Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Tchau, Kid!

Kid Vinil morreu e o que me vem primeiro à memória é o Boca Livre, na TV Cultura, um programa no qual se apresentavam as mais diversas bandas de rock, e do qual ele foi apresentador. Acompanhado por amigos, fui a três desses programas, no auditório da Avenida Tiradentes. Creio que descíamos do metrô na Estação da Luz e, em seguida, formávamos uma longa fila sob aquela passarela coberta de vidro ou talvez de acrílico, sei lá, num frio de entortar os ossos, e aguardávamos pela abertura dos portões. Vi apresentações d’Os Inocentes, d’As Mercenárias, d’Os Replicantes (salvo engano) e assim por diante. Quando havia bandas punks, a platéia mantinha-se à beira da conflagração: os caras pogavam por todos os cantos e se atiravam sobre as cabeças de quem permanecia sentado num nível inferior do auditório. O programa era ao vivo e, durante cada intervalo comercial, Kid Vinil tentava conter os ânimos — inutilmente, claro, pois, se uma manada de adolescentes já é uma coisa intratável, imagine uma de adolescentes punks… Enfim, chegava sempre o momento em que Kid Vinil perdia a paciência, mas não perdia a compostura — ao menos não na imagem da TV. Quando anunciavam o final do intervalo, e o programa voltava a ser transmitido, começava a gritaria: “Kid viaaaaado!”. Kid Vinil então fazia um gesto com as duas mãos — uma acima da cabeça, outra na altura do plexo — solicitando ao câmera para fechar o plano nesses pontos. Com a imagem em close e os punks xingando-o com todos os palavrões possíveis, Kid permanecia impassível, falando e sorrindo para o público de casa, enquanto, fora do quadro, mostrava o dedo médio em riste para a platéia de punks, que, claro, se rejubilava com aquilo.

Uma noite, cerca de uma década mais tarde, eu o encontrei na Torre do Dr. Zero, na Vila Madalena, e lhe contei essa história. Ele riu e me disse:

— Meu! Era muito foda!

Suas músicas eram ingênuas e engraçadas, Kid, e nós, adolescentes bem-humorados daquela época, nos divertimos com você. (Não fui “boy”, mas fui auxiliar de escritório: quase a mesma coisa.) Boa viagem, hombre.

Uma loira e um anão

Já estou naquela época do ano em que, ao pensar em Game of Thrones, só me lembro que na série há um anão beberrão e uma loira baixinha que cria lagartos voadores. Ainda bem que só assisti a Breaking Bad depois que todas as temporadas estavam disponíveis no Netflix. Esses intervalos… É como ler um quinto de Guerra e Paz ao longo de seis meses, outro quinto um ano depois (ao longo de mais seis meses) e assim por diante. Os meses em branco, longe da narrativa, eliminam da memória todos os personagens secundários, assim como muitos outros detalhes.

Atmosfera

Naquele dia, notei a atmosfera melancólica, quase fúnebre. A UnB praticamente deserta, a biblioteca entregue às traças, o silêncio espraiado por todos os cantos. Sem encontrar vivalma para conversar, passei o dia inteiro retirando os mais diversos livros das estantes. Li horas e horas a fio. Ao caminhar por ali, cruzei com pouquíssimas pessoas, a maioria funcionários, todos cabisbaixos. Somente às 22 horas deixei a biblioteca e me dirigi ao alojamento. Quando entrei no meu apartamento, disse a um colega que o dividia comigo:

— Nossa, o clima hoje tá tão esquisito. Todo mundo tão macambuzio…

E ele: — Ué, você não sabe?

— Não sei o quê?

— Em que mundo você vive, Yuri? O Ayrton Senna morreu!

— Morreu?! Morreu de quê?

— Num acidente, claro. Na corrida de hoje.

Ué, pensei, mas ele não era infalível, quase imortal? Minha primeira reação foi correr até o orelhão e telefonar ao meu pai, que, enquanto falava comigo, chorou copiosamente. Para meu pai, Ayrton Senna também era um filho.

Humilhação

Quando falam em “pobreza humilhante”, sempre me lembro dos garotos da favela próxima à rua onde cresci, em São Paulo: seus enormes carrinhos de rolimã humilhavam tremendamente o meu! Pesados, cheios de badulaques, bancos, encostos, freios… O meu era tão pequenininho, tão levinho… Nunca ganhei deles uma corrida sequer!

“E” fechado

Paulistano que é mesmo paulistano gosta tanto de um “e” fechado que até meu nome, quando berrado por um deles, sai assim: “Yurêêêêêêêê!”. Alguns casais, vizinhos na rua da minha infância, tratavam-se mutuamente por “benhê”.

— Benhêêê! A nenê tá chorando!

Da mesma forma, é muito mais fácil, na capital paulista, entre paulistanos “da gema”, ouvir um “uê” do que um “ué”. Eu sempre notei essas diferenças porque, apesar de ter nascido e crescido em São Paulo, metade dos meus parentes são cariocas e a outra, goianos. (Sem falar nos parentes distantes baianos e mineiros…) Enfim… o caso é que o revisor do meu livro certamente é carioca: troca todos os meus “uê”s por “ué”s.

— Ué! Por que você usa esse monte de acento circunflexo? Tá errado isso.

— Uê, meu. Você nunca esteve em São Paulo? A maior parte dos meus personagens são paulistanos.

Não estou reclamando, estou apenas achando engraçado. A área de comentários no modo de revisão do Word chega a ser divertida.

Por que Bruno Tolentino chateava Hilda Hilst

Conforme escrevi n’O Garganta de Fogo em 2003, devido às “fofocas literárias” que eu andava postando, um amigo falecido em 2009, o escritor José Luis Mora Fuentes, me disse ao telefone que eu estava parecendo “a Hebe Camargo da literatura”. Bem, um dos temas de conversação mais apreciados pela Hilda Hilst — mediante a qual conheci Mora Fuentes — era justamente os detalhes bizarros e picantes da vida de autores consagrados já falecidos. Sim, é óbvio que essas informações não levam a nada, são futilidades e de nada ajudam na compreensão das respectivas obras, que muitas vezes permanecem além da compreensão do próprio autor. Contudo, se essas conversas não elevavam nossas almas, ao menos nos faziam dar muitas risadas. E todo esse preâmbulo é apenas para explicar por que, a certa altura da estada de Bruno Tolentino na Casa do Sol — residência de Hilda —, ela começou a se chatear com a presença dele.

Os amigos esquerdistas dela podem jurar de pés juntos que foi por causa da ligação dele com Olavo de Carvalho, ou porque ele, sozinho, já era muito reaça, ou então porque Bruno gostava de discorrer interminavelmente sobre o cânone literário e sobre o verdadeiro significado de cada escritor na história da literatura, coisa que, em seus últimos anos, aborrecia Hilda grandemente. Enfim, eu estava lá e não foi nada disso. O fato é que toda noite Hilda se punha diante da TV para assistir às suas novelas e, ainda de ir dormir, a um filme qualquer. Antes da chegada de Bruno, de modo geral, apenas eu e Hilda participávamos dessas sessões cinéfilas, recorrendo a um velho aparelho VHS. Noutras ocasiões, estavam também presentes o próprio Mora Fuentes, Edson Costa Duarte (amigo dela, mais conhecido pelo apelido de “Vivo”) e Chico, o caseiro. Hilda tinha grande intimidade conosco e se comportava como bem queria, sentada na sua poltrona, bebericando o seu uísque ou o seu vinho, entre os dedos o cigarro Chanceller (“o fino que satisfaz”) e assim por diante. E é nesse “assim por diante” que estava o busílis…

Uma noite, durante um dos muitos filmes a que assistíamos juntos, já acompanhados por Bruno Tolentino e por Antônio Ramos, seu secretário ex-morador de rua, Hilda permaneceu num silêncio constrangedor, evitando responder às perguntas e aos comentários feitos por Bruno ou por qualquer um de nós, tanto ao longo quanto ao final do filme. Naquela ocasião, ela parecia especialmente rabugenta, disparando-nos olhares ferinos em momentos que, em si mesmos, não traziam nenhuma pista das suas ocultas razões. Isto ocorreu, segundo minhas anotações, quando Bruno já estava na casa conosco havia quase nove meses. O caso é que Bruno, percebendo que não haveria debates sobre o filme, e já cansado, levantou-se da cadeirinha — ele jamais dividia o sofá com os inúmeros cachorros — e, acompanhado por Antônio, retirou-se para seus aposentos. Um ou dois minutos após sua partida, Hilda virou-se para mim e me perguntou quanto tempo Bruno ainda pretendia permanecer na casa.

— Não sei, Hilda. Mas ele deve viajar para o Rio, onde ficará hospedado com a velha babá dele.

— Não tenho nada contra o Tolentino — disse ela. — Mas acho que ele já devia ir embora.

Mora Fuentes, que era de esquerda e não simpatizava nem um pouco com os pontos de vista explicitados por Bruno em nossas inúmeras discussões, interveio:

— Uê, Hilda. Se você quiser, a gente conversa com ele.

Ela fez um muxoxo, suspirou e decidiu se explicar: — Ele parece levar tudo muito a sério, até quando conta anedotas. Se pelo menos eu me sentisse mais à vontade na presença dele…

Eu estranhei: — Uê, Hilda. E desde quando você não se sente à vontade na sua própria casa? Não vejo diferença.

— Não vê? — perguntou, fitando-me diretamente nos olhos. — Então ouça.

E então, apoiando os cotovelos na mesinha à sua frente — na qual conservava invariavelmente o cinzeiro e o copo de uísque — inclinou-se para frente, ergueu a bunda e, para nosso espanto, soltou um sonoro e interminável peido. Caímos na gargalhada.

— É verdade! — comentei. — Você nunca peida quando o Bruno está aqui na sala com a gente.

— Pois é, eu fico a ponto de explodir! — retrucou, com sua modulação de menina sapeca.

— Ai, Hildeta! — Mora Fuentes não parava de rir. — E qual o problema de peidar na frente do Bruno? Os incomodados que se mudem!

— Eu não! — tornou ela, cheia de dignidade. — Ele não está sempre nos contando que esteve na Academia Brasileira de Letras conversando não sei com quem? Cada vez que volta do Rio, ele traz uma fofoca nova de um escritor que eu nem sabia que ainda estava vivo. Se eu peidar na frente dele, logo todos os escritores do Brasil vão dizer que, além de eu ser uma velha louca com a casa abarrotada de cachorros, também sou uma desavergonhada peidorreira. Nem pensar.

No dia seguinte, tivemos de dizer ao Bruno que Hilda não andava muito bem de saúde e que desejava uma casa menos movimentada. Felizmente, aplacando nosso constrangimento, Bruno respondeu que havia acabado de encontrar outro lugar para morar e que, inclusive, já estava encaixotando suas coisas, o que era verdade. Em suma: Bruno Tolentino deixou a Casa do Sol… movido a gases!

De quando fui expulso da Casa do Sol

Em fins de 1999, numa tarde, Hilda Hilst me chamou ao seu escritório e, lá, sem meias palavras, com ar sombrio, me expulsou de sua casa. Disse que eu deveria arrumar minhas coisas e sair na manhã seguinte. Eu quis saber por que, já que sempre nos déramos tão bem, sem esquecer de acrescentar que meu trabalho no site dela ainda permanecia inconcluso. Não quis me esclarecer nada, nem ouvir qualquer argumento, disse apenas que eu já não era bem-vindo.

— Tudo bem, Hilda — respondi, calmo na superfície mas sentindo a adrenalina no sangue. — Vou apenas telefonar a São Paulo e ver se posso voltar a morar com meus amigos.

— Faça isso.

Voltei ao meu quarto, que também era a biblioteca, e comecei a empacotar as coisas. Havia sido um ano e tanto.

À noite, apesar de manter-se cortês, ela mal me dirigiu a palavra. Chico, o caseiro, foi solícito comigo e externou sua decepção.

— Vamo sentir sua falta. Isso é armação desses cabra.

— Agora já não interessa, Chico. ¿Fazer o quê?

Às seis da manhã do dia seguinte, eu ainda ressonava quando o ramal do meu quarto tocou. Acordei e o atendi: era Hilda.

— Yuri, querido — disse, a voz embargada. — Me encontra lá no escritório. Aconteceu uma coisa incrível!

Eu me vesti rapidamente, coloquei meu robe alemão — eu adorava meu robe de chambre alemão — e corri para o escritório. “O que será agora?”, pensava enquanto atravessava o átrio.

— Yuri! — disse ela, ainda descabelada, assim que entrei. — Você não vai embora. Você vai ficar aqui.

— Ué, Hilda. ¿Por que mudou de idéia?

Ela arregalou os olhos, comovida: — Eu acabo de ter um sonho vivíssimo! Uma coisa deslumbrante! Eu estava sentada na sala e alguém, um homem lindíssimo, me dizia que eu estava cometendo uma injustiça, um erro horrível. E eu perguntava “¿que erro? ¿que erro?”. E ele então me disse que você devia ficar na casa, que você é de confiança. E disse outras coisas que agora não consigo me lembrar, mas que me deixaram besta na hora.

Fiquei encarando-a, mudo, meio desconfiado, sem saber se aquilo não seria apenas uma maneira de — sem a necessidade de justificativas concretas — voltar atrás na decisão. Mas então acrescentou, sôfrega:

— ¿Você está com aquele seu livro sobre escritores e experiências extra-sensoriais?

— ¿Escritores e Fantasmas? Não, deixei em São Paulo.

Ela começou a olhar em torno, procurando por outros livros relevantes:

— Fazia muito tempo que eu não sonhava assim. ¿Cadê aquele livro do Cowper Powys? Ele fala muito de sonhos. Bossa louco mesmo… Parece que até se masturbava para ter sonhos e sair do corpo — e Hilda deu uma risada. — Eu não fiz nada disso ontem…

Eu a interrompi: — Hilda, ¿por que você queria que eu fosse embora?

Ela caiu das nuvens e me encarou, um olhar dolorido: — Desculpa, Yuri. Às vezes a gente se deixa levar pelas besteiras que dizem. Não pensa mais nisso.

E não pensei. Contudo, meses depois, a própria Hilda, sem dar por isso, e como se eu já estivesse inteirado do assunto, tratou do ocorrido. Um velho amigo dela, sabedor de que eu estava preparando seu site, lhe telefonara naquela mesma tarde e lhe dissera que eu era um hacker, que havia invadido a conta de email dele e deletado todas as mensagens referentes a ela, pois eu certamente pretendia ser seu único porta-voz na internet! Claro que Hilda, que desconhecia tudo de computadores, e ciente das várias vezes em que a apunhalaram pelas costas, preferiu acreditar num amigo de décadas a acreditar noutro que conhecia havia pouco mais de um ano. Ao ouvir o relato, ri comigo mesmo: eu — que estava apanhando da linguagem HTML enquanto fazia seu site — um hacker! E a verdade é que a descoberta do autor da intriga não me causou estranheza: ¿quantas vezes, num dia em que nos encontráramos meses antes, ele não insistira na mesma tecla? Dois amigos dele, jornalistas do Estadão, lhe tinham dito que Olavo de Carvalho representava o “mal absoluto” e que eu devia parar de ler o site dele. Como eu sempre comentava os artigos do Olavo com Hilda, ela certamente havia tocado no assunto com esse amigo. Hilda nada tinha contra essas leituras, afinal, anos antes, ela mesma havia conhecido Olavo numa livraria de propriedade dele em São Paulo, tendo-o convidado ao seu apartamento no qual, juntamente com outro amigo, passaram toda uma tarde rindo e conversando. Hilda, enfim, tinha uma boa lembrança do Olavo. Aliás, durante o aniversário de 70 anos dela, no ano 2000, ouvi a mesmíssima coisa dos tais jornalistas, petistas de carteirinha: “Olavo de Carvalho representa o mal absoluto”. Mal absoluto! Meu saquito… (Claro, para a doença o remédio é sempre um mal.)

Eu ainda me ria internamente da acusação quando Hilda, sem perceber, apresentou um argumento contrário àquela possível causa da intriga:

— Ele fuma maconha demais. Vai ver ele mesmo perdeu os emails.

Até hoje não sei qual das duas paranóias tinha relevância no caso: se a minha, ao associar esse “anti-olavismo” à intriga, ou a do tal amigo, a qual, ocasionada pelo uso crônico de maconha, poderia tê-lo levado a se confundir com seus emails e a imaginar que o webmaster de Hilda Hilst não era senão um hacker. Se a magia, tal como afirma o hermetista cristão Valentin Tomberg, é uma técnica de ação cujo veículo é a palavra, a fofoca e a maledicência serão sempre as formas mais difundidas de magia negra…

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Este relato constará do livro “O Exorcista na Casa do sol”, ainda em produção.

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