Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

São Bernardo de Claraval, Abade: “Em Louvor da Nova Milícia aos Cavaleiros do Templo” (Texto Completo)

ADVERTÊNCIA SOBRE O OPÚSCULO VI.

1. O livro apresentado nos códices antigos ostenta este título: “Inicia-se o prólogo de São Bernardo, abade, no livrinho aos Cavaleiros do Templo”; e após o prólogo: “Iniciam-se os capítulos sobre o louvor da nova Milícia”. Estes são ao todo treze, como em nossas edições, onde retivemos os títulos segundo a intenção do autor. Este livro é chamado por Geofredo, no oitavo capítulo do terceiro livro da Vida de Bernardo, de “Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Diz ele: “O quão fiel recomendador e ajudante foi de qualquer piedosa conversão, declara-o o Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Assim, portanto, o título deste livro pode ser estabelecido como: “Livro aos Cavaleiros do Templo, sobre o louvor da nova Milícia”.

2. O prólogo, contudo, é dedicado a “Hugo, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo”; mas dá no mesmo dedicar o livro ao Mestre da Milícia ou a todos os Cavaleiros. Foram chamados de Irmãos do Templo pelo fato de que, por concessão do rei Balduíno, estabeleceram-se primeiramente junto ao Templo do Senhor, conforme atesta Guilherme, arcebispo de Tiro, no capítulo sétimo do décimo segundo livro, onde descreve a origem deles por volta do ano 1118. Diz ele: “No mesmo ano, certos homens nobres de ordem eqüestre, devotos a Deus, religiosos e tementes a Deus, entregando-se ao serviço de Cristo nas mãos do senhor patriarca, professaram o desejo de viver perpetuamente ao modo dos cônegos regulares, em castidade, obediência e sem propriedade. Entre os quais, os primeiros e principais foram os veneráveis homens Hugo de Payns e Geofredo de Saint-Omer; como não possuíam igreja nem domicílio certo, o Rei concedeu-lhes temporariamente uma habitação no palácio que possui na parte sul, ao lado do Templo do Senhor. Sua primeira profissão, no entanto, e o que lhes foi imposto pelo senhor patriarca e outros bispos para a remissão dos pecados, foi que preservassem, segundo suas forças, os caminhos e estradas contra as ciladas de ladrões e assaltantes, especialmente para a segurança dos peregrinos”.

Isto sobre a origem dos Cavaleiros do Templo, aos quais o primeiro Mestre nomeado foi o supracitado Hugo de Payns, a quem o mesmo Guilherme de Tiro chama de primeiro mestre da milícia do Templo no vigésimo sexto capítulo do décimo terceiro livro. A segunda epístola de Guigo, prior da Cartuxa, é dirigida a “Hugo, Prior da santa milícia”. Este é o Hugo a quem Bernardo dedicou o livro seguinte, devendo ser distinguido, certamente, do outro Hugo que, de Conde de Champagne, tornou-se cavaleiro do Templo, conforme atesta a trigésima primeira epístola de Bernardo a ele dirigida. Além disso, a Hugo de Payns, primeiro Mestre da milícia, sucedeu o “exímio cavaleiro e vigoroso nas armas, nobre em linhagem e costumes, o senhor Roberto, de sobrenome Borguinhão, de nação aquitânia”, por volta do ano 1136, como se colhe de Guilherme de Tiro no sexto capítulo do décimo quinto livro, que também trata do mesmo no início do décimo sétimo livro. A Roberto parece ter sucedido Everardo, a quem Pedro, o Venerável, escreve uma epístola, que é a vigésima sexta do sexto livro.

3. Em que ano este livro foi escrito, não o diria facilmente. Consta que tal fato ocorreu quando a Ordem já havia crescido muito e o número de cavaleiros se multiplicado. As palavras de Bernardo no número 10 provam isso: “Estas coisas são praticadas em Jerusalém, e o mundo se desperta. As ilhas ouvem, e os povos de longe prestam atenção; fervilham do Oriente e do Ocidente… E o que se percebe como mais alegre e se realiza de forma mais oportuna é que, em tão grande multidão de homens, verás confluir para lá apenas uns poucos que não sejam criminosos”, etc. Ora, antes do Concílio de Troyes, isto é, antes do ano de 1127, havia apenas nove cavaleiros daquele instituto, como logo veremos por Guilherme. Portanto, dificilmente se pode dizer que este livro foi composto antes de 1132, mas certamente antes de 1136, ano em que, aproximadamente, o mestre Roberto sucedeu a Hugo.

4. Miraeus publicou a Regra dos Templários a partir de um códice vitorino e a inseriu na Crônica Cisterciense, afirmando ser ela “ditada pelo santo abade Bernardo de Claraval, como fica evidente pelo prólogo”. Esta Regra consta de tantos capítulos quanto a Regra de São Bento (da qual foi tomada em grande parte palavra por palavra), isto é, setenta e dois capítulos. Antes do prólogo, ela é assim intitulada: “Regra dos pobres comilotes de Cristo e do Templo de Salomão”. Manrique, no ano de 1128, capítulo 2, atribui esta Regra a Bernardo como autor, junto com Miraeus, e para provar isso aduziu duas passagens do prólogo. A primeira passagem diz assim: “Certamente, embora o número vastíssimo de Padres religiosos que se reuniram naquele concílio por advertência divina recomende a autoridade de nossa redação; não devemos passar em silêncio que, sob a vista deles e proferindo sentenças verdadeiras, eu, João de Michel, mereci ser pela graça divina o humilde escrivão da presente página, por ordem do concílio e do venerável abade de Claraval, a quem isto fora confiado e era devido”.

Contudo, estas palavras não significam que qualquer Regra tenha sido composta por Bernardo para os Templários: mas que ele transferira para João de Michel o ofício de escrivão que lhe fora imposto. 543 Nem se conclui nada além das palavras seguintes, que são relatadas desta maneira após a enumeração dos Padres do Concílio de Troyes: “O próprio mestre da milícia, de nome Hugo, de fato não faltou, e trouxe consigo alguns de seus irmãos, a saber, o Irmão Gofredo, o Irmão Roval, o Irmão Geofredo Bisol, o Irmão Pagano de Montdidier e Arcambaldo de Saint-Aignan. Este mestre Hugo, com estes discípulos, comunicou aos Padres acima nomeados, segundo o conhecimento de sua memória, o modo e a observância do início modesto de sua Ordem militar, que tomou seu exórdio daquele que diz: ‘Eu sou o princípio, eu que vos falo’. Aprouve, portanto, ao concílio que o conselho ali diligentemente examinado pelo crivo e consideração das Divinas Escrituras fosse recomendado por escrito e observado inabalavelmente, todavia com a providência do Papa Romano e do Patriarca de Jerusalém, bem como com o assentimento do capítulo dos pobres comilotes do Templo que está em Jerusalém”.

Por estas palavras, entendemos apenas que foi sancionado pelos Padres que uma Regra fosse prescrita aos Cavaleiros com o consenso deles, consultados o Pontífice Romano e o Patriarca Jerosolimitano; mas de modo algum Bernardo é afirmado como seu autor. Pelo contrário, Alberico, da Ordem Cisterciense, escreve que a Regra de Santo Agostinho foi imposta a esses mesmos Cavaleiros. Por isso, no Monasticon Anglicanum, eles são remetidos à Ordem de Santo Agostinho. Seria muito estranho se Alberico de Trois-Fontaines, monge cisterciense não distante de Claraval, ignorasse esta Regra de Bernardo e tivesse atribuído outra aos Cavaleiros que restavam em seu tempo.

Guilherme, bispo e arcebispo de Tiro, relata no já citado capítulo sétimo do livro décimo segundo que, para os mesmos Cavaleiros que antes do Concílio de Troyes “não eram senão nove, por mandato do senhor Papa Honório e do senhor Estêvão, patriarca de Jerusalém, foi instituída uma Regra e atribuído o hábito branco”, sendo que antes usavam vestes comuns. “Posteriormente, no tempo do senhor Papa Eugênio, conforme se diz, começaram a costurar cruzes de pano vermelho em seus mantos”, tanto os cavaleiros quanto seus irmãos chamados Sargentos. Cuja situação cresceu tanto imensamente que hoje, diz Guilherme, “têm no convento trezentos cavaleiros, mais ou menos, vestidos com mantos brancos, excetuando-se os Irmãos”.

Destas últimas palavras, deduzimos que aquela Regra que é atribuída a Bernardo como autor não foi escrita senão depois de Guilherme de Tiro; visto que no capítulo vigésimo primeiro são notados certos “pseudo-irmãos das partes de além-montanha, mentindo ser do Templo”; e certas coisas que cresceram entre os próprios Cavaleiros “sem discrição e conselho do capítulo comum” são argüidas como devendo ser totalmente amputadas, a saber, que “outrora os criados e escudeiros tinham vestes brancas, de onde vinham danos insuportáveis”. Ora, não houve nenhum capítulo geral dos Templários antes do Concílio de Troyes; nem antes havia um hábito peculiar dos Cavaleiros, mas o comum. O branco lhes foi concedido pelos Padres do concílio, exceto aos Sargentos. Claramente, apenas por estas palavras se entende que, ao menos este capítulo, foi acrescentado muito depois do tempo do concílio. O capítulo sétimo não só não louva o “ficar de pé para ouvir o ofício divino”, mas até o vitupera e estabelece que seja ouvido sentando: estatuto este que certamente não teria vindo à mente de Bernardo. No capítulo qüinquagésimo sexto estabelece-se “que não se tenham mais irmãs”: o que prova não ter sido uma instituição recente. Se João de Michel é o autor desta Regra, deixo para que outros julguem. Não é indigno de observação nela que o termo “colação” é usado para a pequena refeição dos jejuns no capítulo décimo sexto.

A HUGO, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo, BERNARDO, apenas de nome abade de Claraval: combater o bom combate.

Uma, duas e três vezes, se não me engano, pediste-me, caríssimo Hugo, que escrevesse um sermão de exortação para ti e teus comilotes; e que, já que não me era permitido vibrar a lança contra a tirania inimiga, vibrasse a pena, afirmando que vos seria de não pouco auxílio se eu animasse por letras aqueles a quem não posso animar por armas. Certamente adiei por algum tempo: não porque a petição parecesse desprezível, mas para que não fosse culpado de um assentimento leve e precipitado se, sendo eu inexperiente, presumisse realizar o que alguém melhor seria capaz de cumprir com mais perfeição, e uma coisa tão necessária acabasse por ser feita de modo menos conveniente por mim. Contudo, vendo-me frustrado por uma espera bastante longa desse tipo, para não parecer que agora mais me faltava a vontade do que a capacidade, finalmente fiz o que pude: que o leitor julgue se o satisfiz. E ainda que a alguém porventura nada agrade ou não seja suficiente, isso não me importa, pois não faltei à tua vontade conforme o meu entender.

O Fim do Mundo

Em 1999, quando eu dirigia pela Marginal Tietê, via outdoors pretos enormes com os dizeres em branco: “Jesus está voltando”. Na mesma época, houve o Grande Apagão de Março, um evento impressionante, principalmente para quem ligou o rádio no momento mesmo em que ele ocorria: “houve uma explosão solar, o apagão é global”, etc. etc. Já no “sétimo mês”, em Julho, a OTAN − “o grande rei do terror”, segundo a propaganda sérvia − atacou nostradamicamente Belgrado.

Ainda no mesmo ano, tal como comento no meu livro “O Exorcista na Casa do Sol”, houve a noite em que a Hilda Hilst, depois de uns uísques, tentou me sacanear dizendo que o mundo já havia acabado e só sobráramos nós dois sentados numa réplica astral da sua sala de estar. Quando fiz cara de preocupado – “será que ela ficou gagá?” –, ela caiu na gargalhada.
Passei os réveillons de 1999, de 2000 e de 2001 em meio a gente cujo pensamento subjacente era: “Agora o mundo acaba”. Coisas de Alto Paraíso de Goiás, se é que me entendem… E, no entanto, depois de cada virada… nada. (Tudo isso sem mencionar a turma do Calendário Maia, que teve paciência até 2012.)

Enfim, parafraseando Louis Pauwels, o milenarismo apressadinho é uma doença cíclica do espírito. O interessante é que ele tem ressurgido nas bocas de alguns curiosos youtubers. Ora bolas, só Deus sabe o ano, o mês, a semana, o dia, a hora e o minuto. E ficar empolgado, acreditando que será um dos profetas ou uma das testemunhas desse acontecimento insigne, me soa como uma das coisas mais presunçosas do mundo.

Projeto de Lei: o cartório do cartório do cartório

Em vez de acabar com os cartórios — esse graaaande avanço civilizacional — deviam criar o “cartório do cartório” e o “cartório do cartório do cartório”. Seria assim: primeiro você vai ao cartório reconhecer firma, depois vai com o tabelião ao cartório do cartório que reconhecerá o reconhecedor da firma e assim por diante. Entendeu? Vou esmiuçar. Dá até para dividir o Uber com os funcionários. Com o primeiro tabelião, do cartório, e com o segundo, do cartório do cartório, você vai até o cartório do cartório do cartório que reconhecerá que os dois tabeliões anteriores são confiáveis e reconheceram a firma corretamente. Obviamente, se a pessoa achasse o processo todo muito trabalhoso, poderia recorrer a uma agência de sósias, a qual possuiria atores treinados em imitar a assinatura do cliente. Aí o ator, fingindo ser você, iria até o cartório e, em seguida, ao cartório do cartório e ao cartório do cartório do cartório. Os despachantes poderiam oferecer esse serviço. Claro, é possível que algum legislador, notando a tramóia, decidisse criar o cartório do cartório do cartório do cartório, no qual haveria, graças ao banco de dados do TSE, o reconhecimento da digital. Por que não colocariam reconhecimento da digital no primeiro cartório? Ora, e acabar com os empregos gerados pelo cartório do cartório, do cartório do cartório do cartório e do cartório do cartório do cartório do cartório? Sacanagem. Os parasitas também são gente, precisam sobreviver.

Chow! Chow!

— Você não pode dizer “vírus chinês”: isto é ra-cis-mo!
— Deixa de falar abobrinha, Tiago. Eu nem sei qual é a raça do vírus. Não sei se é pequinês, shih tzu, pug, chow chow…
— Ha-ha. Muito engraçado. Vírus não é exatamente um ser vivo. Só vive quando está dentro de você.
— Tá, mas deixa eu voltar aonde parei. Não quero ficar falando das características do zumbi microscópico. Eu só estava dizendo que o vírus chow chow ou pug (você decide a raça), enfim, que ele é uma arma do Partido Comunista deles. Isso é óbvio.
— E eles iam começar matando o próprio povo? Tá bom.
— Caramba, você não entende nada de comunista mesmo. Quem mais mata comunista nesse mundo é outro comunista, garoto.
— Querem parar com essa discussão na hora do almoço? Deixa o menino falar o que quiser, Alfredo.
— E não tô deixando? Mas eu também posso dizer o que eu penso, oras. Esse garoto, depois que entrou na universidade, ficou bobo. Impressionante! Não posso nem falar que “a coisa tá preta” que já me chama de racista. Tô de saco cheio.
— Bom, enquanto as aulas não voltarem, você vai ter de me aturar.
— E vê se pára de me tratar por “você”. Eu sou seu pai e pago as contas. Diga “senhor”, ouviu?
— Ai, que saco.
Tapa na boca.
— Parem já com isso, pelo amor de Deus!
O filho sai e, ao entrar no quarto, bate a porta.
— Esse moleque anda muito impertinente, Marisa. Pior que o vírus chinês é o vírus que ele pegou na faculdade. E ainda arranjou aquela lambisgóia pra namorar. Porra! A menina é careca! Que coisa mais feia!
— Uê, não era você o apaixonado pela Sinéad O’Connor? Vivia cantando pra mim “nothing compares to you”…
— Não compara a Sinéad com a lambisgóia. Nada compares to Sinéad! Ela não tinha um pentagrama satânico tatuado na cabeça e nem piercing nos mamilos.
— Ué! E como você sabe que a Gislaine tem piercing nos mamilos?
— Nossa, Marisa, como você é desatenta. A garota não usa sutiã e vem de camiseta aqui. Você acha que aquilo é o quê? A chave onde você liga e desliga a psicopatia dela?
— Ai, Alfredo, essa quarentena tem de acabar. Vocês dois vão me deixar louca!
— É a faculdade e a… como ela chama?
— Quem?
— A namorada dele, porra.
— Gislaine.
— Então, é ela e a faculdade que estão deixando nosso filho doido e, de tabela, nós dois. Em plena era da Fake news, o moleque foi escolher logo jornalismo para estudar. Que palhaçada.
— Tá, Alfredo, tudo bem. Também não estou satisfeita. Mas você precisa ter mais paciência. Desse jeito você vai acabar enfartando.
— Pelo menos essa agonia acabaria logo.
— Credo, meu amor! Não fala isso.
— Já tem político idiota querendo arrastar a coisa por mais alguns meses. Tem filho da puta dizendo que a quarentena tinha de durar até 2022! Imagine! Se a gente ficar desse jeito mais quinze dias, a empresa vai quebrar e vou acabar na rua.
De máscara, o filho sai do quarto, levando uma mochila às costas.
— Aonde você pensa que vai?
— Já falei com a Gislaine. Vamos morar juntos.
— Mas, meu filho, como vocês vão se manter?
— A gente dá um jeito, mãe. Aqui é que eu não fico mais.
— Deixa ele, Marisa. Assim pelo menos ele vai ver o que é bom pra tosse. Tá achando que sustentar uma esposa é fácil? Uma família então…
— Não tem problema. O Rogério também vai ajudar.
— Ah, é? E agora você vai depender de dinheiro de amigo?
— Ele não é só meu amigo. O Rô também namora a Gislaine. Somos um trisal.
— Meu filho!
— Puta que o pariu! Tá vendo, Marisa? Aquela garota é o cão. É uma islâmica ao contrário! Em breve terá quatro maridos e, em seguida, um harém.
— Pára de falar besteira, pai.
— Besteira? Eu já notei a maneira como ela fala com você: te trata feito um discípulo, um seguidor. Você é todo desafiador comigo, com seu próprio pai que sempre te amou e cuidou de você, e só falta lamber o chão que a Gilânia pisa.
— Gislaine.
— E o que eu disse? Gislânia. Aposto que você é coprófogo e ainda come a merda dela. Seu palhaço fresco.
— Eu e o Rô já bebemos mesmo o mijo dela. Nós três, no chuveiro…
A mãe fica zonza:
— Ai, ai, meu Deus, preciso me sentar.
— Sai daqui, moleque! Vai lá pra tariqa da sua mestra, vai. Vai pro ashram dela. Vai lá beber xixi e só volte quando estiver arrependido, trabalhando de terno e gravata.
— Vou mesmo. Não suporto mais essa caretice, esse conservadorismo hipócrita de vocês.
— Ah, é, somos hipócritas: eu e sua mãe ficamos zangados na sua frente e, mais tarde, na cama, comemos o cocô um do outro.
— Vai, meu filho, vai. Antes que seu pai tenha um troço.
— Tchau pra vocês.
— Isso! Chô chô. Se manda. Chow chow! Vai lá se contaminar ainda mais com esse vírus universitário seu.
— Lula livre!
O filho sai e bate a porta.
— Não disse que a gente devia ter tido uns cinco filhos? Agora não temos mais nenhum.
— Ai, Alfredo, não fala assim.
— Falo, sim, falo. Senão eu explodo!

O futuro do mundo

Pelo jeito, o futuro do mundo é este mesmo: a esquerda revolucionária desgraçará as sociedades e enfraquecerá todos os países, em seguida, aproveitando a resultante geléia anímica geral, o Islã dominará de cabo a rabo a Terra inteira, obviamente cortando as cabeças dos esquerdistas mimizentos, e, como cereja do bolo — já que todo mundo tem de quebrar a cara, incluindo os muçulmanos —, Jesus finalmente voltará. Fim.

Malditos ingleses

Ela deixou o irmão sozinho no carro e retornou correndo à clínica psiquiátrica:
— Doutor, você acabou de lhe dar alta, mas ele continua surtado.
— Seu irmão está tranqüilo, dona Paula, não se preocupe.
— Tranqüilo? Ele ainda acha que é Napoleão!
— Ah, sim: ele se identifica como Napoleão. Mas isso não é nada.
— Como assim “nada”, doutor? Isso é horrível!
— Horrível por quê? No STF, há rábulas que se identificam como juízes; no Planalto, há um ladrão que se identifica como presidente; na Europa, há um rapaz que se identifica como Miss Holanda; nas TVs, há militantes que se identificam como jornalistas, e assim por diante. Por que seu irmão não pode ser Napoleão?
— Mas… mas… tudo isso é loucura!
— Exato! — e o psiquiatra sorriu. — Logo, se a sociedade está louca, por que seu irmão deveria ser normal? Para ele se sentir desconfortável? Deslocado? Não, não. E o que é a normalidade afinal? Ora, tenha certeza de que ele está mais adaptado ao momento presente do que nós dois.
— Doutor Rodrigo, o senhor não… — mas, de súbito, ela se calou. De cenhos franzidos, ambos passaram a ouvir gritos e protestos vindos de fora. Assustada, Paula saiu à rua e se deparou com uma cena terrível: a torcida do Internacional de Porto Alegre depredava o carro com seu irmão lá dentro. Atrás do veículo, alguns torcedores atendiam seus colegas feridos, deitados no asfalto.
— Parem com isso! Estão assustando meu irmão, ele é um doente mental!
— Não falei que ele era louco? — disse um torcedor.
Outro torcedor, mancando, se aproximou:
— Moça, foi ele quem nos atropelou! Estávamos apenas atravessando a rua e ele jogou o carro na nossa direção.
— Ninguém o provocou — disse uma torcedora.
— Meu Deus… — murmurou Paula, que, batendo à janela com os nós dos dedos, pedia ao irmão para baixar o vidro.
— Malditos ingleses… — balbuciou ele, assim que a obedeceu. — Pensaram que eu não ia reconhecer seus uniformes.
MORAL: Coadunar com a loucura é caminhar para o desastre.

Padre Antônio Vieira: os poderosos e o dia do Juízo

Leia abaixo a parte VIII do Sermão da Primeira Dominga do Advento (1955), no qual Padre Antônio Vieira admoesta os detentores do poder político e do poder eclesiástico: “Oh, se os homens souberam o peso que tomam sobre si, quando com tanta ânsia e negociação pretendem e procuram os ofícios, ou seculares ou eclesiásticos, como é certo que haviam de fugir e benzer-se deles! Mas não os procuram pelo peso, senão pela dignidade, pelo poder, pela honra, pela estimação, e, mais que tudo hoje, pelo interesse. Porém, quando no dia de Juízo se lhes tomar a conta pelo peso, então verão onde os leva a balança”.

VIII

Oh que grande mercê de Deus fôra, se hoje, que estamos na representação do mesmo dia do Juízo, o mesmo soberano juiz nos comunicara um raio daquela luz, para que víramos agora o que então havemos de ver, e com os pecados conhecidos nos presentáramos antes ao tribunal de sua misericórdia, que depois ao de sua justiça! Mas bendita seja a bondade do mesmo Senhor, que não só nos deixou comunicado na sua doutrina um raio daquela luz, senão três, se nós lhe não cerramos os olhos. Sendo a matéria de tudo o que passou para a vida, e não há de passar para a conta, tão imensa à capacidade humana, só a sabedoria divina a poderá compreender; e assim o fez Cristo Senhor Nosso, reduzindo-a, repartindo-a em três parábolas, nas quais nos ensinou em suma toda a conta que nos há de pedir, e de quê. A primeira parábola é dos ofícios, a segunda dos talentos, a terceira das dívidas. E este mesmo número e ordem seguiremos para maior distinção e clareza.

Quanto aos ofícios, diz a primeira parábola (que é a do Villico) que houve um homem rico, o qual deu a superintendência das suas herdades a um criado, com nome de administrador delas. E porque não teve boa informação de seus procedimentos, o chamou à sua presença, e lhe pediu conta, dizendo: Redde rationem villicationis tuae; jam enim non poteris villicare. Dai conta da vossa administração, porque desde esta hora estais excluído dela. Esta circunstância de ser a conta a última, e não se poder emendar, é uma das mais rigorosas do dia do Juízo. Vindo pois ao sentido da parábola: o homem rico é Deus; as suas herdades são as igrejas e as províncias; o administrador no espiritual é o papa, no temporal é o rei, e, abaixo destes dois supremos, todos os outros ministros eclesiásticos e seculares, que repartidamente têm inferior jurisdição sobre os mesmos súditos. A todos estes, pois, há de pedir Deus estreita conta, não só quanto às pessoas, senão também, e muito mais, quanto aos ofícios. Quanto à pessoa, há de dar cada um conta de si, e quanto aos ofícios, há de dar a mesma conta de todos aqueles que governou e lhe foram sujeitos. De sorte que o papa há de dar conta de toda a cristandade, o rei de toda a monarquia, o bispo de toda a diocese, o governador de toda a Província, o pároco de toda a freguesia, o magistrado de toda a cidade, e o cabeça da casa de toda a família. Oh, se os homens souberam o peso que tomam sobre si, quando com tanta ânsia e negociação pretendem e procuram os ofícios, ou seculares ou eclesiásticos, como é certo que haviam de fugir e benzer-se deles! Mas não os procuram pelo peso, senão pela dignidade, pelo poder, pela honra, pela estimação, e, mais que tudo hoje, pelo interesse. Porém, quando no dia de Juízo se lhes tomar a conta pelo peso, então verão onde os leva a balança.

Se é tão dificultoso dar boa conta da alma própria, que é uma, quão difícil e quão impossível será dá-la boa de tantas mil? Como é certo, que não temos fé, nem sabemos a que nos obriga! Vedes quantas almas há nesta cidade, quantas almas há nesta Província, quantas almas há em todo o reino? Pois sabei, se o ignorais, ou não advertis, que de todas essas almas hão de dar conta a Deus os que governam a cidade, a Província e o reino. Porque assim como sobre todos e cada um tem poder e mando, assim em todos e cada um são obrigados a lhes fazer guardar as leis, não só humanas, senão também as divinas. Não é isto encarecimento meu, senão doutrina sólida e de fé, pronunciada por boca de S. Paulo: Obedite praepositis vestris, et subjacete eis; ipsi enim pervigilant, quasi rationem pro animabus vestris reddituri. Obedecei, diz o apóstolo, a vossos superiores e sede-lhes muito sujeitos, porque a sua obrigação é zelar e vigiar sobre as vossas vidas, como aqueles que hão de dar conta a Deus de vossas almas. Vede quanto maior é a sujeição dos superiores que a dos súditos. Quantos são os súditos que estão sujeitos ao superior, tantas são as almas de que está sujeito o superior a dar conta a Deus. E posto que este oráculo bastava para nenhum homem que tem fé querer tomar sobre si uma tal sujeição, ouvi agora o que nunca ouviste. Nem todas as sentenças de Cristo estão escritas no Evangelho, algumas ficaram somente impressas na tradição de seus discípulos, entre as quais é tão notável como terrível esta: Omne peccatum, quod remissus, et indisciplinatus admiserit frater, ad negligentem protinus revertitur seniarem. Quer dizer: todos os pecados que cometem os súditos, se escrevem e carregam logo no livro das culpas do superior, porque há de dar conta deles. De modo que segundo esta sentença e revelação do mesmo Cristo, todos os homicídios, todos os adultérios, todos os furtos, todos os sacrilégios e mais pecados que os vassalos cometem na vida e reinado de um rei, e as ovelhas e súditos na vida e governo de um prelado, todos estes pecados se lançam logo e escrevem nos livros de Deus, debaixo do título do tal rei e debaixo do título do tal prelado, para se lhes pedir conta deles, no dia do Juízo.

Ponhamos agora este rei, e depois poremos também este prelado diante do tribunal divino, e vejamos que respondem a estes cargos. O rei é a cabeça dos vassalos; e quem há de dar conta dos membros, senão a cabeça? O rei é a alma do reino; e quem há de dar conta do corpo, senão a alma? Pedirá, pois, conta Deus a qualquer rei, não digo dos pecados seus e da sua pessoa, senão dos alheios e do ofício. E que responderá já não rei, mas réu? Parece que poderá dizer: Eu, Senhor, bem conhecia que era obrigado a evitar os pecados dos meus vassalos, quanto me fosse possível, mas a minha corte era grande, o meu reino dilatado, a minha monarquia estendida pela África, pela Ásia e pela América; e como eu não podia estar em tantas partes, e tão distantes, na corte tinha provido os tribunais de presidentes e conselheiros, no reino de ministros de justiça e letras, nas conquistas de vice-reis e governadores, instruídos de regimentos muito justos e aprovados. E isto é tudo o que fiz e pude fazer. Também poderá meter nesta conta o seu próprio palácio, e aqueles de que se servia mais familiar e interiormente. Mas sobre todos cai a réplica. E estes que elegestes (dirá Deus) por que os elegestes? Não foram alguns por afeição, e outros por intercessão, e outros por adulação, e outros por ruim e apaixonada informação? E os que ficaram de fora com mais conhecido merecimento, por que os excluístes? Mas dado que todos fossem eleitos com os olhos em mim, e justamente, depois que na administração de seus ofícios conhecestes que não procediam como eram obrigados, por que os não removestes logo, por que os dissimulastes e conservastes, e, o que pior é, por que os despachastes de novo, e com mais autorizados postos? Se o que assolou uma Província o deixastes continuar na mesma assolação, e depois o promovestes a outro governo maior, como não fostes cúmplice das suas injustiças, e das culpas que ele em vez de remediar acrescentou com as suas, e com o exemplo delas? Se as suas tiranias vos foram manifestas, como as deixastes sem castigo, e os danos dos ofendidos sem restituição? Quantas lágrimas de órfãos, quantos gemidos de viúvas, quantos clamores de pobres chegavam ao céu no vosso reinado, porque para suprir superfluidades vãs, e doações inoficiosas, vossos ministros (por isso premiados e louvados) com impiedade mais que desumana, não os despojavam, mas despiam. Isto é o que poderá replicar Deus, emudecendo, e não tendo que responder o triste rei. E qual será a sua sentença? No dia do Juízo se ouvirá. O certo é que Davi, rei santo antes de pecador e depois de pecador exemplo de penitência, o que pedia perdão a Deus, era dos pecados ocultos e dos alheios: Ab occultis meis munda me, et ab alenis parce servo tuo. Mas os pecados ocultos naquele dia são manifestos, e dos alheios, por ter sido rei, se lhe pedirá tão estreita conta como dos próprios.

Entre agora o prelado a dar conta, e a ouvir em estátua o processo que depois da ressurreição lhe será notificado em carne. Oh que espetáculo será aparecer descoroado da mitra, e despido dos paramentos pontificiais diante da majestade de Cristo Jesus, aquele a quem o mesmo Senhor autorizou com o nome e poderes de seu vigário, e cuja humana e divina pessoa representou nesta vida! O pastor, et Idolum! lhe dirá Cristo: Tu que foste pastor no nome, e como ídolo te contentaste com a adoração exterior que não merecias, dá conta. Não ta peço das misérias ocultas, senão das públicas e escandalosas de tuas mal guardadas e desprezadas ovelhas. Eram miseráveis no temporal, e não trataste de remediar suas pobrezas, e eram muito mais miseráveis no espiritual, e não cuidaste de curar nem de preservar seus pecados. Se as rendas, que com tanta cobiça recolhias, e com tantas avarezas guardavas, eram o meu patrimônio, que eu adquiri, não menos que com o meu sangue, por que o não distribuíste aos meus verdadeiros credores, que são os pobres? Por que o dispendeste em carroças, criados e cavalos regulados, estando eles morrendo de fome, e em vestir as suas paredes de oiro e seda, andando eles despidos e tremendo de frio? Se o zelo de teus ministros visitava as vidas dos pequeninos, tratando mais de se aproveitar das condenações, que de lhes emendar as consciências; os pecados monstruosos dos grandes, que tão soberba e escandalosamente viviam na face do mundo, como os deixaste triunfar com perpétua imunidade, como se foram superiores às leis da minha Igreja?

Confesso, Senhor, responderá o prelado, que em uma e outra coisa faltei, mas não sem causa. O que dispendi com minha casa e pessoa foi para satisfazer aos olhos do vulgo, que só se leva destes exteriores, e para conservar a autoridade do ofício e veneração da dignidade. E se contra os pecados dos grandes me não atrevi, foi porque os seus poderes são inexpugnáveis; e julguei por menos inconveniente não entrar com eles em batalha, que com afronta e desprezo das mesmas leis da Igreja, ficar no fim da peleja vencido: e finalmente, Senhor em uma e outra omissão segui o exemplo universal, e o que usam neste ofício os que com mais poderosas armas, e com maiores jurisdições que a minha, costumam em toda a parte fazer o mesmo. Ó ignorante! ó covarde! replicará Cristo. Tão ignorante e covarde, como se não tiveras lido as Escrituras, nem os Cânones, e exemplos da mesma Igreja. Porventura Pedro, e Paulo, e os outros apóstolos que me imitaram a mim, e os seus verdadeiros sucessores, que os imitaram a eles, conciliavam a autoridade das pessoas e do ofício, ainda entre gentios, com os aparatos exteriores? Não sabes que esse mesmo povo, com cujos olhos te escusas, se por dares tudo aos pobres, te vissem desacompanhado, só, e a pé pelas ruas, e ainda com os pés descalços, então se ajoelhariam todos diante de ti, e te adorariam? E quanto à covardia de te não atreveres com os grandes, tendo a teu lado a espada de Pedro; contra quem se atrevia Davi, que foi o exemplar dos meus pastores? Entre as feras tomava-se com os leões, e entre os homens com os gigantes. Que fera mais fera que a imperatriz Eudóxia, e vê como a não temeu Crisóstomo; e que leão mais coroado que o imperador Teodósío, e vê como o humilhou e pôs a seus pés Ambrósio. Finalmente, se não seguiste o valor destes, senão o que chamas costume dos outros, agora verás em ti e neles, que se eles o costumam fazer assim, Eu também costumo mandar ao inferno os que assim o fazem. Isto baste quanto à conta dos ofícios, e tomem exemplo os ministros seculares na conta do rei, e os eclesiásticos na do prelado.

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