Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Lei da Atração

Por estar escrevendo, a pedido da minha sobrinha, um livro para crianças, venho chafurdando em lembranças da minha própria infância: como diz a santa do filme A Grande Beleza, “as raízes são importantes”. O curioso, só agora me dou conta, é que, nas últimas semanas, voltei a ouvir obsessivamente Pink Floyd e Supertramp, as primeiras bandas de rock que atraíram minha atenção nesta vida. (Eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade quando a professora de inglês, na escola, nos ensinou a cantar It’s Raining Again e Wish You Were Here.) Enfim, tudo isso para dizer que um dos músicos de apoio dessas duas bandas, sem mais nem menos, começou a me seguir ontem no Twitter. (Perceba na imagem: ele me seguiu primeiro.) Isso tem a ver com o que as comadres costumam chamar de Lei da Atração?

O Feitiço de Áquila na Casa do Sol

Por volta das oito da manhã, entrei no escritório da Hilda Hilst, a qual, como sempre, já estava debruçada sobre uma pilha de livros abertos — era sua maneira de ler: sempre que se cansava de um livro, puxava um outro para o topo e retomava a leitura no ponto marcado. Quando me viu, colocou um cristal de rocha do tamanho de um punho sobre a página aberta e me encarou:

— Bom dia, querido.

— Bom dia, Hilda.

— Você viu se o Bruno já acordou?

Ela se referia ao poeta Bruno Tolentino, seu mais novo hóspede.

— Encontrei com ele às sete e meia lá na cozinha. Ele não veio aqui?

— Não sei. Vim pra cá às seis e meia, mas tive de voltar pro banheiro. Comi alguma coisa ontem que me fez mal.

— Na verdade, acho que o problema é que você ‘finalmente’ comeu alguma coisa, né. Você quase não se alimentado e, quando come, parece se esquecer de que algo tem de sair.

— Pode ser — respondeu, sorrindo e abanando-se com o leque. — Mas cadê o Bruno? Não tomou o café ainda?

— Ele foi dormir, Hilda. Passou a noite inteira escrevendo.

— Credo! Faz mais de uma semana que ele está aqui e ainda não conseguimos conversar direito. Ele dorme o tempo todo!

— Ele tem dormido muito mesmo. O Antônio disse que ele anda cansado. Mas, muitas vezes, a gente acha que ele está dormindo quando, na verdade, está é finalizando O Mundo Como Idéia.

— Bom, qualquer dia ele vai entrar em sincronia com a Casa. Todo mundo entra.

E então conversamos sobre assuntos variados: o rosto de Camões que lhe apareceu na parede do banheiro, sugerindo-lhe o início de um poema — “Que este amor não me cegue nem me siga…” —, as cartas obscenas de James Joyce à sua esposa Nora, nossos sonhos e assim por diante. Depois nos entregamos a nossas respectivas leituras e, lá pelas onze e meia, Hilda me pediu para lhe servir sua primeira taça diária de vinho do Porto. Uma hora mais tarde, “más feliz que una lombriz”, Hilda se levantou de súbito:

— Vou deitar um pouco, Yuri.

— Peço pra Juliana preparar seu almoço às duas?

— Ah, não sei. Esse negócio de comer pra depois ter de ir ao banheiro é muito trabalhoso — e riu.

— Poxa, Hilda. Espere chegar em Marduk antes de parar de comer. Senão o Zé vai encher o nosso saco e, claro, você não vai conseguir parar de pé.

Ela me respondeu com um gesto de enfado e, de braço comigo, caminhou até a porta do quarto, onde se fechou.

Pouco antes das duas, enquanto eu e Antônio, secretário do Bruno, almoçávamos, Bruno apareceu na cozinha:

— A Hilda já almoçou?

— Ainda não. Foi se deitar e ainda não levantou.

— Toda vez que vou ao escritório, ela está dormindo. Ela só está acordada na hora da novela? Não dá pra conversar na hora da novela.

Eu ri: — Ela também acha que você dorme o tempo inteiro. Ela acorda bem cedo. O esquema aqui é de mosteiro.

— Só que tem mais vinho que hóstia neste mosteiro… — tornou ele, sorrindo ironicamente.

— Bom, depois que ela ficou sabendo que deve mais de quinhentos mil reais de IPTU, resolveu investir em mais garrafas de vinho. Não a culpo: está numa enrascada e, mesmo se conseguisse uma boa editora, jamais teria dinheiro suficiente.

— Quinhentos mil… — balbuciou ele. — Este país é um absurdo.

— Pois é.

— Melhor eu me adequar à regra local, né — disse, após um minuto. — Já combinamos que irei revisar o teatro dela. Quero fazer isso em voz alta, diante dela.

De fato, semanas mais tarde, foi assim que Bruno revisou o Teatro Completo da Hilda: uma leitura em voz alta, na presença de Hilda, de Zé Mora Fuentes e de mim mesmo. Mas, voltando ao dia em questão, enquanto ele enchia a xícara de café, comentei:

— Vocês estão parecendo os personagens do filme O Feitiço de Áquila: quando um está consciente, o outro não está.

— Ladyhawke?

— Acho que é.

— Bom, a Hilda gosta mais de cachorros do que eu. Ela podia ser o lobo e eu, a águia. O signo de escorpião também já foi representado pela águia.

Antônio finalmente se manifestou: — Quem mais está lucrando com isso é o Yuri.

— Eu? Por quê?

— Uê, você tem dois professores particulares e um não atrapalha a aula do outro.

— Isso é verdade — tornei. — Pena que nenhum dos dois tenha gostado das minhas poesias.

— O que você faz na prosa é que é ‘poiesis’ — disse Bruno, muito sério. — Já os poemas que me mostrou são apenas letras de música, não possuem musicalidade em si mesmos.

— A Hilda me disse a mesma coisa.

— Claro, para ser um poeta, você tem de ler mais poesia. E, se quiser, vai chegar lá — acrescentou.

— Aí é que está: não me vejo como poeta. Ao menos não na expressão. Quero continuar com os contos e, assim que puder, partir para os romances.

— Potencial e talento você tem. Só tem de tomar cuidado para não se perder. Não vá, por exemplo, fazer como a Hilda e ficar correndo atrás do James Joyce.

Eu ri: — Não pretendo.

— Ótimo. Ulisses é um embuste. A poesia e o teatro da Hilda são maravilhosos, mas, com uma exceção ou outra, no geral, Joyce atrapalhou a prosa dela.

— Acha isso mesmo?

— Não me entenda mal: ela escreve muitíssimo bem, mesmo em prosa. Mas, ao contrário da poesia, em que ela é genial, na prosa ela não sai da sombra do irlandês maluco. No teatro, a gente nota a influência de Beckett, mas ela não se intimida e está toda lá. Nos contos, pelo menos nos que eu li, a gente sente que foi tudo escrito por um Kafka que leu James Joyce. Onde ela está?… — e fez uma pausa, pensativo. — Bom, pelo menos nas crônicas ela é engraçada, está presente.

Antônio riu: — Com mais essa aula e as da Hilda, você já deve uns quinhentos mil pra cada professor, Yuri. A Hilda vai poder pagar a dívida dela.

— Quinhentos mil?! — tornou Bruno, arqueando as sobrancelhas. — As aulas que esse menino está recebendo não têm preço!

Depois do almoço, Bruno se retirou para seu quarto, retomando a escrita d’O Mundo Como Idéia. Hilda só foi aparecer lá pelas três:

— O Bruno já almoçou?

— Já.

— Cadê ele?

— Voltou pro quarto.

— Foi dormir de novo?!

— Não, tá escrevendo.

Ela sorriu, um tanto contrariada: — Nossa, como esses escritores são anti-sociais! Ficam se isolando, não param de escrever.

— Tipo aquela poeta doida que se refugiou num sítio perto de Campinas, né. Aquela que mandava o marido ir comer a empregada para ela poder escrever.

Hilda, que já acendia o cigarro, deu uma risada solta: — Mas ela agora é só uma velha louca cheia de cachorros. E não escreve mais!

Voltamos às nossas leituras.

— Você já leu os livros do Bruno, Hilda? — perguntei, minutos depois.

— Li o que ele me deu: As Horas de Catarina. E também esse outro que me emprestou: Os Sapos de Ontem.

— O que achou?

— Ele é um poeta de verdade. É difícil encontrar um. Mas Os Sapos de Ontem é chatérrimo! Eu também não gosto das besteiras dos concretistas, mas o Bruno é muito enrolado para escrever em prosa, fica tergiversando e tem um estilo muito afetado, bossa… — e então se refreou, tentando lembrar de alguma coisa.

— Bossa o quê, Hilda?

— Como se chamava aquele crítico que aparece no filme que vimos outro dia?

— No filme Carrington?

— Isso.

Eu sabia a quem ela se referia — Lytton Strachey — mas tampouco me lembrei do nome naquele momento.

— Ah, não importa. São semelhantes: ferinos, mas empolados.

— Bom, mas parece que ambos, ao criticar outros escritores, se referem justamente à afetação vazia destes.

— Pode ser. Mas ele é melhor na poesia do que nos ensaios.

Lição daquele dia: acredite mais nos seus olhos e na sua consciência do que naquilo que um escritor fala do outro, afinal, é possível que ambos estejam… certos! Sim, certos. Porque, se “o estilo é o próprio homem”, e se há personalidades com as quais nos damos melhor do que com outras, muitas vezes nos damos igualmente bem com escritores entre os quais, lá entre eles, não há plena afinidade.

Hilda Hilst: “Que besteira, meu Deus!”

Em 1998, pouco antes de me mudar para a Casa do Sol, a revista Bundas — lançada pelo Ziraldo no ano seguinte em oposição paródica à revista Caras — enviou um jornalista para entrevistar Hilda Hilst. Nessa entrevista, como é de praxe entre a nossa intelligentsia, foi-lhe perguntado algo sobre sexo e ela respondeu que já não atribuía tanta importância ao tema, tendo inclusive abraçado a castidade desde que completara 50 anos. Não me recordo do conteúdo exato da matéria publicada, mas me lembro bem do exemplo dado por ela para ilustrar esse desinteresse recente: certa feita, um amigo-secretário lhe pediu para usar seu banheiro privado, uma vez que o chuveiro do banheiro de hóspedes estava queimado. Minutos depois, enquanto ela se dirigia para o quarto, esse amigo surgiu à sua frente, no corredor, completamente nu, distraído, enxugando os cabelos com a toalha. Ela então olhou para o pau dele e… caiu na gargalhada. Ele, que não a havia visto, ficou deveras encabulado com aquela reação:

— O que é que foi, Hilda?

Ela apontou para o pau dele e, ainda às gargalhadas, quase sem fôlego, comentou:

— Mas é por isso?! É por causa dessa coisa que tanta gente chora pelos cantos, que tanta gente se mata? Que besteira, meu Deus!

Eu sei que amigo era esse, mas, infelizmente, a matéria foi publicada apenas em 1999, quando ele já havia se mudado da casa, e, claro, a coisa toda sobrou para mim, o novo “amigo secretário”. Durante pelo menos dois anos tive de ouvir:

— Yuri, o que a Hilda viu de tão engraçado e ridículo no seu pau?

— Não era o meu, cacete!!

— Yuri, é verdade que seu pau fez a Hilda desistir para sempre do sexo?

— Não era o meu, porra!

O lema da revista Bundas era: “Quem coloca a bunda em Caras não coloca a cara na Bundas”. Mas, caramba, precisavam colocar um pau? (Não era o meu, caralho.)

A minoria das minorias

Neguinho vem me falar de minorias e de preconceito… Meu, você já tentou ser um escritor no Brasil? É como ser um travesti extraterrestre. Aliás, você leu quantos livros este ano?

* * *

Se você pretende ser um escritor profissional num país de analfabetos funcionais, saiba que a mãe da sua futura namorada preferirá ser apresentada a um pretendente que seja simultaneamente judeu muçulmano negro xavante travesti esquerdista. (Ora, ao menos um tal pretendente deve ter usufruído de várias cotas e agora tem um emprego público estável.)

* * *

Em 1997, após concluir os contos d’A Tragicomédia Acadêmica, deixei Brasília e voltei a São Paulo onde me tornei sócio de um estúdio fotográfico. Mas um dos meus sócios só me apresentava às pessoas assim: “Este é o Yuri, meu amigo escritor”. Eu ficava roxo de vergonha como se ele tivesse dito: “Este é o Yuri, meu amigo que é simultaneamente chinês bosquímano xavante muçulmano judeu comunista direitista e travesti”. Ora, vocês precisam ver a cara de incredulidade de quem olha para um suposto escritor de vinte e poucos anos. Dava vontade de me jogar debaixo da mesa. Acho que a única pessoa que aceitou esse meu rótulo de primeira foi a Duda, personagem do meu relato A Bacante da Boca do Lixo. A vida dela era tão maluca que certamente teria acreditado se eu me confessasse um extraterrestre. Bom, ao menos ela lia. Aliás, só quem lê muito, só quem possui uma imaginação ampla, acredita na possibilidade de se deparar com uma coisa tão bizarra quanto um escritor. É por isso que Hilda Hilst, Bruno Tolentino e Olavo de Carvalho, ao me conhecerem, não me presentearam com nenhum sorriso escarninho. (Sem falar, é claro, que os três já haviam passado pela mesma situação.) Enfim, foi por essas e outras que limitaram-se a me dizer: “Vou ler seu livro”.

Fonte: meu Facebook.

Cu infantil

Já que Olavo de Carvalho andou criticando no Facebook o “ódio ao cu” — ódio tão comum entre aqueles que rejeitam sua própria natureza mortal — vou contar uma história anal da Hilda Hilst. (E é mesmo sobre o cu dela.)

Hilda me contou que, quando tinha uns 24 ou 25 anos, tentou fazer sexo anal com Cassito (Cássio Rodrigues), o mesmo namorado com quem viajara pela primeira vez à Europa. Acontece que a coisa não saiu conforme o esperado e ela se machucou. Confessou então o caso à sua perplexa mãe, Bedecilda, que propôs levá-la ao médico para um exame. Hilda não queria ir, estava morrendo de vergonha de admitir o incidente diante de terceiros — afinal, eram os anos 1950 e coisa e tal —, mas, sob a pressão da mãe, e das dores, foi. Uma vez no consultório, extremamente tensa, aguardou que o médico terminasse as perguntas de praxe — deve haver uma praxe para assuntos relativos ao cu —, para depois orientá-la quanto aos procedimentos. Sua mãe, claro, a acompanhava: uma moça não se submeteria a uma situação dessas sozinha. O médico, pois, um senhor já de idade, muito sério, pediu-lhe que se despisse atrás de um biombo e que depois subisse na maca. Ela o obedeceu e, em seguida, se deitou de bruços. O médico então lhe disse para ficar de quatro e ela, olhando de soslaio para a mãe, novamente se submeteu ao arranjo, mas agora com a vergonha a deixar-lhe o rosto mais roxo do que o roxo do… você sabe. Por fim, o médico a penetrou com o dedo e começou a verificar onde ela estava ferida. Nesse momento, de tão nervosa, ela deu uma primeira risada.

— Hildinha! O que é isso?! — censurou-a a pasmada mãe.

Com a bronca, o riso tornou-se descontrolado e se converteu numa gargalhada interminável.

— Pára, Hildinha! Pára!

Quanto mais a mãe a repreendia, mais nervosa ela ficava e mais risadas dava. O médico, mortalmente constrangido, resolveu encerrar o exame, mas encontrou um problema: conforme ria, Hilda lhe prendia o dedo com seu esfíncter!

— Hilda — começou, em tom grave e oficial —, se você não parar de rir, não vou conseguir tirar o dedo!

A gargalhada, que ela mal começara a controlar, voltou a libertar-se, e intensificou-se a ponto de a fazer perder o fôlego. E sentiu o médico colocar a outra mão em sua nádega para forçar a saída do dedo.

— Hildinha, minha filha! Quer me matar de vergonha?!

E, como quem abre um champanhe, o médico retirou o dedo com um leve estampido.

— E depois, Hilda? O que aconteceu? — perguntei-lhe, entre risadas, quando me narrou o caso.

— Ah, depois eu me vesti e ficamos os três ali, olhando para o chão, um mais sem graça que o outro, sem ninguém se referir ao fato. E, no final, enquanto me prescrevia uma pomada, o médico me disse: “Nunca mais faça sexo anal, Hilda. Você tem o cu infantil. Não convém”.

E essa é a história do cu infantil da Hilda Hilst. :^)

P.S.: Eu já não havia contado essa história?

Hilda e Cassito, em 1955. Esse é o cara que, muito chateado por Hilda ter rompido o namoro com ele, metralhou a portaria do prédio onde ela morava…

Bebê bêbado

Um detalhe curioso do romance David Copperfield, de Charles Dickens, de que nunca me esqueço: nas estalagens, sempre que aguardava pela troca dos cavalos de sua diligência, o protagonista almoçava bebendo uma enorme pinta de cerveja. Atenção: nas ocasiões narradas, ele só tinha uns 11 anos de idade…

Disseram-me que isso era comum naquela época, pois, graças a epidemias de cólera, tifo e que tais, as pessoas tinham receio de beber água contaminada. (E hoje, pobres crianças, já não podem curtir sequer um Biotônico Fontoura…)

Diálogo cavernícola inesquecível

Enquanto seguíamos o Sumô, nosso gordo guia japonês — um estudante de geologia da USP —, eu e Daniel Christino, hoje professor na UFG, nos vimos numa tremenda enrascada dentro de uma das cavernas do PETAR, no Vale do Ribeira. Não me lembro se foi na Morro Preto ou se na Água Suja. (Na caverna Santana, foi tudo tranqüilo.) Lá pelas tantas, contornávamos uma imensa parede de rocha tendo um abismo à nossa frente, cujo fundo, se é que existia, desaparecia na escuridão. Íamos por uma trilha muito estreita, rente à parede, dessas que só costumamos ver em filmes do Indiana Jones ou do Senhor dos Anéis. Conforme seguíamos, a parede se inclinava sobre nós e, por isso, tínhamos de ir caminhando cada vez mais encolhidos, até que, por fim, já estávamos agachados e nos movendo de lado, de costas para a parede. A certa altura, para meu espanto, ao olhar para a esquerda, não vi mais o Sumô.

— Cadê você, Sumô?!

— Tô aqui — respondeu, sabe-se lá de onde. — Agora coloca a bunda no chão e vem se arrastando de lado. Tem um patamar aqui. E não olhe para baixo!

“Colocar a bunda no chão?”, pensei. “Isso vai contra tudo o que aprendi sobre escaladas: ‘Nunca coloque a bunda no chão! No ponga las nalgas en el suelo! Se necessário, ande como um caranguejo, etc.'”. Fiquei ali tentando decidir se ia ou não ia, já em posição de caranguejo, claro, quando então meus pés escorregaram e eu me vi realmente de bunda no chão, as pernas balançando sobre o abismo, as mãos salvadoras agarradas a umas saliências de rocha, como se eu estivesse a praticar o exercício de “tríceps na cadeira”. Tenso, de olhos arregalados, a um minuto de distância de entrar em pânico, de repente ouço o Daniel me chamar à minha direita com a maior fleuma deste mundo, como se fosse um lorde inglês:

— Yuri, será que você poderia fazer o favor de salvar a minha vida?

— Quê?! — soltei e, ao olhar na direção dele, o foco da minha carbureteira o iluminou: o cara estava na mesmíssima situação que eu.

— Daniel — comecei, a meio caminho entre o pânico e uma insuportável vontade de rir — salvo, sim, claro. Mas peraí: primeiro preciso salvar a minha própria vida!

Quando nos lembramos dessa história, damos muitas risadas, mas até hoje não consigo me lembrar como saímos da enrascada.

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