentar um outro Deus que satisfaça ao primitivo instinto religioso sobrevivente, a fim de que nele o homem encontre um sentido para a vida, com o qual se conforte dos temores da morte. Qualquer pessoa que atualmente tente realizar uma grande obra, parece-me, deve ter este magno assunto por detrás de todos os pequenos assuntos de suas peças e novelas, ou estará simplesmente arranhando a superfície das coisas, não pertencendo senão à categoria dum proporcionador de divertimentos de salão.

Eugene O’Neil em carta dirigida a um amigo.

O Feitiço de Áquila na Casa do Sol

Por volta das oito da manhã, entrei no escritório da Hilda Hilst, a qual, como sempre, já estava debruçada sobre uma pilha de livros abertos — era sua maneira de ler: sempre que se cansava de um livro, puxava um outro para o topo e retomava a leitura no ponto marcado. Quando me viu, colocou um cristal de rocha do tamanho de um punho sobre a página aberta e me encarou:

— Bom dia, querido.

— Bom dia, Hilda.

— Você viu se o Bruno já acordou?

Ela se referia ao poeta Bruno Tolentino, seu mais novo hóspede.

— Encontrei com ele às sete e meia lá na cozinha. Ele não veio aqui?

— Não sei. Vim pra cá às seis e meia, mas tive de voltar pro banheiro. Comi alguma coisa ontem que me fez mal.

— Na verdade, acho que o problema é que você ‘finalmente’ comeu alguma coisa, né. Você quase não se alimentado e, quando come, parece se esquecer de que algo tem de sair.

— Pode ser — respondeu, sorrindo e abanando-se com o leque. — Mas cadê o Bruno? Não tomou o café ainda?

— Ele foi dormir, Hilda. Passou a noite inteira escrevendo.

— Credo! Faz mais de uma semana que ele está aqui e ainda não conseguimos conversar direito. Ele dorme o tempo todo!

— Ele tem dormido muito mesmo. O Antônio disse que ele anda cansado. Mas, muitas vezes, a gente acha que ele está dormindo quando, na verdade, está é finalizando O Mundo Como Idéia.

— Bom, qualquer dia ele vai entrar em sincronia com a Casa. Todo mundo entra.

E então conversamos sobre assuntos variados: o rosto de Camões que lhe apareceu na parede do banheiro, sugerindo-lhe o início de um poema — “Que este amor não me cegue nem me siga…” —, as cartas obscenas de James Joyce à sua esposa Nora, nossos sonhos e assim por diante. Depois nos entregamos a nossas respectivas leituras e, lá pelas onze e meia, Hilda me pediu para lhe servir sua primeira taça diária de vinho do Porto. Uma hora mais tarde, “más feliz que una lombriz”, Hilda se levantou de súbito:

— Vou deitar um pouco, Yuri.

— Peço pra Juliana preparar seu almoço às duas?

— Ah, não sei. Esse negócio de comer pra depois ter de ir ao banheiro é muito trabalhoso — e riu.

— Poxa, Hilda. Espere chegar em Marduk antes de parar de comer. Senão o Zé vai encher o nosso saco e, claro, você não vai conseguir parar de pé.

Ela me respondeu com um gesto de enfado e, de braço comigo, caminhou até a porta do quarto, onde se fechou.

Pouco antes das duas, enquanto eu e Antônio, secretário do Bruno, almoçávamos, Bruno apareceu na cozinha:

— A Hilda já almoçou?

— Ainda não. Foi se deitar e ainda não levantou.

— Toda vez que vou ao escritório, ela está dormindo. Ela só está acordada na hora da novela? Não dá pra conversar na hora da novela.

Eu ri: — Ela também acha que você dorme o tempo inteiro. Ela acorda bem cedo. O esquema aqui é de mosteiro.

— Só que tem mais vinho que hóstia neste mosteiro… — tornou ele, sorrindo ironicamente.

— Bom, depois que ela ficou sabendo que deve mais de quinhentos mil reais de IPTU, resolveu investir em mais garrafas de vinho. Não a culpo: está numa enrascada e, mesmo se conseguisse uma boa editora, jamais teria dinheiro suficiente.

— Quinhentos mil… — balbuciou ele. — Este país é um absurdo.

— Pois é.

— Melhor eu me adequar à regra local, né — disse, após um minuto. — Já combinamos que irei revisar o teatro dela. Quero fazer isso em voz alta, diante dela.

De fato, semanas mais tarde, foi assim que Bruno revisou o Teatro Completo da Hilda: uma leitura em voz alta, na presença de Hilda, de Zé Mora Fuentes e de mim mesmo. Mas, voltando ao dia em questão, enquanto ele enchia a xícara de café, comentei:

— Vocês estão parecendo os personagens do filme O Feitiço de Áquila: quando um está consciente, o outro não está.

— Ladyhawke?

— Acho que é.

— Bom, a Hilda gosta mais de cachorros do que eu. Ela podia ser o lobo e eu, a águia. O signo de escorpião também já foi representado pela águia.

Antônio finalmente se manifestou: — Quem mais está lucrando com isso é o Yuri.

— Eu? Por quê?

— Uê, você tem dois professores particulares e um não atrapalha a aula do outro.

— Isso é verdade — tornei. — Pena que nenhum dos dois tenha gostado das minhas poesias.

— O que você faz na prosa é que é ‘poiesis’ — disse Bruno, muito sério. — Já os poemas que me mostrou são apenas letras de música, não possuem musicalidade em si mesmos.

— A Hilda me disse a mesma coisa.

— Claro, para ser um poeta, você tem de ler mais poesia. E, se quiser, vai chegar lá — acrescentou.

— Aí é que está: não me vejo como poeta. Ao menos não na expressão. Quero continuar com os contos e, assim que puder, partir para os romances.

— Potencial e talento você tem. Só tem de tomar cuidado para não se perder. Não vá, por exemplo, fazer como a Hilda e ficar correndo atrás do James Joyce.

Eu ri: — Não pretendo.

— Ótimo. Ulisses é um embuste. A poesia e o teatro da Hilda são maravilhosos, mas, com uma exceção ou outra, no geral, Joyce atrapalhou a prosa dela.

— Acha isso mesmo?

— Não me entenda mal: ela escreve muitíssimo bem, mesmo em prosa. Mas, ao contrário da poesia, em que ela é genial, na prosa ela não sai da sombra do irlandês maluco. No teatro, a gente nota a influência de Beckett, mas ela não se intimida e está toda lá. Nos contos, pelo menos nos que eu li, a gente sente que foi tudo escrito por um Kafka que leu James Joyce. Onde ela está?… — e fez uma pausa, pensativo. — Bom, pelo menos nas crônicas ela é engraçada, está presente.

Antônio riu: — Com mais essa aula e as da Hilda, você já deve uns quinhentos mil pra cada professor, Yuri. A Hilda vai poder pagar a dívida dela.

— Quinhentos mil?! — tornou Bruno, arqueando as sobrancelhas. — As aulas que esse menino está recebendo não têm preço!

Depois do almoço, Bruno se retirou para seu quarto, retomando a escrita d’O Mundo Como Idéia. Hilda só foi aparecer lá pelas três:

— O Bruno já almoçou?

— Já.

— Cadê ele?

— Voltou pro quarto.

— Foi dormir de novo?!

— Não, tá escrevendo.

Ela sorriu, um tanto contrariada: — Nossa, como esses escritores são anti-sociais! Ficam se isolando, não param de escrever.

— Tipo aquela poeta doida que se refugiou num sítio perto de Campinas, né. Aquela que mandava o marido ir comer a empregada para ela poder escrever.

Hilda, que já acendia o cigarro, deu uma risada solta: — Mas ela agora é só uma velha louca cheia de cachorros. E não escreve mais!

Voltamos às nossas leituras.

— Você já leu os livros do Bruno, Hilda? — perguntei, minutos depois.

— Li o que ele me deu: As Horas de Catarina. E também esse outro que me emprestou: Os Sapos de Ontem.

— O que achou?

— Ele é um poeta de verdade. É difícil encontrar um. Mas Os Sapos de Ontem é chatérrimo! Eu também não gosto das besteiras dos concretistas, mas o Bruno é muito enrolado para escrever em prosa, fica tergiversando e tem um estilo muito afetado, bossa… — e então se refreou, tentando lembrar de alguma coisa.

— Bossa o quê, Hilda?

— Como se chamava aquele crítico que aparece no filme que vimos outro dia?

— No filme Carrington?

— Isso.

Eu sabia a quem ela se referia — Lytton Strachey — mas tampouco me lembrei do nome naquele momento.

— Ah, não importa. São semelhantes: ferinos, mas empolados.

— Bom, mas parece que ambos, ao criticar outros escritores, se referem justamente à afetação vazia destes.

— Pode ser. Mas ele é melhor na poesia do que nos ensaios.

Lição daquele dia: acredite mais nos seus olhos e na sua consciência do que naquilo que um escritor fala do outro, afinal, é possível que ambos estejam… certos! Sim, certos. Porque, se “o estilo é o próprio homem”, e se há personalidades com as quais nos damos melhor do que com outras, muitas vezes nos damos igualmente bem com escritores entre os quais, lá entre eles, não há plena afinidade.

Ortega y Gasset: La tragicomedia

EL género novelesco es, sin duda, cómico. No digamos que humorístico, porque bajo el manto del humorismo se esconden muchas vanidades. Por lo pronto, se trata simplemente de aprovechar la significación poética que hay en la caída violenta del cuerpo trágico, vencido por la fuerza de inercia, por la realidad. Cuando se ha insistido sobre el realismo de la novela, debiera haberse notado que en dicho realismo algo más que realidad se encerraba, algo que permitía a esta alcanzar un vigor de poetización que le es tan ajeno. Entonces se hubiera patentizado que no está en la realidad yacente lo poético del realismo, sino en la fuerza atractiva que ejerce sobre los aerolitos ideales.

La línea superior de la novela es una tragedia; de allí se descuelga la musa siguiendo a lo trágico en su caída. La línea trágica es inevitable, tiene que formar parte de la novela, siquiera sea como el perfil sutilísimo que la limita. Por esto, yo creo que conviene atenerse al nombre buscado por Fernando de Rojas para su «Celestina»: tragicomedia. La novela es tragicomedia. Acaso en la Celestina hace crisis la evolución de este género, conquistando una madurez que permite en el «Quijote» la plena expansión.

Claro está que la línea trágica puede engrosar sobremanera y hasta ocupar en el volumen novelesco tanto espacio y valor como la materia cómica. Caben aquí todos los grados y oscilaciones.

En la novela como síntesis de tragedia y comedia se ha realizado el extraño deseo que, sin comentario alguno, deja escapar una vez Platón. Es allá en el Banquete, de madrugada. Los comensales rendidos por el jugo dionisiaco, yacen dormitando en confuso desorden. Aristodemos despierta vagamente, «cuando ya cantan los gallos»; le parece ver que sólo Sócrates, Agatón y Aristófanes siguen vigilantes. Cree oir que están trabados en un difícil diálogo, donde Sócrates sostiene frente a Agatón, el joven autor de tragedias, y Aristófanes, el cómico, que no dos hombres distintos, sino uno mismo debía ser el poeta de la tragedia y el de la comedia.

Esto no ha recibido explicación satisfactoria, mas siempre al leerlo he sospechado que Platón, alma llena de gérmenes, ponía aquí la simiente de la novela.

Meditaciones del Quijote“, José Ortega y Gasset.

A paixão n’A Montanha Mágica

N’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o personagem Wehsal descreve a Hans Castorp sua paixão por Clawdia Chauchat:

“uma coisa dessas não devia existir à face da Terra, contudo não a podemos pura e simplesmente erradicar. Quem sofre desse mal, não o consegue simplesmente erradicar, porque teria de erradicar a própria vida, com a qual ele se fundiu, e isso não é possível. De que nos serviria morrer? Depois — sim, com todo o gosto. Nos braços dela — sim, sem pensar duas vezes. Mas antes seria disparate, porque a vida é desejo e o desejo é vida, uma coisa não se pode voltar contra a outra, nisso é que reside o maldito impasse. (…). Há tantas formas de tortura, Castorp, e quem está sob tortura, só quer sair dela, só quer se libertar dela a todo custo, é esse o seu único objectivo. Mas para nos libertarmos da tortura infligida pelo desejo carnal, só há uma solução e um caminho que é a satisfação desse desejo — não há outra via, não há outra saída! É assim que as coisas se passam. Quem não sofre do mal, não perde tempo com considerações deste género, mas quem foi tocado pela desgraça, compreende as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e os olhos enchem-se de lágrimas. Deus do céu! Que circunstância mais estranha esta de a carne desejar a carne de outrem, só porque não é nossa mas pertence a uma alma diversa! Como é singular este fenómeno e como é, bem vistas as coisas, simples e natural na sua bondade e pudor! É caso para dizermos: se é só isso que a carne deseja, que lho concedam, por amor de Deus! Será que peço algo extraordinário, Castorp? Será que por acaso a quero matar? Fazer derramar o seu sangue? A única coisa que quero é dar-lhe a minha ternura! (…) O desejo carnal dispersa-se em várias direcções, não se liga nem se fixa a nada e é por isso que lhe damos o nome de animalesco. Mas no momento em que se fixa numa pessoa, num rosto humano, começamos a chamar-lhe amor. (…) Pois é aí justamente que reside a desgraça — prosseguia a pobre alma — A desgraça é ela (Clawdia) ser dotada de alma, ser uma criatura humana com corpo e alma! Porque a sua alma não quer saber da minha e, portanto, o seu corpo também não quer saber do meu. Ó tristeza do mundo, ó lástima da vida! Por causa disso o meu desejo está condenado à ignomínia e o meu corpo terá de retorcer-se para todo o sempre! Porque não querem o seu corpo e a sua alma saber de mim, Castorp, porque lhe é o meu desejo tão abominável? Não serei por acaso um homem? Não continua um homem execrável a ser um homem? Pois eu sou homem ao mais alto nível, isso posso assegurar-lhe, e suplantaria qualquer homem se ela me franqueasse o paraíso dos seus braços, esses braços que são tão formosos por fazerem parte do rosto anímico! Oferecer-lhe-ia toda a volúpia do mundo, Castorp, se apenas o corpo estivesse em jogo e não o rosto, se a sua maldita alma não existisse, essa alma que nada quer saber de mim e sem a qual eu também não cobiçaria o seu corpo — é este o terrível impasse e desespero em que vivo e em que me retorcerei para todo o sempre. (…) Um mal que nos transforma os dias em tormento de luxúria e as noites em inferno de ignomínia”.

Um conselho de Fernando Pessoa

Um conselho que todo escritor deve seguir é o do Fernando Pessoa: “Faça o romance antes que ele lhe seja feito”. Por exemplo: quer matar alguém? Mate-o num poema, num conto, num romance. Em vez de ir até a UnB com uma metralhadora e meia dúzia de granadas, escrevi A Tragicomédia Acadêmica.

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