10:39 amSwedenborg e o duplo de Maomé

UM DUPLO DE MAOMÉ
Já que na mente dos muçulmanos as idéias de Maomé e de religião estão indissoluvelmente ligadas, o Senhor ordenou que no Céu eles sejam presididos por um espírito que faz o papel de Maomé. Esse delegado nem sempre é o mesmo. Um cidadão da Saxônia, que em vida foi aprisionado pelos argelinos e que se converteu ao Islã, ocupou certa vez esse cargo. Como havia sido cristão, falou-lhes de Jesus e lhes disse que Ele não era filho de José, senão o Filho de Deus; foi conveniente substituí-lo. A condição desse representante de Maomé é indicada por uma tocha visível somente aos muçulmanos. O verdadeiro Maomé, que redigiu o Corão, já não é visível a seus adeptos. Disseram-me que os presidia no início, mas pretendeu dominá-los e foi exilado no Sul. Uma comunidade de muçulmanos foi instigada pelos demônios a reconhecer Maomé como Deus. Para aplacar o tumulto, Maomé foi trazido dos infernos e o exibiram. Nessa ocasião eu o vi. Parecia-se aos espíritos corpóreos que não têm percepção interior, e seu rosto era muito escuro. Pôde articular as palavras: “Eu sou vosso Maomé” e imediatamente afundou.

UN DOBLE DE MAHOMA
Ya que en la mente de los musulmanes las ideas de Mahoma y de religión están indisolublemente ligadas, el Señor ha ordenado que en el Cielo siempre los presida un espíritu que hace el papel de Mahoma. Este delegado no siempre es el mismo. Un ciudadano de Sajonia, a quien en vida tomaron prisionero los argelinos y que se convirtió al Islam, ocupó una vez este cargo. Como había sido cristiano, les habló de Jesús y les dijo que no era el hijo de José, sino el hijo de Dios; fue conveniente reemplazarlo.
La situación de este Mahoma representativo está indicada por una antorcha sólo visible a los musulmanes.
El verdadero Mahoma, que redactó el Corán, ya no es visible a sus adeptos. Me han dicho que al comienzo los presidía, pero que pretendió dominarlos y fue exiliado en el Sur. Una comunidad de musulmanes fue instigada por los demonios a reconocer a Mahoma como Dios. Para aplacar el disturbio, Mahoma fue traído de los infiernos y lo exhibieron. En esta ocasión yo lo vi. Se parecía a los espíritus corpóreos que no tienen percepción interior, y su cara era muy oscura. Pudo articular las palabras: “Yo soy vuestro Mahoma” e inmediatamente se hundió.

Emanuel Swedenborg, Vera Christiana Religio (1771).

Citado por Jorge Luis Borges e Bioy Casares no livro Cuentos Breves y Extraordinarios. (Tradução do trecho: Yuri Vieira.)

12:21 pmPapa Francisco I e uma profecia no Twitter

No perfil de Yolanda De Mena, uma mensagem de 11 de Fevereiro de 2013, com revelações sobre o papado:

Na timeline:

Twitter de 11 de Fevereiro

E o perfil do sonhador, o madrilenho Alejandro R. de Cabo, que, durante entrevista a uma rádio colombiana, descreve seu sonho: nele, ele era o encarregado de anunciar aos cardeais o nome do papa eleito. “O novo papa se chama Francisco I”, teria dito. E então, no sonho, alguém o corrigiu: “Não se diz ‘novo papa’, mas, sim, Sua Santidade Francisco I”. E, por causa dessa “bronca”, acabou despertando de madrugada com a cena ainda na memória. Ouça a gravação:

Vai me dizer que não causa espécie?

9:05 amA viagem astral de Machado de Assis

Machado de Assis costumava publicar crônicas sob diversos pseudônimos. Apenas 40 anos após sua morte descobriu-se que, entre eles, encontrava-se o pseudônimo “Lelio”. Imagino que o utilizava quando sua abordagem do tema ultrapassava seu parâmetro normal de deboche. A crônica abaixo — Balas de Estalo — foi publicada no jornal Gazeta de Notícias, edição do dia 5 de Outubro de 1885, e trata de um tema então em moda: o espiritismo. Nele, Machado relata uma suposta viagem astral com um desenlace dos mais inesperados…

8:08 pmO Diabo — Valentin Tomberg fala sobre o 15º arcano do Tarô

Le Diable

(…) O “Diabo” da lâmina não evoca idéias que tenham relação com o drama cósmico da queda do “querubim protetor da montanha de Deus” nem do “Dragão antigo” que combate contra o arquiestratego Miguel e seu exército celeste. As idéias que o conjunto da lâmina e sua contextura evocam são, antes, as de escravidão, na qual se encontram as duas personalidades atadas ao pedestal de demônio monstruoso. A lâmina não sugere a metafísica do Mal, e sim a lição eminentemente prática, a saber, como pode ser que certos seres pervertam sua liberdade ao ponto de se tornarem escravos de um ser monstruoso, que os faz degenerar-se, tornando-os semelhantes a si mesmo.

O tema do décimo quinto arcano do Tarô é o da geração dos demônios e do poder que eles têm sobre seus geradores. É o Arcano da criação dos seres artificiais e da escravidão na qual o criador pode cair diante de sua criatura.

Para se compreender esse Arcano, é necessário, antes, considerar que o mundo do Mal é constituído não só dos seres das hierarquias celestes (com exceção dos Serafins) decaídas, mas também dos seres que, pela origem, não são hierárquicos, isto é, dos seres que, à semelhança dos bacilos, dos micróbios e dos vírus das doenças infecciosas, não devem sua origem, segundo os termos da filosofia escolástica, nem à Causa primeira, nem às causas segundas, mas às causas terceiras, as do arbítrio abusivo das criaturas autônomas. Há, pois, hierarquias “do lado esquerdo”, que estão e agem no quadro da Lei, executando funções de estrita justiça, na qualidade de acusadores, ou encarregadas de pôr o justo à prova, mas há, por outro lado, “micróbios do mal” ou seres criados artificialmente pela humanidade encarnada. Esses últimos são demônios cuja alma é paixão especial e cujo corpo é o conjunto das vibrações “eletromagnéticas” produzidas por essa paixão. Os demônios artificiais podem ser gerados por coletividades humanas como o foram muitos “deuses” monstruosos fenícios, mexicanos e até tibetanos de nossos dias. O Moloc cananeu, que exigia sacrifícios sangrentos de prisioneiros, mencionado muitas vezes na Bíblia, não é um ser hierárquico, do Bem ou do Mal, mas um egregório mau, isto é, um demônio criado artificial e coletivamente por comunidades humanas dominadas pelo arrepio do pavor. O mesmo vale para o Quatzacoatl do México.

Quanto ao Tibete, encontramos o fenômeno singular da prática — “quase científica” — da criação e destruição dos demônios. Parece que no Tibete o Arcano do qual nos ocupamos é conhecido e praticado como um dos métodos de treinamento oculto da vontade e da imaginação. Esse treinamento abrange três etapas: a criação das tulpas (criaturas mágicas) pela imaginação concentrada e dirigida, a sua evocação e a libertação de seu poder pelo ato de conhecimento, que as destrói, fazendo com que se tome consciência de que elas não são mais do que uma criação da imaginação e, portanto, uma ilusão. A finalidade desse treinamento é, pois, chegar à incredulidade a respeito dos demônios, depois de os ter criado pela força da imaginação e de ter enfrentado com intrepidez suas aparições terrificantes.

Eis o que diz sobre isso Alexandra David-Neel, que fala com conhecimento de causa:

“Interroguei vários lamas (a respeito da incredulidade). Às vezes, disse-me um deles — um gechê (filósofo) de Dirdi constata-se essa incredulidade. Ela pode ser considerada como uma das metas visadas pelos mestres místicos, mas, se o discípulo a atinge antes do tempo útil, priva-se dos frutos da parte do treinamento destinada a torná-lo intrépido.

Os mestres místicos, acrescentou ele, não aprovariam o noviço que professasse uma incredulidade simplista, porque ela é contrária à verdade.

O discípulo deve compreender que deuses e demônios existem realmente só para aqueles que crêem na sua existência, e que podem fazer bem ou mal somente àqueles que lhes prestam culto ou que os temem. Muito raros, aliás, são aqueles que chegam à incredulidade durante a primeira parte de seu treinamento espiritual. A maior parte dos noviços vêem realmente aparições terrificantes…

“Tive ocasião de conversar com um eremita de Gã (Tibete oriental), chamado Kuchog Wantchén, sobre casos de morte súbita durante as evocações de espíritos malfazejos. Esse lama não parecia propriamente inclinado à superstição, e pensei que fosse aprovar-me quando eu lhe disse:

“‘Aqueles que morreram, morreram de medo. As suas visões eram objetivações de seus pensamentos. Quem não acredita nos demônios jamais será morto por eles.’

“Para grande espanto meu, o anacoreta replicou num tom singular: ‘Em sua opinião, é suficiente também não crer na existência dos tigres para se estar certo de não ser devorado por um deles, quando se passa ao seu alcance’. E continuou: ‘Realize-se ela consciente ou inconscientemente, a objetivação das formações mentais é processo muito misterioso. Em que vão dar essas criações? Não será possível que, como os filhos nascidos de nossa carne, esses filhos de nosso espírito escapem ao nosso controle e venham, com o tempo ou imediatamente, a viver uma vida própria? Não devemos considerar ainda que, se podemos gerá-los, outros também o podem, e que, se tais tulpas (criaturas mágicas) existem, será extraordinário que entremos em contato com elas, seja pela vontade de seus criadores, seja porque nossos pensamentos e nossos atos produzem as condições requeridas para que esses seres manifestem sua presença e sua atividade?… É necessário que saibamos defender-nos dos tigres dos quais somos pais e também daqueles que foram gerados por outros’.” (Mystiques et magiciens du Thibet, Librarie Plon, pp.130-132).

Esse é o pensamento dos mestres tibetanos da magia criadora de demônios. Eliphas Levi, mestre magista francês, tem opinião semelhante:

A magia criadora do demônio, essa magia que ditou o Formulário de feitiçaria do papa Honório, o Enchiridion de Leão III, os exorcismos do Ritual, as sentenças dos inquisidores, os requisitórios de Laubardemont, os artigos dos Srs. Irmãos Veuillot, os livros dos Srs. de Faloux, de Montalembert, de Mirville, a magia dos feiticeiros e dos devotos que não o são, tudo isso é coisa verdadeiramente condenável em uns e infinitamente deplorável em outros. Foi principalmente para combater, revelando-as, essas tristes aberrações do espírito humano que publicamos esse livro. Possa ele servir ao sucesso dessa obra santa!” (Ritual, cap. XV).

O próprio homem é o criador de seu céu e de seu inferno, e não existem demônios, mas nossas loucuras. Os espíritos que a verdade castiga são corrigidos pelo castigo e não pensam mais em perturbar o mundo.” (Dogma, cap. XXII).

Apoiado em sua experiência, Eliphas Levi não via nos demônios tais como os íncubos e os súcubos, nos mestres Léonards presidindo os sábados e nos demônios possessos senão criações da imaginação e da vontade humanas, que projetam, individual ou coletivamente, seu conteúdo na substância plástica da “luz astral”; assim os demônios da Europa foram gerados exatamente do mesmo modo que as “tulpas” tibetanas!

A arte e o método de “fazer ídolos”, proibidos pelo primeiro mandamento do Decálogo, são antigos e universais. Parece que em todos os tempos e em toda parte foram gerados demônios.

Eliphas Levi e os mestres tibetanos estão de acordo não só no que concerne à origem subjetiva e psicológica dos demônios, mas também quanto à sua existência objetiva. Gerados subjetivamente, eles se tornam forças independentes da subjetividade que os gerou. Em outros termos, eles são criações mágicas, porque a magia é a objetivação  daquilo que se origina na subjetividade. Os demônios que não chegaram ao estádio de objetivação, isto é, da existência separada da vida psíquica de seu genitor, têm existência semi-autônoma, que a psicologia moderna chama “complexos” psicológicos, e que C. G. Jung considera como seres parasitas, que estão para o organismo psíquico como o câncer, por exemplo, está para o organismo físico. O “complexo” psicopatológico é, pois, um demônio em estado de gestação — não vindo de fora, mas gerado pelo próprio paciente —: ele ainda não nasceu, mas tem vida quase autônoma, alimentada pela vida psíquica de seu pai.

C. G. Jung diz a este respeito:

(O complexo) parece ser processo autônomo que se impõe à consciência. É como se o complexo fosse um ser autônomo capaz de interferir nas intenções do ego. Com efeito, os complexos se comportam como pessoas secundárias ou parciais que têm vida mental própria.” (Psychology and Religion, três conferências na Universidade de Yale, EUA, 1950, pp.13 e 14).

“Um ser autônomo capaz de interferir nas intenções do ego” e “que tem vida mental própria” não é senão o que entendemos por “demônio”.

O “demônio-complexo”, é verdade, não age ainda fora da vida psíquica do indivíduo, não tendo o direito de cidadania na comunidade variegada e fantástica das “tulpas” ou demônios objetivos, que podem, às vezes — como nos casos de santo Antão, o Grande, e do santo cura d’Ars — afligir com golpes bem reais as vítimas de seus assaltos. O ruído desses assaltos, que todos ouvem, e as marcas roxas nos corpos das vítimas, que todos vêem, não se incluem mais na psicologia pura e simples, mas já são fato objetivo.

Como, então, são gerados os demônios?

Como toda geração, também a dos demônios é resultado do concurso dos princípios masculino e feminino, isto é, no caso da geração pela vida psíquica de um indivíduo, é o resultado do concurso da vontade e da imaginação. Um desejo perverso ou contrário à natureza seguido da imaginação correspondente constituem juntos o ato de geração de um demônio.

As duas personagens, uma, masculina, a outra, feminina, atadas ao pedestal da personagem central da lâmina do décimo quinto Arcano, o demônio, não são, pois, filhos ou criaturas da personagem central, como seríamos tentados a pensar, dada sua pequena estatura em relação à do demônio. Ao contrário, elas é que são os pais do demônio, mas se tornaram escravos de sua criatura. Eles representam a vontade perversa e a imaginação contrária à natureza, as quais deram origem ao demônio andrógino, isto é, a um ser dotado do desejo e da imaginação que dominam as forças que o geraram.

No caso da geração efetuada coletivamente, o demônio — que então se chama “egregório” — é produto da vontade e da imaginação coletivas. O nascimento de tal “egregório” moderno nos é conhecido:

“Um espectro ronda a Europa — o espectro do comunismo” — é a primeira frase do “Manifesto Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, de 1848. “Todos os poderes da velha Europa, o Papa, e o Czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os agentes da polícia alemã, se aliaram para uma santa caçada a esse espectro”, prossegue o “Manifesto”.

Entretanto — acrescentamos nós — o espectro crescia em estatura e poder, gerado pela vontade das massas, nascido do desespero da “revolução industrial” na Europa, alimentado pelo ressentimento acumulado nas massas durante gerações, munido de intelectualismo fictício, que é a dialética de Hegel tomada em sentido contrário; esse espectro crescia, continuando a rondar a Europa e, depois, outros continentes… Hoje um terço da humanidade tende a se inclinar diante desse deus e a obedecer a ele.

O que acabo de dizer sobre a geração do egregório moderno mais imponente está em perfeito acordo com o próprio ensinamento marxista. Porque, para o marxismo, não há Deus nem deuses; só há “demônios”, isto é, criaturas da vontade e da imaginação humanas. É a doutrina fundamental, chamada “superestrutura ideológica”. É o interesse econômico — isto é, a vontade — que cria — isto é, imagina — ideologias: religiosas, filosóficas, sociais e políticas. Para o marxismo, todas as religiões são, pois, “superestruturas”, isto é, formações produzidas pela vontade e pela imaginação humanas. O próprio marxismo-leninismo é superestrutura ideológica, produto da imaginação intelectual, baseado na vontade de ordenar ou de pôr em ordem as coisas sociais, políticas e culturais. Esse método de produção de superestruturas ideológicas sobre a base da vontade é precisamente o que entendemos por “geração coletiva de um demônio ou de um egregório”.

Ora, há o Verbo e há egregórios diante dos quais a humanidade se inclina: a revelação da verdade divina e a manifestação da vontade humana, o culto a Deus e o dos ídolos feitos pelo homem. Não é um diagnóstico e um prognóstico da história do gênero humano, se nos lembrarmos de que, enquanto Moisés recebia a revelação do Verbo no alto da montanha, embaixo o povo fez e adorou o Bezerro de ouro? O Verbo e os Ídolos, a verdade revelada e as “superestruturas ideológicas” da vontade humana agem simultaneamente na história do gênero humano. Houve um só século no qual os servos do Verbo não se tenham defrontado com os adoradores dos ídolos, dos egregórios?

A décima quinta lâmina do Tarô contém advertência importante para todos os que tomam a sério a magia: ela lhes ensina o arcano mágico da geração dos demônios e do poder que eles têm sobre aqueles que os geraram.

Nós, que tivemos a experiência de dois demônios gerados pela vontade coletiva, um por uma vontade coletiva movida pela ambição nacional e servindo-se de poderosas forças imaginativas, baseadas nos recursos biológicos, o demônio ou egregório nacional-socialista, e o outro demônio ou egregório do qual falamos acima, nós sabemos quão terrível é o poder que reside em nossa vontade e me nossa imaginação e quão grande é a responsabilidade que ela traz para aqueles que a desencadeiam no mundo! Quem semeia vento, colhe tempestade! E que tempestade!

Nós, do século XX, sabemos que as “grandes pestes” de nossos dias são os “egregórios” das “superestruturas ideológicas”, os quais custaram à humanidade mais vidas e mais sofrimentos do que as grandes epidemias da Idade Média.

Sabendo isso, não é tempo de dizermos a nós mesmos: Calemo-nos? Façamos calar-se nossa vontade e nossa imaginação arbitrárias e imponhamos-lhes a disciplina do silêncio. Não é esse um dos quatro mandamentos tradicionais do Hermetismo, a saber: ousar, querer, saber e calar-se? Calar-se é mais do que guardar segredo, mais mesmo do que não profanar as coisas sagradas, às quais é devido silêncio respeitoso. Calar-se é principalmente o grande mandamento mágico de não gerar demônios pela vontade e pela imaginação arbitrárias. O silêncio da vontade e da imaginação arbitrária é dever.

Contentemo-nos, pois, com o Trabalho, com as contribuições construtivas à tradição, seja ela espiritual, cristã, hermética ou científica. Aprofundemo-la, estudemo-la, pratiquemo-la, cultivemo-la, isto é, trabalhemos não para destruir, e sim para edificar. Coloquemo-nos entre os construtores da grande Catedral da Tradição espiritual da humanidade. Que as Sagradas Escrituras sejam santas para nós, que os sacramentos sejam sacramentos para nós, que a hierarquia da autoridade espiritual seja hierarquia da autoridade para nós e que a “filosofia perene” e a ciência verdadeiramente científica do passado e do presente encontrem em nós amigos e, sendo o caso, colaboradores respeitosos.

Eis o que comporta o mandamento de calar-se, de não gerar demônios.

É sempre o excesso devido à embriaguez da vontade e da imaginação que gera demônios.(…)

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Trecho de Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, de Valentin Tomberg, com Apresentação de Hans Urs von Balthasar

10:05 amSwedenborg fala sobre o amor conjugal e os casamentos no céu

 Emanuel Swedenborg

« 366. Como o céu é composto do gênero humano e, conseqüentemente, os anjos lá são de um e outro sexo; e como, por criação, a mulher é para o homem e o homem para a mulher, assim um pertence ao outro; e como este amor é inato em um e outro, segue-se que há casamentos nos céus como nas terras. Mas os casamentos nos céus diferem muito dos casamentos nas terras; por isso, vai-se dizer agora em que consistem os casamentos nos céus, em que eles diferem dos das terras e em que eles são semelhantes.

« 367. O casamento nos céus é a conjunção de dois em uma mente única. Direi primeiramente qual é essa conjunção. A mente consiste em duas partes, das quais uma se chama entendimento e a outra vontade. Quando estas duas partes fazem um, diz-se então que elas são uma mente única. O marido faz a parte denominada entendimento, e a esposa a que se chama vontade. Quando essa conjunção, que pertence aos interiores, desce nos inferiores que pertencem ao seu corpo, ela é então percebida e sentida como amor; este amor é o amor conjugal. É, pois, evidente que o amor conjugal deriva a sua origem da conjunção de dois em uma só mente. É isto que no céu se chama coabitação, e daí é que se diz que eles são não dois, mas um, e por isso dois esposos no céu são chamados não dois anjos, mas um anjo.

« 368. Se há também tal conjunção do marido e da esposa nos íntimos que pertencem às mentes é porque isso procede da criação mesma. Com efeito, o homem nasce para ser intelectual, e assim para pensar pelo entendimento, e a mulher nasce para ser voluntária, e assim para pensar pela vontade. Mesmo o que se vê claramente pela índole ou inclinação inata de um e de outro, como também por sua forma. Pela índole, porque o homem age pela razão, e a mulher pela afeição; pela forma, porque o homem tem a face mais rude e menos bela, a palavra mais grave, o corpo mais duro; e a mulher, a face mais delicada e mais bela, a palavra mais tema e o corpo mais macio. Semelhante diferença há entre o entendimento e a vontade, ou entre o pensamento e a afeição. Semelhante diferença há também entre a verdade e o bem, e semelhante diferença entre a fé e o amor; porque a verdade e a fé pertencem ao entendimento, e o bem e o amor pertencem à vontade. É daí que, na Palavra, pelo "jovem" e o "varão" no sentido espiritual se entende o entendimento da verdade, e pela "virgem" e a "mulher" se entende a afeição do bem. É também por isso que a igreja, segundo a afeição do bem e da verdade, se chama "mulher" e também "virgem", e todos os que estão na afeição do bem se chamam "virgens" (como no Apocalipse 14:4) (‘).

« 369. Cada um, seja homem ou mulher, possui um entendimento e uma vontade, mas no homem predomina o entendimento e na mulher predomina a vontade; e o ser humano é um ou o outro, conforme o que predomina. Mas nos céus não há predomínio algum nos casamentos, porque a vontade da esposa é também a do marido, e o entendimento do marido é também o da esposa, pois um ama querer e pensar como o outro, assim mutuamente e reciprocamente; daí a sua conjunção em um. Esta conjunção é uma conjunção real, pois a vontade da esposa entra no entendimento do marido, e o entendimento do marido na vontade da esposa, principalmente quando eles se olham face a face, porque há, como já se disse acima muitas vezes, comunicação dos pensamentos e das afeições nos céus, mormente entre esposos, porque eles se amam mutuamente. Assim, é evidente que a conjunção das mentes faz o casamento e produz o amor conjugal nos céus, a saber, que ela consiste em que um quer que tudo que lhe pertence pertença ao outro, e assim reciprocamente.

« 370. Os anjos disseram-me que, quanto mais dois esposos estão em uma tal conjunção, mais eles estão no amor conjugal, e ao mesmo tempo na inteligência, sabedoria e felicidade. Assim é, porque a Divina verdade e o Divino bem, dos quais procedem toda inteligência, toda sabedoria e toda felicidade, influem principalmente no amor conjugal. Conseqüentemente, o amor conjugal é o plano mesmo do influxo Divino, porque é ao mesmo tempo o casamento da verdade e do bem, pois do mesmo modo que há conjunção do entendimento e da vontade, assim também há conjunção da verdade e do bem. Porque o entendimento recebe a Divina verdade e até é formado pelas verdades, e a vontade recebe o Divino bem e também é formada pelos bens, visto que o que o homem quer isto é para ele um bem, e o que ele compreende é para ele uma verdade. Daí resulta que é a mesma coisa dizer conjunção do entendimento e da vontade, ou dizer conjunção da verdade e do bem. A conjunção da verdade e do bem faz o anjo e faz também a inteligência, a sabedoria e a felicidade do anjo. Pois o anjo é anjo na relação em que o bem foi nele conjunto à verdade e a verdade ao bem, ou, o que é a mesma coisa, ele é anjo na relação em que nele o amor foi conjunto à fé e a fé ao amor.

« 371. Se o Divino que procede do Senhor influi principalmente no amor conjugal, é porque o amor conjugal descende da conjunção do bem e da verdade, porquanto, como se disse acima, quer se diga conjunção do entendimento e da vontade, ou conjunção do bem e da verdade, é a mesma coisa. A conjunção do bem e da verdade tem sua origem do Divino amor do Senhor para com todos os que estão nos céus e nas terras. Do Divino amor procede o Divino bem, e o Divino bem é recebido, pelos anjos e pelos homens, nas Divinas verdades. O único receptáculo do bem é a verdade. É por isso que todo aquele que não está nas verdades nada pode receber do Senhor, nem do céu. Quanto mais, pois, as verdades no homem foram conjuntas ao bem, mais o homem foi unido ao Senhor e ao céu. Daí é que vem a origem mesma do amor conjugal. Por isso este amor é o plano mesmo do influxo Divino. Daí é que a conjunção do bem e da verdade nos céus se chama casamento celeste, e o céu, na Palavra, é comparado a um casamento e também chamado casamento; e o Senhor é chamado "Noivo" e "Marido", e o céu com a igreja, "noiva" e também "esposa".

« 372. O bem e a verdade conjuntos no anjo e no homem não são dois, mas um, porque então o bem pertence à verdade e a verdade ao bem. Esta conjunção pode assemelhar-se ao que se dá no homem, quando ele pensa o que quer e quer o que pensa, pois então o pensamento e a vontade fazem um, assim uma mente única, porque o pensamento forma ou apresenta em uma forma o que a vontade quer, e a vontade lhe dá o deleite. Daí vem também que dois cônjuges no céu se chamam não dois anjos mas um anjo. É também o que se entende por estas palavras do Senhor: "Não lestes que Aquele que [os] fez desde o princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua esposa e serão dois numa só carne? porque não mais são dois, mas uma carne. Aquilo que assim Deus conjungiu, o homem não separe… Nem todos compreendem tal palavra mas aqueles aos quais foi dado" (Mat. 19:4 a 6, 11; Mc. 10:6 a 9; Gên. 2:24). Aqui se descreve o casamento celeste em que estão os anjos, e ao mesmo tempo o casamento do bem e da verdade. E por estas palavras "que o homem não separe o que Deus conjungiu", se entende que o bem não deve ser separado da verdade.

« 373. Pelo que precede, pode-se ver agora de onde provém o amor verdadeiramente conjugal, a saber: é primeiro formado nas mentes dos que estão no casamento, e depois desce e é conduzido no corpo, e aí é percebido e sentido como amor, porque tudo que é sentido e percebido no corpo tira a sua origem de seu espiritual, pois tira-a do entendimento e da vontade; o entendimento e a vontade constituem o homem espiritual. Tudo que desce do homem espiritual no corpo, nele se apresenta sob uma outra aparência; contudo, é semelhante e unânime, como a alma e o corpo e como a causa e o efeito, como se pode ver pelo que se disse e se mostrou nos dois artigos sobre as correspondências.

« 374. Ouvi um anjo descrever o amor verdadeiramente conjugal e seus prazeres celestes, declarando que é o Divino do Senhor nos céus, isto é, o Divino bem e a Divina verdade unidos em dois entes, ao ponto de serem não dois, mas um. Ele dizia que dois cônjuges no céu estão nesse amor porque cada um é seu bem e sua verdade, não só quanto à mente, mas também quanto ao corpo; porque o corpo é a efígie da mente, pois foi formado à sua semelhança. Daí, ele induzia que o Divino está em efígie em dois esposos que estão no amor verdadeiramente conjugal; e que o Divino estando assim retratado, o céu também o está, porque o céu inteiro é o Divino bem e a Divina verdade que procedem do Senhor. E daí vem que nesse amor foram inscritas todas as coisas do céu, e tantas bem-aventuranças e delícias, que elas excedem um número que ele exprimia por uma palavra compreendendo miríades de miríades. Ele se admirava de que o homem da igreja nada soubesse a respeito, quando, entretanto, a igreja é o céu do Senhor nas terras, e o céu é o casamento do bem e da verdade. Ele dizia que ficava estupefato pensando que é dentro da igreja, mais do que fora dela, que se cometem e que também se confirmam adultérios, cujo prazer em si não é, no sentido espiritual e por conseguinte no mundo espiritual, mais do que um prazer do amor do falso conjunto ao mal, prazer que é prazer infernal, porque é inteiramente oposto ao prazer do céu, que é o prazer do amor da verdade conjunta ao bem.

« 375. Sabe-se que dois cônjuges que se amam são unidos mais interiormente, e que o essencial do casamento é a união dos espíritos ou das mentes. Daí também pode-se saber que, quais são em si os espíritos ou as mentes, tal é a união, e também tal é entre eles o amor. A mente é unicamente formada de verdades e de bens, porque tudo que existe no universo se refere ao bem e à verdade e também à sua conjunção; por isso a união das mentes é absolutamente tal quais são as verdades e os bens de que elas foram formadas. Donde resulta que a união das mentes que foram formadas de verdades e de bens genuínos é a mais perfeita. Deve-se saber que nada se ama mutuamente mais do que a verdade e o bem; por isso, é desse amor que descende o amor verdadeiramente conjugal. O falso e o mal também se amam, mas este amor se converte depois em inferno.

« 376. Pelo que acaba de ser dito sobre a origem do amor conjugal, pode-se concluir quais os que estão no amor conjugal e quais os que não estão. No amor conjugal estão os que pelas Divinas verdades estão no Divino bem; e quanto mais as verdades que estão conjuntas ao bem são reais, mais o amor conjugal é real. E como todo bem que é conjunto às verdades vem do Senhor, segue-se que ninguém pode estar no amor verdadeiramente conjugal exceto se reconhecer o Senhor e Seu Divino, porque sem este reconhecimento o Senhor não pode influir nem ser unido às verdades que estão no homem.

« 377. Assim, é evidente que não estão no amor conjugal os que estão nos falsos, nem com mais forte razão os que estão nos falsos do mal. Nos que estão no mal e por conseguinte nos falso, os interiores que pertencem à mente também foram fechados. Por isso, não pode existir aí origem alguma do amor conjugal; mas, por baixo dos interiores, no homem externo ou natural separado do homem interno, há uma conjunção do falso e do mal, conjunção denominada casamento infernal. Foi-me permitido ver qual é o casamento entre os que estão nos falsos do mal, casamento que é chamado infernal: há entre eles conversas e conjunções lascivas, mas interiormente eles ardem um contra o outro em um ódio mortal que é tão grande, que não pode ser descrito.

« 378. Não há também amor conjugal entre duas pessoas que são de religiões diferentes, porque a verdade de uma não concorda com o bem da outra, e duas coisas dessemelhantes e discordantes não podem de duas mentes fazer uma só; por isso, a origem de seu amor nada tira do espiritual. Se coabitam e concordam, é somente por causas naturais. É por esta razão que os casamentos nos céus se contratam com pessoas que pertencem à mesma sociedade – porque elas estão em um semelhante bem e em uma semelhante verdade – e não com as que são de fora dessa sociedade. Que todos os que estão em uma mesma sociedade se acham em um semelhante bem e em uma semelhante verdade, e diferem dos que estão fora dessa sociedade, é o que se vê acima (n.º 41 e seguinte). É também o que foi representado na nação israelita, pelo fato de os casamentos serem contratados dentro das tribos e particularmente dentro das famílias, e não fora delas.

« 379. O amor verdadeiramente conjugal não pode existir entre um marido e muitas esposas, porque isso aniquila a sua origem espiritual, que consiste em que de suas mentes seja formada uma só. Por conseguinte, isso aniquila a conjunção interior, isto é, a do bem e da verdade, da qual provém a essência mesma desse amor. O casamento com mais de uma esposa é como um entendimento dividido entre muitas vontades, e como um homem ligado não a uma só igreja mas a muitas, porque assim a sua fé é dividida de modo a se tornar nula. Os anjos dizem que é absolutamente contra a ordem Divina ter muitas esposas; e que eles sabem isso por muitas causas, e também por isto: desde que pensam a respeito do casamento com muitas, eles são privados da bem-aventurança interna e da felicidade celeste, e então ficam como ébrios, porque o bem neles é separado de sua verdade. E como os interiores pertencentes à sua mente entram em um tal estado simplesmente pelo pensamento unido com alguma intenção, eles percebem claramente que o casamento com mais de uma esposa fecha o seu interno e faz que, em vez do amor conjugal, se introduza um amor lascivo que desvia do amor do céu. Eles dizem, além disso, que o homem dificilmente compreende isto, porque há poucas pessoas que estejam no amor conjugal genuíno, e que aqueles que não estão nele nada sabem absolutamente do prazer interior que reside nesse amor, pois só conhecem um prazer lascivo que se muda em tédio depois de uma curta coabitação, enquanto o prazer do amor verdadeiramente conjugal não só dura até a velhice no mundo, mas ainda se torna um prazer do céu depois da morte, e então, interiormente, um prazer que é aperfeiçoado durante a eternidade. Eles até me disseram que as bem-aventuranças do amor verdadeiramente conjugal podem se contar por vários milhares, e que não há uma só delas que seja conhecida do homem, nem que possa ser percebida pelo entendimento de quem não estiver pelo Senhor no casamento do bem e da verdade.

« 380. O amor da dominação de um dos cônjuges sobre o outro dissipa inteiramente o amor conjugal e seu prazer celeste. Isso porque, como já se disse, o amor conjugal e seu prazer consistem em que a vontade de um seja a do outro e vice-versa. O amor de dominar destrói isso no casamento, porque aquele que domina quer unicamente que sua vontade esteja no outro e, por outro lado, que a vontade do outro nele seja nula, de onde resulta que não há coisa alguma de mútuo, por conseguinte comunicação alguma de amor e de prazer desse amor com o outro. Entretanto, essa comunicação e, por conseguinte, conjunção constituem no casamento o prazer interior mesmo, que se chama bem-aventurança. O amor da dominação extingue inteiramente essa bem-aventurança e com ela extingue o celeste e todo o espiritual do amor conjugal, a tal ponto que não se sabe se ele existe. E, se falasse a respeito dessa bem-aventurança, ela seria considerada com tanto desprezo que sua menção seria motivo de riso ou de enfurecimento. Quando um quer o que a outra quer, ou quando uma quer o que o outro quer, há liberdade para ambos, porque toda liberdade pertence ao amor. Mas não há liberdade para qualquer deles quando há dominação: um é escravo e o que domina também é escravo, porque ele é dominado pela cobiça de dominar. Mas isto não é compreendido por quem não sabe o que é a liberdade do amor celeste. Entretanto, a verdade é que, sendo o amor conjugal inteiramente livre, quanto mais a dominação entrar, mais as mentes são divididas. A dominação subjuga e a mente subjugada ou não tem vontade ou é de vontade oposta; se não tem vontade, também não tem amor; se é de vontade oposta, o ódio toma o lugar do amor. Os interiores dos que vivem em um tal casamento estão em colisão entre si como estão ordinariamente dois opostos, ainda que externamente sejam refreados… A colisão e o combate de seus interiores se manifestam depois da morte. Eles geralmente se encontram e, então, combatem entre si como inimigos e se dilaceram mutuamente, porque então agem segundo o estado de seus interiores. Foi-me permitido ver, algumas vezes, seus combates e dilaceramentos, e alguns deles estavam cheios de vingança e de crueldade. Com efeito, na outra vida os interiores de cada um são postos em liberdade e não mais são retidos pelos externos como eram neste mundo por diferentes causas, porque então cada um é tal qual é interiormente.

« 381. Em alguns (casais) existe uma aparência de amor conjugal, mas a verdade é que, se eles não estão no amor do bem e da verdade, não estão no verdadeiro amor conjugal. Permanecem em tal amor aparente, a fim de serem servidos no lar, sentirem-se sossegados, tranqüilos ou ociosos, protegidos nas doenças ou velhice, ou tendo em vista o interesse comum pelos filhos… O amor conjugal difere também nos esposos: em um pode haver mais ou menos, em outro pouco ou nenhum; em face dessa diferença, pode ser o céu para um deles e o inferno para o outro.

« 382. (Primeiro). O amor conjugal genuíno está no céu íntimo, porque lá os anjos estão no casamento do bem e da verdade, e também na inocência. Os anjos dos céus inferiores também estão no amor conjugal, mas na proporção em que estão na inocência, porque o amor conjugal, considerado em si mesmo, é um estado de inocência. Por isso, entre cônjuges que estão no amor conjugal, há prazeres celestes que, diante de suas almas, são brinquedos inocentes quais e semelhantes aos das crianças, porque tudo é prazer para sua alegria em pois o céu influi com sua alegria em cada coisa de sua vida. É por isso que o amor conjugal é representado no céu pelas formas mais belas. Vi esse amor representado por uma virgem de beleza inexprimível, envolta em uma nuvem de alvura brilhante. Disseram-me que os anjos no céu tiram toda a sua beleza do amor conjugal. As afeições e os pensamentos provenientes desse amor são representados por auras diamantinas que cintilam como carbúnculos e rubis, e isso com deleites que afetam os interiores das mentes. Em uma palavra, o céu integra o amor conjugal, porque o céu nos anjos é a conjunção do bem e da verdade e esta conjunção faz o amor conjugal.

« 382. (Segundo). Os casamentos nos céus diferem dos casamentos nas terras, porque os casamentos nas terras são também para a procriação de filhos, o que não sucede nos céus. Em vez dessa procriação há nos céus uma procriação do bem e da verdade. Essa procriação substitui a outra, porque procede do casamento do bem e da verdade, como acima se mostrou, e porque neste casamento ama-se, acima de tudo, o bem e a verdade e sua conjunção. Assim, pois, os bens e verdades são propagados pelos casamentos nos céus. É dai que, pelas "natividades" e "gerações", na Palavra, são significadas as natividades e as gerações espirituais, que são as do bem e da verdade; por "mãe" e "pai", a verdade conjunta ao bem que procria; pelos "filhos" e "filhas", as verdades e os bens que são procriados; pelos "genros" e "noras", as conjunções dessas verdades e desses bens, e assim por diante. Daí vem que os casamentos nos céus não são como os casamentos nas terras; nos céus há núpcias espirituais que não devem ser chamadas núpcias, mas conjunções das mentes pelo casamento do bem e da verdade. Nas terras, porém, há núpcias, porque elas dizem respeito não somente ao espírito mas também à carne; e, como não núpcias nos céus, cônjuges ali não tem o nome de marido e esposa, mas cada um dos cônjuges, pela idéia Angélica da conjunção de duas mentes em uma só, e chamado por um nome que significa o mútuo do outro e, assim, reciprocamente. Desse modo, se pode saber como devem ser entendidas as palavras do Senhor sobre as núpcias (Lucas 20:35 e 36).

« 383. Foi-me permitido ver também como os casamentos se contraem nos céus. Em toda a parte no céu, os que são semelhantes são consociados, e os que são dessemelhantes são separados; por isso, cada sociedade do céu se compõe de anjos que se assemelham. Os semelhantes vão ter com os semelhantes, não por si próprios, mas pelo Senhor (ver números 41, 43 e 44). Dá-se o mesmo com o esposo e a esposa, cujas mentes podem ser conjuntas em uma só. Por isso, logo que se vêem, eles se amam intimamente, sentem-se como esposo e esposa e entram em casamento; daí é que todos os casamentos no céu vêm do Senhor. Também celebram-se festas, o que é realizado em uma reunião numerosa; as festividades diferem segundo as sociedades.

« 384. Os casamentos na terra, sendo as sementeiras do gênero humano, e os casamentos dos anjos do céu (…) sendo de origem espiritual, isto é, casamentos do bem e da verdade sob a influência do Divino do Senhor, disso resulta que, aos olhos dos anjos do céu, eles são santíssimos. E, em ordem inversa, os adultérios, sendo contrários ao amor conjugal, são considerados pelos anjos como profanos. Pois do mesmo modo que, nos casamentos, os anjos consideram o casamento do bem e da verdade, que é o céu; do mesmo modo, nos adultérios, eles consideram um casamento do falso e do mal, que é, portanto, o inferno. Por isso, quando ouvem pronunciar a palavra adultério, eles se afastam. É também por isso que o céu é fechado ao homem quando ele comete um adultério por prazer; e, quando o céu lhe é fechado, o homem não mais reconhece o Divino nem coisa alguma da fé da igreja. Que todos os que estão no inferno sejam contra o amor conjugal é o que me foi permitido perceber pela esfera que dali se exalava, e que era como um perpétuo esforço para dissolver e violar os casamentos. Por essa esfera pude convencer-me de que o prazer que reina no inferno é o prazer do adultério, e que o prazer do adultério é também o prazer de destruir a conjunção do bem e da verdade, conjunção que faz o céu. Daí resulta que o prazer do adultério é o prazer infernal, diametralmente oposto ao prazer do casamento, que é o prazer celeste.

« 385. Havia certos espíritos que, por um hábito contraído na vida do corpo, infestavam-me com uma habilidade particular, que senti como um influxo brando semelhante ao influxo dos espíritos probos. Mas percebi que havia neles astúcias e outras coisas semelhantes, com o fim de seduzir e enganar. Dirigi a palavra a um deles que havia sido comandante de exército segundo me disseram quando vivia neste mundo. E, como percebi que havia lascívia nas idéias de seu pensamento, conversei com ele a respeito do casamento em uma linguagem espiritual com representativos que exprimiam plenamente os sentimentos… Disse-me ele que, na vida do corpo, tinha considerado os adultérios como coisa nenhuma. Foi-me permitido responder-lhe que os adultérios são abomináveis, ainda que, aos olhos dos que os cometem, pareçam por causa do prazer que eles encontram que não são tais, e até que são lícitos. Eu lhe disse ainda que ele devia também saber que os casamentos são as sementeiras do gênero humano e, por isso mesmo, as sementeiras do reino celeste, não devendo, portanto ser violados, mas sim encarados como santos. Ademais, ele devia saber, por se achar na outra vida e em estado de percepção, que o amor conjugal desce do Senhor pelo céu, e que deste amor, como de um pai, deriva o amor mútuo, que é o fundamento do céu, e, ainda mais, que os adúlteros, por pouco que se aproximem das sociedades celestes, percebem o cheiro infecto que está neles, e se precipitam dali para o inferno. Continuei, dizendo-lhe que, pelo menos, ele teria podido saber que violar os casamentos é agir contra as leis Divinas, contra as leis civis de todos os países e contra a luz real da razão, pois é agir não somente contra a ordem Divina, mas também contra a ordem humana; e outras coisas mais. Ele respondeu-me, porém, que não tinha tido tais pensamentos na vida (…).

« 386. Foi-me mostrado como os prazeres do amor conjugal progridem na ascensão ao céu e como os prazeres do adultério progridem na descida ao inferno. A progressão do amor conjugal para o céu consiste em bem-aventuranças e felicidades continuamente, cada vez mais numerosas, até se tornarem inúmeras e inefáveis. Percebi que eram tanto mais numerosas e inefáveis quanto mais a progressão era interior, de tal sorte que elas alcançavam as bem-aventuranças e as felicidades mesmas do céu interno, ou céu da inocência, em plena liberdade… Mas a progressão do adultério na descida ao inferno se processava por graus até ao inferno mais profundo, onde só havia crueldade e horror. Tal é a sorte que espera os adúlteros depois de sua vida no mundo. Por adúlteros se entendem aqueles que sentem prazer nos adultérios e não encontram prazer algum nos casamentos

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O Céu (e as suas Maravilhas) e o Inferno (Segundo o que foi Ouvido e Visto), de Emanuel Swedenborg.

Para saber mais sobre Emanuel Swedenborg, leia a conferência escrita por Jorge Luis Borges (com notas de minha autoria). Conheça também o depoimento de Immanuel Kant.

4:56 amJosé Antônio de Almeida Prado (1943-2010)



Domingo, dia 21 de Novembro, faleceu em São Paulo o compositor erudito José Antônio de Almeida Prado, membro da Academia Brasileira de Música e ex-aluno de Olivier Messiaen, compositor que, num campo de concentração nazista, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Conheci Almeida Prado em 1999, na Casa do Sol, residência da escritora Hilda Hilst, sua prima. Nos dois anos em que lá morei, ele nos visitou em três ocasiões. Tínhamos longas conversas sobre arte, música, religião ― ele era católico ― e outros temas não muito ortodoxos. Num dia em que o acompanhei até uma farmácia para comprar insulina ― ele era diabético ―, Almeida Prado me disse: “Hildinha falou que você também está lendo sobre projeções astrais. É verdade?” Envergonhado como um garoto que tem as Playboys e Hustlers confiscadas pela mãe, que, por puro acaso, levantara o colchão para trocar aquele imundo lençol, comecei a gaguejar, afinal, não saio por aí revelando a meus amigos intelectuais, acadêmicos ou semelhantes tais gostos pervertidos de leitura. E ele: “É que tenho uma história que nunca contei a ninguém mas que gostaria de lhe contar”. Ufa, pensei. E acrescentei: “Manda bala, sou todo Ovídios”. E eis o que ouvi:

“Na noite em que comecei a compor o movimento das ‘Cartas Celestes’ que trata de Urano, fui acometido, ao piano, por um cansaço enorme, por um peso dolorido na nuca. Vendo que já era demasiado tarde ― e aproveitando que estava mesmo tendo dificuldades com a composição ― pus a um lado as partituras, o lápis e fui me deitar: ‘melhor retomar amanhã, quando estiver com melhor disposição’. Já na cama, deitado de costas, fiquei pensando no meu trabalho, na importância que aquela obra teria para mim e tal e, assim, fui caindo naquela letargia que antecede o sono. De repente, senti, sabe?, aquele tranco e, meio aflito, abri os olhos: Yuri, que susto! Eu estava flutuando em cima do telhado da minha casa! Quando eu já começava a me desesperar, acreditando estar morto, surgiu à minha frente uma esfera de luz azul que, rapidamente, veio a meu encontro e se chocou comigo. Na mesma hora já me vi dentro de uma espécie de tubo muito comprido ― aliás, as laterais pareciam a superfíce de um desses muros chapiscados ―, o qual me sugava como um aspirador. Quando a viagem acabou ― parecia uma viagem de elevador sem a inércia ― eu me encontrei flutuando sobre uma planície muito bonita e sob um céu de uma tonalidade e luz que eu nunca vira: esta não é a Terra, pensei. ‘Você está em Urano’, disse calmamente uma voz ao meu lado. Olhei em sua direção e vi um homem bastante alto, vestindo apenas uma túnica: ‘Não tenha medo, não vou lhe fazer mal.’ e, pegando-me pela mão, me levou a sobrevoar a região. Depois de me mostrar tudo ― vi diversos prédios afastados uns dos outros, como em Brasília, mas sem o menor sinal de ruas ― ele me olhou diretamente nos olhos e falou com bondade e firmeza: ‘Você notou? Não há o menor sinal de conflito aqui. Todos os que aqui estão vieram em missão de paz. Estamos aqui para ajudar seu planeta. Não estamos em guerra com ninguém. Portanto, volte ao seu trabalho e refaça todo o movimento sobre Urano das suas ‘Cartas Celestes’. Se permanecer como está, você estará mentindo, transmitindo uma mensagem falsa sobre nossa missão. Vá com Deus!” E, de súbito, a esfera de luz azul, vinda não sei de onde, chocou-se novamente comigo. Refiz o percurso pelo tubo de muro chapiscado e, então, sofri novo tranco, já em minha cama. Levantei elétrico, os pelos arrepiados, o corpo formigando. Corri para o piano e, de uma só vez, compus todo o novo movimento sobre Urano. E o cara tinha razão: antes ele estava muito Stravinsky, muito ‘Sagração da Primavera’.”

Ao terminar seu relato, Almeida Prado me disse: “Não vai sair contando isso por aí não, Yuri [ooops!], senão vão achar que tô doido e vão me tirar da UNICAMP. Se alguém me perguntar, não vou negar, mas também não vou confirmar”. E ria.

Em outra ocasião, Almeida Prado me falou de sua viagem até Medjugorje, na ex-Iugoslávia (Bósnia), aonde se dirigiu atraído pelos relatos da aparição de Nossa Senhora. Juntamente com outras dezenas de pessoas viu uma cruz de luz sobre Krizevak, a Montanha da Cruz. Uma chuva com cheiro de rosas caía sobre todos. Havia quase cem pessoas ali, mas nem todas eram capazes de enxergar a cruz. Comovido pela dádiva de poder vê-la, Almeida Prado se ajoelhou para orar e, então, ouviu a voz da mensageira celeste a falar em seu ouvido. Sentiu que ela o abraçava e o confortava. Disse-me que ela discorreu sobre seus problemas pessoais e o consolou. Sob a chuva, ele chorou de alegria. Sintetizou a experiência na composição para piano “Rosário de Medjugorje”.

Assim como Jacques Bergier e Louis Pauwels tão bem colocavam, acredito que nosso universo não pode ter outra natureza senão a do fantástico, a do imprevisível. Almeida Prado acreditava no mesmo e, quando encontrava pessoas que compartilhavam a mesma convicção, desfiava suas histórias.

Tenha uma boa viagem, amigo. Vá com Deus.

6:02 pmOs Livros Malditos: Jacques Bergier e o que John Dee viu no espelho negro

John Dee

« Como o abade Trithème, John Dee realmente existiu. Nasceu em 1527 e morreu em 1608. Sua vida foi tão extraordinária que, melhor do que a maior parte de seus biógrafos, foram os romancistas que melhor o descreveram em obras de imaginação. Estes romancistas são Jean Ray e Gustav Meyrink. Matemático distinto, especialista nos clássicos, John Dee inventou a idéia de um meridiano de base: o meridiano de Greenwich. Levou à Inglaterra, tendo-os encontrado em Louvain, dois globos terrestres de Mercator, assim como instrumentos de navegação. E foi assim o início da expansão marítima da Inglaterra.

« Pode-se dizer, dessa forma – não participo dessa opinião – que John Dee foi o primeiro a fazer espionagem industrial, pois levou à Inglaterra, por conta da Rainha Elizabeth, quantidade enorme de segredos de navegação e fabricação. Foi certamente um cientista de primeira ordem, ao mesmo tempo que um especialista dos clássicos, e manifesta a transição entre duas culturas que, no século XVI, não eram, talvez, tão separadas como o são agora.

« Foi também muitas outras coisas, como veremos. No curso de seus brilhantes estudos em Cambridge, pôs-se, infelizmente para ele, a construir robôs entre os quais um escaravelho mecânico que soltou durante uma representação teatral e que causou pânico. Expulso de Cambridge por feitiçaria, em 1547, foi para Louvain. Lá, ligou-se a Mercator. Tornou-se astrólogo e ganhou a vida fazendo horóscopos, depois foi preso por conspiração mágica contra a vida da Rainha Mary Tudor. Mais tarde, Elizabeth libertou-o da prisão e o encarregou de missões misteriosas no continente.

« Escreveu-se com freqüência que sua paixão aparente pela magia e feitiçaria seriam uma “cobertura” à sua verdadeira profissão: espião. Não estou totalmente convencido disto.

« Em 1563, numa livraria de Anvers, encontrou um manuscrito, provavelmente incompleto, da Steganographie de Trithème. Ele a completou e pareceu ter chegado a um método quase tão eficaz quanto o de Trithème.

« Publicando a primeira tradução inglesa de Euclides, e estudando para o exército inglês a utilização de telescópios e lunetas, continuou suas pesquisas sobre a Steganographie. E em 25 de maio de 1581, elas superaram todas as suas esperanças.

« Um ser sobre-humano, ou ao menos não-humano, envolto em luz, apareceu-lhe. John Dee chamou-o anjo, para simplificar. Esse anjo deixou-lhe um espelho negro que existe ainda no Museu Britânico. É um pedaço de antracite extremamente bem polido. O anjo lhe disse que olhando naquele cristal veria outros mundos e poderia ter contato com outras inteligências não-humanas, idéia singularmente moderna. Anotou as conversações que teve com seres não-humanos e um certo número foi publicado em 1659 por Méric Casaubon, sob o título “A true and faithfull relation of what passed between Dr. John Dee and some spirits”.

« Um certo número de outras conversações é inédito e os manuscritos se encontram no Museu Britânico.

« A maior parte das notas tomadas por John Dee e dos livros que preparava, foram, como veremos, destruídos. Entretanto, restam-nos suficientes elementos para que possamos reconstituir a língua que esses seres falavam, e que Dee chamou a Língua Enochiana.

« É a primeira linguagem sintética, a primeira língua não-humana de que se tem conhecimento. É, em todo caso, uma língua completa que possui um alfabeto e uma gramática. Entre todos os textos em língua enochiana que nos restam, alguns concernem à ciência matemática mais avançada do que ela estava no tempo de John Dee.

« A língua enochiana foi a base da doutrina secreta da famosa sociedade Golden Dawn, no fim do século XIX.

« Dee percebeu logo que não poderia lembrar-se das conversações que tinha com os visitantes estrangeiros. Nenhum mecanismo para registrar a palavra existia. Se dispusesse de um fonógrafo ou de um magnetóide, o seu destino, e talvez o do mundo, estariam mudados.

« Infelizmente, Dee teve uma idéia que o levou a perder-se. Entretanto, tal idéia era perfeitamente racional: encontrar alguém que olhasse o espelho mágico e mantivesse conversações com os extraterrestres, enquanto ele tomaria nota das conversas. Em princípio, tal idéia era muito simples. Infelizmente, os dois visionários que Dee recrutou, Barnabas Saul e Edward Talbot, revelaram-se como grandes canalhas. Desvencilhou-se rapidamente de Saul, que parecia ser espião a soldo de seus inimigos. Talbot, ao contrário, que trocou seu nome pelo de Kelly, agarrou-se. E agarrou-se tanto que arruinou Dee, seduziu sua mulher, levou-o a percorrer a Europa, sob o pretexto de fazer dele um alquimista, e acabou por estragar sua vida. Dee morreu, finalmente, em 1608, arruinado e completamente desacreditado. O Rei James I, que sucedera a Elizabeth, recusou-lhe uma pensão e ele morreu na miséria. A única consolação que se pode ter é de pensar que Talbott, aliás, Kelly, morreu em fevereiro de 1595, tentando escapar da prisão de Praga. Como era muito grande e gordo, a corda que confeccionara rompeu-se e ele quebrou os braços e as pernas. Um justo fim a um dos mais sinistros crápulas que a história conheceu.

« Apesar da proteção de Elizabeth, Dee continuou a ser perseguido, seus manuscritos foram roubados assim como uma grande parte de suas anotações.

« Se estava na miséria, temos que reconhecer que parcialmente a merecera. Com efeito, após ter explicado à Rainha Elizabeth da Inglaterra que era alquimista, solicitara um amparo financeiro. Elizabeth da Inglaterra disse-lhe, muito judiciosamente, que se ele sabia fazer o ouro, não precisava de subvenções, pois teria suas próprias. Finalmente, John Dee foi obrigado a vender sua imensa biblioteca para viver e, de certo modo, morreu de fome.

« A história reteve sobretudo os inverossímeis episódios de suas aventuras com Kelly, que são evidentemente pitorescos. Vimos aparecer aí, pela primeira vez, a troca de mulheres que, atualmente, é tão popular nos Estados Unidos.

« Mas essa estatuária de Epinal obscureceu o verdadeiro problema, que é o da língua enoquiana, a dos livros de John Dee que nunca chegaram a ser publicados.

« Jacques Sadoul, em sua obra “O Tesouro dos Alquimistas”, conta muito bem a parte propriamente alquimista das aventuras do Dr. Dee e de Kelly. Recomendo-a ao leitor.

« Voltemos à linguagem enoquiana e ao que se seguiu. E falemos primeiro da perseguição que se abateu sobre John Dee, desde que começou a dar a entender que publicaria suas entrevistas com “anos” não-humanos. Em 1597, em sua ausência, desconhecidos excitaram a multidão a atacar sua casa. Quatro mil obras raras e cinco manuscritos desapareceram definitivamente, e numerosas notas foram queimadas. Depois a perseguição continuou, apesar da proteção da Rainha da Inglaterra. Foi, finalmente, um homem alquebrado, desacreditado, como o seria mais tarde Madame Blavatsky, que morreu aos 81 anos de idade. Em 1608, em Mortlake. Uma vez mais a conspiração dos Homens de Preto parece ter vencido.

« A excelente enciclopédia inglesa “Man, Mith and Magic” observou muito oportunamente em seu artigo sobre John Dee: “Apesar de os documentos sobre a vida de John Dee serem abundantes, fez-se pouca coisa para explicá-lo e interpretá-lo”. Isto é verdadeiro.

« Ao contrário, as calúnias contra Dee não faltam. Nas épocas de superstição afirmava-se que ele faria magia negra. Em nossa época racionalista pretendeu-se que seria um espião, que fazia alquimia e magia negra para camuflar suas verdadeiras atividades. Tal tese é notadamente a da enciclopédia inglesa que citamos acima.

« Entretanto, quando examinamos os fatos, vemos primeiro um homem bem dotado, capaz de trabalhar 22 horas ao dia, leitor rápido, matemático de primeira ordem. Ademais, ele construiu autômatos, foi um especialista de óptica e de suas aplicações militares, da química.

« Que foi ingênuo e crédulo, é possível. A história de Kelly o mostra. Mas que fez uma importante descoberta, a mais importante, talvez, da história da humanidade, não está totalmente excluso. Parece-me possível contudo, que Dee tenha tomado contato, por telepatia ou clarividência, ou outro meio parapsicológico, com seres não-humanos. Era natural, dada a mentalidade da época, que ele atribuísse a esses seres uma origem Angélica, em vez de fazê-los vir de outro planeta ou de outra dimensão. Mas comunicou-se bastante com eles para aprender uma língua não-humana.

« A idéia de inventar uma língua inteiramente nova não pertencia à época de John Dee e nem de sua mentalidade. Foi muito depois que Wilkins inventou a primeira linguagem sintética. A linguagem enoquiana é completa e não se parece com nenhuma língua humana.

« É possível, evidentemente, que Dee a tenha tirado integralmente de seu subconsciente ou inconsciente coletivo, mas tal hipótese é tão fantástica quanto a da comunicação com seres extraterrestres. Infelizmente, a partir da intervenção de Kelly, as conversações estão visivelmente truncadas. Kelly inventa-as e faz dizer aos anjos ou espíritos o que lhe convinha. E do ponto de vista de inteligência e imaginação, Kelly era pouco dotado. Possui-se notas sobre uma conversação onde pede a um dos “espíritos” cem libras esterlinas durante quinze dias.

Continua…

11:19 amEmanuel Swedenborg: “O mal no homem é o inferno nele”

Emanuel Swedenborg

« Em algumas pessoas há prevalecido a opinião que Deus desvia Sua face do homem, o rejeita de Si e o precipita no inferno, e que Ele Se irrita contra o homem por causa do mal. Outros vão ainda mais longe e crêem que Deus pune o homem e lhe faz mal. Eles se confirmam nessa opinião pelo sentido literal da Palavra, onde se acham semelhantes expressões. Não sabem que o sentido espiritual da Palavra, que explica o sentido da letra, é inteiramente diferente, e que, conseqüentemente, a doutrina genuína da igreja, que vem do sentido espiritual da Palavra, ensina outra coisa, a saber, que Deus nunca desvia Sua face do homem e não o rejeita de Si; nunca lança alguém no inferno e não Se encoleriza. E também o que percebe todo homem cuja mente está na iluminação, quando lê a Palavra, pelo simples fato de que Deus é o Bem mesmo, o Amor mesmo e a Mise­ricórdia mesma; e que o Bem mesmo não pode fazer mal a alguém, e o Amor mesmo e a Misericórdia mesma não podem rejeitar o homem de Si, porque é contra a essência mesma da misericórdia e do amor, e assim, contra o Divino Mesmo. Por isso, aqueles que pensam por uma mente iluminada quando lêem a Palavra, claramente percebem que Deus nunca Se desvia do homem, e que, não Se desviando dele, age com ele segundo o bem, o amor e a misericórdia, isto é, Ele quer seu bem, ama-o e tem compaixão dele. Daí também eles vêem que o sentido da letra da Palavra, no qual se acham tais expressões, encerra em si um sentido espiritual segundo o qual devem ser expli­cadas essas expressões, que foram, no sentido da letra, acomodadas à concepção do homem e pronunciadas segundo as suas idéias pri­meiras e comuns.»

(…)

« Disto resulta que o homem é que é a causa de seu mal e de forma alguma o Senhor. O mal no homem é o inferno nele. Por isso, dizer mal ou inferno, é a mesma coisa. Ora, como o homem é a causa de seu mal, é pois ele próprio que se induz ao inferno e não o Senhor que o induz. O Senhor, em vez de induzir o homem ao inferno, o liberta do inferno tanto quanto o homem não quiser e não desejar estar em seu mal. O todo da vontade e do amor do homem permanece nele depois da morte; aquele que quer e ama um mal no mundo, quer e ama o mesmo mal na outra vida: ele não tolera então que se separe dele. Daí vem que o homem que está no mal está ligado ao inferno e tam­bém está realmente quanto ao seu espírito no inferno; e depois da morte não deseja outra coisa senão estar onde está seu mal. Por isso, é o homem que, depois da morte se precipita no inferno por si mesmo e não o Senhor que o precipita.

« Dir-se-á também como isso se dá. Quando o homem entra na outra vida, ele é primeiramente recebido pelos anjos, que lhe prestam todos os serviços possíveis e que lhe falam do Senhor, do céu, da vida angélica, e o instruem nas verdades e bens. Mas se o homem, então espírito, é tal que no mundo – ele haja de fato rece­bido instruções sobre semelhantes coisas, mas de coração as haja negado ou desprezado, então, depois de algumas conversas com eles, ele deseja e também procura separar-se deles. Ora, quando os an­jos percebem isso, eles o deixam; e ele, depois de algumas ligações com outros, se associa finalmente aos que estão em um mal seme­lhante ao seu. Quando isso se dá, ele se desvia do Senhor e volta sua face para o inferno ao qual ele tinha sido associado quando estivera no mundo, e onde residem os que estão em um se­melhante amor do mal. Tudo isso mostra com evidência que o Se­nhor atrai a Si todo espírito, através de seus anjos e também pelo influxo do céu, mas os espíritos que estão no mal resistem veemen­temente e se desprendem, por assim dizer, do Senhor, e são arras­tados por seu mal como por uma corda, assim pelo inferno; e como são arrastados, e pelo amor do mal querem ser arrastados, é eviden­te que eles se precipitam no inferno por sua livre vontade. Que isso seja assim, ninguém pode crê-lo no mundo, por causa da idéia que se faz do inferno; e mesmo na outra vida, isso só aparece aos olhos daqueles que estão fora do inferno, mas não aos que nele se lançam. Porque eles nele entram por sua livre vontade, e os que entram por um ardente amor do mal aparecem como se se tivessem precipitado com a cabeça para baixo e os pés para cima. E por esta aparência que parece que eles são lançados por uma força Divina. De tudo isso pode-se ver por que o Senhor não precipita pessoa alguma no inferno, mas cada um é que se precipita nele por si próprio, não só enquanto vive no mun­do, como também depois da morte, quando vem entre os espíritos.

« Se o Senhor não pode, por Sua Divina essência, que é o Bem, o Amor e a Misericórdia, agir do mesmo modo com todo ho­mem, é porque os males e por conseguinte os falsos obstam e não só enfraquecem mas até rejeitam Seu influxo Divino. Os males, e por conseguinte os falsos, são como nuvens negras que se interpõem entre o sol e os olhos do homem, e arrebatam o brilho e a serenidade da luz. Persistindo o sol em um contínuo esforço para dissipar as nuvens que fazem obstáculo, porque ele está por trás, opera, e, du­rante esse tempo, ele também envia, por diversas passagens aqui e ali, alguma luz mesclada de sombra aos olhos do homem. No mundo espiritual dá-se o mesmo: lá, o Sol é o Senhor e o Divino amor; a luz é a Divina verdade; as nuvens ne­gras são os falsos do mal; os olhos são o entendimento. Lá, quanto mais alguém está nos falsos do mal, mais há ao redor dele uma tal nuvem, negra e condensada segundo o grau do mal. Por esta com­paração se pode ver que a presença do Senhor é perpétua em cada um, mas é recebida de diversos modos.

« Os maus espíritos são punidos severamente no mundo dos espíritos, para que, pelos castigos, sejam desviados de praticar males. Também parece que eles são punidos pelo Senhor, mas a verdade é que nenhuma coisa da pena vem do Senhor, mas do próprio mal, porque o mal foi de tal modo unido à sua pena que eles não podem ser separados. Pois a turba infernal só deseja e só ama fazer o mal, e principalmente infligir penas e tormentos; por isso ela faz mal e inflige penas a quem quer que não se acha sob a tutela do Senhor. Quando pois um mal é feito de mau coração, como esse mal repele de si toda a tutela do Senhor, os espíritos infernais se precipitam sobre aquele que fez tal mal e o punem. Isto pode ser ilustrado, de algum modo, pelos males e pelas penas dos males no mundo, onde os males e as penas também foram conjuntos, porquanto as leis prescrevem uma pena para cada mal. Por isso, aquele que se precipita no mal, se precipita também na pena do mal. A dife­rença consiste unicamente em que o mal no mundo pode estar oculto, enquanto não o pode na outra vida. Tudo isso mostra que o Senhor não faz mal a pessoa alguma, e que dá-se o mesmo no mundo, onde o rei, o juiz e a lei não são a causa pela qual o réu é punido, porque eles não são a causa do mal do malfeitor

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O Céu (e as suas Maravilhas) e o Inferno (Segundo o que foi Ouvido e Visto), de Emanuel Swedenborg.

Para saber mais sobre Emanuel Swedenborg, leia a conferência escrita por Jorge Luis Borges (com notas de minha autoria). Conheça também o depoimento de Immanuel Kant.

11:37 amO Mestre e Margarida: Mikhail Bulgakov narra o diálogo, em plena União Soviética, entre o Diabo e dois escritores comunistas sobre a existência de Deus

Mikhail Bulgakov

Por Mikhail Bulgakov.

Essa conversa, como depois se soube, era sobre Jesus Cristo. O editor tinha encomendado ao poeta um longo poema anti-religioso para o próximo número da revista. Ivan Nikolaevitch tinha composto o poema, e até com muita rapidez, mas infelizmente o editor não tinha ficado nada satisfeito com ele. Bezdomni pintara a principal personagem do seu poema, ou seja, Jesus, com cores muito sombrias, e, no entanto, na opinião do redator, era preciso reescrever todo o poema. E agora o redator fazia ao poeta uma espécie de conferência sobre Jesus, a fim de sublinhar o erro fundamental do poeta.

Era difícil dizer o que é que precisamente traíra o poeta: se o poder imaginativo do seu talento ou o completo desconhecimento do assunto sobre o qual escrevia. Mas o Jesus que ele retratara era, digamos, como que uma personagem viva, embora não muito atraente. E Berlioz queria provar ao poeta que o mais importante não era como tinha sido Jesus, mau ou bom, mas que esse Jesus, como indivíduo, nunca existira e que todas as histórias sobre ele eram pura invenção, o mais vulgar dos mitos.

Devemos assinalar que o redator era um homem de muitas leituras e citava habilidosamente no seu discurso os historiadores antigos, por exemplo o célebre Fílon de Alexandria, o brilhante erudito Flávio Josefo, que nunca disseram nem uma palavra acerca da existência de Jesus. Mostrando uma sólida erudição, Mikhail Alexandrovitch informou o poeta, entre outras coisas, de que a passagem do Livro Quinze, no Capítulo 44 dos famosos Anais de Tácito, onde se fala de Jesus, não é mais que uma interpolação posterior e falsa.

O poeta, para quem tudo aquilo que o redator dizia era novidade, escutava atentamente Mikhail Alexandrovitch, fixando nele os seus olhos verdes, vivos e desenvoltos, e só de vez em quando soluçava, amaldiçoando em voz baixa o refresco de alperce.

– Não há uma única religião oriental – dizia Berlioz – em que, como regra, uma virgem imaculada não dê à luz um deus. E os cristãos, sem inventarem nada de novo, criaram do mesmo modo o seu Jesus, o qual de fato nunca existiu. E é isto que deve ser principalmente realçado…

A forte voz de tenor de Berlioz ecoava na alameda deserta, e, à medida que Mikhail Alexandrovitch penetrava em labirintos onde só um homem muito culto se pode aventurar sem correr o risco de quebrar a face, o poeta aprendia cada vez mais coisas interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus benfazejo, filho do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre Marduque, e até sobre o menos conhecido e terrível deus Huitzilopochtli, outrora profundamente venerado pelos astecas no México.

E no preciso momento em que Mikhail Alexandrovitch contava ao poeta como os astecas moldavam em massa de pão a figura de Huitzilopochtli, apareceu na alameda o primeiro transeunte.

Posteriormente, quando, para falar verdade, era já demasiado tarde, várias instituições apresentaram relatórios com a descrição desse homem. A comparação entre esses relatórios não pode deixar de causar estupefação. Assim, no primeiro diz-se que ele era de baixa estatura, tinha dentes de ouro e coxeava da perna direita. No segundo, esse homem era de estatura enorme, tinha coroas de platina e coxeava da perna esquerda. O terceiro relatório informa laconicamente que o homem não tinha quaisquer sinais particulares.

Devemos reconhecer que nenhum desses relatórios tem qualquer utilidade.

Antes de mais, o homem descrito não coxeava de nenhuma das pernas e não era de estatura baixa nem demasiado alta, mas simplesmente alto. Quanto aos dentes, do lado esquerdo tinha coroas de platina e de ouro no lado direito. Vestia um traje caro cinzento, e usava sapatos estrangeiros da mesma cor. O boné cinzento caía-lhe ousadamente sobre a orelha e debaixo do braço trazia uma bengala com castão preto em forma de cabeça de cão-d’água. Aparentava ter pouco mais de quarenta anos, tinha a boca um pouco torcida e estava muito bem barbeado. Era moreno. O olho direito era negro e o esquerdo, não se sabe por quê, era verde. As sobrancelhas eram negras, mas uma mais alta que a outra. Em suma, um estrangeiro.

Ao passar junto do banco onde estavam sentados o editor e o poeta, o estrangeiro olhou-os de soslaio, parou e, subitamente, sentou-se no banco próximo, a dois passos dos amigos.

“Alemão”, pensou Berlioz. “Inglês”, pensou Bezdomni. “E de luvas, com este calor.”

O estrangeiro percorreu com o olhar os altos edifícios que formavam um quadrado em volta do lago, e era evidente que via aquele lugar pela primeira vez e que ele lhe interessava.

Deteve o olhar nos andares superiores cujos vidros refletiam ofuscantemente o sol fragmentado que abandonava Mikhail Alexandrovitch para sempre, depois baixou-o para onde as vidraças começavam a escurecer com a noite, sorriu com ar superior, semicerrou os olhos, colocou as mãos sobre o castão da bengala e apoiou o queixo nas mãos.

– Tu, Ivan – disse Berlioz -, descreveste muito bem e em tom satírico, por exemplo, o nascimento de Jesus, filho de Deus, mas a questão está em que, antes de Jesus, nasceu toda uma série de filhos de deuses como, por exemplo, o Átis frígio. Em suma, nenhum deles nasceu e nenhum deles existiu, incluindo o próprio Jesus. E é preciso que tu, em vez do nascimento ou, digamos, da chegada dos Reis Magos, descrevas os boatos absurdos sobre esse nascimento… Ora do teu relato resulta que ele realmente nasceu!…

Então Bezdomni fez uma tentativa para acabar com os soluços, sustendo a respiração, o que o fez soluçar mais dolorosamente e mais alto, e, nesse mesmo instante, Berlioz interrompeu o seu discurso, porque de súbito o estrangeiro levantou-se e encaminhou-se para os escritores. Estes olharam-no atônitos.

– Desculpem, por favor – disse o homem, com sotaque estrangeiro mas sem deformar as palavras -, se, não vos conhecendo, tomo a liberdade… mas o tema da vossa erudita conversa é tão interessante que…

Tirou polidamente o boné, e os dois amigos não tiveram outro remédio senão levantarem-se e cumprimentá-lo.

“Não, deve ser francês … “, pensou Berlioz. “Polaco? … “, pensou Bezdomni. Deve-se acrescentar que desde as primeiras palavras o estrangeiro suscitou no poeta uma impressão de repulsa, enquanto Berlioz gostou dele, ou antes, não é que tenha gostado dele, mas… como dizer.. despertou-lhe interesse, digamos.

– Permitem que me sente? – pediu com polidez o estrangeiro, e, involuntariamente, os amigos afastaram-se, o estrangeiro sentou-se entre eles e entrou de imediato na conversa. – Se bem ouvi, o senhor dizia que Jesus nunca existiu? – perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz o seu olho esquerdo, verde.

– Sim, ouviu bem – respondeu cortesmente Berlioz. – Foi precisamente isso que eu disse.

– Ai, que interessante – exclamou o estrangeiro. “Mas que diabo quer ele?”, pensou Bezdomni, franzindo as sobrancelhas.

– E o senhor concordou com o seu interlocutor? – inquiriu o desconhecido, voltando-se para a direita, para Bezdomni.

– Cem por cento! – confirmou este, que gostava de expressões rebuscadas e alegóricas.

– Admirável! – exclamou o interlocutor e, lançando olhadelas furtivas e baixando ainda mais a voz, disse: – Desculpem-me a impertinência, mas, ao que percebi, os senhores, para além do mais, também não acreditam em Deus? – Teve um olhar de espanto e acrescentou: – Juro que não digo a ninguém.

– É verdade, não acreditamos em Deus – respondeu Berlioz, sorrindo levemente do receio do turista estrangeiro -, mas podemos falar disso com toda a liberdade.

O estrangeiro recostou-se no banco e perguntou, numa voz meio esganiçada de curiosidade:

– Os senhores são ateus?

– Sim, somos ateus – respondeu Berlioz, e Bezdomni pensou irritado: “Está grudado, este pato estrangeiro!”.

– Oh, que coisa fascinante! – exclamou o atônito estrangeiro, e virava a cabeça olhando ora para um, ora para outro dos literatos.

– No nosso país, o ateísmo não surpreende ninguém – disse Berlioz diplomaticamente. – A maioria da nossa população deixou, conscientemente e há muito tempo, de acreditar em histórias sobre Deus.

Então o estrangeiro saiu-se com esta: pôs-se de pé e apertou a mão do assombrado editor, enquanto dizia estas palavras:

– Permita que lhe agradeça de todo o coração!

– Por que é que lhe agradece? – interrogou Bezdomni pestanejando.

– Por uma informação muito importante que, para mim, como viajante, é muito interessante – explicou o estrangeiro excêntrico, erguendo um dedo significativamente.

Pelo visto, a importante informação produzira de fato uma forte impressão no viajante, porque ele relanceou os olhos assustados pelos edifícios, como se receasse ver um ateu em cada janela.

“Não, não é inglês … “, pensou Berlioz, enquanto Bezdomni pensava: “Interessante, onde terá ele aprendido a falar assim russo!”, e de novo franziu as sobrancelhas.

– Mas permita que lhe pergunte – tornou o visitante estrangeiro depois de refletir ansiosamente. – E as provas da existência de Deus, as quais, como se sabe, são exatamente cinco?

– Infelizmente! – respondeu Berlioz com pesar -, nenhuma dessas provas vale nada, e a humanidade já as mandou há muito para o arquivo. Pois há-de concordar que no domínio da razão não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.

– Bravo! – exclamou o estrangeiro. – Bravo! O senhor repete interiormente o pensamento do velho irrequieto Immanuel sobre esse assunto. E coisa curiosa: ele demoliu completamente as cinco provas, e depois, como que troçando de si mesmo, construiu a sua própria sexta prova!

– A prova de Kant – ripostou o culto editor com um leve sorriso – também não é convincente. E não era em vão que Schiller dizia que as considerações de Kant sobre esta questão só podem satisfazer os escravos, e Strauss limitou-se a rir dessa prova.

Enquanto falava, Berlioz ia pensando: “Mas afinal, quem será ele? E por que é que fala tão bem russo?”.

– Esse tal Kant, havia que agarrá-lo e mandá-lo para Solovki, por essas provas! – lançou inesperadamente Ivan Nikolaevitch.

– Ivan! – murmurou Berlioz, embaraçado. Mas a proposta de enviar Kant para Solovki não só não impressionou o estrangeiro como o deixou encantado.

– Exatamente, exatamente! – exclamou ele e o seu olho esquerdo, verde, voltado para Berlioz, cintilou. – Lá é que é o lugar dele! Pois na época eu lhe disse, ao pequeno-almoço: “Desculpe, professor, mas o senhor inventou uma coisa que não faz sentido! É talvez inteligente, mas demasiado incompreensível. Vão fazer troça de si”.

Berlioz arregalou os olhos. “Ao pequeno-almoço?… A Kant?… Que está ele aí a inventar?”, pensou.

Continua…

8:45 amC. S. Lewis e o divórcio entre o Céu e o Inferno

C.S. Lewis

« O Sr. William Blake escreveu o livro O Matrimônio do Céu e do Inferno. Se escrevi sobre o abismo entre os dois, isto não é porque me julgo um antagonista à altura de tão grande gênio, nem mesmo porque esteja absolutamente certo de ter entendido o que ele pretendia; mas, num sentido ou outro a tentativa de realizar essa união é perene. Essa tentativa tem como base a crença de que a realidade jamais se apresenta a nós num sentido absoluto, havendo sempre uma opção inevitável a ser feita; mas que, com habilidade e paciência e (acima de tudo) tempo suficiente, algum meio de abranger ambas as alternativa pode ser sempre encontrado. Que o simples desenvolvimento, ajuste ou refinamento, irá de alguma forma transformar o mal em bem, sem que sejamos chamados para uma rejeição final e total de qualquer coisa que desejemos reter.

« Acredito que esta crença represente um erro desastroso. Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas. Em uma dessas viagens até mesmo a sua mão direita ou o seu olho direito podem estar entre as coisas que precisará deixar para trás. Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. Mesmo no nível biológico, a vida não é como um rio mas como uma árvore. Ela não se move na direção da unidade, mas se distancia dela e as criaturas se afastam cada vez mais das outras, à medida que se aperfeiçoam. O bem, quando amadurece, se mostra cada vez mais diferente, não só do mal, mas de qualquer outro bem.

« Não julgo que todos os que escolhem as estradas erradas perecem; mas o seu resgate consiste em serem colocados de volta na estrada certa. Uma soma errada pode ser corrigida, mas somente fazendo um retrospecto até achar o erro e continuando a partir desse ponto, e não apenas “avançando”. O mal pode ser desfeito, mas não pode “transformar-se” em bem. O tempo não pode curá-lo. O encanto precisa ser quebrado, pouco a pouco, “com murmúrios de trás para diante, a fim de obter a separação” — caso contrário não dá resultado. Continua prevalecendo a necessidade de alternativa. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a terra) não veremos o Céu. Acredito que qualquer homem que chegue ao Céu descobrirá que aquilo que abandonou (mesmo arrancando o seu olho direito) não ficou perdido: que o âmago daquilo que estava realmente buscando, mesmo em seus mais depravados desejos, continua ali, além de qualquer expectativa, esperando por ele nos “Países Altos”. Nesse sentido, os que tiverem completado a jornada (e somente estes) poderão verdadeiramente dizer que o bem é tudo e que o Céu está em toda parte. Mas nós, deste lado da estrada, não devemos tentar antecipar essa visão retrospectiva. Se fizermos isso, é provável que adotemos o falso e desastroso conceito de que tudo é bom e qualquer lugar é o Céu.

« E a terra? você pode perguntar. A terra, penso eu, não irá ser considerada por ninguém, no final, como sendo um lugar muito definido. Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.

« Só quero dizer mais uma ou duas coisas sobre este livro. Primeiro, devo reconhecer minha dívida de gratidão a um escritor cujo nome esqueci. Li um artigo seu numa revista americana chamada Scientifiction (Ficção Científica). A qualidade do meu material celeste, que não se curva nem quebra, foi-me sugerida por ele, embora tivesse feito uso da fantasia para um propósito diferente e muito engenhoso. O seu herói viajou para o passado: e ali, muito adequadamente, encontrou pingos de chuva que o feriam como balas e sanduíches que não se podiam comer — porque, naturalmente, nada no passado pode ser alterado. Com menos originalidade, mas (espero) com igual propriedade, transferi esta idéia para a eternidade. Se o autor dessa história porventura ler estas linhas peço que aceite minha gratidão. A segunda coisa é esta. Peço aos leitores que se lembrem tratar-se de uma fantasia. Ela tem naturalmente, ou foi essa a minha intenção, uma moral. Mas as condições além da morte não passam de uma suposição imaginaria: não são sequer um palpite ou uma especulação quanto ao que pode realmente aguardar-nos. A última coisa que desejo seria despertar curiosidade fatual quanto aos detalhes da vida após-morte.»

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O Grande Abismo (prefácio), de C.S. Lewis.

Este foi o livro que o poeta Bruno Tolentino me indicou após conversarmos longamente sobre Swedenborg, O Livro de Urântia, vida após a morte, projeções astrais, Salvação e quejandos. O título em inglês soa ainda mais antagônico ao livro de William Blake: “The Great Divorce”.