11:51 pmMario Vargas Llosa no Roda Viva

12:11 pmLobão com a boca no trombone

Lobão

Entrevista de Lobão à Folha de São Paulo:

Presidente Dilma e a Comissão da Verdade
Ela foi terrorista. Ela sequestrou avião, ela pode ter matado. Como que ela pode criar uma Comissão da Verdade e, como presidenta, não se colocar? Deveria ser a primeira pessoa a ser averiguada. Você vai aniquilar a história do Brasil? Vai contar uma coisa totalmente a favor com esse argumento nojento? Porque eles mataram, esquartejaram pessoas vivas, deram coronhadas, cometeram crimes.

O estopim, a causa da ditadura militar foram eles. Desde 1935, desde a coluna Prestes, começaram a dar golpes de Estado. Em 1961, começaram a luta armada. Era bomba estourando, eu estava lá. Minha mãe falava: você vai ser roubado da gente, o comunismo não tem família.

Quase um milhão de pessoas saíram às ruas pedindo para o Exército tomar o poder.

Acham que a junta militar estava a fim de dominar o Brasil? Não vejo nenhum desses presidentes militares milionário. E massacram os caras.

Regime militar
Não acredito em vítima da ditadura, quero que eles se fodam. Eu fui perseguido, passei quatro anos perseguido por agentes do Estado. Por que eu tinha um galho de maconha? Me botaram por três meses na cadeia. Nem por isso eu pedi indenização ao Estado. Devo ter sofrido muito mais do que 90% desses caras que dizem que foram torturados.

PT
Esses que estão no poder, Dilma, Emir Sader, Franklin Martins, Genoíno, estavam na luta armada. Todos esses guerrilheiros estão no poder. Porra, alguma coisa está acontecendo! Em 1991, só tinha um país socialista na América Latina, hoje são 18. São neoditaduras pífias. A Argentina é uma caricatura, o Evo Morales, o Maduro. Vão deixar o comunismo entrar aqui? É a mesma coisa que botar o nazismo. A América do Sul está se tornando uma Cortina de Ferro tropical. Existe uma censura poderosíssima perpetrada por uma militância de toupeiras. Quem está dando golpe na democracia são eles, o PT está há dez anos no governo.

Golpe de Estado
Todo mundo fala da ditadura, do golpe militar, isso nunca esteve tão vivo. Os militares estão cada vez mais humilhados. As pessoas têm que entender que nenhum país civilizado conseguiu ser um país com suas Forças Armadas no Estado em que está a brasileira. Eles fizeram a Força Nacional, uma milícia armada, uma polícia política. Está tudo pronto para vir um golpe e as pessoas não estão vendo.

Ministério da Cultura
Se você tirar o Ministério da Cultura, o que não é sertanejo universitário morre. Eu recusei R$ 2 milhões do Ministério da Cultura para fazer uma turnê. O ministério libera tudo, e impressionam as temáticas: bandas mortas se ressuscitam para comemorar um aniversário de vida que não tem!

O próprio Barão Vermelho! Todos pediram grana [via lei de incentivo]: Barão, Paralamas.

O Gilberto Gil é o rei, um dos que mais pedem [recurso via Lei Rouanet]!

O cara foi ministro! Como é que as pessoas podem aturar isso? A Paula Lavigne é a rainha [da Lei Rouanet].

Por que os intelectuais brasileiros, diante de uma situação asquerosa como esta, ficam calados?

Tropicália
Todos esses mitos da Semana de 22 foram perpetuados por movimentos como o concretismo, o cinema novo, a Tropicália.

Sempre tive muito desinteresse pela Tropicália. Tom Zé, Jards Macalé e João Donato sempre foram melhores do que os que estão aí hoje representando o movimento, tanto o da bossa nova quanto o da Tropicália. João Donato dá de mil no João Gilberto porque ele é um puta compositor e pianista. Mas nunca tem o mérito, é tudo o pistolão, quem tem amigo, é da máfia. É conchavo o tempo todo. O Gilberto Gil, a Preta Gil, é um absurdo. Ganhou um império atrás dos benefícios do pai.

Rap
Os Racionais são o braço armado do governo, são os anseios dos intelectuais petistas, propaganda de um comportamento seminal do PT. Não acredito em cara ressentido.

Emicida, Criolo, todos têm essa postura, neguinho não olha, não te cumprimenta. Vai criar uma cizânia que nunca teve, ódios [raciais] estão sendo recrudescidos de razões históricas que nunca aconteceram aqui.

Estão importando Black Panthers, Ku Klux Klan. Tem essa coisa de “branquinho, perdeu, vamos tomar seu lugar”. Como permitem esse discurso?

Por que os intelectuais brasileiros ficam calados? Ora, Olavo de Carvalho vem explicando isso desde 1996…

4:54 pmO Império da Lei

O professor Tom W. Bell, da Chapman University School of Law, explica por que o Império da Lei é fundamental para uma sociedade livre e tolerante.

10:18 amO rei Salomão e o matrimônio gay

O Rei Salomão

Enquanto isso, em 950 a.C., no palácio do Rei Salomão:

— Majestade, esses dois homens requerem vossa autorização para unir-se em matrimônio.

— Matrimônio? Aquele consórcio derivado do vocábulo que os romanos inventarão no futuro para referir-se a “mãe”?

— Não sei, majestade. Vossa alteza é que sois o sábio aqui.

— Certo, certo. Hum. Não ficariam satisfeitos apenas com um documento reconhecendo sua união civil?

— Não, majestade. Eles querem um matrimônio; e que seja realizado no templo.

— Entendo. Fazei o seguinte: ponde-os em cativeiro, se eles conseguirem se reproduzir, libertai-os e deferi a petição.

— Sim, vossa majestade.

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P.S. do dia 30/05/2013: Pessoal, esse esquete já se espalhou pela internet mediante emails (a maior parte das visitas tem essa origem), blogs, fóruns e redes sociais (basta jogar uma das falas no Google ou no FB, entre aspas, para se obter uma confirmação), em geral sem referência à minha autoria, o que não me incomoda em nada, já que, quando descobrem que sou o autor, lá vêm mil emails para me encher o saco e me atazanar. (E já tem até gente sendo censurada por minha causa.) O negócio é o seguinte: eu apenas tentei imaginar o que Salomão teria dito sobre o tema, nada mais, nada menos. E percebam que ele foi até um sujeito bacana, perguntou se “união civil” não seria o suficiente… Além disso, tal como afirmei no comentário abaixo, creio que Salomão, tal como no caso das mães que disputavam o bebê, estava apenas blefando, convicto de que os dois solicitantes desistiriam do intento de alterar a doutrina religiosa vigente. Eu, pessoalmente, não tenho absolutamente nada contra quem quer que seja, cada um que faça o que bem entender, contanto que não incomode o seu próximo. Aliás, tenho amigos de todo tipo, gays, extraterrestres e assim por diante. Na verdade, o que não me agrada é que um grupo se arrogue privilégios com fins políticos completamente alheios às razões alegadas. E, se alguns membros desse grupo não percebem que há outras razões subterrâneas, não passam então de inocentes úteis que deveriam informar-se melhor. (No caso dos homossexuais, sugiro o blog Gays de Direita e o artigo “Um homossexual condena os ‘direitos homossexuais’“.) É isto. Agora, por favor, parem de sobrecarregar meu formulário de contato e os comentários deste post com ofensas. (Os comentários sofrem moderação e eu estou cantando e andando para essa briga, logo, economizem seu tempo.) Obrigado.

8:37 amA importância da educação

Discurso do Dr. Benjamin Carson, médico neurocirurgião, no National Prayer Breakfast de 2013. (Ative as legendas.)

3:54 pmA “pílula vermelha” de Yuri Bezmenov: subversão, desmoralização, desestabilização, crise, normalização

Yuri Bezmenov

Abaixo, no primeiro vídeo, Yuri Bezmenov fala longamente sobre sua própria vida antes de abordar mais a fundo o tema que realmente importa: como destruir e dominar uma nação (ou várias nações) sem disparar um único tiro mediante a “subversão”. (Você se lembra quantas vezes ouviu a respeito de “subversivos” sem saber exatamente o que o termo queria dizer? No máximo, você imaginava Fernando Gabeira usando tanga de crochê em Ipanema — mas a coisa vai muito mais longe!) No segundo vídeo, que também já postei várias vezes tanto no Twitter quanto no Facebook — como diz Julie Terres, uma amiga, este é um vídeo de cabeceira –, Bezmenov vai direto ao assunto: explica detalhadamente as diversas fases da subversão, isto é, discorre sobre a desmoralização, a desestabilização, a crise e a normalização. Quem acredita que suas próprias concepções sobre religião, educação, sexualidade, cultura, “justiça social”, etc. são muito avançadas, espertas, esclarecidas e puras devia assistir a esta palestra para meditar sobre o quão “idiota útil” talvez esteja sendo…

Claro, a luta pelo poder no mundo já não possui exatamente os mesmos “protagonistas” citados, mas as técnicas descritas — que remontam a Sun Tzu (vide A Arte da Guerra) — continuam sendo utilizadas a torto e a direito, principalmente por aqueles que objetivam o estabelecimento de um governo mundial. (Na melhor das hipóteses, de uma hegemonia mundial.) Enfim, deixe de frescura, deixe de rotular quem entende do assunto de “teórico da conspiração” — como se conspirações não pudessem ocorrer até mesmo em sua cama (vide “amantes” e “largue sua mulher/marido para ficar comigo!”) — e assista à exposição de um especialista no assunto, um sujeito que passou metade da vida trabalhando para a KGB como um “enganador profissional”.

Bezmenov fala de sua vida e da fuga para o Ocidente:

Bezmenov descreve as quatro fases da subversão:

8:32 amSe beber…

menor_volante

— Ah, não! Uma blitz!! Anda, filho, troca de lugar comigo, rápido!

— Mas, pai, eu…

— Vamos logo! Quer ver seu pai na cadeia, é? Não viu que eu bebi uma taça de vinho na casa da sua avó?

— Mas…

— Não tem mais nem menos! Vai, se mexe.

— Pai, eu tenho doze anos de idade! O senhor ficou maluco?

— Não se preocupe, é como aquele carrinho de bate-bate do parque de diversões, não tem mistério.

— Mas aí tem três pedais. E eu não sei usar essa alavanca da marcha.

— O câmbio.

— É, não sei usar o câmbio.

— Eu engato a primeira aqui e você vai devagarzinho até lá.

O menino obedece e, não conseguindo parar, enfia o carro na lateral do carro da polícia, que resulta bastante amolgado.

— Que sorte! —, diz a mãe ao telefone minutos depois. — Imagine se eles tivessem usado o bafômetro em você.

— Pois é. Estaria perdido, um crime bem pior.

— E de onde você tirou essa idéia?

— Uê, dos traficantes, claro. Eles não usam menores de idade para cometer crimes e se safarem em seguida?

— Genial, meu bem! Genial!

11:25 amO adiamento da Nova Ortografia

Em vista do adiamento para 2016 da famigerada Reforma Ortográfica, vale a pena ler de novo os artigos do professor Cláudio Moreno — os melhores que li sobre o tema —, afinal, talvez ainda haja tempo para reformar a reforma.

São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:

01 ─ Deixem a nossa ortografia em paz!
02 ─ Esqueçam essa reforma!
03 ─ O pesadelo de Cassandra
04 ─ O pesadelo de Cassandra continua
05 ─ O que muda na ortografia?
06 ─ Mudanças na ortografia
07 ─ Não compre o novo VOLP! (1)
08 ─ Não compre o novo VOLP! (2)
09 ─ Não compre o novo VOLP! (3)
10 ─ Não compre o novo VOLP (4)

7:55 amPasseata Contra o eBook

A Associação Nacional de Livrarias está mostrando que é tão inteligente e visionária quanto os organizadores e participantes da famigerada (e estúpida) Passeata Contra a Guitarra Elétrica, nos idos dos anos 60. Claro, não se trata de mera burrice, mas de covardia e esperteza do pior tipo. Sempre que empreendedores recorrem ao Estado para se defender da justa concorrência e, neste caso, da inovação, quem sai perdendo é o consumidor. Segundo afirma o Estadão:

Bicho-papão digital

Enquanto Amazon e Companhia das Letras fechavam contrato – o anúncio foi feito ontem -, a Associação Nacional de Livrarias, que representa as independentes, já se articulava para mandar carta em que expõe alguns receios com relação ao livro digital para Dilma Rousseff, Marta Suplicy e entidades do livro. Fará isso na próxima semana. Entre as sugestões, a de que a diferença de preço entre e-book e livro físico seja de até 30%. E no caso da editora que vende diretamente ao consumidor, que o desconto não exceda 5%.

Diz, com razão, o blog Revolução eBook:

O primeiro passo deveria ser, o quanto antes, adotar uma nova postura. É melhor encarar de frente a mudança tecnológica e se adaptar o mais rápido possível. Esse deveria ser o foco. Uma abordagem prática, para buscar soluções que não dependam dos outros, especialmente do governo. Sem pensar que o “novo” é sinônimo de “problema”. Há exemplos de outras associações de livreiros. que encararam o mercado digital com objetividade e procuraram se inserir de algum modo. Por que a ANL não se inspira na American Booksellers Association, que fez acordo com a Kobo, nos EUA, quase nos mesmos moldes que a Livraria Cultura, para inúmeras livrarias independentes? Ou, ainda, como fez a Australian Publishers Association, com o mesmo objetivo, na parceria com a The Copia?

Pessoalmente, só posso me sentir pessimista frente à possível reação do governo diante dessa proposta da Associação Nacional de Livrarias. O “Partido” já mostrou diversas vezes sua cara. Espero que ela, a proposta, se perca nas entranhas burocráticas de Brasília.

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Publicado no Digestivo Cultural.

7:21 amC. S. Lewis: “É o leitor instruído que pode ser enganado”

C. S. Lewis

A Fada não deu resposta alguma a isto, e a pressão constante do braço dela obrigou Mark, a não ser que estivesse preparado para lutar, a seguir com ela pelo corredor. A intimidade e autoridade do aperto era jocosamente ambíguo e ter-se-ia adaptado quase igualmente bem às relações entre polícia e preso, amante e amante, ama e criança. Mark sentiu que, se encontrassem alguém, pareceria um tolo.

Ela o levou para o seu próprio gabinete que era no segundo andar. A sala exterior estava cheia daquilo que ele já tinha aprendido a chamar Waips, moças da Polícia Institucional Auxiliar Feminina. Os homens desse serviço, embora muito mais numerosos, não se encontravam tantas vezes dentro de casa, mas sempre se viam Waips voando para cá e para lá, sempre que aparecia Miss Hardcastle. Longe de partilhar as características masculinas da sua chefe, eram (como dissera Feverstone uma vez) «femininas ao ponto de imbecilidade», pequenas e delgadas e penugentas e cheias de risos abafados.

Miss Hardcastle comportava-se com elas como se fosse um homem e se dirigia a elas em tons de galanteria meio jovial, meio feroz.

— Cocktails, Dolly — apregoou ela quando entraram na sala exterior. Quando chegaram ao gabinete interior, fez Mark sentar-se, mas ficou ela própria de pé, com as costas para o fogo e as pernas bem separadas. As bebidas foram trazidas e Dolly retirou-se, fechando a porta atrás dela. Mark tinha contado os seus agravos, resmungando, no caminho.
 
— Deixe disso, Studdock — disse Miss Hardcastle. — E faça o que fizer, não vá maçar o DA [Diretor-adjunto]. Já lhe disse que não precisa de se preocupar com toda essa gente pequena do terceiro andar, contanto que o tenha a ele do seu lado. Que presentemente tem. Mas não terá se continuar a ir até ele com queixas.

— Isso seria muito bom conselho, Miss Hardcastle — disse Mark —, se eu já tivesse o compromisso de aqui ficar. Mas não tenho. E por aquilo que já vi não gosto do local. Já quase decidi a ir para casa. Pensei apenas que era bom ter uma conversa com ele primeiro, para pôr tudo claro.

— Pôr as coisas a claro é a única que o DA não pode suportar — replicou Miss Hardcastle. — Não é assim que ele dirige este lugar. E lembre-se, ele sabe o que faz. Funciona, meu filho. Ainda não faz idéia alguma como funciona bem. Quanto a largar isto… você não é supersticioso, pois não? Eu sou, não penso que dê sorte deixar o NICE [Instituto Nacional de Experiências Coordenadas, uma organização de natureza totalitária]. Não precisa maçar a cabeça por causa de todos os Steeles e Cossers. Isso faz parte da sua aprendizagem. Neste momento fazem-no atravessar isso, mas, se agüentar, acaba por ficar por cima deles. Tudo o que tem de fazer é ficar quieto. Nenhum deles vai ficar aqui quando começarmos a andar.

— Foi essa a linha seguida por Cosser e Steele, justamente — disse Mark — , e não me pareceu que me sirva de muito quando chegar a hora.

— Sabe, Studdock — disse Miss Hardcastle —, tenho um fraco por si. E ainda bem que tenho. Porque se não tivesse, sentir-me-ia disposta a ficar ofendida com essa última observação.

— Eu não queria ser ofensivo — disse Mark. — Mas, que diabo, olhe a coisa do meu ponto de vista.

— Não serve, meu filho — disse Miss Hardcastle, sacudindo a cabeça. — Você conhece os fatos apenas o suficiente para que o seu ponto de vista valha seis pence. Ainda não compreendeu aquilo em que se meteu. Está sendo-lhe oferecida a oportunidade de chegar a algo muito maior do que um lugar no Governo. E só há duas alternativas, sabe. Ou se está dentro do NICE ou se está fora dele. E eu sei melhor do que você o que vai ser mais interessante.

— Eu compreendo isso — disse Mark. — Mas qualquer coisa é melhor do que estar nominalmente dentro e não ter nada que fazer. Dê-me um lugar real no Departamento de Sociologia e eu…

— Bolas! O departamento inteiro vai para a sucata. Tem de lá estar, no princípio, para efeitos de propaganda. Mas todos vão ser postos fora.

— Mas que garantia tenho eu de vir a ser um dos sucessores deles?

— Não vai ser. Eles não vão ter sucessores nenhuns. O trabalho real nada tem a ver com todos esses departamentos. O tipo de sociologia em que nós estamos interessados será feito pela minha gente, a polícia.

— Então onde é que eu entro?

— Se confiar em mim — disse a Fada, pousando o copo vazio e puxando um charuto — posso pô-lo em contato com um pedaço do seu trabalho real, aquilo para o que foi realmente trazido para cá, e já.

— Que é isso?

— Alcasan — disse Miss Hardcastle entre dentes. Tinha começado uma das suas intermináveis fumadelas fingidas. Depois, olhando de relance para Mark com um traço de desprezo. — Sabe de quem estou falando, não sabe?

— Quer dizer o radiologista, o homem que foi guilhotinado? — perguntou Mark que estava completamente desnorteado. A Fada acenou afirmativamente.

— Ele é para ser reabilitado — disse ela. — Gradualmente. Tenho todos os fatos no processo. Você começa com um pequeno artigo sossegado, sem pôr em causa a sua culpa, não logo de entrada, mas apenas insinuando que, é claro, ele era um membro do governo Quisling deles e havia um preconceito contra ele. Digamos que não se duvida que o veredito foi justo, mas que é inquietante compreender que ele teria quase com certeza sido o mesmo, ainda que ele estivesse inocente. Então, um dia ou dois depois, segue com um artigo de natureza completamente diferente. Estimativa popular do valor da sua obra. Pode obter os fatos, suficientes para esse tipo de artigo, numa tarde. Depois uma carta, bastante indignada, ao jornal que publicou o primeiro artigo, e indo muito mais longe. A execução foi um erro judiciário. Por essa altura…

— Mas que raio é a finalidade disso tudo?

— Estou lhe dizendo, Studdock. Alcasan é para ser reabilitado. Transformado num mártir. Uma perda irreparável para a raça humana.

— Mas para quê?

— Aí vai você outra vez! Resmunga por não lhe darem nada para fazer, e logo que eu sugiro um pedaço de trabalho autêntico, espera que lhe contem todo o plano de campanha antes de o fazer. Não faz sentido. Não é esse o caminho para se progredir aqui. A grande coisa é fazer o que nos dizem para fazer. Se realmente for mesmo bom, em breve compreenderá o que se passa. Mas tem de começar a fazer o trabalho. Você não parece perceber o que nós somos. Somos um exército.

— De qualquer maneira — disse Mark —, não sou um jornalista. Não vim para cá para escrever artigos de jornal. Tentei tornar isso claro para Feverstone logo de início.

— Quanto mais cedo deixar toda essa conversa sobre o que veio para cá fazer, tanto melhor fará carreira. Estou falando para o seu próprio bem, Studdock. Você é capaz de escrever. Essa é uma das coisas por que o querem aqui.

— Então vim para cá por causa de um mal-entendido — disse Mark. O elogio à sua vaidade literária, naquela altura da sua carreira, de forma alguma compensava a implicação de que a sua sociologia não tinha qualquer importância. — Não tenho intenção alguma de gastar a minha vida escrevendo artigos de jornal — disse ele. — E se tivesse, havia de querer saber um bom bocado mais sobre a política do NICE antes de me meter nisso.

— Não lhe disseram que é estritamente apolítico?

— Disseram-me tantas coisas que eu não sei se estou assentado na cabeça ou nos pés — disse Mark. — Mas não vejo como é que se vai começar uma manobra jornalística (que é mais ou menos aquilo em que a coisa consiste) sem ser de natureza política. São jornais da esquerda ou da direita que vão publicar toda essa porcaria a respeito de Alcasan?

— Ambos, doçura, ambos — disse Miss Hardcastle. — Será que não compreende nada? Pois não é absolutamente essencial manter uma esquerda feroz e uma feroz direita, ambas prontas a arrancar, e com terror uma da outra? É assim que fazemos as coisas. Qualquer oposição ao NICE é representada com uma falcatrua da esquerda nos jornais da direita e uma falcatrua da direita nos jornais da esquerda. Se for convenientemente feito, temos cada um dos lados oferecendo mais do que o outro em nosso apoio, para reputar as calúnias do inimigo. É claro que somos apolíticos. O poder autêntico sempre é.

— Não acredito que se possa fazer isso — disse Mark. — Não com os jornais que são lidos pelas pessoas instruídas.

— Isso mostra que ainda está no jardim de infância, queridinho — disse Miss Hardcastle. — Ainda não percebeu que é exatamente ao contrário.

— Que é que quer dizer?

— Ouça lá, meu tolo, é o leitor instruído que pode ser enganado. Todas as nossas dificuldades vêm dos outros. Quando é que encontrou um trabalhador que acredite nos jornais? Ele tem por garantido que todos eles são propaganda e passa por cima dos artigos de opinião. Ele compra o seu jornal pelos resultados do futebol e pelos pequenos parágrafos sobre moças que caem das janelas e cadáveres encontrados em apartamentos de Mayfair. Ele é nosso problema. Temos de o recondicionar. Mas o público instruído, as pessoas que lêem os semanários intelectuais, não precisam de recondicionamento. Já estão muito bem. Acreditarão em qualquer coisa.

— Como um dos da classe que menciona — disse Mark com um sorriso —, eu apenas não acredito nisso.

— Santo Deus! — disse a fada. — Onde estão os seus olhos? Olhe para aquilo com que os semanários têm conseguido sair-se bem! Olhe para o Weekly Question. Aí está um jornal para si. Quando apareceu o inglês básico, simplesmente como invenção de um professor de Cambridge, livre pensador, nada era muito bom para lhe chamarem; logo que foi adotado por um primeiro-ministro conservador tornou-se uma ameaça à pureza da nossa língua. E não foi a monarquia um absurdo dispendioso durante dez anos? E depois, quando o duque de Windsor abdicou, não se tornou o Question todo monárquico e legitimista durante cerca de uma quinzena? Perderam um único leitor? Não está vendo que o leitor instruído não pode parar de ler os semanários intelectuais, façam eles o que fizerem? Não pode. Foi condicionado.

— Bem — disse Mark —, tudo isso é muito interessante, Miss Hardcastle, mas nada tem a ver comigo. Em primeiro lugar, não quero de forma alguma tornar-me num jornalista, e se o fizesse, gostaria de ser um jornalista honesto.

— Muito bem — disse Miss Hardcastle. — Tudo o que vai fazer é ajudar a arruinar este país e talvez toda a raça humana. Além de destroçar a sua própria carreira.

O tom confidencial no qual ela tinha estado falando até então, desaparecera e havia um ar de ameaçadora finalidade na sua voz. O cidadão e o homem honesto que tinham despertado em Mark com a conversa desanimaram um pouco; o seu outro e bem mais forte «eu», o «eu» que estava ansioso, a todo o custo, por não ser colocado do lado de fora, saltou, totalmente alarmado.

— Eu não quero dizer — disse ele — que não esteja vendo as suas razões. Estava apenas a imaginar…

— Para mim é tudo igual, Studdock — disse Miss Hardcastle, sentando-se finalmente à sua escrivaninha. — Se você não gosta do emprego, isso, é claro, é assunto seu. Vá e arrume o caso com o DA. Ele não gosta que as pessoas se demitam, mas é claro que você pode. Ele vai ter de dizer qualquer coisa a Feverstone por o ter trazido para cá. Nós admitimos que você compreendia.

A menção de Feverstone colocou bruscamente diante de Mark, como realidade, o plano, que até então tinha sido levemente irreal, de regressar a Edgestow e de se contentar com a carreira de um professor de Bracton. Em que termos iria ele regressar? Continuaria a ser membro do círculo interior, mesmo em Bracton? Encontrar-se sem a confiança do Elemento Progressista, ser atirado para o meio dos Telfords e dos Jewels, parecia-lhe insuportável. E o salário de um simples professor parecia coisa pequena depois dos sonhos que vinha sonhando durante os últimos dias. A vida de casado já se estava a tornar mais dispendiosa do que ele tinha pensado. Então apareceu-lhe a dúvida aguda a respeito das duzentas libras para ser sócio do clube do NICE. Mas não, isso era absurdo. Eles não podiam com certeza importuná-lo com isso.

— Bem, evidentemente — disse numa voz vaga —, a primeira coisa é ir ter com o DA.

— Agora que se vai embora — disse a Fada —, há uma coisa que tenho de dizer: pus as cartas todas na mesa. Se alguma vez lhe passar pela cabeça que seria engraçado repetir qualquer coisa desta conversa no mundo exterior, siga o meu conselho e não o faça. Não seria de forma alguma saudável para a sua carreira futura.

— Oh, mas é claro — começou Mark.

— É melhor pôr-se andando agora — disse Miss Hardcastle. — Tenha uma agradável conversa com o DA. Tenha cuidado em não aborrecer o velho. Ele detesta tanto demissões.

Mark fez uma tentativa para prolongar a entrevista mas a Fada não o permitiu e em alguns segundos estava fora da porta.

Extraído do livro Aquela Força Medonha (vol.1), de C. S. Lewis.