8:26 amVampiros à moda antiga

Iris

Eu, que na infância adorava filmes de vampiro, andava com o estômago revirado com tantas besteiras vampirescas no cinema atual. Aliás, já nem acompanho mais as novidades cinematográficas com aquela sofreguidão juvenil de antes. Vou vendo filmes antigos e novos ao acaso, conforme as oportunidades e minha própria vontade. E, neste século, nada mais decepcionante do que um filme de vampiro. (Dá uma saudade do Christopher Lee daquele tamanho.)

Quem leu o livro Drácula (Bram Stoker) sabe que, nele, o vampiro é uma verdadeira praga, uma metáfora do mal, e que os personagens passam metade do tempo orando, pedindo força, coragem e fé a Deus para enfrentar algo tão terrível. (Na verdade, o filme Drácula de Bram Stoker não é senão Drácula de Francis Ford Coppola, pois, ao contrário de sua adaptação, não há nenhum amor romântico no livro.) Tal como eu disse na PUC TV (programa Da Hora), durante um debate a que fui convidado sobre a moda vampiresca, hoje em dia vampiros estão mais para “diabos levantados” do que para “anjos caídos”. E isso só é possível porque as pessoas perderam a noção do que realmente significa o termo maniqueísmo, pois acreditam que colocar, numa narrativa, o Bem a lutar claramente contra o mal seja um equívoco, isto é, que essa luta seja “maniqueísmo”, quando, na verdade, ser maniqueísta é acreditar justamente no contrário, a saber: que o mal é tão absoluto quanto o Bem, que ambos devem caminhar juntos, como gêmeos fundadores da realidade, e que, por isso, combater o mal não é senão uma perda de tempo. Besteira! Santo Agostinho fala muito bem sobre a burrice que é o maniqueísmo, do qual participou antes de abraçar o cristianismo. É preciso combater o mal, sim, como ocorre no livro Drácula. Afinal, tornar-se vampiro não é aprender a conviver com uma doença. Não! É entregar-se ao mal. Aqueles que se tornam vampiros, e mesmo assim não se entregam ao mal, deixam-se matar.

Enfim, tudo isso para dizer que, ontem, finalmente assisti a um filme de vampiros recente (2007) que me causou calafrios: 30 Days of Night. É a história de um povoado isolado no Alaska subitamente invadido por vampiros. Impressionante! Lembra muito o que Luiz Fernando Vaz comenta num artigo sobre zumbis. Claro, como quase tudo o que é bom no cinema, trata-se de uma adaptação (no caso, de uma HQ). E vale a pena. O filme, caso você o veja sozinho numa casa afastada, faz você dar uma saidinha para checar se as portas estão realmente trancadas. Não há vampiros “gente boa” e nem paixonites inocentes por rapazes que brilham no escuro e cuja maldade não é senão uma inadequação adolescente à realidade. Não. É, finalmente, um filme de vampiros à moda antiga.

P.S.: Eu disse que o filme é recente, mas minha sobrinha, que tem 14 anos de idade, achou-o antigo, pois foi rodado em 2007. Bom, para mim, filme antigo é filme mudo do início do século passado…

Eis o trailer:

8:06 amAgentes literários deviam tornar-se editores

No livro O Zen e a Arte da Escrita, Ray Bradbury comenta quais foram os dois dias mais importantes de toda a sua longa vida: 1) O dia em que conheceu sua esposa; 2) O dia em que conheceu seu agente literário. Interessante, não? Mais interessante ainda é lembrar que, no Brasil, em geral apenas jogadores de futebol e duplas sertanejas possuem agentes, os famigerados “empresários”, o que já dá uma boa noção do nosso nível cultural. (Sim, estou exagerando. Pero no mucho.)

Cá entre nós, a mensagem de Bradbury é clara: para se compreender a falta que um agente literário faz ao escritor basta pensar na falta que uma esposa faz a um homem. (Ou que um marido faz a uma mulher. Ou um companheiro a… enfim, você entendeu. Caso ainda não, assista ao filme Jerry Maguire.) Enquanto o escritor padece de tantas incertezas profissionais, muita gente que até daria um bom agente (de um ou mais autores) prefere trabalhar em outras áreas porque, aqui, além de apenas o serviço público oferecer o paraíso (que se chama estabilidade), supostamente ninguém gosta de ler… (E as livrarias se unem contra os ebooks, contra os ereaders e assim por diante.) Ora, hoje há comércio online, há livrarias que imprimem livros sob demanda, há ebooks, ou seja, há uma série de inovações inexistentes no milênio passado. Logo, o agente pode mudar também. Ele já não precisa ser necessariamente alguém que apenas corre atrás de editoras, de bons contratos e assim por diante. Poderia ser ele próprio um editor — criando ebooks e as matrizes em PDF para a impressão sob demanda —, um marqueteiro, um organizador de palestras e lançamentos, além de outras tarefas do gênero. Bom, é como vejo a situação. Há quem entenda do assunto melhor do que eu.

8:20 am“Elegíada”, conto de Osman Lins

Esta é a verdade: agora eu estou só. Com mais um pouco, chegará a madrugada. As velas ficarão pálidas, os sinos dobrarão em tua homenagem; e, quando o sol vier, não iluminará teus olhos.

Mais algumas horas e nossos conhecidos te levarão para o Campo. Estarão um pouco tristes, mas não podem imaginar que imensa perda eu sofri. Dirão entre si: “Tinha de ser. Um deles havia que ir primeiro…” E acharão que já sou muito idoso, que minha capacidade de sofrer se extinguiu e que não tardarei a seguir-te. Não lhes ocorrerá talvez, que é justamente por ser velho que tua ida é mais triste. Se fora moço, minha saúde afastaria a dor. Mas eu estou velho. E muito só, abandonado – sou uma criança aflita, querida. Meus filhos acham agora que os superiores são eles; que devem governar-me. Fazem recolher-me cedo, não me permitem comer o que desejo e até ralham comigo. É um modo de mostrar que me amam. Mas eu não sinto grande profundidade nesse afeto. Há uma certa rispidez na maneira como eles procuram preservar-me, como se eu fosse meio tonto.

Também os netos, creio, não me querem como eu desejava. Sempre os imaginei como ingênuas crianças, as quais eu levaria pela mão a maravilhosas viagens e para quem inventaria histórias que ouviriam com prazer. Mas quase nunca eu os levo a passeio; e quando o faço, não consigo unir-me a eles, que trocam segredos, conversam em língua codificada, sorriem. (Suponho, mesmo, que muitas vezes troçam de mim.) E se tento contar-lhes uma história, não me levam a sério. Mas me recebem com alegria quando os visito, pedem a bênção ao vovô e levam meu chapéu para guardar. Observo, contudo, que não se sentem à vontade quando me beijam a mão e que o júbilo deles se prende muito mais aos brinquedos que lhes levo. E eu os olho sorrindo, com amargura, e penso nos anos que nos distanciam e no afeto que eles mal supõem existir.

Quanto aos amigos, tu sabes muito bem que não mais os possuo. Uns morreram; outros acharam na velhice um agradável pretexto para se tornarem brigões ou dementes; e o resto me aborrece pela insistência em me fazer acreditar ser bem mais velho que eles.

Só tu me restavas. Junto a ti eu podia ser eu mesmo, sem temor de parecer ridículo. Eras tu quem tinha a chave do meu caráter e do dom de encantar-me. (Mesmo a tua zombaria era uma forma de afeição.) E agora um duro silêncio te envolve e imobiliza. Vejo tuas mãos cruzadas, o lençol que te cobre, tuas feições tranqüilas. Sei que logo mais eles te levarão. Talvez, então, eu te beije a fronte. Não ignoro, porém, que me dói tua frieza de morta e é mais provável que beije teus cabelos. Sim, beijarei teus cabelos — que eu vi, de abundantes e negros, rarearem e encanecerem. Beijarei teus cabelos, querida; eles não mudaram com a morte. Tua fronte ficou mais límpida, o nariz mais fino, as faces se encovaram, a carne está rígida e as pálpebras não as fechaste com a suavidade de sempre. Teu cabelo, porém, continua intato; quando sopra o vento, ainda esvoaça; está vivo, é o mesmo que penteavas pela manhã e soltavas à noite, antes de dormir. E agora se bem não os houvesses despenteado, tu dormes. E eu me senti pesaroso e grave, como tantas vezes me senti junto a nossos filhos, quando eles estavam doentes e o sono lhes chegava pela madrugada, após uma noite inquieta e eu ficava junto a eles, sentado, olhando-os, até que tu vinhas e punhas a mão em meu ombro e fazias com que me fosse deitar. Agora, eu não conhecerei mais a doçura desse gesto. Talvez, daqui há pouco, venha alguém — um filho ou vizinho — que me induza a afastar-me de ti e deitar-me. Mas, quem quer que seja, virá com palavras. Tu, não: vinhas com o teu silêncio, com tua tranqüilidade, e fazias com que eu dormisse. Mas quando despertava, eras tu quem estava ao lado do enfermo. Isto, eles não saberão. É íntimo demais, exige um nível de compreensão mútua demasiado grande para ser revelado. Não lhes contarei.

Também não falarei a ninguém de certas coisas que guardo com imensa ternura e que, se contasse, me julgariam tonto. Não direi da emoção com que te vi, muitas vezes, fazer as mais corriqueiras tarefas. Durante anos, quase todos os dias cuidavas da casa. Eu te viam sem nada de especial. Mas vinha um dia em que eu te descobria a intimidade nesse trabalho. Via o cuidado com que afastavas a poeira, a precisão com que punhas os jarros em seus lugares, com que mudavas as toalhas, os panos; escutava teus passos e me comovia por ver como te entregavas a esses afazeres. E descobria um extremado amor nisso tudo, o que me fazia perceber como eras simples.

Lembro-me mesmo que um dia havias trabalhado muito e te deitaste cedo. Eu fiquei lendo, e, quando o sono veio, fechei as portas. Havia um silêncio tão grande! Os móveis brilhavam, não havia pó no chão; tudo em ordem, limpo, cuidado. Detive-me um instante à sala de jantar, como se pressentisse avizinhar-se um mistério. Contemplei o jarro de flores, na mesa. Tu mesma as havias colhido pela manhã. Senti tua presença diligente na limpeza, nas flores; o carinho que depositavas em tudo. E percebi que havia algo me envolvendo: cingia-me um princípio de angústia. Na cozinha, olhei para o fogo: apagara-se. Durante o dia, estivera ativo, quente. Agora, estava morto. Era cinza. O que aconteceu em seguida, foi tão ridículo e sutil, tão difícil de expressar, que nunca te contei. Eu chorei, querida. Penso que sofri uma decepção obscura e súbita, uma espécie de dor ante a pouca duração da vida, da nossa vida – não sei; é possível também que houvesse sentido, ante a simplicidade com que vivias, algo semelhante à pena que às vezes nos aflige ante um folguedo de criança. Mas é difícil explicar. Talvez o que eu houvesse sentido fosse o presságio disto: de que virias a morrer, que nosso fogo não mais seria aceso pela tuas mãos e que nunca voltarias a colhes flores para o nosso jarro. Seria? Que me dizes?

Oh! Mas eu estou delirando. Fitava-te tão intensamente, com tanta saudade, que já te supunha viva. Se eles soubessem disto, também sorririam de mim. Na minha idade, já não se pode ter pensamentos estranhos nem fazer confissões. Fica-se ridículo, querida. E eu tenho que aproveitar estes últimos momentos em que ainda estamos juntos. É a última oportunidade de falar-te, mesmo sem abrir os lábios, e contar as tolices que não contarei a ninguém. Quero te dizer, por exemplo, uma coisa esquisita, uma coisa que não compreendo: os fatos culminantes de nossas vidas, aqueles que nunca poderíamos chegar a esquecer, perderam hoje esse privilégio. Nosso casamentos não é mais importante que a lembrança conservada, como por milagre, de quando te vi, pouco antes da cerimônia, em teu traje de noiva. Tão bem me lembro como teus olhos brilhavam e como teu riso era alegre! E no momento em que fecharam a porta para teu primeiro parto, que eu não tive coragem de assistir? Antes, isso era um fato importante! Hoje, não: está no mesmo nível de um gesto teu ou de teu sorriso. Hoje ele é tão importante como a tua alegria – esse resto de infância que nunca perdeste – a tua alegrai quando eu te presenteava com uma caixa de bombons ou uma fruta. Às vezes, eu te trazia biscoitos. Tu os guardavas e eu te censurava, porque me parecias avara, pois nem os comia de uma vez, nem os repartias com outrem. Mas eu te censurava sem rancor, porque sabia que a tua avareza era um modo de prolongar, ingenuamente, uma lembrança minha. Também não poderei contar isto a ninguém. Dirão que me preocupo com migalhas ou invento qualidades que não tinhas. E agora, querida, com quem repartirei estas memórias? Tu te vais e o peso do passado é muito grande para que eu o suporte sozinho. As palavras – todos sabem – são mortalmente vazias para exprimir certas coisas. Quando nos sentávamos, sós, a recordar nossa vida, não eram elas que restauravam os fatos: éramos nós.

E agora, que já não existes, com quem poderei falar de coisas triviais e amadas, como teu pesar, por teres quebrado involuntariamente um presente que eu te dera e nossa alegria na primeira viagem de trem? Com quem poderia falar disto? Com quem irei comentar teu hábito de, quando eu me esquecia dos óculos, deixares que eu chegasse à esquina para só então me chamar? E eu vinha, ralhava contigo, perguntava quando deixarias de ser criança. Mais tardem lembrava-me do episódio e me ria, disfarçadamente, com medo que me vissem e dissessem: “Olha o velho rindo sem motivo…”

Mas eu não devia estar me lembrando dessas coisas. Talvez alguém tenha visto meu sorriso e julgará que não sinto a tua falta. “Ele não chorou — pensará. E agora, sorri. Está maluco; ou então nem sentiu.” Decerto, minha dor não é violenta. É cansada. Mas é tão vasta, tão desalentada e profunda… E vou ficar tão sozinho, querida…

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Conto extraído do livro Os Gestos / Osman Lins. — 4ªed. — São Paulo: Moderna, 2003. Págs.92-97.

7:49 amVou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira. (Seqüência extraída do documentário de Joaquim Pedro de Andrade, 1959.)

8:21 amFlannery O’Connor

8:17 amRodrigo Gurgel apresenta seu livro “Muita Retórica – Pouca Literatura”

Palestra de Rodrigo Gurgel, o jurado “C” do Prêmio Jabuti, a respeito de seu livro Muita Retórica – Pouca Literatura. (O áudio está baixo até os primeiros 5 ou 6 minutos. Se não conseguir ouvi-lo desde o início, avance o vídeo até aí.)

9:22 amPerdoando Deus — por Clarice Lispector

“Perdoando Deus”, um conto de Clarice Lispector, do livro Felicidade clandestina, lido por Aracy Balabanian.

7:21 amC. S. Lewis: “É o leitor instruído que pode ser enganado”

C. S. Lewis

A Fada não deu resposta alguma a isto, e a pressão constante do braço dela obrigou Mark, a não ser que estivesse preparado para lutar, a seguir com ela pelo corredor. A intimidade e autoridade do aperto era jocosamente ambíguo e ter-se-ia adaptado quase igualmente bem às relações entre polícia e preso, amante e amante, ama e criança. Mark sentiu que, se encontrassem alguém, pareceria um tolo.

Ela o levou para o seu próprio gabinete que era no segundo andar. A sala exterior estava cheia daquilo que ele já tinha aprendido a chamar Waips, moças da Polícia Institucional Auxiliar Feminina. Os homens desse serviço, embora muito mais numerosos, não se encontravam tantas vezes dentro de casa, mas sempre se viam Waips voando para cá e para lá, sempre que aparecia Miss Hardcastle. Longe de partilhar as características masculinas da sua chefe, eram (como dissera Feverstone uma vez) «femininas ao ponto de imbecilidade», pequenas e delgadas e penugentas e cheias de risos abafados.

Miss Hardcastle comportava-se com elas como se fosse um homem e se dirigia a elas em tons de galanteria meio jovial, meio feroz.

— Cocktails, Dolly — apregoou ela quando entraram na sala exterior. Quando chegaram ao gabinete interior, fez Mark sentar-se, mas ficou ela própria de pé, com as costas para o fogo e as pernas bem separadas. As bebidas foram trazidas e Dolly retirou-se, fechando a porta atrás dela. Mark tinha contado os seus agravos, resmungando, no caminho.
 
— Deixe disso, Studdock — disse Miss Hardcastle. — E faça o que fizer, não vá maçar o DA [Diretor-adjunto]. Já lhe disse que não precisa de se preocupar com toda essa gente pequena do terceiro andar, contanto que o tenha a ele do seu lado. Que presentemente tem. Mas não terá se continuar a ir até ele com queixas.

— Isso seria muito bom conselho, Miss Hardcastle — disse Mark —, se eu já tivesse o compromisso de aqui ficar. Mas não tenho. E por aquilo que já vi não gosto do local. Já quase decidi a ir para casa. Pensei apenas que era bom ter uma conversa com ele primeiro, para pôr tudo claro.

— Pôr as coisas a claro é a única que o DA não pode suportar — replicou Miss Hardcastle. — Não é assim que ele dirige este lugar. E lembre-se, ele sabe o que faz. Funciona, meu filho. Ainda não faz idéia alguma como funciona bem. Quanto a largar isto… você não é supersticioso, pois não? Eu sou, não penso que dê sorte deixar o NICE [Instituto Nacional de Experiências Coordenadas, uma organização de natureza totalitária]. Não precisa maçar a cabeça por causa de todos os Steeles e Cossers. Isso faz parte da sua aprendizagem. Neste momento fazem-no atravessar isso, mas, se agüentar, acaba por ficar por cima deles. Tudo o que tem de fazer é ficar quieto. Nenhum deles vai ficar aqui quando começarmos a andar.

— Foi essa a linha seguida por Cosser e Steele, justamente — disse Mark — , e não me pareceu que me sirva de muito quando chegar a hora.

— Sabe, Studdock — disse Miss Hardcastle —, tenho um fraco por si. E ainda bem que tenho. Porque se não tivesse, sentir-me-ia disposta a ficar ofendida com essa última observação.

— Eu não queria ser ofensivo — disse Mark. — Mas, que diabo, olhe a coisa do meu ponto de vista.

— Não serve, meu filho — disse Miss Hardcastle, sacudindo a cabeça. — Você conhece os fatos apenas o suficiente para que o seu ponto de vista valha seis pence. Ainda não compreendeu aquilo em que se meteu. Está sendo-lhe oferecida a oportunidade de chegar a algo muito maior do que um lugar no Governo. E só há duas alternativas, sabe. Ou se está dentro do NICE ou se está fora dele. E eu sei melhor do que você o que vai ser mais interessante.

— Eu compreendo isso — disse Mark. — Mas qualquer coisa é melhor do que estar nominalmente dentro e não ter nada que fazer. Dê-me um lugar real no Departamento de Sociologia e eu…

— Bolas! O departamento inteiro vai para a sucata. Tem de lá estar, no princípio, para efeitos de propaganda. Mas todos vão ser postos fora.

— Mas que garantia tenho eu de vir a ser um dos sucessores deles?

— Não vai ser. Eles não vão ter sucessores nenhuns. O trabalho real nada tem a ver com todos esses departamentos. O tipo de sociologia em que nós estamos interessados será feito pela minha gente, a polícia.

— Então onde é que eu entro?

— Se confiar em mim — disse a Fada, pousando o copo vazio e puxando um charuto — posso pô-lo em contato com um pedaço do seu trabalho real, aquilo para o que foi realmente trazido para cá, e já.

— Que é isso?

— Alcasan — disse Miss Hardcastle entre dentes. Tinha começado uma das suas intermináveis fumadelas fingidas. Depois, olhando de relance para Mark com um traço de desprezo. — Sabe de quem estou falando, não sabe?

— Quer dizer o radiologista, o homem que foi guilhotinado? — perguntou Mark que estava completamente desnorteado. A Fada acenou afirmativamente.

— Ele é para ser reabilitado — disse ela. — Gradualmente. Tenho todos os fatos no processo. Você começa com um pequeno artigo sossegado, sem pôr em causa a sua culpa, não logo de entrada, mas apenas insinuando que, é claro, ele era um membro do governo Quisling deles e havia um preconceito contra ele. Digamos que não se duvida que o veredito foi justo, mas que é inquietante compreender que ele teria quase com certeza sido o mesmo, ainda que ele estivesse inocente. Então, um dia ou dois depois, segue com um artigo de natureza completamente diferente. Estimativa popular do valor da sua obra. Pode obter os fatos, suficientes para esse tipo de artigo, numa tarde. Depois uma carta, bastante indignada, ao jornal que publicou o primeiro artigo, e indo muito mais longe. A execução foi um erro judiciário. Por essa altura…

— Mas que raio é a finalidade disso tudo?

— Estou lhe dizendo, Studdock. Alcasan é para ser reabilitado. Transformado num mártir. Uma perda irreparável para a raça humana.

— Mas para quê?

— Aí vai você outra vez! Resmunga por não lhe darem nada para fazer, e logo que eu sugiro um pedaço de trabalho autêntico, espera que lhe contem todo o plano de campanha antes de o fazer. Não faz sentido. Não é esse o caminho para se progredir aqui. A grande coisa é fazer o que nos dizem para fazer. Se realmente for mesmo bom, em breve compreenderá o que se passa. Mas tem de começar a fazer o trabalho. Você não parece perceber o que nós somos. Somos um exército.

— De qualquer maneira — disse Mark —, não sou um jornalista. Não vim para cá para escrever artigos de jornal. Tentei tornar isso claro para Feverstone logo de início.

— Quanto mais cedo deixar toda essa conversa sobre o que veio para cá fazer, tanto melhor fará carreira. Estou falando para o seu próprio bem, Studdock. Você é capaz de escrever. Essa é uma das coisas por que o querem aqui.

— Então vim para cá por causa de um mal-entendido — disse Mark. O elogio à sua vaidade literária, naquela altura da sua carreira, de forma alguma compensava a implicação de que a sua sociologia não tinha qualquer importância. — Não tenho intenção alguma de gastar a minha vida escrevendo artigos de jornal — disse ele. — E se tivesse, havia de querer saber um bom bocado mais sobre a política do NICE antes de me meter nisso.

— Não lhe disseram que é estritamente apolítico?

— Disseram-me tantas coisas que eu não sei se estou assentado na cabeça ou nos pés — disse Mark. — Mas não vejo como é que se vai começar uma manobra jornalística (que é mais ou menos aquilo em que a coisa consiste) sem ser de natureza política. São jornais da esquerda ou da direita que vão publicar toda essa porcaria a respeito de Alcasan?

— Ambos, doçura, ambos — disse Miss Hardcastle. — Será que não compreende nada? Pois não é absolutamente essencial manter uma esquerda feroz e uma feroz direita, ambas prontas a arrancar, e com terror uma da outra? É assim que fazemos as coisas. Qualquer oposição ao NICE é representada com uma falcatrua da esquerda nos jornais da direita e uma falcatrua da direita nos jornais da esquerda. Se for convenientemente feito, temos cada um dos lados oferecendo mais do que o outro em nosso apoio, para reputar as calúnias do inimigo. É claro que somos apolíticos. O poder autêntico sempre é.

— Não acredito que se possa fazer isso — disse Mark. — Não com os jornais que são lidos pelas pessoas instruídas.

— Isso mostra que ainda está no jardim de infância, queridinho — disse Miss Hardcastle. — Ainda não percebeu que é exatamente ao contrário.

— Que é que quer dizer?

— Ouça lá, meu tolo, é o leitor instruído que pode ser enganado. Todas as nossas dificuldades vêm dos outros. Quando é que encontrou um trabalhador que acredite nos jornais? Ele tem por garantido que todos eles são propaganda e passa por cima dos artigos de opinião. Ele compra o seu jornal pelos resultados do futebol e pelos pequenos parágrafos sobre moças que caem das janelas e cadáveres encontrados em apartamentos de Mayfair. Ele é nosso problema. Temos de o recondicionar. Mas o público instruído, as pessoas que lêem os semanários intelectuais, não precisam de recondicionamento. Já estão muito bem. Acreditarão em qualquer coisa.

— Como um dos da classe que menciona — disse Mark com um sorriso —, eu apenas não acredito nisso.

— Santo Deus! — disse a fada. — Onde estão os seus olhos? Olhe para aquilo com que os semanários têm conseguido sair-se bem! Olhe para o Weekly Question. Aí está um jornal para si. Quando apareceu o inglês básico, simplesmente como invenção de um professor de Cambridge, livre pensador, nada era muito bom para lhe chamarem; logo que foi adotado por um primeiro-ministro conservador tornou-se uma ameaça à pureza da nossa língua. E não foi a monarquia um absurdo dispendioso durante dez anos? E depois, quando o duque de Windsor abdicou, não se tornou o Question todo monárquico e legitimista durante cerca de uma quinzena? Perderam um único leitor? Não está vendo que o leitor instruído não pode parar de ler os semanários intelectuais, façam eles o que fizerem? Não pode. Foi condicionado.

— Bem — disse Mark —, tudo isso é muito interessante, Miss Hardcastle, mas nada tem a ver comigo. Em primeiro lugar, não quero de forma alguma tornar-me num jornalista, e se o fizesse, gostaria de ser um jornalista honesto.

— Muito bem — disse Miss Hardcastle. — Tudo o que vai fazer é ajudar a arruinar este país e talvez toda a raça humana. Além de destroçar a sua própria carreira.

O tom confidencial no qual ela tinha estado falando até então, desaparecera e havia um ar de ameaçadora finalidade na sua voz. O cidadão e o homem honesto que tinham despertado em Mark com a conversa desanimaram um pouco; o seu outro e bem mais forte «eu», o «eu» que estava ansioso, a todo o custo, por não ser colocado do lado de fora, saltou, totalmente alarmado.

— Eu não quero dizer — disse ele — que não esteja vendo as suas razões. Estava apenas a imaginar…

— Para mim é tudo igual, Studdock — disse Miss Hardcastle, sentando-se finalmente à sua escrivaninha. — Se você não gosta do emprego, isso, é claro, é assunto seu. Vá e arrume o caso com o DA. Ele não gosta que as pessoas se demitam, mas é claro que você pode. Ele vai ter de dizer qualquer coisa a Feverstone por o ter trazido para cá. Nós admitimos que você compreendia.

A menção de Feverstone colocou bruscamente diante de Mark, como realidade, o plano, que até então tinha sido levemente irreal, de regressar a Edgestow e de se contentar com a carreira de um professor de Bracton. Em que termos iria ele regressar? Continuaria a ser membro do círculo interior, mesmo em Bracton? Encontrar-se sem a confiança do Elemento Progressista, ser atirado para o meio dos Telfords e dos Jewels, parecia-lhe insuportável. E o salário de um simples professor parecia coisa pequena depois dos sonhos que vinha sonhando durante os últimos dias. A vida de casado já se estava a tornar mais dispendiosa do que ele tinha pensado. Então apareceu-lhe a dúvida aguda a respeito das duzentas libras para ser sócio do clube do NICE. Mas não, isso era absurdo. Eles não podiam com certeza importuná-lo com isso.

— Bem, evidentemente — disse numa voz vaga —, a primeira coisa é ir ter com o DA.

— Agora que se vai embora — disse a Fada —, há uma coisa que tenho de dizer: pus as cartas todas na mesa. Se alguma vez lhe passar pela cabeça que seria engraçado repetir qualquer coisa desta conversa no mundo exterior, siga o meu conselho e não o faça. Não seria de forma alguma saudável para a sua carreira futura.

— Oh, mas é claro — começou Mark.

— É melhor pôr-se andando agora — disse Miss Hardcastle. — Tenha uma agradável conversa com o DA. Tenha cuidado em não aborrecer o velho. Ele detesta tanto demissões.

Mark fez uma tentativa para prolongar a entrevista mas a Fada não o permitiu e em alguns segundos estava fora da porta.

Extraído do livro Aquela Força Medonha (vol.1), de C. S. Lewis.

9:26 amVinicius de Moraes — A brusca poesia da mulher amada (III)

A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas… Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo… Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1950.

8:12 amEntrevista com Bernardo Carvalho

Entrevista ao jornalista Claudiney Ferreira, no programa Jogo de Ideias, gravado em Dezembro de 2006 no Itaú Cultural.