8:09 amMário Ferreira dos Santos: as virtudes

“Chamam-se virtudes todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente.

É esse o conceito de virtude (de vir, homem). É a potência racional que inclina o homem à prática de operações honestas, tendentes para o bem.

Pode-se, assim, falar de virtudes morais e virtudes intelectuais. As que tendem para o bem honesto são morais, as que tendem para a verdade são as intelectuais. A caridade é uma virtude moral. As virtudes intelectuais, também chamadas especulativas, são a sabedoria, a ciência, etc.”


VIRTUDES CARDEAIS

“A palavra cardeal vem de cardo, cardinis, que, em latim, significa gonzo, em torno do qual gira a porta. As virtude cardeais são as virtudes fundamentais em torno das quais gira o ser humano. Toda virtude é uma capacidade ou aptidão para levar avante ações adequadas ao homem. Entre as virtudes adquiridas pelo homem, estabelecem-se quatro, que são fundamentais, ou capitais, às quais estão subordinadas outras, que são acessórias, ou subordinadas. Desde a antiguidade, classificou-se como virtudes cardeais: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

A prudência é aquela virtude que permite ao entendimento reflexionar sobre os meios conducentes a um fim racional. A prudência manifesta-se, assim, de vários modos. É uma virtude intelectual. Por si só ela não é realizadora de atos morais, mas, por facilitar a escolha, ela pode guiar a vontade, a fim de que esta se dirija, após a seleção feita pelo entendimento, para aqueles fins mais benéficos ao homem. Há uma prudência (sapiência) para conduzir a si mesmo e para conduzir os outros. A prudência exige: reflexão, capacidade atencional, para examinar os juízos e as idéias, e acuidade, para descobrir os meios mais hábeis. Exige, ademais, inteligência, capacidade de resolver com clareza e segurança, de modo a alcançar as melhores soluções.

A segunda virtude é a fortaleza ou valentia. Consiste esta na capacidade de enfrentar os perigos que se oferecem à obtenção dos bens mais elevados, e entre estes perigos, os males e a morte. Chama-se heroísmo a fortaleza quando enfrenta até a morte. Medo é o estado emocional que detém o ser humano ante o perigo. A fortaleza é uma vitória sobre o medo. A audácia é um desafio ao risco e à morte, indo-lhes ao encontro. É ela uma virtude, quando refreada. Os meios de fortalecimento da fortaleza são o exercício, que consiste em enfrentar os riscos e a perseveração na obtenção dos fins. Como as virtudes cardeais conjugam-se, a fortaleza recebe apoio e equilíbrio da prudência, pois, pelo saber, pode o homem empregar esta virtude em termos que lhe sejam mais benéficos possíveis.

A paciência é uma virtude subordinada à fortaleza, e consiste na capacidade constante de suportar as adversidades. Também o é, a generosidade, que é aquela virtude que se caracteriza pela energia e decisão no ataque do homem de brio e de valentia, sobretudo quando ele enfrenta a morte. São ainda virtudes afins à fortaleza, a confiança na sua capacidade de enfrentar os riscos, a munificência, que constitui a pronta decisão de sacrificar seus próprios bens para atingir fins elevados, a tenacidade, que é a disposição firme de enfrentar os obstáculos exteriores, e a constância, que é saber manter-se firme ante os obstáculos interiores.

A terceira virtude cardeal é a temperança. Esta consiste em aperfeiçoar, constantemente, a potência petitiva, sensitiva, de modo a conter o prazer sensitivo dentro dos limites estabelecidos da sã razão. Assim, a moderação é a temperança no comer, a sobriedade, no beber, a castidade, no prazer sexual.

Há virtudes outras auxiliares da temperança, como seja o decoro no modo de vestir e proceder, e o sentimento de honra, a humildade, que é a moderação na tendência a salientar-se, a mansidão, que é a temperança em refrear a ira, a clemência, que se manifesta na indulgência ao castigar, e a modéstia, que é a temperança nas manifestações exteriores.

A quarta é a justiça. Consiste ela na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém ou a alguma coisa.

O domínio da justiça permite o equilíbrio da moderação, da temperança, da fortaleza e da própria prudência. Essas quatro virtudes cardeais, que lhes são acessórias, ou subordinadas, nos limites marcados pela interatuação de umas sobre as outras, permitem formar o homem dentro dos mais altos valores. São assim as virtudes cardeais fundamentais, não só para a ordem social, como para a pessoal, pois não pode haver homens sãos nem sociedades sãs, onde a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança não estejam presentes. Todo trabalho pedagógico tem de se fundamentar, primacialmente, na preparação de seres humanos para que adquiram, pelos meios mais aptos e eficientes, estas quatro virtudes, infelizmente tão pouco estudadas pelos modernos, que as esquecem e não lhes dão o valor que elas realmente têm.

Distinguem-se as virtudes cardeais das virtudes teologais, no seguinte: as primeiras são adquiridas e fortalecidas pelo hábito; as segundas, ou nascemos com elas ou não, porque nem a fé, nem a esperança, nem a caridade as obtemos pelo exercício dos hábitos, mas, ou elas moram em nós mesmos, ou não moram.”


VIRTUDES TEOLOGAIS

“Assim como há virtudes cardeais, adquiridas pelo hábito constante, há virtudes que nos parecem espontâneas, que não são produtos de um hábito humano, como sejam a fé, a esperança e a caridade.

Na Ética religiosa, essas três virtudes são chamadas de teologais, porque não são elas produtos de um hábito, pois o homem não as adquire através do seu próprio esforço.

A é o assentimento do intelecto que crê, com constância e certeza, em alguma coisa. A prudência, podemos adquiri-la, a pouco a pouco, como podemos adquirir a fortaleza e alcançar, pelo nosso esforço, a justiça e a moderação, mas, para crer com constância e certeza em alguma coisa, não basta o nosso querer, é preciso que esse assentimento do nosso intelecto se dê espontaneamente. Ninguém gesta dentro de si a fé; ou a tem, ou não. Ou com ela nascemos, ou subitamente ela aflora em nós, sem necessidade de termos dirigido para ela, conscientemente, qualquer de nossos esforços.

A esperança é a expectação de algo superior e perfeito. Tem esperança aquele que aguarda algo de maior, de melhor, de mais perfeito, que venha a suceder.

A esperança não é o produto de nossa vontade, mas de uma espontaneidade, cujas raízes nos escapam, porque não é ela genuinamente uma manifestação do homem, mas algo que se manifesta pelo homem, porque não encontramos na estrutura da nossa vida biológica, nem da nossa vida intelectual, uma razão que a explique.

A caridade é a mãe de todas as virtudes como diziam os antigos, e diziam-no com razão; é a raiz de todas as virtudes, porque ela é a bondade suprema para consigo mesmo, para com os outros, para com o Ser Infinito. A caridade, assim, supera a nossa natureza, porque, graças a ela, o homem avança além de si mesmo, além das suas exigências biológicas. É essa a razão porque, na Religião, essas três virtudes, que Cristo nos apontou, são consideradas como vindas de uma raiz mais longínqua.

A palavra de Cristo é clara. A fé, a esperança e a caridade são aquelas virtudes pelas quais o homem supera a si mesmo, pelas quais o homem tange a suprema perfeição. Todas as tentativas de explicar essas virtudes, com origem nos fatores emergentes e predisponentes, malograram até aqui. Elas não são o produto de uma prática, porque pode o homem praticar a caridade, sem tê-la no coração; pode o homem exibir uma crença firme, sem alimentá-la no seu âmago; pode o homem tentar revelar aos outros que é animado pela esperança, sem ressoar ela em sua consciência. Assim, podem praticar-se atos de fé, atos de esperança e atos de caridade, e estar-se ainda muito distante dessas três virtudes.

Não basta desejar adquiri-las; é preciso tê-las. A ciência é um hábito, como um hábito são também as outras virtudes, mas, sem a presença dessas três, aquelas esmaecem e se apagam. O verdadeiro homem religioso e virtuoso afana-se em adquirir as virtudes cardeais, mas humildemente espera que nele se fortaleçam as três virtudes teologais.

E nesta humilde espera está em grande parte a sua grandeza.”

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Santos, Mário Ferreira. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. São Paulo: Ed. Matese, 1963. Vols 1,4. (págs 1271-1272: “Virtude” e “Virtudes Teologais”; págs 233-235: “Cardiais”).

Publicado no Facebook.

7:04 am10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

7:14 pmAlbert Camus: Niilismo e História

albert camus

« Cento e cinquenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram reaparecer, sob máscaras diferentes, mas com obstinação, o mesmo rosto devastado — o do protesto humano. Todos, sublevados contra a condição e contra o seu Criador, têm afirmado a solidão da criatura e o nada de toda a moral. Mas todos, ao mesmo tempo, procuraram construir um reino puramente terrestre em que reinasse a regra por eles escolhida. Rivais do Criador, foram logicamente conduzidos a refazer por si próprios a criação. Aqueles que, pelo mundo que acabavam de criar, recusaram outra regra que não fosse a do desejo ou a do poder, precipitaram-se no suicídio ou na loucura e cantaram o apocalipse. Quanto aos outros, que pretenderam criar as suas regras por meio das próprias forças, escolheram uma parada vã: o parecer ou a banalidade, ou ainda o assassínio e a destruição. Mas Sade e os românticos, Karamazov ou Nietzsche só penetraram no mundo da morte porque desejaram a verdadeira vida. E com tanto empenho que, por efeito inverso, foi o apelo desesperado à regra, à ordem e à moral que ressoou neste universo louco. As suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que eles se desembaraçaram do fardo da revolta, fugiram à tensão que ela pressupõe e escolheram o conforto da tirania ou da servidão.

« A insurreição humana, nas suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser mais do que um longo protesto contra a morte, uma acusação enraivecida contra essa condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que se nos têm deparado, todas as vezes o protesto se dirige a quanto na criação é dissonância, opacidade, solução de continuidade.Trata-se, pois, essencialmente, de uma interminável reivindicação de unidade. A recusa à morte, o desejo de duração e de transparência são as molas reais de todas essas sublimes ou pueris loucuras. Tratar-se-á simplesmente de uma recusa covarde e pessoal ao ato de morrer? Não, pois muitos desses rebeldes pagaram o que era preciso para se alcandorarem à altura da sua exigência. O revoltado não reclama a vida, mas as razões da vida. Recusa a consequência trazida pela morte. Se coisa alguma dura, nada se justifica; o que morre é falho de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o significado da vida, a combater pela regra e pela unidade.

« O protesto contra o mal que reside mesmo no coração da revolta metafísica é, neste caso, significativo. Não é o sofrimento da criança que se deve considerar revoltante em si próprio, mas o fato de tal sofrimento não ser justificado. No fim das contas, a dor, o exílio, a claustração são por vezes aceites quando a medicina ou o bom senso no-los impõem. Aos olhos do revoltado, o que falta à dor neste mundo, como aos instantes de felicidade, é um princípio de explicação. A insurreição contra o mal mantém-se em primeiro lugar como uma reivindicação de unidade. No mundo dos condenados à morte, à opacidade mortal da condição, o revoltado opõe incansavelmente a sua exigência de vida e de transparência definitivas. Procura, sem o saber, uma moral ou um sagrado. A revolta é uma ascese, embora cega. Se nessa altura o revoltado blasfema, é na esperança de encontrar o novo deus. Sente-se abalado sob o choque do primeiro e do mais profundo dos movimentos religiosos, mas trata-se de um movimento religioso frustrado. Não é a revolta em si própria que se deve ter por nobre, mas sim o que ela exige, embora aquilo que ela obtiver se haja de considerar ainda ignóbil.

« Mas, pelo menos, há que saber identificar o que ela obtém de ignóbil. Cada vez que deifica a recusa total do que existe, o não absoluto, ela mata. Cada vez que cegamente aceita o que é e proclama o sim absoluto, mata igualmente. O ódio ao Criador pode converter-se em ódio da criação ou em amor exclusivo e provocante do que existe. Mas, em ambos os casos, ela vai dar ao assassínio e perde o direito ao seu nome de revolta. Pode ser niilista de duas maneiras e, em cada uma delas, por uma intemperança do absoluto. Existem aparentemente os revoltados que querem morrer e aqueles que querem dar morte. Mas trata-se dos mesmos indivíduos, queimados pelo desejo da verdadeira vida, frustrados no ser e preferindo nessa altura a injustiça generalizada a uma justiça mutilada. Atingido este grau de indignação, a razão converte-se em fúria. Se é certo que a revolta instintiva do coração humano avança a pouco e pouco ao longo dos séculos a caminho da sua máxima consciência, também cresceu, como vimos, em cega audácia até ao momento desmesurado em que decidiu responder ao crime universal pelo assassínio metafísico.

« O mesmo se, que já reconhecemos marcar o momento capital da revolta metafísica, realiza-se em todo o caso na destruição absoluta. Já não é a revolta nem a sua nobreza que resplandecem no mundo, mas sim o niilismo. E são as suas consequências que devemos recordar sem perder de vista a verdade das suas origens. Mesmo que Deus existisse, Ivan [Karamazov] não se teria entregado a Ele, mercê da injustiça feita ao homem. Mas uma ruminação mais longa desta injustiça, uma chama mais amarga transformaram o “mesmo que tu existisses” em “tu não mereces existir” e, depois, em “tu não existes”. As vítimas procuraram a força e as razões do crime último na inocência que elas reconheciam em si próprias. Desesperando da sua imortalidade, certos da sua condenação, decidiram matar Deus. Se não corresponde à verdade afirmar que, a partir desse dia, começou a tragédia do homem contemporâneo, também não é verdade que ela acabasse nessa altura. Esse atentado marca, pelo contrário, o momento mais alto de um drama começado a partir do fim do mundo antigo e cujas últimas palavras ainda não foram pronunciadas. A partir desse momento, o homem decide eximir-se à graça e viver pelos seus próprios meios. O progresso consiste, de Sade até aos nossos dias, em dilatar cada vez mais o recinto fechado onde, segundo a sua própria regra, reinava ferozmente o homem sem Deus. Levaram cada vez mais longe as fronteiras do campo murado perante a divindade, até converterem o universo inteiro numa fortaleza contra o deus decaído e exilado. O homem, ao cabo da sua revolta, enclausurava-se; a sua grande liberdade consistia unicamente, desde o castelo trágico de Sade até ao campo de concentração, em construir a prisão dos seus crimes. Mas o estado de sítio vai-se generalizando a pouco e pouco; a reivindicação de liberdade quer abranger toda a gente. Há então que edificar o único reino que se opõe ao da graça — o da justiça — e reunir enfim a comunidade humana sobre os escombros da comunidade divina. Matar Deus e edificar uma igreja, eis o movimento constante e contraditório da revolta. A liberdade absoluta converte-se enfim numa prisão de deveres absolutos, numa ascese coletiva, numa história por acabar. O século XIX, que é o da revolta, entra assim no século XX da justiça e da moral, onde cada um se ocupa em bater no peito. Chamfort, moralista da revolta, já lhe tinha criado a fórmula: “É preciso ser-se justo antes de se ser generoso, tal como se possuem camisas antes de se terem rendas”. Assim se renunciará à moral de luxo em proveito da áspera ética dos construtores. É este convulsivo esforço em direção ao império do mundo e da regra universal que teremos agora de focar.

« Chegamos ao momento em que a revolta, repelindo toda a espécie de servidão, pretende anexar por completo a criação. Sempre que um malogro se verificava, vimos já anunciar-se a solução política e conquistadora. Doravante, apenas conservará das suas aquisições — e com o niilismo moral — a vontade de poder. Em princípio, o revoltado apenas desejava conquistar o seu próprio ser e mantê-lo à face de Deus. Mas perde a memória das suas origens e, pela lei de um imperialismo espiritual, ei-lo a caminho do império do mundo através dos crimes, multiplicados ao infinito. Expulsou Deus do seu céu, mas o espírito de revolta metafísica, unindo-se então francamente ao movimento revolucionário e à reivindicação irracional da liberdade, vai paradoxalmente eleger como arma a razão, único poder de conquista que lhe parece puramente humano. Morto Deus, restam os homens, isto é, a história que se impõe compreender e construir. O niilismo que, no seio da revolta, submerge nesta altura a força da criação, acrescenta unicamente a seguinte afirmação: podemos edificá-la lançando mão de todos os meios. Aos crimes do irracional, o homem, numa terra que ele reconhece daí em diante como solitária, vai acumular os crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao “revolto-me”, “portanto existimos”, acrescenta, meditando prodigiosos desígnios e até a própria morte da revolta: “E encontramo-nos sós”.»

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Conclusão do segundo capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus.

2:41 amPêro de Magalhães Gândavo e o verdadeiro nome da nossa terra

Concordo com Pero de Magalhães Gândavo: Terra de Santa Cruz é um nome melhor que Brasil. Um país com nome de produto extrativista não passa de um país com um povo venal…

” Reinando aquelle mui Catholico e Serenissimo Principe El Rey Dom Manuel, fez-se huma frota para a India, de que ia por Capitam mór Pedralvarez Cabral, que foi a segunda navegaçam que fizerão os Portuguezes para aquellas partes do Oriente. A qual partio da Cidade de Lisboa a nove de Março no anno de 1500. E sendo jà entre as IIhas do Cabo Verde, as quaes ião demandar para fazer ahi agoada, deu-lhes hum temporal, que foi causa de as nam poderem tomar, e de se apartarem alguns navios da companhia. E depois de haver bonança junta outra vez a frota, empégarão-se ao mar, assi por fugirem das calmarias de Guinè que lhes podião estorvar sua viagem, como por lhes ficar largo poderem dobrar o Cabo de Boa Esperança. E avendo jà hum mez que ião naquella volta navegando com vento prospero, forão dar na Costa desta Provincia: ao longo da qual cortárão todo aquelle dia, parecendo a todos que era alguma grande llha que ali estava sem haver piloto nem outra pessoa alguma que tivesse noticia della nem que presumisse que podia estar terra firme para aquella parte Occidental. E no logar que lhes pareceu della mais accomodado, surgirão aquella tarde, onde logo tiverão vista da gente da terra: de cuja semelhança nam ficarão pouco admirados, porque era differente da de Guiné, e fóra do comum parecer de toda outra que tinhão visto. Estando assi surtos nesta parte que digo saltou aquella noite com elles tanto tempo, que lhes foi forçado levarem as ancoras, e com aquelle vento que lhes era largo por aquelle rumo, forão correndo a costa atè chegarem a hum porto limpo, e de bom surgidouro, onde entrarão: ao qual pozeram então este nome que hoje em dia tem de Porto Seguro, por lhes dar colheita, e os assegurar do perigo da tempestade que levavão Ao outro dia seguinte sahio Pedralvarez em terra com a maior parte da gente na qual se disse logo missa cantada, e houve prégaçam: e os Indios da terra que ali se ajuntarão ouvirão tudo com muita quietaçam, usando de todos os actos e cerimonias que vião fazer aos nossos: e assi se punhão de giolhos e batião nos peitos como se tivérão lume de Fé, ou que por alguma via lhes fora revelado aquelle grande e inefabil misterio do Santissimo Sacramento, no que se mostravão claramente estarem dispostos para receberem a doctrina Christã a todo o tempo que lhes fosse denunciada como gente que nam tinham impedimento de idolos, nem professava outra Lei alguma que podesse contradizer a esta nossa, como adiante se verà no capitulo que trata de seus costumes. Então despedio logo Pedralvarez hum navio com a nova a ElRey Dom Manuel, a qual foi delle recebida com muito prazer e contentamento: e dahi por deante começou logo de mandar alguns navios a estas partes e assi se foi a terra descobrindo pouco a pouco, e conhecendo de cada vez mais, até que depois se veio toda a repartir em Capitanias e a povoar da maneira que agora está. E tornando-a Pedralvarez, seu descobridor, passado alguns dias que ali esteve fazendo sua agoada e esperando por tempo que lhe servisse, antes de se partir por deixar nome áquella Provincia, por elle novamente descoberta, mandou alçar huma cruz no mais alto lugar de uma arvore, onde foi arvorada com grande solenidade e bençãos de Sacerdotes que levava em sua companhia, dando á terra este nome de Santa Cruz: cuja festa celebrava naquelle mesmo dia a Santa Madre Egreja,que era aos tres de maio. O que nam parece carecer de Misterio, porque assi como nestes Reinos de Portugal trazem a cruz no peito por insignia da Ordem e Cavallaria de Christus, assi prouve a elle que esta terra se descobrisse a tempo que o tal nome lhe podesse ser dado neste Santo dia, pois havia de ser possuida de Portuguezes, e ficar por herança de patrimonio ao Mestrado da mesma Ordem de Christus. Por onde nam parece razam que lhe neguemos este nome, nem que nos esqueçamos delle tam indevidamente por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pao da tinta começou de vir a estes Reinos; ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas para que nesta parte magoemos ao Demonio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memoria da Santa Cruz e desterra-la dos corarões dos homens, medeante a qual somos redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir seu nome e chamemos-lhe Provincia de Santa Cruz, como em principio (que assi o amoesta tambem aquelle illustre e famoso escritor João de Barros na sua primeira Década, tratando deste mesmo descobrimento) porque na verdade mais he destimar, e melhor soa nos ouvidos da gente Christã o nome de hum pao em que se obrou o misterio de nossa redençam que o doutro que nam serve de mais que de tingir pannos ou cousas semelhantes.

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História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Magalhães Gândavo.

2:02 amTolstói fala sobre os “grandes homens”, o bem e o mal

Liev Tolstói

Dir-se-ia que perante esta fuga doida dos Franceses, quando eles faziam tudo para se perderem a si mesmos, quando todos os seus movimentos, desde o desvio pela estrada de Kaluga até à fuga atrás do chefe do exército, eram desprovidos de qualquer bom senso, dir-se-ia que, ao menos, para este primeiro período da campanha, os historiadores, que atribuem a ação das massas à vontade de um só homem, confessassem o erro das suas teorias ao descreverem esta retirada. Montanhas de livros se escreveram sobre esta campanha e em toda a parte se encontram exaltadas as disposições tomadas por Napoleão, a argúcia dos seus planos e das suas manobras e o gênio dos seus marechais.

Explicam-nos, por uma série de profundos raciocínios, o motivo da retirada dos Franceses de Maloiaroslovets por uma estrada devastada quando se lhes deixava a passagem livre por uma região rica em abastecimentos e se lhes oferecia o caminho paralelo que seguiu posteriormente Kutuzov para os perseguir. Também se nos explica assim a retirada de Smolensk para Orcha. Em seguida traçam-nos um quadro do comportamento heróico de Napoleão em Krasnoie, onde, ao que parece, teve intenção de travar batalha e pôr-se à frente das suas tropas. E mostram-no-lo de um lado para o outro, com uma vara de olmo na mão, dizendo:

— Já estou farto de fazer de imperador, é tempo de fazer de general. — O que o não impediu, pouco depois, de prosseguir na fuga, abandonando à sua triste sorte todos os corpos de exército dispersos que o seguiam.

Descrevem-nos igualmente a bravura dos marechais, particularmente a de Ney, bravura que se limitou a operar um desvio pela floresta a fim de atravessar o Dniepre de noite e fugir na direção de Orcha, depois de perder as bandeiras, a artilharia e nove décimos dos efetivos.

Enfim, o abandono pelo grande imperador do seu heróico exército é-nos apresentado como uma grande ação e um rasgo de gênio. Até mesmo o empreendimento final da sua fuga, que em qualquer língua só pode ter um nome, a última das cobardias, ato que envergonharia uma criança, até mesmo isso encontra a sua justificação na pena dos historiadores.

Quando já lhes não é possível estenderem mais o fio elástico dos raciocínios, quando o ato é realmente contrário ao que os homens chamam o bem e a justiça, recorrem, à míngua de argumentos, à noção de grandeza. A grandeza parece excluir a possibilidade de apreciar o bem e o mal. O mal não existe para o que é grande. Quem é grande nunca poderá ser acusado de uma atrocidade.

«É grande!», dizem os historiadores, e então deixa de existir o bem e o mal, para só haver o que é grande e o que não é grande. O que é grande é o bem, o que não é grande, o mal. O grande é, segundo eles, privilégio de indivíduos especiais que recebem a classificação de heróis. Napoleão, muito bem embrulhado numa peliça, volta para casa, deixando morrer não só companheiros, mas pessoas que, assim ele o confessou, arrastara atrás de si. Para si mesmo diz: sou o grande, e a alma tranquiliza-se-lhe.

«Do sublime ao ridículo vai apenas um passo», dizia Napoleão, e o sublime era ele próprio. E de há cinquenta anos para cá o universo inteiro repete: «Sublime! Grande! Napoleão, o Grande! Do sublime ao ridículo vai apenas um passo!»

E a ninguém ocorre que confessar que a grandeza está para além do bem e do mal é como reconhecer, ao mesmo tempo, a sua inferioridade e a sua infinita pequenez. Para nós, que recebemos de Cristo a medida do bem e do mal, nada existe fora dessa medida. Não há autêntica grandeza sem espontaneidade, bondade e verdade.

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Livro 4º, Terceira Parte, Capítulo XVIII, do romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói.

11:26 pmO machista feminista

Tempos atrás participei de um encontro literário na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, onde, ao longo de uma semana, debati com outros autores as perspectivas da literatura brasileira neste novo milênio. Foi lá que, entre outros, conheci pessoalmente Elisa Andrade Buzzo, Luis Eduardo Matta, Miguel Sanches Neto, André de Leones, Fabrício Carpinejar e Antonio Prata, com quem, na última noite, dividi uma carona oferecida pela esposa de Julio Daio Borges, organizador do evento. Embora o encontro tenha sido muito interessante — principalmente porque pela primeira vez eu participava de algo do gênero enquanto escritor convidado, e não como leitor —, este relato nada tem a ver com o evento em si, com os demais colegas ali presentes ou sequer com literatura — ao menos não diretamente. O fato é que, justamente no dia em que Daniela Rede, minha bela e auto-proclamada assessora de imprensa, não pôde comparecer, fui abordado ao final do debate daquela noite por um sujeito de ar simultaneamente astuto e simpático.

— Li seu livro — revelou ele, após apertar-me a mão e me cumprimentar pelas intervenções daquela noite.

— ¿Foste tu? — repliquei, sorrindo.

Ele riu: — Escritores brasileiros estão sempre achando que não são lidos.

— Deve ser por causa do xerox das faculdades e dos ebooks piratas — retruquei. — O que o bolso não vê, o coração não sente.

Alto, metido num elegante paletó escuro feito sob medida, em lustrosos sapatos Oxford, exibindo um reluzente Cartier dourado no pulso, óculos de Clark Kent, o cachecol posto à la “forca”, tal como agora se usa — em vez de à la “estrangulamento”, se é que me entendem —, esse cara bem vestido parecia um desses freqüentadores de vernissages que vemos em filmes alemães ou franceses. Com isso, quero dizer que se tratava de alguém que, a despeito de sua aparência de intelectual, também tinha um quê de empresário de sucesso, e nitidamente atraía a atenção feminina circundante. No fundo, ele parecia alguém montado para a ocasião — ou seja, se aquela fosse uma reunião de navegadores, ele teria aparecido em trajes de marinheiro de revista de moda.

— Também acompanho seu blog — tornou ele.

— ¿Você? Pensei que apenas um punhado de universitários lia meu blog.

— Bom, fiquei sabendo desses debates por causa dele.

O sujeito, que se apresentou como Nathan, após tratar por alto de alguns temas sobre os quais eu havia escrito naquela semana, talvez para me provar que realmente era meu leitor, ofereceu-me uma carona até a Vila Madalena, onde residia o amigo com quem eu estava hospedado, e também me perguntou se eu não queria aproveitar os bares da região para beber alguma coisa. ¿Carona e drinques ofertados por alguém que comprou meu livro? Claro que aceitei.

— ¿Sua mulher não veio com você hoje? — perguntou quando nos dirigimos à porta da frente.

— Não, não veio. E ela, infelizmente, não é minha mulher.

— Uma linda garota. Eu a vi aqui ontem à noite.

Saímos da Casa. Ele tinha um desses Jeeps Cherokee blindados, uma mania entre os endinheirados paranóicos de São Paulo, pois, apesar de pesados e de beberem feito loucos, em nosso restrito mercado eram os mais indicados para sobreviver à guerrilha urbana de todos os dias. Lá dentro, no banco de trás, muitos livros empilhados.

— Você por acaso não é um editor… ¿ou é?

— Não, não. — E vendo meu desapontamento involuntário: — Não precisa fazer essa cara. Você logo logo terá um bom editor. Basta esquecer um pouco os contos e escrever um romance.

— Ou arranjar um agente literário — acrescentei.

— Um agente, não! Uma agente — e Nathan sorriu.

Quando ainda percorríamos a avenida Pacaembu, ele começou a entrar no assunto que realmente lhe interessava:
— ¿Yuri, você já trabalhou como ghost-writer?

— Não e, sinceramente, nunca tive interesse. Gosto de assumir o que escrevo. Prefiro publicar algo ruim com meu nome do que publicar uma obra prima anonimamente. Coisas do ego.

— Entendo. Mas você não se importaria de aconselhar quem nunca escreveu um livro, ¿não é?

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ATENÇÃO: O conto, que me parece muito longo para o blog, continua aqui.

8:31 pmTEOLOGIA DA MACONHA — um conto BASEADO em fatos reais

— Paulinho! Vem cá pra você ver o que foi que eu achei!

Quando ouviu o chamado da mulher pelo vão da escada, Paulo César estava no segundo andar daquele sobrado geminado do município de Diadema. Estava entretido no quarto principal, retirando sapatos, botas e tênis de uma caixa de papelão e ocupando o pouco espaço que ela lhe deixara no armário. Haviam acabado de mudar-se — eram recém casados — mas ele já a conhecia o suficiente para saber que, sempre que o tratava pelo diminutivo, algum fruto proibido viria por aí. Ele tinha certeza de que Eva, ao oferecer o fruto da árvore que estava no meio do Jardim, o teria oferecido ao Adãozinho, jamais ao Adão.

— Já vou, Anita! — respondeu altissonante, imaginando que lá embaixo iria vê-la debruçada sobre uma caixa cheia de apetrechos eróticos, provavelmente com um par de algemas nas mãos ou, quem sabe, já vestida com corpete e cinta-liga. Aquela amiga que a esposa arranjara na igreja parecia ter lido apenas o famigerado Cinqüenta Tons de Cinza. Novo Testamento? Que Novo Testamento? Não que ele não gostasse das brincadeiras — gostava muito — mas isso era dica de leitura para se ouvir após um culto?

Paulo César saiu pelo corredor, pé ante pé, desviando-se como podia das muitas caixas ainda fechadas. Mudança era uma coisa divertida nos primeiros dois dias, depois virava um martírio. Onde iriam meter tantas coisas? Anita parecia uma curadora de museu ou uma colecionadora viciada no eBay. “Eu sou aquariana!”, repetia sem parar, defendendo suas inúmeras posses. Ele, que esteve tantas vezes no quarto dela, enquanto ela ainda morava com os pais, jamais imaginou que a então namorada escondia tantas bugigangas em outros aposentos.

— O que foi, Bonita? — indagou ao descer o último degrau e vê-la ajoelhada diante de uma caixa. Não, ela não estava de corpete e muito menos com algemas.

Anita virou o rosto para ele, sorrindo: — Eu tava revirando os bolsos dessa mochila que a gente usou na viagem pra Chapada e olha só o que encontrei — e, erguendo o braço, mostrou-lhe um baseado roliço, branco e teso, como se ela o tivesse acabado de bolar.

Ele fez uma careta cheia de desconfiança: — Tá brincando que você achou isso…

— Sério, amor!

— Bonita, Bonita… — censurou-a.

Ela se levantou, ofendida: — Você acha que vou mentir pra você na nossa primeira semana de casa nova, Paulo César?

Quando ela o tratava pelo nome completo, não havia por que duvidar do que dizia.

— Desculpa, Bonita. É que essa viagem pra Chapada já tem quase três anos e o beque está inteirinho. Olha aí!

— É porque ele tava dentro desse tubo que você mesmo comprou no DealExtreme, lembra? Olha — e lhe indicou um tubo metálico, rosqueado, que se abria ao meio para guardar trecos. Parecia um supositório de presidiário de dez centímetros (dez centímetros o tubo, não o presidiário), mas era apenas um chaveiro bastante útil. Paulo inclusive se lembrou de lhe ter dito à época: “Papillon, lá na Ilha do Diabo, teria adorado guardar sua grana no fiofó com isto aqui”. Mas ela não sabia quem era Henri Charrière, nem tinha lido o livro ou visto o filme. Por isso tampouco se lembrou agora dessa referência que teria devolvido ao marido, logo de cara, a culpa pelo tráfico involuntário.

— Tá certo, gata. Mea-culpa. Mas e daí?

— Uê! Vamos fumar!

Ele arregalou os olhos: — Tá maluca?! Depois de tudo o que a gente já passou?

Era verdade. Em anos pregressos, ambos tiveram graves problemas com drogas. Paulo nunca foi um verdadeiro viciado, desses que são fiéis a uma substância específica, mas havia experimentado de quase tudo: chá de cogumelo, chá de lírio, ayahuasca, mescalina, ácido lisérgico, special K, ecstasy, skank, freebase, haxixe e, claro, a simples e ordinária maconha. Tudo envolvido numa frágil aura de misticismo e de busca interior que apenas o levaram ao solipsismo e às portas do suicídio. Cada viagem era uma aventura existencial: “É como pegar uma onda”, dizia aos amigos. “Você só precisa deixar o ego de lado, relaxar e dropar. É assim que os surfistas sobrevivem”. E mais tarde ele descobriu que é buscando ondas cada vez maiores que os surfistas finalmente morrem… Já Anita, com a lealdade das amantes, contentou-se em cheirar cocaína anos a fio, tendo depois experimentado, graças a ele, durante as festas a que acorreram juntos, ecstasy e ácido. E, sim, também a maconha, que mais tarde ela passou a comprar e a lhe fornecer porque gostava de ouvi-lo viajar na, conforme diziam, “maionese cósmica”. Ele, que tinha pais evangélicos, crescera ouvindo sobre Deus e Jesus, substituindo-Os, na adolescência, pelo cientificismo do século e, mais tarde, pelo agnosticismo psicodélico-eletrônico do tipo que, durante a dança, espera ver Shiva baixar a qualquer momento — contanto, é claro, que se tome a droga certa na dose certa com o DJ certo… Faltou pouco para ele escrever sua própria versão de Ecce Homo e, como Nietzsche, chegar à conclusão de que não era outro senão o próprio Deus. Aliás, faltou pouco apenas para escrever o livro, porque, de fato, Paulo César chegou à conclusão de que era — assim deixou escrito em nota de despedida — o “Deus Supremo” e de que se matava para, mediante seu próprio sacrifício, trazer de volta à Terra a Era de Ouro. Felizmente, o tiro da Beretta .22 não lhe atingiu o coração e ele despertou, dias depois, numa cama de hospital. Nessa mesma época, ele e Anita estavam separados havia vários meses e ela, alternando depressões com episódios de síndrome de pânico, abandonou a faculdade e já não saía de casa. Ela, que sempre vira na convivência com os amigos o sentido da vida, já não podia encontrá-los, pois todos mantinham o vício e poderiam levá-la de volta ao pó. Por fim, debilitada e vazia, a garota resignou-se e aceitou a proposta dos pais. Ambos voltaram, pois, e sem qualquer premeditação, a encontrar-se numa clínica de reabilitação para drogadictos. Foi lá, de mãos dadas, que Paulo César e Anita, após vencerem grande resistência, finalmente entenderam o significado da Vida Eterna e o valor da lealdade ao Pai Celestial. Um ano e meio depois, estavam casados.

— Mas você mesmo disse outro dia, Paulo: Deus também fala com a gente através das coincidências. Esse vai ser nosso beque de despedida!

— Anita, você tá cansada de saber que eu posso ficar paranóico e ter uma carrada de flashbacks e badtrips.

Ela riu: — Deixa de ser besta! A gente tá na nossa casa. O que pode acontecer de errado?

Ele se sentou no sofá, cabisbaixo: — Sei lá. Um ataque nuclear da Coréia do Norte. O primeiro terremoto de São Paulo em quinhentos anos. Uma invasão extraterrestre. Um apocalipse zumbi… Sem falar que esse beque deve ter sido produzido pelas FARC e deve ter financiado o PT, o Foro de São Paulo, o PCC…

— Ai, não. Você já tá exagerando de novo. As FARC mexem com cocaína, não vendem maconha.

— Como você sabe?

— Uê. Os caras querem dinheiro e cocaína é que dá dinheiro. Eles são comunistas. São loucos, mas não são burros.

Ele a encarou, irônico: — Isso é um resquício daquela sua mania de achar que eu fico mais divertido doidão, né, sua sacana? Você nem percebia que me mantinha maluco só pra sugar meu humor… meu amor! — e a abraçou, puxando-a para o colo.

— Você fica maravilhoso doido! É verdade. Mas você é muito melhor agora, com Deus no coração. Você era um menino, agora é um homem — e ela o beijou na testa, carinhosamente.

— Sei…

— É sério. E se eu gostava quando você ficava doido, era porque eu sentia uma overdose da sua personalidade. Sou viciada em você. Só que você tem trabalhado tanto, anda cansado, não escreve mais letras pra sua banda, só fala de Direito e leis, conversa pouco comigo… Estou com síndrome de abstinência de você.

— É só uma fase, Bonita. O noivado acabou, agora vai ser diferente. A gente está montando nossa base.

— Eu sei.

— Pois é. Então pra que fumar hoje?

— Porque a gente precisa encerrar aquele ciclo, Paulinho! Encerrar de um jeito positivo, porque não foram experiências apenas ruins. E lembra do que você me falou quando a gente se conheceu: “nunca tome uma decisão condicionada pelo medo”. Você tá com medo de fumar agora, não tá? Depois de todas as drogas que a gente usou, acha que um beque vai nos perder? Acha que Deus vai deixar de olhar pela gente por causa de uma última viagem? Por causa de uma substância química? Você acha que tem uma ANVISA no Paraíso? Um DENARC? A gente tinha problemas e se deixava levar pelas drogas porque não conhecia Deus. Mas agora a gente O conhece! Nenhum de nós guardou este baseado de propósito, e Ele sabe disso. Talvez Ele queira ensinar alguma coisa pra gente. A gente já teve tantos insights assim! E esta é nossa nova casa, nossa nova vida, nosso direito.

Paulo César estava quase convencido: — Você sabe que a cada direito corresponde um dever, não é? Um direito, sem a contrapartida de um dever, é uma ilusão. Entende?

— Que seja.

— Bonita — tornou ele, com paciência — se alguém telefonar pra gente com um pneu furado, pedindo socorro, ajuda ou qualquer coisa assim, não posso sair de casa. Você sabe que, se eu fumar, vou ficar noiado na rua, com receio de ser parado pela polícia, de assaltos, de acidentes. Não porque vou travar de pavor, mas porque vou falar as coisas erradas para as pessoas erradas. Quando fico maluco, deixo de mandar na minha imaginação e passo a ser controlado por ela. Imagino todo tipo de situação e fico achando que estou tendo premonições… Imagino um arrastão no meio do congestionamento e já acredito que está mesmo para acontecer… É assustador… Se a gente fumasse, a gente ia ter de ficar quietinha aqui, no sofá, ouvindo música e namorando por horas e horas. Namorando sem fuc-fuc, né, porque eu fico muito mental e me esqueço de que tenho pinto quando estou doidão.

Ela riu: — Eu sei disso! Mas sexo verbal também faz seu estilo. Você fica incrível! Adoro seu Mister Hyde. Morro de rir.

— Eu sabia que você ia acabar vindo com essa legiãozice… — e Paulo sorriu, persuadido. — É a última vez então.

— Eba!

— Última vez! Promete?

Ela voltou a se levantar, empolgada: — Combinado! Prometo, de verdade. E a gente desliga celular, o fixo, desliga tudo. Ninguém vai tirar a gente daqui. Ninguém sabe nosso endereço ainda.

— Beleza.

Começaram os preparativos: afastaram as caixas de papelão a um canto da sala, desenrolaram o tapete, jogaram as almofadas no sofá, encontraram e acenderam o abajur alaranjado, um resquício do quarto dela na casa dos pais. Para não deixar o cheiro escapar, Paulo fechou janelas, vitrôs e basculantes. Anita foi à cozinha e deixou à mão um grande salame e uma garrafa de vinho — a de vinho branco, pois a de vinho tinto ela dera de presente à vizinha, uma mulher de meia-idade com quem simpatizara de imediato, cuja parede, em sendo uma casa geminada, compartilhavam. Também deixou sobre a bancada um pote com castanhas de caju e outro de Nutella. A larica estava garantida. Voltou à sala e acendeu o incenso de Patchouli.

— Não acredito que você já acendeu essa coisa. Esse cheiro atravessa até a parede, Anita. Incenso é coisa de maconheiro. Todo vizinho sabe disso.

— Pára de bobagem, Paulinho — replicou ela, sorrindo. — A gente não mora na Vila Madalena ou numa rave. A gente mora num bairro familiar de Diadema, aqui ninguém tá ligado nisso.

— Deve ter mais traficante e maconheiro aqui no “D” paulista do que no restante do “ABC”.

— Ah, vai! — e riu.

Paulo César havia trocado a roupa justa por um abrigo de moletom e, com a expressão mais preguiçosa do mundo, já estava aboletado no sofá. Anita, com uma blusinha justa e shortinho jeans, se refestelou ao seu lado. Paulo gostava de ver as alças do sutiã dela disputarem com as alças da blusa aqueles frágeis ombros. Ouviam Portishead numa caixa acústica JBL Pulse que, além de sons, emitia luzes coloridas para todos os lados. Para selecionar as músicas, Paulo fez questão de utilizar o tablet chinês via bluetooth, pois os celulares deviam permanecer desligados. Quando se deram por satisfeitos, ele então colocou o beque na boca e o acendeu com um isqueiro Bic. Deu uma primeira e longa tragada. Em seguida, passou-o para ela, que fez o mesmo sem deixar de tossir profusamente num primeiro momento. Nada augurava o que teriam de enfrentar naquela noite.

— Nossa, que pancada! — disse ela, em meio à tosse. — Não perdeu a potência.

— Maconha é igual vinho: quanto mais velha, melhor. Você não sabia que foi assim que o Spielberg e o George Lucas tiveram a idéia do roteiro dos Caçadores da Arca Perdida? Estavam no Egito e compraram uma maconha encontrada no túmulo de Tutancâmon.

— Sério, meu?!! Que louco! Não sabia.

Ele riu: — Sua boba, eles estavam numa praia do Havaí gastando a grana que o George Lucas tinha ganhado com Guerra nas Estrelas. Nada de marijuana. Aposto que bebiam margaritas.

— Ah, seu besta! — e lhe deu um tapa na coxa.

Paulo César pegou o beque de volta e deu outra tragada. Dessa vez foi ele quem tossiu até perder o fôlego. Ela ficou observando-o, divertida.

— Castigo por você ficar mangando de eu.

— Por falar em mangar de você e no Darth Vader…

— Ué, quem falou em Darth Vader?

— Não falamos?

— Não. Você só falou do filme Guerra nas Estrelas.

— Ah, então — disse ele, pensativo — por falar nisso, acho que vou aceitar o convite do Doutor Pinto Grande e vou trabalhar com ele.

— Ah, não acredito!

Ele ficou sério: — Não sei qual é o seu problema com o Doutor Pinto Grande. É amigo do meu pai. Além d’ele ter me dado uma super força quando eu estava mal, ele é um ótimo advogado e já não tem sócios.

— Eu não tenho nada contra o Pinto Grande.

Ele riu: — Ainda bem, né, senão teríamos problemas.

— O problema — prosseguiu ela, ignorando-o — não é a pessoa dele. Eu só não acho legal ter de dizer depois: meu marido trabalha com o Pinto Grande. Ou ainda: meu marido passa quase todo o dia com o Pinto Grande. Isso não pega nada bem.

— Nós vamos ser sócios, boba.

— Você não tem nem dois anos de OAB.

— Doutor Pinto confia no meu taco. Confia em mim. Diz que temos a mesma visão de mundo. Meu nome até fará parte do nome da empresa.

— Ah, que lindo: Pinto Grande & Carvalho Advogados Associados. Você já sabe como vão pronunciar isso por aí, né.

Ele deu a primeira gargalhada.

— Tô falando sério, Paulinho. Não pega bem — protestou ela, tomando-lhe em seguida o beque e voltando a fumar.

— Pinto Grande & Caralho Advogados Associados!

— Não tem a menor graça — retrucou ela. — E ainda não entendi o que o Darth Vader tem a ver com a história.

Paulo César parou de rir: — Darth Vader? Não seria porque o chapéu dele parece uma cabeça de pinto bem grande?

Agora foi ela quem caiu na gargalhada: — Seu besta! Aquilo não é um chapéu! É um capacete, uma máscara, um elmo — e voltou a rir.

— Em espanhol seria “sombrero” — observou Paulo, muito sério. — Um sombrero preto.

Ela quase engasgou com as risadas: — Pára! Pára! Darth Vader não é um mariachi mexicano pra usar sombrero. Pára de falar dele!

— Uê, parar? Foi você quem falou no Darth Vader.

— Eu?! Você é que se lembrou do seu Pinto quando falou no Darth Vader.

— Do meu pinto?

— Do senhor Pinto… do doutor Pinto Grande, droga!

— Ah, é verdade! — concordou ele, pensativo. — Por que será?

— Ai, meu Deus, pára! Como é que eu vou saber? — e Anita continuava rindo, trêmula e divertida.

Ele ficou em silêncio por algum tempo, admirando a beleza da esposa: o desenho da boca carnuda e dos olhos grandes, o contraste entre as clavículas e o seio, o jeito de segurar o cigarro, a maneira felina como se sentava escorada nele, as pernas encolhidas sobre o sofá, as rótulas conspícuas. Como era bela! Como era feminina! E não parava de rir. Quanto mais sério ele lhe parecia, mais ela ria.

— Tá satisfeita? — indagou Paulo, divertido. — Olha só como a juventude fica completamente retardada quando fuma maconha…

Ela estava aflita, perdida entre o riso e a curiosidade: — Por favor, tente lembrar do que você tava falando! Tá me torturando não saber o que o Darth Vader tem a ver com o Pinto Grande!

— A gente devia ir agora no Facebook e confessar pra todo mundo que somos dois coxinhas ex-malucos que voltaram a cair na tentação da maconha, que agora até corremos o risco de apanhar do Capitão Nascimento, de saco plástico na cabeça e tudo: “São vocês, da direita religiosa doidona, que financiam essa merda!”.

De joelhos sobre as almofadas, derrubando cinza no sofá, ela voltou a gargalhar e, em seguida, a tossir.

— Ah, lembrei! — tornou Paulo, surpreso com a própria memória e não fazendo o menor caso da crise de tosse dela. — Eu só ia dizer que, de acordo com o doutor Pinto Grande, Lúcifer é uma espécie de Darth Vader do nosso universo. Na verdade, o doutor disse que a realidade é o inverso do filme: que Lúcifer é que acreditava estar lutando contra um suposto imperialismo universal de Cristo.

— Ai, toma aí — disse Anita, confusa, estendendo a mão com o baseado. — Já fiquei muito doida, acho que minha tolerância estava a zero. Até parece que tomei ácido… E se você voltar a misturar Pinto Grande, Lúcifer e Darth Vader na mesma frase, vou cair morta aqui, só não sei se de rir ou se de excesso de piração. Fiquei perdidinha…

— É, parece que agora o Portishead está tocando sua música: Unable so lost / I can’t find my way…

— Bobo, tô perdidinha é com sua conversa. Você já sabe qual é nosso Caminho e eu também sei — e ela buscou o olhar do marido, que lhe sorriu e a beijou nos lábios.

— Claro que sei, Bonita da minha vida.

— Bom, acho que já podemos dar tchau pro nosso último beque e jogar ele na privada, né. A partir de agora, caretas para siempre. E partiu larica!

Ele protegeu o baseado: — Calma, mulher! Já tô viajando, mas quero ficar no mesmo nível que você — e colocando o cigarro na boca, deu mais uma profunda e longa tragada. Por fim, segurou o fôlego, esperando absorver o máximo possível de THC.

— Pra quem não queria fumar… — comentou ela, a boca seca, os olhos injetados, vendo-o converter-se na sua própria versão de Mister Hyde.

Paulo então soltou o ar de uma só vez e se sentiu trêmulo, suando frio: — Nossa, Bonita, minha pressão baixou completamente… — e foi se esticando no sofá até deitar-se de costas, mantendo-a entre as pernas. — Puts… Agora, sim…

— Posso jogar fora? — perguntou ela, tirando-lhe o beque da mão.

— Quem? Eu? Pode me jogar fora. Tô destruído.

Assim que ela se levantou com a intenção de ir ao banheiro, soou a campainha da porta.

— Isso foi da música? — estranhou ele.

— Não, amor — respondeu ela, olhando na direção da janela da frente, que era ampla e ia quase do chão ao teto.

Ele arregalou os olhos: — Tá brincando que tem gente na porta logo agora! Que horas são?

— Acho que umas onze. Talvez meia-noite, não sei.

Anita se aproximou da janela e abriu uma fresta da cortina para espiar a frente da casa.

— Que bizarro, Paulo…

— Quem é?

— Se não for o Darth Vader em pessoa, é um daqueles tripulantes do Globo da Morte.

Ele se sentou no sofá, a cabeça à roda, confuso: — Não brinca, Anita. Do que é que você tá falando?

— Vem ver, Paulo. É um cara de boné e uniforme escuro.

Paulo César olhou pela fresta da cortina e, ao ver o visitante, entrou em pânico: — Não é boné: é boina! É a ROTA, Anita! — falou à meia voz, mas com firmeza.

— A ROTA?! Dando batida na nossa casa? Não é possível! Isso não é coisa da polícia civil?

— Devia ser, mas esse aí é da ROTA! Certeza.

A campainha voltou a soar, desta vez com maior insistência.

— Limpa o sofá, Anita, essa cinza… Me dá isso aí! Vou jogar a ponta no vaso — e correu para o banheiro, o coração a mil. — Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar… — repetia em voz alta, lembrando-se do adágio que ouvia desde criança: “A ROTA atira primeiro e só depois pergunta quem você é”. — Fodeu, caralho!

— E se a gente fingir que nem tá ouvindo, Paulo? A música tá alta.

— É óbvio que o cara viu a gente na janela, Anita! Enquanto essa sala não tiver uma cortina decente, vai parecer que a gente tá numa vitrine. Dá pra ver nossas sombras chinesas lá de fora.

— Sombras chinesas? Como assim?

Mas ele já não a ouvia. Havia acabado de descobrir que a descarga não estava funcionando. O beque boiava na água do vaso sanitário. O que fazer? Se demorasse a atender a porta, é óbvio que o policial forçaria a entrada e começaria a revistar toda a casa. Provavelmente todo um batalhão aguardava suas ordens para invadir a residência. E se houvesse mais algum baseado perdido no meio daquela bagunça? E se a esposa tivesse esquecido uma trouxinha de cocaína dentro duma bolsa antiga? Caramba! Paulo não podia deixar Anita passar por isso. Assumiria toda a culpa. Talvez fosse melhor ir lá fora agora mesmo, os braços levantados, e se entregar.

— É, vou me entregar… Vou me entregar… — murmurou para si mesmo.

A campainha soou pela terceira vez. O policial manteve o dedo no interruptor por três infinitos segundos. Durante esse longo espaço de tempo, numa busca espontânea por um motivo mais verossímil, Paulo visualizou toda uma complexa perseguição a um bandido qualquer, a qual certamente teria culminado em sua casa. Sim, talvez fosse isso, a ROTA não fica entrando na casa das pessoas à toa. “E se o ladrão estiver escondido aqui?”, pensou ele. “Talvez alguém tenha pulado o muro e esteja escondido no nosso quintal!” Correu então até a cozinha e abriu a porta dos fundos. Olhou para a pia e tomou da primeira faca que encontrou, uma faca de mesa, dessas de passar manteiga no pão. Tomado por súbita valentia, saltou para o gigantesco quintal de meros cinco metros de largura por quatro de comprimento. Deu três passos até o tanque de lavar roupa, sob a pequena laje, e espreitou dentro dele com a atitude astuta e lépida de um gato em plena caça. Estava pronto para o ataque, mas não havia ninguém ali. A máquina de lavar, logo ao lado, que ele trouxera de seu apartamento de solteiro, era pequena, mas ele abriu-lhe a tampa assim mesmo e ameaçou com a faca a escuridão das suas entranhas. O gostoso cheiro de amaciante de roupas invadiu suas narinas e, satisfeito, fechou os olhos, esquecendo-se do resto do mundo por um infinito instante. Mal passou por sua cabeça que até mesmo um gato teria dificuldades de entrar naquela geringonça.

— Paulo, o que você tá fazendo?

Caiu em si: — Hum? Nada, Anita.

— O cara ainda tá lá fora! Acho que não vai desistir. Eu abri todas as janelas pra sair esse cheiro de maconha.

— A da frente também?!

— Não, né. Não sou tão trouxa.

Ele correu até a porta dos fundos, segurou a esposa pelos ombros e a encarou, a expressão transtornada: — Bonita, eu tô muito doido… Acho que só agora tá batendo… Não consigo pensar direito… Acho que… — e então, alarmado, lembrou-se do beque e, sem concluir a frase, correu esbaforido, deixando a esposa plantada entre os móveis e as grandes caixas de papelão e os eletrodomésticos da cozinha. Uma vez no banheiro, sem pensar meia vez sequer, ajoelhou-se, resgatou o baseado de dentro do vaso sanitário e o meteu na boca, engolindo-o com dificuldade.

— Eca! O que você tá fazendo? — espantou-se ela, já às suas costas.

— Sumindo com as evidências — respondeu, sentindo aquele incômodo volume entalado no esôfago.

— Que nojo! Por que não deu descarga?

— Não tá funcionando — resmungou, sem se erguer.

Colocando uma mão sobre a cabeça do marido, Anita apiedou-se dele: — Era só abrir o registro, meu amor! Lembra que a gente tinha fechado ele antes de trazer a mudança? A torneira da pia estava pingando.

Paulo abraçou as pernas dela: — Ora comigo, meu amor. Ora comigo! Eu tô aflito… Meus pensamentos não me obedecem… Fico esquecendo que estou maluco… Você sabe que esse é o grande perigo… Se eu der bandeira e for preso por uso de drogas, vou perder o registro da OAB… Saca? A gente vai ficar na rua da amargura, ou pior!, a gente vai acabar numa rua da Cracolândia… — e arregalou os olhos, acreditando piamente no que dizia. — Você sabe que minha banda nunca deu dinheiro, né… E não entendo de mais nada a não ser de leis… Meu trabalho… A gente precisa começar nossa família em paz, Bonita! Ora comigo.

A campainha tocou pela quarta vez e, logo em seguida, ouviram palmas. Palmas de mãos que pareciam bem grandes e pesadas. Como que atingida subitamente por um raio, Anita culpou-se pela situação. Acostumada a sentir-se segura ao lado daquele homem tão denodado, tão protetor, percebeu que o temor dele a afetava com pungência. Finalmente sentiu que corriam perigo e que só contavam com Deus. Anita, pois, ajoelhou-se de frente para o marido, tomou-lhe as mãos nas suas e inexplicavelmente serena, cheia de fé, fechou os olhos e pronunciou em voz alta: — Pai nosso que estais no Céu, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, e espiritualmente presente nos nossos corações; meu Deus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Criador do Universo, eu vos peço paz de espírito, discernimento e coragem para mim e para meu amor; que o Espírito Santo, doador de nossas mentes, possa nos orientar neste momento de dificuldade e angústia; que vossa Centelha possa dirigir nossos pensamentos e livrar nossa imaginação da paranóia; meu Pai amado, nós violamos a lei dos homens, mas nada fizemos com má intenção diante de vossos olhos… Por favor, dai-nos vossa benção e nos protegei como sempre o tendes feito… Amém.

— Amém — disse Paulo. E ficaram em silêncio alguns segundos, perdendo-se nos olhos um do outro. — Você é linda, Anita — murmurou ele, comovido.

Ela o beijou e, apoiando-se nos ombros dele, levantou-se: — Bom… Melhor a gente ver o que esse cara da ROTA tá querendo, né.

— Eu tô mais calmo, Bonita — tornou Paulo, levantando-se também. — Mas minha cabeça… minhas idéias continuam girando… a taquicardia a mil… a onda tá no auge… não sei se vou conseguir me controlar.

— Meu amor, quem é mais forte: a maconha ou o Espírito Infinito? Confia!

— Não sei como colocar isso… em prática… — disse ele, a voz embargada. — Você não tem idéia do esforço que estou fazendo… pra conseguir falar com você…

— Bom, primeiro, respire fundo e devagar. Depois, faça o que Jesus ordenou aos apóstolos: não tente nem queira dizer nada por si mesmo: que o Espírito Santo fale por seus lábios — e sorrindo, ela acrescentou: — E coloque este colírio, meu amor!

Ele também sorriu, vencido, e tomou o tubo de Moura Brasil da mão dela: — Você… é demais.

Voltaram, pois, para a sala e Anita voltou a abrir a cortina, desta vez, fazendo um gesto para o policial como quem diz: já vamos! A perseverança do sujeito era impressionante. Ela tinha sorte de não ter a imaginação tão excitável quanto a do marido, do contrário, em vez de ansiosa, já estaria apavorada. Paulo abriu a porta lateral que dava para o corredor contíguo à garagem e, rígido como um funâmbulo de circo, se dirigiu ao inesperado visitante noturno. Equilibrava-se num fiozinho de sanidade, tendo como rede de segurança apenas a fé em Deus, sobre um abismo de aflição e de agitação mental.

— Boa… noite — disse.

— Boa noite — respondeu o homem, seco. — O senhor é o doutor Paulo César?

— Sim, sou eu — tornou o rapaz, perplexo com o fato de o policial saber seu nome.

— Será que posso entrar por alguns minutos?

Paulo procurou no próprio pulso um relógio inexistente e, embaraçado pelo gesto inútil, falou vagarosamente: — Posso saber do que se trata? É muito tarde pra…

— Ah, perdão. Meu nome é Jairo. Sargento Jairo de Queirós. Sou seu vizinho. Sua esposa esteve conversando com a minha hoje de manhã.

Aquela notícia poderia ter trazido algum alívio ao jovem advogado, mas tudo o que lhe veio à mente foi: “Que merda, ele sentiu o cheiro do beque”.

— O senhor pode abrir o portão? Não é bom que as pessoas me vejam aqui na sua porta.

Neste momento, a despeito do influxo de adrenalina, Paulo César dropou a onda: percebendo sua completa impotência diante daquela situação anormal, decidiu seguir o fluxo dos acontecimentos sem se opor, sem se rebelar, sem se preocupar com a própria segurança. Sabia que, caso deixasse as rédeas nas mãos do seu ego, iria desequilibrar-se, tomar uma “vaca” e chocar-se contra os recifes do fundo do mar da realidade. Não podia se dar a essa luxuosa morte de surfista mental, precisava pensar em Anita. Portanto, submisso, sem discutir, levou a chave à fechadura e permitiu a entrada do sargento da ROTA.

— Vamo entrar, senhor…?

— Jairo.

— Seu Jairo. Tá frio aqui fora — disse o anfitrião, lacônico, ainda sentindo o beque entalado no esôfago. O visitante o encarou e ele, cortês, fez um gesto com a mão para que o policial seguisse à sua frente. Este, sem nada dizer, dirigiu-se lentamente até a porta da frente, adentrando a casa sem qualquer cerimônia. Ainda no corredor, Paulo tentou averiguar se aquele coldre estava ou não vazio, mas, devido à penumbra, permaneceu na dúvida. Na sala, Anita estava sentada no sofá e já bebericava duma taça de vinho. Em menos de um minuto, ela montara uma cena de casal apaixonado: as taças, a garrafa, um cobertor sobre as pernas… Ao notar a presença do visitante, levantou-se e sorriu:

— Boa noite — disse ela, com simpatia.

— Boa noite. Você deve ser a dona Anita.

Paulo interveio, vacilante: — Amor, este é o sargento…

— Jairo — completou o outro.

— Isso. Jairo. Nosso vizinho. Você conheceu a mulher dele hoje.

Ela arregalou os olhos: — Ah, sim! Mas ela não me disse que o senhor era da polícia.

— Hoje em dia é muito perigoso ser da polícia — replicou o homem, visivelmente vexado. — A gente raramente fala sobre meu trabalho com quem ainda não conhece. Sabe como é, o bairro anda muito perigoso. Nunca venho para casa uniformizado. Hoje é uma exceção.

— Bom… — disse Anita, voltando a tomar assento. — Desculpe a bagunça, a gente ainda não terminou de arrumar a mudança. O senhor não quer se sentar? — e lhe indicou uma poltrona, no lado oposto da sala, que ela certamente havia liberado da pilha de caixas de papelão enquanto os dois homens ainda estavam na garagem.

— Obrigado — murmurou o sargento, indo sentar-se na pontinha da poltrona, longe do espaldar, a coluna arqueada para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Paulo e Anita trocaram um olhar furtivo: o sujeito não se sentia nada confortável, parecia antes tomado de extrema pressa, talvez até mesmo de repulsa. Parecia ter nojo da poltrona. Seria aversão a maconheiros?

— O senhor quer beber alguma coisa? — perguntou Paulo, disfarçando intensa tremura e sentando-se no sofá junto à esposa, de quem tomou a taça: precisava empurrar aquele baseado para o estômago.

— Não, obrigado — respondeu o sargento, olhando para o chão. Estava na cara que o policial pretendia dar-lhes um sermão, talvez até mesmo acusá-los formalmente por uso de entorpecentes. Aquela indisposição era certamente fruto de alguma discussão prévia com a esposa, a qual, devido a uma provável simpatia por Anita, não queria ver o jovem casal em dificuldades.

— Olha… — começou Paulo, quase gaguejando. — O senhor nos desculpe pela demora em atender a porta. A gente estava com o som ligado, conversando e…

— Não precisa se desculpar, doutor Paulo — interrompeu-o Jairo, sem erguer o rosto. — Eu é que tenho de pedir desculpas. Sei que são recém casados e que devo ter interrompido um momento de intimidade. Estou envergonhado com minha insistência. Mas é que preciso muito conversar com vocês…

Anita e Paulo voltaram a entreolhar-se.

— Minha esposa me disse que vocês são evangélicos, mas vejo que bebem álcool. A senhora até nos presenteou com uma garrafa de vinho.

— Eu fui criada numa família católica — corrigiu-o Anita. — Os pais do Paulo são protestantes. Se álcool fosse uma coisa assim tão ruim, o primeiro milagre de Jesus não teria sido a transformação de água em vinho. O senhor não acha?

O homem agora esfregava o rosto com ambas as mãos: — Mas vocês são pessoas religiosas, não são? — indagou, com certa irritação na voz.

— Nós confiamos em Deus — respondeu Paulo, levantando-se, visivelmente agitado. Pressentia que uma acusação de hipocrisia se formava na mente do policial. Teria de confessar, não podia deixar o bigode daquele homem distraí-lo. O nariz do sujeito parecia um ovo pousado sobre uma enorme moita negra. Que bigodão! Coisa de mariachi, pensou. Lembrou-se então do tal sombrero preto do Darth Vader e, na tentativa de evitar uma gargalhada insana e iminente, tentou prender a respiração. Tremia ainda mais. Era inevitável, chegara a hora. Seu corpo não queria obedecê-lo. Ou gargalhava, ou confessava. O esforço que vinha despendendo para controlar os pensamentos não implicava um sucesso equivalente no tocante ao corpo. Suas mãos denunciavam algo como Parkinson, a voz lhe saía com dificuldade. Era como um flashback simultâneo de ecstasy, ácido e anfetamina, sob influência dos quais o corpo não sossega senão ao dançar.

— Quero perguntar uma coisa pra vocês. É importante — prosseguiu o vizinho, declaração essa que colocou o alarmado advogado em movimento.

Ao ver o marido encaminhar-se cambaleante até o sargento, Anita, que por segundos havia se deixado distrair pela intensa larica, teve um sobressalto. Tentou segurá-lo pela mão, mas não o alcançou. Não quis levantar-se e agarrá-lo, pois pareceria, se não suspeito, no mínimo estranho. Sua cabeça se pôs à roda. Veio-lhe então à mente, em rápida sucessão, fragmentos de diversas discussões mantidas com ele sobre o trabalho da polícia, mormente a maneira como a imagem que tinham dos policiais mudou da água para o vinho assim que deixaram a clínica de reabilitação. Lembrou-se do acidente de carro que sofreu com o pai, de como a polícia militar, solícita, os ajudou. Recordou do seqüestro relâmpago que sofrera um ano antes e de como desejara e rezara por uma ação policial, a qual de fato ocorreu sem qualquer resultado negativo, com os bandidos presos. Lembrou-se também da época em que, agrilhoada pelo vício à cocaína, não via aqueles homens senão como inimigos, uma atitude bastante comum aos consumidores de todos os tipos de drogas, atitude que inevitavelmente resvala na mais ancestral das paranóias: o temor à autoridade. Para um viciado em plena viagem psíquica, nada mais assustador do que a presença súbita de um policial. Seria como agitar uma gaiola diante de um canário. E a jovem acabou por recordar de outro seqüestro relâmpago, este mais infame, sofrido por um amigo, que caíra nas mãos de policiais corruptos com uma quantidade razoável de cocaína. Em vez de prendê-lo conforme à lei, os policiais o detiveram no carro enquanto sua namorada teve de ir sacar alguns milhares de reais para pagar o resgate… Essas lembranças contraditórias lhe invadiam a mente. Há bons homens, há homens maus, pensava. Que tipo de policial seria o sargento Jairo? Anita respirou fundo. A culpa que sentia por ter induzido o marido a fumar maconha justamente naquele dia recrudesceu. E, atordoada, finalmente notou que Paulo, em meio a seu sofrimento moral, desde o começo não pretendia senão confessar-se.

— Esta semana, eu matei uma pessoa — tornou Jairo, interrompendo os pensamentos da jovem e os passos de Paulo, que estacou a meio caminho. — Quero saber se vou pro Inferno! — concluiu e, esmagado por uma dor pungente, o sargento começou a soluçar.

Anita empalideceu. Paralisada, nem sequer piscava. Sua coragem jogou as cartas na mesa e abandonou o jogo. Não sabia o que dizer ou fazer. Penetrara num mundo novo, desconhecido, destes que só existem nos filmes e nos noticiários. Seu olhar ia do sargento ao marido e deste ao primeiro numa velocidade incrível. O que aconteceria agora? Foi Paulo quem rompeu o silêncio.

— O senhor matou um bandido?

— Não — respondeu Jairo, atormentado. — Matei uma moça. Uma mãe. Ela tinha apenas vinte e seis anos. Faz quatro dias que não consigo dormir.

— Por que o senhor a matou? — prosseguiu Paulo, num tom de voz excepcionalmente calmo.

— A gente tava numa diligência — disse Jairo, em meio aos soluços, a cabeça ainda abaixada. — Houve um assalto a um caixa eletrônico. Com explosivos. A gente tava perto. Então fomos chamados e, depois de uma curta perseguição, conseguimos interceptar o carro dos suspeitos. Eles bateram noutro carro que estava estacionado e não conseguiram continuar. O pára-choque do carro deles ficou preso no pára-lamas do outro. Aí eles se esconderam atrás dos carros e ficaram disparando contra a gente. Uns cinco caras. Um deles tinha um fuzil utilizado apenas pelo exército. Foi no início da madrugada, mas ainda tinha gente na rua. No centro da cidade é desse jeito. O movimento não tem fim.

— E essa moça estava na rua.

— Eu sabia que um dia iria acabar matando alguém — continuou Jairo, desconsolado, ignorando a observação. — Mas eu vinha me preparando para lidar com a morte de um bandido, não com isso! Faz parte da guerra matar o inimigo, mas eu não estava preparado para matar uma pessoa inocente. É claro que não! É como uma doença horrível, a gente pensa que só acontece com os outros. Eu já tinha ferido alguns suspeitos durante diligências, perseguições, mas nunca tinha matado ninguém. A polícia não é como as pessoas imaginam, não é um bando de justiceiros com licença para matar e que mata o tempo inteiro. É claro que sempre tem um espírito de porco no meio, uma maçã podre. É claro que mesmo a gente, lá dentro, ouve falar de grupos de extermínio. Mas quem não quer se envolver nem fica sabendo se é ou não um boato! Já disse: é coisa de espírito de porco! E esse tipo de gente está em todo lugar, não é exclusividade nossa. A maioria dos policiais só tá fazendo seu trabalho, sustentando a própria família.

O sargento voltou a afundar o rosto nas mãos e chorou baixinho, emitindo um som sibilante de pavio aceso, como se uma bomba estivesse a ponto de explodir. Anita permanecia muda, o coração confrangido. Estava mais impressionada com a tranqüilidade repentina manifestada pelo marido do que com as revelações do policial. O mais estranho é que Paulo estava agora ereto e já não tremia.

— Eu vou para o Inferno? — tornou a indagar Jairo, num sussurro plangente. E, pela primeira vez desde que se sentara ali, ergueu o rosto para encarar seu interlocutor. Tinha os olhos injetados, o rosto inchado e rubro.

Paulo se aproximou e colocou a mão direita em seu ombro:

— A Realidade não é uma máquina que responde automaticamente a certas ações, sargento.

— Não matarás! — citou Jairo, angustiado. — Não é esse o primeiro mandamento?

Paulo sorriu, compassivo: — Não. O primeiro mandamento é “Amarás a Deus sobre todas as coisas”. E isso também quer dizer: amarás a Deus até mesmo mais do que amas ao teu próprio sofrimento.

— Mas eu matei, doutor Paulo! Eu matei! A moça estava lá, no carro estacionado. Ela tinha dois filhos e eu matei ela! — e voltou a ocultar o rosto nas mãos. — A coitada tinha se escondido quando ouviu os primeiros tiros… E num momento tenso, de cessar fogo, se levantou para espiar pela janela…

Paulo se agachou diante do policial:

— Seu Jairo, o senhor não confia em Deus?

— Como posso confiar em alguém que nem sei se realmente existe?

Paulo sorriu: — Pela ciência e pela filosofia, qualquer um pode concluir que o universo foi causado por algo além dele mesmo. E, sendo o universo complexo e obediente a leis, essa Causa só pode ser inteligente. Antes de haver coisas que sigam leis, é preciso que haja a criação dessas leis, e as leis não são materiais.

— Eu entendo o que você quer dizer, mas isso não me satisfaz.

— É por isso que Deus, por ser mais inteligente e amoroso do que suas criaturas, decidiu revelar-se na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um Deus entre nós! Isso satisfaz… — e Paulo buscou o olhar do policial. — Aliás, se um escritor é capaz de criar um personagem para representar a si mesmo dentro de um livro, relacionando-se assim com outros personagens, por que Deus não poderia atuar da mesma maneira diante da sua Criação? Deus é menos do que um escritor? Um efeito não pode ser maior do que sua causa! O homem não é maior e mais esperto do que Deus!

O sargento aceitou o olhar do advogado: — Este mundo já é quase um Inferno, doutor Paulo. Às vezes penso que Deus não existe porque há maldade demais no mundo. O senhor não faz idéia das coisas que vejo no dia a dia.

— Nosso mundo não é um mundo normal, seu Jairo. Vivemos isolados, em quarentena cósmica, porque houve a Rebelião de Lúcifer e a desobediência do casal adâmico. Mas, mesmo que não vejamos qualquer mudança material durante nossa vida na carne, essa situação fatalmente terá um fim. Precisamos ter esperança e confiar na bondade divina.

— Não sei… Eu… não sei…

— O mais importante é que, enquanto indivíduos, podemos nos reconectar a Deus agora mesmo. A quarentena se refere apenas à coletividade, apenas ao planeta. Você pode conversar com Deus neste instante. Ele não é um amigo imaginário. Você deve achar que a religião se baseia apenas na imaginação, né. Ora, tudo, até mesmo a ciência, se baseia na imaginação. Há montes de princípios e postulados que são dados como certos, mas que não podem ser provados. Entende? “Todos os ângulos retos são iguais” diz um desses postulados. Ok, mas você acha que alguém saiu comparando todos os ângulos retos do universo para saber se isso é verdade? Claro que não, seria impossível. É praticamente a fé que sustenta as ciências e as matemáticas. Se um cientista não percebe isso, é porque está filosoficamente cego. E essa fé deles tem como base nossa capacidade de imaginar certos princípios como sendo reais. Se você acha que Deus é mero fruto da imaginação, tente falar com Ele. Insista até começar a falar a partir do coração. Porque o mais impressionante é que Ele, a Seu próprio modo, quando ouve nossa sinceridade, nos responde. Essa resposta pode não ser instantânea, mas ela eventualmente chega até nós.

Anita estava embasbacada com aquela cena. Não esperava presenciar tão prontamente uma tal performance. O marido mudara da água para o vinho! Talvez por ainda estar sob efeito do baseado, ela apreciava a cena completamente desligada do espírito da época. Até a luz lhe parecia diferente, como se os três estivessem sob a iluminação de tochas. Ela já não vivia o século XXI. Sentia-se como uma romana, nas catacumbas, diante do discurso de um velho e sábio apóstolo. Percebia como o policial realmente sofria uma reforma em suas feições, sentindo-se paulatinamente consolado. Era como testemunhar um milagre.

— Mas, doutor Paulo — tornou o sargento, a voz embargada —, se isso for verdade, por que o mandamento diz “não matarás”? Não cometi um pecado? Já não estou condenado? Quer dizer que só tenho de falar com Deus e pronto, estou salvo?

Paulo levantou-se e deu alguns passos pela sala. Anita teve a impressão de que mantinha os olhos fechados. Então ele se voltou novamente para o policial: — Seu Jairo, uma tradução mais correta do mandamento seria “não assassinarás”. Quer dizer: mesmo que o uso da força seja necessário, não tenha a intenção de matar! Muitas vezes, a misericórdia necessita da força para auxiliar o mais fraco, já que este pode estar sofrendo sob os pés de um sujeito mais forte cujo coração não possui senão malícia. Um guerreiro, um soldado, deve agir como os samurais: cumprindo seu dever sem envolver seu ego, sem envolver sua própria vontade. É o que eles chamam de “não-ação”, a ação não motivada pelo ego, mas, sim, por um bem maior. Mesmo um pai de família, numa sociedade livre, aberta, uma que não seja dominada pelo Estado, tal como a nossa infelizmente é, tem o dever de manter uma arma em casa para proteger sua família. E, se necessário, ele deve entregar a própria vida para salvar a de sua esposa e filhos. Um policial de verdade tem de agir da mesma forma. Não pode deixar-se envolver emocionalmente, não deve odiar os bandidos, que são seus inimigos — mas tampouco deve abster-se de combatê-los sempre que ameacem a sociedade.

— Mas eu não matei um bandido… Matei uma inocente!

— Eu sei, seu Jairo. Mas foi um acidente, não foi? Você não teve a intenção de matá-la.

O policial o encarou com desespero no olhar: — Eu pensei que a cabeça dela fosse a cabeça de um dos assaltantes atrás do carro. E, sim, eu queria matar ele! Ele não pretendia se entregar, estava atirando para matar a gente. Mas então isso aconteceu. E a culpa agora está me matando… Se eu estivesse com a cabeça fria, como o senhor está dizendo… Se eu não estivesse com tanto medo de morrer… — e o sargento voltou a chorar baixinho, encolhido, sacudindo o corpo para frente e para trás, preso de imensa angústia.

Paulo voltou-se para a esposa: — Anita, meu bem, ajoelhe-se aqui ao nosso lado — e tocando o ombro do policial: — Sargento Jairo, ajoelhe-se aqui à minha frente. Vou rezar um Pai Nosso por você e, em seguida, pedir em oração por sua alma. O perdão é a única salvação. Deus já o perdoou, mas o senhor só sentirá a ação desse perdão quando perdoar a si mesmo. Para tanto, o único pré-requisito é o arrependimento sincero. E vejo que você está arrependido.

— Eu não rezo desde moleque — murmurou seu Jairo, ajoelhando-se. — Acho que nem me lembro mais como é.

— Não se preocupe. Apenas ouça minhas palavras. O Pai Nosso traz em si todos os elementos importantes, tudo o que podemos pedir e oferecer a Deus. Funciona como um protocolo formal, uma maneira de estabelecer a conexão. Depois, com a oração, falamos diretamente a Deus, informalmente, tal como somos e sentimos, como quem se dirige a um amigo. Entende?

— Entendo.

— Agora fechem os olhos.

Anita e seu Jairo, de joelhos, fecharam os olhos. Paulo César, com autoridade, retomou a palavra: — Pai nosso que estais no Céu, no centro mesmo de todas as coisas, pessoalmente presente na Ilha Estacionária Paradisíaca, núcleo singular do Universo Central Modelo, e espiritualmente presente no meu coração e no coração de meus irmãos, mortais ascendentes; santificado seja o vosso nome, meu Deus!, meu Deus!, meu Deus!… Venha a nós o vosso Reino, venha a nós os laços da vossa Família Cósmica… E seja feita, não a minha, não a nossa, mas a vossa vontade, assim na Terra como em toda vasta Criação… O pão nosso de cada dia dai-nos hoje: o pão para o corpo, o pão para a mente, o pão para o espírito… E perdoai as nossas ofensas e as nossas dívidas cármicas, na medida em que nós perdoamos a nossos ofensores e a nossos devedores… E não nos deixeis, Senhor, cair em tentação: na tentação da ira, do medo, do desespero… na tentação da inveja, do ciúme, do ressentimento… na tentação da preguiça, da covardia e do isolamento… Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação! Mas, se escorregarmos, Senhor, livrai-nos de todo o mal! Porque vosso é o Poder, o Reino e a Glória, pelos séculos dos séculos… Amém!

— Amém — repetiram em uníssono Anita e Jairo, emocionados.

Paulo prosseguiu: — Senhor, estamos diante de nosso próximo, de nosso vizinho, o sargento Jairo de Queirós, cujo coração está despedaçado pela culpa. Vós sabeis, Senhor, melhor do que eu, o quão arrependido ele está pela morte que causou. Uma família perdeu sua mãe e Jairo sente grande dificuldade de se perdoar. Sabemos que ele não se consolará de uma hora para outra, sabemos que ele provavelmente sentirá necessidade de pedir perdão à própria família que ele atingiu tão duramente. Mas vós, meu Pai, sabeis que ele é um bom homem, uma pessoa reta e que, mesmo tendo se esquecido de vós por tanto tempo, tem procurado observar a justiça no seu dia a dia. Por favor, meu Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, pedimos por este homem, que também é um pai de família e que, agora, retorna à vossa Família Universal. Ajudai-o, Senhor, a compreender o significado e o valor dessa triste experiência. Que ele cresça em fé, em paciência e amor, e possa dedicar-se com ainda mais afinco à difícil tarefa que lhe cabe. A vida e a segurança de muitíssimas pessoas depende do serviço dele e de seus colegas. Aqui, juntos, agradecemos por essa Graça, Pai. Que assim seja.

— Que assim seja — repetiu Anita.

Nisto, o sargento se jogou aos pés de Paulo em prantos:

— Obrigado, doutor! Obrigado!

Paulo se abaixou e o abraçou. Ficaram assim, quase dois minutos sem que ninguém dissesse uma única palavra. Anita chorava em silêncio, tocada no mais fundo de sua alma. O choro do policial era agora de alívio. Uma força sobrenatural apoderara-se dele e seu rosto finalmente trazia a marca da esperança. Paulo sabia que ainda haveria uma que outra recaída. Mas o primeiro passo fora dado.

O sargento, então, afastando-se de Paulo e enxugando os olhos com as costas da mão direita, pediu um copo d’água, que Anita apressou-se em lhe servir. O casal observava agora a fragilidade e a humanidade daquele homem que, minutos antes, tanto medo lhes impingira. A vida é muita estranha.

— Agradeço imensamente a vocês dois — disse ele, já de pé. — Preciso ir pra casa agora, minha mulher deve estar preocupada. Vim direto pra cá, ela ainda não sabe que voltei do trabalho — e estendeu uma mão para Anita, que a apertou timidamente.

Quando o policial já saía pela porta aberta por Paulo, Anita voltou a chamá-lo:

— Seu Jairo! O senhor está esquecendo disto aqui! — e, segurando pela pontinha do cano, lhe estendeu um revólver calibre 38 que ficara caído ao tapete.

— Obrigado, dona Anita. Me desculpe — e lhe sorriu, tomando a arma e devolvendo-a ao coldre.

Paulo o acompanhou até o portão e, quando o sargento já ia se afastando, parou, coçou a cabeça, retornou e lhe disse:

— Doutor Paulo César, posso lhe pedir uma última coisa?

— Claro, seu Jairo.

O outro limpou a garganta, embaraçado, e disse, quase sussurrando: — Por favor, não fume mais maconha. O senhor é bom demais pra isso. E deve estar ciente do mal que o tráfico de drogas causa à sociedade.

Paulo, sem nenhum constrangimento, sorriu: — Então o senhor percebeu?

— Claro, faz parte do meu trabalho, né.

— Não se preocupe, seu Jairo. Um amigo meu costuma dizer que muitos caminhos levam a Deus, que até mesmo o diabo pode nos levar a Deus. O diabo que me levou a Deus foram as drogas. O mesmo aconteceu com Anita. E, hoje, enquanto desempacotávamos a mudança, encontramos um último baseado e caímos em tentação! Mas, tal como disse agorinha, ao rezar, nosso Pai Celestial, apesar de nosso escorregão, não apenas nos livrou do mal, mas também nos ajudou a realizar um grande bem.

— O senhor viu aquele filme Os Intocáveis? — tornou Jairo.

— Com Kevin Costner?

— Esse mesmo. E aquele ator que foi o melhor 007.

— Sean Connery.

— Isso, acho que é esse. Então… no final, após prender Al Capone, um repórter se aproxima do Eliot Ness dizendo que as bebidas alcoólicas tinham acabado de ser liberadas, o que ele faria a respeito, já que tinha enfrentado o contrabando e o comércio delas por tanto tempo.

— Acho que me lembro disso.

— E o Eliot Ness diz: se já liberaram o álcool, vou tomar um drink.

Paulo riu.

— Eu fumaria um cigarro desses com você, doutor Paulo, se um dia fosse liberado. Mas, por enquanto, só há crime por trás disso, muitas mortes.

— Seu Jairo, eu agradeceria seu convite, mas me recusaria. O senhor certamente nunca foi um usuário de drogas. Não deve saber como o uso crônico dessas substâncias pode despertar nossos monstros e pavores. Aliás, eu quase me borrei nas calças quando o vi pela janela…

Agora foi o sargento quem riu.

— Sem falar — prosseguiu Paulo — que a atual onda de liberação das drogas vem sendo orquestrada para dar ainda mais poder aos produtores, já que eles compartilham dessa mesma ideologia política que manda hoje em nossa vida. Parece que essa ideologia é mais efetiva quando a mente da população está distraída ou assustada.

— Bom, disso eu não entendo nada, doutor. Mas… enfim, eu precisava dizer isso pro senhor.

Apertaram as mãos com firmeza, olhando-se fraternalmente nos olhos um do outro, e o sargento então dirigiu-se à casa ao lado, fechando o portão com estrondo.

Quando Paulo entrou na sala, Anita estava no sofá, sentada de pernas cruzadas, com dois dedos metidos no pote de Nutella. Ele se aproximou e desabou ao lado dela.

— Paulo, tô tão orgulhosa de você! As coisas que você disse…

— Bonita — disse ele, exausto — não faço a mais mínima idéia do que foi que eu disse! Lembro de partes! A maconha acabou com minha memória.

— Não! Você não se lembra porque foi o Espírito Santo!

— …acobertado pelo beque.

— Bobo — e o beijou ternamente. — Pelo menos o sargento não desconfiou de nada, né.

— Ah, é. Não desconfiou de nadica de nada — gracejou ele. — Mesmo assim — e a puxou pelo braço, deitando-a no colo — você merece umas palmadas pelo que me aprontou hoje. Sua Eva!

— Se me machucar, vou à delegacia da mulher, viu — replicou, divertida.

— Vai não. O mais provável é que você vá contar tudo pra sua amiga do Cinqüenta Tons de Cinza.

Ela riu. E ele lhe deu umas boas palmadas.

8:07 amUna bella definición de la libertad

Alexis de Tocqueville

« Cuando, después de haber dirigido una mirada rápida a la sociedad norteamericana de 1650, se examina la situación de Europa hacia la misma época, se siente uno sobrecogido de profunda sorpresa: en el continente europeo, a principios del siglo XVII, triunfaba en todas partes la monarquía absoluta sobre los restos de la libertad oligárquica y feudal de la Edad Media. En el seno de esa Europa brillante y literaria, nunca fue tal vez más completamente desconocida la idea de los derechos; los pueblos nunca habían vivido menos su vida política; jamás las nociones de la verdadera libertad habían preocupado menos a los espíritus. Fue entonces cuando esos mismos principios, no conocidos en las naciones europeas o despreciados por ellas, se proclamaron en los desiertos del Nuevo Mundo y llegaron a ser el símbolo de un futuro gran pueblo. Las más atrevidas teorías del espíritu humano se hallaban convertidas a la práctica en esa sociedad tan humilde en apariencia, de la que sin duda ningún hombre de Estado de entonces hubiera dignado ocuparse. Entregada a la originalidad de su naturaleza, la imaginación del hombre improvisaba allá una legislación sin precedente. En el seno de esa oscura democracia, que no había engendrado aún ni generales, ni filósofos, ni grandes escritores, un hombre podía erguirse en presencia de su pueblo libre, y dar, entre las aclamaciones de todos, esta bella definición de la libertad:

“No nos engañemos sobre lo que debemos entender por nuestra independencia. Hay en efecto una especie de libertad corrompida, cuyo uso es común a los animales y al hombre, que consiste en hacer cuanto le agrada. Esta libertad es enemiga de toda autoridad; se resiste impacientemente a cualesquiera reglas; con ella, nos volvemos inferiores a nosotros mismos; es enemiga de la verdad y de la paz; y Dios ha creído un deber alzarse contra ella. Pero hay una libertad civil y moral que encuentra su fuerza en la unión y que la misión del poder mismo es protegerla; es la libertad de hacer sin temor todo lo que es justo y bueno. Esta santa libertad, debemos defenderla en todas las ocasiones y exponer, si es necesario, por ella nuestra vida (41).”

« Ya he hablado sobre esto lo suficiente para esclarecer el carácter de la civilización angloamericana. Es el producto -y este punto de partida debemos tenerlo siempre presente- de dos elementos completamente distintos, que en otras partes se hicieron a menudo la guerra, pero que, en América, se ha logrado incorporar en cierto modo el uno al otro, y combinarse maravillosamente: el espíritu de religión y el espíritu de libertad.»

Alexis de Tocqueville, La Democracia en América (1835).

7:50 amPelo outro lado

É sempre estranho conversar com alguém que — mesmo depois de todos os relatos a respeito dos canibais Tupinambás e quejandos (ou dos Korowai, ainda em plena atividade antropofágica na Papua-Nova Guiné), dos canibais da América do Norte (apud Alexis de Tocqueville), dos relatos a respeito dos Jívaros equatorianos (os famigerados “encolhedores de cabeças”) e dos não menos bizarros “caçadores de pênis” (Sir Francis Richard Burton, em sua primeira viagem para descobrir a nascente do Nilo, ganhou uma cicatriz no rosto ao escapar deles) — ainda acredite na teoria do bom selvagem. A coisa toda atingiu seu ápice nos dias que seguem, quando não apenas os bons selvagens são automaticamente bons, mas até mesmo as feras da selva são boníssimas. No fundo, tudo não passa de vácuo espiritual. Ou o mundo volta para os eixos pelo bem, ou um futuro califado islâmico o fará entender o espírito da coisa pelo outro lado…

7:10 amMais postagens recentes no Facebook e no Twitter

DRÁCULA E OS CULTOS NEOPENTECOSTAIS
Dizem que, nos cultos neopentecostais, os pastores falam mais do diabo do que de Deus. Dizem que eles preferem aqueles rituais de exorcismo a pregar o Evangelho. Eu nunca presenciei tais cenas porque não sou pentecostal. Vi apenas alguns vídeos, os quais, aliás, nunca mostram o culto por inteiro. Mas isso não importa. O que realmente acho curioso é que as três últimas pessoas que me fizeram tal comentário — sobre a predominância do diabo nos cultos — também adoram filmes de vampiros. ¿Será que leram “Drácula”, de Bram Stoker? (Eu disse “leram” e não “viram”. Não me refiro ao filme do Coppola.) O romance “Drácula” parece um culto pentecostal. Sério. Não porque fale apenas do diabo o tempo inteiro, mas porque seus personagens falam muito de Deus, vivem a rezar e aprendem com o professor holandês a exorcizar o mundo dessa peste sugadora de sangue. Abraham Van Helsing, a cada vinte ou trinta páginas, convoca todo mundo para orar. O cara parece um pastor. Ateus devem passar mal com essa leitura, talvez até se irritem e a abandonem. (Isto é, são exorcizados por Van Helsing juntamente com o vampiro.) Aliás, nenhum exorcismo é feito sem a invocação de uma ou mais das Pessoas da Trindade. Logo, se num culto falam muito do diabo, é porque certamente devem falar muito de Deus. Não que eu concorde com a abordagem pentecostal, mas quem não gosta dela tampouco devia curtir o livro “Drácula”. Nele, é assim: fala-se muito da Divindade como único recurso eficaz para se combater o mal. Infelizmente, com o avanço do secularismo no século XX, Deus foi retirado das histórias de vampiro. Restou apenas a cruz, que funciona mais como uma arma mágica do que como um símbolo de fé. Se Stoker escreveu uma fábula que ensina a vencer o mal mediante a fé, hoje seu personagem nefasto tornou-se um herói para aqueles que não têm fé alguma, a não ser, talvez, essa fé na paródia de imortalidade representada pelo diabólico Drácula. Ninguém mais quer saber como realmente se escapa da morte. O que vale é preservar o corpo — ainda que às custas do sangue alheio…

***

Jean Uílis — não vou mais pesquisar no Google para descobrir como se escreve essa merda (se ao menos fosse como o Jeep Willys…) — enfim, o sujeito acha um absurdo deputados que rezam o Pai Nosso dentro do Congresso Nacional. ¿Por que ele não reclama com a Madonna, já que ela reza com seus dançarinos antes de entrar no palco? ¿Só porque ela não é evangélica? ¿O trabalho dela é mais importante do que o trabalho de legisladores?

Nego tem de começar a estudar um pouco de etimologia. Se o fizesse, saberia, por exemplo, que leigo/laico (laikós) é aquele sujeito que pertence ao povo cristão em geral, mas não faz parte do corpo eclesiástico da Igreja Católica. Quando o termo passou a ser usado, todo mundo se assumia como membro da Cristandade. (Mesmo o antigo povo grego considerava a impiedade um crime — que o diga Sócrates!) Estado leigo não é sinônimo de Estado ateu.

Essa conversa é velha e já deu no saco.

***

“BALADA RESPONSÁVEL” É NOVILÍNGUA
Não sei se notaram, mas já não há tantos casais divertindo-se em festas, bares e baladas. Agora são uma minoria, formada provavelmente por ricos que podem pagar um motorista particular. Sim, porque hoje em dia, quando o casal sai, só um pode beber enquanto o outro fica com cara de cu, já que alguém precisa ficar sóbrio para dirigir na volta para casa. É muito chato permanecer sóbrio enquanto todo mundo em volta, inclusive sua cara-metade, está se divertindo. Se alguém acha que não é necessário beber em festas e baladas, então pergunte à Nossa Senhora por que ela insistiu tanto para que Jesus transformasse água em vinho. Chesterton, C. S. Lewis e Lin Yutang sabem explicar o porquê. Não deixar um casal beber em público é que é uma irresponsabilidade. Parecerão desconexos. Terão de beber apenas em casa, o que, tecnicamente, já não será mais uma forma de “beber socialmente”. Isto, é claro, se não discutirem perigosamente dentro do carro, ao voltar da festa, porque um estava alegrinho demais…

Anos atrás, tive uma namorada que ficava completamente louca com um simples copo de cerveja. Eu bebo um litro e nada acontece. E a porcaria da Lei Seca trata a todos como iguais. Não somos igualmente afetados pelo álcool.

Aliás, idiotas que fazem cagadas no trânsito quando bêbados também fazem cagadas quando sóbrios. Idiotas são idiotas, ponto. O resto é acidente e, como já dizia Alan Watts, o homem moderno, por mais que tente, jamais conseguirá excluir os acidentes da realidade.

***

UBER
Já cheguei a ficar duas horas, após uma balada, esperando um táxi, porque, afinal, além de o governo nos impor sua Lei Seca, também limita as licenças de táxis. E agora os vereadores de São Paulo proíbem o Uber? FDP.

Franceses adoram inventar porcarias burocráticas, inclusive seus taxistas. E brasileiros adoram imitar franceses! Esse arranjo entre empresários de táxi e Estado é que é fascismo. É anti-livre mercado e o mercado “somos nozes”.

***

Antes de pegar no batente diário, todo político devia ser obrigado a passar por um corredor polonês formado por seus eleitores. Seria uma forma de averiguar a real aprovação de seu trabalho.

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Ao chegar da apresentação da Orquestra Filarmônica de Goiás no Parque Flamboyant, liguei a TV e me depararei com o finalzinho daquele filme da Sandra Bullock: “Gravidade”. Então, tive uma idéia para um
NOVO FINAL PARA O FILME “GRAVIDADE”:

Depois de muitas horas lutando por sua vida, depois de pular de Estação Espacial em Estação Espacial, buscando em seguida, e desesperadamente, outras velhas naves largadas ao Deus dará por russos e chineses, enfim, depois de arriscar repetida e cosmicamente o lindo pescoço, a exausta astronauta leva sua cápsula a riscar os céus feito estrela cadente e mergulha num laguinho mixa no meio de um grande deserto. Tal como no filme original, ela tem de esperar a cápsula afundar para apenas então vencer a força da torrente de água que entra pela escotilha. Uma fez fora dela, para conseguir nadar até a superfície — e novamente tal como no filme —, ela retira o pesado e desajeitado macacão espacial, emergindo vestida apenas de calcinha e camiseta regata sexy. (Na minha versão, à guisa de comemoração, a calcinha tem as cores do arco-íris.) Ela nada até a margem e, assoberbada pelo peso de seu corpo (ou seja, pela força da gravidade), levanta-se aos trancos e barrancos, misturando tropeços infantis a risadas de triunfo. Aqui acaba a semelhança com o filme original, pois, neste exato momento, duas picapes pretas assomam no horizonte dirigindo-se a toda velocidade na direção da astronáufraga. Ela tenta dar saltos de alegria, mas, sentindo-se enfraquecida pela aventura recente, limita-se a ficar ali de pé, os joelhos juntos, os pés afastados, os braços para o ar, feito uma cheerleader bêbada. Conforme as picapes vão se aproximando, seu sorriso vai se desvanecendo, até dar lugar a olhos esbugalhados e, finalmente, a puro e simples pânico, o qual a leva a dar as costas àqueles dois veículos lotados de fanáticos do Estado Islâmico, o que, infelizmente, em nada resulta, pois a velha e boa força de GRAVIDADE a faz cair de quatro no chão. As duas picapes então estacionam a cinco metros dela, flanqueando-a e deixando-a completamente cercada. Assim, vinte e dois seguidores do profeta Mafamede a sujeitam à força e, após arrancar aquela calcinha de arco-íris, e em homenagem à mesma, estupram-na primeiro no fiofó e, em seguida, divertem-se com a pobre infiel durante doze dolorosas horas. (No filme, isso será expresso pelo movimento do Sol que irá de um horizonte ao outro, numa edição cheia de cortes, enquanto vemos a astronáufraga comer o pão que Maomé amassou.) Por fim, os fanáticos lhe cortam a cabeça e a abandonam ali para os urubus. Neste momento, que é a cena final, o fantasma do astronauta George Clooney surge ao lado do corpo da coitada, olha para a câmera e diz:

— De que vale uma mulher se deslocar tão livremente pelo espaço sideral se ela não pode fazer o mesmo na própria Terra? A única e verdadeira cor deste dia foi o vermelho…

FIM

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“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, disse Jesus. Porém, antes de partir, e notando que a maioria dos mortais mal consegue amar a si mesma, decidiu aprimorar o mandamento: “Amai uns aos outros assim como EU vos amei”; capisce?

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Enquanto no Ocidente vão chamando as discordâncias de “ódio”, o Islã prossegue com seus assassinatos em massa…