Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

O décimo terceiro apóstolo

Outro dia, assisti no Youtube a uma entrevista do John Cleese (ex-integrante do grupo Monty Python) concedida ao ótimo e sempre elegante Dick Cavett. Falavam sobre o filme A Vida de Brian.

Cleese comenta que a idéia original era tornar Brian o décimo terceiro apóstolo de Cristo, aquele que sempre chegaria atrasado às reuniões, que ficaria extremamente confuso com as parábolas e cuja mãe, controladora que só, atrapalharia seu ministério religioso. Mas os membros do Monty Python, nem um pouco idiotas, refletiram: ora, Jesus, sendo Deus, sendo o homem perfeito, sempre conseguiria dar a volta por cima, tolerar o Brian e ensinar-lhe muitas coisas. Ou seja: não teria graça, pois, como diz Cleese, citando Aristóteles sem o perceber, “a comédia é a imitação de pessoas piores do que a gente”. Como fazer humor de alguém que é infinitas vezes melhor do que nós? Não funcionaria.

Não sei se os membros do Monty Python acreditam ou não em Jesus, não sei se são ou não cristãos. Sei apenas que alguns deles de vez em quando dizem algumas besteiras sobre política no Twitter, o que, na confusão dos dias atuais, é compreensível. Mas o fato é que, na época em que escreveram o roteiro de A Vida de Brian, demonstraram entender de símbolos — e isto basta para a arte.

De início, quando ouvi a idéia sobre o “décimo terceiro apóstolo”, pensei: terão temido as críticas dos cristãos? E logo vi que não: coragem não lhes faltava, nem ousadia. Mas, além dessas virtudes, também possuíam imaginação moral e compreensão de arquétipos. Ora, antes de o sujeito ser irreverente, ele precisa primeiro conhecer a reverência. Mas vai tentar enfiar isto na cabeça desses supostos humoristas que hoje andam por aí…

Como destruir a Mulher Maravilha

No final de semana, enquanto zapeava na Net, notei um contraste curioso: há filmes em que bravas mulheres (umas mais, outras menos maravilhas) liquidam heroicamente monstros, máfias, exércitos e vilões interplanetários sem sequer desmanchar o próprio cabelo, suar ou borrar a maquiagem; e há filmes em que mulheres, numa pusilanimidade de pasmar bisavó centenária, quase morrem ao tentar cuidar de dois ou três filhos traquinas e remelentos. Entre estas últimas, muitas apresentam uma constituição física mais brutal do que as mulheres maravilhas, mas, infelizmente, é como se, no fundo, fossem super-mulheres cujos filhos nasceram compostos de kryptonita.

Ou seja: para Hollywood, enfrentar um tanque de guerra com um bracelete polido e reluzente, ou uma hidra de sete cabeças com um canivete suíço cor-de-rosa, é muito mais fácil, mais agradável e menos perigoso do que ser mãe. Pelo jeito, crianças são mais terríveis e fatais do que o Alien e o tubarão agindo em conjunto. “Evite-as a todo custo”, parecem alertar os roteiristas.

Isto também significa que a melhor maneira de um vilão torvo e maquiavélico derrotar a Mulher Maravilha seria dando um jeito de fazê-la engravidar — talvez lhe apresentando um sujeito bonito, bacana, inteligente e bem-humorado. Vai que rola um match, uma química. (Não sei se a Mulher Maravilha liga para dinheiro ou sucesso, parece-me que não, de onde se deduz que eu mesmo poderia fazer parte do malvado plano.) Então, inocentemente, o fulano colocaria seus malignos girinos transparentes no útero da pobre super-heroína. Ao nascer, o filho maravilha acabaria com ela: haveria depressão pós-parto, sensação de inutilidade, cansaço, exaustão, brigas com o Fulano, vômitos sobre a fralda suja e muita reação alérgica às remelas de kryptonita.

Sim, admirável Hollywood feminista, é mais fácil destruir os inimigos, sem sofrer nenhum arranhão, do que amar os próprios filhos. Vai nessa.

Retardados

Um caminhão carregado de laranjas tombou em frente ao Instituto Antônio Houaiss. Não foi um acidente: as próprias laranjas, após uma acalorada reunião, o tombaram. Em seguida, rolaram até a portaria do prédio, onde começaram a protestar, afirmando que o uso de seu nome, enquanto referência a um crime de natureza política, denigria sua imagem.

Um militante do movimento negro, passando por lá naquele mesmo instante, ouviu a terrível palavrinha — “Denigrir”?! — e enfezou-se. Sim, diria o vulgo, como se estivesse cheio de fezes.(O vulgo não sabe que a palavra “enfezar” vem do latim infensare.) E o militante, pois, furibundo, começou a pisotear as laranjas, que então gritaram de dor:

— Ai! Ele tá judiando da gente!

Ao ouvir aquilo, um careca (sim, um neonazista com as suásticas tatuadas ocultas sob a camiseta) — irritar-se-ão os que sofrem de calvície? — enfim, um careca iniciou um discurso no qual dizia que não apenas o holocausto, mas até mesmo os pogrons, nunca aconteceram. E também passou a sapatear sobre as pobres frutas. De fato, ouviu-se uma idosa dizer claramente: “Pobres frutas!”. E isto, claro, ofendeu um mendigo que, até então, limitara-se a observar silenciosamente a cena:

— Fruta é o veado do seu filho!

Para quê… Um militante gay enfureceu-se com aquilo, e então berrou:

— Veado é a mãe! Eu sou é gay.

No zoológico ao lado, o veado macho, líder do bando, pai zeloso, subiu nas tamancas, bradando lá de dentro:

— Como é que é?! Mãe?! Tá me estranhando?

E logo pulou a cerca, indo chifrar o militante gay.

O furdunço foi tamanho, que o Dicionário Houaiss, o famigerado Pai-dos-burros, que anos atrás já tivera problemas enormes com os ciganos (informe-se), levantou-se da prateleira e, da janela do prédio, ralhou a plenos pulmões com seus filhos, todos ali, engalfinhados na calçada, a rolar sobre marolas de suco de laranja:

— Parem de confundir o sentido literal ou o etimológico com o sentido conotativo, seus retardados!

Olharam-no pasmados, mas, sem dar com o significado daquelas estranhas palavras, partiram, em uníssono, para uma nova ignorância:

— Aquele livro falante ofendeu as pessoas portadoras de deficiência mental! Vamos rasgá-lo!

E isso explica por que, em frente ao Instituto Antônio Houaiss, nesta tarde, havia tanto papel misturado a bagaços de laranja.

O Abominável Homem do Campus – Paulo Briguet

Yuri Vieira é um dos melhores e mais engraçados escritores em atividade no Brasil. Em 1997, depois de abandonar cinco cursos universitários — Jornalismo, Engenharia Civil, Engenharia Florestal, Letras e Artes Plásticas — e morar por cinco anos no alojamento estudantil da UnB (Universidade de Brasília), ele resolveu adotar a estratégia de Henry Miller e escrever sobre o seu suposto fracasso. O resultado é o livro “A Tragicomédia Acadêmica — Contos Imediatos do Terceiro Grau”, que tive a felicidade de ler nos últimos dias, com 20 anos de atraso. 

Conheci pessoalmente Yuri Vieira em 2015, durante um encontro de escritores na casa do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, em Richmond, EUA. Há uma década eu já era um leitor dos contos, crônicas e entrevistas publicados em seu blog pessoal. Ao conviver com Yuri por uma semana, comprovei que ele era tudo aquilo e mais um pouco: um cara inteligente, com boas histórias para contar, divertidíssimo e, além de tudo, um razoável cantor, com quem fiz alguns duetos na legendária van dirigida pelo professor Silvio Grimaldo nas estradas da Virgínia. Ah, Yuri gosta de cerveja. 

“A Tragicomédia Acadêmica”, republicado em 2016 pela Vide Editorial, é um livro que parece ter sido escrito por um Henry Miller possuído pelo espírito de Millôr Fernandes. São histórias de uma realidade ao mesmo tempo fantástica e profética, que mais uma vez comprovam a justeza da frase de Hoffmmansthal: “Nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura”. A universidade descrita por Yuri, absolutamente dominada por delírios ideológicos e egocêntricos, é uma imagem precisa e inesperadamente realista da maioria dos campi brasileiros em 2017. 

Todos os contos do livro são bons, mas eu destacaria dois: “Paralíticos e Desintegrados” e “O Abominável Homem do Minhocão”. O primeiro é uma clara referência paródica ao livro “Apocalípticos e Integrados”, de Umberto Eco. Trata-se de uma delirante entrevista de um jovem estudante de jornalismo com dois figurões da mídia cultural: o jornalista Mauro Austris e o semiólogo e escritor Roberto Eca. Um dia ainda vou gravar um vídeo encenando esse conto, com meu amigo Bernardo Pires Küster no papel de Eca e eu mesmo no papel de Austris. 
“O Abominável Homem do Minhocão” é uma perfeita metáfora do que aconteceu em grande parte do mundo acadêmico brasileiro, em especial nos departamentos de humanidades. Em 1974, com medo de ser preso pela ditadura, um professor refugia-se nos subterrâneos de um prédio universitário e passa a assombrar os alunos e professores da instituição. Para ele, os generais ainda estão no poder e o socialismo continua sendo a esperança da humanidade. 

Ao lado dos bons professores e estudantes, que felizmente ainda são a maioria, lutemos para que a nossa UEL não seja dominada por semelhante fantasma, que aqui se chamaria, sem dúvida, o Abominável Homem do Pinicão. 

Artigo de Paulo Briguet para a Folha de Londrina.
Fale com o colunista: avenidaparana@folhadelondrina.com.br

Rodrigo Gurgel: “Dr. João Pinto Grande — um herói para o nosso tempo”

Resenha crítica de Rodrigo Gurgel, crítico da Folha de S. Paulo  e do Jornal Rascunho:

O mais recente livro de Yuri Vieira, A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, esconde, sob o título atrevido, ao menos dois contos que merecem leitura cuidadosa.

“Amarás ao teu vizinho” é uma aventura da qual participa o personagem que dá nome à coletânea. O substantivo aventura, contudo, não expressa com acerto a índole e o tom da narrativa, composta, em grande parte, de longos diálogos, pois os riscos e peripécias enfrentados pelo protagonista extrapolam o campo das façanhas heroicas a que o senso comum está acostumado, avançando para camadas menos superficiais do comportamento humano.

No primeiro diálogo, o protagonista encontra-se, no portão de sua casa, com Francisco, morador do “único casebre miserável da rua”, sempre disposto, quando bêbado, a conversar com o Dr. João. O diálogo é sugestivo, bem construído, com leves tiradas humorísticas — a analogia entre o desenho do Pica-Pau e a ideia budista da vida como sofrimento, por exemplo, quebra o tom filosófico e paternalista que Pinto Grande concede às suas falas, tão longas que obrigam o paciente Francisco a isolar-se em sua curiosa busca do samádi. No final da narrativa, aliás, o próprio Dr. João, recordando esse diálogo, reconhecerá o erro de trocar “caridade por papo-cabeça sobre o amor”, trecho que demonstra o controle de Yuri Vieira sobre suas histórias: o que, no início, parecia hesitação ou descuido com os rumos da trama, revela-se introdução adequada ao tema que será aprofundado no segundo diálogo.

Na verdade, o conto esconde detalhado planejamento: desde o primeiro parágrafo, duas linhas narrativas se anunciam, ambas marcadas pelo tema da “vizinhança”: o diálogo com Francisco, vizinho pobre e desprezado por toda a rua, inclusive pela própria família, e a visita ao casal Josif e Draga, antigos vizinhos de Pinto Grande, quando era adolescente, com os quais jantará minutos depois.

Quanto mais avançamos nessa noite em que a relação com o próximo será triturada, exposta em suas contradições e levada a paroxismos, mais percebemos o intrincado enredo a que fomos conduzidos: o jantar transforma-se numa descida ao vale do Flegetonte, para conhecer não só a violência contra nossos semelhantes, mas também homens distintos: os que soçobram diante do apelo a diferentes gestos de agressão e aqueles que, dominando seus instintos, recusam o Mal.

Yuri Vieira constrói, assim, raro exemplo de conto filosófico — e não ideológico. Não se trata de uma peça de propaganda política ou religiosa, não há ideias a priori que o autor deseja propagandear. A interrogação a respeito de nossa relação com o Outro manifesta-se nas situações vividas durante o jantar, em longo e diversificado diálogo, quando os personagens se entrechocam num antagonismo crescente. Os extremos a que somos levados, do inocente diálogo com Chico ao terrível embate na casa dos iugoslavos, são representações realistas dos encontros e desencontros a que estamos fadados — e não meras abstrações de um ideólogo que desejou escrever ficção. O conto dá concretude às escolhas humanas, tantas vezes próximas do completo desatino. E dessa noche oscura, em que os personagens se debatem à procura de saídas para o desespero, emerge, no final perfeito, a límpida figura do Dr. João Pinto Grande, plenamente livre em seu repúdio ao Mal.

O gênero do conto é conduzido, assim, a regiões pouco visitadas em nossa literatura contemporânea: longe dos insignificantes quebra-cabeças linguísticos ou dos narradores ambíguos — que, na verdade, escondem escritores preguiçosos —, o leitor terá de respirar numa atmosfera espessa, hostil, de informações adversas, na qual pieguice e vitimismo são substituídos pela correta — e esquecida — consciência do que é uma virtude.

Verdugos hipócritas

“A menina branca” segue chave diversa. Nesse conto, o destino de Edgard, o protagonista, é o risco que todos correm neste país — todos que têm alguma consciência e desejam viver de forma honesta, trabalhando, pagando impostos e usufruindo de pequenas alegrias: o Brasil luta contra essas pessoas. E quando digo país, não me refiro a uma entidade onírica, mas a parcela do povo, a pessoas concretas que nos rodeiam. Edgard experimenta isso da pior forma, traído, de maneira abjeta, por Virgínia, sua noiva — que, entre ele e a ideologia, ou seja, entre a realidade e a ilusão, prefere a segunda, mesmo que isso signifique destruir a primeira por meio de um gesto leviano. Não se trata, portanto, de simples escolha, mas de condenação: Virgínia acredita, como todos os revolucionários e ideólogos, que sacrificar a realidade contribuirá para tornar sua ilusão real. Ela nos recorda a professora Delphine Roux — covarde, neurótica e arrivista —, personagem de Philip Roth em A marca humana.

A história, entretanto, é mais complexa — há várias camadas de trama, incluindo deliciosas referências ao conto “O gato preto”, de Edgard Allan Poe, e a outros de seus escritos: o sabiá do protagonista, por exemplo, chama-se Nevermore.

O narrador de “A menina branca” nos sequestra desde o início. Sua voz, irônica e sarcástica nos momentos certos; a maneira como elabora a introspecção de Edgard, principalmente quando precisa justificar seu desesperado gesto de violência; os diálogos que conduzem o leitor pelas emoções dos personagens, revelando o labirinto psicológico que se esconde por trás das aparências — tudo é perfeito.

Yuri também demonstra timing correto e constrói uma linha de crescente emoção: a cada cena queremos ir adiante, até o final macabro, cujo humor, com pinceladas de grand guignol e nonsense, aprofunda a tragédia de Edgard. Final, aliás, conduzido por um inesperado personagem, um “comissário do povo” no melhor estilo bolchevique — isto é, destituído de qualquer mínimo senso moral.

A narrativa, contudo, esconde, nas entrelinhas da derrocada de Edgard, crítica perturbadora: o personagem erra não por sua própria vontade, mas pressionado pelo que se costuma chamar, na falta de expressão menos demagógica, de opinião pública. É o paradoxo do nosso tempo: ser levado ao erro pela vontade cega do politicamente correto — e depois ver-se condenado por esses mesmos verdugos hipócritas.

Yuri Vieira não sofre, decididamente, de narratofobia. E agora sinto-me obrigado a ler todos os contos.

Rodrigo Constantino: “A imaginação moral de Yuri Vieira e A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Nunca tinha lido nada de Yuri Vieira. Que desperdício de tempo! O prejuízo foi meu, certamente. Li sobre seu livro A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau, em A corrupção da inteligência, de Flávio Gordon,  fiquei curioso e o comprei. E logo o devorei.

Lembrei, depois, que meu editor Carlos Andreazza tinha me mandado de presente seu novo livro, A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, cujo título já é uma comédia em si. Resultado: tive uma “overdose” de Yuri Vieira nos últimos dias, com a sensação de ter de recuperar o tempo perdido, de quando ainda não conhecia seus contos hilários, seu estilo envolvente.

Edmund Burke falou en passant do conceito de “imaginação moral”, que foi elaborado por Russell Kirk depois e se tornou uma ideia cara aos conservadores. G.K. Chesterton, T.S. Eliot, Tolkien e C.S. Lewis são exemplos claros de escritores que trabalharam bem com essa noção de “imaginação moral”, e transmitiram valores tradicionais por meio de suas histórias fantásticas e seus personagens encantadores.

Por acaso, terminei junto com os livros de Yuri a quinta e última temporada da série “Father Brown”, da BBC, inspirada no personagem criado por Chesterton, um dos meus favoritos (que delícia era ler seus contos antes de dormir!). Pois bem: o advogado de nome curioso, Dr. João Pinto Grande, remeteu-me ao Padre Brown, com sua postura cristã, seu desejo de realmente ajudar, fazer o bem, ser uma pessoa melhor, acreditar no outro, apostar no próximo, ter fé na humanidade, apesar de tudo.

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Yuri passa as mensagens que eu tento também transmitir em meus textos, mas com incrível leveza e contando uma história divertida, muitas vezes surreal, que prende o leitor do começo ao fim. Até mesmo uma aula de Bitcoin e de escola austríaca ele conseguiu encaixar num conto que ficou, acreditem, leve e divertido. Há críticas ao feminismo, ao esquerdismo em geral, ao vegetarianismo radical, e tudo isso navegando pelas questões religiosas profundas, com excelentes diálogos.

No livro anterior, tem umas histórias bizarras que se passam na UnB como cenário, contendo críticas ácidas ao nosso modelo de ensino, aos professores, reitores, artistas e também psicólogos. Numa das histórias, em que o “artista” se torna uma “estátua viva” por acidente e é considerado um gênio, eu chorei de rir, mas depois percebi que era legítimo só chorar mesmo, sem rir, pois chegamos a esse grau de maluquice com nosso relativismo estético:

Até que um dia, desmaiou de exaustão sobre uma de suas telas. Sua cara ficou estampada ali. “Fantástico!”, afirmaram os críticos. “Ele encontrou um estilo próprio. Sente-se sua marca, sua personalidade em cada uma de suas obras. Um gênio!”

[…]

Fazia esculturas com argila. Usava-as, quando ainda úmidas, como travesseiro. Sua casa tornara-se um processo de criação artística. Os críticos aplaudiam. O dinheiro e a fama entravam.

Não é à toa que se trata de uma tragicomédia! A história com a psicóloga também é extremamente engraçada, mas triste ao mesmo tempo, quando penso em tantos psicanalistas que conheço que são exatamente assim, super vaidosos, com um ego maior do que o mundo, tentando posar para a plateia em vez de realmente se conhecer a fundo, exatamente como a autoritária personagem que só se encontrou na academia, onde poderia exercer seu desejo de comando:

Quando se formou, Maria Eugênia foi trabalhar num sanatório. Não agüentou um mês. “Aqueles malucos! Nunca prestavam atenção no que EU dizia…” Depois tentou clinicar. Mas também não deu certo. “Os pacientes? Eles só queriam saber de si mesmos, não me deixavam falar…” Maria Eugênia teve, então, a feliz idéia de seguir a carreira acadêmica. “Mas Maria Eugênia…” “Cala a boca! Afinal quem que é a doutora aqui?” Havia encontrado o seu lugar. O lugar perfeito. Finalmente chegara onde ninguém seria louco o bastante a ponto de enfrentá-la. Os alunos a temiam e a admiravam. Nas reuniões e seminários era sempre sua a última palavra.

Se o leitor não conhece uma psi assim, é porque não conhece muitas psis. As taras moderninhas orientais, substitutas para uma religião mais exigente como o cristianismo, também são ironizadas nos contos, assim como o socialismo, a seita secular onipresente na academia. Um desses dinossauros viveu anos no esgoto e nem percebeu o tempo passar, exatamente como tantos militantes disfarçados de “professores” que pululam nossas salas de aula e não se deram conta da queda do Muro ainda:

Não acreditava que passara mais de vinte anos nos esgotos do Minhocão. Acabara o comunismo na União Soviética – acabara a União Soviética! – não havia mais o muro de Berlim e havia Mac Donald’s na China… Todos tinham um computador pessoal, internet e cartões magnéticos… Sim, ainda havia fome, miséria e injustiça… Mas, meu Deus, quantas transformações! E ele perdera vinte anos de vida! Tudo por causa dum relógio russo, comprado em Cuba, que usara todo aquele tempo e cujo ponteiro mal se movia. Triste, muito triste.

Nos contos novos, a criação do personagem Dr. Pinto Grande foi uma sacada e tanto, e em diferentes histórias lá está ele, o advogado humilde, que anda armado pois sabe que o mundo é uma selva, mas que está mais preocupado com os selvagens existentes em todos nós, que devem ser domados, domesticados, civilizados. Sua postura é elegante, contida, educada, e ele faz perguntas que levam o interlocutor a reflexões importantes sobre a essência da vida. E sempre com humor, claro, pois ele é fundamental para suportarmos melhor a vida:

Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, cheia de gente que tenta negar, não os aspectos nocivos da nossa animalidade intrínseca, mas a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

Tudo isso, repito, em histórias muito criativas, como as de Padre Brown, cuja pacata Kembleford seria o lugar mais perigoso do mundo, a julgar pela quantidade de assassinatos que o sagaz padre precisa desvendar. A influência de Chesterton parece evidente em Yuri, e não foi por acaso a escolha da epígrafe do livro, tirada de O que há de errado com o mundo, do escritor inglês: “Não apenas estamos todos no mesmo barco como também estamos todos mareados”.

Se essa mensagem for realmente absorvida, poderá haver mais tolerância de fato, mais humildade, mais boa vontade para com o próximo, mas sem romantismo bobo, sem falsas ilusões, sem a pretensão de que o amor seja suficiente para abandonarmos as nossas armas, necessárias para nossa defesa. Leiam Yuri Vieira! Estou certo de que não vão se arrepender, e terminarão a leitura pedindo mais Pinto Grande…

Fonte: Gazeta do Povo.

O crítico literário Rodrigo Gurgel fala sobre “A menina branca”

O crítico literário Rodrigo Gurgel (Folha de São Paulo e jornal Rascunho) comenta A menina branca, um dos contos do livro A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande:

Li, neste final de semana, “A menina branca”, do Yuri Vieira. Li esperando encontrar o afamado Dr. João Pinto Grande, que dá nome ao livro, mas ele não me concedeu a graça da sua presença.

Começo pelo fim: o destino de Edgard, protagonista da história, é o risco que todos correm neste país — todos que têm alguma consciência e desejam viver de forma honesta, trabalhando, pagando impostos e usufruindo de pequenas alegrias: o país luta contra essas pessoas. E quando digo país, não me refiro a uma entidade onírica, mas a parcela do povo, a pessoas concretas que nos rodeiam. Edgard experimenta isso da pior forma, traído, de maneira abjeta, por Virgínia, sua noiva — que, entre ele e a ideologia, ou seja, entre a realidade e a ilusão, prefere a segunda, mesmo que isso signifique destruir a primeira por meio de um gesto leviano. Não se trata, portanto, de simples escolha, mas de condenação: Virgínia acredita, como todos os revolucionários e ideólogos, que sacrificar a realidade contribuirá para tornar sua ilusão real. Ela me fez lembrar a professora Delphine Roux — covarde, neurótica e arrivista —, personagem de Philip Roth em “A marca humana”.

A história, entretanto, é mais complexa — há várias camadas de trama, incluindo deliciosas referências ao conto “O gato preto”, de Edgard Allan Poe, e a outros de seus escritos: o sabiá do protagonista, por exemplo, chama-se Nevermore.

Quem me conhece sabe que me aproximo de um texto esperando que ele me ofereça o melhor. Na maioria das vezes, contudo, tenho de me esforçar para que isso aconteça. Mas o narrador de “A menina branca” me sequestrou desde o início. Sua voz, irônica e sarcástica nos momentos certos; a maneira como elabora a introspecção de Edgard, principalmente quando precisa justificar seu desesperado gesto de violência; os diálogos que conduzem o leitor pelas emoções dos personagens, revelando o labirinto psicológico que se esconde por trás das aparências — tudo me agradou.

Yuri também demonstra timing perfeito e constrói uma linha de crescente emoção: a cada cena queremos ir adiante, até o final macabro, cujo humor, com pinceladas de grand guignol e nonsense, aprofunda a tragédia de Edgard. Final, aliás, conduzido por inesperado personagem, um “comissário do povo” no melhor estilo bolchevique — isto é, destituído de qualquer mínimo senso moral.

Só me resta, agora, prosseguir na leitura, para uma resenha completa, em que eu possa falar do famigerado Pinto Grande.

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