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palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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São Paulo, a linguagem e os gritos das mulheres

Eugen Rosenstock-Huessy

(Eugen Rosenstock-Huessy)

Quase todas as civilizações não-cristãs preservam os sinais da irrupção da queixa legal e formal a partir de uivos e gritos naturais e animais. Espera-se que as mulheres contribuam com gritos selvagens, passionais e inarticulados de cego sentimento. Espera-se que os homens construam sobre esse estrato natural a estrutura da linguagem elevada e articulada. Tanto os ritos dionisíacos como os enlutados profissionais entre os judeus dos guetos poloneses cumprem ambas essas funções. As mulheres e as crianças gritam, choram, tremem; os homens agem e falam.
Tal divisão do trabalho parece provar que deparamos, aqui, com importante lei da história: um novo ritual, criado como vitória sobre um aspecto negativo da vida, consiste nos atos e gestos, sons e palavras pelos quais o aparecimento da ordem a partir do caos, da forma a partir da confusão, pode ser revivido todas as vezes que se executa o ritual. A situação negativa anterior torna-se parte do ritual, para que a solução positiva que se segue não fique incompreensível. Rituais cuja pré-história, cuja “irritação” deixa de ser compreensível não nos tocam. A reverência pelo poder humano de falar depende do nosso medo de submergir no estado animal. Em nosso meio, as mulheres podem manipular o discurso tanto quanto os homens. Mas no início de nossa era, e, como eu disse, fora do vital desabrochar cristão, esse não era e não é o caso. Nesses estratos, a espécie humana ainda está ocupada em representar o processo que vai do grito à fala, executando os procedimentos pelos quais essa emergência é alcançada.

O espírito procede, por um lado, na interação entre mulheres e crianças e, por outro, na interação dos homens. Esse é o significado do termo “processo do espírito”. A mente moderna não tem muito uso para esse termo criativo — ela poderia falar de “emergência desde o caos”. No entanto, a palavra “emergência” vai parar longe do ponto central do ritual. Emergimos da água, de um choque, de um feitiço, mas os elementos de que emergimos são deixados para trás. A emergência é um processo natural, e na natureza o indivíduo e o meio ambiente são vistos como entidades separadas. No ritual prevalece a atitude oposta: os gritos são transubstanciados, e a fala procede das origens mesmas: dos sons que compunham os gritos. Por milhares de anos, quando se cometia um assassínio, exigiu-se que os parentes do morto levassem o corpo ante os juizes. Na corte, a queixa era feita tanto pela lamentação das mulheres como pelas acusações verbais do parente mais próximo.

Esse dualismo tornou transparente o ‘concentus’ entre nossa natureza animal e nossa história formal. O homem primeiro gritou e depois falou, porque falar era o primeiro passo para longe do grito. Choros e gritos eram inseridos na cerimônia como medida da linguagem articulada. Tal interação na religião entre grito e nome, entre mulher e homem, representou a reconciliação entre nossa natureza animal e nossa natureza intelectual. Quando Paulo pediu que as mulheres fizessem silêncio na igreja, ele o fez num tempo em que era normal e esperado que as mulheres — as judias como as gentias — emitissem uivos e gritos terríveis, fossem sibilas e bacantes, chorassem passionalmente em cada funeral. Os modernos detratores de Paulo geralmente não têm a menor ideia do que estão atacando. Paulo tornou a linguagem formal acessível às mulheres, libertando-as do fardo do ritual pré-cristão em que derramavam cinzas sobre a cabeça, perfuravam os seios e emitiam longos e profundos gemidos durante muitos dias. Paulo estava diante de pessoas passionais que gaguejavam e tinham ataques ante a recente concessão de liberdade, pessoas que tinham sido obcecadas por espíritos e demônios de seu clã ou família.

A ‘taceat mulier’ [“Que a mulher se cale”] de Paulo lançou os fundamentos de uma nova verdade: de agora em diante, as mulheres poderiam participar da palavra, tanto quanto os homens. E sua ordem foi bem-sucedida. Já não receamos ouvir gritos histéricos na igreja. Nas reuniões religiosas, as mulheres comportam-se tão respeitosamente como os homens. E agora, as mulheres desprezam o reacionarismo de Paulo. Que elas se perguntem a si mesmas se, depois de Hitler, podem negar a existência da natureza animal do homem. Será impossível regredir à histeria? Será incompreensível um ritual que é oficiado pelo espírito e em que nós mesmos nos lamentamos de ter matado o filho de Deus? Se a “histeria” e a natureza animal tivessem desaparecido de todo, já não precisaríamos de ritual. Quando já não nascer nenhuma criança e a última geração viver para sempre, poderemos deixar de lado o ritual. O ritual insiste em que todas as nossas conquistas na história se fazem com base nos fundamentos elementares de nossa origem animal. Na história, portanto, não perdura nada que não seja incessantemente restabelecido. As línguas não “nascem”. O homem tem de aprender a falar, assim como tem de aprender a escrever. A fala da criança e a escrita do aluno não são senão pequenos fragmentos dos poderes conferidos ao homem pelo ritual tribal.

O ritual tribal comunicava religião, lei, escrita e fala. O ritual criou o tempo — como passado e futuro —, o poder — como liberdade e sucessão —, a ordem — como título e nome —, a expectativa — como cerimônia e vestuário —, a tradição — como canto fúnebre e mito do herói. O ritual ligou o homem ao tempo, e isso é expresso pelo termo “religião”. Dedicaremos uma seção especial à tragédia de tais “ligações”. Com efeito, as forças “ligantes” da religião tribal tornaram-se cruéis grilhões. Certamente não estou cego a essa crueldade. O melhor é sempre o berço da mais terrível corrupção. Mas, em primeiro lugar, a tribo deve ser avaliada positivamente, em sua grandeza, isto é, a grandeza de que, afinal, tenhamos aprendido a falar. Os evolucionistas não podem fazer justiça a essa grandeza, já que dão a linguagem por pressuposta. Quem vê emudecer todos os estratos da vida e tudo recair na estupidez ou na guerra civil, admira a realização graças à qual somos capazes de falar. É claro que o perpétuo pro-cessus por que os sons animais se podem transubstanciar em linguagem não foi nem é possível senão quando a alma inteira do homem, macho e fêmea, entra no pro-cessus. Não é importante senão aquilo para que tanto os homens como as mulheres contribuem.

Mas é exatamente esse o caráter do ritual. Ele baseia-se no choque de duas naturezas, a feminina e a masculina, e sobre essa base institui uma ordem que busca perpetuar-se. O ritual representa, incessantemente, a primeira vitória sobre a mudez. O ritual criou uma ordem duradoura, que ultrapassa em muito o momento.

À medida que percebemos a relação entre as horas sagradas do ritual e o longo futuro, podemos compreender outro aspecto da linguagem até agora incompreensível. Invariavelmente, as pessoas pensam que alguém um dia começou a chamar à cabeça “cabeça”, à mão “mão”, e que depois a palavra entrou no dicionário, e passou a ser usada por todos, e todos foram felizes para sempre. O oposto é o verdadeiro. Antes de nossa era, nenhuma palavra entrava em dicionário se não fosse usada em ritual. Então nenhuma palavra era palavra se não tivesse sido dita primeiramente como nome sagrado. Miosótis não eram “miosótis”, juncos não eram “juncos”, carvalhos não eram “carvalhos”, antes de o chefe ou o pajé se dirigirem a eles em ritual público e os convidarem a participar. As pessoas falavam com flores e animais, com fogo e água, com árvores e pedras num ritual, antes que qualquer um falasse deles. Assim, quando alguém falava com eles pela primeira vez em língua humana, recebiam nomes plenos e não palavras vazias.

Os filhotes e sua mãe podem apontar uma noz ou um graveto, podem gritar de alegria brincando com isto ou aquilo, lá e cá. Procuram, aqui e acolá, alimento, brinquedos e armas. Mas nenhum nome resulta de toda essa vida momentânea. O ritual é necessário para criar uma linguagem que atravesse cinquenta ou cento e cinquenta gerações. Essa linguagem é essencial para o ritual. O ritual está para o tempo assim como uma hora ou um dia estão para todo o passado, que o ritual revela com seus nomes, e para todo o futuro, que o ritual vela com seu vestuário cerimonial. O ritual era o mais demorado possível, porque ele encena o “para sempre e sempre”. O ritual cria, presumivelmente, uma ordem duradoura, que vai muito além do momento. A tarefa de formar uma taça de tempo de promessa e cumprimento parecia estupenda. A tribo podia celebrar durante três dias ou uma semana. Mas permanecia o fato de que as reuniões teriam de se dispersar mais cedo ou mais tarde; as pessoas precisavam voltar para casa. O ritual precisava compensar essa perda de continuidade e de presença física. A linguagem e o vestuário tornaram-se, então, os representantes do ritual para o tempo em que a tribo não estivesse reunida. A deficiência do ritual é que, comparados aos espaços de tempo que tenta abarcar, seus próprios procedimentos nunca são suficientemente longos. Em consequência, o ritual teve de criar representações duradouras. E foi tão bem-sucedido nisso, que ainda falamos línguas de seiscentos anos atrás. As línguas são imortais porque tinham por alvo a imortalidade!
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Trecho de “A Origem da Linguagem”, de Eugen Rosenstock-Huessy.

O casal de náufragos

Shipwrecked Couple

J.R.R. Tolkien tem razão: neste mundo decaído, um homem e uma mulher devem amar-se, não como se fossem a “estrela guia” um do outro — porque afinal são ambos humanos, demasiado humanos —, mas, sim, como se fossem dois náufragos agarrados à mesma tábua numa noite escura.
Deus é que é a “estrela guia”. E sobreviver espiritualmente a esse naufrágio terrestre há de ser muito romântico… (Isso talvez explique o sucesso sem fronteiras do filme “Titanic”…)

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Imagem: O casal de náufragos, de Bohuslav Barlow.

Parafraseando Martin Niemöller

Quando tomaram toda aquela terra, eu calei-me, porque, afinal, eu não possuía terras. Quando eles descuraram a segurança, eu calei-me, porque, afinal, nenhum dos meus familiares sofreu latrocínio. Quando eles transformaram a educação superior em catequese progressista, eu não me importei, porque, afinal, eu já havia me formado e a universidade já não significava nada para mim. Quando eles desapropriaram imóveis nas cidades, eu não protestei, porque, afinal, eu não possuía imóveis. Quando contrataram médicos cubanos especialistas em doutrinação socialista, eu não protestei, porque, afinal, eu não era médico e o socialismo já era coisa do passado. Quando fizeram uma lista negra com jornalistas de oposição, todos conservadores, eu não reclamei, porque, afinal, eu não era jornalista e muito menos conservador. Quando roubaram dinheiro da Petrobrás, não me incomodei, porque, afinal, eu não possuía ações da Petrobrás. Quando indicaram juízes para o STF escolhidos por razões ideológicas, e não por mérito, calei-me, porque, afinal, nunca tive problemas com a justiça. Quando liberaram o uso de drogas apenas para financiar as atividades das FARC, eu não me escandalizei, porque, afinal, não uso drogas e a Colômbia fica longe daqui. Quando demitiram meus colegas cuja visão política era de direita, eu não me comovi, porque, afinal, eu não era de direita. Quando proibiram as orações em ambiente de trabalho, e os crucifixos nas paredes dos escritórios, eu não me chateei, porque, afinal, nunca fui religioso. Quando aumentaram os impostos para 60% do PIB, não me indignei, porque, afinal, não trabalho no setor privado — muito pelo contrário: sou funcionário público, ganho bem, tenho estabilidade, e uma maior arrecadação poderia significar mais aumentos no meu salário. Quando o país finalmente quebrou e eles resolveram colocar todos os idiotas na rua, além de mandar os idiotas que reclamaram para trás das grades, eu me fodi, porque, afinal, quem não era idiota já havia deixado o país e não sobrara mais ninguém para protestar…

Yuri Vieira

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« Em grego, idios quer dizer “o mesmo”. Idiotes, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.»

Olavo de Carvalho

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Para conhecer Martin Niemöller, clique aqui.

Clarice Lispector: “Eu sei que Deus existe”

clarice lispector

« Macabéa [A hora da estrela], que, a exemplo de Clarice [Lispector], medita sobre o nada e “banha-se no não”, é uma espécie de santa: “Na pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou”. Macabéa “reduzira-se a si. Também eu”, escreve Clarice, “de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus”.

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?”

« A pergunta torturante persiste. “Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia”, Clarice escreveu sobre Macabéa. Mas finalmente ela própria sabia quem Ele era. Quando o livro saiu, em outubro de 1977, ela mandou um exemplar a Alceu Amoroso Lima, o mesmo escritor católico que, com o pseudônimo Tristão de Athayde, fizera um ensaio introdutório para a primeira edição de ‘O lustre’. Naquele livro, ele escrevera, 31 anos antes, “há a mais completa ausência de Deus”. Agora ele recebia um exemplar de ‘A hora da estrela’ com uma inscrição na caligrafia trêmula de Clarice: “Eu sei que Deus existe”. [Clarice morreu dois meses depois]»

Trecho da biografia Clarice, escrita por Benjamin Moser.

G.K. Chesterton fala sobre o verdadeiro prazer de beber

Pieter Breughel, Detail from "The Wine of St. Martin's Day," ca.

Omar e a vinha sagrada

UMA NOVA MORALIDADE veio ao nosso encontro com certa violência e se relaciona ao problema da bebida alcoólica. Os entusiastas do assunto variam desde o homem que é posto para fora dos pubs ingleses às 00h30 até a dama que ataca os balcões dos bares com um machado. Em tais discussões, quase sempre sentimos que uma postura moderada e bastante sábia é dizer que o vinho, ou coisas do tipo, devem ser ingeridos como remédio. Atrevo-me a discordar disso com particular veemência. A forma genuinamente perigosa e imoral de tomar vinho é tomá-lo como remédio. E por esta razão: se alguém bebe vinho por prazer, está tentando obter algo excepcional, algo que não espera a qualquer hora do dia, algo que, a menos que seja um tanto louco, não tentará obter a qualquer hora do dia. Mas se alguém bebe vinho para ter saúde, está tentando obter algo natural; ou seja, algo sem o que não consegue viver; algo sem o que dificilmente passará sem consumir. Pode ser que aquele que não tenha visto o êxtase de ficar extático não fique seduzido; é mais fascinante vislumbrar o êxtase de estar normal. Se houvesse um ungüento mágico, e o mostrássemos a um homem forte e lhe disséssemos: “Isto te permitirá saltar do Monumento”,145 sem dúvida saltaria, mas não ficaria saltando durante o dia todo para alegrar o centro da cidade. Mas se mostrássemos o ungüento a um cego e lhe disséssemos, “Isto te permitirá recobrar a visão”, essa pessoa ficaria fortemente tentada. Ser-lhe-ia difícil não esfregá-lo nos olhos quando ouvisse o galopar de um nobre cavalo ou o cantar de pássaros ao alvorecer. É fácil não permitir que alguém tenha prazeres; difícil é negar a aquisição da normalidade. Por isso, e todos os médicos sabem, é sempre perigoso dar bebida alcoólica aos doentes mesmo quando precisam. Inútil dizer que não considero que dar bebida alcoólica como estimulante a um doente seja necessariamente injustificado. Mas considero o dar bebidas alcoólicas a pessoas saudáveis como divertimento um uso apropriado e muito mais coerente com a saúde.

A regra sadia nessa questão parece ser a mesma de muitas outras regras saudáveis – um paradoxo. Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a antiga fonte de saúde do mundo.

Por mais de trinta anos o vulto e a glória de uma grande figura oriental têm sido impostos à literatura inglesa. A tradução de Fitzgerald dos Rubáiyát de Omar Khayyām146 concentrou, com imorredoura comoção, todo o sombrio e desnorteado hedonismo de nossa época. Seria simplesmente inútil falar do esplendor literário da obra; poucos são os livros dos homens que conseguiram combinar tão bem a alegre combatividade de um epigrama com a vaga tristeza de uma canção. Mas, sobre a influência filosófica, ética e religiosa, que é tão grande quanto o esplendor, gostaria de dar uma palavra, e tal palavra, confesso, é de uma hostilidade intransigente. Há muitas coisas que podem ser ditas contra o espírito do Rubáiyát, e contra sua enorme influência. Mas uma acusação se destaca das demais de forma nefasta – uma verdadeira desgraça para a obra, uma calamidade genuína para todos. Tal acusação seria o golpe terrível que o grande poema desferiu na sociabilidade e na alegria da vida. Alguém já chamou Omar de “o vetusto persa jubilosamente triste”.147 Triste é; mas não jubiloso, em nenhum dos sentidos da palavra. Tem sido um inimigo da alegria pior que os puritanos.

Um oriental pensativo e elegante repousa debaixo de uma roseira, com uma garrafa de vinho e seu rolo de poemas. Pode parecer estranho que nossos pensamentos, no momento em que visualizamos tal cena, se voltem à sombria cabeceira do leito em que o médico oferece ao doente um cálice de brandy. Pode parecer ainda mais estranho que tal pensamento possa se voltar para o trêmulo vagabundo com um copo de gim em Houndsditch.148 Contudo, uma grande unidade filosófica envolve os três elementos num elo maligno. O beberricar vinho de Omar Khayyām é mau, não porque seja um sorvo de vinho. É ruim, e muito nocivo, porque é um beber medicinal. É o beber de um homem que bebe porque não é feliz. Seu vinho é o que o exclui do universo, não aquilo que lho revela. Não é um beber poético, alegre e instintivo; é um beber racional, tão prosaico quanto um investimento, tão insípido quanto um cálice de camomila. Infinitamente superior, do ponto de vista do sentimento, embora não do estilo, surge o esplendor de uma antiga canção boêmia inglesa:

Then pass the bowl, my comrades all,
And let the zider vlow.149

Pois esta canção era entoada por homens felizes, para expressar o valor das coisas verdadeiramente valorosas, da irmandade e loquacidade, e do breve e cordial lazer do pobre. É claro que a maior parte das acusações mais disparatadas dirigidas à moralidade omariana são tão falsas e pueris quanto geralmente são tais acusações. Um crítico, cuja obra já li, teve a incrível insensatez de considerar Omar ateu e materialista.150 É quase impossível para um oriental ser uma coisa ou outra. O oriente conhece metafísica muito bem para que isso aconteça. A verdadeira objeção filosófica que um cristão poderia apresentar à religião de Omar não é, por certo, a de não conceder um lugar para Deus, mas sim a de lhe dar espaço demais. É de um teísmo terrível que não consegue imaginar nada exceto a divindade, e nega completamente os elementos da personalidade e da vontade humana.

A bola não questiona “sim” ou “não”,
Mas vai aqui e ali, conforme bate o jogador;
E ele, que a lançou neste campo,
Ele tudo sabe – ele sabe – ele sabe!151

Um pensador cristão como Agostinho ou Dante se oporia a isso porque ignora o livre-arbítrio, que é o valor e a dignidade da alma. A contenda da alta cristandade com esse tipo de ceticismo, no mínimo, não é porque o ceticismo nega a existência de Deus; é porque nega a existência do homem.

No culto dos que buscam o prazer pessimista, o Rubáiyát tem lugar de destaque em nossa época; mas não está sozinho. Muitas das inteligências mais brilhantes de hoje têm nos incitado a semelhante desfrutar súbito de prazeres excepcionais. Walter Pater152 disse que estamos todos sob sentença de morte, e o único curso possível é o desfrutar de deliciosos momentos por amor aos próprios momentos. Semelhante lição foi ensinada pela poderosa e infeliz filosofia de Oscar Wilde. É a religião do carpe diem.153 No entanto, a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas a das absolutamente infelizes. A grande alegria não colhe o botão de rosas quando pode;154 seus olhos estão fixos na rosa imortal vista por Dante.155 A grande alegria traz em si o sentido da imortalidade; o próprio esplendor da juventude é a sensação de que há muito espaço para esticar as pernas. Em toda a grande literatura cômica, em Tristram Shandy156 ou Pickwick,157 há um senso de espaço e incorruptibilidade; sentimos que as personagens são seres imortais numa lenda interminável.

É bem verdade, claro, que uma felicidade pungente surge, sobretudo, em alguns momentos fugazes; mas não é verdade que deveríamos pensá-los como passageiros, ou desfrutá-los simplesmente “por amor aos próprios momentos”. Fazer isso é racionalizar a felicidade e, portanto, destruí-la. A felicidade é um mistério, como a religião, e nunca deve ser racionalizada. Suponhamos que um homem experimente um esplêndido momento de prazer. Não quero dizer algo com um verniz de felicidade; falo de algo como uma violenta felicidade interior – uma felicidade quase dolorida. Alguém pode ter, por exemplo, um momento de êxtase no primeiro amor, ou um momento de vitória numa batalha. O amante desfruta o momento, mas não por causa do momento. Ele o desfruta pela mulher, ou para o próprio bem. O guerreiro desfruta o momento, mas não pelo momento; desfruta-o por causa da bandeira. A causa que a bandeira representa pode ser tola e passageira; o amor pode ser apenas um arrebatamento juvenil, e durar uma semana. Mas o patriota acredita na bandeira como eterna. O amante vê seu amor como algo que não pode terminar. Esses momentos são repletos de eternidade; esses momentos são jubilosos porque não parecem transitórios. Uma vez que os olhemos como momentos à maneira de Pater, se tornam tão frios quanto Pater e seu estilo. Os homens não podem amar coisas mortais. Só conseguem, por um instante, amar as coisas imortais.

O erro de Pater é revelado em sua expressão mais famosa. Ele nos convida a “arder com o inflexível fulgor de uma pedra preciosa”.158 O brilho nunca é rijo e nunca se parece com uma jóia – não pode ser manuseado ou organizado. Do mesmo modo, as emoções humanas nunca são inflexíveis e nunca se parecem com jóias. São sempre perigosas, assim como o brilho das chamas, ao toque ou mesmo à averiguação. Há somente um modo pelo qual as paixões podem ser rijas e se assemelharem às pedras preciosas: tornarmo-nos frios como os diamantes. Até então, nenhum golpe aos amores e às gargalhadas espontâneas dos homens foi tão esterilizante quanto esse carpe diem dos estetas. Para qualquer tipo de prazer, é preciso um espírito totalmente diferente; certa timidez, certa esperança vaga, certa expectativa infantil. Pureza e simplicidade são essenciais às paixões – sim, mesmo às vis paixões. Até o vício exige uma espécie de virgindade.

O efeito de Omar (ou de Fitzgerald) sobre o outro mundo pode ser afastado, mas sua mão sobre este mundo tem sido pesada e paralisante. Os puritanos, como disse, são muito mais alegres. Os novos ascetas que seguiram Thoreau159 ou Tolstói160 são companhias mais cheias de vida; pois, embora o abandono à bebedeira e aos semelhantes luxos nos possa parecer uma negação inútil, ele pode legar ao homem inumeráveis prazeres naturais, e, acima de tudo, submetê-lo ao poder natural da felicidade. Thoreau podia apreciar o nascer do sol sem uma xícara de café. Se Tolstói não podia admirar o casamento, ao menos era bastante saudável para admirar a lama. A natureza pode ser apreciada mesmo sem a maioria dos confortos naturais. Um belo bosque não necessita de vinho. No entanto, nem a natureza nem o vinho, nem nada mais, pode ser apreciado se assumirmos uma postura errada em relação à felicidade, e Omar (ou Fitzgerald) tinha uma postura errada em relação à felicidade. Ele e aqueles a quem vem influenciando não percebem que se pretendemos ser verdadeiramente felizes, devemos acreditar que há uma felicidade eterna na natureza das coisas. Não conseguimos apreciar plenamente nem mesmo um pas-de-quatre161 num baile público a menos que acreditemos que as estrelas estejam dançando a mesma música. Ninguém pode ser realmente hilário senão o homem sério. “O vinho”, diz a Escritura, “alegra o coração do homem”,162 mas somente do homem que tem coração. O chamado espírito elevado163 é possível somente ao homem espiritual. No fim das contas, um homem não pode se alegrar com nada, a não ser com a natureza das coisas. No fim das contas, um homem não pode se alegrar com nada, a não ser com a religião.

Outrora, na história do mundo, os homens realmente acreditaram que as estrelas dançavam ao som da música dos templos, e dançaram como nunca se dançara desde então. A respeito desse antigo eudaimonismo164 pagão, o sábio do Rubáiyát tem tão pouca relação quanto a tem com um cristão de qualquer denominação. Não é um adorador de Baco nem um santo. A igreja de Dionísio era fundada num sério joie-de-vivre como a de Walt Whitman.165 Dionísio fez do vinho não um remédio, mas um sacramento. Jesus Cristo também fez do vinho não um remédio, mas um sacramento. Mas Omar o fez não um sacramento, mas um remédio. Festeja não porque a vida é prazerosa; diverte-se porque não está feliz. Diz: “Bebei, pois não sabeis de onde vindes nem por quê. Bebei, pois não sabeis quando nem aonde ireis”.166 Bebei, porque as estrelas são cruéis e o mundo é tão sem propósito quanto um pião. Bebei, porque não há nada em que valha a pena crer, nada por que lutar. Bebei, porque todas as coisas se passam numa regularidade ignóbil e numa paz nociva. Dessa maneira, o poeta nos oferece a taça que está em suas mãos. E no altar-mor da cristandade se encontra outra personagem, em cujas mãos também há um cálice de vinho. Ele diz: “Bebei, pois todo o mundo é tão vermelho quanto o vinho, tão carmesim quanto o amor e a ira de Deus. Bebei, pois já soam as trombetas da batalha e esta é a taça transbordante. Bebei, pois este é o meu sangue, o sangue da nova aliança que é derramado por vós. Bebei, pois Eu sei de onde vindes e por quê. Bebei, pois Eu sei aonde ireis e quando”.
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FONTE:  Hereges (Cap. VII), de G.K. Chesterton. Ed. Ecclesiae. Tradução:  Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito.

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NOTAS:

145 Referência ao monumento ao grande incêndio de Londres, construída por Sir Christopher Wren (1632–1723) entre 1671 e 1677. O monumento, erigido próximo ao local onde iniciou o grande incêndio de Londres em 1666, é uma coluna de pedra em estilo dórico e tem cerca de 60 metros de altura.
146 Edward Fitzgerald (1809–1883) publicou, em 1859, a versão poética traduzida para o inglês da obra Rubáiyát do poeta iraniano Omar Khayyām (1048–1131) e tal trabalho se tornou imensamente popular, embora a obra guarde pouca relação com o texto original.
147 Chesterton, sem dar crédito, cita o livre-pensador secularista e editor George William Foote (1850–1915), anteriormente mencionado no capítulo II, que se refere ao autor persa como “the sad-glad old persian” no ensaio “Rose-water Religion” de 1894.
148 Rua de Londres que seguia o mesmo trajeto do antigo fosso romano, construído fora dos muros de Londres. No século XIX era o local onde se aglomeravam miseráveis e bêbados.
149 Algo como: “Então passem a taça, camaradas, / E deixem a sidra rolar”. A graça está no último verso, que reproduz a fala de bêbado: “and let the zider vlow” ao invés de “and let the cider flow”.
150 Provável referência à obra de John M. Robertson (1859–1933), jornalista inglês, defensor do racionalismo e do secularismo. Foi membro do parlamento pelo Partido Liberal e discípulo de Charles Bradlaugh (1833–1891). Em A Short History of Freethought Ancient and Modern, cujo primeiro volume apareceu em 1899, há um capítulo “Freethought under Islam” onde o autor se refere ao persa nesses termos.
151 A presente estrofe é uma tradução literal (e livre) da quadra LXX de Fitzgerald que diz: “The Ball no Question makes of Ayes and Noes, / But Right or Left as strikes the Player goes; / And He that toss’d Thee down into the Field, / He knows about it all–HE knows–HE knows!”. Atualmente, vários estudiosos já contestaram a seriedade desta tradução, dentre eles, Jorge Luis Borges (1899–1986) que, num ensaio chamado “O enigma de Edward Fitzgerald”, atribuiu ao inglês a “invenção” dos Rubáiyát. A presente estrofe, se confrontada com várias traduções para o português da mesma obra, parece não corresponder a nenhuma passagem. Se fizermos uma tradução mais literal do poema diretamente do persa o trecho ficaria da seguinte forma: “No jogo cósmico de polo és a bola / À direita e à esquerda do bastão fica a tua vocação / É ele quem te move, levanta ou faz cair / Ele é aquele, o único, que tudo sabe”.
152 Walter Horatio Pater (1839–1894) foi um ensaísta, crítico de arte e escritor de ficção inglês. Neste e nos parágrafos seguintes, Chesterton está fazendo referência à famosa conclusão de Pater na obra Studies in the History of Renaissance de 1873, chamado a partir da segunda edição de The Renaissance: Studies in Art and Poetry. Sobre o lema e filosofia de Pater, ver capítulo XVII.
153 Expressão tirada de um verso do poeta Horácio (65 a.C.–8 a.C.) em Odes, Livro I, 11, 8 que diz: “Carpe diem quam minimum credula postero” [Colhe o instante, sem confiar no amanhã]. Interpretada como “aproveite o momento” ou “desfrute o dia”.
154 Referência aos versos de abertura do poema “To the Virgins, to Make Much of Time” de Robert Herrick (1591–1674): “Gather ye rosebuds while ye may / Old Time is still a-flying; / And this same flower that smiles today, / Tomorrow will be dying”.
155 Referência à visão que o poeta tem da rosa mística ao centro da rosa dos beatos como luz, fulgurante, no Empíreo. Ver canto XXX e XXXI do “Paraíso” na Divina Comédia de Dante Alighieri (1265–1321).
156 Referência ao romance The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman de Laurence Sterne (1713–1768), fortemente influenciado por François Rabelais (1494–1553) e Miguel de Cervantes (1547–1616). A obra compreende nove volumes e influenciou muitos escritores modernistas como Virginia Woolf (1882–1941) e James Joyce (1882–1941).
157 Referência ao romance de Charles Dickens (1812–1870), The Pickwick Papers, lançado em formato de folhetim de 1836 a 1837, em que o autor faz várias críticas à sociedade vitoriana.
158 A expressão aparece na conclusão da já citada obra de Walter Pater sobre a Renascença.
159 Henry David Thoreau (1812–1862) foi um poeta, historiador e filósofo norte-americano, cuja tese da desobediência civil influenciou o pensamento político de muitos filósofos e ativistas como seu contemporâneo russo, Liev Tolstói, e posteriormente, Gandhi (1869–1948) e Martin Luther King, Jr. (1929–1968). Também defendia a volta à natureza, o abandono do desperdício e da ilusão para descobrir as necessidades essenciais da vida.
160 Liev Nikoláievich Tolstói (1828–1910) foi um dos grandes escritores russos. No fim da vida se tornou um pacifista e pregou uma vida simples em contato com a natureza. Chesterton discorrerá sobre o autor, neste livro, no capítulo X.
161 Um divertissement de balé com quatro bailarinos, cuja primeira coreografia ocorreu em 1845, em Londres, e alcançou enorme sucesso.
162 Sl 103, 15.
163 Há, nesta passagem, um duplo sentido intraduzível, pois o termo spirits, além de indicar disposição, temperamento, vigor ou vivacidade, em inglês pode significar bebida alcoólica.
164 Doutrina segundo a qual a felicidade é o valor supremo, critério último da razão e objetivo da vida humana.
165 Walt Whitman (1819–1892) foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano, considerado “o pai do verso livre”. Embora fosse defensor de um estilo de vida “vagabundo”, propunha a abstinência alcoólica. Em termos de religião era bastante cético em relação às igrejas; politicamente, propunha uma visão igualitária das raças. Na principal obra, Leaves of Grass, de 1855, podem ser vistos traços de homossexualismo, fato que escandalizou seus contemporâneos.
166 Quadra LXXIV da tradução de Fitzgerald. Em inglês: “Drink, for you know not whence you come nor why. / Drink, for you know not when you go nor where”.

O Pecado Favorito

O advogado do diabo

— Você já assistiu ao filme “O Advogado do Diabo”?

— Aquele com o Al Pacino?

— Esse mesmo.

— Já vi. Por quê?

— Lembra qual a declaração final do Diabo?

— Claro: “A vaidade é definitivamente o meu pecado favorito”.

— Pois é, acho que o pecado favorito do demônio que me atormenta é a luxúria.

— Ah, é bem mais fácil de lidar com esse. Sabe como se faz?

— Não.

— É só dar um chute no saco do demônio.

— Ah, tá certo, me ajudou muito.

— Sério. Posso fazer isso agora mesmo se você quiser.

— Beleza, manda.

E o amigo lhe dá um forte chute no saco, fazendo-o desabar ao chão. Enquanto rola de tanta dor, as mãos segurando os testículos, murmura entre gemidos:

— Seu filho da puta, que brincadeira idiota!

— Mas não foi brincadeira: qual saco você acha que o demônio da luxúria usa?

— Run, Forrest, run!

O amigo sai correndo pela coxia enquanto o outro, gemelhicando, rasteja vagarosamente em seu encalço para fora do palco. Cai o pano. Ninguém ri, ninguém aplaude, afinal, para o público de hoje já não existem demônios, pecados e, sobretudo, colhões — não houve a mais mínima identificação, não entenderam nada.

Fim.

Mário Ferreira dos Santos: Deus e o índio do Mackenzie

Reproduzimos a seguir as palavras de Grouard, citadas por Foulquié, expressivas e de grandes sugestões. Pertencem ao livro “Souvenirs de mes soixant ans d’apostolat”:

« Um índio de Mackenzie disse-me um dia:

— Padre, antes de te ter visto, eu sabia que Deus existe.

— Como o sabias? Creio que fui o primeiro a te falar de Deus.

— Na verdade — retrucou — antes de ti, ninguém me havia falado nele, e contudo, eu sabia que há um Deus.

Um dia, quando tinha catorze ou quinze anos, fui à caça com o meu arco e minhas flechas. Conhecia os bosques, os rios, os lagos por onde havia passado, buscando matar alguma caça. Nesse dia, no verão, cheguei à borda de um lago cercado de belas árvores. Patos desciam sobre a água, o sol brilhava no céu sem nuvens; lá longe, montanhas elevavam-se, em variadas alturas. Detendo-me, contemplei tudo isso com um imenso prazer. Subitamente, a idéia me veio: “Quem fez tudo isso? Não fomos nós, nem tampouco os ingleses, pois são homens semelhantes a nós. É preciso que haja alguém mais forte que todos os homens que tenha feito isso”. Vês — acrescentou o índio — eu sabia que essas florestas, esses lagos, esse sol, não haviam sido feitos por si sós. Eu não podia explicar-me mais corretamente. Mas, quando tu nos ensinaste: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”, eu compreendi logo e disse a mim mesmo: “Ei-lo; eu sabia que ele existia”.»

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Trecho de “O Homem Perante o Infinito (Teologia)”, de Mário Ferreira dos Santos.

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