11:17 pmTrânsito ideológico e um mantra canino

Esta noite sonhei que participava de uma reunião de amigos, numa casa desconhecida, e entre esses amigos estava a Carol Martins, que não vejo há muito tempo. Lá pelas tantas, ela se levantou do sofá, olhou em torno e se despediu dizendo: “Gente, preciso ir agora porque logo mais o trânsito estará muito ideológico”.

— Como assim ideológico, Carol? — perguntei, já achando aquele comentário genial.

— Ah, congestionamento, estresse, buzinas, xingamentos, barbeiros…

— E você faz parte dos motoristas conservadores ou dos progressistas?

— Não faço idéia — respondeu sorrindo.

— Você é do tipo que buzina para quem está na frente ou do tipo que ouve a buzina atrás?

— Ah, eu buzino. Então devo ser progressista, né, porque quero progredir pelas ruas e não me deixam!

— Ou então participa de buzinaços…— repliquei.

Só me lembro até aí. A partir de agora, chamarei o trânsito caótico de trânsito ideológico.

A Carol é a amiga a quem, na Casa do Sol, ensinei o mantra “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá”. Lembro que Hilda Hilst a achou “chiquérrima, elegantíssima”. Ela ocupou o quarto de hóspedes cuja parede dos fundos dava para o primeiro canil.

— Carol, se os cachorros perceberem sua presença e começarem a latir à noite, repita esse mantra e eles ficarão sossegados — aconselhei.

Ela riu, mas insisti que era sério, que usasse o mantra.

Na manhã seguinte, ela estava impressionada:

— Yuri! Deu certo! Eles latiram de madrugada, eu comecei com o “li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá-li-li-la-lá” e eles pararam. Onde você aprendeu isso? É algum tipo de mantra especial para cães?

— Não, Carol. É que no primeiro canil só há duas cadelas: a Lili e a Lalá.

Saudades das conversas engraçadas, Carol.

12:57 pmNosso homem em Curitiba

Aleksandr Dugin

O agente G. Greene segue o grupo até um bar de Curitiba e senta-se numa mesa próxima. Percebendo que a reunião poderá ocorrer ali mesmo, entra em contato com Langley, a sede da CIA, mediante um excelente software utilizado por todos os espiões do mundo: o WhatsApp.

— Controle, segui Dugin até um bar próximo ao hotel em que ele se hospedou. Ele está bebendo com um grupo de jovens e com outras duas pessoas de meia-idade, um homem e uma mulher.

— ¿Algum deles é ligado ao governo? ¿O agente cubano José Dirceu está com eles?

— Não, Controle. Nenhum dos presentes está em nossa lista.

— Estranho. ¿Mas estão falando sobre uma aproximação entre o Kremlin e Brasília?

— Bom, por enquanto Dugin apenas reclamou de ser o único a pedir uma vodka, enquanto os demais, segundo seu intérprete, “como menininhas, tomam apenas suquinhos de fruta”.

Resposta de Langley: :-))

— Começaram a falar mais baixo, Controle. Devem ter chegado ao assunto principal. Aguarde um momento.

— OK.

Em Langley, o Controle da missão espera por novas informações, enquanto joga Candy Crush Saga. Os minutos passam rapidamente. Por um instante, o Controle pensa que talvez fosse melhor utilizar aquele tempo para ler a pilha de documentos em sua mesa, todos relativos a Dugin, mas está tenso demais para se concentrar na leitura do que quer que seja. Melhor prosseguir com o jogo.

— Controle — chama novamente o agente Greene, ao cabo de uns vinte minutos. — Eles estão falando sobre um certo “Inimigo Número 1 do Eurasianismo”, alguém que divulgou para o resto do mundo os planos secretos de Dugin e de Putin.

— Quem é ele, Greene? Você obviamente já sabe por que isso nos interessa tanto.

— Sim, Controle: “o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo”.

— Exato. E, quando o descobrir, relate apenas a mim, você sabe que também temos inimigos aqui em Langley.

— Claro, senhor. Um momento, ainda estou tentando entender o nome.

O Controle volta ao Candy Crush. A cada cinco minutos de vida desperdiçada, ele xinga mentalmente o criador de tão viciante praga digital.

— Controle, eles o chamam apenas de “O Astrólogo”.

— Astrólogo? Que codinome interessante.

— Não sei se é apenas um codinome. Dugin está a lhes dizer para que insistam nessa alcunha em todas as redes sociais. Por enquanto, segundo ele, seria a melhor maneira de desmoralizar esse inimigo.

— Esquisito, ¿não?

— Controle! Agora Dugin o chamou de Olaf e, em seguida, de Olev. Também o chamou de O Colecionador de Rifles da Virgínia. Deve ser nosso conterrâneo.

— Isso é muito esquisito, Greene. O único Olaf colecionador de rifles daqui da Virgínia, que conheço, é meu próprio pai, um veterano da Guerra da Coréia.

— Sim, eu me lembro do seu pai. Eu o conheci no seu aniversário, ¿lembra-se? Por isso estou espantado.

— Bem… Vou perguntar a ele se está sabendo de algo que não sabemos.

— OK, Controle.

— Mais alguma…

— Eles estão saindo, Langley! Tentarei segui-los.

— OK. Mantenha-me informado.

Por alguma razão, o grupo sai sem pagar a conta. Greene não notou se alguém já havia se encarregado disso. Infelizmente, o dono do bar o encara com uma expressão de maus bofes quando o vê se aproximar da saída, e ele então entra na fila do caixa para pagar sua própria conta. Em Langley, o Controle põe de lado o Candy Crush e volta a organizar a pilha de documentos sobre Dugin. Deixa por baixo de todos um calhamaço contendo um debate entre Dugin e um filósofo brasileiro. ¿O que um filósofo brasileiro poderia acrescentar ao que já sabem? Ele nem sabia que havia filósofos no Brasil. Enquanto isso, em Curitiba, Greene é atendido pela simpática caixa, cuja camiseta traz uma inscrição que lhe passa desapercebida: “Olavo tem razão”.

8:11 pmDoutor Pinto Grande e o pedinte do metrô

Metrô

(Atendendo a pedidos, eis mais um conto com o personagem Doutor João Pinto Grande.)

Doutor João Pinto Grande desceu as escadas da estação Conceição do metrô, na zona sul de São Paulo, e se dirigiu até a área de embarque. Era um domingo claro, de poucas nuvens, mas fazia muito frio — nada incomum para uma manhã de fins de Junho. Levava consigo o livro que prometera ao amigo que ora ia visitar: “O Critério”, de Jaime Balmes, editado pela mítica Livraria Editora Logos. Tomás Casarini, o amigo, um escultor de temperamento tipicamente artístico, certamente não abordaria a obra de maneira sistemática, sisuda, como o faria um intelectual comum, mas, conforme lhe era costume, retiraria do texto interessantes insights. Claro, o doutor permanecera um bom tempo em dúvida sobre tal empréstimo: ora, aquele cretino vivia perdendo seus livros! Emprestá-lo ou não emprestá-lo — eis a questão que o afligira antes de sair de casa e que, volta e meia, ainda o fazia retorcer os lábios.

— Não corre na minha frente, filho! — dizia um homem, ao deixar a escada rolante, buscando a mão de um garoto e trazendo o advogado de volta à realidade.

Em menos de um minuto, a composição, vinda do Jabaquara, adentrou a estação e as poucas dezenas de pessoas ali presentes se aproximaram da faixa amarela. Os vagões pararam, as portas se abriram, e calhou de o doutor Pinto escolher um vagão com a maioria de seus assentos desocupados. Entrou, sentou-se de costas para a janela e, num assento perpendicular ao seu, à direita, deixou-se desabar com visível cansaço um senhor de seus oitenta anos de idade. Do outro lado do corredor, sem parar de falar um segundo, ambas com grossos cachecóis, sentaram-se ombro a ombro duas mulheres de meia-idade: criticavam duramente o andamento de uma telenovela. Após o aviso sonoro, as portas se fecharam e o metrô partiu.

Distribuídas ao acaso, havia naquele vagão outras doze pessoas e, à exceção do doutor Pinto, todas as demais já mantinham ou os olhos baixos, perdidos algures, ou vidrados em seus celulares, ou então fixos em seu próprio reflexo à janela do metrô, tudo com o fito inconsciente de evitar o constrangedor contato direto com as janelas das almas alheias. O companheiro de viagem mais próximo, além de cansado, parecia particularmente infenso à presença de seus semelhantes. Não parecia uma boa idéia introduzi-lo num diálogo. Pelo jeito, pensou o doutor, o melhor a fazer era também alhear-se. Sem querer, pois, ferir susceptibilidades com sua curiosidade natural, abriu numa página ao acaso o livro que tinha em mãos. E leu: “Concluamos. Seria portanto contra a razão e a justiça acreditar no mal sem razões suficientes, e em nossos juízos tomar nossa malícia como garantia da verdade”. E então conferiu o título daquele que era o sétimo capítulo: “A lógica de acordo com a caridade”.

“Ah, Tomás…”, pensou o doutor. “Eu o proíbo de perder mais este livro! Estou confiando em você. Se perdê-lo, meu amigo, eu nunca mais lhe emprestarei nada!” e sorriu.

Na estação São Judas entraram novos passageiros e, assim que a composição retomou o movimento, postou-se à frente dos dois homens um rapaz vestido humildemente, a roupa e o par de tênis já bastante gastos, um casaco de nylon bastante fino que mal devia protegê-lo de uma brisa. Estranhando aquela excessiva proximidade, visto que o vagão ainda não estava cheio, o doutor olhou para cima, encarando-o.

— O senhor pode me arranjar dez reais? Ainda não comi nada hoje — apressou-se o sujeito.

— Claro — respondeu prontamente o doutor Pinto, levantando-se ligeiramente para retirar a carteira do bolso de trás das calças. Abriu-a, encontrou duas notas de cinco e as entregou ao homem que, aparentemente surpreso com aquela atitude desprovida de hesitação, agradeceu com um silencioso e exagerado gesto da cabeça. E logo se retirou, colocando-se à frente da porta mais próxima.

O vizinho de assento do doutor Pinto, realçando sua aparência de poucos amigos, começou a resmungar. Parecia indignado com o que havia presenciado.

— O senhor está se sentindo mal? — indagou o doutor.

O velho lhe atirou um olhar cínico, um sorriso que mais parecia um esgar:

— Se estou me sentindo… — e desistiu da frase, irritado. — Ai ai… — e, antes de prosseguir, deu um longo suspiro. — Pra ser sincero, depois de ver você agir feito uma mocinha simplória do interior, sim, eu tô me sentindo mal. Muito mal.

O rapaz, que ainda se mantinha diante da porta, alcançou ouvir uma ponta da conversa e, visivelmente envergonhado, baixou a cabeça. O velho, que estava de costas para a porta, não o viu, mas doutor Pinto não perdeu a cena.

— Desculpe — disse o doutor, tornando a retirar a carteira do bolso. — Eu devo ter me enganado. Não tinha percebido que esta carteira lhe pertencia.

— Como é? — fez o velho, confuso.

— Na verdade… — tornou o doutor, revirando os documentos ali encontrados. — Sim, é minha carteira mesmo. Esquisito, não? Pensei que tivesse dado seu dinheiro para o garoto — e sorriu.

O outro rebolou no assento, virando-se para o interlocutor:

— Olha, você pode bancar o engraçadinho comigo, mas continua sendo um simplório, uma vítima ideal para trapaceiros. E o pior é que não percebe estar estimulando essa gente! Eu pego este metrô quase todos os dias e esbarro nesses tipos o tempo inteiro. É por existir otários no mundo que os safados continuam aparecendo aos montes. Muito obrigado!

O advogado lembrou-se do trecho que havia acabado de ler no livro de Balmes e sentiu um discreto arrepio: alguém lhe dissera certa vez que coincidências podem ser mensagens do Espírito. Seriam mesmo?

— Espero que o senhor desculpe minha boutade — tornou o doutor, com segurança e simpatia na voz. — Mas… será que posso lhe fazer uma pergunta?

— O que é? — indagou o velho, ainda de mau humor.

— Como o senhor sabe que aquele rapaz é apenas um golpista? — e doutor Pinto aplicou à sua expressão a mais ingênua curiosidade. Seus olhos eram como os de um menino de seis anos de idade a buscar os segredos de um adulto.

— Uê — exclamou o velho, coçando a cabeça, sem saber se seu interlocutor estava ou não a lhe pregar alguma peça. — Eu apenas sei. Tenho experiência com essas coisas. Já me passaram para trás muitas vezes nessa vida.

— Hum, entendo. Pelo menos não foi porque o rapaz embarcou na estação São Judas, né. O senhor há de saber que não se trata de Judas Iscariotes…

O velho voltou a sorrir cinicamente: — Você já está bem grisalho, amigo. Não é mais uma criança. Mas, pra mim, apesar de falar difícil, é como se fosse: faz piadinhas e acredita em qualquer um! Ah, vá!

— Vou. Vou para Santana rever um velho colega de colégio. Volto ao final da tarde — atalhou o doutor, sorrindo. O velho, como se realmente lidasse com um garoto, limitou-se a sacudir a cabeça. — Se o senhor não for descer antes de Santana — prosseguiu o advogado, após alguns segundos de silêncio —, talvez possa me explicar melhor seu método para ler a verdade nas pessoas.

— Não tenho nenhum método — contestou de pronto o velho, coçando o pescoço vermelho. — Eu simplesmente sinto cheiro de velhacaria de longe! E não interessa ao senhor aonde irei descer.

Ao ver-se tratado pela primeira vez como “senhor”, doutor Pinto resolveu levar adiante aquela investigação. Certamente, algum grau de confiança havia sido estabelecida ali. Esse “senhor”, dito sem qualquer tom de chacota, era muito mais sincero do que aquele “amigo”. À volta deles, apesar do silêncio — as duas mulheres já não falavam sequer da novela — muitas pessoas demonstravam discreto interesse naquela conversa: pequenos sorrisos, olhadelas furtivas, cochichos…

— E se eu lhe dissesse — voltou à carga o advogado, quase num sussurro — que eu estou mancomunado com aquele rapaz?

O velho arregalou os olhos: — O quê? Então vocês dois… estão agindo juntos?!

— Sim. Ele pede dinheiro e eu lhe dou uma boa quantia, quebrando assim o gelo do coração dos demais, que acabam abrindo a própria carteira. E, mais tarde, dividimos o montante.

— Rá! Eu sabia!! — riu-se o velho e, num átimo, agarrou-se ao braço do doutor. — Quando a gente chegar à próxima estação, vou chamar a polícia e te entregar. Que bando de pilantras! Eu sabia!! Tinha certeza!

Foi a vez de o doutor dar uma boa risada: — Então o senhor já sabia que eu sou um pilantra?

— Claro! Esse seu jeitão… É óbvio que estão aprontando juntos.

— E se eu lhe disser agora que estou blefando? Eu e o garoto não estamos juntos.

— Hã? Como é?!

— Não estamos. Eu só queria verificar se seu faro é realmente infalível. Vejo agora que, de fato, não é. Sou inocente. E, embora não tenha certeza, tampouco acredito que aquele garoto esteja passando os outros para trás. Ele realmente me parece muito faminto.

— Não acredito no senhor — tornou o velho, indignado.

— Não acredita em qual parte?

— Que o senhor seja inocente.

Doutor Pinto sorriu: — Talvez o senhor esteja sentindo o cheiro da minha profissão, a qual, infelizmente, não vive de boa fama na nossa sociedade — e colocou a mão no bolso do paletó. — Eis o meu cartão.

Sem soltar o braço do doutor, que já segurava sem muita convicção, o velho tomou o cartão com a outra mão. Apertou os olhos, fazendo um tremendo esforço para enxergar.

— Use meus óculos de leitura — disse o doutor.

O velho fez um muxoxo, largou o braço do interlocutor e aceitou os óculos. Voltou a apertar os olhos, desta vez, sem muito esforço.

— Então o senhor é um advogado — disse afinal. — Isso explica muita coisa. Mas… O quê?! Isto é alguma piada?

— Não, sou mesmo advogado. O senhor pode guardar o cartão, caso precise de um.

— Não me refiro a isso. Quero dizer… O seu sobrenome é… Pinto Grande?!

— Sim, é o meu sobrenome, muito prazer.

— Prazer…? Isso não é possível. Seus pais…

— O senhor há de convir — disse o doutor, interrompendo-o — que é um nome bem melhor do que Pinto Pequeno ou Caio Pinto, não?

O velho deu uma gostosa risada e, por fim, engasgou. O cartão tremia em sua mão, enquanto lutava para conseguir respirar. Ficou roxo e o doutor teve de lhe dar umas palmadas nas costas. Ao fim de meio minuto, recuperou-se e, ainda resfolegante, deixou-se afundar no assento, o tronco arqueado, mantendo o olhar fixo no doutor Pinto.

— O senhor… é uma figura, sabe? — comentou finalmente o velho, quase sorrindo.

— Não é a primeira vez que me dizem isso.

— Imagino.

— Mas — insistiu o advogado — podemos retomar nosso assunto? Gostaria de lhe contar uma história.

O velho ficara tão cansado com aquele engasgo súbito que parecia ter entrado em estado alfa. Seu olhar traía também um certo embaraço.

— Ainda estamos no Paraíso — disse ele. — Vou descer em Tucuruvi. Se quiser, o senhor pode me contar umas três histórias.

— Certo, certo. Primeiro — começou o doutor — quero me desculpar e lhe explicar por que o enganei dizendo que estava mancomunado com o rapaz… E veja só! Ele, o nosso suposto trapaceiro, está descendo agora, no Paraíso. Espero que tenha boa sorte.

O velho apenas franziu os lábios, sem nada dizer ou sequer olhar para trás.

— Enfim… Minha história… — prosseguiu doutor Pinto. — No início dos anos 1990, eu trabalhava num escritório de advocacia na Vila Olympia. Um dia, ao final do expediente, e carregando uma caixa de papelão enorme cheia de documentos, eu peguei um ônibus que me levaria a Pinheiros, onde vivia com minha esposa. Eu estava trabalhando num caso de divórcio bastante complicado e pretendia ler aquela papelada em casa. Os ônibus que circulam por esses bairros centrais, o senhor deve saber, são muito mais confortáveis e nunca ficam tão lotados quanto os que se dirigem à periferia. — O velho assentiu com a cabeça. — Por isso, apesar do horário — continuou o doutor — consegui me sentar ao fundo do ônibus. Lá pelas tantas, quando seguíamos pela Faria Lima, surgiu junto ao cobrador, ainda do lado de lá da roleta, um sujeito magérrimo, o rosto macilento, de ar extremamente doentio. Parecia um espantalho vivo. E ele começou a bater palmas e a chamar a atenção dos demais passageiros. Pensei: lá vem mais um pedinte, talvez um vendedor, porque ele trazia uma sacola enorme nas mãos, como essas que vemos na feira. Quando a maioria silenciou, porque há sempre uma minoria que não se importa com nada e rejeita dar atenção a quem quer que seja, o moço começou a descrever sua terrível situação: ele e a esposa tinham aids, haviam perdido seus empregos, não tinham dinheiro para comprar remédios ou sequer mais fraldões, que era exatamente o que ele tinha naquela sacola. Ele disse que sua mulher não controlava mais os intestinos e, retirando o pacote de fraldões da sacola, mostrou-o aos demais. Eu ouvia aquilo tudo com o coração na mão, como se houvesse corvos invisíveis empoleirados em seus finos braços de palha. E me sentia ainda pior ao notar que muitos passageiros desviavam o olhar, talvez porque, desconfiando que pudessem se sentir tocados caso o fizessem, preferiam ignorar aquele pedido de socorro, que era muito mais visual que sonoro. E o moço encerrou dizendo: “Pelo amor de Deus, meus irmãos. Eu não tenho dinheiro sequer para pagar esta passagem de ônibus”. Para mim, foi o bastante: sem pensar duas vezes, num impulso, eu me levantei, pedi licença à pessoa que estava ao meu lado, e caminhei pelo corredor até o pobre rapaz. Lembro que, naquele instante, senti o mais vívido horror, pois imaginei a mim mesmo e à minha esposa naquela terrível situação. Então, ao chegar à roleta, abri a carteira, retirei tudo o que tinha, que infelizmente nem era muito — e o advogado deu de ombros — enfim, eu lhe entreguei aquelas notas com carimbos de URV. Lembra-se disso? Eram Cruzados Novos tornando-se Unidades Reais de Valor, o Real de hoje.

— É, eu me lembro.

— O moço estendeu as mãos e mal podia acreditar nos seus olhos. O senhor, por favor, perceba: não estou me gabando do meu gesto. Nunca o contei sequer à minha mulher. Juro! O que a mão direita dá não precisa chegar aos ouvidos da esquerda, e coisa e tal. Entende?

— Talvez.

— Bem… — e, olhando rapidamente em torno, o doutor notou quantas fisionomias novas havia ali. — A questão é que a perplexidade do rapaz me deixou perplexo — prosseguiu. — Então, pensei comigo, quer dizer que uma caridade tão súbita e generosa é algo raro? A sociedade está tão doente assim?

— A sociedade tá moribunda — resmungou o velho. — Além do mais, o governo já tem todos os meios pra ajudar essa gente, um monte de projetos sociais, que custam em impostos os olhos da nossa cara. Por que esses pedintes não procuram ele? Tão com medo do governo? São criminosos? Devem algo à Justiça e por isso têm receio de se mostrar às autoridades?

Doutor Pinto sorriu:

— O senhor costuma pagar todos os seus impostos sem chiar?

— Claro, sou um cidadão honesto, não devo nada a ninguém. E é por isso que essa gente me irrita tanto.

— Pagar os impostos é correto, mas, se são demasiado altos ou mal utilizados, chiar também o é. Mas, se o senhor não vê motivo para tal… — e doutor Pinto deu uma piscadinha — então suponho que seu faro não deva encontrar nenhum demérito em nossos governantes… Não é? São todos honestos, diligentes, verdadeiramente preocupados com a população, todos prontos a nos defender das injustiças e a lutar pela nossa liberdade e pela nossa prosperidade. Nenhum deles desvia o dinheiro dos pagadores de impostos para fins escusos, nenhum deles é um trapaceiro, tal como nosso rapaz…

O velho, que vinha ouvindo de cabeça baixa, ergueu o rosto e voltou a encarar o advogado:

— Já entendi aonde você quer chegar — disse, muito seco. — Já terminou de contar o seu caso?

— Ah, me perdoe. Tenho essa mania de tergiversar. Ainda não cheguei aonde queria.

— A gente tá quase na estação Sé. É melhor o senhor se adiantar, doutor Pinto.

— Vejo que o senhor já está se acostumando com o meu nome — disse, bem humorado. — Se, no final das contas, o senhor não gostar da minha história, poderá ao menos dizer a seus amigos e parentes: “Sabe em quem esbarrei hoje? No Pinto Grande”. Ou então: “Vivi todo esse tempo sem saber da existência do Pinto Grande, mas, hoje, eu o vi, até falei com ele”.

O velho sorriu melancolicamente: — Por favor, doutor, continue.

— E o seu nome? Qual é?

— Miguel.

— Muito prazer, seu Miguel! — e o velho apertou a mão que o advogado lhe estendera. — Como eu dizia… Ah, sim. Eu entreguei o dinheiro para o rapaz e me dirigi à porta dos fundos do ônibus, pois estava perto do meu ponto, no início da Teodoro Sampaio. E aí algo estranho aconteceu: o rapaz parece ter pensado o contrário do que pensei! A saber: que a caridade não é rara. E, após pagar sua passagem, cruzou a roleta e, cheio de empolgação, voltou a contar e a dar mais detalhes de sua triste história. A mosca azul o mordera! O coitado contou até mesmo que ele é que havia contaminado a esposa. E o pior: levantava as barras da calça de moletom para mostrar as feridas horrorosas que tinha na perna! Eu olhava em volta e percebia o constrangimento geral. Além de mim, apenas uma senhora, de ascendência oriental, deu-lhe mais alguma coisa. Os demais estavam quase saltando pelas janelas ou, o que seria mais provável, estavam quase levantando-se e atirando o homem pela janela! Se aquele ônibus fosse uma sala de visitas, os passageiros o teriam enfiado sob o tapete.

— Entendo.

— Aquela cena me pôs o sangue a ferver. A represa de adrenalina abrira as comportas. Enrubesci, comecei a tremer e, assim que apertei o botão para solicitar minha parada, e sem qualquer cálculo, comecei a esbravejar: “Rapaz, você não tem vergonha? Tenha um pouco de dignidade! Não percebe que essas pessoas, se ainda têm algum dinheiro, já não têm coração? Quem podia ajudá-lo aqui, já o ajudou. Não se humilhe assim! Peça a Deus para lhe dar forças e não fique fazendo tanta propaganda do seu sofrimento. Isto não é uma feira! O coração é atingido com poucas e boas palavras, não com muitas. Vá com Deus e procure por gente que não esteja envolta nessa casca de insensibilidade”, e tendo dito isso, pisando duro, desci as escadas, pois chegara ao meu destino. E o ônibus partiu levando em seu interior um silêncio atroz.

— Certo — disse o velho, entediado. — Mas por que você tá me contando essa história, doutor?

— Ainda não terminei, seu Miguel.

O velho fez um gesto impaciente com a mão, como quem diz: então prossiga.

— Interessante foi o que aconteceu no dia seguinte, seu Miguel. Ao pegar o mesmo ônibus, no mesmo horário, cruzei meu olhar com aquela senhora oriental, a mesma que também havia dado dinheiro ao rapaz. Ela me reconheceu e me fez um sinal, convidando-me a sentar ao seu lado. E sabe o que ela me disse? Que, assim que desci do veículo no dia anterior, uma adolescente, nitidamente tocada por minhas palavras, se levantou para contribuir com o moço doente, mas outros passageiros ergueram a voz, dizendo: “Sua tonta, eles estão combinados! É um golpe! Aquele que saiu e esse aí estão juntos, só querem enganar os trouxas”. E a menina, envergonhada, devolveu o dinheiro ao próprio bolso, deu as costas ao coitado do moço, indo em seguida sentar-se num local mais ao fundo.

— Eu teria pensado a mesma coisa!

— Sim!! E é por isso que estou lhe contando isso, seu Miguel. Quando a senhora de ascendência oriental, acho que japonesa… enfim, quando ela me disse isso, bati a mão na testa e pensei: “É claro! É óbvio que eu parecia estar em conluio com o tal doente!”. Ela mesma me confessou ter ficado em dúvida. E eu então lhe contei que era advogado, dei-lhe meu cartão, falei do que eu havia sentido no dia anterior e assim por diante. E ela então comentou: “Só existem dois tipos de pessoas que usam o nome de Deus da maneira que vocês usaram ontem: as que vão para o Céu e as que vão para o Inferno” — e o doutor perguntou quase num sussurro:

— O senhor, seu Miguel, sabe o que diferencia, no presente caso, esses dois tipos de pessoas?

— Não preciso saber. Tá na cara que o senhor vai me dizer.

Doutor Pinto Grande sorriu: — A sinceridade, seu Miguel. A adequação exata ou inexata do discurso aos fatos. Não é boa coisa usar o nome do senhor Deus em vão.

— Eu não acredito em Deus. Quer dizer: já acreditei. Mas dê só uma olhada neste mundo…

— Sim, sim. É uma antiga questão que vive a assombrar os teólogos e a produzir inúmeras heresias, incluindo as modernas, como o socialismo.

— Pois é — disfarçou o velho, estranhando a observação.

— Mas não entremos nesses detalhes. O resumo da coisa toda é: dei dinheiro a esses dois rapazes, ao do ônibus e ao de agora há pouco, de boa vontade. E Deus sabe disso! Tanto quanto conhece a verdadeira razão de mo pedirem.

— Sei… — retrucou o velho, desgostoso com aquele “mo pedirem”, que lhe pareceu afetação de advogado. — A velha história da onisciência, aquela que diz que Deus vigia a nossa cabeça… Também fiz o catecismo.

— O senhor sabe o que é um blog, seu Miguel?

— Um jornal da internet?

— Sim, mais ou menos isso.

— O que que tem?

— Certa vez, minha esposa, que por pura diversão vive procurando blogs curiosos, me pediu para ler um que havia encontrado: um sujeito, que parecia muito sério, insistia mediante vários textos que a internet não existia, que era uma ilusão. É claro que só podia ser a opinião ou de um personagem humorístico ou de um psicótico, uma vez que todo blog é acessado exatamente pela internet e fica guardado nela.

— Mas que mudança de assunto!

— Não estou mudando de assunto. É como um índio que meu pai hospedou em nossa casa quando eu era criança: ele achava que a lâmpada produzia a energia elétrica, quero dizer… que a lâmpada produzia a luz, não conseguia imaginar todo o gigantesco aparato que há por trás dela. Ele tirava a lâmpada do soquete e ficava indignado quando ela se apagava. ¿Como explicar para ele que aquela luminosidade vinha de um rio represado a milhares de quilômetros de distância? Impossível. Ele talvez estivesse acostumado com lanternas, não sei. Mas precisaria passar no mínimo uns dois anos conosco para entender de onde vinha a energia daquela lâmpada.

— O senhor mudou de assunto de novo!

Doutor Pinto Grande riu:

— Não, seu Miguel. Só estou lhe dizendo que um dedo é incapaz de tocar a própria ponta.

— Danou-se! — soltou o velho, indignado. — O senhor está é tentando me confundir! O que essas coisas têm a ver umas com as outras?

O doutor juntou as mãos e pareceu meditar por um segundo. Ficou sério:

— O senhor está me dizendo que já não acredita em Deus tanto quanto aquele blogueiro não crê na existência da internet. Mas, dentro Dele, de Deus (e não do blogueiro), nós nos movemos, pensamos, respiramos, vivemos e morremos. Percebe? É dentro da internet que o blog “vive” e “morre”. É provável que o senhor, algumas vezes ao longo da vida, tenha parado e pensado: “Onde está esse Deus de que tanto falam? Não O vejo”. E, com sua mente, tenha tentado encontrá-Lo, tal como o índio procurava, na própria lâmpada, a fonte da energia. Podemos dizer: uma lâmpada não energiza a si própria! Em suma: a questão da onisciência não está na suposição de que Deus tenha grampeado todos os cérebros do universo. Não significa que ele espione nossas mentes. Na verdade, nossas mentes são dotações do Espírito Infinito, do Espírito Santo, a personalidade responsável pela Mente Universal. Imagine que sua mente é um dedo. Como já disse: um dedo não pode tocar a própria ponta! Da mesma forma, a mente pode tocar tudo o que vê pela frente, mas não pode tocar a si mesma. E o que é esse “si mesma”? É a Mente Universal, o Espírito Santo, é, enfim, Deus.

— Meu Deus… — suspirou o velho Miguel.

— Ele mesmo! — riu-se o doutor Pinto. — Nós, portanto, só temos uma mente autoconsciente porque Ele nos emprestou um, digamos assim, um pedacinho da mente Dele, um terminal, exatamente como qualquer computador em relação à internet. Nosso cérebro é apenas um receptor. Bem, eu não entendo de softwares e hardwares, mas compreendo muito bem o princípio subjacente à informática. Trata-se sempre de linguagem. Não podemos encontrar Deus mediante a linguagem simplesmente porque, em relação a ela, Ele é linguagem pura, o Logos universal.

— Que loucura! — resmungou o velho. — O senhor me desculpe, mas você é louco.

— O senhor conhece o mito de Hanumân, o Mono Gramático?

— Chega de histórias! — gritou finalmente o velho, atraindo a atenção geral. — Não quero ficar maluco! Era só o que me faltava… Se Deus existisse e conhecesse todos os meus pensamentos, todas as minhas memórias, eu estaria condenado! É claro que eu jamais escaparia do inferno! Jamais! — e seu Miguel deu um meio-sorriso dos mais amargos.

Doutor Pinto Grande colocou a mão no ombro do velho:

— O senhor não precisa se preocupar com isso. Eu tive uma juventude muito atribulada, sabe? Usei drogas. E foi usando certas drogas que, a certa altura, adquiri uma terrível paranóia: Deus está de olho em mim o tempo todo! Em minhas crises, eu me escondia embaixo da cama, dentro do armário, acreditando que, assim, eu me livraria da sensação de ter alguém atrás de mim. A sensação era física! Tinha certeza de que Deus olhava por cima do meu ombro. Eu morria de medo Dele. Quando comecei a notar que esse “estar atrás” se referia ao próprio pensamento, e não ao meu corpo, entrei em pânico. Porque, sabe como é, eu também mereceria o inferno e Deus não iria me perdoar jamais. Mas então…

— Então?

— Então o Filho de Deus encarnou na Galiléia e nos revelou que Deus é amor. O amor é capaz de perdoar tudo e jamais poderia nos ameaçar.

— Ah! — exclamou o velho, irritado. — Mais um roqueiro grisalho que virou crente! Um Baby Consuelo! E eu pensando que o senhor fosse uma pessoa instruída. Bom, minha estação é a próxima, com licença — e, agarrando-se onde podia feito uma aranha desajeitada, levantou-se.

Doutor Pinto manteve-se sentado, sereno, e acompanhou o velho com o olhar. Notou que ele, ao descer do vagão, ainda movia os lábios, como quem resmunga para si mesmo. Não conseguiu distinguir se Miguel estava tomado pela pura e simples ira ou se estava meramente escandalizado, isto é, com sua fé niilista abalada. O doutor lembrou-se do conselho da esposa: “Não tente dar água para quem não tem sede”. Na ocasião, ele lhe respondera: “Não é o que faço, Bia. Quem sou eu? Não me tenho em tão grande consideração. Em geral, tento apenas mostrar a certas pessoas que o desconforto existencial que experimentam é sede. Sim, é isso: não lhes dou água: eu lhes revelo sua própria sede”.

Doutor Pinto Grande voltou a abrir o livro de Balmes e, minutos depois, desceu na estação Santana. Passou o restante da manhã e toda a tarde com o amigo Casarini, com quem almoçou e teve longas, engraçadas e profundas conversas. Ao relatar seu diálogo com o velho Miguel, Casarini lhe disse:

— Eu também ficava irado com seus papos sobre Deus, sobre nossa futura peregrinação através do Universo, de Morada em Morada, e toda a pasmaceira resultante. Tudo isso me deixava realmente puto. Mas naquela visita que te fiz dezessete ou dezoito anos atrás, quando você me disse que o que me faltava era simplesmente imaginação… ah, aí, sim, você meteu o dedo na minha ferida. Um advogado acusar um artista de falta de imaginação? Que ousadia… “Por que um artista ou escritor pode se colocar dentro de sua obra, representado-se mediante um personagem-avatar, e Deus não o poderia?”, você me disse na ocasião. “Um artista é mais poderoso do que Deus?” Que golpe! Lembro que peguei o metrô e vim pensando em todas as nossas conversas dos anos anteriores, nos livros que você me emprestou ou me deu. Eu não sabia, mas já havia reconhecido minha sede. Estava atormentado e desci na Sé. Fui até a Catedral e passei ao menos uma hora admirando os vitrais, que são magníficos. Fontana, Quentim, Max Ingrand… Gênios! E, apesar de toda aquela beleza, não tirava minha falecida esposa da cabeça! Eu a amei tanto… Foi tão difícil encontrar alguém que me despertasse aquela ternura, aquele tesão, aquela… Enfim, eu estava parado diante de um desses vitrais e uma senhora, do nada, me tocou o braço. Olhei na direção dela e ela me disse: “Você ainda irá revê-la”. Foi um choque! Qual era a probabilidade? Como sabia? Não respondi nada. Apenas voltei a olhar a imagem de Jesus naquele vitral e, dentro de mim, eu O xinguei. Não acredito! Não acredito! Não acredito!, pensava. Então me sentei num banco e fiquei lá quieto, observando as pessoas a caminhar pela nave. Não pensava em nada, não rezei, não fiz porra nenhuma. Meia hora depois, voltei à estação Sé e tomei o metrô. Quando embarquei, não acreditava em Cristo, quando desci em Santana, acreditava: e até hoje não sei em qual trecho da viagem, em qual estação — Luz? Tiradentes? Tietê? — se deu minha conversão.

Mais tarde, depois de admirar as novas esculturas do amigo — e a mais interessante era a que ele chamava de “Serafim de Transporte” (uma mistura de anjo com nave espacial cuja função seria nos levar até o outro mundo após a morte) — Doutor Pinto Grande se despediu e caminhou até a estação Santana. Estava contente: passados tantos anos, o amigo finalmente encontrara e lhe devolvera o livro “Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô”, de autor anônimo, editado pelas Edições Paulinas. Era uma raridade: as edições estrangeiras não traziam o prefácio de Hans Urs von Balthasar! Quando se dirigia à roleta, ouviu atrás de si:

— Doutor?

Olhou para trás e reconheceu o rapaz a quem havia dado os dez reais.

— Ué, meu caro… Como me encontrou?

— Eu ouvi o senhor dizendo àquele velho que voltaria no final da tarde desta estação.

— Ah, sim. Entendo. Conseguiu almoçar?

O rapaz estava embaraçado:

— Era sobre isso que queria falar com o senhor. Na verdade, vocês dois estavam certos: eu realmente estava “faminto” (foi o que o senhor disse, né?), mas também estava te enganando. Minha fome não era de comida, era de crack.

Doutor Pinto franziu a testa, surpreso:

— E… você saciou sua fome de crack?

— Não, doutor. Vim te devolver o dinheiro — e o rapaz lhe estendeu os dez reais.

— Pode ficar com o dinheiro, rapaz. Compre comida.

— Não precisa, doutor. Vou voltar pra casa dos meus pais. Eu estava dormindo na rua há dois meses. Mas vou voltar. Em casa vou poder comer. E, se eu ficar com esse dinheiro na mão, por pouco que seja, vou acabar caindo na tentação. O senhor não faz idéia de como foi difícil hoje. Fiquei quase todo o dia aqui, os seguranças até me botaram pra fora, achando que eu estava querendo assaltar alguém. Só voltei quando te vi entrando na estação.

Doutor Pinto aceitou o reembolso e sorriu:

— Para sair dessa, confie em quem é mais forte do que você, meu caro.

— Pode deixar, doutor — e o jovem devolveu o sorriso.

— Você tem como chegar em casa?

— Ainda tenho um unitário do metrô. Moro perto do Carandiru.

— Certo. Boa sorte então. E obrigado por ser sincero comigo.

— Eu é que lhe agradeço… doutor Pinto Grande! E se segurou para não rir.

Doutor Pinto sorriu, despediu-se com um gesto da cabeça, deu-lhe as costas e passou pela roleta. “Meu Pai”, falou dentro de si, “obrigado por me oferecer mais um dia extraordinário”.

(Fim)

________
O primeiro conto está aqui (não é preciso lê-los na seqüência!).

10:27 amHomem também tem pêlo

Bete Coelho e Daniela Thomas

Em Junho de 1999, quando eu já morava na Casa do Sol havia quase nove meses, a atriz e diretora Bete Coelho e a figurinista e cenógrafa Daniela Thomas foram visitar Hilda Hilst. Ambas participavam do projeto de adaptação para teatro do livro O Caderno Rosa de Lori Lamby, cuja protagonista seria vivida por Iara Jamra. A peça, à qual assisti semanas mais tarde no Teatro N.Ex.T, no centro de São Paulo, ficou excelente, unindo na proporção ideal o humor e o horror deste que é o primeiro volume da Trilogia Erótica hilstiana. O sucesso ulterior da montagem, contudo, não impediu Hilda de indagar pela milésima vez:

— Por que ninguém se interessa em montar minhas peças? Por que só querem adaptar meus livros?

— Ai, Hilda! — suspirava ao telefone o amigo Mora Fuentes. — Quando você disser isso às moças, porque eu sei que você vai dizer, sua teimosa, não faça a reclamona, né. Você não está contente com o interesse delas pela Lori Lamby?

— Claro que sim, Zé. Elas são ótimas. Mas não é isso…

— Hilda — eu então dizia — quando suas peças forem publicadas, os diretores vão começar a montá-las. Muita gente nem sabe que você também é dramaturga.

— Faz trinta anos que as escrevi! Trinta anos!! — repetia, arregalando os olhos.

E foi mais ou menos nesse clima que, num dia frio e ensolarado, recebemos as visitas. Em ocasiões assim, Hilda fazia questão da minha presença, entre outras coisas, para ser sua memória recente auxiliar.

— Yuri, quem é mesmo o autor dessa biografia do James Joyce que estou lendo?

— Richard Ellmann, Hilda.

— É verdade. Só me vinha à cabeça Richard Francis Burton. Mas é óbvio que se tratava de outro Richard.

Ela vivia citando autores e livros e, como eu vinha organizando sua biblioteca, cabia a mim correr atrás dos mesmos, pois ela sempre queria ler um trecho ou outro para seu interlocutor. Vale lembrar também que, como toda figura pública, Hilda Hilst se transformava nesses contatos com leitores e fãs. No dia a dia, eu até me esquecia de que ela estava prestes a completar setenta anos de idade: conversávamos como se ambos tivéssemos dezesseis. Claro, não foi assim desde nosso primeiro contato. Nossa amizade foi evoluindo. Mas essa diferença entre o antes e o depois saltava aos meus olhos quando, em minha presença, outras pessoas a encontravam pela primeira vez: de repente, minha “amiga adolescente que se interessava pelas mesmas coisas que eu”, e que só vestia a carapuça de mestra quando eu dizia uma grande besteira, se transformava em quem realmente era: um colosso literário. Ninguém que a tenha conhecido em sua casa jamais esquecerá de sua presença marcante, de sua sinceridade sem papas na língua e de sua modéstia aristocrática. Quando as visitas iam embora, ela me perguntava:

— Como me saí? — e então sorria. Tinha plena consciência do teatro do mundo e de seu papel nele.

Recebemos o anúncio da portaria do condomínio e nos preparamos para recepcionar Bete Coelho e Daniela Thomas. Hilda decidiu recebê-las à mesa de jantar, diante da lareira, já que o escritório estava inusualmente frio. Chico, o caseiro, abriu o portão e o carro veio estacionar diante do alpendre. Os cães, obviamente, fizeram o escarcéu de sempre, rodeando o carro e aguardando as visitantes com todos os volumes e tons de latido. Eram cerca de quinze cães.

— Olá, tudo bem? — eu disse, recebendo Daniela à porta e lhe estendendo a mão.

— Oi — respondeu, ligeiramente ansiosa, aceitando o cumprimento e me encarando por trás das grossas armações dos óculos. Uns dez cães a rodeavam, os pequenos latiam estridentemente.

— A Bete não vai entrar? — perguntei.

— Ela não quer sair do carro! Morre de medo de cachorros.

Ih, lascou-se!, pensei com meus botões. Hilda jamais sairia de casa para conversar com alguém pela janela de um automóvel. Ela simplesmente não confiava em quem não se dava com animais. Meu lado diplomático começou a se preocupar: e se isso fizesse Hilda não dar sua benção à peça? Não, ela não cancelaria sua autorização, mas aquela situação poderia azedar o trabalho de alguma forma. Talvez até aproveitasse o episódio como desculpa para não ir assistir à montagem. Embora estivesse mantendo um bom diálogo com Iara Jamra, por quem sentia grande simpatia, antipatizar com a diretora, por causa dos cães, não resultaria em nada de bom.

Entramos e Daniela cumprimentou Hilda com efusão. Após os salamaleques, indiquei a cadeira para que se sentasse.

— Cadê a Bete? — perguntou Hilda, que até então exalava pura simpatia. Pronto, pensei, vai começar.

— Ela não quer sair do carro — respondeu Daniela. — Está com medo dos cachorros. Não imaginava que se agitariam tanto.

O semblante de Hilda anuviou-se:

— Ué. Pensei que ela quisesse muito conversar comigo.

— E quer. Mas…

— Eles só ficam agitados no início, Daniela — atalhei. — Olha só como eles já se acalmaram. Bastou você se sentar.

— Eu vou lá falar com ela — respondeu, levantando-se e pressentindo nuvens de tempestade.

Daniela saiu e Hilda me encarou, uma expressão desgostosa nos lábios.

— Era só o que faltava — resmungou.

Infelizmente os cães acompanharam Daniela e retomaram a balbúrdia, o que, claro, só iria contradizer seus argumentos. Bete Coelho certamente não estaria disposta a ser um coelho numa caçada inglesa. Hilda, concentrada e já visivelmente irritada, fumava seu Chanceller. Aguardamos em silêncio. Ao cabo de dois ou três minutos, Daniela retornou: sozinha!

— Desculpa, Hilda — começou, embaraçada. — Não adianta. Ela está mesmo com medo.

Como Hilda nada respondesse, e pelo andar da carruagem talvez já não dissesse mais nada, decidi ir testar meus próprios argumentos.

— Eu falo com ela.

Fui até o carro e dei umas duas batidinhas no vidro. Bete Coelho abriu a janela. Os cabelos curtos e muito negros deixavam sua pele ainda mais pálida.

— Oi, Bete. Meu nome é Yuri. Sou secretário da Hilda.

— Oi, Yuri. Ela está muito chateada comigo?

— Um pouco. Mas você não precisa ficar com medo dos cachorros. Eles latem muito apenas quando vêem a pessoa pela primeira vez. Depois se acostumam e ficam quietos. Nunca morderam ninguém.

— Eu sei. Eu entendo que seja assim. Mas é involuntário! Juro! Estou em conflito aqui. Quero sair, mas não consigo.

Seu olhar comprovava sua angústia. Ela chegara à Casa do Sol e não veria Hilda Hilst? Como era possível?

— Olha — propus — você pode vir comigo. Vem segurando no meu braço. Você vai confirmar que cão que late não morde.

— Obrigada, Yuri — retrucou, desconsolada. — Mas não vai dar. É um problema que tenho. Estou até tratando essa fobia com meu psicanalista.

Nesse momento, trinta milhões de neurônios modificaram suas sinapses em meu cérebro e uma lâmpada, que só eu vi, acendeu sobre minha cabeça. Justamente naquele mês, eu e Hilda estávamos lendo e discutindo o livro “A Negação da Morte”, de Ernest Becker. Nele, através principalmente de Otto Rank e Kierkegaard, Becker busca provar que só há uma maneira de escapar à neurose causada pela verdade de que todos morreremos um dia: voltar à transferência original. Na psicanálise, grosso modo, transferência seria o processo pelo qual confiamos nossa segurança psíquica a algo que nos ultrapassa, que nos transcende, a algo que esteja fora e acima de nós mesmos. Quando o bebê está mamando, sua mãe é a fonte e a mantenedora de toda a sua saúde mental. Ele transfere suas necessidades mais profundas para ela. Ali, em seus braços, não há neurose, não há medo, não há ameaças de destruição. Conforme a criança vai crescendo e se tornando um adulto, sua transferência vai sendo dirigida para outras pessoas ou coisas: para o pai, para um namorado, para um trabalho, para uma crença, para uma ideologia e assim por diante. Quanto mais incerto, mortal ou volúvel for o alvo de sua transferência, mais neurótica se tornará a pessoa e, por isso, de mais mentiras existenciais necessitará para não mergulhar na loucura de se ver apenas como um animal que em breve irá morrer. E não há ninguém que viva sem estar preso a esse processo, por mais inconsciente que seja, por mais que seja oculto o alvo de sua transferência. Daí o estado de verdadeiro “escândalo”, no sentido bíblico, isto é, de abalo da fé, quando tal alvo se desfaz no ar ou cai em desgraça. Nada explica melhor um crime passional, quando o marido, traído pela esposa, mata-a e em seguida dá um tiro na cabeça. Nada explica melhor o suicídio de nazistas que, de repente, descobrem que o Führer está morto. Becker, portanto, desenvolve seu pensamento até nos mostrar que a única transferência perene, indestrutível e legítima é aquela que tem Deus por alvo. Seria essa a transferência original. Enfim, eu olhava para Bete Coelho e me vinham à cabeça todas essas coisas. Mas é claro que eu não iria lhe dizer: “Tenha fé em Deus, Bete, e nada vai lhe acontecer”. Não. Vestida com roupas escuras e pálida como uma freqüentadora do Hell’s Club, que eu também freqüentei — sempre curti música eletrônica —, essa não parecia de modo algum a abordagem correta. O fato é que eu também sabia que, numa psicanálise, a terapia torna-se muito mais efetiva quando, entre paciente e psicanalista, ocorre a transferência, quando o psicanalista se torna a salvaguarda do equilíbrio psíquico do paciente. Portanto, eu me inclinei em sua direção, sorri e lhe disse:

— Bete, tenho certeza de que, se você conseguisse enfrentar essa fobia agora e, apesar de todos esses cachorros, fosse até a sala conversar com a Hilda, seu psicanalista ficaria muito orgulhoso de você… — e, tendo dito isso, dei-lhe as costas e voltei à sala.

— Cadê ela, Yuri? — perguntou Hilda.

— Já está vindo.

— Sério?

— Sério.

E, de fato, em menos de dois minutos, Bete Coelho surgiu à porta por si só, os olhos vidrados, direcionados para frente, evitando olhar para baixo. Os cães, que haviam me acompanhado, cercaram-na latindo muitíssimo, mas ela, rígida, corajosa, permaneceu como uma estátua, os braços colados ao corpo. Com passos curtos e cuidadosos, mais parecia se deslocar sobre rodinhas do que caminhar. Dirigiu-se então até Hilda, que se levantou e a abraçou.

— É um prazer, Hilda. Me desculpa.

— Não entendi esse pânico todo — repreendeu-a Hilda, num tom bem humorado. — Você por acaso também tem medo de homem? Homem também tem pêlo. Sabia?

Todos riram dessa observação e Bete Coelho se sentou na cadeira que lhe indiquei. As conversas prosseguiram de forma amena e, graças à bravura da atriz-diretora, que confirmou Sócrates, segundo o qual corajoso não é quem não sente medo, mas, sim, quem o sente e o enfrenta, semanas mais tarde a própria Hilda foi assistir à montagem de O caderno Rosa de Lori Lamby. Porque, sinceramente, caso a autora tivesse antipatizado com Bete, teria sido muito difícil para Mora Fuentes arrastá-la da Casa do Sol até o teatro. (Ah, vale lembrar que, além de pêlos, alguns homens também têm boas idéias.)

3:23 pmO náufrago e a náufraga

Cansado dos constantes atritos com a esposa, Júlio decidiu convidá-la a fazer um cruzeiro pelas ilhas do Pacífico: uma viagem daquele tipo, acreditava, poderia devolvê-los a um estado pós-Lua de Mel. Marilda ouviu a proposta, meditou por alguns momentos e a aceitou: talvez ele tivesse razão e novos ares iriam restaurar um relacionamento já tão gasto. Sim, no fundo, o problema que vinham enfrentando era o mais banal, o mais corriqueiro de todos: enquanto a esposa queixava-se da desatenção e do egoísmo do marido, ele, que era um argentino radicado no Brasil, ya estaba podrido com tantas reclamações: “Ela não me deja en paz! Vive pegando no meu pé!”.

— Comprei o pacote! Serán dos semanas en un navio! — anunciou Júlio, pouco antes do início das férias.

E, de fato, três semanas mais tarde, partiram. Os primeiros dois dias de viagem foram excelentes: assistiram ao pôr-do-sol do convés, jantaram à luz de velas, ouviram música ao vivo, dançaram e, no segundo dia, até mesmo transaram. Duas vezes! De manhã e à noite. Sim, parecia promissor.

— Foi a melhor idéia que você já teve, Júlio!

Mas, no terceiro dia, logo após Marilda reclamar da toalha molhada sobre a cama, as coisas começaram a desandar. Júlio já não conseguia ficar mais do que quinze minutos no camarote. Depois da toalha, ouviu sobre os chinelos, a “bagunça da mala”, a temperatura do ar-condicionado, sobre seu inútil “inglês de Tarzan”, como se o dela fosse melhor, e assim por diante. Sabia que, em seguida, seria o cigarro, a sunga, a roupa suja, a escova de dentes, o carregador do celular e quaisquer outros pretextos descobertos ao momento. Por mais que tentasse vigiar a si mesmo, ele sempre se surpreendia com os novos defeitos que a esposa encontrava nele. Marilda era extremamente detalhista: nada lhe escapava! Por isso, Júlio decidiu passar a maior parte do tempo ou no bar, ou à beira da piscina. E o pior: notou que a escolha entre esses dois lugares estava condicionada à presença da mulher mais linda que já vira na vida: uma loira totalmente Barbie, de olhos grandes, lábios fartos, nariz delicado e arrebitado, cabelos compridos, pernas longas, seio hipnótico, corpo longilíneo, uma verdadeira deusa. Se ela estava no bar, era ali que ele ficava. Se ela estava tomando sol, ele escolhia a piscina. Ficava admirando-a horas a fio por trás dos óculos escuros. No quinto dia, porém, ele percebeu que ela também o notara. E o mais incrível: quando o via, ela lhe sorria! Infelizmente, Júlio, que era mais baixo que a esposa, não tinha uma autoestima das melhores e, por isso, sentia-se incapaz de qualquer aproximação. É óbvio que aquela mulher, mais alta ainda que Marilda, devia ser uma modelo européia e jamais se interessaria por ele.

— Você está me evitando!! — berrou Marilda, na tarde do sétimo dia.

— Yo? Claro que não, cariño!

— Tá sim! E aposto que já está de olho em alguma sirigaita.

Como ele nada respondesse a essa acusação, a mulher, subindo nos tamancos, se enfureceu:

— Seu desgramado! Eu sabia!

E começou a lhe atirar todo objeto que estivesse ao alcance. O camarote se encheu de cacos e de coisas quebradas. Até o iPhone dele foi trincar-se de encontro à parede. Ao ver isso, Júlio, embora já fosse demasiado tarde, decidiu se defender:

— Marilda! Pelo amor de Dios! Você realmente acha que eu iria atrás de outra mulher logo neste cruzeiro? Eu vim aqui por sua causa! Por nossa causa!

— Eu te conheço muito bem! — esbravejou ela. — Se não foi atrás de ninguém, é só porque você morre de vergonha de ser baixinho!!

Ah, por essa ele não esperava. Desde que se conheceram, nove anos antes, ela jamais fizera qualquer alusão à diferença de altura entre eles. Por alguma razão inexplicável, talvez a intuição feminina, ela jamais se referira àquele fato, pois sentia que, se o fizesse, desencadearia um Armagedom. E foi justamente o que ocorreu:

— Cala essa boca! — berrou Júlio. — Cállate ahora!! Com quem você pensa que está falando?! El hombre aquí soy yo!

— Grande homem! — debochou a esposa, sorrindo sarcasticamente. Para quê… Júlio a tomou dos pulsos à força, puxou-a para si e, sob protestos e pedidos de socorro, deitou-a no colo e levantou-lhe a saia. Quando lhe deu a primeira e fortíssima palmada, chocados, de olhos arregalados, ouviram juntos o som de uma forte explosão. Ficaram paralisados, perdidos num limbo da realidade. Num primeiro momento, parecia que ele havia explodido a bunda dela com a palmada. Mas então veio o som de uma sirene e as luzes vermelhas. O navio adernou acentuadamente para a direita, derrubando-os da cama. Alguém gritou no corredor e, em seguida, pelos alto-falantes:

— Todos para o convés! O navio está afundando!

Apavorados e silenciosos, fugiram de mãos dadas pelo corredor, quase correndo pelas paredes. Os passageiros atropelavam-se, tomados pelo mesmo pânico. Por sorte, Júlio e Marilda estavam apenas um andar abaixo do convés, o qual alcançaram com relativa rapidez. Mas não foi o suficiente. Ninguém sabia o que estava ocorrendo, mas o céu azul, sem nuvens, a completa ausência de recifes ou corais, indicava que o acidente fora causado por algum vazamento de gás ou, quem sabe, até mesmo por uma bomba. O sol começava a esconder-se no horizonte. Sem sucesso, os marinheiros tentavam liberar os botes salva-vidas. Mas já era tarde, o rombo no casco certamente era enorme e, quando o casal deu por si, já estava dentro d’água. O navio desapareceu em menos de três minutos.

— Júlio!! — gritou Marilda, que nadava muito mal.

— Aqui! — tornou ele, que tentava subir sobre um grande baú de fibra de vidro.

Os passageiros e a tripulação se espalhavam pela superfície das águas, quase todos aos berros. Júlio não conseguiu afastar da mente a lembrança do filme Titanic: “Então foi assim”, pensava. Já sobre o baú, meteu os braços na água para levá-lo na direção dos gritos de Marilda.

— Marilda!!

— Aqui, Júlio! Aqui!!

Ele remou mais para a direita e a encontrou. Ao mesmo tempo, sentiu que alguém forçava o baú para o outro lado, tentando escalá-lo. Olhou naquela direção: era a belíssima loira.

— Help me, please! — disse ela, o olhar cheio de medo.

— Wait a second — respondeu e, já segurando as mãos de Marilda, tentava puxá-la para cima daquele salva-vidas improvisado. Contudo, por mais que se esforçasse, apenas fazia tombar o objeto.

— Vai logo, Júlio! — gritou então a esposa. — Será que nem pra isso você tem força?! Que droga de homem, viu.
Aquelas palavras converteram Júlio num iceberg. O iceberg que afundou Marilda. Sem esboçar qualquer sentimento, soltou-lhe as mãos e observou-a afundar no mar escuro:

— Adiós, Leonardo DiCaprio — disse o argentino à meia voz. E, voltando-se para o outro lado, deu as mãos para aquela beldade. Embora fosse mais alta, a mulher tinha corpo de modelo, era bem mais magra que sua esposa e, por isso, não houve maior dificuldade em puxá-la para cima do baú sem desestabilizá-lo. Juntos, remaram para longe do desastre, temendo que outras pessoas pudessem virá-los. Horas mais tarde, adormeceram um nos braços do outro, passando toda a noite assim. Na manhã seguinte, despertaram encalhados numa minúscula ilha deserta, dotada não mais que de cinco coqueiros.

Sete anos mais tarde, o novo veleiro da família Schürmann passava por ali. Heloísa, de pé no convés, apreciava o horizonte com um binóculo.

— Vilfredo! — gritou ela. — Acho que tem alguém pulando e gritando numa ilhota nesta direção.

— Deve estar pedindo ajuda. Pode ser um náufrago. Vamos lá.

O casal corrigiu a rota e rumou para o salvamento. Meia hora depois, ancoravam a uns cem metros da pequena praia. Na areia, distinguiram dois homens com longas barbas: um alto e loiro, e outro baixinho de cabelos castanhos. Apenas o mais alto pulava, gritando e agitando os braços, cheio de felicidade.

Vilfredo preparou o bote inflável e foi resgatá-los:

— O que aconteceu com vocês, meus amigos? — perguntou em inglês, assim que se encontraram.

— Nosso navio afundou anos atrás. Foi muito triste. Se não fosse pelo Júlio aqui, eu teria morrido.

Quando Vilfredo olhou para Júlio, notou que ele tinha a expressão mais triste deste mundo.

Fim.

Moral da história 1: Esposa, não encha tanto o saco do seu marido: num momento de crise, isso poderá até mesmo custar a sua vida.

Moral da história 2: Marido, por mais que ela o atormente, não seja desleal à sua esposa: do contrário, você poderá levar no rabo durante sete anos.

Moral da história 3: Travesti, nunca se esqueça de, numa viagem longa, levar um grande suprimento de hormônios femininos. Do contrário, caso você curta ser passivo, terá de se contentar em ser ativo: contra a vontade do outro parceiro…

8:21 amSão Paulo, a linguagem e os gritos das mulheres

Eugen Rosenstock-Huessy

(Eugen Rosenstock-Huessy)

Quase todas as civilizações não-cristãs preservam os sinais da irrupção da queixa legal e formal a partir de uivos e gritos naturais e animais. Espera-se que as mulheres contribuam com gritos selvagens, passionais e inarticulados de cego sentimento. Espera-se que os homens construam sobre esse estrato natural a estrutura da linguagem elevada e articulada. Tanto os ritos dionisíacos como os enlutados profissionais entre os judeus dos guetos poloneses cumprem ambas essas funções. As mulheres e as crianças gritam, choram, tremem; os homens agem e falam.
Tal divisão do trabalho parece provar que deparamos, aqui, com importante lei da história: um novo ritual, criado como vitória sobre um aspecto negativo da vida, consiste nos atos e gestos, sons e palavras pelos quais o aparecimento da ordem a partir do caos, da forma a partir da confusão, pode ser revivido todas as vezes que se executa o ritual. A situação negativa anterior torna-se parte do ritual, para que a solução positiva que se segue não fique incompreensível. Rituais cuja pré-história, cuja “irritação” deixa de ser compreensível não nos tocam. A reverência pelo poder humano de falar depende do nosso medo de submergir no estado animal. Em nosso meio, as mulheres podem manipular o discurso tanto quanto os homens. Mas no início de nossa era, e, como eu disse, fora do vital desabrochar cristão, esse não era e não é o caso. Nesses estratos, a espécie humana ainda está ocupada em representar o processo que vai do grito à fala, executando os procedimentos pelos quais essa emergência é alcançada.

O espírito procede, por um lado, na interação entre mulheres e crianças e, por outro, na interação dos homens. Esse é o significado do termo “processo do espírito”. A mente moderna não tem muito uso para esse termo criativo — ela poderia falar de “emergência desde o caos”. No entanto, a palavra “emergência” vai parar longe do ponto central do ritual. Emergimos da água, de um choque, de um feitiço, mas os elementos de que emergimos são deixados para trás. A emergência é um processo natural, e na natureza o indivíduo e o meio ambiente são vistos como entidades separadas. No ritual prevalece a atitude oposta: os gritos são transubstanciados, e a fala procede das origens mesmas: dos sons que compunham os gritos. Por milhares de anos, quando se cometia um assassínio, exigiu-se que os parentes do morto levassem o corpo ante os juizes. Na corte, a queixa era feita tanto pela lamentação das mulheres como pelas acusações verbais do parente mais próximo.

Esse dualismo tornou transparente o ‘concentus’ entre nossa natureza animal e nossa história formal. O homem primeiro gritou e depois falou, porque falar era o primeiro passo para longe do grito. Choros e gritos eram inseridos na cerimônia como medida da linguagem articulada. Tal interação na religião entre grito e nome, entre mulher e homem, representou a reconciliação entre nossa natureza animal e nossa natureza intelectual. Quando Paulo pediu que as mulheres fizessem silêncio na igreja, ele o fez num tempo em que era normal e esperado que as mulheres — as judias como as gentias — emitissem uivos e gritos terríveis, fossem sibilas e bacantes, chorassem passionalmente em cada funeral. Os modernos detratores de Paulo geralmente não têm a menor ideia do que estão atacando. Paulo tornou a linguagem formal acessível às mulheres, libertando-as do fardo do ritual pré-cristão em que derramavam cinzas sobre a cabeça, perfuravam os seios e emitiam longos e profundos gemidos durante muitos dias. Paulo estava diante de pessoas passionais que gaguejavam e tinham ataques ante a recente concessão de liberdade, pessoas que tinham sido obcecadas por espíritos e demônios de seu clã ou família.

A ‘taceat mulier’ [“Que a mulher se cale”] de Paulo lançou os fundamentos de uma nova verdade: de agora em diante, as mulheres poderiam participar da palavra, tanto quanto os homens. E sua ordem foi bem-sucedida. Já não receamos ouvir gritos histéricos na igreja. Nas reuniões religiosas, as mulheres comportam-se tão respeitosamente como os homens. E agora, as mulheres desprezam o reacionarismo de Paulo. Que elas se perguntem a si mesmas se, depois de Hitler, podem negar a existência da natureza animal do homem. Será impossível regredir à histeria? Será incompreensível um ritual que é oficiado pelo espírito e em que nós mesmos nos lamentamos de ter matado o filho de Deus? Se a “histeria” e a natureza animal tivessem desaparecido de todo, já não precisaríamos de ritual. Quando já não nascer nenhuma criança e a última geração viver para sempre, poderemos deixar de lado o ritual. O ritual insiste em que todas as nossas conquistas na história se fazem com base nos fundamentos elementares de nossa origem animal. Na história, portanto, não perdura nada que não seja incessantemente restabelecido. As línguas não “nascem”. O homem tem de aprender a falar, assim como tem de aprender a escrever. A fala da criança e a escrita do aluno não são senão pequenos fragmentos dos poderes conferidos ao homem pelo ritual tribal.

O ritual tribal comunicava religião, lei, escrita e fala. O ritual criou o tempo — como passado e futuro —, o poder — como liberdade e sucessão —, a ordem — como título e nome —, a expectativa — como cerimônia e vestuário —, a tradição — como canto fúnebre e mito do herói. O ritual ligou o homem ao tempo, e isso é expresso pelo termo “religião”. Dedicaremos uma seção especial à tragédia de tais “ligações”. Com efeito, as forças “ligantes” da religião tribal tornaram-se cruéis grilhões. Certamente não estou cego a essa crueldade. O melhor é sempre o berço da mais terrível corrupção. Mas, em primeiro lugar, a tribo deve ser avaliada positivamente, em sua grandeza, isto é, a grandeza de que, afinal, tenhamos aprendido a falar. Os evolucionistas não podem fazer justiça a essa grandeza, já que dão a linguagem por pressuposta. Quem vê emudecer todos os estratos da vida e tudo recair na estupidez ou na guerra civil, admira a realização graças à qual somos capazes de falar. É claro que o perpétuo pro-cessus por que os sons animais se podem transubstanciar em linguagem não foi nem é possível senão quando a alma inteira do homem, macho e fêmea, entra no pro-cessus. Não é importante senão aquilo para que tanto os homens como as mulheres contribuem.

Mas é exatamente esse o caráter do ritual. Ele baseia-se no choque de duas naturezas, a feminina e a masculina, e sobre essa base institui uma ordem que busca perpetuar-se. O ritual representa, incessantemente, a primeira vitória sobre a mudez. O ritual criou uma ordem duradoura, que ultrapassa em muito o momento.

À medida que percebemos a relação entre as horas sagradas do ritual e o longo futuro, podemos compreender outro aspecto da linguagem até agora incompreensível. Invariavelmente, as pessoas pensam que alguém um dia começou a chamar à cabeça “cabeça”, à mão “mão”, e que depois a palavra entrou no dicionário, e passou a ser usada por todos, e todos foram felizes para sempre. O oposto é o verdadeiro. Antes de nossa era, nenhuma palavra entrava em dicionário se não fosse usada em ritual. Então nenhuma palavra era palavra se não tivesse sido dita primeiramente como nome sagrado. Miosótis não eram “miosótis”, juncos não eram “juncos”, carvalhos não eram “carvalhos”, antes de o chefe ou o pajé se dirigirem a eles em ritual público e os convidarem a participar. As pessoas falavam com flores e animais, com fogo e água, com árvores e pedras num ritual, antes que qualquer um falasse deles. Assim, quando alguém falava com eles pela primeira vez em língua humana, recebiam nomes plenos e não palavras vazias.

Os filhotes e sua mãe podem apontar uma noz ou um graveto, podem gritar de alegria brincando com isto ou aquilo, lá e cá. Procuram, aqui e acolá, alimento, brinquedos e armas. Mas nenhum nome resulta de toda essa vida momentânea. O ritual é necessário para criar uma linguagem que atravesse cinquenta ou cento e cinquenta gerações. Essa linguagem é essencial para o ritual. O ritual está para o tempo assim como uma hora ou um dia estão para todo o passado, que o ritual revela com seus nomes, e para todo o futuro, que o ritual vela com seu vestuário cerimonial. O ritual era o mais demorado possível, porque ele encena o “para sempre e sempre”. O ritual cria, presumivelmente, uma ordem duradoura, que vai muito além do momento. A tarefa de formar uma taça de tempo de promessa e cumprimento parecia estupenda. A tribo podia celebrar durante três dias ou uma semana. Mas permanecia o fato de que as reuniões teriam de se dispersar mais cedo ou mais tarde; as pessoas precisavam voltar para casa. O ritual precisava compensar essa perda de continuidade e de presença física. A linguagem e o vestuário tornaram-se, então, os representantes do ritual para o tempo em que a tribo não estivesse reunida. A deficiência do ritual é que, comparados aos espaços de tempo que tenta abarcar, seus próprios procedimentos nunca são suficientemente longos. Em consequência, o ritual teve de criar representações duradouras. E foi tão bem-sucedido nisso, que ainda falamos línguas de seiscentos anos atrás. As línguas são imortais porque tinham por alvo a imortalidade!
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Trecho de “A Origem da Linguagem”, de Eugen Rosenstock-Huessy.

7:22 amA rave do Safatle

Doze anos atrás eu quase conheci pessoalmente o Vladimir Safatle. Foi numa chácara da Serra da Cantareira, em São Paulo. Ao menos me disseram que era ele: “Vladimir, o goiano que é professor de filosofia na USP, tá aí”. Mas, enquanto eu, sentadinho em posição de lótus, curtia tranqüilamente a minha ayahuasca, o cara, juntamente com um amigo, fugia da chácara doidão, assustado porque lhe haviam dito que aquela “balada” seria uma rave, mas, segundo ele então passou a acreditar, na verdade não passava do estranho culto de uma “seita” qualquer. Seita? Nem notei. Enfim… Até hoje fico tentando imaginar como teria sido a badtrip desse cara, com a cachola esquerdista pra lá de psicodélica, circulando pelos labirintos da capital paulista… Credo. Foi certamente algo à la Thomas Pynchon, cujos personagens paranóicos são “perseguidos”, não apenas por seitas, mas também por mega-corporações, pela CIA, pela NSA, o FBI, os Illuminati e assim por diante.

Ah, a minha doce e perigosa fase de maluquices…

4:16 pmA Importância da Literatura

Aula do Professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto.

9:19 amComparando personagens de ficção

Nego se espanta com o surgimento súbito dessa enorme quantidade de “reaças” e “coxinhas”, mas é incapaz de perceber que a maioria dessas pessoas não é formada senão por pessoas sensatas a observar os acontecimentos políticos pelo viés do senso comum — que é o mais comum dos sensos. Senso ou sentido comum é aquela bússola moral que nossos bisavós e trisavós nos legaram. É imperfeita e incompleta, mas é a melhor que temos. A mesma bússola que a revolução cultural estimulada por Gramsci e pela Escola de Frankfurt, e espalhada aos quatro ventos pelas universidades do mundo inteiro, vêm tentando destruir nas últimas décadas. Felizmente, como bem mostra Andrew Lobaczewski, toda essa ilusão “ponerológica” tem perna curta. Um Riobaldo sempre será mais sábio que um professor da USP.

8:17 amZen petróleo

Há quem observe a roubalheira da Petrobrás — entre várias outras ladroagens governamentais — e fique quietinho, impassível, acreditando-se um monge zen-budista: “ah, essas coisas materiais não me atingem”. Quem reflete assim não entendeu o zen direito. A ver.
Quando certo mestre zen se deparou com dois grupos de monges brigando a chutes e ponta-pés, perguntou: “O que está acontecendo? Por que estão lutando desse jeito?”. Um deles respondeu: “Mestre, eles estão dizendo que este gato é deles, mas não é verdade, este gato pertence ao nosso mosteiro”. “Que mentira!”, retrucou um outro, “nós já cuidávamos desse gato no ano passado! Vocês o roubaram!”. E a porrada já ia voltar a comer quando o mestre gritou: “Chega!!!! Parem com isso!”, e então se aproximou do monge que mantinha o gato no colo: “Deixe-me vê-lo”. E o outro, de cabeça baixa, deu o gato para o mestre, que, após depositá-lo ao chão, retirou a espada da cintura e — ZAZ! — cortou o gato ao meio: “Pronto, agora cada mosteiro pode levar seu pedaço de gato”.
Quando Monteiro Lobato viajava pelo país com seus sócios, vendendo ações de sua companhia de petróleo a brasileiros comuns, era isso o que ocorria: o gato era distribuído entre todos. Mas, assim que o primeiro poço de petróleo jorrou, Getúlio Vargas o encampou (eufemismo estatal para roubar) e criou o Conselho Nacional do Petróleo, cujo corolário ainda de pé hoje se chama Petrobrás. Repito: Getúlio estatizou todos os poços de petróleo da época. Ou seja: a Petrobrás já nasceu de um roubo, trata-se de um gato morto, uma colagem de pedaços mortos. O melhor a fazer seria privatizar essa merda de uma vez por todas e parar com esse “o petróleo é nosso! o petróleo é nosso!”. Esse slogan foi criado na época de Vargas para justificar a mesmíssima pilhagem, uma vez que boa parte dos brasileiros que vinham comprando ações de empresas de petróleo privadas era imigrante e, por isso, tinha sobrenomes estrangeiros. Se você se tivesse um sobrenome italiano, japonês, alemão, polonês, etc. e tal, já não estaria incluído nesse “é nosso!”. Enfim, cortem logo a porra desse gato e deixem os empreendedores fazer o que sabem: alcançar e distribuir a prosperidade com eficiência e proporcionalidade.