Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Tag: Literatura (Página 2 de 27)

Um conselho de Fernando Pessoa

Um conselho que todo escritor deve seguir é o do Fernando Pessoa: “Faça o romance antes que ele lhe seja feito”. Por exemplo: quer matar alguém? Mate-o num poema, num conto, num romance. Em vez de ir até a UnB com uma metralhadora e meia dúzia de granadas, escrevi A Tragicomédia Acadêmica.

Bebê bêbado

Um detalhe curioso do romance David Copperfield, de Charles Dickens, de que nunca me esqueço: nas estalagens, sempre que aguardava pela troca dos cavalos de sua diligência, o protagonista almoçava bebendo uma enorme pinta de cerveja. Atenção: nas ocasiões narradas, ele só tinha uns 11 anos de idade…

Disseram-me que isso era comum naquela época, pois, graças a epidemias de cólera, tifo e que tais, as pessoas tinham receio de beber água contaminada. (E hoje, pobres crianças, já não podem curtir sequer um Biotônico Fontoura…)

…então NÃO COMPRE meu livro!

Veja o comentário que o leitor Guibson Dantas escreveu na Amazon sobre A Tragicomédia Acadêmica:

“Como acadêmico e ferrenho crítico do ambiente universitário brasileiro atual – repleto de comunistas que nunca leram nada, de liberais que mal sabem quem foi Adam Smith, de religiosos fanáticos e militantes gays fascistas -, resolvi comprar o referido livro na esperança de qualificar minhas críticas ou obter novas informações sobre o tema. Confesso que me decepcionei demais com o livro. Muito bobo, com contos juvenis e sem nexo. Sinceramente? Não gaste tempo com esse livro. A vida é curta.”

Entenderam? Ele comprou um livro de — como diria Harold Bloom — “LITERATURA DE IMAGINAÇÃO” para “qualificar minhas [as dele] críticas ou obter novas informações” sobre a encheção de saco política dos dias atuais. Se alguém tiver o mesmo intuito, então NÃO COMPRE MEU LIVRO! Só um sujeito completamente desprovido de cultura literária, de imaginação e, principalmente, de senso de humor pode pretender buscar essas coisas num livro de ficção, num livro humorístico. Seria como ler As Viagens de Gulliver em busca de novos pontos turísticos! Nunca tive a pretensão de escrever ensaios sobre a vida universitária e, caso a tivesse, teria escrito ensaios (surpresa!), e não esses dezenove contos cujas tramas e personagens me deram um imenso trabalho. (E nem preciso dizer que, na época em que os escrevi — 1996-1997 —, esses conflitos ideológicos não eram tão exacerbados, conspícuos e problemáticos como o são hoje.) Os contos são juvenis? Muito provavelmente, afinal eu os escrevi aos 25 anos de idade com a intenção de apresentar aos demais universitários um livro que eu gostaria de ter encontrado nas livrarias e que NUNCA ENCONTREI. Ora, a maioria dos estudantes é constituída de jovens, não vejo nenhum problema em me dirigir principalmente a eles. (Uma das epígrafes mostra que eu tinha plena consciência disso.)

Fico sempre muito contente e sinceramente agradecido quando alguém — no Facebook, por mensagem direta ou por email — elogia meu livro. E são muitas mensagens! Mas juro que cheguei a um momento da vida em que elogios e críticas são assimilados por minha consciência de uma forma muito semelhante: ou estão colocando meu ego para baixo, ou o estão colocando para cima. Sim, no fundo, é sempre uma questão de ego. E o ego, durante o processo de criação, não manda em nada! Eu sei qual é o valor do meu trabalho, conheço meus méritos e deméritos, minhas qualidades e defeitos, e por isso sou sempre o meu crítico mais ferrenho. Claro, quando as críticas são construtivas, mesmo sendo negativas, sempre as ouço e medito muito sobre seu conteúdo. Ora, não sou onisciente, um feedback justo, originado de uma perspectiva totalmente diferente da minha, é sempre proveitoso. No entanto, a “crítica” do leitor acima é apenas o comentário do “acadêmico” que comprou o livro errado: comprou ficção em vez de um estudo antropológico. Ora, para um suposto pesquisador da academia, a incapacidade de pesquisar a respeito de um livro antes de comprá-lo é algo cômico e, no fundo, apenas ressalta a substância dos contos: a universidade vive uma tragicomédia.

Agora, é bom receber elogios? Claro que é, mas não me permito acreditar plenamente neles, do contrário, poderia achar que já cheguei no ápice, esquecendo pois de me aprimorar. É chato receber críticas destrutivas? É óbvio que sim, mas tampouco me permito acatá-las, do contrário, não conseguirei me permitir a liberdade necessária para criar, pois essa liberdade exige autoconfiança e um enorme foda-se para as opiniões circundantes, sejam elas quais forem. O que me chateia, no caso presente, é que pretendo deixar de morar sob o viaduto — leram o texto anterior? — e os comentários de um leitor desavisado como esse apenas atrapalham a venda do livro. Como disse Monteiro Lobato em sua última entrevista, referindo-se a si mesmo: para um escritor profissional, “seu livro predileto é o que lhe dá mais dinheiro”. Assim, quem quiser realmente me deixar muitíssimo feliz, além de me elogiar diretamente, diga também o que achou do livro nos sites em que o comprou. Beleza? Muchas gracias.

Dois romancistas e um filho – por Carlos Heitor Cony

Conforme comentei com Rodrigo Gurgel e Filipe Trielli, na crônica abaixo Carlos Heitor Cony fala do Diário Secreto de Humberto de Campos, no qual o autor narra um encontro com o médico de José de Alencar: segundo esse médico, um dos filhos desse escritor era, na verdade, filho de Machado de Assis. Eis portanto a suposta origem do romance Dom Casmurro: Machado tentando imaginar-se na pele do colega que ele também traiu… Será verdade?

DOIS ROMANCISTAS E UM FILHO
Carlos Heitor Cony

Não me considero culpado de falta para com a memória dos dois mestres literários

JANEIRO DE 2000 – Caiu do céu um pretexto para desistir da Academia. Em agosto passado, quando morreu o Herberto Sales, fui apanhado de surpresa pelos amigos de lá e não tive como reagir.

Recebi hoje amável cartão do Josué Montello encaminhando cópia da carta que ele escreveu ao presidente da Academia, solicitando que seja recolhido o livro que a diretoria anterior mandou distribuir como relatório das atividades acadêmicas em 1999.

Entre outras considerações sobre a publicação, Josué dá destaque ao recorte de uma revista (“Veja”) que comentou, à maneira dela, as duas crônicas que escrevi logo após o júri promovido pela Folha sobre o suposto adultério de Capitu.
Fiz parte do júri que tinha como mérito mostrar a força de Machado de Assis: cem anos após a publicação de seu romance, ele era discutido num auditório lotado, em sessão presidida por um ministro do Supremo Tribunal Federal (Sepúlveda Pertence), com advogados e testemunhas de defesa (Rosiska) e acusação (eu próprio).

Logo após o júri, publiquei duas crônicas sobre o assunto, tendo como base o relato de Humberto de Campos sobre uma visita que ele fizera a seu médico, Afonso Mac Dowell, o qual lhe revelara que Mário de Alencar, filho de José de Alencar, era na verdade filho de Machado de Assis. Donde a conclusão, não minha, mas de Humberto de Campos: o filho de Capitu era a transposição para o romance de um fato real vivido por Machado de Assis.

O “Diário Secreto” foi publicado anos após a sua morte, primeiramente em “O Cruzeiro”. Com tiragem de 700 mil exemplares, era a principal vitrine da vida brasileira. Posteriormente, o mesmo diário foi publicado em livro (possuo a segunda edição, o que mostra que não se trata de obra clandestina).

A revista que comentou minhas duas crônicas considerou-as como “mexerico” (palavra defasada, só possível num texto mal escrito). E transcreveu o trecho do Humberto de Campos, transferindo desta maneira o mexerico para o cronista maranhense. Limitei-me a citá-lo.

Josué foi mencionado na matéria, é atualmente o maior conhecedor da vida de Machado de Assis. Também foi citado o Antônio Olinto, que lembrou o fato de Mário de Alencar tratar Machado como pai em suas cartas -o que nada significa, além da expressão de um carinho especial. Mário ficou devendo sua entrada para a Academia a Machado. Fato que Magalhães Jr., citado também por mim, atribuía ao “nepotismo” do primeiro presidente da ABL.

Como se nota, uma polêmica bizantina, com um toque de mau gosto, só justificada pela realização do júri e pelo interesse que o caso Capitu ainda desperta na literatura nacional.
A diretoria da Academia, no exercício de 1999, ao publicar em livro a repercussão de suas atividades na mídia, incluiu a matéria da revista -e o Josué, zeloso guardião da honra dos grandes ícones das nossas letras, principalmente de Machado e Alencar, considerou um “achincalhe à honra e à dignidade de um dos nossos confrades”.

E falando de Alencar, diz que o romancista “compartiu a sua vida digna com uma alta dama da sociedade fluminense, a Exma. Senhora D. Georgiana Cockrane de Alencar, com quem teve seis filhos” – cito textualmente a carta de Montello.
Este é o fato que me dá pretexto para tirar meu time de campo. No mérito da questão, eu me limitara a lembrar o trecho do “Diário Secreto” de Humberto de Campos. Se houve achincalhe, como diz o Josué, não foi de minha parte.

Não tenho culpa de a revista ter aproveitado o episódio, de interesse restrito à vida literária, para tentar fazer um escândalo às custas de Alencar e Machado. Não me considero culpado de qualquer falta para com a memória dos dois mestres. São personalidades públicas, pertencem à nossa história, como Victor Hugo e Sainte-Beuve pertencem à história da França.

Desditas conjugais são comuns, dentro e fora da literatura, bastando lembrar Júlio César, Napoleão, Luiz 16, d. João 6º. A lista é enorme e realmente universal, parece que começou com Abraão, que apresentava sua mulher, Sara, como sua irmã aos reis do deserto -o que transformou o Pai dos Crentes num verdadeiro patriarca.

Fonte: Folha de São Paulo.

O dinheiro liberta

De braço com sua linda namorada — uma modelo muito disputada pelas mais exclusivas passarelas européias — um bilionário entrou a largos e confiantes passos naquele bar da moda. Atrás dele, praticamente correndo para acompanhá-los, vinha um séquito formado por uma lésbica, uma feminista, um gay, uma transexual, um drogadicto, um ladrão de caixas eletrônicos, um negro, um refugiado muçulmano, um índio, um comunista, um jornalista, um cineasta, um artista plástico e um ator de novelas. Ele e sua namorada se sentaram numa pequena mesa para dois e aquela gente, à guisa de coro grego, aglomerou-se às costas do casal, permanecendo de pé. O garçom aproximou-se, indagou se aquele grupo os estava incomodando, e o bilionário disse que não, que eram seus funcionários. O garçom, pois, deu de ombros, anotou os pedidos — incluindo uma única garrafinha de água para cada “coreuta” — e se retirou.

— Nossa — exclamou a namorada, sorrindo — não sabia que você curtia esse tipo de balada. Você é mesmo cheio de surpresas.

— Eu gosto do clima, do ambiente. O único problema é que aqui… — e então, atendendo a um gesto seu, o coreuta gay se inclinou e ouviu o que ele tinha a dizer.

E o gay, assumindo a posição de corifeu à frente do coro, completou a frase:

—…é que aqui tem muito viado.

O bilionário, sem ocultar um olhar dos mais severos, virou-se ligeiramente para seu funcionário.

— O problema é que aqui tem muuuuito viado! — repetiu o gay, desta vez praticamente aos berros, estendendo em seguida a mão. O bilionário retirou então cinco cédulas de 100 reais e as depositou discretamente naquela mão de longos dedos.

Os demais frequentadores do bar, ao ouvir aquilo, encheram-se de indignação, olhando com ar de censura na direção do casal. Contudo, percebendo que quem havia proferido aquelas palavras não era senão um sujeito que poderia ser confundido com um Cauby Peixoto ou um Liberace — o paletó coberto de lantejoulas, todo cheio de trejeitos, caras e bocas — deram de ombros: e sorriram.

O garçom voltou com as bebidas, o tira-gosto e as garrafinhas de água que, a pedido do bilionário, distribuiu à socapa, como se o coro e o casal não estivessem juntos.

— Pode ser — tornou a modelo, pegando o copo. — Mas eu os adoro! Quase todos os meus amigos são gays. Sem falar no meu maquiador, no meu cabeleireiro…

O bilionário sorriu, alteroso:

— Claro, claro. Os gays são ótimos! Meu advogado é gay. Mas ele só age como um…

— …viado espalhafatoso e sem noção!… — tornou a vociferar o coreuta gay, que recebeu imediatamente mais 500 reais.

— …quando está bêbado numa festa privada — concluiu o bilionário. — Mas, no trabalho, é um lorde. Gosto dos gays. Pelo menos não tentam ser fisicamente o que não são, como esses… — e fez outro gesto, desta vez, para a esquerda, sussurrando algo em seguida.

— …como esses travestis malucos! — berrou escandalosa e comicamente a transexual. — Eles querem ser tratados como mulheres, mas não podem parar de tomar hormônios femininos, pois todas as células do seu corpo são XY! — e, com isto, provocou risadas até mesmo numa mesa ocupada por um grupo que parecia ter chegado de uma parada gay.

E o bilionário, retirando mais 500 reais do bolso, a pagou.

— Credo! Travesti e transexual nem são a mesma coisa — objetou a modelo, rindo. — Como você é mau!

— Isso é ruim?

— Não, adoro homens malvados!

— Eu sei — tornou ele, cheio de si. — Como se isso não estivesse implícito na maneira como transamos — e sorriu, deslizando o dedo pelas gotículas de água condensada na lateral do copo. — Ora, mulher gosta mesmo é de… — e fez outro gesto seguido de mais sussurros.

— Mulher gosta mesmo é de apanhar! — gritou a coreuta feminista, assumindo a tarefa de corifeu. — Essas então, que se fazem de fodonas e que se dedicam exclusivamente às suas carreiras, nem se fala! E mulher que compete com o marido precisa de mais palmadas ainda! Mulher de verdade gosta é de se submeter — prosseguiu a feminista, exaltada —, principalmente naqueles momentos mais quentes do sexo — e, ao concluir, estendeu a mão. O bilionário lhe pagou 500 reais.

De todos as partes do bar, as pessoas a olhavam, mas nada diziam. Aquela ali devia ser meio maluca. “Não era aquela colunista da Folha de São Paulo?”, perguntavam-se. Enquanto isso, a modelo, com o olhar mais lânguido do mundo, toda apaixonada, beijou o bilionário ardentemente.

— Você é incrível! — murmurou ela.

— Se você diz… deve ser verdade! — e riu, másculo. — Acredito em você. Você não é nenhum desses… — e, sempre com a discrição de um ventríloquo, fez outro gesto acompanhado de novos sussurros.

Um sujeito grisalho, parecido com um conhecido apresentador da TV, deu um passo adiante e começou a berrar:

— Você merece confiança pois não é um desses jornalistas cheios de interesses escusos! Não é como um desses escravos de ideologias assassinas! — e, tendo dito isso, estendeu a mão. O bilionário o pagou e, antes de retomar a conversa com a namorada, pensou um pouco. Por fim, retirando mais 1000 reais do bolso, tornou a pagá-lo.

— Fale bem de mim no seu blog.

— Sim, senhor — sussurrou servilmente o jornalista que, por ter se esquecido de iniciar a fala com “olá, tudo bem?”, acabara não atraindo a atenção de ninguém.

O bilionário voltou-se novamente para a namorada.

— Onde estávamos?

— Você dizia que confiava em mim — e ela piscou repetidamente os grandes e belos olhos.

— Ah, é verdade — disse ele, bebendo em seguida mais um gole do drink. — E confio mesmo.

Ela apertou a mão dele:

— Amor, posso então te perguntar uma coisa?

— Claro. O que é?

— Por que você é tão rico? O que você faz da vida? Sempre quis saber…

— Ué, nunca te contei?

— Não.

— Que coisa — e franziu a testa, pensativo. — Acho tão normal ser rico que nunca penso nisso.

— Mas diz, vai.

— Uê, vivo de renda. Tenho cerca de dois bilhões de dólares investidos. Boa parte do meu dinheiro está em hedge funds. Também tenho carteiras de ações, que geram grandes dividendos. O restante eu mesmo invisto em startups e coisas assim.

Ela caiu na gargalhada.

— O que foi? — perguntou ele, rindo também.

— É que eu não entendi nada!

— Posso explicar se você…

— Não, não precisa — e continuou rindo. — Só me diz se não tem nada de ilegal nessas coisas.

— Não tem, é tudo legal. Você sabe: sou uma pessoa correta. Não lido com bandidos. Quer dizer… a não ser temporariamente com esse aí… — e moveu o queixo, indicando o ladrão de caixas eletrônicos ali no coro. — E sou assim simplesmente porque nunca me esqueço do meu avô paterno. De tanto que repetiu, acho que foi ele o inventor desse ditado popular que anda pela boca do povo.

— Que ditado?

O bilionário tornou a fazer o gesto e o ladrão, com uma meia feminina enfiada na cabeça e algemas nos braços, se adiantou para ouvir seu sussurro.

— Bandido bom é bandido morto! — vociferou o ladrão que, graças à sua suposta “fantasia”, arrancou risadas dos presentes. E o bilionário, naquelas mãos unidas por algemas, depositou 500 reais.

— Caraca! — tornou a modelo. — Seu avô também era malvadão, hem. Era gostoso como você?

— Mais bonito. Ao menos nas fotos, claro. Ele parecia um ator de cinema.

Ela arregalou os olhos:

— Você bem que podia ser ator! — e exaltou-se. — Eu conheço um diretor de novela! Se quiser…

— Deus me livre! — interrompeu-a, alegremente. — Imagine, de jeito nenhum. Tá, eu sei que há atores legais. Mas a maioria deles, principalmente os de novela… — e emitiu mais um gesto e mais sussurros.

O ator de novela assumiu a posição de corifeu e, num volume de trovão, deu voz ao pensamento do patrão:

— …a maioria dos atores de novela não passa, como dizia Hitchcock, de gado e por isso, quando não está sendo tocada pelos diretores e pelos roteiristas, está pastando na conversa fiada de algum teórico marxista, a quem essa maioria de atores só conhece de ouvir falar! — E o bilionário lhe murmurou mais algumas palavras. — Ou então esses atores estão pastando em alguma outra porcaria desse tipo, como a defesa das minorias, do meio-ambiente, dos traficantes, a multiplicação dos gêneros sexuais e assim por diante — e, ao final, o ator estendeu a mão.

Enquanto o bilionário o pagava, os circunstantes, cheios de curiosidade, dirigiam o olhar para o estranho coro:

— Aquele não é o ator que trabalhou na novela A Favorita?

— Não, não. É aquele figura da Caminho das Índias. Tava sumido, né?

— Bom, pelo menos ele ainda faz happenings. Acho chato e sem graça, mas já é alguma coisa.

E, com esse reconhecimento se espalhando pelo bar, surgiram mais risadas e comentários.

A modelo não desistia:

— Então você podia trabalhar no cinema!

— Já trabalhei, gata. Quer dizer, fui produtor de filmes. Financiei três longas-metragens.

— Sério? E vai fazer mais algum?

— Não, nem ferrando. O problema é que… — e lá veio mais um gesto e mais sussurros.

O cineasta se adiantou, assumindo a função de corifeu:

— …é que a maioria dos cineastas brasileiros ou só quer saber de dinheiro ou não sabe sequer escrever um roteiro coerente! — O bilionário sussurrou mais coisas. — Um dos diretores que financiei — prosseguiu o cineasta corifeu — morava num muquifo lá no centro da cidade. Ele sumiu por uns seis meses! Quando reapareceu, dirigia um carro zero quilômetro, morava num apartamento que comprara num bairro nobre e o filme… — e se inclinou para ouvir mais sussurros — … e o filme que me entregou foi feito com aquelas câmeras digitais antigas, aquelas miniDV, e com atores péssimos. Sem falar na trama sem pé nem cabeça e no roteiro sem começo, meio e fim. E o diretor se justificou dizendo que era um filme de arte! — O bilionário lhe soprou mais coisas ao ouvido. — Um grande filho da puta! — continuou o cineasta, aprumando-se. — Essa gente do cinema nacional está acostumada a receber dinheiro do Estado a fundo perdido e acha que pode fazer a mesma coisa com um financiador privado! Estão viciados nesse sistema, não valem nada! Estão se lixando para a fruição do público. Dos expectadores, eles só querem uma presença minimamente razoável para justificar mais um projeto. Os cineastas ligam o “foda-se” para o bom gosto e para as necessidades estéticas que todos temos. Eles se negam a alimentar de forma sadia a nossa imaginação!

— Nossa, amor, não sabia que aqui era sempre assim.

O bilionário pagou o cineasta, que voltou para o coro.

— Também, linda, quer o quê? Você passa a maior parte do tempo ou na Europa ou em Nova Iorque…

— É, tem isso.

— Uma coisa que eu não esqueço é um dos cenários do filme — continuou o bilionário. — O diretorzinho disse que um amigo dele, artista plástico, foi o responsável. Mas você sabe como eles são. Os artistas hoje… — e gesticulou novamente. O artista, pois, destacou-se do coro e sorveu-lhe as frases murmuradas.

— … os artistas hoje não têm a menor idéia do que seja a beleza nem sabem retratar a realidade ou mesmo expressar a contento as suas impressões — discursou aos berros o artista, que todos no bar conheciam. — Só querem saber de chocar e de serem originais! O problema é que não fazem nem uma coisa nem outra: querem apenas dinheiro, fama e sexo!

No bar, havia muitos murmúrios: “mas esse não é a estrela da Bienal de cinco anos atrás? Terá perdido o juízo?”

O bilionário, com seu jeitão entre o prestidigitador e o ventríloquo, lhe sussurrou mais coisas.

— Os artistas — prosseguiu o artista plástico — não chocam e não esfregam na cara de ninguém sequer um vislumbre das verdades que apenas um artista real seria capaz de intuir. A sociedade, aliás, já está muito mais chocante do que qualquer besteira que possam inventar. Quanto à originalidade… — e o artista voltou a aproximar o ouvido da boca do bilionário. — Quanto à originalidade, há por acaso gente mais original que nossos deputados e senadores? — e, de mão estendida, recebeu o dinheiro.

O bilionário deu continuidade ao raciocínio:

— Os políticos inventam as leis mais absurdas, meu amor! Que artista pode se equiparar a eles? — e gesticulou, promovendo novamente a corifeu o coreuta ladrão:

— Os políticos é que são criativos! — berrou o bandido. — Ao promover o desarmamento, proíbem os cidadãos de se defender por conta própria: um procedimento típico dos países totalitários! É assim em Cuba, na Venezuela, na Coréia do Norte! — O bilionário lhe soprou mais coisas. — No fundo — prosseguiu —, os governantes não se importam com acidentes caseiros ou com brigas nas ruas entre cidadãos armados. Seu medo das armas não é esse. Eles têm medo é de serem depostos dos seus palácios e gabinetes à força!

Quase começou um tumulto numa mesa próxima, mas os amigos daquele sujeito que vestia uma camiseta do Che Guevara convenceram-no de que se tratava de uma performance, talvez até de uma pegadinha.

— Pô, velho, o cara tá de algema e com uma meia na cabeça! É palhaçada, deixa pra lá.

O bilionário pagou novamente o ladrão e, simultaneamente, acenou tanto para o coreuta negro quanto para alguém que estava fora do bar, na calçada. Enquanto o coreuta negro se adiantava para ouvir suas palavras, dois policiais entraram e levaram o bandido. O bilionário fazia tudo isso com tão grande destreza, e de modo tão sorrateiro, que muitos fregueses acreditavam que aquele grupo estava ali justamente para provocá-lo e que ele apenas tentava convencê-los a deixarem-no em paz. Não viam que era ele o comandante da coisa toda. Pelo contrário: pareciam aguardar uma reação mais drástica da sua parte e se admiravam da sua paciência. Em momento algum notaram os diversos pagamentos.

— Vossas excremências, os deputados e senadores — gritou o funcionário negro, à frente do coro —, são tão originais, tão criativas, que criam cotas para negros a pretexto de qualquer besteira, como se os negros fossem café-com-leite em tudo e para sempre! Em breve, haverá cotas até mesmo para a fila do supermercado!

Aquelas palavras, vindas de um negro, chocaram os presentes, mas ninguém disse nada. Estaria doido? Ou também participava de uma performance? Seria aquilo um flash mob? Mas afinal… que estranho grupo era aquele? Quem eram aquelas figuras? Coitado daquele casal à frente delas!…

Obedecendo a novo gesto, o drogadicto substituiu o coreuta negro, que já embolsara seus 500 reais:

— Os políticos estão loucos de vontade é de liberar as drogas! — esbravejou ele, baseado entre os dedos, os olhos injetados como os de um vampiro. — Eles parecem ter saído daquele livro do Aldous… Aldous… Do que eu tava falando mesmo? — e deu mais um tapa no beque. O bilionário tornou a lhe sussurrar. — Livro do Huxley! Admirável… é… — e começou a tossir, quase soltando fumaça pelas orelhas. Ao fim de uns vinte segundos, recuperou o fôlego. — O que era mesmo? Ah, claro, vocês sabem, aquele livro em que todo mundo fica doidão, transa loucamente e não se importa de ser dominado pelos tiranos. — O bilionário insistiu. — Isso, véio! Então… É… E, com a venda de drogas, quem vai encher as mulas… hum? Ah, sim. Quem vai encher as burras de dinheiro será… — e se calou, pegando seu dinheiro.

O bilionário já havia alertado o comunista, que, parecendo um clone de Lênin, retomou o fio da meada:

— Quem vai faturar com as drogas, camaradas, será a narco-guerrilha comunista do continente, como as FARC, como os bolivarianos!

O rapaz da camiseta do Che Guevara voltou a se irritar, mas os amigos o seguraram mais uma vez.

Nesse entretempo, o bilionário já havia pago o comunista, que então deixou sua função de corifeu misturando-se aos demais coreutas.

A modelo não parava de encarar o namorado.

— Amor, você tá tão falante hoje. É tão inteligente! Me deixa arrepiada.

— Hum, muito bom saber disso. Gosto de te deixar arrepiada.

— Ainda bem que já me acostumei com seus Assistentes de Liberdade-de-expressão. Antes eu tinha receio de que você os levasse até para o quarto! Achei que você fosse doido.

Ele riu:

— Doido? Eu? Doida está a sociedade, linda. Ninguém pode mais falar o que pensa. Ou o que é pior: não pode falar nem o que lhe passa aleatoriamente pela cabeça num momento inocente qualquer. Ora bolas, a gente não expressa apenas nossas convicções e crenças! A gente faz brainstorm o tempo inteiro! A gente fala o que assimilou automaticamente dos amigos, da família, dos colegas, dos livros, dos filmes. E é por isso que, de repente, num lapso, às vezes solta uma palavra-bomba! Isso não significa que a gente seja criminosa, racista ou intolerante. São palavras ao vento! Forças de expressão! Figuras de linguagem! Somos modernos: nossa diversão é conversar! Somos humanos: nosso traço comum é a imperfeição!

— Eu sei, amor, eu sei, você já me explicou — e sorriu, o olhar transbordando de ternura e admiração. — Acho sua idéia genial. Meio cara, né, quase ninguém teria condições de fazer a mesma coisa. Imagine, andar com esse monte de gente por aí só para poder falar o que quiser…

Ele a encarou com um olhar cômico:

— Você devia ter me visto no dia em que fui à comemoração de vinte anos de formatura dos meus ex-colegas de faculdade: entrei na festa com cento e três assistentes! Gente para tudo quanto é assunto!

O casal riu gostosamente e depois se abraçou.

— Amor, você é muito engraçado! E sabe se safar de qualquer situação.

— Fazer o quê, né, gata? O dinheiro liberta.

Chamaram o garçom e pediram mais bebidas. Depois que o bilionário devolveu o cardápio à mesa, a namorada lhe disse ao ouvido:

— Tem uma garota muito bonita naquela mesa ali perto da parede que não pára de me encarar. Se quiser, eu dou um jeito de levá-la com a gente.

Ele fez uma careta de enfado.

— Uê, amor, não quer? Eu sei que você curte. Daquela vez foi demais, não foi?

— Foi demais naquela única tarde de sábado. Os três meses seguintes — nos quais sua amiga lésbica, sentindo-se excluída, ficou com ciumeira, me mandando ameaças de morte pelo celular e pelo Facebook — não foram nada legais. Essas “brincadeiras”, no final das contas, não valem a pena.

— Nossa, não sabia disso! Pensei que ela tinha apenas te trollado um pouco no WhatsApp.

— Trollado o quê! — retrucou ele. — A mulher tava pirada! No final das contas, essas lésbicas com atitude masculina são apenas… — e fez novo gesto seguido de novos sussurros.

A coreuta lésbica, que de relance parecia a Cássia Eller, se postou à frente do grupo e gritou:

— Lésbicas com atitude masculina são apenas homens sem bolas, homens estéreis! Não passam de homens que sofrem de TPM!

Olhares silenciosos e exasperados, vindos de todos os cantos do bar, pousaram nela. Mais uma doida autodestrutiva?

— E se vocês, meu amor — tornou o bilionário, passando o dinheiro para a coreuta —, já dizem que homem não presta, imagine então um homem que tem TPM?

A modelo gargalhou uma linda gargalhada. Ao fim de uns dez segundos, sentindo a ficha lhe cair, refreou-se:

— Ué. Você sabe que já transei com mulheres. Fui eu que levei a Cláudia na sua casa. Então por acaso eu também sou um homem que sofre de TPM?

Ele sorriu:

— Não, boba. Você é feminina demais. E toda suposta lésbica, quando feminina, não é senão… — e voltou a agitar a mão e a rumorejar instruções.

A lésbica voltou a gritar com sua voz grave:

— Toda suposta lésbica feminina não passa de uma hedonista cansada de esbarrar em homens frouxos ou grosseiros! E então se apega a uma outra lésbica dominadora e, claro, sem bolas!

— E você, gata — continuou o bilionário, pagando mais 500 reais à coreuta —, você não passa de uma safada que adora ser saciada. Se eu não a satisfizesse, quem o faria? Os homens de hoje tomam muito leite de soja…

Ela não estava muito satisfeita:

— Caraca, você é todo cheio de opinião, hem. Não acho que seja por aí.

— Tudo bem, minha linda — disse ele, beijando-a. — Você sabe que estou apenas conversando. E quero conversar livremente. Não estou num palanque ou no Congresso Nacional. Quando falam mal dos ricos ou dos machos alfas, eu nem me importo. E tampouco vou sair por aí tentando mudar a cabeça das pessoas ou impondo meu ponto de vista.

— Ah, é? — retrucou ela num tom infantil, mas indignado. — E essa sua turma gritando aí atrás não está impondo o ‘teu’ ponto de vista?

— Claro que não, gatinha! O problema é que, hoje em dia, nós não temos mais liberdade de falar uns dos outros. Antes de contratar essas pessoas, fui processado cinco vezes! E simplesmente por emitir, em público, algo que era apenas uma brincadeira, uma piada! Não tenho tempo de ficar meditando sobre todo assunto. Porra, todo mundo vive gravando e filmando o outro no celular! Somos todos espiões! É um horror!

— Hum.

— Então, quando quero falar de uma minoria específica, contrato alguém dessa minoria para falar por mim. Ninguém os leva a sério! Ninguém se importa com o que alguém fala sobre a minoria do qual faz parte. Se eles criticam seu próprio nicho, se criticam, digamos, os seus “mais iguais que outros”, esses “mais iguais” apenas pensam que estão ouvindo malucos. Não os rotulam imediatamente de fascistas, de nazistas ou de sei lá o quê. Mas cá entre nós: são malucos, sim. Mas por dinheiro!

Ela riu:

— Bobo!

— Mas é assim mesmo, gatinha! Se eu tivesse feito pessoalmente uma única dessas declarações de hoje, alguém já teria se aproximado para tomar satisfação ou me ameaçar. Toda essa patrulha à livre-expressão é obra de intelectuais e professores enlouquecidos que piram as cabeças dos estudantes universitários. Estes, por sua vez, espalham a loucura pelos quatro cantos do mundo, principalmente quando se formam e vão trabalhar na mídia, na imprensa e nas artes. E, claro, a loucura é obra também de políticos estúpidos que adoram criar leis bizarras para fomentar a divisão na sociedade: dividem para nos conquistar. Colocam todos contra todos! E então se entocam no poder, não saem de lá nunca mais! Não há mais povo unido para nada. Esses políticos parecem… sabe o quê?

— Hum.

E o bilionário chamou outro coreuta, desta vez o índio que, vestindo apenas shorts Adidas vermelho, e tendo o restante do corpo pintado de urucum e jenipapo, se aproximou. E o patrão lhe sussurrou dissimuladamente mais um discurso.

— Os políticos — gritou o novo corifeu a plenos pulmões — são como os índios: não querem trabalhar, só querem é garantir a posse de um território que não lhes pertence, vendendo depois tudo o que encontram nele! — O bilionário lhe soprou mais coisas. — No caso dos políticos, esse território é a sua fatia das coisas públicas, é sua fatia de poder. Querem apenas é deitar e rolar no dinheiro extorquido do povo mediante impostos e desviar as verbas das estatais!

Desta vez, o rapaz da camiseta de Che Guevara notou tudo o que acontecera: e não se segurou! Levantou-se subitamente com uma garrafa de cerveja em punho, quebrou-a pela metade na beirada da mesa e avançou para cima do bilionário:

— Seu cão imperialista! Eu sei o que você tá fazendo!

O casal arregalou os olhos e, paralisado, não pareceu mover um músculo sequer. Quando o rapaz já ia metendo a garrafa no pescoço do bilionário, o coreuta comunista se adiantou à frente do espantado coro, sacou um revólver da cintura e atirou à queima-roupa bem na estampa do Che Guevara: o agressor caiu primeiro sobre a mesa e, em seguida, escorregou para o chão. Enquanto as pessoas se jogavam ao chão ou corriam em desespero, o comunista se inclinou para frente e disse:

— Não vai me pagar? Acabei de salvar sua vida.

O bilionário não se comoveu:

— Eu não pago matador de aluguel e nem preciso de seguranças — e então, fazendo um movimento com o queixo, indicou para o coreuta a pistola que mantinha sobre o colo. — Se você não tivesse feito nada, eu o teria feito.

— Mas… e agora?

— Bom, você pode fazer o seguinte… — e lhe sussurrou ao ouvido.

O coreuta comunista se aprumou e começou a esbravejar:

— Vocês viram? Comunista adora matar comunista! Ninguém mata mais comunistas do que os próprios comunistas! Em todas essas ditaduras, milhões de comunistas dissidentes foram executados ou morreram em campos de concentração. Dezenas e dezenas de milhões! — e, tendo dito isso, estendeu a mão, recebendo mais 500 reais. E então fugiu.

Os demais coreutas estavam confusos e dispersos, não sabiam se permaneciam no local ou se iam embora. A modelo estava em estado de choque, sem atinar se devia manter-se sentada, se devia se jogar ao chão como muitos haviam feito, ou então correr para a rua. Claro que, para ela, nada mais fazia sentido.

— Gatinha do meu coração, você tá bem?

— Amor… amor… — ela chorava.

— Calma, meu bem, não aconteceu nada com a gente. E meu funcionário apenas nos defendeu.

Ela o encarou:

— Mas eu nunca tinha visto isso na minha vida! Toda essa violência, esse ódio…

Ele fez uma cara de espanto:

— Gatinha! Você mora em Nova Iorque, onde os terroristas derrubaram duas torres gigantescas, e comprou um apartamento em Paris perto do Bataclan, onde aconteceu aquela outra chacina. Que conversa é essa?

— Mas eu não tava nesses lugares em nenhuma dessas ocasiões!

— Bom, meu bem, é melhor então você já ir se acostumando. A Europa está se enchendo de refugiados — e moveu os dedos em ambos os lados da cabeça, sugerindo aspas para o termo: “refugiados”. — Essas cenas de violência vão continuar acontecendo aqui e ali. Porque esses caras… — e fez um gesto para os remanescentes do coro, finalmente convidando o coreuta islâmico a se adiantar. E lhe sussurrou algumas palavras.

— Esses refugiados — berrou o novo corifeu para os poucos ouvintes restantes — deviam ser obrigados a comer meio quilo de bacon antes de poder receber o visto para entrar num país! — E o bilionário lhe cochichou mais alguma coisa. — Somente um muçulmano fundamentalista se recusaria. E fundamentalistas são perigosos! — E o corifeu islâmico permaneceu em sua posição, sem se retirar para junto dos demais coreutas.

— Era só isso — disse-lhe o bilionário, levantando-se da cadeira. — Pode ir. Aqui o seu dinheiro.

— O senhor sabe o que é táqiya? — perguntou o empregado.

— Não faço idéia — respondeu, considerando aquela intervenção inconveniente. Não os contratara para que emitissem suas próprias palavras.

— É o direito que temos de ocultar nossa fé para enganar nossos inimigos. Você é um idiota materialista se acredita que o dinheiro pode comprar um muçulmano. Não é porque comi seu bacon que não sou um verdadeiro fiel — e, tendo dito isso, agarrou fortemente o braço esquerdo do bilionário. Em sua outra mão, havia uma granada, já sem o pino de segurança. — Allahu akbar!! — gritou com todo o ar que tinha nos pulmões.

— Corre, amor! Corre! — berrou o ingênuo bilionário que, tentando desvencilhar-se do terrorista, teve tempo apenas de colocar-se diante da namorada, protegendo-a: e a granada explodiu.

Com a explosão, os dois homens foram jogados para lados opostos. A modelo, afora o trauma e algumas escoriações, nada sofreu de grave, assim como tampouco se feriu qualquer outro frequentador daquele conhecido bar. O muçulmano permanecia estirado a um canto, o peito e o rosto esburacado por estilhaços; e o bilionário jazia de costas com um estranho ricto nos lábios: estava finalmente liberto deste mundo.

Feliz aniversário, Hilda Hilst! La Blanca!

Se ainda estivesse neste mundo, Hilda Hilst completaria hoje 86 anos de idade. Em sua homenagem, seguem abaixo alguns links de relatos sobre a época em que dividimos o mesmo teto. (¿Por que “La Blanca”? Porque, no inverno, graças a meu longo gorro de lã, Hilda me chamava de Dunga e eu, em retribuição, a chamava de Blancanieves.) Espero que você tenha razão, Hilda, e que a transcomunicação seja uma realidade onde você está: vai que você tem acesso ao que escrevemos aqui… (Sugestão para o Zuckerberg: curtidas do Além.)

PRECISA-SE DE EMPREGADA FEIA. BEM FEIA.

HILDA HILST, O IPTU E A CHAVE DA CIDADE

HOMEM TAMBÉM TEM PÊLO

O EXORCISTA NA CASA DO SOL

HILDA HILST E O FEMINISMO

HILDA HILST E SEU RADAR MENTAL

A MELHOR DAS CASAS POSSÍVEIS

O MARCENEIRO E O POETA

O IPTUZÃO DE HILDA HILST

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Pastoral Brasileira: Dilma e Merry

Comentei a respeito durante o II Encontro de Escritores na Virginia, mas não sei se tratei do assunto aqui: se Dilma Rousseff tivesse nascido nos EUA, um país que a duras penas, graças à sua Constituição e à força da tradição judáico-cristã, ainda mantém algum nível de sanidade social, ela teria sofrido o mesmo destino da personagem Merry, filha do “Sueco”, do livro Pastoral Americana, de Philip Roth: uma terrorista de esquerda que apenas destrói a própria família e enlouquece. Só mesmo um país enlouquecido por anos de doutrinação comunista, bombardeado por valores progressistas ‘made in Escola de Frankfurt’, por bizarrices culturais cínicas e niilistas, como o Brasil, para enxergar uma sanidade inexistente em tal mulher e, por cima de tudo, elegê-la presidente da república. Dilma, se vista pelo microscópio da inteligência literária, não passaria de uma ameba revolucionária sem um pingo de virtude na alma.

Só mesmo uma pessoa dotada de má consciência ainda tem a ousadia de defendê-la.

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