11:17 pmTrânsito ideológico e um mantra canino

Esta noite sonhei que participava de uma reunião de amigos, numa casa desconhecida, e entre esses amigos estava a Carol Martins, que não vejo há muito tempo. Lá pelas tantas, ela se levantou do sofá, olhou em torno e se despediu dizendo: “Gente, preciso ir agora porque logo mais o trânsito estará muito ideológico”.

— Como assim ideológico, Carol? — perguntei, já achando aquele comentário genial.

— Ah, congestionamento, estresse, buzinas, xingamentos, barbeiros…

— E você faz parte dos motoristas conservadores ou dos progressistas?

— Não faço idéia — respondeu sorrindo.

— Você é do tipo que buzina para quem está na frente ou do tipo que ouve a buzina atrás?

— Ah, eu buzino. Então devo ser progressista, né, porque quero progredir pelas ruas e não me deixam!

— Ou então participa de buzinaços…— repliquei.

Só me lembro até aí. A partir de agora, chamarei o trânsito caótico de trânsito ideológico.

A Carol é a amiga a quem, na Casa do Sol, ensinei o mantra “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá”. Lembro que Hilda Hilst a achou “chiquérrima, elegantíssima”. Ela ocupou o quarto de hóspedes cuja parede dos fundos dava para o primeiro canil.

— Carol, se os cachorros perceberem sua presença e começarem a latir à noite, repita esse mantra e eles ficarão sossegados — aconselhei.

Ela riu, mas insisti que era sério, que usasse o mantra.

Na manhã seguinte, ela estava impressionada:

— Yuri! Deu certo! Eles latiram de madrugada, eu comecei com o “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá” e eles pararam. Onde você aprendeu isso? É algum tipo de mantra especial para cães?

— Não, Carol. É que no primeiro canil só há duas cadelas: a Lili e a Lalá.

Saudades das conversas engraçadas, Carol.

10:27 amHomem também tem pêlo

Bete Coelho e Daniela Thomas

Em Junho de 1999, quando eu já morava na Casa do Sol havia quase nove meses, a atriz e diretora Bete Coelho e a figurinista e cenógrafa Daniela Thomas foram visitar Hilda Hilst. Ambas participavam do projeto de adaptação para teatro do livro O Caderno Rosa de Lori Lamby, cuja protagonista seria vivida por Iara Jamra. A peça, à qual assisti semanas mais tarde no Teatro N.Ex.T, no centro de São Paulo, ficou excelente, unindo na proporção ideal o humor e o horror deste que é o primeiro volume da Trilogia Erótica hilstiana. O sucesso ulterior da montagem, contudo, não impediu Hilda de indagar pela milésima vez:

— Por que ninguém se interessa em montar minhas peças? Por que só querem adaptar meus livros?

— Ai, Hilda! — suspirava ao telefone o amigo Mora Fuentes. — Quando você disser isso às moças, porque eu sei que você vai dizer, sua teimosa, não faça a reclamona, né. Você não está contente com o interesse delas pela Lori Lamby?

— Claro que sim, Zé. Elas são ótimas. Mas não é isso…

— Hilda — eu então dizia — quando suas peças forem publicadas, os diretores vão começar a montá-las. Muita gente nem sabe que você também é dramaturga.

— Faz trinta anos que as escrevi! Trinta anos!! — repetia, arregalando os olhos.

E foi mais ou menos nesse clima que, num dia frio e ensolarado, recebemos as visitas. Em ocasiões assim, Hilda fazia questão da minha presença, entre outras coisas, para ser sua memória recente auxiliar.

— Yuri, quem é mesmo o autor dessa biografia do James Joyce que estou lendo?

— Richard Ellmann, Hilda.

— É verdade. Só me vinha à cabeça Richard Francis Burton. Mas é óbvio que se tratava de outro Richard.

Ela vivia citando autores e livros e, como eu vinha organizando sua biblioteca, cabia a mim correr atrás dos mesmos, pois ela sempre queria ler um trecho ou outro para seu interlocutor. Vale lembrar também que, como toda figura pública, Hilda Hilst se transformava nesses contatos com leitores e fãs. No dia a dia, eu até me esquecia de que ela estava prestes a completar setenta anos de idade: conversávamos como se ambos tivéssemos dezesseis. Claro, não foi assim desde nosso primeiro contato. Nossa amizade foi evoluindo. Mas essa diferença entre o antes e o depois saltava aos meus olhos quando, em minha presença, outras pessoas a encontravam pela primeira vez: de repente, minha “amiga adolescente que se interessava pelas mesmas coisas que eu”, e que só vestia a carapuça de mestra quando eu dizia uma grande besteira, se transformava em quem realmente era: um colosso literário. Ninguém que a tenha conhecido em sua casa jamais esquecerá de sua presença marcante, de sua sinceridade sem papas na língua e de sua modéstia aristocrática. Quando as visitas iam embora, ela me perguntava:

— Como me saí? — e então sorria. Tinha plena consciência do teatro do mundo e de seu papel nele.

Recebemos o anúncio da portaria do condomínio e nos preparamos para recepcionar Bete Coelho e Daniela Thomas. Hilda decidiu recebê-las à mesa de jantar, diante da lareira, já que o escritório estava inusualmente frio. Chico, o caseiro, abriu o portão e o carro veio estacionar diante do alpendre. Os cães, obviamente, fizeram o escarcéu de sempre, rodeando o carro e aguardando as visitantes com todos os volumes e tons de latido. Eram cerca de quinze cães.

— Olá, tudo bem? — eu disse, recebendo Daniela à porta e lhe estendendo a mão.

— Oi — respondeu, ligeiramente ansiosa, aceitando o cumprimento e me encarando por trás das grossas armações dos óculos. Uns dez cães a rodeavam, os pequenos latiam estridentemente.

— A Bete não vai entrar? — perguntei.

— Ela não quer sair do carro! Morre de medo de cachorros.

Ih, lascou-se!, pensei com meus botões. Hilda jamais sairia de casa para conversar com alguém pela janela de um automóvel. Ela simplesmente não confiava em quem não se dava com animais. Meu lado diplomático começou a se preocupar: e se isso fizesse Hilda não dar sua benção à peça? Não, ela não cancelaria sua autorização, mas aquela situação poderia azedar o trabalho de alguma forma. Talvez até aproveitasse o episódio como desculpa para não ir assistir à montagem. Embora estivesse mantendo um bom diálogo com Iara Jamra, por quem sentia grande simpatia, antipatizar com a diretora, por causa dos cães, não resultaria em nada de bom.

Entramos e Daniela cumprimentou Hilda com efusão. Após os salamaleques, indiquei a cadeira para que se sentasse.

— Cadê a Bete? — perguntou Hilda, que até então exalava pura simpatia. Pronto, pensei, vai começar.

— Ela não quer sair do carro — respondeu Daniela. — Está com medo dos cachorros. Não imaginava que se agitariam tanto.

O semblante de Hilda anuviou-se:

— Ué. Pensei que ela quisesse muito conversar comigo.

— E quer. Mas…

— Eles só ficam agitados no início, Daniela — atalhei. — Olha só como eles já se acalmaram. Bastou você se sentar.

— Eu vou lá falar com ela — respondeu, levantando-se e pressentindo nuvens de tempestade.

Daniela saiu e Hilda me encarou, uma expressão desgostosa nos lábios.

— Era só o que faltava — resmungou.

Infelizmente os cães acompanharam Daniela e retomaram a balbúrdia, o que, claro, só iria contradizer seus argumentos. Bete Coelho certamente não estaria disposta a ser um coelho numa caçada inglesa. Hilda, concentrada e já visivelmente irritada, fumava seu Chanceller. Aguardamos em silêncio. Ao cabo de dois ou três minutos, Daniela retornou: sozinha!

— Desculpa, Hilda — começou, embaraçada. — Não adianta. Ela está mesmo com medo.

Como Hilda nada respondesse, e pelo andar da carruagem talvez já não dissesse mais nada, decidi ir testar meus próprios argumentos.

— Eu falo com ela.

Fui até o carro e dei umas duas batidinhas no vidro. Bete Coelho abriu a janela. Os cabelos curtos e muito negros deixavam sua pele ainda mais pálida.

— Oi, Bete. Meu nome é Yuri. Sou secretário da Hilda.

— Oi, Yuri. Ela está muito chateada comigo?

— Um pouco. Mas você não precisa ficar com medo dos cachorros. Eles latem muito apenas quando vêem a pessoa pela primeira vez. Depois se acostumam e ficam quietos. Nunca morderam ninguém.

— Eu sei. Eu entendo que seja assim. Mas é involuntário! Juro! Estou em conflito aqui. Quero sair, mas não consigo.

Seu olhar comprovava sua angústia. Ela chegara à Casa do Sol e não veria Hilda Hilst? Como era possível?

— Olha — propus — você pode vir comigo. Vem segurando no meu braço. Você vai confirmar que cão que late não morde.

— Obrigada, Yuri — retrucou, desconsolada. — Mas não vai dar. É um problema que tenho. Estou até tratando essa fobia com meu psicanalista.

Nesse momento, trinta milhões de neurônios modificaram suas sinapses em meu cérebro e uma lâmpada, que só eu vi, acendeu sobre minha cabeça. Justamente naquele mês, eu e Hilda estávamos lendo e discutindo o livro “A Negação da Morte”, de Ernest Becker. Nele, através principalmente de Otto Rank e Kierkegaard, Becker busca provar que só há uma maneira de escapar à neurose causada pela verdade de que todos morreremos um dia: voltar à transferência original. Na psicanálise, grosso modo, transferência seria o processo pelo qual confiamos nossa segurança psíquica a algo que nos ultrapassa, que nos transcende, a algo que esteja fora e acima de nós mesmos. Quando o bebê está mamando, sua mãe é a fonte e a mantenedora de toda a sua saúde mental. Ele transfere suas necessidades mais profundas para ela. Ali, em seus braços, não há neurose, não há medo, não há ameaças de destruição. Conforme a criança vai crescendo e se tornando um adulto, sua transferência vai sendo dirigida para outras pessoas ou coisas: para o pai, para um namorado, para um trabalho, para uma crença, para uma ideologia e assim por diante. Quanto mais incerto, mortal ou volúvel for o alvo de sua transferência, mais neurótica se tornará a pessoa e, por isso, de mais mentiras existenciais necessitará para não mergulhar na loucura de se ver apenas como um animal que em breve irá morrer. E não há ninguém que viva sem estar preso a esse processo, por mais inconsciente que seja, por mais que seja oculto o alvo de sua transferência. Daí o estado de verdadeiro “escândalo”, no sentido bíblico, isto é, de abalo da fé, quando tal alvo se desfaz no ar ou cai em desgraça. Nada explica melhor um crime passional, quando o marido, traído pela esposa, mata-a e em seguida dá um tiro na cabeça. Nada explica melhor o suicídio de nazistas que, de repente, descobrem que o Führer está morto. Becker, portanto, desenvolve seu pensamento até nos mostrar que a única transferência perene, indestrutível e legítima é aquela que tem Deus por alvo. Seria essa a transferência original. Enfim, eu olhava para Bete Coelho e me vinham à cabeça todas essas coisas. Mas é claro que eu não iria lhe dizer: “Tenha fé em Deus, Bete, e nada vai lhe acontecer”. Não. Vestida com roupas escuras e pálida como uma freqüentadora do Hell’s Club, que eu também freqüentei — sempre curti música eletrônica —, essa não parecia de modo algum a abordagem correta. O fato é que eu também sabia que, numa psicanálise, a terapia torna-se muito mais efetiva quando, entre paciente e psicanalista, ocorre a transferência, quando o psicanalista se torna a salvaguarda do equilíbrio psíquico do paciente. Portanto, eu me inclinei em sua direção, sorri e lhe disse:

— Bete, tenho certeza de que, se você conseguisse enfrentar essa fobia agora e, apesar de todos esses cachorros, fosse até a sala conversar com a Hilda, seu psicanalista ficaria muito orgulhoso de você… — e, tendo dito isso, dei-lhe as costas e voltei à sala.

— Cadê ela, Yuri? — perguntou Hilda.

— Já está vindo.

— Sério?

— Sério.

E, de fato, em menos de dois minutos, Bete Coelho surgiu à porta por si só, os olhos vidrados, direcionados para frente, evitando olhar para baixo. Os cães, que haviam me acompanhado, cercaram-na latindo muitíssimo, mas ela, rígida, corajosa, permaneceu como uma estátua, os braços colados ao corpo. Com passos curtos e cuidadosos, mais parecia se deslocar sobre rodinhas do que caminhar. Dirigiu-se então até Hilda, que se levantou e a abraçou.

— É um prazer, Hilda. Me desculpa.

— Não entendi esse pânico todo — repreendeu-a Hilda, num tom bem humorado. — Você por acaso também tem medo de homem? Homem também tem pêlo. Sabia?

Todos riram dessa observação e Bete Coelho se sentou na cadeira que lhe indiquei. As conversas prosseguiram de forma amena e, graças à bravura da atriz-diretora, que confirmou Sócrates, segundo o qual corajoso não é quem não sente medo, mas, sim, quem o sente e o enfrenta, semanas mais tarde a própria Hilda foi assistir à montagem de O caderno Rosa de Lori Lamby. Porque, sinceramente, caso a autora tivesse antipatizado com Bete, teria sido muito difícil para Mora Fuentes arrastá-la da Casa do Sol até o teatro. (Ah, vale lembrar que, além de pêlos, alguns homens também têm boas idéias.)

7:22 amA rave do Safatle

Doze anos atrás eu quase conheci pessoalmente o Vladimir Safatle. Foi numa chácara da Serra da Cantareira, em São Paulo. Ao menos me disseram que era ele: “Vladimir, o goiano que é professor de filosofia na USP, tá aí”. Mas, enquanto eu, sentadinho em posição de lótus, curtia tranqüilamente a minha ayahuasca, o cara, juntamente com um amigo, fugia da chácara doidão, assustado porque lhe haviam dito que aquela “balada” seria uma rave, mas, segundo ele então passou a acreditar, na verdade não passava do estranho culto de uma “seita” qualquer. Seita? Nem notei. Enfim… Até hoje fico tentando imaginar como teria sido a badtrip desse cara, com a cachola esquerdista pra lá de psicodélica, circulando pelos labirintos da capital paulista… Credo. Foi certamente algo à la Thomas Pynchon, cujos personagens paranóicos são “perseguidos”, não apenas por seitas, mas também por mega-corporações, pela CIA, pela NSA, o FBI, os Illuminati e assim por diante.

Ah, a minha doce e perigosa fase de maluquices…

11:12 pmOutro “causo” do Bruno Tolentino

tolentino

Às vezes me vêm à lembrança algumas conversas marcantes que tive com o poeta Bruno Tolentino. Ele tinha o costume de pilheriar no tom mais sério e, caso o interlocutor não percebesse o humor clandestino, seguia em frente, como se nada tivesse acontecido. Sempre com a ironia mais fina, inglesa. E era assim com qualquer um, uma espécie de teste instantâneo de QI para conversações: se a pessoa risse, ele aprofundava a conversa; se não risse, ele ficava no raso. Contudo, quando tinha maior confiança no interlocutor, quando já havia amizade, Bruno levava seu ferrão escorpiano direto ao alvo. E eu, escorpiano mirim, dava gargalhadas com suas tiradas. Sim, em geral porque revelavam a mim mesmo meus próprios pensamentos não verbalizados — como quando, certa feita, na Casa do Sol, conversamos sobre um escritor que conhecíamos pessoalmente, o qual o havia presenteado com seu livro de contos.
— E então, Bruno? — indaguei, curioso. — Você gostou do livro? Ele escreve bem?
— Você já viu a cara da mulher dele? — replicou de pronto, causando-me um sorriso prévio de quem tenta adivinhar o que vem em seguida.
— Claro que já. Por quê?
— O ar de bruxa doida… Os olhos vazios… Sempre descabelada… Aqueles gritinhos à guisa de risos… O jeito de se sentar com as pernas abertas, o tronco encurvado… Reparou?
Eu ria: — Aham.
— E você já conversou com ela, Yuri?
— Já. Por quê?
— É uma tortura! Uma mesmice sem fim, um monte de chavões e besteiras. A mulher é a frivolidade em pessoa. Os olhos dela só brilham quando alguém fala em dinheiro.
— A Hilda me disse a mesma coisa — e ri novamente.
— Pois é — e calou-se. Ficou lá, concentrado, retirando os livros duma caixa de papelão. Eu ainda aguardava a resposta à minha pergunta inicial e… e nada. Ele havia se esquecido dela.
— Bruno — observei, ao fim de um longo minuto — você acabou não me dizendo se ele escreve bem ou não.
Ele então me encarou e sorriu escorpianamente:
— E você acha, Yuri, que alguém que escolhe se casar com uma mulher dessas saberia escolher as palavras certas para formar sequer uma boa frase?
(Estou rindo de novo.)

2:59 pmA sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande

(À maneira de Chesterton…)

Doutor Pinto pediu licença para ligar seu cigarro eletrônico e se sentou. Indicou a cadeira com a mão, aguardou alguns longos segundos, e nada. O rapaz mantinha-se de pé, do outro lado da mesa, visivelmente desconfortável: era óbvio que jamais estivera diante de um advogado na condição de cliente.

— O senhor não vai se sentar? Por favor, fique à vontade.

Roberto, um sorriso amarelo nos lábios, finalmente se sentou. Então olhou em torno, admirado com os quadros, com os livros na estante, com o aquário de peixes do mar. Devia estar pensando em quanto iria custar aquilo.

— O senhor dizia que pretende processar seus colegas de trabalho. Não vai me dizer o porquê?

— Racismo, doutor.

— Racismo. Certo, certo. Você deve estar se sentindo prejudicado na sua posição, imagino. É preterido nas promoções?

— Preterido?

— Sim, você certamente não recebe a devida atenção e reconhecimento por seu trabalho.

O outro pigarreou:
— Não é isso, doutor. Meu chefe e o dono da empresa também são negros. O problema são meus colegas. Fazem bullying comigo o tempo todo, me perseguem, zoam comigo.

— Você já levou o problema até seu superior?

— Já. Ele disse que eu tenho de parar de sorrir quando mexem comigo, que tenho de dizer que não gosto e pronto.

— E você já fez isso?

— Não consigo. Na hora, sem querer, eu sorrio, sei que estão brincando. Mas depois, em casa, fico relembrando, remoendo. E aí percebo o quanto são racistas, intolerantes e desrespeitosos.

—  Bom, você precisa saber que iniciar um processo é, por assim dizer, uma primeira instância apenas no sentido legal. Em termos de convivência social, é na verdade uma última instância, pra lá da gota d’água.

O rapaz se aprumou na cadeira e, talvez sob influxo de adrenalina, desatou a falar rápida e destemidamente:
— Eu sei o que o senhor está insinuando. Acha que devo conversar com todos eles em particular, ou talvez com todos juntos. Resolver tudo no gogó, tipo, “é conversando que a gente se entende”. Acha que eu preciso ser compreensivo e tolerante como eles jamais conseguiriam ser. Mas o problema é que eu também sei que essa atitude não leva a nada, não vale nada. Meus colegas são pessoas ignorantes, toscas e, se resolverem me poupar, vão acabar indo encher o saco de outra pessoa. Eu acredito que só irão parar com essa palhaçada se algo sério acontecer com eles. Acho que merecem ser processados pelo bem de outras pessoas, de outros negros que já não aguentam mais ser motivo de chacota.

Doutor Pinto franziu o cenho, pensativo. Então, pegando do iPad, abriu um aplicativo para fazer as anotações.

— Ok, senhor Roberto. Vamos começar do começo. O que é que eles fazem para perseguir você?

— Eles me chamam o tempo todo por um nome que odeio.

— Só por um nome? Ou por vários nomes? Apelidos talvez?

— Só por um. Quer dizer, tem um outro também. E depois riem da minha cara minutos a fio. Ficam no meu pé o dia inteiro, às vezes usam esses nomes até diante dos clientes.

— Posso saber que nomes são esses?

— Pode, sim: prompt de comando e cmd.

— Como? Desculpe, eu…

— Prompt de comando.

O advogado, confuso, ficou em silêncio por meio minuto. Então começou a desatarraxar a bateria do cigarro e, ainda cabisbaixo, a trocou por outra.

— O senhor não vai dizer nada, doutor?

— Desculpe, senhor Roberto. É que não faço a mais mínima idéia do que seja um… Prompt de Comando? Ceemedê? É uma sigla? Tem algo a ver com as Forças Armadas?

O rapaz riu:
— Meu Deus, o senhor não sabe o que é um Prompt de Comando?

— Por quê? O senhor vai fazer bullying da minha ignorância?

O rapaz fechou a cara instantaneamente.

— Bom — começou ele, esforçando-se para não iniciar um atrito — o doutor pode por favor abrir esse ultrabook aí? Vou lhe mostrar o que é um Prompt de Comando.

— Então tem a ver com computadores?

— Sim.

— Ah, compreendo. Apesar do cigarro eletrônico, que ganhei da minha esposa, sou um analfabeto tecnológico. Sei apenas ligar as coisas e usar suas funções mais óbvias e banais.

— Eu sei como é, doutor. Lá na empresa, nós trabalhamos com sistemas de informação e, por isso, sei o quanto as pessoas, apesar de usá-las, realmente desconhecem o funcionamento das máquinas. Mas, por favor, ligue seu ultrabook. É mais fácil mostrar do que explicar.

Doutor Pinto abriu, pois, a tampa do computador e acionou o botão. Graças à memória SSD, da qual ele tampouco imaginaria a razão de ser, a máquina ligou em menos de três segundos.

— Agora, por favor, aperte essa tecla com o símbolo do Windows e, em seguida, a letra “r”, de “run”.

— Executar? De inglês eu entendo.

— Isso.

— Pronto. E agora?

— Digite “cmd” nesse espaço aí e aperte Enter.

— Hum. Ok.

Uma pequena janela se abriu no meio da tela. E doutor Pinto ficou aguardando novas instruções, que não vieram.

— O que faço agora?

O outro se irritou:
— O senhor não percebeu, doutor?

— Percebeu o quê, seu Roberto?

— Esse é o Prompt de Comando.

— O quê? Essa janelinha?

— É!

Doutor Pinto franziu os lábios:
— Mas… e daí? O que tem essa janelinha?

— O senhor por acaso está zoando com a minha cara?

Doutor Pinto encarou-o cheio de espanto:
— Eu? Debochando do senhor? Por que estaria? Não o entendo!

— Doutor, essa janela é preta! Pretinha da silva!!

— E…?

— Como assim “e…”? Eles estão me chamando de preto, uê!

— E o senhor por acaso é preto?

— Claro que não! Sou da raça negra!

— Então por que está tão irritado? É como se alguém me chamasse de parafuso e isso me chateasse. O que eu tenho que ver com um parafuso? Nada.

— O senhor está tirando com a minha cara! — explodiu o rapaz.

Doutor Pinto abriu os braços, as palmas das mãos voltadas para cima:
— Juro que não! — e realmente parecia surpreso. — Ora, eu sei que antigamente as pessoas da raça negra odiavam ser chamadas de “negras” e preferiam o termo “preto”, e que hoje ocorre, sei lá por qual razão, justamente o contrário. Mas e daí? Por que o senhor se chateia com isso?

— Eles riem de mim!

— E o senhor sorri de volta.

— De puro nervosismo! —  e deu um tapa na mesa. — Caramba… ¿O senhor não viu como quiseram arrancar a pele do Pelé quando ele…

— A pele do Pelé… Parece nome de documentário.

— Doutor! O senhor está zoando comi…

— Não estou, seu Roberto! Não mesmo! Tenha calma. Por favor, volte a se sentar e se acalme.

O rapaz, mais abatido que irritado, refestelou-se na cadeira. E então, resfolegando, pediu um copo d’água, que a secretária, acionada pelo intercomunicador, apressou-se em fornecer.

— Doutor — voltou a falar, mais calmo —, como eu dizia, o senhor não viu o que fizeram com o Pelé quando ele disse que dava de ombros quando sofria racismo no futebol? Acabaram com ele! A gente não pode ser condizente com essas coisas.

— Desculpe, não passo os dias nas redes sociais, não sei exatamente o que fizeram com o Pelé ou o que disseram dele. Ouvi apenas que estavam bravos com ele. Mas sei muito bem o que ele fez consigo mesmo: é o esportista mais famoso de todos os tempos e um cara rico, de sucesso.

— Isso mostra apenas o quão egoís…

— Seu Roberto — interrompeu-o Doutor Pinto —, deixe-me contar-lhe duas histórias. Posso?

Roberto, apesar de visivelmente contrariado, assentiu com a cabeça.

— Seja sincero, seu Roberto. Você não acha engraçado um advogado cujo sobrenome seja “Pinto Grande”? Veja só! O senhor sorriu. Claro que acha cômico, um tal palavrão, grafado na fachada do meu escritório. Talvez tenha até tido dúvidas ao vir me procurar. Deve ter achado que não me levo a sério. Ou que sou tão bobo que nem percebo a piada embutida nisso. Ou, pelo contrário, que sou tão seguro de mim mesmo que não me incomodo… Pouco importa o que pensou. O fato é que o senhor vem me chamando de doutor, doutor, doutor, mas nem sei se, em algum momento, disse meu nome: doutor Pinto. Quanto mais meu nome completo: doutor João Pinto Grande. E Pinto Grande é realmente meu sobrenome!

Roberto, sem suportar a pressão interna, deu uma profunda risada. Doutor Pinto riu com ele.

— Percebe? Pois então. O senhor tem idéia da quantidade de assédio moral que sofri ao longo da vida? Minha infância e minha adolescência, até minha juventude, foram verdadeiros infernos. Cheguei a odiar meus pais por conta disso. Ironicamente, o Pinto é da minha mãe, e o Grande, do meu pai.

O rapaz caiu na gargalhada. Doutor Pinto, um ar irônico no rosto, altivo, aguardou-o paciente e compreensivamente.

— Desculpe, doutor — disse Roberto, afinal. — Não consegui me segurar.

— Não tem o menor problema. E nem é porque “estou acostumado”. É porque, hoje em dia, adoro meu nome. Enquanto ainda somos imaturos, sofremos com toda sorte de acidentes, de eventualidades, de contingências, de questões secundárias. A maturidade só vem ao fim de muita reflexão, de muita meditação, de muita aceitação. Principalmente da aceitação de nós mesmos. Quando eu era um jovem imaturo, meu nome sempre dificultou, entre outras coisas, arranjar uma namorada. Quando comecei a amadurecer, ele se tornou meu maior aliado nesse quesito! O maior sucesso! Mas estou me perdendo em circunlóquios. Deixe eu lhe contar a primeira história. Quando eu tinha quinze anos de idade, eu pensei em me matar.

Roberto arregalou os olhos e ficou ainda mais atento.

— Eu estudava no colégio Ateneu Dom Bosco —  continuou o doutor — e tinha colegas realmente infernais. Era algo estranho: os padres, ao contrário do que dizem, eram demasiado tolerantes. Na minha época, é verdade, já não havia reguadas, palmatórias ou joelhos no milho. Apenas aconselhamentos dos mais educados. Eu nunca atinava com o porquê de meus perseguidores não sofrerem penas maiores. Nunca receberam sequer uma suspensão! Claro, eu não era dedo-duro, mas esperava inutilmente que as testemunhas do meu contínuo assédio moral tomassem meu partido.

— Ninguém sabe o que vai dentro da gente.

—  Exato! Além de nós mesmos, nenhum outro humano está aqui dentro — e doutor Pinto apontou o próprio coração. — Mas, enfim, voltemos ao meu quase suicídio… Bom, no segundo ano colegial, veio estudar na minha sala um sujeito brutamontes dos mais expansivos, dominadores e territoriais. Era o típico macho alfa que precisava impor a qualquer custo o seu poderio, que precisava humilhar os machos mais fracos e conquistar o resto do bando. Ele não fazia isso por mal, percebi meses mais tarde, quando então nos tornamos amigos. No fundo, era praticamente uma imposição da natureza dele, à qual, com muito custo, ele finalmente aprendeu a dizer “não”. Tornar-se homem, em geral, é um aprender a dizer não à nossa animalidade, à nossa natureza, e não o contrário, como os hippies pensavam. Mas compreenda: esse dizer não… não é um “negar negativo”… — é, sim, um “negar positivo”, um aceitar e um driblar, é um ouvir e entender, mas discordar. No final das contas, você acaba percebendo que acontecem coisas assim e assado com nosso corpo, com nossa mente, que muitos impulsos se impõem, mas, conscienciosamente, tem de dar passagem apenas ao que nos leva ao bom, ao belo e ao justo. A tudo o que não presta, seu bom senso, que é o mais comum dos sensos, deve dizer “não!”.

— Entendo.

— Pois bem. Um dia, eu estava na fila da cantina e esse sujeito veio por trás de mim, colocou uma mão de cada lado dos meus ombros e, como direi?… ele me “masturbou”! Mas entre aspas! Quero dizer, sem encostar em mim senão as mãos, ele ficou friccionando meus braços para cima e para baixo, como se meu tronco fosse um corpo cavernoso e minha cabeça, a glande de um pênis. Enquanto o fazia, berrava: “E aí, Pintããão?!!”. Em volta, todos começaram a rir e a gritar “Pintão! Pintão!”. Tudo parecia ainda mais engraçado porque eu era baixinho e muito magro. Sabe como é, o contraste sempre causa frisson nos espectadores do que quer que seja. Naquele momento humilhante, minha única reação foi fugir da fila e correr para o banheiro. Chorei durante todo o intervalo, dentro de um dos reservados, e ninguém foi falar comigo. Ninguém! Eu era um Pinto Grande solitário.

Roberto sorriu: — Deve ter sido duro.

Doutor Pinto sorriu de volta: — Só quando eu me excito.

Riram juntos.

— Ao longo daquela semana — prosseguiu o doutor — esse cara me… me “cumprimentou” do mesmo jeito todas as vezes que me encontrou nas filas, nos corredores, dentro da sala, na escada, na calçada. Sim, para ele era um cumprimento. E dos mais divertidos! Era seu jeito de dizer “oi, magricela do nome ridículo”. E quem estivesse por perto sempre ria de mim, apontando-me o dedo. É óbvio que fiquei famoso no colégio, popular da pior maneira. Naquela semana de Fevereiro, eu só procurava as sombras, estava sempre me escondendo atrás das colunas, das esquinas dos prédios, das moitas, das árvores. Foi horrível. Já passara a infância toda fugindo do meu nome e agora enfrentava aquilo. Cheguei inclusive a levar um canivete para o colégio na sexta-feira e, quando ele me “masturbou-entre-aspas” de novo, antes da primeira aula, fiquei apertando a lâmina dentro do bolso, com medo e desejo de usá-la. Mas não a usei, o que se mostrou ainda mais humilhante para mim, pois me senti o mais vil dos covardes. No sábado, escrevi uma carta de suicídio, e passei todo o dia com uma lata de veneno no quarto, um veneno que minha mãe usava para borrifar as plantas do jardim. Ficava alternando os olhos entre a lata e o copo, o copo e a lata. Cheguei a escrever que a culpa da minha morte era dos meus pais, por terem me colocado um nome tão burlesco e absurdo. E, obviamente, nada fiz. Sobrevivi ao final de semana. Na segunda-feira, voltei ao colégio como um condenado à forca, resignado. Eu já havia sofrido muito graças ao meu nome, mas aquele gesto estúpido, bruto, daquele cara enorme, era demais para mim, o fim da picada. A humilhação me consumia. Mas… — e doutor Pinto fez uma pausa.

— Mas…?

— Mas uma coisa esquisita aconteceu. Inesperada. Com minha resignação e desamparo, eu parei de prestar atenção aos meus temores e receios, parei de olhar para dentro, e fiquei mais ligado, mais atento ao mundo. Estava tão certo de que tudo se repetiria, que nem sequer me importava mais. Sem saber, eu estava pronto para o que desse e viesse. Na verdade, foi minha primeira disposição desse tipo, a qual eu acabaria por perder e recuperar muitas e muitas vezes, até finalmente conquistá-la integralmente na maturidade.

— Resumindo: o senhor ligou o foda-se.

— Mais ou menos isso. Um “foda-se” acompanhado por uma atenção às coisas, uma contemplação, que me remetia à primeira infância. Sabe, né, aquela atenção cheia de pureza. Bastante semelhante à atitude de um lutador de arte marcial, que não podendo comparar o momento exato da luta ao treinamento prévio, não tendo tempo para rememorar teorias, porque isso o distrairia, tem apenas de reagir convenientemente à situação real.

— O senhor deu uma porrada no cara?

—  Não, nada disso. Eu me entreguei ao momento. Eu estava no corredor que dava acesso à minha sala e, de repente, o sujeito me segurou por trás. E, isso mesmo, me masturbou-entre-aspas pela milésima vez! Em volta, formou-se o público de sempre. Ele gritava: “E aí, Pintãããão?!”. Então aconteceu.

— Aconteceu o quê?

— Sem dar por mim, limpei a garganta e dei uma grossa cusparada.

— Nele?

— Não, ele estava atrás de mim, cuspi para frente.

— Não entendi.

— Tudo bem, eu também não entendi de primeira o tal Prompt de Comando — e o doutor sorriu. — Seu Roberto, o senhor sabe o que ocorre ao final da masturbação, não sabe?

O outro arregalou os olhos, compreendendo:
— Ah, entendi! O senhor gozou-entre-aspas?

— Exato. E todos caíram na mais épica das gargalhadas, percebendo que eu finalmente aderira à brincadeira. E o melhor: meu amigo brutamontes, apesar de também ter rido, ficou nitidamente decepcionado, visto que eu superara sua piada. Depois disso, ele repetiu a cena apenas mais uma vez, e eu voltei a cuspir. Ninguém mais se divertiu com a coisa. Era uma bobagem já batida, ultrapassada. E ele finalmente parou com aquilo.

— E todos pararam de chamá-lo de Pintão.

— Não, isso continuou até a faculdade — e o doutor sorriu, divertido. — Mas, na escola, fiquei com fama de ser alguém engraçado e inteligente, coisas que sempre atraem as mulheres. Tudo porque, em vez de me refugiar dentro de mim mesmo, eu agi naquela situação vendo a cena inteira, e não apenas sofrendo o meu próprio papel. Deixei de ser apenas um personagem e compartilhei a autoria da peça.

O rapaz coçou a cabeça, pensativo. Tamborilou os dedos na mesa. Por fim, disse:
— Bom, não sei exatamente como eu poderia aplicar isso ao meu caso…

— Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, com gente tentando negar, não de forma positiva nossa animalidade intrínseca, mas negar a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

— Hum.

— O que me leva à minha segunda história. Ainda quer ouvi-la?

— Sim, por favor.

— Seu Roberto, eu compartilho de certas crenças religiosas bastante, como dizer?… controversas? Sim, bastante controversas. Sou cristão, mas faço parte de uma linha minoritária… Bem, isso não importa. O que realmente interessa é: por que Deus, se é que o senhor crê em Deus — se não crê, pense de forma hipotética —, por que Deus criou as raças de cor na Terra? Ou melhor, por que Ele teria permitido tal coisa? Eu me refiro a todas as raças de cor: branca, amarela, vermelha, negra, etc.

— Não faço a menor idéia.

— O senhor acha que o mundo seria melhor se não houvesse diferenças de raça?

— Ah, doutor, certeza que sim. Se todos se misturassem, se fôssemos todos mestiços, ninguém iria brigar por causa disso.

Doutor Pinto deu uma longa tragada no cigarro eletrônico. Logo emitiu grandes volutas de vapor de propileno glicol. Ambos observaram aquela pseudo-fumaça por alguns momentos. Vendo que o rapaz permanecia atento, disse:
— Seu Roberto, o senso comum é a média da sabedoria de uma sociedade. É o mais confiável dos sentidos, dos sensos. Mas nem sempre está certo. Nem sempre se confunde com o verdadeiro bom senso, embora tenha o costume de confundir-se com ele e, no fundo, nasça dele. Como já disse, é triste que o senso comum e o bom senso estejam sendo solapados pelas ideologias e besteiras culturais da nossa época. Mas, na verdade, o senso comum é uma bagagem levada de geração em geração, a experiência coletiva, uma bagagem de valores e idéias que deram certo, que costumam ainda dar certo e que certamente, em sua maioria, ainda valerão no futuro. Já o bom senso não é uma bagagem: é o farejar do viajante atento.

— Certo.

— É praticamente senso comum o fato de que, se tivesse existido uma única raça na Terra, do início até agora, jamais teríamos as guerras e conflitos raciais que temos hoje. Mas a verdade é o exato oposto disso: se houvesse uma única raça de cor nesse mundo, o ser humano teria entrado em extinção há mais de 900 mil anos.

— Não vejo o porquê.

— A espécie de hominídeos conhecida hoje como Homo habilis não era ainda propriamente humana. Eram conscientes tais como os animais são conscientes, e isto significa: não eram autoconscientes. Sabiam de certas coisas — o que comer, o que não comer, quando fugir, quando lutar, o que era chuva, noite ou sol e assim por diante — mas não sabiam que sabiam. Tinham consciência de vários fenômenos do mundo, mas não tinham, enfim, consciência de si. O fenômeno “eu” lhes era desconhecido. Entende?

— Sim.

— Foi de um casal de hominídios Homo habilis que nasceu o primeiro casal de gêmeos da espécie Homo erectus. Esse casal fugiu da convivência de seus ancestrais animais — eram muito maltratados por eles — e deram origem à primeira espécie verdadeiramente humana: eles sabiam que sabiam, desenvolveram uma linguagem verbal primitiva e, o que é o mais humano, fizeram uso de seu livre-arbítrio, pois um fragmento de Deus passou a habitar suas mentes. Eles tomaram decisões e, graças a eles, estamos aqui agora.

— Você se refere a Adão e Eva.

— Não, Adão e Eva vieram pra cá milhares de anos depois.

O outro fez uma careta:
— Nossa, isso está muito confuso e não sei aonde você quer chegar.

— Calma. Você não precisa acreditar em mim. Entenda tudo isso apenas como hipótese, como mais uma possibilidade. Ora, os cientistas de hoje não sabem exatamente o que se passou. O que interessa para esta nossa discussão é o seguinte: os descendentes desse primeiro casal, quando centenas de anos depois já chegavam aos milhares, iniciaram lutas tremendas e encarniçadas, quase levando à extinção a primeira espécie verdadeiramente autoconsciente. Foram lutas por poder, por comida, por inveja, por território, por egoísmo, por mulheres, todas essas coisas que motivam os mais baixos instintos dos homens.

— Compreensível.

— Nessa época, ninguém mais confiava em ninguém, seus ascendentes mais antigos, que os fizeram parentes no passado, já haviam morrido, sua memória estava perdida, e todos, apesar de serem semelhantes, viam-se como totalmente distintos. Por analogia: numa terra de cegos, se ninguém nela tem um olho sequer, jamais se saberá que são todos cegos! Um ser de outra terra, dotado de olhos, veria a semelhança, mas eles, os cegos, não. Logo, por não haver razões evidentes para o surgimento da confiança mútua, de um arremedo da fraternidade espiritual, as alianças tornaram-se provisórias e volúveis. E tome guerra sobre guerra! Foi então que, por mandato de Deus, surgiram os primeiros humanos das diferentes raças de cor. Por mutação aparentemente espontânea. Essa nova semelhança, pela cor, não bastaria para gente extremamente sofisticada e avançada, como acreditamos ser hoje, chegar à paz. Mas trouxe a paz dentro dos grupos raciais da época. Havia uma confiança natural dentro de cada raça e a antiga desconfiança, que antes era geral e irrestrita, passou a dirigir-se apenas a outras raças. Percebe?

— Não vou negar: o raciocínio é interessante.

— Bom, foi assim que aconteceu. A guerra geral de todos contra todos tornou-se a guerra de uma raça contra outra e, ao mesmo tempo, e como corolário, veio a migração das diferentes raças pelos continentes. Cada um procurando o seu quadrado. No fundo, ninguém queria briga. Era melhor fazer a trouxa e pegar a estrada. Algumas raças quase desapareceram totalmente nesse processo, restando delas apenas algumas características genéticas transmitidas devido ao contato mútuo. Na verdade, não existem mais raças puras. A maneira como chegamos a isso pode parecer uma coisa terrível hoje, mas esse arranjo foi muito melhor do que nossa extinção. Deus escreve certo por linhas tortas.
Roberto estava pensativo. Os olhos perdidos algures. Por fim, descobrindo-se novamente dentro do escritório de um advogado, endireitou-se na cadeira e soltou um…

— Ufa!… Não foi fácil chegar até aqui.

— Não foi mesmo —  concordou doutor Pinto. — O senhor fala muito bem, seu Roberto, quase como um advogado de sucesso — e sorriu. — É formado em alguma coisa? Ou apenas lê a Bíblia. Pessoas que lêem a Bíblia falam muito melhor do que as demais. João Ferreira de Almeida, Deus o tenha, fez um serviço que foi muito além da salvação das almas.

— Sou formado em Administração de sistemas.

— Ah, é verdade. E o senhor tem economias?

— Bom, doutor Pinto, depois de tudo o que o senhor me disse hoje, eu preciso é ir pra casa pensar melhor. Sei que o senhor é ocupado e deve cobrar um valor elevado pelo seu tempo.

O doutor sorriu:
— Não, não, seu Roberto. Não estou de olho na sua carteira. O senhor é um rapaz inteligente e tenho certeza de que tem suas ambições e projetos. Se o senhor gosta tanto do que faz, e se tem algum dinheiro poupado, devia propor sociedade ao seu chefe. Como vai a saúde da empresa?

Roberto estava aturdido, um sorriso cheio de surpresa estampado no rosto:
— Como o senhor sabe que eu tinha essa idéia na cabeça? Minha namorada, que não é negra, e que por odiar o racismo insistiu comigo a vir recorrer ao senhor, vive me dizendo para propor sociedade ao meu patrão. Ela inclusive quer que eu use, além das minhas economias, as dela. Como o senhor sabia disso?

— O senhor lê códigos binários, seu Roberto. Eu leio pessoas. Eu vi sua expressão quando me disse que seu chefe e o dono da empresa também eram negros… O senhor devia fazer como nossos ancestrais Homo erectus e, enquanto não recebe o dom da plena maturidade — me desculpe, mas o senhor é muito jovem, praticamente um menino —, devia unir-se de forma apropriada a quem julga ser da sua turma. Faça como Pelé, seja um sucesso e vire chefe dos seus antagonistas. Não os processe, não os odeie, apenas jogue a piada de volta sobre eles. Não estou lhe dizendo para ser um racista, estou apenas aconselhando-o a ter senso de humor e jogo de cintura. Mas voltando… como vai a empresa? Está bem das pernas?

— Há muita concorrência, doutor.

— Vocês precisam é de uma eficiente estratégia de marketing. No seu lugar eu iria até seu patrão, mostraria o quanto economizou e proporia sociedade.

— E o senhor acha que isso seria jogar a piada de volta sobre meus colegas?

— Não inteiramente. Eu ainda não concluí. É o seguinte: o senhor tem de propor a sociedade e também sugerir um novo nome para a empresa: Prompt de Comando. Prompt quer dizer imediato, rápido, diligente. Um excelente nome. E uma foto do comando da empresa, com sócios negros, seria uma excelente propaganda.

Roberto deu uma súbita e gostosa risada:
— Doutor Pinto Grande, o senhor é foda!

— Eu sei, meu caro, nomen est omen: nome é destino.

E foi assim que surgiu a bem sucedida empresa de gerenciamento de sistemas Prompt de Comando, com filiais em quatro continentes.

______
Leia outro conto: Doutor Pinto Grande e o pedinte do metrô.

7:07 amOs Náufragos – com Yuri Vieira

“Crítica cultural num Brasil que afunda.”

Tomei a liberdade de postar no meu canal do YouTube a entrevista que dei ao programa Os Náufragos, da RADIO VOX, ocorrida no final de 2013. Espero que os novos ouvintes perdoem minha metralhadora vocal que, movida a uma garrafa de café, saiu atropelando palavras e interlocutores.

Temas abordados: Universidade, política, Nietzsche, drogas, ateísmo, cientificismo, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, Olavo de Carvalho, cinema, roteiristas, narrativas, Espelho (meu curta-metragem), contos de fada, Chesterton, vida acadêmica, conselhos aos criadores, conceito de arte, Isaac Bashevis Singer, autopublicação, internet, inamizades, novos autores.

Os Náufragos é um programa da Radio Vox.

11:15 amDez anos sem Hilda Hilst

Hilda Hilst faleceu há exatos dez anos (!!). Por isso, em sua homenagem, segue abaixo o início de um texto — que publicarei oportunamente com a coletânea O Exorcista na Casa do Sol — sobre algumas de minhas experiências na Casa do Sol, residência da escritora, onde morei de 1998 a 2000.

Yuri Vieira e Hilda Hilst, na Casa do Sol, 1999.
Yuri Vieira e Hilda Hilst na Casa do Sol, 1999.

A melhor das casas possíveis

Era um domingo qualquer de 1999 e, mesmo assim, eu não podia me dar ao luxo de dormir até tarde. Obviamente vontade não faltava; mas uma das minhas obrigações era estar de pé, todos os dias sem exceção, antes das oito da manhã. Não podia faltar às charlas matutinas no escritório da poeta Hilda Hilst – sempre muito divertidas, instrutivas, memoráveis e… tacitamente obrigatórias. Eu não era um hóspede com estadia previamente programada, no entanto, ao contrário de um mordomo ou de um jardineiro, tampouco tinha vínculo profissional. Tinha casa e comida – mas lavava minha própria roupa. Éramos amigos, de início, tanto quanto o são uma professora e seu aluno; mas nossa amizade se estreitaria e se aprofundaria no transcurso dos meses. Sim, no dia a dia, eu fazia as vezes de secretário e webmaster, mas era sempre apresentado pela poeta como seu “amigo Yuri, jovem escritor”. Em suma, estava ali para ajudá-la com o necessário – pagar contas, fazer compras, representá-la nas reuniões de condomínio, atender aos telefonemas, manter a correspondência em dia, controlar a agenda, manter o site atualizado, etc. – e, em troca, estudar e aprender o ofício. E o necessário costuma madrugar, como se sabe. Mas que eu sentia falta de dormir até tarde aos domingos, ah, isso eu sentia. Às vezes, eu até conseguia disfarçar um pouco: acordava às sete da manhã, chamava o ramal do escritório – no qual Hilda já se encontrava desde as seis –, interpretávamos mutuamente nossos sonhos noturnos, e depois… bem, depois, sem que ela soubesse, e ao contrário dos dias comuns, voltava a dormir outra meia hora, como se estivesse a alongar minha ida ao banheiro. Isso, claro, acabava encurtando o prazo real da minha toalete, mas, dependendo da densidade da preguiça, ou da ressaca de sábado, valia a pena.

“Ah, só mais dois minutinhos…”, e tornava a ressonar sob as cobertas.

Felizmente, naquele mês o escritor José Luis Mora Fuentes voltara à Casa do Sol para passar conosco uma curta temporada. Amigo de Hilda desde os anos sessenta, ele sabia como lidar com suas idiossincrasias melhor do que ninguém. Ele não a via como um monstro sagrado das letras ou como uma outsider eivada de misantropia, mas, sim, como uma amiga genial e geniosa. Sentia-se, pois, à vontade para dobrá-la com aquela irreverência que costumamos reservar apenas aos velhos camaradas. Quando ele chegava muito tarde ao escritório e ela, irritada, começava a lhe pregar um sermão, Mora Fuentes suspirava:

“Tá, Hilda, me dá uma suspensão, me manda pra madre superiora…” e, na maior fleuma, acendia um cigarro.

Ao perceber a inutilidade de exigir que um homem de quase cinqüenta anos de idade levantasse cedo num domingo, Hilda sorria, acrescentava alguma pilhéria — “Mas, Zé, eu é que sou a madre superiora deste lupanar… digo, deste lugar!” — e esquecia o assunto. Portanto, a chegada de Mora Fuentes à chácara contribuiu enormemente para me converter de aluno em amigo de fato. Até então — eu estava ali desde Setembro de 1998 — vinha levando minha relação com Hilda de um modo excessivamente tímido, formal. E, do ponto de vista da preguiça domingueira, estava na cara que a nova situação me beneficiaria mais do que a ninguém, afinal, se naquele domingo eu chegasse ao escritório por volta das dez, já estaria de bom tamanho, simplesmente porque estaria acordando antes do Zé Mora Fuentes. Ou seja, por contraste, ele também me ajudaria a evitar outro sermão semelhante ao que recebi, no ano anterior, na primeira vez em que dormi (e acordei tarde) na Casa do Sol. Sermão este cujo remake eu tentava evitar a todo custo, com disciplina militar e madrugadeira. E olha que naquela primeira ocasião, além do fato de ter sido um domingo frio e chuvoso, havia outra boa desculpa para ficar na cama: estava com minha então namorada…

Contudo, naquele domingo de 1999, fui despertado por batidas secas à porta do quarto. Pelo jeito, meu plano de testar a paciência dominical de Hilda não daria certo. Mal passava das oito da manhã e Mora Fuentes já estava de pé. Parecia muito preocupado.

“Desculpa te acordar, Yuri. É que tô achando que fiz uma besteira enorme.”

“Puts, o que aconteceu?”, resmunguei, esfregando os olhos.

Ele sorriu com um ar desanimado: “Ainda não rolou nada, mas vai rolar”.

“Como assim, Zé?”, e tentei encará-lo através da minha miopia sem óculos.

Mora Fuentes entrou no quarto, puxou a pesada cadeira de cedro e se sentou de costas para meu computador.

“Lembra do que te falei, de a gente tentar fazer a Casa do Sol reviver seus melhores dias, de fazer a Hilda voltar a se animar e até a, quem sabe, escrever?”

“Claro.”

“Então. Ontem um cara telefonou pra cá, disse que não vê a Hilda faz quase vinte anos, que tem saudade dela, da Casa e assim por diante. Disse que se chama Candide e eu me lembrei do nome. Sabia que ele realmente tinha nos visitado nos anos setenta, na época em que eu também morava aqui.”

“Hum.”

“Pois é, ontem me lembrei do nome, mas não tinha me lembrado da pessoa. Devo ter ficado com o cérebro entupido pelo personagem do Voltaire. Só agora, num relance, meio acordado meio sonhando, ainda deitado, me lembrei quem é o cara. Quase caí da cama.”

Eu ri: “Não vai me dizer que é um assassino psicopata…”

“Acho que falta bem pouco pra isso”, respondeu Mora Fuentes, em meio a um sorriso nervoso. “A questão é que, na última vez em que esse Candide esteve aqui, a Hilda o expulsou. O cara é completamente doido, pirado mesmo, Yuri. Ele conseguiu quebrar toda a harmonia da casa, deixava todo mundo irritado, tenso. Queria dar palpite em tudo, se intrometia em tudo e — o pior — achava que estava ajudando… Quando ele chegou, todo mundo estava ótimo; quando ele saiu, havia conflito sobre conflito, treta em cima de treta, todos os nervos em frangalhos… O Dante, que era o fortão da Casa, chegou a pegá-lo pelos fundos da calça e pela gola da camisa, e o atirou lá no meio do jardim. Entende? Do mesmo jeito que fazem esses leões-de-chácara nos night clubs hollywoodianos…”

“Caramba.”

“Agora não sei o que fazer.”

“Uê, Zé; é só não atender mais aos telefonemas dele.”

Mora Fuentes coçou a cabeça, suspirou: “O problema é que, com essa idéia de reviver os bons anos da Casa, pensei que ele realmente fosse um amigo antigo da Hilda e o convidei a vir aqui hoje. Ele ficou de fazer o almoço, Yuri”.

“Liga pra ele e cancela.”

“Já liguei e a pessoa que atendeu disse que ele já tinha saído, que está vindo de bicicleta.”

“Ai-ai-ai…”, resmunguei, já sentindo o dia que teríamos de enfrentar. “E a Hilda? O que ela disse?”

“Vou falar com ela agora. Quis te avisar antes pra você já se levantar e ficar esperto. Ele mora perto da UNICAMP, já deve estar chegando. Conforme for, teremos de unir nossas magrezas e jogá-lo juntos lá no meio do jardim”, e riu.

“Beleza, Zé. Vou reunir a tropa.”

Mora Fuentes saiu pelo átrio em direção ao escritório de Hilda. Quanto a mim, depois de me espreguiçar mortalmente por um ou dois minutos, fui ao banheiro. Nunca estou plenamente desperto antes dum banho. E ali, sob o chuveiro quente, fiquei me lembrando das inúmeras histórias de malucos atraídos pela lendária Casa do Sol. Hilda me contara vários casos, assim como seu ex-marido, Dante Casarini, o próprio Mora Fuentes e também J. Toledo, outro grande amigo dela. Todos tinham mil anedotas bizarras para narrar — personagens malucos a dar com o pau. E isso incluía não apenas visitantes ocasionais já conhecidos, como certos ex-namorados, mas até mesmo pseudo-gurus, leitores fanáticos, artistas surtados, caseiros birutas, cozinheiras hipocondríacas, faxineiras cleptomaníacas… um leque sem fim de gente desprovida de parafuso. Se Hilda tivesse vivido além de 2004, seu hipotético perfil no Orkut certamente teria participado da comunidade “Eu atraio loucos!”.

Houve, por exemplo, um caseiro muito mal encarado que respondia a tudo com monossílabos cavernosos e grunhidos gulturais. Quando ele cometia algum erro no trabalho, e alguém lhe chamava a atenção, seus monossílabos tornavam-se díssilabos, mas emitidos num tom ainda mais sinistro e imperscrutável, provavelmente envolvendo ameaças e imprecações. Ninguém nunca o entendia direito. O corolário disso é que ele acabava fazendo o que lhe dava na telha, já que as cabeças dos patrões, desorientadas e constrangidas por seus resmungos, costumavam se mover afirmativamente diante de suas propostas ininteligíveis, o que ele acabava interpretando como anuências voluntárias. Mas isso não durou muito. A certa altura, durante sua estada na Casa do Sol, cães começaram a desaparecer misteriosamente. E, é claro, todos sabiam que mexer com os cães da Hilda era o mesmo que mexer com ela. Assim, num final de semana em que esse caseiro fora visitar alguém em Campinas — aparentemente num puteiro —, Hilda instigou Dante e Mora Fuentes a entrar na casinha dele. Como tinham uma cópia da chave, foram revistá-la. Encontraram uma impressionante coleção de armas brancas: navalhas, punhais, adagas, facas de combate à la Rambo, espadas, espadins e por aí vai. E o pior: algumas tinham manchas de sangue! Ficaram chocados com a descoberta e Hilda, claro, apavorada. Colocaram tudo no lugar conforme haviam encontrado e, quando ele retornou, inventaram alguma desculpa mais ou menos esfarrapada para demiti-lo: falência geral, dívidas, doenças contagiosas, etc. E o sujeito, sempre grunhindo e resmungando, partiu dali a quatro ou cinco dias, sem causar qualquer problema, frustrando a paranóia geral.

“Anos depois, quando vi aquele filme com o Freddy Krueger, fiquei besta: o caseiro tinha uma camiseta listrada idêntica!”, comentou Mora Fuentes ao me narrar o causo.

No rol dos ex-namorados, marcou presença o próprio primo de Hilda: Wilson Hilst. Esse primo, segundo ela me confessou, havia sido seu último namorado e amante; e isso quando ela já alcançara os cinqüenta anos de idade. Contou-me inclusive que Ehud, personagem de seu livro A Obscena Senhora D, fora inspirado nele. Wilson, um homem dominador e de temperamento difícil, era piloto de avião e costumava visitá-la em sua Harley-Davidson Fat Boy. Cansada de suas paranóias e de seu ciúme doentio, Hilda decidiu findar o relacionamento, o que deu enorme trabalho a Mora Fuentes e a Dante (a essa altura ex-marido, mas ainda morador da Casa): ambos tiveram de negociar com o mancebo até a chegada da polícia, uma vez que, nessa ocasião, o amante manteve Hilda, ali mesmo na Casa do Sol, sob a mira de um revólver toda uma longa noite, ameaçando matá-la e suicidar-se em seguida.

“Você nem imagina o trabalho que essa mulher já nos deu…”, disse-me Dante, diante do olhar maroto de Hilda.

Anos após esse qüiproquó, Hilda acordou sobressaltada ao ouvir, adentrando sua chácara, o motor da Harley. Levantou-se, foi ao encontro do primo que tanto a amara, mas não encontrou ninguém. Ainda era madrugada, a casa estava vazia e a Lua iluminava o jardim fronteiro. Um tanto confusa, retornou a seu quarto e voltou a dormir. No dia seguinte, recebeu por telefone a notícia de que Wilson fora encontrado morto em seu monomotor — provavelmente assassinado por passageiros narcotraficantes.

Hilda atribuía essa “força de atração insana” não ao mistério que a cercava, mas à sua velha figueira, que supostamente teria poderes mágicos, e ao nome da chácara, afinal, o Sol costuma não apenas manter um grande número de planetas, planetóides e asteróides à sua órbita, mas também está sempre a atrair ocasionais cometas. Até mesmo o gaúcho Caio Fernando Abreu, então em sua fase de buscas, entrou para a lista de satélites desvairados. Esteve ali na Casa do Sol durante o ano de 1969, dando muito trabalho ao triângulo Hilda-Dante-Mora Fuentes, que se viu obrigado a fazer revistas periódicas ao quarto do então jovem escritor, o qual vivia deprimido e ameaçando suicidar-se. Qualquer objeto pontiagudo ou cortante, qualquer fio ou cordão que pudesse converter-se numa forca improvisada, comprimidos misteriosos, tudo era sistematicamente suprimido para evitar que Caio fizesse algum mal a si mesmo. Hilda me contou que Caio viu-se perseguido durante muitos anos por essa sombra temível, a morte — memento moris —, e que somente após descobrir-se um soropositivo entregou-se à Luz, passando finalmente a escrever-lhe cartas cheias de vida. Sim, de médico e louco…

“Yuri, gosto de você porque você é tão doido quanto eu”, confessou-me ela certa feita, sugerindo que, se eu fora parar ali, também devia retirar meu cavalinho da chuva da normalidade.

____

[Seguem mais 80 páginas, descrevendo um dos dias mais bizarros que vivi na Casa do Sol…]

3:51 pmHilda Hilst, o IPTU e a Chave da Cidade

Chave da Cidade

Quando Hilda Hilst faleceu, em 4 de Fevereiro de 2004, devia cerca de 800 mil reais de IPTU. Dois anos antes, a dívida era de 500 mil reais. Quando morei com ela, a dívida já era altíssima, salvo engano, aí pelos 300 mil reais. Mas, pouco antes de conhecê-la, quando a dívida já a assustava — ela caíra na armadilha de transformar uma área rural em loteamento, o que alterou o imposto de rural para urbano —, a Câmara de Vereadores de Campinas (SP) quis homenageá-la e, após votação, decidiu entregar-lhe a Chave da Cidade. Hilda foi então convidada para ir até a Câmara, mas deu de ombros: “Homenagem? Não quero homenagem, quero que revejam esse valor absurdo do meu IPTU”. Ela ganhava apenas 2000 reais por mês…

Os vereadores a esperaram em vão. No entanto, como a coisa já estava feita, decidiram enviar um representante à Casa do Sol, residência da autora, onde ele, um vereador (se não me falha a memória, o presidente da câmara), chegou todo sorridente com aquela Chave enorme nas mãos. O porteiro do condomínio anunciou a visita do sujeito, deixando Hilda irritada.

“Que petulância!”

Ela então, como costumava fazer em momentos assim, preparou sua performance: foi até o quarto e se “disfarçou” de velhinha. Sim, à época Hilda já tinha quase 70 anos de idade, mas seu espírito jamais faria alguém confundi-la com uma “velhinha”. Por isso, pegou duma bengala, jogou um xale sobre os ombros, encurvou-se e saiu caminhando como velhinha caquética até a entrada da casa, onde o vereador a esperava.

“Dona Hilda!”, começou ele, efusivo. “Vim lhe entregar a Chave da…”

“E o meu IPTU?”, cortou ela, seca.

Ele, pego de surpresa, gaguejou: “Mas, dona Hilda, nós… eu não tenho poder para isso… Vim apenas porque a Câmara resolveu lhe prestar uma homena…”

“O senhor por acaso já leu meus livros?”

Agora sim ele ficou branco. Engoliu em seco: “Não, senhora, nunca li nenhum dos seus livros”.

“Então, ponha-se daqui para fora. Meus leitores já me homenageiam quando lêem meus livros.”

O vereador ofendeu-se:

“Vim até aqui de boa vontade lhe prestar uma homenagem, lhe fazer um favor, e a senhora…”

“Favor o senhor faria se me chupasse a cona”, berrou ela, brandindo a bengala.

O vereador ficou roxo, não sabia onde enfiar a cara.

“Por favor, retire-se da minha casa”, tornou ela, com dignidade. “Vocês querem que eu pague uma fortuna para morar na minha própria casa e ainda acham que vão me comprar com uma chave idiota que não abre porta alguma? Pois diga a seus pares que os mandei enfiar, um de cada vez, a chave em seus respectivos cus. O senhor faça o mesmo.”

E então, desfazendo a corcunda, deu as costas ao homem e, pisando firme, imponente, caminhou para dentro de casa.

Até hoje ninguém sabe em qual excelentíssimo fiofó foi parar a chave.

3:51 pmDeclaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo

Comunismo = Nazismo

Como colaborador da Wikipédia, fiz uma tradução meia-boca do artigo sobre a “Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo” e da própria declaração, cujo texto propriamente dito é este:

A declaração clama:

1– “levar a toda Europa o entendimento de que os regimes totalitários nazista e comunista precisam ser julgados por seus próprios e terríveis méritos, isto é, por suas políticas destrutivas impostas mediante a aplicação sistemática de formas extremas de terror e a supressão de todas as liberdades civis e humanas, pela eclosão de guerras agressivas e — como parte inseparável de suas ideologias — pelo extermínio e deportação de nações inteiras e de grandes grupos populacionais; e por tudo isso tais regimes devem ser considerados os principais desastres que macularam o século 20”

2– “o reconhecimento de que muitos crimes cometidos em nome do comunismo devem ser considerados crimes contra a humanidade, servindo portanto como um aviso para as gerações futuras, tal como os crimes nazistas foram considerados pelo Tribunal de Nuremberg”

3– “a formulação de uma abordagem comum sobre os crimes dos regimes totalitários, nomeadamente dos Regimes Comunistas, e a ampliação em toda a Europa da consciência relativa a esses crimes comunistas, definindo claramente uma atitude comum para com eles”

4– “a introdução de legislação que dê permissão aos tribunais para julgar e punir os perpetradores dos crimes comunistas e compensar suas vítimas”

5– “garantir o princípio da igualdade de tratamento e não discriminação das vítimas de todos os regimes totalitários”

6– “a pressão europeia e internacional para a condenação efetiva dos crimes comunistas do passado e para a luta eficaz contra os crimes comunistas em curso”

7– “o reconhecimento do comunismo como parte integrante e terrível da história comum da Europa”

8– “a aceitação da responsabilidade pan-europeia nos crimes cometidos pelo comunismo”

9– “o estabelecimento do dia 23 de Agosto, o dia da assinatura do pacto Hitler-Stalin, conhecido como o Pacto Molotov-Ribbentrop, como o dia de recordação das vítimas de ambos os regimes totalitários, os regimes nazista e comunista, tal como a Europa recorda as vítimas do Holocausto em 27 de janeiro ”

10– “atitudes responsáveis dos Parlamentos Nacionais no que se refere ao reconhecimento dos crimes comunistas como crimes contra a humanidade, levando a uma legislação apropriada, e ao monitoramento parlamentar dessa legislação”

11– “o debate público eficaz sobre o uso comercial e político indevido dos símbolos comunistas”

12– “a continuação das audiências da Comissão Europeia sobre as vítimas de regimes totalitários, com vista à elaboração de uma comunicação da Comissão”

13– “o estabelecimento em países europeus, que tenham sido governados por regimes comunistas totalitários, de comitês compostos por peritos independentes, com a tarefa de recolher e avaliar informações sobre as violações dos direitos humanos a nível nacional sob o regime comunista totalitário, com vistas a colaborar estreitamente com um comitê de especialistas do Conselho da Europa”

14– “assegurar um quadro jurídico internacional claro visando um acesso livre e irrestrito aos arquivos que contêm informações sobre os crimes do comunismo”

15– “a criação de um Instituto da Memória e Consciência Europeias”

16– “a organização de uma conferência internacional sobre os crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários, com a participação de representantes de governos, parlamentares, acadêmicos, especialistas e ONGs, com resultados a serem amplamente divulgados em todo o mundo”

17– “o ajuste e revisão de livros de história da Europa para que as crianças possam aprender e ser alertadas sobre o comunismo e seus crimes, tal como são ensinadas a avaliar os crimes nazistas”

18– “o debate amplo e minucioso em toda a Europa da história e do legado comunista”

19– “a comemoração conjunta no próximo ano do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, do massacre da Praça Tiananmen e das mortes na Romênia”

A declaração cita a Resolução 1481 do Conselho da Europa, bem como “resoluções sobre os crimes comunistas adotadas por vários Parlamentos nacionais”. A Declaração foi precedida pela Audiência Pública Europeia sobre Crimes Cometidos por Regimes Totalitários.

9:29 amIsaac Bashevis Singer: o tédio, a alegria e a compatibilidade amorosa

Isaac Bashevis Singer

« Olhando para trás, para a minha vida, vejo que todas as minhas qualidades, boas e más, já estavam comigo naquele tempo. Até minhas idéias sobre literatura. Muitas vezes ouvira minha mãe e Joshua dizerem que boa parte das desgraças do mundo vinham do tédio humano. O tédio é tão doloroso, as pessoas arriscariam sua vida para escapar dele. Nações se cansam de longos períodos de paz, e tentam criar uma crise, um conflito, a fim de iniciar uma guerra. Alguns homens se cansam de sua vida familiar, e começam brigas que levam ao divórcio. Jovens de casas ricas deixam seus pais e procuram aventuras que os prejudicam. Na sala de meu pai eu escutava constantemente relatos de ferocidade e loucura humana. Alguns homens corriam para a América com outras mulheres, deixando suas famílias sem pão. Ouvia falar de moças que começavam uma vida de opróbio (eu não sabia exatamente o que era isso) porque seus dias e noites lhes pareciam tão tristes. Quando comecei a ler, vi que bons escritores sempre tinham algumas surpresas e mudanças imprevisíveis ao leitor. Meu irmão dissera que o casuísmo talmúdico fora desenvolvido entre judeus poloneses como meio de tornar a Torá mais divertida, de aguçar as mentes dos estudantes, de introduzir alegria no estudo e fomentar a competição dos eruditos. A Cabala de Isaac Luria, a crença em falsos messias como Sabbatai Zvi e Jacob Frank, bem como o chassidismo, eram todos criados para avivar o judaísmo, que estagnava sob regras rígidas dos rabinos e o rigorismo da lei. Ouvi meu irmão dizer que o Baal Shem, nascido no começo do século XVIII, tinha receio de que o Iluminismo seduzisse os judeus poloneses. O chassidismo pregava que a maneira de servir a Deus era através da alegria. Melancolia e tédio afastavam os homens de Deus.

« Quando comecei a fantasiar sobre me tornar um escritor, eu já entendera que os mestres sempre entretêm o leitor. Também podia ver que nada seduz tanto o leitor quanto uma história de amor. Eu lera na Guemará que para homens e mulheres encontrarem seus companheiros certos era um milagre tão grande quanto o Mar vermelho abrir-se em dois. Um bom casamento nem sempre acontece, e cada união é diferente. Os vários encontros de amor nunca se exauriam. Cada personalidade humana aparece só uma vez na história dos seres humanos. Assim, cada evento amoroso. A sala de reuniões de meu pai era como uma sala de aula para mim, onde eu podia estudar a alma humana, seus caprichos e anseios, suas barreiras. Ficava espantado ouvindo as intensas lamentações dos adultos, casais que pediam divórcio ou fim de noivado ou simplesmente vinham abrir seus corações para meus pais. Homens e mulheres ansiavam por serem felizes juntos, mas em vez disso acabavam em brigas tolas, acusações odiosas, várias mentiras e atos de traição. Cada um queria ser mais forte do que o outro, e muitas vezes rebaixar e denegrir o mais fraco. Às vezes sentia desejos de lhes dar conselhos eu mesmo, especialmente quando os casais eram jovens e bonitos. Muitas vezes me apaixonava pela moça e sua maneira de falar a respeito de seus problemas. Certa vez, um casal inusitadamente elegante veio procurar meu pai para pôr fim a um noivado. O rapaz acusava a moça de excessiva familiaridade com os amigos dele, e ela disse que o rapaz fazia o mesmo com as amigas dela. De repente, o rapaz deu uma bofetada na moça. Ela tentou devolver o tapa, e por algum tempo brigaram como duas crianças. Mais tarde, depois que meus pais os tinham acalmado, e os dois iam embora, o rapaz pegou-a pelo braço e beijaram-se. Lembro de ter pensado: “É disso que deve tratar a literatura”. Ouvi minha mãe dizer:

« — Tão bonitos e tão doidos. Seria um pecado se separarem.

« Lembro um caso em que um homem idoso acusava sua esposa — era a segunda esposa dele — de salgar demais sua comida. Os médicos o tinham proibido de comer muito sal, pimenta e outros temperos fortes. Mas não importava o quanto ele suplicava à mulher que usasse menos sal e pimenta, ela sempre punha um monte na comida. Meu pai perguntou à mulher por que ela não fazia o que seu marido lhe pedia. E citou o Guemará dizendo que “uma esposa Kosher cumpre os desejos do esposo”. A mulher disse que não podia cozinhar sem sal e temperos porque a comida ficava sem gosto. Minha mãe disse: “Você pode colocar o sal depois. Sal tem o mesmo gosto se a gente o coloca na panela ou no prato”. Mas a mulher disse que não era assim. Nos olhos dela eu podia ver a teimosia de uma camponesa que meteu uma coisa na cabeça e jamais se libertará dela. Ela disse à milha mãe que, se Deus quisesse, encontraria um homem que não metesse a cara nas panelas. Seu sorriso revelava más intenções. Talvez ela quisesse que seu marido ficasse doente e morresse.»
____

Trecho de Amor e Exílio, de Isaac Bashevis Singer. (Tradução de Lya Luft.)