Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Dr. Pinto Grande: quase lá

Eu já havia reescrito e revisado tantas vezes os contos do meu próximo livro que já estava com raiva deles, algo do tipo “larga d’eu, diacho!”. E por isso, nos últimos meses, passei a dar atenção mormente aos problemas encontrados pelos revisores da Record, os quais, para meu refrigério, me fizeram atentar para as partes em vez do todo. No entanto, quase um mês após tudo parecer concluído, a editora me pediu para averiguar a diagramação do texto final e apontar as derradeiras alterações. E então — com essa “ameaça” damocleana de “última chance” sobre a cabeça — respirei fundo e decidi relê-lo de cabo a rabo: e não é que ri, meditei e me emocionei com meus próprios contos? Espero que os leitores d’A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande sintam, no mínimo, o mesmo que eu senti nesses últimos dias. E olha que eu tinha em mente todos os spoilers possíveis e imagináveis…

A paixão n’A Montanha Mágica

N’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o personagem Wehsal descreve a Hans Castorp sua paixão por Clawdia Chauchat:

“uma coisa dessas não devia existir à face da Terra, contudo não a podemos pura e simplesmente erradicar. Quem sofre desse mal, não o consegue simplesmente erradicar, porque teria de erradicar a própria vida, com a qual ele se fundiu, e isso não é possível. De que nos serviria morrer? Depois — sim, com todo o gosto. Nos braços dela — sim, sem pensar duas vezes. Mas antes seria disparate, porque a vida é desejo e o desejo é vida, uma coisa não se pode voltar contra a outra, nisso é que reside o maldito impasse. (…). Há tantas formas de tortura, Castorp, e quem está sob tortura, só quer sair dela, só quer se libertar dela a todo custo, é esse o seu único objectivo. Mas para nos libertarmos da tortura infligida pelo desejo carnal, só há uma solução e um caminho que é a satisfação desse desejo — não há outra via, não há outra saída! É assim que as coisas se passam. Quem não sofre do mal, não perde tempo com considerações deste género, mas quem foi tocado pela desgraça, compreende as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e os olhos enchem-se de lágrimas. Deus do céu! Que circunstância mais estranha esta de a carne desejar a carne de outrem, só porque não é nossa mas pertence a uma alma diversa! Como é singular este fenómeno e como é, bem vistas as coisas, simples e natural na sua bondade e pudor! É caso para dizermos: se é só isso que a carne deseja, que lho concedam, por amor de Deus! Será que peço algo extraordinário, Castorp? Será que por acaso a quero matar? Fazer derramar o seu sangue? A única coisa que quero é dar-lhe a minha ternura! (…) O desejo carnal dispersa-se em várias direcções, não se liga nem se fixa a nada e é por isso que lhe damos o nome de animalesco. Mas no momento em que se fixa numa pessoa, num rosto humano, começamos a chamar-lhe amor. (…) Pois é aí justamente que reside a desgraça — prosseguia a pobre alma — A desgraça é ela (Clawdia) ser dotada de alma, ser uma criatura humana com corpo e alma! Porque a sua alma não quer saber da minha e, portanto, o seu corpo também não quer saber do meu. Ó tristeza do mundo, ó lástima da vida! Por causa disso o meu desejo está condenado à ignomínia e o meu corpo terá de retorcer-se para todo o sempre! Porque não querem o seu corpo e a sua alma saber de mim, Castorp, porque lhe é o meu desejo tão abominável? Não serei por acaso um homem? Não continua um homem execrável a ser um homem? Pois eu sou homem ao mais alto nível, isso posso assegurar-lhe, e suplantaria qualquer homem se ela me franqueasse o paraíso dos seus braços, esses braços que são tão formosos por fazerem parte do rosto anímico! Oferecer-lhe-ia toda a volúpia do mundo, Castorp, se apenas o corpo estivesse em jogo e não o rosto, se a sua maldita alma não existisse, essa alma que nada quer saber de mim e sem a qual eu também não cobiçaria o seu corpo — é este o terrível impasse e desespero em que vivo e em que me retorcerei para todo o sempre. (…) Um mal que nos transforma os dias em tormento de luxúria e as noites em inferno de ignomínia”.

Terra à vista

No livro Ortodoxia, Chesterton afirma que, incapaz de seguir a religião corrente — no caso inglês, a Igreja Anglicana —, decidiu inventar sua própria heresia. E assim o fez. Por fim, sentiu-se como um náufrago que, chegando a uma ilha supostamente deserta, descobre anos depois que não havia aportado senão às costas de uma ilha tão grande e tão habitada quanto a própria Inglaterra… Isto é: criou sua própria heresia, sentindo-se solitário nela, para finalmente descobrir que sua heresia era apenas a ortodoxia católica: não estava numa ilha deserta.

O curioso é que isso, ao longo da vida, também ocorre com nossos conceitos e com nossa conduta. Frustados com os inúmeros fracassos advindos da observância de algum ditame pequeno-burguês, ou então de algum outro progressista, começamos a buscar valores e significados mais profundos em nós mesmos, no nosso íntimo. Ora, Deus está dentro de cada um de nós! Em algumas pessoas, claro, enterrado beeeeeem lá no fundo, oculto sob uma massa de besteiras ideológicas e de sujeiras convencionais sem fim. E então, ao encontrar tais valores e significados, obviamente graças apenas a Ele, a pessoa acredita ser o único habitante dessa ilha de conduta moral — embora sempre tensa e problemática — de conduta moral quase paradisíaca. Quase paradisíaca ao menos para a própria consciência, o que é mais do que o suficiente, pois os dramas e conflitos desta vida não se extinguem por passe de mágica. (Ora, até Cristo, a consciência pura encarnada, morreu na cruz deste mundo.)

Enfim, o sujeito se acha numa ilha deserta e, de repente, esbarra na própria avó, aquela velha que reza todo santo dia pela família inteira: ela sempre esteve na ilha! Tal como a mãe dela, e a mãe da mãe dela, e o pai da mãe da mãe dela e assim por diante. Salvar-se do naufrágio do mundo é agarrar-se ao eterno madeiro flutuante, que sempre nos espera à margem do espaço, desde antes do início dos tempos — e com ele seguir até o porto seguro da única ilha que realmente importa habitar. Inventar uma ilha, como na origem latina da palavra — “invenção” é descoberta —, é apenas redescobrir o já descoberto. Não há nada de novo sob o sol…

…então NÃO COMPRE meu livro!

Veja o comentário que o leitor Guibson Dantas escreveu na Amazon sobre A Tragicomédia Acadêmica:

“Como acadêmico e ferrenho crítico do ambiente universitário brasileiro atual – repleto de comunistas que nunca leram nada, de liberais que mal sabem quem foi Adam Smith, de religiosos fanáticos e militantes gays fascistas -, resolvi comprar o referido livro na esperança de qualificar minhas críticas ou obter novas informações sobre o tema. Confesso que me decepcionei demais com o livro. Muito bobo, com contos juvenis e sem nexo. Sinceramente? Não gaste tempo com esse livro. A vida é curta.”

Entenderam? Ele comprou um livro de — como diria Harold Bloom — “LITERATURA DE IMAGINAÇÃO” para “qualificar minhas [as dele] críticas ou obter novas informações” sobre a encheção de saco política dos dias atuais. Se alguém tiver o mesmo intuito, então NÃO COMPRE MEU LIVRO! Só um sujeito completamente desprovido de cultura literária, de imaginação e, principalmente, de senso de humor pode pretender buscar essas coisas num livro de ficção, num livro humorístico. Seria como ler As Viagens de Gulliver em busca de novos pontos turísticos! Nunca tive a pretensão de escrever ensaios sobre a vida universitária e, caso a tivesse, teria escrito ensaios (surpresa!), e não esses dezenove contos cujas tramas e personagens me deram um imenso trabalho. (E nem preciso dizer que, na época em que os escrevi — 1996-1997 —, esses conflitos ideológicos não eram tão exacerbados, conspícuos e problemáticos como o são hoje.) Os contos são juvenis? Muito provavelmente, afinal eu os escrevi aos 25 anos de idade com a intenção de apresentar aos demais universitários um livro que eu gostaria de ter encontrado nas livrarias e que NUNCA ENCONTREI. Ora, a maioria dos estudantes é constituída de jovens, não vejo nenhum problema em me dirigir principalmente a eles. (Uma das epígrafes mostra que eu tinha plena consciência disso.)

Fico sempre muito contente e sinceramente agradecido quando alguém — no Facebook, por mensagem direta ou por email — elogia meu livro. E são muitas mensagens! Mas juro que cheguei a um momento da vida em que elogios e críticas são assimilados por minha consciência de uma forma muito semelhante: ou estão colocando meu ego para baixo, ou o estão colocando para cima. Sim, no fundo, é sempre uma questão de ego. E o ego, durante o processo de criação, não manda em nada! Eu sei qual é o valor do meu trabalho, conheço meus méritos e deméritos, minhas qualidades e defeitos, e por isso sou sempre o meu crítico mais ferrenho. Claro, quando as críticas são construtivas, mesmo sendo negativas, sempre as ouço e medito muito sobre seu conteúdo. Ora, não sou onisciente, um feedback justo, originado de uma perspectiva totalmente diferente da minha, é sempre proveitoso. No entanto, a “crítica” do leitor acima é apenas o comentário do “acadêmico” que comprou o livro errado: comprou ficção em vez de um estudo antropológico. Ora, para um suposto pesquisador da academia, a incapacidade de pesquisar a respeito de um livro antes de comprá-lo é algo cômico e, no fundo, apenas ressalta a substância dos contos: a universidade vive uma tragicomédia.

Agora, é bom receber elogios? Claro que é, mas não me permito acreditar plenamente neles, do contrário, poderia achar que já cheguei no ápice, esquecendo pois de me aprimorar. É chato receber críticas destrutivas? É óbvio que sim, mas tampouco me permito acatá-las, do contrário, não conseguirei me permitir a liberdade necessária para criar, pois essa liberdade exige autoconfiança e um enorme foda-se para as opiniões circundantes, sejam elas quais forem. O que me chateia, no caso presente, é que pretendo deixar de morar sob o viaduto — leram o texto anterior? — e os comentários de um leitor desavisado como esse apenas atrapalham a venda do livro. Como disse Monteiro Lobato em sua última entrevista, referindo-se a si mesmo: para um escritor profissional, “seu livro predileto é o que lhe dá mais dinheiro”. Assim, quem quiser realmente me deixar muitíssimo feliz, além de me elogiar diretamente, diga também o que achou do livro nos sites em que o comprou. Beleza? Muchas gracias.

Dois romancistas e um filho – por Carlos Heitor Cony

Conforme comentei com Rodrigo Gurgel e Filipe Trielli, na crônica abaixo Carlos Heitor Cony fala do Diário Secreto de Humberto de Campos, no qual o autor narra um encontro com o médico de José de Alencar: segundo esse médico, um dos filhos desse escritor era, na verdade, filho de Machado de Assis. Eis portanto a suposta origem do romance Dom Casmurro: Machado tentando imaginar-se na pele do colega que ele também traiu… Será verdade?

DOIS ROMANCISTAS E UM FILHO
Carlos Heitor Cony

Não me considero culpado de falta para com a memória dos dois mestres literários

JANEIRO DE 2000 – Caiu do céu um pretexto para desistir da Academia. Em agosto passado, quando morreu o Herberto Sales, fui apanhado de surpresa pelos amigos de lá e não tive como reagir.

Recebi hoje amável cartão do Josué Montello encaminhando cópia da carta que ele escreveu ao presidente da Academia, solicitando que seja recolhido o livro que a diretoria anterior mandou distribuir como relatório das atividades acadêmicas em 1999.

Entre outras considerações sobre a publicação, Josué dá destaque ao recorte de uma revista (“Veja”) que comentou, à maneira dela, as duas crônicas que escrevi logo após o júri promovido pela Folha sobre o suposto adultério de Capitu.
Fiz parte do júri que tinha como mérito mostrar a força de Machado de Assis: cem anos após a publicação de seu romance, ele era discutido num auditório lotado, em sessão presidida por um ministro do Supremo Tribunal Federal (Sepúlveda Pertence), com advogados e testemunhas de defesa (Rosiska) e acusação (eu próprio).

Logo após o júri, publiquei duas crônicas sobre o assunto, tendo como base o relato de Humberto de Campos sobre uma visita que ele fizera a seu médico, Afonso Mac Dowell, o qual lhe revelara que Mário de Alencar, filho de José de Alencar, era na verdade filho de Machado de Assis. Donde a conclusão, não minha, mas de Humberto de Campos: o filho de Capitu era a transposição para o romance de um fato real vivido por Machado de Assis.

O “Diário Secreto” foi publicado anos após a sua morte, primeiramente em “O Cruzeiro”. Com tiragem de 700 mil exemplares, era a principal vitrine da vida brasileira. Posteriormente, o mesmo diário foi publicado em livro (possuo a segunda edição, o que mostra que não se trata de obra clandestina).

A revista que comentou minhas duas crônicas considerou-as como “mexerico” (palavra defasada, só possível num texto mal escrito). E transcreveu o trecho do Humberto de Campos, transferindo desta maneira o mexerico para o cronista maranhense. Limitei-me a citá-lo.

Josué foi mencionado na matéria, é atualmente o maior conhecedor da vida de Machado de Assis. Também foi citado o Antônio Olinto, que lembrou o fato de Mário de Alencar tratar Machado como pai em suas cartas -o que nada significa, além da expressão de um carinho especial. Mário ficou devendo sua entrada para a Academia a Machado. Fato que Magalhães Jr., citado também por mim, atribuía ao “nepotismo” do primeiro presidente da ABL.

Como se nota, uma polêmica bizantina, com um toque de mau gosto, só justificada pela realização do júri e pelo interesse que o caso Capitu ainda desperta na literatura nacional.
A diretoria da Academia, no exercício de 1999, ao publicar em livro a repercussão de suas atividades na mídia, incluiu a matéria da revista -e o Josué, zeloso guardião da honra dos grandes ícones das nossas letras, principalmente de Machado e Alencar, considerou um “achincalhe à honra e à dignidade de um dos nossos confrades”.

E falando de Alencar, diz que o romancista “compartiu a sua vida digna com uma alta dama da sociedade fluminense, a Exma. Senhora D. Georgiana Cockrane de Alencar, com quem teve seis filhos” – cito textualmente a carta de Montello.
Este é o fato que me dá pretexto para tirar meu time de campo. No mérito da questão, eu me limitara a lembrar o trecho do “Diário Secreto” de Humberto de Campos. Se houve achincalhe, como diz o Josué, não foi de minha parte.

Não tenho culpa de a revista ter aproveitado o episódio, de interesse restrito à vida literária, para tentar fazer um escândalo às custas de Alencar e Machado. Não me considero culpado de qualquer falta para com a memória dos dois mestres. São personalidades públicas, pertencem à nossa história, como Victor Hugo e Sainte-Beuve pertencem à história da França.

Desditas conjugais são comuns, dentro e fora da literatura, bastando lembrar Júlio César, Napoleão, Luiz 16, d. João 6º. A lista é enorme e realmente universal, parece que começou com Abraão, que apresentava sua mulher, Sara, como sua irmã aos reis do deserto -o que transformou o Pai dos Crentes num verdadeiro patriarca.

Fonte: Folha de São Paulo.

Pesadelos

Creio que foi no livro O Despertar dos Mágicos que li esta história bizarra: na Alemanha nazista, um sujeito foi se deitar, pegou no sono e, quando finalmente começou a sonhar, dois estranhos, vestidos com sobretudos de couro negro reluzente, colocaram-se diante dele e se identificaram como agentes da Gestapo.

— É proibido sonhar! — alertou um deles, em tom sombrio.

O cara ficou tão assustado que despertou imediatamente, voltando à realidade do pesadelo nazista.

Algo me diz que esses vampiros de capa preta do STF andam assombrando o sonho de muita gente:

— É proibido sonhar com um país honesto!

Livro é instrumento

Já comentei isso antes, mas direi novamente: para o escritor, todo livro é um instrumento, não é um ídolo a ser disposto e venerado num altar. Não é uma jóia rara a ser tratada com mais carinho que um bebê recém nascido. Parece estranho? Calma, vou me explicar.

No primeiro mês que morei com Hilda Hilst, ela me passou um livro do Thomas Merton — um no qual, entre outros artigos, ele analisava o romance “O Doutor Jivago”, de Boris Pasternak — e me pediu que o lesse. Dias depois, quando o devolvi, ela o folheou e me deu uma bronca.

— Mas você não leu nada!

Fiquei espantado: — Ué, claro que li!! — E então lhe mostrei minhas anotações, com diversos trechos copiados, os quais ainda guardo comigo. Ela não ficou satisfeita:

— Mas se você não sublinhar e rabiscar o livro, como vou saber quais trechos lhe chamaram a atenção? Vou ter de pegar seu caderninho? Tem de rabiscar!

Fiquei mais espantado ainda: — Mas o livro é seu, Hilda!

— E daí? Não vou levá-los para o túmulo comigo. Aliás, até nos seus livros você marca tudo com uma timidez esquisita. Tá com medo do livro? O livro é seu, não é de nenhuma biblioteca.

E, para me mostrar o quanto ela estava se lixando para os pudores de outros leitores, devolveu meu exemplar d’O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, que ela não apenas havia sublinhado de cabo a rabo, mas até mesmo enchido de anotações nas bordas.

— Olha só — disse —, agora você pode folhear seu livro, voltar aqui e discutir comigo os trechos que marquei que também lhe interessam. E você deve marcar para si mesmo todos os livros que lê. Seu livro é uma ferramenta para você consultar sempre que precisar. Ou você tem memória de elefante para tudo o que lê? Eu não tenho.

— Tá certo.

— Só uma coisa… — tornou ela, em voz baixa, como quem pretende contar um segredo. — Sublinhe, rabisque, inclusive os meus. Mas, se algum dia emprestar seus livros para um idiota, para um atoleimado, não lhe diga nada disso. Diga que seus livros são sagrados e que só você pode rabiscá-los.

Eu ri: — Entendi.

Vivendo, lendo, sublinhando, relendo e aprendendo.

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