palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Mês: novembro 2010

Dostoiévski: Crime e Castigo… e Redenção!

Fiódor Dostoiévski

« Tornou a fazer um dia morno e claro. Na manhã seguinte, às seis, ele encaminhou-se para o trabalho, na margem do rio, onde, debaixo dum telheiro, estava instalado o forno para o calcário, ao qual o tinham destinado. Enviaram para ali, ao todo, três operários. Um dos presos foi com a sentinela ao forte, buscar uma ferramenta; outro pôs-se a preparar a lenha para aquecer o forno. Raskólhnikov saiu do telheiro e dirigiu-se para a margem, sentou-se numa viga estendida ao longo do muro e ficou olhando o rio longo e deserto. Da margem elevada descobria-se um vasto espaço. Da outra margem longínqua mal chegava o eco duma canção. Ali, na estepe infindável, banhada pelo sol, apareciam pontos negros quase imperceptíveis, as tendas dos nômades. Para além havia liberdade e viviam outras pessoas, completamente diferentes das de aquém; ali era como se o tempo tivesse parado e não tivesse passado o século de Abraão e dos seus rebanhos. Raskólhnikov permanecia sentado e olhava fixamente, sem desviar os olhos; o seu pensamento transformou-se num desvario, numa contemplação; não pensava em nada, mas uma certa tristeza o comovia e afligia.

« De repente, Sônia apareceu junto dele. Aproximou-se com um passo quase imperceptível e sentou-se ao seu lado. Ainda era muito cedo; corria ainda a frescura matinal. Ela trazia uma pobre e velha capa e um lencinho verde. O seu rosto mostrava ainda sinais da doença, emagrecera, estava pálida, de feições vincadas. Sorriu-lhe afetuosa e alegremente, mas, conforme era seu costume, estendeu-lhe timidamente a mão. Estendialhe sempre a mão com timidez, às vezes nem chegava quase a dar-lha completamente, como se receasse um insucesso. Ele lhe aceitava sempre a mão como se o fizesse de má vontade, parecia sempre acolhê-la com contrariedade, às vezes conservava um silêncio obstinado durante todo o tempo da sua visita. E então ela tremia diante dele e partia profundamente entristecida. Mas, agora, as suas mãos não se soltaram; ele lhe lançou um olhar rápido; não disse nada e baixou os olhos. Estavam sós; ninguém os via. A sentinela tinha-se afastado naquele momento.

« Como aquilo foi, nem eles próprios o sabiam; mas, de repente, houve qualquer coisa que pareceu apoderar-se dele e fez com que ele se deitasse aos pés dela. Chorava e abraçava os seus joelhos. No primeiro momento ela ficou muito assustada e o seu rosto tornou-se parecido com o de uma morta. Saltou do seu lugar e, toda a tremer, ficou olhando para ele. Mas compreendeu tudo, imediatamente, naquele mesmo instante. Nos seus olhos brilhou uma infinita felicidade; compreendia, e para ela já não havia dúvida de que ele a amava, a amava infinitamente, e que chegara finalmente o momento.

« Quiseram falar, mas não lhes foi possível. Havia lágrimas nos seus olhos. Estavam ambos pálidos e abatidos; mas naqueles rostos doentios e pálidos brilhava já a aurora de um renovado futuro, de uma plena ressurreição para uma nova vida. O amor ressuscitava-os, o coração de um encerrava infinitas fontes de vida para o coração do outro. Resolveram esperar e ter paciência. A ele, ainda lhe faltavam sete anos; e, até então, quantos sofrimentos insuportáveis e quanta felicidade infinita! Ele ressuscitara e sabia-o, sentia-o em todo o seu ser renovado, e ela… ela vivia unicamente da vida dele! Na noite desse mesmo dia, quando já tinham fechado os alojamentos, Raskólhnikov estava deitado nas esteiras e pensava nela. Nesse dia até se lhe afigurava que todos os presos, que antes tinham sido seus inimigos, o olhavam já com outros olhos. Até falava com eles e lhes respondia afetuosamente. Agora recordava-o, mas não teria de ser assim: não deveria talvez, agora, mudar tudo? Pensava nela. Lembrava-se de como a mortificara continuamente, destroçando-lhe o coração; recordava o seu rostozinho pálido, mas, agora, essas recordações quase não o afligiam; sabia com que infinito amor ia recompensar agora as suas dores. E que eram agora todos, todos aqueles sofrimentos do passado? Tudo, até o seu crime, até a sua condenação e deportação lhe pareciam agora, nesta primeira exaltação, um fato exterior, alheio, como se não tivesse relações com ele. Aliás, nessa noite não podia pensar longa e fixamente em nada, concentrar o pensamento em qualquer coisa; tampouco poderia resolver, então, conscientemente, o que quer que fosse; a única coisa que fazia era sentir. Em vez da dialética surgia a vida, e já na sua consciência devia elaborar-se algo de totalmente distinto.

« Tinha o Evangelho debaixo da almofada. Pegou-o maquinalmente. Aquele livro era dela, pois era o mesmo em que ela lera a passagem da Ressurreição de Lázaro. Nos primeiros tempos do presídio pensava que ela havia de importuná-lo com a religião e que se poria a falar do Evangelho e a aborrecê-lo com o livreco. Mas, com o maior assombro da sua parte, nem uma só vez ela lhe falou nisso, nem uma vez sequer lhe tinha proposto o Evangelho. Fora ele quem lho pedira, um pouco antes de ter adoecido, e ela levou-lho em silêncio. Até então ele nem sequer o abrira. Agora também não o abriu, mas ocorreu-lhe um pensamento: "Poderia, por agora, a sua crença, não ser a minha também? Pelo menos os seus sentimentos, as suas aspirações…" Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura…

« Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa… mas a nossa presente narrativa termina aqui.»

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Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.

Quatro contribuições brasileiras ao pensamento universal

Olavo de Carvalho

« Mas, como dizia Reinhold Niebuhr, a consciência do homem está sempre um pouco acima da sociedade em que vive. O melhor do que o Brasil guardou para o futuro está nas criações do gênio individual. Ao contrário do que se passa com a língua e com a religião nacionais, elas sobrevivem às perguntas: Qual o valor da contribuição brasileira para a inteligência humana em sua caminhada sobre a Terra? Demos à humanidade algo de que ela realmente necessite, ou limitamo-nos a solicitar sua atenção para as nossas necessidades?

« Na esfera do pensamento — e excluindo portanto as manifestações artísticas, que escapam ao tema do presente capítulo —, o Brasil deu pelo menos quatro contribuições maiores, que sobreviverão à passagem dos séculos. Absolutamente incomparáveis, a sociologia de Gilberto Freyre, o pensamento jurídico e político de Miguel Reale, a obra crítica e historiográfica de Otto Maria Carpeaux e a filosofia de Mário Ferreira dos Santos são os pontos mais altos alcançados pelo pensamento brasileiro no seu esforço de cinco séculos para erguer-se à escala do universalmente humano. Se o povo brasileiro fosse varrido da existência na data de hoje, seria a eles que caberia comparecer em nosso nome ante o trono do Altíssimo para responder à cobrança temível: — Que fizeste dos talentos que te dei?

« As razões que sustentam essa avaliação podem ser resumidas em quatro palavras, que definem as esferas de realização abrangidas por cada uma dessas obras ciclópicas: cada uma delas é, mais que qualquer outra produzida neste país, abrangente, consistente, única e universal. Estes quatro adjetivos não têm apenas uma função enfática e laudatória, mas traduzem critérios precisos:

« 1° Cada uma delas abrange numa visão sintética a totalidade temática e problemática de um determinado campo do conhecimento até o ponto a que este havia chegado, em sua evolução histórica, no momento em que essa obra atingia seu ponto culminante.

« 2° Cada uma delas possui uma unidade orgânica que coere em torno de princípios fundamentais simples a vastidão do campo abrangido.

« 3° Cada uma delas é sem similares que as possam substituir em qualquer outra língua ou cultura.

« 4° Cada uma delas fala aos homens de todos os quadrantes, levando-lhes, desde o Brasil, um conhecimento essencial, a respeito não apenas do Brasil, mas a respeito deles mesmos e do mundo em que vivem. Dito de outro modo: nessas obras e somente através delas entramos plenamente no diálogo universal dos homens, superando o complexo egocêntrico de uma cultura voltada para si mesma.

« Todas elas e somente elas atendem a esses requisitos.

« Se alguém quiser por em dúvida a validade dos quatro critérios, movido por escrúpulos que lhe pareçam muito científicos no que diz respeito à possibilidade de fixar objetivamente o “mais alto” e o “menos alto”, direi que toma suas inibições pessoais como rigores de método.»

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O Futuro do Pensamento Brasileiro – Estudos sobre nosso lugar no mundo, de Olavo de Carvalho.

No Pressure: ato falho ecofascista?

Quando assistimos ao curta-metragem No Pressure, nossa primeira impressão é a de que estamos vendo uma crítica ácida aos ambientalistas radicais, esses que, em vez de debater racionalmente com base em evidências, preferem eliminar toda dissensão a seu ponto de vista. (Isso quando não anunciam ― tal como um professor da PUC-GO deixou claro durante um programa sobre meio-ambiente que dirigi ― que seria muito melhor eliminar certos seres humanos a vê-los “acabar com o meio-ambiente”. Seu depoimento foi tão radical e absurdo, verdadeiramente eco-terrorista, que jamais entraria na edição final do programa piloto. Há um teaser aqui.) Enfim, ver o curta-metragem acima é como assistir a uma versão do South Park com atores reais. Só há um problema: trata-se, na verdade, de uma peça publicitária bancada por ambientalistas! (É uma campanha da ActionAid, da The Carbon Trust e da The Energy Saving Trust. A direção é de Richard Curtis, o mesmo de Notting Hill e Bridget Jones’s Diary.)

Ficam, pois, três perguntas: 1) Você achou o vídeo engraçado?; 2) Você não sentiu nenhuma pressão para concordar com eles?; 3) Não seria um ato falho eco-fascista?

Caso ache que estou exagerando, então imagine a mesma ideia aplicada às campanhas políticas da Dilma, do Serra, da Marina… Os eleitores dos adversários sendo explodidos… Qual seria a reação da famigerada opinião pública? Qual seria a sua reação?

Atualizações semanais no Twitter em 2010-11-01

  • "A violência é doença contagiosa, e com a publicidade que o governo dispõe ele pode incendiar o país." http://bit.ly/bk6zdz #
  • "O irmão de Celso Daniel fala sobre o assassinato do prefeito de Santo André" http://bit.ly/bpKxmj #
  • "Doidão ataca policial com um vibrador rosa" http://bit.ly/bJJXPM #
  • "Califórnia vota legalização da maconha; pesquisas apontam disputa apertada" http://bit.ly/agomY8 #
  • "The professional knows that flow doesn’t happen by magic. But it can be produced by devotion and dedication" http://bit.ly/90Uok8 #
  • Este clipe do Fountains Of Wayne — Stacy's Mom http://bit.ly/daIMXW — confirma o que escrevi aqui http://bit.ly/9UTZ2Q (via @abcaldas) #
  • "A urgente necessidade de se desestatizar os Correios" http://bit.ly/9umwyc #
  • A falácia do "sem uso de trabalho infantil" http://bit.ly/cpTfby #
  • "O manifesto de intelectuais a favor da candidatura Dilma: o manifesto da desonestidade intelectual" http://bit.ly/ae0ZIb #
  • "Estamos diante de um novo fenômeno estrutural: o relativo declínio do Ocidente por seus próprios excessos." http://bit.ly/am9Cfs #crise #
  • Muito cuidado ao transar com amigos… %^> http://bit.ly/a4S72X #cartum #humor #
  • Ao lado de Índio Costa, o ator Carlos Vereza fala da ameaça ao Brasil enquanto "celeiro do mundo e pátria do Evangelho" http://bit.ly/dBJYPE #
  • Ao fim das eleições, não ganha a Dilma, nem vence o Serra. O único vencedor possível é o PMDB com o maçom Michel Temer: http://bit.ly/dd5Ee2 #
  • "Nunca diga que uma mulher está gorda…" http://bit.ly/cKUaGd #humor #cartum #
  • O segundo nariz: "Durante décadas o PT se preparou para chegar ao governo, mas não para deixá-lo" http://j.mp/cvjZVM #
  • "José Dirceu – o homem que trocou de nariz para enganar a esposa e o mundo" http://j.mp/cvjZVM #
  • Se Lula fosse italiano, entenderíamos melhor o que ele é. Em vez de "Brasil, um país de todos", teríamos "Brasil, Cosa Nostra". #
  • Don Vito Corleone queria o truculento Sonny (Dirceu) como herdeiro. Mas este dançou em virtude desta mesma truculência. #
  • Don Vito preteriu Fredo(Genoíno), que não passava dum coitado. E Connie(Palocci), que era uma mulherzinha. Sobrou Michael(Dilma), o soldado. #
  • Eterno retrato do nosso país… http://bit.ly/af6bod #
  • (Parece que a Nova Ordem Mundial já escolheu seu Soma.) Soros doa US$ 1 milhão para campanha de legalização da maconha http://bit.ly/ar7Qr4 #
  • Pronto: um email a mais; provavelmente uma amiga a menos… %^/ #
  • É, meus caros, chegou o momento de colocarmos as raquetes elétricas para carregar: The Doors – "No me moleste mosquito" http://bit.ly/9wbhaW #
  • "Mas será o Benedito?: dicionário de provérbios, expressões e ditos populares" http://bit.ly/a5YWYj #googlebooks #
  • Será que o povo do Bolsa Família lê o Financial Times? "Mr Serra is the better choice for Brazil." http://bit.ly/d4nY8P #
  • Brazil's testy election race (Não é que dá para usar o tradutor do Google p/ acessar páginas restritas sem traduzi-las? http://bit.ly/cT3Qac #
  • Vc sabe de onde vieram as expressões "cu doce" e "cu para conferir"? http://bit.ly/dcIWzV #
  • Discutir com petista é um cu para conferir. (E, realmente, se não há dólar na cueca, há uma pepita de ouro ali dentro.) http://bit.ly/dcIWzV #
  • Graças ao making of de Apocalypse Now, sabemos que Charlie Sheen http://bit.ly/9CMm1m está apenas imitando o pai: http://bit.ly/bYLg1Y %^> #
  • Confiar no dicionário de provérbios do Mário Prata é como confiar num dicionário escrito por Groucho Marx. Mas a gente dá risada. #
  • Hoje estou tão bonzinho que até aos trolls estou respondendo. Mas para tudo há limite. ;^) #
  • O título "Subversão Soviética da Imprensa do Mundo Livre" é limitado e bobo. Deveria ser "Subversão Moral do Ocidente": http://bit.ly/aVv9xw #

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