8:31 pmTEOLOGIA DA MACONHA — um conto BASEADO em fatos reais

— Paulinho! Vem cá pra você ver o que foi que eu achei!

Quando ouviu o chamado da mulher pelo vão da escada, Paulo César estava no segundo andar daquele sobrado geminado do município de Diadema. Estava entretido no quarto principal, retirando sapatos, botas e tênis de uma caixa de papelão e ocupando o pouco espaço que ela lhe deixara no armário. Haviam acabado de mudar-se — eram recém casados — mas ele já a conhecia o suficiente para saber que, sempre que o tratava pelo diminutivo, algum fruto proibido viria por aí. Ele tinha certeza de que Eva, ao oferecer o fruto da árvore que estava no meio do Jardim, o teria oferecido ao Adãozinho, jamais ao Adão.

— Já vou, Anita! — respondeu altissonante, imaginando que lá embaixo iria vê-la debruçada sobre uma caixa cheia de apetrechos eróticos, provavelmente com um par de algemas nas mãos ou, quem sabe, já vestida com corpete e cinta-liga. Aquela amiga que a esposa arranjara na igreja parecia ter lido apenas o famigerado Cinqüenta Tons de Cinza. Novo Testamento? Que Novo Testamento? Não que ele não gostasse das brincadeiras — gostava muito — mas isso era dica de leitura para se ouvir após um culto?

Paulo César saiu pelo corredor, pé ante pé, desviando-se como podia das muitas caixas ainda fechadas. Mudança era uma coisa divertida nos primeiros dois dias, depois virava um martírio. Onde iriam meter tantas coisas? Anita parecia uma curadora de museu ou uma colecionadora viciada no eBay. “Eu sou aquariana!”, repetia sem parar, defendendo suas inúmeras posses. Ele, que esteve tantas vezes no quarto dela, enquanto ela ainda morava com os pais, jamais imaginou que a então namorada escondia tantas bugigangas em outros aposentos.

— O que foi, Bonita? — indagou ao descer o último degrau e vê-la ajoelhada diante de uma caixa. Não, ela não estava de corpete e muito menos com algemas.

Anita virou o rosto para ele, sorrindo: — Eu tava revirando os bolsos dessa mochila que a gente usou na viagem pra Chapada e olha só o que encontrei — e, erguendo o braço, mostrou-lhe um baseado roliço, branco e teso, como se ela o tivesse acabado de bolar.

Ele fez uma careta cheia de desconfiança: — Tá brincando que você achou isso…

— Sério, amor!

— Bonita, Bonita… — censurou-a.

Ela se levantou, ofendida: — Você acha que vou mentir pra você na nossa primeira semana de casa nova, Paulo César?

Quando ela o tratava pelo nome completo, não havia por que duvidar do que dizia.

— Desculpa, Bonita. É que essa viagem pra Chapada já tem quase três anos e o beque está inteirinho. Olha aí!

— É porque ele tava dentro desse tubo que você mesmo comprou no DealExtreme, lembra? Olha — e lhe indicou um tubo metálico, rosqueado, que se abria ao meio para guardar trecos. Parecia um supositório de presidiário de dez centímetros (dez centímetros o tubo, não o presidiário), mas era apenas um chaveiro bastante útil. Paulo inclusive se lembrou de lhe ter dito à época: “Papillon, lá na Ilha do Diabo, teria adorado guardar sua grana no fiofó com isto aqui”. Mas ela não sabia quem era Henri Charrière, nem tinha lido o livro ou visto o filme. Por isso tampouco se lembrou agora dessa referência que teria devolvido ao marido, logo de cara, a culpa pelo tráfico involuntário.

— Tá certo, gata. Mea-culpa. Mas e daí?

— Uê! Vamos fumar!

Ele arregalou os olhos: — Tá maluca?! Depois de tudo o que a gente já passou?

Era verdade. Em anos pregressos, ambos tiveram graves problemas com drogas. Paulo nunca foi um verdadeiro viciado, desses que são fiéis a uma substância específica, mas havia experimentado de quase tudo: chá de cogumelo, chá de lírio, ayahuasca, mescalina, ácido lisérgico, special K, ecstasy, skank, freebase, haxixe e, claro, a simples e ordinária maconha. Tudo envolvido numa frágil aura de misticismo e de busca interior que apenas o levaram ao solipsismo e às portas do suicídio. Cada viagem era uma aventura existencial: “É como pegar uma onda”, dizia aos amigos. “Você só precisa deixar o ego de lado, relaxar e dropar. É assim que os surfistas sobrevivem”. E mais tarde ele descobriu que é buscando ondas cada vez maiores que os surfistas finalmente morrem… Já Anita, com a lealdade das amantes, contentou-se em cheirar cocaína anos a fio, tendo depois experimentado, graças a ele, durante as festas a que acorreram juntos, ecstasy e ácido. E, sim, também a maconha, que mais tarde ela passou a comprar e a lhe fornecer porque gostava de ouvi-lo viajar na, conforme diziam, “maionese cósmica”. Ele, que tinha pais evangélicos, crescera ouvindo sobre Deus e Jesus, substituindo-Os, na adolescência, pelo cientificismo do século e, mais tarde, pelo agnosticismo psicodélico-eletrônico do tipo que, durante a dança, espera ver Shiva baixar a qualquer momento — contanto, é claro, que se tome a droga certa na dose certa com o DJ certo… Faltou pouco para ele escrever sua própria versão de Ecce Homo e, como Nietzsche, chegar à conclusão de que não era outro senão o próprio Deus. Aliás, faltou pouco apenas para escrever o livro, porque, de fato, Paulo César chegou à conclusão de que era — assim deixou escrito em nota de despedida — o “Deus Supremo” e de que se matava para, mediante seu próprio sacrifício, trazer de volta à Terra a Era de Ouro. Felizmente, o tiro da Beretta .22 não lhe atingiu o coração e ele despertou, dias depois, numa cama de hospital. Nessa mesma época, ele e Anita estavam separados havia vários meses e ela, alternando depressões com episódios de síndrome de pânico, abandonou a faculdade e já não saía de casa. Ela, que sempre vira na convivência com os amigos o sentido da vida, já não podia encontrá-los, pois todos mantinham o vício e poderiam levá-la de volta ao pó. Por fim, debilitada e vazia, a garota resignou-se e aceitou a proposta dos pais. Ambos voltaram, pois, e sem qualquer premeditação, a encontrar-se numa clínica de reabilitação para drogadictos. Foi lá, de mãos dadas, que Paulo César e Anita, após vencerem grande resistência, finalmente entenderam o significado da Vida Eterna e o valor da lealdade ao Pai Celestial. Um ano e meio depois, estavam casados.

— Mas você mesmo disse outro dia, Paulo: Deus também fala com a gente através das coincidências. Esse vai ser nosso beque de despedida!

— Anita, você tá cansada de saber que eu posso ficar paranóico e ter uma carrada de flashbacks e badtrips.

Ela riu: — Deixa de ser besta! A gente tá na nossa casa. O que pode acontecer de errado?

Ele se sentou no sofá, cabisbaixo: — Sei lá. Um ataque nuclear da Coréia do Norte. O primeiro terremoto de São Paulo em quinhentos anos. Uma invasão extraterrestre. Um apocalipse zumbi… Sem falar que esse beque deve ter sido produzido pelas FARC e deve ter financiado o PT, o Foro de São Paulo, o PCC…

— Ai, não. Você já tá exagerando de novo. As FARC mexem com cocaína, não vendem maconha.

— Como você sabe?

— Uê. Os caras querem dinheiro e cocaína é que dá dinheiro. Eles são comunistas. São loucos, mas não são burros.

Ele a encarou, irônico: — Isso é um resquício daquela sua mania de achar que eu fico mais divertido doidão, né, sua sacana? Você nem percebia que me mantinha maluco só pra sugar meu humor… meu amor! — e a abraçou, puxando-a para o colo.

— Você fica maravilhoso doido! É verdade. Mas você é muito melhor agora, com Deus no coração. Você era um menino, agora é um homem — e ela o beijou na testa, carinhosamente.

— Sei…

— É sério. E se eu gostava quando você ficava doido, era porque eu sentia uma overdose da sua personalidade. Sou viciada em você. Só que você tem trabalhado tanto, anda cansado, não escreve mais letras pra sua banda, só fala de Direito e leis, conversa pouco comigo… Estou com síndrome de abstinência de você.

— É só uma fase, Bonita. O noivado acabou, agora vai ser diferente. A gente está montando nossa base.

— Eu sei.

— Pois é. Então pra que fumar hoje?

— Porque a gente precisa encerrar aquele ciclo, Paulinho! Encerrar de um jeito positivo, porque não foram experiências apenas ruins. E lembra do que você me falou quando a gente se conheceu: “nunca tome uma decisão condicionada pelo medo”. Você tá com medo de fumar agora, não tá? Depois de todas as drogas que a gente usou, acha que um beque vai nos perder? Acha que Deus vai deixar de olhar pela gente por causa de uma última viagem? Por causa de uma substância química? Você acha que tem uma ANVISA no Paraíso? Um DENARC? A gente tinha problemas e se deixava levar pelas drogas porque não conhecia Deus. Mas agora a gente O conhece! Nenhum de nós guardou este baseado de propósito, e Ele sabe disso. Talvez Ele queira ensinar alguma coisa pra gente. A gente já teve tantos insights assim! E esta é nossa nova casa, nossa nova vida, nosso direito.

Paulo César estava quase convencido: — Você sabe que a cada direito corresponde um dever, não é? Um direito, sem a contrapartida de um dever, é uma ilusão. Entende?

— Que seja.

— Bonita — tornou ele, com paciência — se alguém telefonar pra gente com um pneu furado, pedindo socorro, ajuda ou qualquer coisa assim, não posso sair de casa. Você sabe que, se eu fumar, vou ficar noiado na rua, com receio de ser parado pela polícia, de assaltos, de acidentes. Não porque vou travar de pavor, mas porque vou falar as coisas erradas para as pessoas erradas. Quando fico maluco, deixo de mandar na minha imaginação e passo a ser controlado por ela. Imagino todo tipo de situação e fico achando que estou tendo premonições… Imagino um arrastão no meio do congestionamento e já acredito que está mesmo para acontecer… É assustador… Se a gente fumasse, a gente ia ter de ficar quietinha aqui, no sofá, ouvindo música e namorando por horas e horas. Namorando sem fuc-fuc, né, porque eu fico muito mental e me esqueço de que tenho pinto quando estou doidão.

Ela riu: — Eu sei disso! Mas sexo verbal também faz seu estilo. Você fica incrível! Adoro seu Mister Hyde. Morro de rir.

— Eu sabia que você ia acabar vindo com essa legiãozice… — e Paulo sorriu, persuadido. — É a última vez então.

— Eba!

— Última vez! Promete?

Ela voltou a se levantar, empolgada: — Combinado! Prometo, de verdade. E a gente desliga celular, o fixo, desliga tudo. Ninguém vai tirar a gente daqui. Ninguém sabe nosso endereço ainda.

— Beleza.

Começaram os preparativos: afastaram as caixas de papelão a um canto da sala, desenrolaram o tapete, jogaram as almofadas no sofá, encontraram e acenderam o abajur alaranjado, um resquício do quarto dela na casa dos pais. Para não deixar o cheiro escapar, Paulo fechou janelas, vitrôs e basculantes. Anita foi à cozinha e deixou à mão um grande salame e uma garrafa de vinho — a de vinho branco, pois a de vinho tinto ela dera de presente à vizinha, uma mulher de meia-idade com quem simpatizara de imediato, cuja parede, em sendo uma casa geminada, compartilhavam. Também deixou sobre a bancada um pote com castanhas de caju e outro de Nutella. A larica estava garantida. Voltou à sala e acendeu o incenso de Patchouli.

— Não acredito que você já acendeu essa coisa. Esse cheiro atravessa até a parede, Anita. Incenso é coisa de maconheiro. Todo vizinho sabe disso.

— Pára de bobagem, Paulinho — replicou ela, sorrindo. — A gente não mora na Vila Madalena ou numa rave. A gente mora num bairro familiar de Diadema, aqui ninguém tá ligado nisso.

— Deve ter mais traficante e maconheiro aqui no “D” paulista do que no restante do “ABC”.

— Ah, vai! — e riu.

Paulo César havia trocado a roupa justa por um abrigo de moletom e, com a expressão mais preguiçosa do mundo, já estava aboletado no sofá. Anita, com uma blusinha justa e shortinho jeans, se refestelou ao seu lado. Paulo gostava de ver as alças do sutiã dela disputarem com as alças da blusa aqueles frágeis ombros. Ouviam Portishead numa caixa acústica JBL Pulse que, além de sons, emitia luzes coloridas para todos os lados. Para selecionar as músicas, Paulo fez questão de utilizar o tablet chinês via bluetooth, pois os celulares deviam permanecer desligados. Quando se deram por satisfeitos, ele então colocou o beque na boca e o acendeu com um isqueiro Bic. Deu uma primeira e longa tragada. Em seguida, passou-o para ela, que fez o mesmo sem deixar de tossir profusamente num primeiro momento. Nada augurava o que teriam de enfrentar naquela noite.

— Nossa, que pancada! — disse ela, em meio à tosse. — Não perdeu a potência.

— Maconha é igual vinho: quanto mais velha, melhor. Você não sabia que foi assim que o Spielberg e o George Lucas tiveram a idéia do roteiro dos Caçadores da Arca Perdida? Estavam no Egito e compraram uma maconha encontrada no túmulo de Tutancâmon.

— Sério, meu?!! Que louco! Não sabia.

Ele riu: — Sua boba, eles estavam numa praia do Havaí gastando a grana que o George Lucas tinha ganhado com Guerra nas Estrelas. Nada de marijuana. Aposto que bebiam margaritas.

— Ah, seu besta! — e lhe deu um tapa na coxa.

Paulo César pegou o beque de volta e deu outra tragada. Dessa vez foi ele quem tossiu até perder o fôlego. Ela ficou observando-o, divertida.

— Castigo por você ficar mangando de eu.

— Por falar em mangar de você e no Darth Vader…

— Ué, quem falou em Darth Vader?

— Não falamos?

— Não. Você só falou do filme Guerra nas Estrelas.

— Ah, então — disse ele, pensativo — por falar nisso, acho que vou aceitar o convite do Doutor Pinto Grande e vou trabalhar com ele.

— Ah, não acredito!

Ele ficou sério: — Não sei qual é o seu problema com o Doutor Pinto Grande. É amigo do meu pai. Além d’ele ter me dado uma super força quando eu estava mal, ele é um ótimo advogado e já não tem sócios.

— Eu não tenho nada contra o Pinto Grande.

Ele riu: — Ainda bem, né, senão teríamos problemas.

— O problema — prosseguiu ela, ignorando-o — não é a pessoa dele. Eu só não acho legal ter de dizer depois: meu marido trabalha com o Pinto Grande. Ou ainda: meu marido passa quase todo o dia com o Pinto Grande. Isso não pega nada bem.

— Nós vamos ser sócios, boba.

— Você não tem nem dois anos de OAB.

— Doutor Pinto confia no meu taco. Confia em mim. Diz que temos a mesma visão de mundo. Meu nome até fará parte do nome da empresa.

— Ah, que lindo: Pinto Grande & Carvalho Advogados Associados. Você já sabe como vão pronunciar isso por aí, né.

Ele deu a primeira gargalhada.

— Tô falando sério, Paulinho. Não pega bem — protestou ela, tomando-lhe em seguida o beque e voltando a fumar.

— Pinto Grande & Caralho Advogados Associados!

— Não tem a menor graça — retrucou ela. — E ainda não entendi o que o Darth Vader tem a ver com a história.

Paulo César parou de rir: — Darth Vader? Não seria porque o chapéu dele parece uma cabeça de pinto bem grande?

Agora foi ela quem caiu na gargalhada: — Seu besta! Aquilo não é um chapéu! É um capacete, uma máscara, um elmo — e voltou a rir.

— Em espanhol seria “sombrero” — observou Paulo, muito sério. — Um sombrero preto.

Ela quase engasgou com as risadas: — Pára! Pára! Darth Vader não é um mariachi mexicano pra usar sombrero. Pára de falar dele!

— Uê, parar? Foi você quem falou no Darth Vader.

— Eu?! Você é que se lembrou do seu Pinto quando falou no Darth Vader.

— Do meu pinto?

— Do senhor Pinto… do doutor Pinto Grande, droga!

— Ah, é verdade! — concordou ele, pensativo. — Por que será?

— Ai, meu Deus, pára! Como é que eu vou saber? — e Anita continuava rindo, trêmula e divertida.

Ele ficou em silêncio por algum tempo, admirando a beleza da esposa: o desenho da boca carnuda e dos olhos grandes, o contraste entre as clavículas e o seio, o jeito de segurar o cigarro, a maneira felina como se sentava escorada nele, as pernas encolhidas sobre o sofá, as rótulas conspícuas. Como era bela! Como era feminina! E não parava de rir. Quanto mais sério ele lhe parecia, mais ela ria.

— Tá satisfeita? — indagou Paulo, divertido. — Olha só como a juventude fica completamente retardada quando fuma maconha…

Ela estava aflita, perdida entre o riso e a curiosidade: — Por favor, tente lembrar do que você tava falando! Tá me torturando não saber o que o Darth Vader tem a ver com o Pinto Grande!

— A gente devia ir agora no Facebook e confessar pra todo mundo que somos dois coxinhas ex-malucos que voltaram a cair na tentação da maconha, que agora até corremos o risco de apanhar do Capitão Nascimento, de saco plástico na cabeça e tudo: “São vocês, da direita religiosa doidona, que financiam essa merda!”.

De joelhos sobre as almofadas, derrubando cinza no sofá, ela voltou a gargalhar e, em seguida, a tossir.

— Ah, lembrei! — tornou Paulo, surpreso com a própria memória e não fazendo o menor caso da crise de tosse dela. — Eu só ia dizer que, de acordo com o doutor Pinto Grande, Lúcifer é uma espécie de Darth Vader do nosso universo. Na verdade, o doutor disse que a realidade é o inverso do filme: que Lúcifer é que acreditava estar lutando contra um suposto imperialismo universal de Cristo.

— Ai, toma aí — disse Anita, confusa, estendendo a mão com o baseado. — Já fiquei muito doida, acho que minha tolerância estava a zero. Até parece que tomei ácido… E se você voltar a misturar Pinto Grande, Lúcifer e Darth Vader na mesma frase, vou cair morta aqui, só não sei se de rir ou se de excesso de piração. Fiquei perdidinha…

— É, parece que agora o Portishead está tocando sua música: Unable so lost / I can’t find my way…

— Bobo, tô perdidinha é com sua conversa. Você já sabe qual é nosso Caminho e eu também sei — e ela buscou o olhar do marido, que lhe sorriu e a beijou nos lábios.

— Claro que sei, Bonita da minha vida.

— Bom, acho que já podemos dar tchau pro nosso último beque e jogar ele na privada, né. A partir de agora, caretas para siempre. E partiu larica!

Ele protegeu o baseado: — Calma, mulher! Já tô viajando, mas quero ficar no mesmo nível que você — e colocando o cigarro na boca, deu mais uma profunda e longa tragada. Por fim, segurou o fôlego, esperando absorver o máximo possível de THC.

— Pra quem não queria fumar… — comentou ela, a boca seca, os olhos injetados, vendo-o converter-se na sua própria versão de Mister Hyde.

Paulo então soltou o ar de uma só vez e se sentiu trêmulo, suando frio: — Nossa, Bonita, minha pressão baixou completamente… — e foi se esticando no sofá até deitar-se de costas, mantendo-a entre as pernas. — Puts… Agora, sim…

— Posso jogar fora? — perguntou ela, tirando-lhe o beque da mão.

— Quem? Eu? Pode me jogar fora. Tô destruído.

Assim que ela se levantou com a intenção de ir ao banheiro, soou a campainha da porta.

— Isso foi da música? — estranhou ele.

— Não, amor — respondeu ela, olhando na direção da janela da frente, que era ampla e ia quase do chão ao teto.

Ele arregalou os olhos: — Tá brincando que tem gente na porta logo agora! Que horas são?

— Acho que umas onze. Talvez meia-noite, não sei.

Anita se aproximou da janela e abriu uma fresta da cortina para espiar a frente da casa.

— Que bizarro, Paulo…

— Quem é?

— Se não for o Darth Vader em pessoa, é um daqueles tripulantes do Globo da Morte.

Ele se sentou no sofá, a cabeça à roda, confuso: — Não brinca, Anita. Do que é que você tá falando?

— Vem ver, Paulo. É um cara de boné e uniforme escuro.

Paulo César olhou pela fresta da cortina e, ao ver o visitante, entrou em pânico: — Não é boné: é boina! É a ROTA, Anita! — falou à meia voz, mas com firmeza.

— A ROTA?! Dando batida na nossa casa? Não é possível! Isso não é coisa da polícia civil?

— Devia ser, mas esse aí é da ROTA! Certeza.

A campainha voltou a soar, desta vez com maior insistência.

— Limpa o sofá, Anita, essa cinza… Me dá isso aí! Vou jogar a ponta no vaso — e correu para o banheiro, o coração a mil. — Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… — repetia em voz alta, lembrando-se do adágio que ouvia desde criança: “A ROTA atira primeiro e só depois pergunta quem você é”. — Fodeu, caralho!

— E se a gente fingir que nem tá ouvindo, Paulo? A música tá alta.

— É óbvio que o cara viu a gente na janela, Anita! Enquanto essa sala não tiver uma cortina decente, vai parecer que a gente tá numa vitrine. Dá pra ver nossas sombras chinesas lá de fora.

— Sombras chinesas? Como assim?

Mas ele já não a ouvia. Havia acabado de descobrir que a descarga não estava funcionando. O beque boiava na água do vaso sanitário. O que fazer? Se demorasse a atender a porta, é óbvio que o policial forçaria a entrada e começaria a revistar toda a casa. Provavelmente todo um batalhão aguardava suas ordens para invadir a residência. E se houvesse mais algum baseado perdido no meio daquela bagunça? E se a esposa tivesse esquecido uma trouxinha de cocaína dentro duma bolsa antiga? Caramba! Paulo não podia deixar Anita passar por isso. Assumiria toda a culpa. Talvez fosse melhor ir lá fora agora mesmo, os braços levantados, e se entregar.

— É, vou me entregar… Vou me entregar… — murmurou para si mesmo.

A campainha soou pela terceira vez. O policial manteve o dedo no interruptor por três infinitos segundos. Durante esse longo espaço de tempo, numa busca espontânea por um motivo mais verossímil, Paulo visualizou toda uma complexa perseguição a um bandido qualquer, a qual certamente teria culminado em sua casa. Sim, talvez fosse isso, a ROTA não fica entrando na casa das pessoas à toa. “E se o ladrão estiver escondido aqui?”, pensou ele. “Talvez alguém tenha pulado o muro e esteja escondido no nosso quintal!” Correu então até a cozinha e abriu a porta dos fundos. Olhou para a pia e tomou da primeira faca que encontrou, uma faca de mesa, dessas de passar manteiga no pão. Tomado por súbita valentia, saltou para o gigantesco quintal de meros cinco metros de largura por quatro de comprimento. Deu três passos até o tanque de lavar roupa, sob a pequena laje, e espreitou dentro dele com a atitude astuta e lépida de um gato em plena caça. Estava pronto para o ataque, mas não havia ninguém ali. A máquina de lavar, logo ao lado, que ele trouxera de seu apartamento de solteiro, era pequena, mas ele abriu-lhe a tampa assim mesmo e ameaçou com a faca a escuridão das suas entranhas. O gostoso cheiro de amaciante de roupas invadiu suas narinas e, satisfeito, fechou os olhos, esquecendo-se do resto do mundo por um infinito instante. Mal passou por sua cabeça que até mesmo um gato teria dificuldades de entrar naquela geringonça.

— Paulo, o que você tá fazendo?

Caiu em si: — Hum? Nada, Anita.

— O cara ainda tá lá fora! Acho que não vai desistir. Eu abri todas as janelas pra sair esse cheiro de maconha.

— A da frente também?!

— Não, né. Não sou tão trouxa.

Ele correu até a porta dos fundos, segurou a esposa pelos ombros e a encarou, a expressão transtornada: — Bonita, eu tô muito doido… Acho que só agora tá batendo… Não consigo pensar direito… Acho que… — e então, alarmado, lembrou-se do beque e, sem concluir a frase, correu esbaforido, deixando a esposa plantada entre os móveis e as grandes caixas de papelão e os eletrodomésticos da cozinha. Uma vez no banheiro, sem pensar meia vez sequer, ajoelhou-se, resgatou o baseado de dentro do vaso sanitário e o meteu na boca, engolindo-o com dificuldade.

— Eca! O que você tá fazendo? — espantou-se ela, já às suas costas.

— Sumindo com as evidências — respondeu, sentindo aquele incômodo volume entalado no esôfago.

— Que nojo! Por que não deu descarga?

— Não tá funcionando — resmungou, sem se erguer.

Colocando uma mão sobre a cabeça do marido, Anita apiedou-se dele: — Era só abrir o registro, meu amor! Lembra que a gente tinha fechado ele antes de trazer a mudança? A torneira da pia estava pingando.

Paulo abraçou as pernas dela: — Ora comigo, meu amor. Ora comigo! Eu tô aflito… Meus pensamentos não me obedecem… Fico esquecendo que estou maluco… Você sabe que esse é o grande perigo… Se eu der bandeira e for preso por uso de drogas, vou perder o registro da OAB… Saca? A gente vai ficar na rua da amargura, ou pior!, a gente vai acabar numa rua da Cracolândia… — e arregalou os olhos, acreditando piamente no que dizia. — Você sabe que minha banda nunca deu dinheiro, né… E não entendo de mais nada a não ser de leis… Meu trabalho… A gente precisa começar nossa família em paz, Bonita! Ora comigo.

A campainha tocou pela quarta vez e, logo em seguida, ouviram palmas. Palmas de mãos que pareciam bem grandes e pesadas. Como que atingida subitamente por um raio, Anita culpou-se pela situação. Acostumada a sentir-se segura ao lado daquele homem tão denodado, tão protetor, percebeu que o temor dele a afetava com pungência. Finalmente sentiu que corriam perigo e que só contavam com Deus. Anita, pois, ajoelhou-se de frente para o marido, tomou-lhe as mãos nas suas e inexplicavelmente serena, cheia de fé, fechou os olhos e pronunciou em voz alta: — Pai nosso que estais no Céu, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, e espiritualmente presente nos nossos corações; meu Deus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Criador do Universo, eu vos peço paz de espírito, discernimento e coragem para mim e para meu amor; que o Espírito Santo, doador de nossas mentes, possa nos orientar neste momento de dificuldade e angústia; que vossa Centelha possa dirigir nossos pensamentos e livrar nossa imaginação da paranóia; meu Pai amado, nós violamos a lei dos homens, mas nada fizemos com má intenção diante de vossos olhos… Por favor, dai-nos vossa benção e nos protegei como sempre o tendes feito… Amém.

— Amém — disse Paulo. E ficaram em silêncio alguns segundos, perdendo-se nos olhos um do outro. — Você é linda, Anita — murmurou ele, comovido.

Ela o beijou e, apoiando-se nos ombros dele, levantou-se: — Bom… Melhor a gente ver o que esse cara da ROTA tá querendo, né.

— Eu tô mais calmo, Bonita — tornou Paulo, levantando-se também. — Mas minha cabeça… minhas idéias continuam girando… a taquicardia a mil… a onda tá no auge… não sei se vou conseguir me controlar.

— Meu amor, quem é mais forte: a maconha ou o Espírito Infinito? Confia!

— Não sei como colocar isso… em prática… — disse ele, a voz embargada. — Você não tem idéia do esforço que estou fazendo… pra conseguir falar com você…

— Bom, primeiro, respire fundo e devagar. Depois, faça o que Jesus ordenou aos apóstolos: não tente nem queira dizer nada por si mesmo: que o Espírito Santo fale por seus lábios — e sorrindo, ela acrescentou: — E coloque este colírio, meu amor!

Ele também sorriu, vencido, e tomou o tubo de Moura Brasil da mão dela: — Você… é demais.

Voltaram, pois, para a sala e Anita voltou a abrir a cortina, desta vez, fazendo um gesto para o policial como quem diz: já vamos! A perseverança do sujeito era impressionante. Ela tinha sorte de não ter a imaginação tão excitável quanto a do marido, do contrário, em vez de ansiosa, já estaria apavorada. Paulo abriu a porta lateral que dava para o corredor contíguo à garagem e, rígido como um funâmbulo de circo, se dirigiu ao inesperado visitante noturno. Equilibrava-se num fiozinho de sanidade, tendo como rede de segurança apenas a fé em Deus, sobre um abismo de aflição e de agitação mental.

— Boa… noite — disse.

— Boa noite — respondeu o homem, seco. — O senhor é o doutor Paulo César?

— Sim, sou eu — tornou o rapaz, perplexo com o fato de o policial saber seu nome.

— Será que posso entrar por alguns minutos?

Paulo procurou no próprio pulso um relógio inexistente e, embaraçado pelo gesto inútil, falou vagarosamente: — Posso saber do que se trata? É muito tarde pra…

— Ah, perdão. Meu nome é Jairo. Sargento Jairo de Queirós. Sou seu vizinho. Sua esposa esteve conversando com a minha hoje de manhã.

Aquela notícia poderia ter trazido algum alívio ao jovem advogado, mas tudo o que lhe veio à mente foi: “Que merda, ele sentiu o cheiro do beque”.

— O senhor pode abrir o portão? Não é bom que as pessoas me vejam aqui na sua porta.

Neste momento, a despeito do influxo de adrenalina, Paulo César dropou a onda: percebendo sua completa impotência diante daquela situação anormal, decidiu seguir o fluxo dos acontecimentos sem se opor, sem se rebelar, sem se preocupar com a própria segurança. Sabia que, caso deixasse as rédeas nas mãos do seu ego, iria desequilibrar-se, tomar uma “vaca” e chocar-se contra os recifes do fundo do mar da realidade. Não podia se dar a essa luxuosa morte de surfista mental, precisava pensar em Anita. Portanto, submisso, sem discutir, levou a chave à fechadura e permitiu a entrada do sargento da ROTA.

— Vamo entrar, senhor…?

— Jairo.

— Seu Jairo. Tá frio aqui fora — disse o anfitrião, lacônico, ainda sentindo o beque entalado no esôfago. O visitante o encarou e ele, cortês, fez um gesto com a mão para que o policial seguisse à sua frente. Este, sem nada dizer, dirigiu-se lentamente até a porta da frente, adentrando a casa sem qualquer cerimônia. Ainda no corredor, Paulo tentou averiguar se aquele coldre estava ou não vazio, mas, devido à penumbra, permaneceu na dúvida. Na sala, Anita estava sentada no sofá e já bebericava duma taça de vinho. Em menos de um minuto, ela montara uma cena de casal apaixonado: as taças, a garrafa, um cobertor sobre as pernas… Ao notar a presença do visitante, levantou-se e sorriu:

— Boa noite — disse ela, com simpatia.

— Boa noite. Você deve ser a dona Anita.

Paulo interveio, vacilante: — Amor, este é o sargento…

— Jairo — completou o outro.

— Isso. Jairo. Nosso vizinho. Você conheceu a mulher dele hoje.

Ela arregalou os olhos: — Ah, sim! Mas ela não me disse que o senhor era da polícia.

— Hoje em dia é muito perigoso ser da polícia — replicou o homem, visivelmente vexado. — A gente raramente fala sobre meu trabalho com quem ainda não conhece. Sabe como é, o bairro anda muito perigoso. Nunca venho para casa uniformizado. Hoje é uma exceção.

— Bom… — disse Anita, voltando a tomar assento. — Desculpe a bagunça, a gente ainda não terminou de arrumar a mudança. O senhor não quer se sentar? — e lhe indicou uma poltrona, no lado oposto da sala, que ela certamente havia liberado da pilha de caixas de papelão enquanto os dois homens ainda estavam na garagem.

— Obrigado — murmurou o sargento, indo sentar-se na pontinha da poltrona, longe do espaldar, a coluna arqueada para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Paulo e Anita trocaram um olhar furtivo: o sujeito não se sentia nada confortável, parecia antes tomado de extrema pressa, talvez até mesmo de repulsa. Parecia ter nojo da poltrona. Seria aversão a maconheiros?

— O senhor quer beber alguma coisa? — perguntou Paulo, disfarçando intensa tremura e sentando-se no sofá junto à esposa, de quem tomou a taça: precisava empurrar aquele baseado para o estômago.

— Não, obrigado — respondeu o sargento, olhando para o chão. Estava na cara que o policial pretendia dar-lhes um sermão, talvez até mesmo acusá-los formalmente por uso de entorpecentes. Aquela indisposição era certamente fruto de alguma discussão prévia com a esposa, a qual, devido a uma provável simpatia por Anita, não queria ver o jovem casal em dificuldades.

— Olha… — começou Paulo, quase gaguejando. — O senhor nos desculpe pela demora em atender a porta. A gente estava com o som ligado, conversando e…

— Não precisa se desculpar, doutor Paulo — interrompeu-o Jairo, sem erguer o rosto. — Eu é que tenho de pedir desculpas. Sei que são recém casados e que devo ter interrompido um momento de intimidade. Estou envergonhado com minha insistência. Mas é que preciso muito conversar com vocês…

Anita e Paulo voltaram a entreolhar-se.

— Minha esposa me disse que vocês são evangélicos, mas vejo que bebem álcool. A senhora até nos presenteou com uma garrafa de vinho.

— Eu fui criada numa família católica — corrigiu-o Anita. — Os pais do Paulo são protestantes. Se álcool fosse uma coisa assim tão ruim, o primeiro milagre de Jesus não teria sido a transformação de água em vinho. O senhor não acha?

O homem agora esfregava o rosto com ambas as mãos: — Mas vocês são pessoas religiosas, não são? — indagou, com certa irritação na voz.

— Nós confiamos em Deus — respondeu Paulo, levantando-se, visivelmente agitado. Pressentia que uma acusação de hipocrisia se formava na mente do policial. Teria de confessar, não podia deixar o bigode daquele homem distraí-lo. O nariz do sujeito parecia um ovo pousado sobre uma enorme moita negra. Que bigodão! Coisa de mariachi, pensou. Lembrou-se então do tal sombrero preto do Darth Vader e, na tentativa de evitar uma gargalhada insana e iminente, tentou prender a respiração. Tremia ainda mais. Era inevitável, chegara a hora. Seu corpo não queria obedecê-lo. Ou gargalhava, ou confessava. O esforço que vinha despendendo para controlar os pensamentos não implicava um sucesso equivalente no tocante ao corpo. Suas mãos denunciavam algo como Parkinson, a voz lhe saía com dificuldade. Era como um flashback simultâneo de ecstasy, ácido e anfetamina, sob influência dos quais o corpo não sossega senão ao dançar.

— Quero perguntar uma coisa pra vocês. É importante — prosseguiu o vizinho, declaração essa que colocou o alarmado advogado em movimento.

Ao ver o marido encaminhar-se cambaleante até o sargento, Anita, que por segundos havia se deixado distrair pela intensa larica, teve um sobressalto. Tentou segurá-lo pela mão, mas não o alcançou. Não quis levantar-se e agarrá-lo, pois pareceria, se não suspeito, no mínimo estranho. Sua cabeça se pôs à roda. Veio-lhe então à mente, em rápida sucessão, fragmentos de diversas discussões mantidas com ele sobre o trabalho da polícia, mormente a maneira como a imagem que tinham dos policiais mudou da água para o vinho assim que deixaram a clínica de reabilitação. Lembrou-se do acidente de carro que sofreu com o pai, de como a polícia militar, solícita, os ajudou. Recordou do seqüestro relâmpago que sofrera um ano antes e de como desejara e rezara por uma ação policial, a qual de fato ocorreu sem qualquer resultado negativo, com os bandidos presos. Lembrou-se também da época em que, agrilhoada pelo vício à cocaína, não via aqueles homens senão como inimigos, uma atitude bastante comum aos consumidores de todos os tipos de drogas, atitude que inevitavelmente resvala na mais ancestral das paranóias: o temor à autoridade. Para um viciado em plena viagem psíquica, nada mais assustador do que a presença súbita de um policial. Seria como agitar uma gaiola diante de um canário. E a jovem acabou por recordar de outro seqüestro relâmpago, este mais infame, sofrido por um amigo, que caíra nas mãos de policiais corruptos com uma quantidade razoável de cocaína. Em vez de prendê-lo conforme à lei, os policiais o detiveram no carro enquanto sua namorada teve de ir sacar alguns milhares de reais para pagar o resgate… Essas lembranças contraditórias lhe invadiam a mente. Há bons homens, há homens maus, pensava. Que tipo de policial seria o sargento Jairo? Anita respirou fundo. A culpa que sentia por ter induzido o marido a fumar maconha justamente naquele dia recrudesceu. E, atordoada, finalmente notou que Paulo, em meio a seu sofrimento moral, desde o começo não pretendia senão confessar-se.

— Esta semana, eu matei uma pessoa — tornou Jairo, interrompendo os pensamentos da jovem e os passos de Paulo, que estacou a meio caminho. — Quero saber se vou pro Inferno! — concluiu e, esmagado por uma dor pungente, o sargento começou a soluçar.

Anita empalideceu. Paralisada, nem sequer piscava. Sua coragem jogou as cartas na mesa e abandonou o jogo. Não sabia o que dizer ou fazer. Penetrara num mundo novo, desconhecido, destes que só existem nos filmes e nos noticiários. Seu olhar ia do sargento ao marido e deste ao primeiro numa velocidade incrível. O que aconteceria agora? Foi Paulo quem rompeu o silêncio.

— O senhor matou um bandido?

— Não — respondeu Jairo, atormentado. — Matei uma moça. Uma mãe. Ela tinha apenas vinte e seis anos. Faz quatro dias que não consigo dormir.

— Por que o senhor a matou? — prosseguiu Paulo, num tom de voz excepcionalmente calmo.

— A gente tava numa diligência — disse Jairo, em meio aos soluços, a cabeça ainda abaixada. — Houve um assalto a um caixa eletrônico. Com explosivos. A gente tava perto. Então fomos chamados e, depois de uma curta perseguição, conseguimos interceptar o carro dos suspeitos. Eles bateram noutro carro que estava estacionado e não conseguiram continuar. O pára-choque do carro deles ficou preso no pára-lamas do outro. Aí eles se esconderam atrás dos carros e ficaram disparando contra a gente. Uns cinco caras. Um deles tinha um fuzil utilizado apenas pelo exército. Foi no início da madrugada, mas ainda tinha gente na rua. No centro da cidade é desse jeito. O movimento não tem fim.

— E essa moça estava na rua.

— Eu sabia que um dia iria acabar matando alguém — continuou Jairo, desconsolado, ignorando a observação. — Mas eu vinha me preparando para lidar com a morte de um bandido, não com isso! Faz parte da guerra matar o inimigo, mas eu não estava preparado para matar uma pessoa inocente. É claro que não! É como uma doença horrível, a gente pensa que só acontece com os outros. Eu já tinha ferido alguns suspeitos durante diligências, perseguições, mas nunca tinha matado ninguém. A polícia não é como as pessoas imaginam, não é um bando de justiceiros com licença para matar e que mata o tempo inteiro. É claro que sempre tem um espírito de porco no meio, uma maçã podre. É claro que mesmo a gente, lá dentro, ouve falar de grupos de extermínio. Mas quem não quer se envolver nem fica sabendo se é ou não um boato! Já disse: é coisa de espírito de porco! E esse tipo de gente está em todo lugar, não é exclusividade nossa. A maioria dos policiais só tá fazendo seu trabalho, sustentando a própria família.

O sargento voltou a afundar o rosto nas mãos e chorou baixinho, emitindo um som sibilante de pavio aceso, como se uma bomba estivesse a ponto de explodir. Anita permanecia muda, o coração confrangido. Estava mais impressionada com a tranqüilidade repentina manifestada pelo marido do que com as revelações do policial. O mais estranho é que Paulo estava agora ereto e já não tremia.

— Eu vou para o Inferno? — tornou a indagar Jairo, num sussurro plangente. E, pela primeira vez desde que se sentara ali, ergueu o rosto para encarar seu interlocutor. Tinha os olhos injetados, o rosto inchado e rubro.

Paulo se aproximou e colocou a mão direita em seu ombro:

— A Realidade não é uma máquina que responde automaticamente a certas ações, sargento.

— Não matarás! — citou Jairo, angustiado. — Não é esse o primeiro mandamento?

Paulo sorriu, compassivo: — Não. O primeiro mandamento é “Amarás a Deus sobre todas as coisas”. E isso também quer dizer: amarás a Deus até mesmo mais do que amas ao teu próprio sofrimento.

— Mas eu matei, doutor Paulo! Eu matei! A moça estava lá, no carro estacionado. Ela tinha dois filhos e eu matei ela! — e voltou a ocultar o rosto nas mãos. — A coitada tinha se escondido quando ouviu os primeiros tiros… E num momento tenso, de cessar fogo, se levantou para espiar pela janela…

Paulo se agachou diante do policial:

— Seu Jairo, o senhor não confia em Deus?

— Como posso confiar em alguém que nem sei se realmente existe?

Paulo sorriu: — Pela ciência e pela filosofia, qualquer um pode concluir que o universo foi causado por algo além dele mesmo. E, sendo o universo complexo e obediente a leis, essa Causa só pode ser inteligente. Antes de haver coisas que sigam leis, é preciso que haja a criação dessas leis, e as leis não são materiais.

— Eu entendo o que você quer dizer, mas isso não me satisfaz.

— É por isso que Deus, por ser mais inteligente e amoroso do que suas criaturas, decidiu revelar-se na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um Deus entre nós! Isso satisfaz… — e Paulo buscou o olhar do policial. — Aliás, se um escritor é capaz de criar um personagem para representar a si mesmo dentro de um livro, relacionando-se assim com outros personagens, por que Deus não poderia atuar da mesma maneira diante da sua Criação? Deus é menos do que um escritor? Um efeito não pode ser maior do que sua causa! O homem não é maior e mais esperto do que Deus!

O sargento aceitou o olhar do advogado: — Este mundo já é quase um Inferno, doutor Paulo. Às vezes penso que Deus não existe porque há maldade demais no mundo. O senhor não faz idéia das coisas que vejo no dia a dia.

— Nosso mundo não é um mundo normal, seu Jairo. Vivemos isolados, em quarentena cósmica, porque houve a Rebelião de Lúcifer e a desobediência do casal adâmico. Mas, mesmo que não vejamos qualquer mudança material durante nossa vida na carne, essa situação fatalmente terá um fim. Precisamos ter esperança e confiar na bondade divina.

— Não sei… Eu… não sei…

— O mais importante é que, enquanto indivíduos, podemos nos reconectar a Deus agora mesmo. A quarentena se refere apenas à coletividade, apenas ao planeta. Você pode conversar com Deus neste instante. Ele não é um amigo imaginário. Você deve achar que a religião se baseia apenas na imaginação, né. Ora, tudo, até mesmo a ciência, se baseia na imaginação. Há montes de princípios e postulados que são dados como certos, mas que não podem ser provados. Entende? “Todos os ângulos retos são iguais” diz um desses postulados. Ok, mas você acha que alguém saiu comparando todos os ângulos retos do universo para saber se isso é verdade? Claro que não, seria impossível. É praticamente a fé que sustenta as ciências e as matemáticas. Se um cientista não percebe isso, é porque está filosoficamente cego. E essa fé deles tem como base nossa capacidade de imaginar certos princípios como sendo reais. Se você acha que Deus é mero fruto da imaginação, tente falar com Ele. Insista até começar a falar a partir do coração. Porque o mais impressionante é que Ele, a Seu próprio modo, quando ouve nossa sinceridade, nos responde. Essa resposta pode não ser instantânea, mas ela eventualmente chega até nós.

Anita estava embasbacada com aquela cena. Não esperava presenciar tão prontamente uma tal performance. O marido mudara da água para o vinho! Talvez por ainda estar sob efeito do baseado, ela apreciava a cena completamente desligada do espírito da época. Até a luz lhe parecia diferente, como se os três estivessem sob a iluminação de tochas. Ela já não vivia o século XXI. Sentia-se como uma romana, nas catacumbas, diante do discurso de um velho e sábio apóstolo. Percebia como o policial realmente sofria uma reforma em suas feições, sentindo-se paulatinamente consolado. Era como testemunhar um milagre.

— Mas, doutor Paulo — tornou o sargento, a voz embargada —, se isso for verdade, por que o mandamento diz “não matarás”? Não cometi um pecado? Já não estou condenado? Quer dizer que só tenho de falar com Deus e pronto, estou salvo?

Paulo levantou-se e deu alguns passos pela sala. Anita teve a impressão de que mantinha os olhos fechados. Então ele se voltou novamente para o policial: — Seu Jairo, uma tradução mais correta do mandamento seria “não assassinarás”. Quer dizer: mesmo que o uso da força seja necessário, não tenha a intenção de matar! Muitas vezes, a misericórdia necessita da força para auxiliar o mais fraco, já que este pode estar sofrendo sob os pés de um sujeito mais forte cujo coração não possui senão malícia. Um guerreiro, um soldado, deve agir como os samurais: cumprindo seu dever sem envolver seu ego, sem envolver sua própria vontade. É o que eles chamam de “não-ação”, a ação não motivada pelo ego, mas, sim, por um bem maior. Mesmo um pai de família, numa sociedade livre, aberta, uma que não seja dominada pelo Estado, tal como a nossa infelizmente é, tem o dever de manter uma arma em casa para proteger sua família. E, se necessário, ele deve entregar a própria vida para salvar a de sua esposa e filhos. Um policial de verdade tem de agir da mesma forma. Não pode deixar-se envolver emocionalmente, não deve odiar os bandidos, que são seus inimigos — mas tampouco deve abster-se de combatê-los sempre que ameacem a sociedade.

— Mas eu não matei um bandido… Matei uma inocente!

— Eu sei, seu Jairo. Mas foi um acidente, não foi? Você não teve a intenção de matá-la.

O policial o encarou com desespero no olhar: — Eu pensei que a cabeça dela fosse a cabeça de um dos assaltantes atrás do carro. E, sim, eu queria matar ele! Ele não pretendia se entregar, estava atirando para matar a gente. Mas então isso aconteceu. E a culpa agora está me matando… Se eu estivesse com a cabeça fria, como o senhor está dizendo… Se eu não estivesse com tanto medo de morrer… — e o sargento voltou a chorar baixinho, encolhido, sacudindo o corpo para frente e para trás, preso de imensa angústia.

Paulo voltou-se para a esposa: — Anita, meu bem, ajoelhe-se aqui ao nosso lado — e tocando o ombro do policial: — Sargento Jairo, ajoelhe-se aqui à minha frente. Vou rezar um Pai Nosso por você e, em seguida, pedir em oração por sua alma. O perdão é a única salvação. Deus já o perdoou, mas o senhor só sentirá a ação desse perdão quando perdoar a si mesmo. Para tanto, o único pré-requisito é o arrependimento sincero. E vejo que você está arrependido.

— Eu não rezo desde moleque — murmurou seu Jairo, ajoelhando-se. — Acho que nem me lembro mais como é.

— Não se preocupe. Apenas ouça minhas palavras. O Pai Nosso traz em si todos os elementos importantes, tudo o que podemos pedir e oferecer a Deus. Funciona como um protocolo formal, uma maneira de estabelecer a conexão. Depois, com a oração, falamos diretamente a Deus, informalmente, tal como somos e sentimos, como quem se dirige a um amigo. Entende?

— Entendo.

— Agora fechem os olhos.

Anita e seu Jairo, de joelhos, fecharam os olhos. Paulo César, com autoridade, retomou a palavra: — Pai nosso que estais no Céu, no centro mesmo de todas as coisas, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, núcleo singular do Universo Central Modelo, e espiritualmente presente no meu coração e no coração de meus irmãos, mortais ascendentes; santificado seja o vosso nome, meu Deus!, meu Deus!, meu Deus!… Venha a nós o vosso Reino, venha a nós os laços da vossa Família Cósmica… E seja feita, não a minha, não a nossa, mas a vossa vontade, assim na Terra como em toda vasta Criação… O pão nosso de cada dia dai-nos hoje: o pão para o corpo, o pão para a mente, o pão para o espírito… E perdoai as nossas ofensas e as nossas dívidas cármicas, na medida em que nós perdoamos a nossos ofensores e a nossos devedores… E não nos deixeis, Senhor, cair em tentação: na tentação da ira, do medo, do desespero… na tentação da inveja, do ciúme, do ressentimento… na tentação da preguiça, da covardia e do isolamento… Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação! Mas, se escorregarmos, Senhor, livrai-nos de todo o mal! Porque vosso é o Poder, o Reino e a Glória, pelos séculos dos séculos… Amém!

— Amém — repetiram em uníssono Anita e Jairo, emocionados.

Paulo prosseguiu: — Senhor, estamos diante de nosso próximo, de nosso vizinho, o sargento Jairo de Queirós, cujo coração está despedaçado pela culpa. Vós sabeis, Senhor, melhor do que eu, o quão arrependido ele está pela morte que causou. Uma família perdeu sua mãe e Jairo sente grande dificuldade de se perdoar. Sabemos que ele não se consolará de uma hora para outra, sabemos que ele provavelmente sentirá necessidade de pedir perdão à própria família que ele atingiu tão duramente. Mas vós, meu Pai, sabeis que ele é um bom homem, uma pessoa reta e que, mesmo tendo se esquecido de vós por tanto tempo, tem procurado observar a justiça no seu dia a dia. Por favor, meu Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, pedimos por este homem, que também é um pai de família e que, agora, retorna à vossa Família Universal. Ajudai-o, Senhor, a compreender o significado e o valor dessa triste experiência. Que ele cresça em fé, em paciência e amor, e possa dedicar-se com ainda mais afinco à difícil tarefa que lhe cabe. A vida e a segurança de muitíssimas pessoas depende do serviço dele e de seus colegas. Aqui, juntos, agradecemos por essa Graça, Pai. Que assim seja.

— Que assim seja — repetiu Anita.

Nisto, o sargento se jogou aos pés de Paulo em prantos:

— Obrigado, doutor! Obrigado!

Paulo se abaixou e o abraçou. Ficaram assim, quase dois minutos sem que ninguém dissesse uma única palavra. Anita chorava em silêncio, tocada no mais fundo de sua alma. O choro do policial era agora de alívio. Uma força sobrenatural apoderara-se dele e seu rosto finalmente trazia a marca da esperança. Paulo sabia que ainda haveria uma que outra recaída. Mas o primeiro passo fora dado.

O sargento, então, afastando-se de Paulo e enxugando os olhos com as costas da mão direita, pediu um copo d’água, que Anita apressou-se em lhe servir. O casal observava agora a fragilidade e a humanidade daquele homem que, minutos antes, tanto medo lhes impingira. A vida é muita estranha.

— Agradeço imensamente a vocês dois — disse ele, já de pé. — Preciso ir pra casa agora, minha mulher deve estar preocupada. Vim direto pra cá, ela ainda não sabe que voltei do trabalho — e estendeu uma mão para Anita, que a apertou timidamente.

Quando o policial já saía pela porta aberta por Paulo, Anita voltou a chamá-lo:

— Seu Jairo! O senhor está esquecendo disto aqui! — e, segurando pela pontinha do cano, lhe estendeu um revólver calibre 38 que ficara caído ao tapete.

— Obrigado, dona Anita. Me desculpe — e lhe sorriu, tomando a arma e devolvendo-a ao coldre.

Paulo o acompanhou até o portão e, quando o sargento já ia se afastando, parou, coçou a cabeça, retornou e lhe disse:

— Doutor Paulo César, posso lhe pedir uma última coisa?

— Claro, seu Jairo.

O outro limpou a garganta, embaraçado, e disse, quase sussurrando: — Por favor, não fume mais maconha. O senhor é bom demais pra isso. E deve estar ciente do mal que o tráfico de drogas causa à sociedade.

Paulo, sem nenhum constrangimento, sorriu: — Então o senhor percebeu?

— Claro, faz parte do meu trabalho, né.

— Não se preocupe, seu Jairo. Um amigo meu costuma dizer que muitos caminhos levam a Deus, que até mesmo o diabo pode nos levar a Deus. O diabo que me levou a Deus foram as drogas. O mesmo aconteceu com Anita. E, hoje, enquanto desempacotávamos a mudança, encontramos um último baseado e caímos em tentação! Mas, tal como disse agorinha, ao rezar, nosso Pai Celestial, apesar de nosso escorregão, não apenas nos livrou do mal, mas também nos ajudou a realizar um grande bem.

— O senhor viu aquele filme Os Intocáveis? — tornou Jairo.

— Com Kevin Costner?

— Esse mesmo. E aquele ator que foi o melhor 007.

— Sean Connery.

— Isso, acho que é esse. Então… no final, após prender Al Capone, um repórter se aproxima do Eliot Ness dizendo que as bebidas alcoólicas tinham acabado de ser liberadas, o que ele faria a respeito, já que tinha enfrentado o contrabando e o comércio delas por tanto tempo.

— Acho que me lembro disso.

— E o Eliot Ness diz: se já liberaram o álcool, vou tomar um drink.

Paulo riu.

— Eu fumaria um cigarro desses com você, doutor Paulo, se um dia fosse liberado. Mas, por enquanto, só há crime por trás disso, muitas mortes.

— Seu Jairo, eu agradeceria seu convite, mas me recusaria. O senhor certamente nunca foi um usuário de drogas. Não deve saber como o uso crônico dessas substâncias pode despertar nossos monstros e pavores. Aliás, eu quase me borrei nas calças quando o vi pela janela…

Agora foi o sargento quem riu.

— Sem falar — prosseguiu Paulo — que a atual onda de liberação das drogas vem sendo orquestrada para dar ainda mais poder aos produtores, já que eles compartilham dessa mesma ideologia política que manda hoje em nossa vida. Parece que essa ideologia é mais efetiva quando a mente da população está distraída ou assustada.

— Bom, disso eu não entendo nada, doutor. Mas… enfim, eu precisava dizer isso pro senhor.

Apertaram as mãos com firmeza, olhando-se fraternalmente nos olhos um do outro, e o sargento então dirigiu-se à casa ao lado, fechando o portão com estrondo.

Quando Paulo entrou na sala, Anita estava no sofá, sentada de pernas cruzadas, com dois dedos metidos no pote de Nutella. Ele se aproximou e desabou ao lado dela.

— Paulo, tô tão orgulhosa de você! As coisas que você disse…

— Bonita — disse ele, exausto — não faço a mais mínima idéia do que foi que eu disse! Lembro de partes! A maconha acabou com minha memória.

— Não! Você não se lembra porque foi o Espírito Santo!

— …acobertado pelo beque.

— Bobo — e o beijou ternamente. — Pelo menos o sargento não desconfiou de nada, né.

— Ah, é. Não desconfiou de nadica de nada — gracejou ele. — Mesmo assim — e a puxou pelo braço, deitando-a no colo — você merece umas palmadas pelo que me aprontou hoje. Sua Eva!

— Se me machucar, vou à delegacia da mulher, viu — replicou, divertida.

— Vai não. O mais provável é que você vá contar tudo pra sua amiga do Cinqüenta Tons de Cinza.

Ela riu. E ele lhe deu umas boas palmadas.

7:14 amÁudio da minha palestra no ConaLit

O áudio completo da minha palestra no ConaLit, cujo vídeo foi publicado ano passado no YouTube, está agora disponível no SoundCloud.

7:43 amA expressão estética da verdade

Álvaro Lins

« Em arte, belo não é sinônimo de bonito. O artista procura, com a verdade, o que é característico. A expressão estética dessa verdade — bonita ou feia, elevada ou baixa, nobre ou sórdida — é que é a beleza em arte.»
Álvaro Lins

7:53 amTradutor americano conta como conheceu a obra de Hilda Hilst

Letters from a Seducer [Cartas de um sedutor] – Hilda Hilst, Translated by John Keene, Nightboat Books
DANIEL MEDIN: How did you discover Hilda Hilst’s writing? What led you to want to translate this book? [TRAD.: Como você descobriu a escrita de Hilda Hilst? O que o levou a querer traduzir esse livro?]

JOHN KEENE: My first real encounters with Hilst’s writing are a decidedly 21st century phenomenon. I had seen her name mentioned several times in various critical texts, and finally did an online search for her work about a decade ago. What I found and dove into was the old Angelfire website, still live, that Yuri Vieira dos Santos set up for her in 1999, and launched from her Casa do Sol. It was via that site, which features links to many of her works, photos, and lists of translations, that I was able to immerse myself in Hilst’s world. [TRAD.: Meu primeiro encontro real com a escrita de Hilst é decididamente um fenômeno do século XXI. Eu tinha visto o nome dela ser mencionado diversas vezes em vários textos críticos, e finalmente fiz uma pesquisa online por seu trabalho cerca de uma década atrás. O que encontrei e onde mergulhei estava hospedado no velho Angelfire, um site ainda existente, que Yuri Vieira dos Santos criou para ela em 1999 e lançou a partir da Casa do Sol. Foi mediante aquele site, que apresentava links para muitos de seus trabalhos, fotos e traduções, que me tornei apto a imergir no mundo de Hilda Hilst.]

Fonte: Three Percent.

11:35 am“Pastelão ou Solitário Nunca Mais” e a verdadeira causa da dengue

Kurt Vonnegut

A certa altura do livro Slapstick or Lonesome No More! (Pastelão ou Solitário Nunca Mais), Kurt Vonnegut narra um estranho imbróglio diplomático ocorrido entre China e Estados Unidos: os americanos, horrorizados com o tratamento dado pelo governo chinês à sua própria população, rompem relações com aquela desumana ditadura comunista. E o que o governo chinês vinha fazendo com seu povo? Devido à superpopulação, cientistas maoistas desenvolveram uma maneira de reduzir o tamanho das pessoas. Os americanos começaram a sentir que havia algo de errado com aquela gente quando notaram que o embaixador chinês recém chegado não tinha mais que 1m de altura. Anos depois, recepcionaram um novo embaixador com apenas 50cm da cabeça aos pés. Mais tarde, quando o novo corpo diplomático chinês desembarcou sem que nenhum de seus membros tivesse mais que o tamanho de um polegar, o presidente dos EUA ordenou o rompimento das relações — e um muro de mistério se interpôs entre a China e o Ocidente. Já não havia ninguém com a mais mínima idéia do que ocorria do lado de lá. E então Kurt Vonnegut passa dezenas de páginas sem tocar no assunto… Mais adiante, ele conta como o mundo, sem mais nem menos, passa a enfrentar uma situação catastrófica, pois surge uma estranha doença que chega a dizimar quase toda a população mundial. Essa doença, não me lembro o porquê, é conhecida como a “peste verde”. Quase ao final do livro, descobre-se sua causa: as pessoas estavam inalando, sempre que respiravam, chineses microscópicos! (Porra, Kurt Vonnegut!) Bem, contei tudo isso apenas para informá-los de que descobri a verdadeira causa da dengue: são eleitores petistas microscópicos! Eles andam com tanta vergonha do partido, dos seus dirigentes, dos militantes, da presidente, do ex-presidente, e assim por diante, que começaram a diminuir de tamanho e, hoje, só são encontrados dentro da barriga de mosquitos. Tenho certeza disso, pois, na última vez em que estive doente, pude notar claramente em minha pele a formação de manchas vermelhas em forma de estrelas de cinco pontas. Enfim, ou são petistas microscópicos que causam a dengue, ou ela é apenas coisa do capeta mesmo…

10:12 amEncontro de escritores brasileiros na Virginia/USA

10:27 amHomem também tem pêlo

Bete Coelho e Daniela Thomas

Em Junho de 1999, quando eu já morava na Casa do Sol havia quase nove meses, a atriz e diretora Bete Coelho e a figurinista e cenógrafa Daniela Thomas foram visitar Hilda Hilst. Ambas participavam do projeto de adaptação para teatro do livro O Caderno Rosa de Lori Lamby, cuja protagonista seria vivida por Iara Jamra. A peça, à qual assisti semanas mais tarde no Teatro N.Ex.T, no centro de São Paulo, ficou excelente, unindo na proporção ideal o humor e o horror deste que é o primeiro volume da Trilogia Erótica hilstiana. O sucesso ulterior da montagem, contudo, não impediu Hilda de indagar pela milésima vez:

— Por que ninguém se interessa em montar minhas peças? Por que só querem adaptar meus livros?

— Ai, Hilda! — suspirava ao telefone o amigo Mora Fuentes. — Quando você disser isso às moças, porque eu sei que você vai dizer, sua teimosa, não faça a reclamona, né. Você não está contente com o interesse delas pela Lori Lamby?

— Claro que sim, Zé. Elas são ótimas. Mas não é isso…

— Hilda — eu então dizia — quando suas peças forem publicadas, os diretores vão começar a montá-las. Muita gente nem sabe que você também é dramaturga.

— Faz trinta anos que as escrevi! Trinta anos!! — repetia, arregalando os olhos.

E foi mais ou menos nesse clima que, num dia frio e ensolarado, recebemos as visitas. Em ocasiões assim, Hilda fazia questão da minha presença, entre outras coisas, para ser sua memória recente auxiliar.

— Yuri, quem é mesmo o autor dessa biografia do James Joyce que estou lendo?

— Richard Ellmann, Hilda.

— É verdade. Só me vinha à cabeça Richard Francis Burton. Mas é óbvio que se tratava de outro Richard.

Ela vivia citando autores e livros e, como eu vinha organizando sua biblioteca, cabia a mim correr atrás dos mesmos, pois ela sempre queria ler um trecho ou outro para seu interlocutor. Vale lembrar também que, como toda figura pública, Hilda Hilst se transformava nesses contatos com leitores e fãs. No dia a dia, eu até me esquecia de que ela estava prestes a completar setenta anos de idade: conversávamos como se ambos tivéssemos dezesseis. Claro, não foi assim desde nosso primeiro contato. Nossa amizade foi evoluindo. Mas essa diferença entre o antes e o depois saltava aos meus olhos quando, em minha presença, outras pessoas a encontravam pela primeira vez: de repente, minha “amiga adolescente que se interessava pelas mesmas coisas que eu”, e que só vestia a carapuça de mestra quando eu dizia uma grande besteira, se transformava em quem realmente era: um colosso literário. Ninguém que a tenha conhecido em sua casa jamais esquecerá de sua presença marcante, de sua sinceridade sem papas na língua e de sua modéstia aristocrática. Quando as visitas iam embora, ela me perguntava:

— Como me saí? — e então sorria. Tinha plena consciência do teatro do mundo e de seu papel nele.

Recebemos o anúncio da portaria do condomínio e nos preparamos para recepcionar Bete Coelho e Daniela Thomas. Hilda decidiu recebê-las à mesa de jantar, diante da lareira, já que o escritório estava inusualmente frio. Chico, o caseiro, abriu o portão e o carro veio estacionar diante do alpendre. Os cães, obviamente, fizeram o escarcéu de sempre, rodeando o carro e aguardando as visitantes com todos os volumes e tons de latido. Eram cerca de quinze cães.

— Olá, tudo bem? — eu disse, recebendo Daniela à porta e lhe estendendo a mão.

— Oi — respondeu, ligeiramente ansiosa, aceitando o cumprimento e me encarando por trás das grossas armações dos óculos. Uns dez cães a rodeavam, os pequenos latiam estridentemente.

— A Bete não vai entrar? — perguntei.

— Ela não quer sair do carro! Morre de medo de cachorros.

Ih, lascou-se!, pensei com meus botões. Hilda jamais sairia de casa para conversar com alguém pela janela de um automóvel. Ela simplesmente não confiava em quem não se dava com animais. Meu lado diplomático começou a se preocupar: e se isso fizesse Hilda não dar sua benção à peça? Não, ela não cancelaria sua autorização, mas aquela situação poderia azedar o trabalho de alguma forma. Talvez até aproveitasse o episódio como desculpa para não ir assistir à montagem. Embora estivesse mantendo um bom diálogo com Iara Jamra, por quem sentia grande simpatia, antipatizar com a diretora, por causa dos cães, não resultaria em nada de bom.

Entramos e Daniela cumprimentou Hilda com efusão. Após os salamaleques, indiquei a cadeira para que se sentasse.

— Cadê a Bete? — perguntou Hilda, que até então exalava pura simpatia. Pronto, pensei, vai começar.

— Ela não quer sair do carro — respondeu Daniela. — Está com medo dos cachorros. Não imaginava que se agitariam tanto.

O semblante de Hilda anuviou-se:

— Ué. Pensei que ela quisesse muito conversar comigo.

— E quer. Mas…

— Eles só ficam agitados no início, Daniela — atalhei. — Olha só como eles já se acalmaram. Bastou você se sentar.

— Eu vou lá falar com ela — respondeu, levantando-se e pressentindo nuvens de tempestade.

Daniela saiu e Hilda me encarou, uma expressão desgostosa nos lábios.

— Era só o que faltava — resmungou.

Infelizmente os cães acompanharam Daniela e retomaram a balbúrdia, o que, claro, só iria contradizer seus argumentos. Bete Coelho certamente não estaria disposta a ser um coelho numa caçada inglesa. Hilda, concentrada e já visivelmente irritada, fumava seu Chanceller. Aguardamos em silêncio. Ao cabo de dois ou três minutos, Daniela retornou: sozinha!

— Desculpa, Hilda — começou, embaraçada. — Não adianta. Ela está mesmo com medo.

Como Hilda nada respondesse, e pelo andar da carruagem talvez já não dissesse mais nada, decidi ir testar meus próprios argumentos.

— Eu falo com ela.

Fui até o carro e dei umas duas batidinhas no vidro. Bete Coelho abriu a janela. Os cabelos curtos e muito negros deixavam sua pele ainda mais pálida.

— Oi, Bete. Meu nome é Yuri. Sou secretário da Hilda.

— Oi, Yuri. Ela está muito chateada comigo?

— Um pouco. Mas você não precisa ficar com medo dos cachorros. Eles latem muito apenas quando vêem a pessoa pela primeira vez. Depois se acostumam e ficam quietos. Nunca morderam ninguém.

— Eu sei. Eu entendo que seja assim. Mas é involuntário! Juro! Estou em conflito aqui. Quero sair, mas não consigo.

Seu olhar comprovava sua angústia. Ela chegara à Casa do Sol e não veria Hilda Hilst? Como era possível?

— Olha — propus — você pode vir comigo. Vem segurando no meu braço. Você vai confirmar que cão que late não morde.

— Obrigada, Yuri — retrucou, desconsolada. — Mas não vai dar. É um problema que tenho. Estou até tratando essa fobia com meu psicanalista.

Nesse momento, trinta milhões de neurônios modificaram suas sinapses em meu cérebro e uma lâmpada, que só eu vi, acendeu sobre minha cabeça. Justamente naquele mês, eu e Hilda estávamos lendo e discutindo o livro “A Negação da Morte”, de Ernest Becker. Nele, através principalmente de Otto Rank e Kierkegaard, Becker busca provar que só há uma maneira de escapar à neurose causada pela verdade de que todos morreremos um dia: voltar à transferência original. Na psicanálise, grosso modo, transferência seria o processo pelo qual confiamos nossa segurança psíquica a algo que nos ultrapassa, que nos transcende, a algo que esteja fora e acima de nós mesmos. Quando o bebê está mamando, sua mãe é a fonte e a mantenedora de toda a sua saúde mental. Ele transfere suas necessidades mais profundas para ela. Ali, em seus braços, não há neurose, não há medo, não há ameaças de destruição. Conforme a criança vai crescendo e se tornando um adulto, sua transferência vai sendo dirigida para outras pessoas ou coisas: para o pai, para um namorado, para um trabalho, para uma crença, para uma ideologia e assim por diante. Quanto mais incerto, mortal ou volúvel for o alvo de sua transferência, mais neurótica se tornará a pessoa e, por isso, de mais mentiras existenciais necessitará para não mergulhar na loucura de se ver apenas como um animal que em breve irá morrer. E não há ninguém que viva sem estar preso a esse processo, por mais inconsciente que seja, por mais que seja oculto o alvo de sua transferência. Daí o estado de verdadeiro “escândalo”, no sentido bíblico, isto é, de abalo da fé, quando tal alvo se desfaz no ar ou cai em desgraça. Nada explica melhor um crime passional, quando o marido, traído pela esposa, mata-a e em seguida dá um tiro na cabeça. Nada explica melhor o suicídio de nazistas que, de repente, descobrem que o Führer está morto. Becker, portanto, desenvolve seu pensamento até nos mostrar que a única transferência perene, indestrutível e legítima é aquela que tem Deus por alvo. Seria essa a transferência original. Enfim, eu olhava para Bete Coelho e me vinham à cabeça todas essas coisas. Mas é claro que eu não iria lhe dizer: “Tenha fé em Deus, Bete, e nada vai lhe acontecer”. Não. Vestida com roupas escuras e pálida como uma freqüentadora do Hell’s Club, que eu também freqüentei — sempre curti música eletrônica —, essa não parecia de modo algum a abordagem correta. O fato é que eu também sabia que, numa psicanálise, a terapia torna-se muito mais efetiva quando, entre paciente e psicanalista, ocorre a transferência, quando o psicanalista se torna a salvaguarda do equilíbrio psíquico do paciente. Portanto, eu me inclinei em sua direção, sorri e lhe disse:

— Bete, tenho certeza de que, se você conseguisse enfrentar essa fobia agora e, apesar de todos esses cachorros, fosse até a sala conversar com a Hilda, seu psicanalista ficaria muito orgulhoso de você… — e, tendo dito isso, dei-lhe as costas e voltei à sala.

— Cadê ela, Yuri? — perguntou Hilda.

— Já está vindo.

— Sério?

— Sério.

E, de fato, em menos de dois minutos, Bete Coelho surgiu à porta por si só, os olhos vidrados, direcionados para frente, evitando olhar para baixo. Os cães, que haviam me acompanhado, cercaram-na latindo muitíssimo, mas ela, rígida, corajosa, permaneceu como uma estátua, os braços colados ao corpo. Com passos curtos e cuidadosos, mais parecia se deslocar sobre rodinhas do que caminhar. Dirigiu-se então até Hilda, que se levantou e a abraçou.

— É um prazer, Hilda. Me desculpa.

— Não entendi esse pânico todo — repreendeu-a Hilda, num tom bem humorado. — Você por acaso também tem medo de homem? Homem também tem pêlo. Sabia?

Todos riram dessa observação e Bete Coelho se sentou na cadeira que lhe indiquei. As conversas prosseguiram de forma amena e, graças à bravura da atriz-diretora, que confirmou Sócrates, segundo o qual corajoso não é quem não sente medo, mas, sim, quem o sente e o enfrenta, semanas mais tarde a própria Hilda foi assistir à montagem de O caderno Rosa de Lori Lamby. Porque, sinceramente, caso a autora tivesse antipatizado com Bete, teria sido muito difícil para Mora Fuentes arrastá-la da Casa do Sol até o teatro. (Ah, vale lembrar que, além de pêlos, alguns homens também têm boas idéias.)

4:16 pmA Importância da Literatura

Aula do Professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto.

2:59 pmA sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande

(À maneira de Chesterton…)

Doutor Pinto pediu licença para ligar seu cigarro eletrônico e se sentou. Indicou a cadeira com a mão, aguardou alguns longos segundos, e nada. O rapaz mantinha-se de pé, do outro lado da mesa, visivelmente desconfortável: era óbvio que jamais estivera diante de um advogado na condição de cliente.

— O senhor não vai se sentar? Por favor, fique à vontade.

Roberto, um sorriso amarelo nos lábios, finalmente se sentou. Então olhou em torno, admirado com os quadros, com os livros na estante, com o aquário de peixes do mar. Devia estar pensando em quanto iria custar aquilo.

— O senhor dizia que pretende processar seus colegas de trabalho. Não vai me dizer o porquê?

— Racismo, doutor.

— Racismo. Certo, certo. Você deve estar se sentindo prejudicado na sua posição, imagino. É preterido nas promoções?

— Preterido?

— Sim, você certamente não recebe a devida atenção e reconhecimento por seu trabalho.

O outro pigarreou:
— Não é isso, doutor. Meu chefe e o dono da empresa também são negros. O problema são meus colegas. Fazem bullying comigo o tempo todo, me perseguem, zoam comigo.

— Você já levou o problema até seu superior?

— Já. Ele disse que eu tenho de parar de sorrir quando mexem comigo, que tenho de dizer que não gosto e pronto.

— E você já fez isso?

— Não consigo. Na hora, sem querer, eu sorrio, sei que estão brincando. Mas depois, em casa, fico relembrando, remoendo. E aí percebo o quanto são racistas, intolerantes e desrespeitosos.

—  Bom, você precisa saber que iniciar um processo é, por assim dizer, uma primeira instância apenas no sentido legal. Em termos de convivência social, é na verdade uma última instância, pra lá da gota d’água.

O rapaz se aprumou na cadeira e, talvez sob influxo de adrenalina, desatou a falar rápida e destemidamente:
— Eu sei o que o senhor está insinuando. Acha que devo conversar com todos eles em particular, ou talvez com todos juntos. Resolver tudo no gogó, tipo, “é conversando que a gente se entende”. Acha que eu preciso ser compreensivo e tolerante como eles jamais conseguiriam ser. Mas o problema é que eu também sei que essa atitude não leva a nada, não vale nada. Meus colegas são pessoas ignorantes, toscas e, se resolverem me poupar, vão acabar indo encher o saco de outra pessoa. Eu acredito que só irão parar com essa palhaçada se algo sério acontecer com eles. Acho que merecem ser processados pelo bem de outras pessoas, de outros negros que já não aguentam mais ser motivo de chacota.

Doutor Pinto franziu o cenho, pensativo. Então, pegando do iPad, abriu um aplicativo para fazer as anotações.

— Ok, senhor Roberto. Vamos começar do começo. O que é que eles fazem para perseguir você?

— Eles me chamam o tempo todo por um nome que odeio.

— Só por um nome? Ou por vários nomes? Apelidos talvez?

— Só por um. Quer dizer, tem um outro também. E depois riem da minha cara minutos a fio. Ficam no meu pé o dia inteiro, às vezes usam esses nomes até diante dos clientes.

— Posso saber que nomes são esses?

— Pode, sim: prompt de comando e cmd.

— Como? Desculpe, eu…

— Prompt de comando.

O advogado, confuso, ficou em silêncio por meio minuto. Então começou a desatarraxar a bateria do cigarro e, ainda cabisbaixo, a trocou por outra.

— O senhor não vai dizer nada, doutor?

— Desculpe, senhor Roberto. É que não faço a mais mínima idéia do que seja um… Prompt de Comando? Ceemedê? É uma sigla? Tem algo a ver com as Forças Armadas?

O rapaz riu:
— Meu Deus, o senhor não sabe o que é um Prompt de Comando?

— Por quê? O senhor vai fazer bullying da minha ignorância?

O rapaz fechou a cara instantaneamente.

— Bom — começou ele, esforçando-se para não iniciar um atrito — o doutor pode por favor abrir esse ultrabook aí? Vou lhe mostrar o que é um Prompt de Comando.

— Então tem a ver com computadores?

— Sim.

— Ah, compreendo. Apesar do cigarro eletrônico, que ganhei da minha esposa, sou um analfabeto tecnológico. Sei apenas ligar as coisas e usar suas funções mais óbvias e banais.

— Eu sei como é, doutor. Lá na empresa, nós trabalhamos com sistemas de informação e, por isso, sei o quanto as pessoas, apesar de usá-las, realmente desconhecem o funcionamento das máquinas. Mas, por favor, ligue seu ultrabook. É mais fácil mostrar do que explicar.

Doutor Pinto abriu, pois, a tampa do computador e acionou o botão. Graças à memória SSD, da qual ele tampouco imaginaria a razão de ser, a máquina ligou em menos de três segundos.

— Agora, por favor, aperte essa tecla com o símbolo do Windows e, em seguida, a letra “r”, de “run”.

— Executar? De inglês eu entendo.

— Isso.

— Pronto. E agora?

— Digite “cmd” nesse espaço aí e aperte Enter.

— Hum. Ok.

Uma pequena janela se abriu no meio da tela. E doutor Pinto ficou aguardando novas instruções, que não vieram.

— O que faço agora?

O outro se irritou:
— O senhor não percebeu, doutor?

— Percebeu o quê, seu Roberto?

— Esse é o Prompt de Comando.

— O quê? Essa janelinha?

— É!

Doutor Pinto franziu os lábios:
— Mas… e daí? O que tem essa janelinha?

— O senhor por acaso está zoando com a minha cara?

Doutor Pinto encarou-o cheio de espanto:
— Eu? Debochando do senhor? Por que estaria? Não o entendo!

— Doutor, essa janela é preta! Pretinha da silva!!

— E…?

— Como assim “e…”? Eles estão me chamando de preto, uê!

— E o senhor por acaso é preto?

— Claro que não! Sou da raça negra!

— Então por que está tão irritado? É como se alguém me chamasse de parafuso e isso me chateasse. O que eu tenho que ver com um parafuso? Nada.

— O senhor está tirando com a minha cara! — explodiu o rapaz.

Doutor Pinto abriu os braços, as palmas das mãos voltadas para cima:
— Juro que não! — e realmente parecia surpreso. — Ora, eu sei que antigamente as pessoas da raça negra odiavam ser chamadas de “negras” e preferiam o termo “preto”, e que hoje ocorre, sei lá por qual razão, justamente o contrário. Mas e daí? Por que o senhor se chateia com isso?

— Eles riem de mim!

— E o senhor sorri de volta.

— De puro nervosismo! —  e deu um tapa na mesa. — Caramba… ¿O senhor não viu como quiseram arrancar a pele do Pelé quando ele…

— A pele do Pelé… Parece nome de documentário.

— Doutor! O senhor está zoando comi…

— Não estou, seu Roberto! Não mesmo! Tenha calma. Por favor, volte a se sentar e se acalme.

O rapaz, mais abatido que irritado, refestelou-se na cadeira. E então, resfolegando, pediu um copo d’água, que a secretária, acionada pelo intercomunicador, apressou-se em fornecer.

— Doutor — voltou a falar, mais calmo —, como eu dizia, o senhor não viu o que fizeram com o Pelé quando ele disse que dava de ombros quando sofria racismo no futebol? Acabaram com ele! A gente não pode ser condizente com essas coisas.

— Desculpe, não passo os dias nas redes sociais, não sei exatamente o que fizeram com o Pelé ou o que disseram dele. Ouvi apenas que estavam bravos com ele. Mas sei muito bem o que ele fez consigo mesmo: é o esportista mais famoso de todos os tempos e um cara rico, de sucesso.

— Isso mostra apenas o quão egoís…

— Seu Roberto — interrompeu-o Doutor Pinto —, deixe-me contar-lhe duas histórias. Posso?

Roberto, apesar de visivelmente contrariado, assentiu com a cabeça.

— Seja sincero, seu Roberto. Você não acha engraçado um advogado cujo sobrenome seja “Pinto Grande”? Veja só! O senhor sorriu. Claro que acha cômico, um tal palavrão, grafado na fachada do meu escritório. Talvez tenha até tido dúvidas ao vir me procurar. Deve ter achado que não me levo a sério. Ou que sou tão bobo que nem percebo a piada embutida nisso. Ou, pelo contrário, que sou tão seguro de mim mesmo que não me incomodo… Pouco importa o que pensou. O fato é que o senhor vem me chamando de doutor, doutor, doutor, mas nem sei se, em algum momento, disse meu nome: doutor Pinto. Quanto mais meu nome completo: doutor João Pinto Grande. E Pinto Grande é realmente meu sobrenome!

Roberto, sem suportar a pressão interna, deu uma profunda risada. Doutor Pinto riu com ele.

— Percebe? Pois então. O senhor tem idéia da quantidade de assédio moral que sofri ao longo da vida? Minha infância e minha adolescência, até minha juventude, foram verdadeiros infernos. Cheguei a odiar meus pais por conta disso. Ironicamente, o Pinto é da minha mãe, e o Grande, do meu pai.

O rapaz caiu na gargalhada. Doutor Pinto, um ar irônico no rosto, altivo, aguardou-o paciente e compreensivamente.

— Desculpe, doutor — disse Roberto, afinal. — Não consegui me segurar.

— Não tem o menor problema. E nem é porque “estou acostumado”. É porque, hoje em dia, adoro meu nome. Enquanto ainda somos imaturos, sofremos com toda sorte de acidentes, de eventualidades, de contingências, de questões secundárias. A maturidade só vem ao fim de muita reflexão, de muita meditação, de muita aceitação. Principalmente da aceitação de nós mesmos. Quando eu era um jovem imaturo, meu nome sempre dificultou, entre outras coisas, arranjar uma namorada. Quando comecei a amadurecer, ele se tornou meu maior aliado nesse quesito! O maior sucesso! Mas estou me perdendo em circunlóquios. Deixe eu lhe contar a primeira história. Quando eu tinha quinze anos de idade, eu pensei em me matar.

Roberto arregalou os olhos e ficou ainda mais atento.

— Eu estudava no colégio Ateneu Dom Bosco —  continuou o doutor — e tinha colegas realmente infernais. Era algo estranho: os padres, ao contrário do que dizem, eram demasiado tolerantes. Na minha época, é verdade, já não havia reguadas, palmatórias ou joelhos no milho. Apenas aconselhamentos dos mais educados. Eu nunca atinava com o porquê de meus perseguidores não sofrerem penas maiores. Nunca receberam sequer uma suspensão! Claro, eu não era dedo-duro, mas esperava inutilmente que as testemunhas do meu contínuo assédio moral tomassem meu partido.

— Ninguém sabe o que vai dentro da gente.

—  Exato! Além de nós mesmos, nenhum outro humano está aqui dentro — e doutor Pinto apontou o próprio coração. — Mas, enfim, voltemos ao meu quase suicídio… Bom, no segundo ano colegial, veio estudar na minha sala um sujeito brutamontes dos mais expansivos, dominadores e territoriais. Era o típico macho alfa que precisava impor a qualquer custo o seu poderio, que precisava humilhar os machos mais fracos e conquistar o resto do bando. Ele não fazia isso por mal, percebi meses mais tarde, quando então nos tornamos amigos. No fundo, era praticamente uma imposição da natureza dele, à qual, com muito custo, ele finalmente aprendeu a dizer “não”. Tornar-se homem, em geral, é um aprender a dizer não à nossa animalidade, à nossa natureza, e não o contrário, como os hippies pensavam. Mas compreenda: esse dizer não… não é um “negar negativo”… — é, sim, um “negar positivo”, um aceitar e um driblar, é um ouvir e entender, mas discordar. No final das contas, você acaba percebendo que acontecem coisas assim e assado com nosso corpo, com nossa mente, que muitos impulsos se impõem, mas, conscienciosamente, tem de dar passagem apenas ao que nos leva ao bom, ao belo e ao justo. A tudo o que não presta, seu bom senso, que é o mais comum dos sensos, deve dizer “não!”.

— Entendo.

— Pois bem. Um dia, eu estava na fila da cantina e esse sujeito veio por trás de mim, colocou uma mão de cada lado dos meus ombros e, como direi?… ele me “masturbou”! Mas entre aspas! Quero dizer, sem encostar em mim senão as mãos, ele ficou friccionando meus braços para cima e para baixo, como se meu tronco fosse um corpo cavernoso e minha cabeça, a glande de um pênis. Enquanto o fazia, berrava: “E aí, Pintããão?!!”. Em volta, todos começaram a rir e a gritar “Pintão! Pintão!”. Tudo parecia ainda mais engraçado porque eu era baixinho e muito magro. Sabe como é, o contraste sempre causa frisson nos espectadores do que quer que seja. Naquele momento humilhante, minha única reação foi fugir da fila e correr para o banheiro. Chorei durante todo o intervalo, dentro de um dos reservados, e ninguém foi falar comigo. Ninguém! Eu era um Pinto Grande solitário.

Roberto sorriu: — Deve ter sido duro.

Doutor Pinto sorriu de volta: — Só quando eu me excito.

Riram juntos.

— Ao longo daquela semana — prosseguiu o doutor — esse cara me… me “cumprimentou” do mesmo jeito todas as vezes que me encontrou nas filas, nos corredores, dentro da sala, na escada, na calçada. Sim, para ele era um cumprimento. E dos mais divertidos! Era seu jeito de dizer “oi, magricela do nome ridículo”. E quem estivesse por perto sempre ria de mim, apontando-me o dedo. É óbvio que fiquei famoso no colégio, popular da pior maneira. Naquela semana de Fevereiro, eu só procurava as sombras, estava sempre me escondendo atrás das colunas, das esquinas dos prédios, das moitas, das árvores. Foi horrível. Já passara a infância toda fugindo do meu nome e agora enfrentava aquilo. Cheguei inclusive a levar um canivete para o colégio na sexta-feira e, quando ele me “masturbou-entre-aspas” de novo, antes da primeira aula, fiquei apertando a lâmina dentro do bolso, com medo e desejo de usá-la. Mas não a usei, o que se mostrou ainda mais humilhante para mim, pois me senti o mais vil dos covardes. No sábado, escrevi uma carta de suicídio, e passei todo o dia com uma lata de veneno no quarto, um veneno que minha mãe usava para borrifar as plantas do jardim. Ficava alternando os olhos entre a lata e o copo, o copo e a lata. Cheguei a escrever que a culpa da minha morte era dos meus pais, por terem me colocado um nome tão burlesco e absurdo. E, obviamente, nada fiz. Sobrevivi ao final de semana. Na segunda-feira, voltei ao colégio como um condenado à forca, resignado. Eu já havia sofrido muito graças ao meu nome, mas aquele gesto estúpido, bruto, daquele cara enorme, era demais para mim, o fim da picada. A humilhação me consumia. Mas… — e doutor Pinto fez uma pausa.

— Mas…?

— Mas uma coisa esquisita aconteceu. Inesperada. Com minha resignação e desamparo, eu parei de prestar atenção aos meus temores e receios, parei de olhar para dentro, e fiquei mais ligado, mais atento ao mundo. Estava tão certo de que tudo se repetiria, que nem sequer me importava mais. Sem saber, eu estava pronto para o que desse e viesse. Na verdade, foi minha primeira disposição desse tipo, a qual eu acabaria por perder e recuperar muitas e muitas vezes, até finalmente conquistá-la integralmente na maturidade.

— Resumindo: o senhor ligou o foda-se.

— Mais ou menos isso. Um “foda-se” acompanhado por uma atenção às coisas, uma contemplação, que me remetia à primeira infância. Sabe, né, aquela atenção cheia de pureza. Bastante semelhante à atitude de um lutador de arte marcial, que não podendo comparar o momento exato da luta ao treinamento prévio, não tendo tempo para rememorar teorias, porque isso o distrairia, tem apenas de reagir convenientemente à situação real.

— O senhor deu uma porrada no cara?

—  Não, nada disso. Eu me entreguei ao momento. Eu estava no corredor que dava acesso à minha sala e, de repente, o sujeito me segurou por trás. E, isso mesmo, me masturbou-entre-aspas pela milésima vez! Em volta, formou-se o público de sempre. Ele gritava: “E aí, Pintãããão?!”. Então aconteceu.

— Aconteceu o quê?

— Sem dar por mim, limpei a garganta e dei uma grossa cusparada.

— Nele?

— Não, ele estava atrás de mim, cuspi para frente.

— Não entendi.

— Tudo bem, eu também não entendi de primeira o tal Prompt de Comando — e o doutor sorriu. — Seu Roberto, o senhor sabe o que ocorre ao final da masturbação, não sabe?

O outro arregalou os olhos, compreendendo:
— Ah, entendi! O senhor gozou-entre-aspas?

— Exato. E todos caíram na mais épica das gargalhadas, percebendo que eu finalmente aderira à brincadeira. E o melhor: meu amigo brutamontes, apesar de também ter rido, ficou nitidamente decepcionado, visto que eu superara sua piada. Depois disso, ele repetiu a cena apenas mais uma vez, e eu voltei a cuspir. Ninguém mais se divertiu com a coisa. Era uma bobagem já batida, ultrapassada. E ele finalmente parou com aquilo.

— E todos pararam de chamá-lo de Pintão.

— Não, isso continuou até a faculdade — e o doutor sorriu, divertido. — Mas, na escola, fiquei com fama de ser alguém engraçado e inteligente, coisas que sempre atraem as mulheres. Tudo porque, em vez de me refugiar dentro de mim mesmo, eu agi naquela situação vendo a cena inteira, e não apenas sofrendo o meu próprio papel. Deixei de ser apenas um personagem e compartilhei a autoria da peça.

O rapaz coçou a cabeça, pensativo. Tamborilou os dedos na mesa. Por fim, disse:
— Bom, não sei exatamente como eu poderia aplicar isso ao meu caso…

— Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, com gente tentando negar, não de forma positiva nossa animalidade intrínseca, mas negar a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

— Hum.

— O que me leva à minha segunda história. Ainda quer ouvi-la?

— Sim, por favor.

— Seu Roberto, eu compartilho de certas crenças religiosas bastante, como dizer?… controversas? Sim, bastante controversas. Sou cristão, mas faço parte de uma linha minoritária… Bem, isso não importa. O que realmente interessa é: por que Deus, se é que o senhor crê em Deus — se não crê, pense de forma hipotética —, por que Deus criou as raças de cor na Terra? Ou melhor, por que Ele teria permitido tal coisa? Eu me refiro a todas as raças de cor: branca, amarela, vermelha, negra, etc.

— Não faço a menor idéia.

— O senhor acha que o mundo seria melhor se não houvesse diferenças de raça?

— Ah, doutor, certeza que sim. Se todos se misturassem, se fôssemos todos mestiços, ninguém iria brigar por causa disso.

Doutor Pinto deu uma longa tragada no cigarro eletrônico. Logo emitiu grandes volutas de vapor de propileno glicol. Ambos observaram aquela pseudo-fumaça por alguns momentos. Vendo que o rapaz permanecia atento, disse:
— Seu Roberto, o senso comum é a média da sabedoria de uma sociedade. É o mais confiável dos sentidos, dos sensos. Mas nem sempre está certo. Nem sempre se confunde com o verdadeiro bom senso, embora tenha o costume de confundir-se com ele e, no fundo, nasça dele. Como já disse, é triste que o senso comum e o bom senso estejam sendo solapados pelas ideologias e besteiras culturais da nossa época. Mas, na verdade, o senso comum é uma bagagem levada de geração em geração, a experiência coletiva, uma bagagem de valores e idéias que deram certo, que costumam ainda dar certo e que certamente, em sua maioria, ainda valerão no futuro. Já o bom senso não é uma bagagem: é o farejar do viajante atento.

— Certo.

— É praticamente senso comum o fato de que, se tivesse existido uma única raça na Terra, do início até agora, jamais teríamos as guerras e conflitos raciais que temos hoje. Mas a verdade é o exato oposto disso: se houvesse uma única raça de cor nesse mundo, o ser humano teria entrado em extinção há mais de 900 mil anos.

— Não vejo o porquê.

— A espécie de hominídeos conhecida hoje como Homo habilis não era ainda propriamente humana. Eram conscientes tais como os animais são conscientes, e isto significa: não eram autoconscientes. Sabiam de certas coisas — o que comer, o que não comer, quando fugir, quando lutar, o que era chuva, noite ou sol e assim por diante — mas não sabiam que sabiam. Tinham consciência de vários fenômenos do mundo, mas não tinham, enfim, consciência de si. O fenômeno “eu” lhes era desconhecido. Entende?

— Sim.

— Foi de um casal de hominídios Homo habilis que nasceu o primeiro casal de gêmeos da espécie Homo erectus. Esse casal fugiu da convivência de seus ancestrais animais — eram muito maltratados por eles — e deram origem à primeira espécie verdadeiramente humana: eles sabiam que sabiam, desenvolveram uma linguagem verbal primitiva e, o que é o mais humano, fizeram uso de seu livre-arbítrio, pois um fragmento de Deus passou a habitar suas mentes. Eles tomaram decisões e, graças a eles, estamos aqui agora.

— Você se refere a Adão e Eva.

— Não, Adão e Eva vieram pra cá milhares de anos depois.

O outro fez uma careta:
— Nossa, isso está muito confuso e não sei aonde você quer chegar.

— Calma. Você não precisa acreditar em mim. Entenda tudo isso apenas como hipótese, como mais uma possibilidade. Ora, os cientistas de hoje não sabem exatamente o que se passou. O que interessa para esta nossa discussão é o seguinte: os descendentes desse primeiro casal, quando centenas de anos depois já chegavam aos milhares, iniciaram lutas tremendas e encarniçadas, quase levando à extinção a primeira espécie verdadeiramente autoconsciente. Foram lutas por poder, por comida, por inveja, por território, por egoísmo, por mulheres, todas essas coisas que motivam os mais baixos instintos dos homens.

— Compreensível.

— Nessa época, ninguém mais confiava em ninguém, seus ascendentes mais antigos, que os fizeram parentes no passado, já haviam morrido, sua memória estava perdida, e todos, apesar de serem semelhantes, viam-se como totalmente distintos. Por analogia: numa terra de cegos, se ninguém nela tem um olho sequer, jamais se saberá que são todos cegos! Um ser de outra terra, dotado de olhos, veria a semelhança, mas eles, os cegos, não. Logo, por não haver razões evidentes para o surgimento da confiança mútua, de um arremedo da fraternidade espiritual, as alianças tornaram-se provisórias e volúveis. E tome guerra sobre guerra! Foi então que, por mandato de Deus, surgiram os primeiros humanos das diferentes raças de cor. Por mutação aparentemente espontânea. Essa nova semelhança, pela cor, não bastaria para gente extremamente sofisticada e avançada, como acreditamos ser hoje, chegar à paz. Mas trouxe a paz dentro dos grupos raciais da época. Havia uma confiança natural dentro de cada raça e a antiga desconfiança, que antes era geral e irrestrita, passou a dirigir-se apenas a outras raças. Percebe?

— Não vou negar: o raciocínio é interessante.

— Bom, foi assim que aconteceu. A guerra geral de todos contra todos tornou-se a guerra de uma raça contra outra e, ao mesmo tempo, e como corolário, veio a migração das diferentes raças pelos continentes. Cada um procurando o seu quadrado. No fundo, ninguém queria briga. Era melhor fazer a trouxa e pegar a estrada. Algumas raças quase desapareceram totalmente nesse processo, restando delas apenas algumas características genéticas transmitidas devido ao contato mútuo. Na verdade, não existem mais raças puras. A maneira como chegamos a isso pode parecer uma coisa terrível hoje, mas esse arranjo foi muito melhor do que nossa extinção. Deus escreve certo por linhas tortas.
Roberto estava pensativo. Os olhos perdidos algures. Por fim, descobrindo-se novamente dentro do escritório de um advogado, endireitou-se na cadeira e soltou um…

— Ufa!… Não foi fácil chegar até aqui.

— Não foi mesmo —  concordou doutor Pinto. — O senhor fala muito bem, seu Roberto, quase como um advogado de sucesso — e sorriu. — É formado em alguma coisa? Ou apenas lê a Bíblia. Pessoas que lêem a Bíblia falam muito melhor do que as demais. João Ferreira de Almeida, Deus o tenha, fez um serviço que foi muito além da salvação das almas.

— Sou formado em Administração de sistemas.

— Ah, é verdade. E o senhor tem economias?

— Bom, doutor Pinto, depois de tudo o que o senhor me disse hoje, eu preciso é ir pra casa pensar melhor. Sei que o senhor é ocupado e deve cobrar um valor elevado pelo seu tempo.

O doutor sorriu:
— Não, não, seu Roberto. Não estou de olho na sua carteira. O senhor é um rapaz inteligente e tenho certeza de que tem suas ambições e projetos. Se o senhor gosta tanto do que faz, e se tem algum dinheiro poupado, devia propor sociedade ao seu chefe. Como vai a saúde da empresa?

Roberto estava aturdido, um sorriso cheio de surpresa estampado no rosto:
— Como o senhor sabe que eu tinha essa idéia na cabeça? Minha namorada, que não é negra, e que por odiar o racismo insistiu comigo a vir recorrer ao senhor, vive me dizendo para propor sociedade ao meu patrão. Ela inclusive quer que eu use, além das minhas economias, as dela. Como o senhor sabia disso?

— O senhor lê códigos binários, seu Roberto. Eu leio pessoas. Eu vi sua expressão quando me disse que seu chefe e o dono da empresa também eram negros… O senhor devia fazer como nossos ancestrais Homo erectus e, enquanto não recebe o dom da plena maturidade — me desculpe, mas o senhor é muito jovem, praticamente um menino —, devia unir-se de forma apropriada a quem julga ser da sua turma. Faça como Pelé, seja um sucesso e vire chefe dos seus antagonistas. Não os processe, não os odeie, apenas jogue a piada de volta sobre eles. Não estou lhe dizendo para ser um racista, estou apenas aconselhando-o a ter senso de humor e jogo de cintura. Mas voltando… como vai a empresa? Está bem das pernas?

— Há muita concorrência, doutor.

— Vocês precisam é de uma eficiente estratégia de marketing. No seu lugar eu iria até seu patrão, mostraria o quanto economizou e proporia sociedade.

— E o senhor acha que isso seria jogar a piada de volta sobre meus colegas?

— Não inteiramente. Eu ainda não concluí. É o seguinte: o senhor tem de propor a sociedade e também sugerir um novo nome para a empresa: Prompt de Comando. Prompt quer dizer imediato, rápido, diligente. Um excelente nome. E uma foto do comando da empresa, com sócios negros, seria uma excelente propaganda.

Roberto deu uma súbita e gostosa risada:
— Doutor Pinto Grande, o senhor é foda!

— Eu sei, meu caro, nomen est omen: nome é destino.

E foi assim que surgiu a bem sucedida empresa de gerenciamento de sistemas Prompt de Comando, com filiais em quatro continentes.

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Leia outro conto: Doutor Pinto Grande e o pedinte do metrô.

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