9:55 pmHenry Miller fala sobre a verdadeira vitalidade

Henry Miller

« UMA DAS coisas que mais impressionam na América, nesta minha viagem, é que os homens promissores, os homens de alegre sabedoria, os homens que inspiram esperança neste período tão desanimador de nossa história, são ou meninos mal saídos da adolescência ou meninos de setenta anos ou mais.

« Na França, os velhos, principalmente os de origem camponesa, são uma alegria e uma inspiração a se imitar. São como grandes árvores que nenhuma tempestade consegue derrubar; irradiam paz, serenidade e sabedoria. Na América, os velhos são, em geral, uma tristeza, principalmente os bem-sucedidos que prolongam sua existência muito além dos termos naturais por meio de respiração artificial, por assim dizer. São horríveis exemplos vivos da arte do embalsamador, cadáveres semoventes manipulados por um séquito de atendentes muito bem pagos que são uma vergonha para a sua profissão.

« As exceções à regra — e o contraste é abismal — são os artistas, e por artistas quero dizer os criadores, independentemente do seu campo de operação. A maioria deles começou a desenvolver, a revelar sua individualidade depois dos quarenta e cinco anos, idade que a maior parte das empresas industriais deste país fixou como o fim da linha. Deve-se admitir, incidentalmente, claro, que o trabalhador médio, que atuou desde a adolescência como um robô, está pronto para a lixeira nessa idade. E aquilo que é verdadeiro para o robô comum é, em grande parte, verdadeiro para o robô mestre, o chamado capitão da indústria. Só sua riqueza permite que ele alimente e mantenha uma débil e oscilante chama. No que diz respeito à verdadeira vitalidade, depois dos quarenta e cinco anos somos uma nação de destruídos.

« Mas existe uma classe de homens resistentes, antiquados o suficiente para se terem mantido asperamente individuais, abertamente desdenhosos da moda, apaixonadamente dedicados a seu trabalho, imunes ao suborno e à sedução, que trabalham longas horas, muitas vezes sem recompensa ou fama, que são motivados por um impulso comum: a alegria de fazer o que bem entendem. Em algum momento ao longo do trajeto eles se destacaram dos outros. Os homens de que estou falando são identificáveis a um mero olhar: seu rosto registra algo muito mais vital, muito mais eficiente, do que a sede de poder. Eles não procuram dominar, mas realizar-se. Operam a partir de um centro que está em repouso. Evoluem, crescem, alimentam só por serem o que são.

« Essa questão, a relação entre sabedoria e vitalidade, me interessa porque, ao contrário da opinião geral, nunca fui capaz de olhar a América como jovem e vital, mas sim como prematuramente envelhecida, como uma fruta que apodreceu antes de ter a chance de amadurecer. A palavra-chave para descrever o vício nacional é desperdício.
E as pessoas que são esbanjadoras não são sábias nem conseguem se manter jovens e vigorosas. Para transmutar energia a níveis superiores e mais sutis é preciso conservar a energia. O pródigo logo fica esgotado, vítima das próprias forças com as quais brincou tão tola e descuidadamente.

« Até mesmo as máquinas têm de ser manuseadas com perícia para se obter delas o máximo resultado. A menos, como é o caso da América, que sejam produzidas em tais quantidades que possamos jogá-las fora antes que fiquem velhas e inúteis. Mas, quando se trata de jogar fora seres humanos, a história é outra. Seres humanos não podem ser desligados como máquinas. Existe uma curiosa correlação entre fecundidade e lixo. O desejo de procriar parece morrer quando o período de utilidade é fixado na prematura idade de quarenta e cinco anos.

« Poucos são os que conseguem escapar do rolo compressor. Sobreviver apenas, apesar das condições, não confere mérito nenhum. Animais e insetos sobrevivem quando tipos superiores são ameaçados de extinção. Para viver além do declínio, para trabalhar pelo prazer de trabalhar, para envelhecer com graça conservando todas as faculdades, entusiasmos e auto-respeito, é preciso estabelecer valores diferentes daqueles adotados pela massa. É preciso um artista para abrir essa brecha na muralha. Um artista é primordialmente alguém que acredita em si mesmo. Ele não reage aos estímulos normais: não é nem um burro de carga nem um parasita. Vive para se expressar e ao fazê-lo enriquece o mundo.

« O homem em quem estou pensando neste momento, o doutor Marion Souchon, de Nova Orleans, não é nada típico. É, de fato, uma curiosa anomalia e por essa razão muito mais interessante para mim. Hoje um homem de 70 anos, cirurgião famoso e bem-sucedido, começou a pintar seriamente com a idade de 60 anos. E não abandonou a prática médica ao fazê-lo. Cinqüenta anos atrás, quando começou a estudar medicina, seguindo os passos do pai, ele instaurou para si mesmo um regime espartano ao qual se manteve fiel desde então.

« Um regime que, devo dizer, lhe permite fazer o trabalho de três ou quatro homens e continuar cheio de vitalidade e otimismo. É seu costume levantar-se às cinco da manhã, tomar um desjejum leve e ir para a sala de operação, depois para o consultório, onde desenvolve seus deveres de funcionário de uma companhia de seguros, responde à correspondência, atende pacientes, visita hospitais e assim por diante. Na hora do almoço, já realizou o trabalho duro de um dia inteiro. Durante os últimos dez anos tem conseguido encontrar todos os dias um tempinho para dedicar à pintura, para ver a obra de outros pintores, conversar com eles, estudar o seu métier como se fosse um jovem de 2 anos que apenas começou carreira. Ele não sai do consultório para um estúdio — pinta no próprio consultório. No canto de uma salinha forrada de livros e estátuas fica um objeto que parece um instrumento musical coberto. No momento em que se vê sozinho, vai até esse objeto, abre-o, e se põe a trabalhar. Toda a sua parafernália de pintura está contida nessa caixa musical negra de aspecto misterioso.

« Quando a luz enfraquece, ele continua com luz artificial. Às vezes, tem uma hora para passar assim, às vezes quatro ou cinco. É capaz de, sem aviso prévio, sair do cavalete e realizar uma delicada operação cirúrgica. O que não é pouco e, no caso de um artista, um procedimento, no mínimo bastante não-ortodoxo.

« Quando perguntei a ele se não pensava fazer da pintura sua única atividade, sobretudo agora que lhe restavam poucos anos pela frente, ele disse que havia rejeitado a idéia porque "Tenho de ter uma outra ocupação para ser variado o grande prazer de trabalhar sem nunca me cansar." Depois de várias visitas, tive a audácia de reformular a questão. Não me parecia possível que um homem tão apaixonado por sua pintura como ele e que, além disso, estava evidentemente tentando concentrar o trabalho de vinte anos em quatro ou cinco, que um homem assim pudesse não enfrentar algum tipo de problema com essa vida dupla ou múltipla. Se fosse um mau pintor, ou um mau cirurgião. Se fosse um mestre numa coisa e um diletante na outra, eu não teria me dado ao trabalho de continuar com o assunto. Mas ele é, reconhecidamente, um dos grandes cirurgiões do seu tempo e, quanto a sua pintura, não há dúvidas, principalmente na opinião de outros artistas consideráveis, de que se trata de um artista sério cuja obra está se tornando dia a dia mais importante, crescendo a uma velocidade assustadora. Ele acabou me confessando que estava começando a se dar conta de que "essa coisa chamada pintar é algo que agita a alma, mexe com a cabeça, absorve tempo, é absolutamente exigente e monopoliza todo o ser da pessoa e acaba por transcender quaisquer outros interesses." "É", acrescentou reflexivo, "tenho de admitir que isso perturbou o ritmo de minha vida, lançou-me em uma jornada inteiramente nova."

« Era o que eu queria ouvir. Se ele não tivesse admitido isso, eu teria formado uma opinião muito diferente dele. Quanto às razões para continuar com sua outra vida, sinto que não tenho nada a ver com isso.

« "Se tivesse a chance de recomeçar sua vida toda de novo," perguntei, "essa vida seria muito diferente da que conhecemos? Você teria digamos, colocado a arte na frente da medicina?"
"Eu teria feito exatamente a mesma coisa de novo," respondeu sem hesitar nem um momento. "A cirurgia era o meu destino. Meu pai foi um cirurgião notável e um exemplo maravilhoso de sua profissão A cirurgia é ciência e arte combinadas e por essa razão, por ora, satisfaz a minha necessidade de arte."

« Fiquei curioso para saber se a preocupação com a pintura havia aguçado o seu interesse pelos aspectos metafísicos da vida. "Vou responder da seguinte maneira," disse ele. "Uma vez que a vida em todos os seus aspectos humanos foi o trabalho de minha vida, pintar veio a ser apenas uma ampliação dessa esfera. O sucesso que eu possa ter tido como médico, atribuo a meu conhecimento da natureza humana. Tratei a mente das pessoas tanto quanto seus corpos. A pintura, sabe, é muito semelhante à prática da medicina. Embora ambas tratem do físico, a sua maior influência e força é, sem nenhuma dúvida, psíquica. A palavra significa para o paciente a mesma coisa que a linha e a forma para o pintor. É quase incrível como uma mera palavra, um ponto ou uma linha podem moldar e influenciar a vida de um indivíduo. Não é assim?"

« No curso de nossa discussão, fiz uma outra descoberta que confirmou minhas intuições e que foi a seguinte: que desde a infância ele tivera o desejo de pintar e desenhar. Quando tinha seus 21 anos, divertia-se fazendo aquarelas. Depois de um lapso de quase trinta anos, passou a esculpir figuras em barro e madeira. Exemplos dessa última direção estavam espalhados por seu minúsculo escritório, todas de figuras históricas pelas quais havia se fascinado no curso de sua vasta leitura. Era uma outra ilustração de sua paixão e dedicação. Como preparação para um giro pelo mundo ele começara a ler história e biografias. Circunstâncias além do seu controle fizeram com que a viagem fosse abortada, mas os livros nas estantes da parede, que ele leu com ardor e empenho, testemunhavam a paixão com que se atira a tudo.

« Homens assim, pensei comigo, ao sair de seu consultório essa noite, são o que há de mais próximo a sábios e santos no mundo profano. Como esses, eles praticam concentração, meditação e devoção. São absolutamente obsessivos ao se consagrar a uma tarefa; seu trabalho, que é puro e descompromissado, é uma prece, uma oferenda que fazem cada dia ao Criador.

«Só no reino ou no domínio em que operam é que diferem das grandes figuras religiosas.»

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Trecho do livro Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller.

7:15 pmOlavo de Carvalho: literatura e decomposição do idioma

Olavo de Carvalho

« Dou graças aos céus por não ser escritor de ficção nos dias que correm, quando se tornou impossível conciliar linguagem coloquial e correção da gramática.

« Leiam Marques Rebelo ou Graciliano Ramos e entenderão o que estou dizendo. Os personagens deles falavam com extrema naturalidade sem incorrer em solecismos. Hoje em dia, tudo o que se pode fazer é escrever como gente nos trechos narrativos e descritivos, deixando que nos diálogos os personagens falem como macacos nerds. É a literatura exemplificando o abismo entre a linguagem culta e a fala cotidiana. Mas a existência desse abismo prova, ao mesmo tempo, a inutilidade social de uma literatura que já não poderia ser compreendida pelos seus próprios personagens.

« Antigamente esse dualismo extremo de linguagem culta e vulgar só aparecia quando o autor queria documentar a fala das classes muito pobres, afastadas da civilização por circunstâncias econômicas ou geográficas insanáveis.

« Na era Lula tornou-se necessário usá-lo para reproduzir a fala de um presidente da República – e, depois, a de senadores, deputados, líderes empresariais e tutti quanti. Um jornalista decente já não pode escrever na linguagem de seus entrevistados. Não há mais medida comum entre a consciência e os dados que ela apreende. Isso é o mesmo que dizer que já não é mais possível elaborar intelectualmente a realidade, ao menos sem improvisar arranjos linguísticos que estão acima do alcance da maioria.»
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Olavo de Carvalho, no artigo O Brasil falante

Tenho sofrido com esse pobrema

11:22 amFinanciando projetos criativos

Quem já entrou com algum projeto numa dessas inúmeras leis de incentivo sabe o quão desestimulante é a burocracia que envolve o processo em todas as suas etapas. Sem falar do viés ideológico – canhoto, destro ou maneta – que costuma permear os critérios daqueles que aprovam ou rejeitam tais projetos. Daí ser uma boa notícia saber que já há, no Brasil, um serviço semelhante ao do Kickstarter, uma plataforma para buscar financiamento colaborativo a projetos que envolvem criatividade: o Catarse. Como funciona? Simples, basta você escrever um projeto para sua peça (ou filme, livro, exposição etc.), definir e expor o que promete dar em troca aos financiadores, gravar um vídeo no qual poderá esmiuçar a coisa toda com mais ênfase, e então publicar tudo isso no Catarse. Logo que o montante atingir o limite mínimo exigido, você receberá o dinheiro para viabilizar seu trabalho. Assim, seu sucesso dependerá tanto da sua capacidade de execução quanto da de divulgação e convencimento. Ou seja, você não dependerá de nenhum burocrata!

Se o cara abaixo tivesse recorrido a um serviço como esse, talvez não tivesse desistido do cinema…

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Publicado originalmente no Digestivo Cultural.

7:15 amWilliam Somerset Maugham e o casal incompatível de O Fio da Navalha

William Somerset Maugham

– É aqui que vives? – perguntou Isabel. Ele riu baixinho ao ver a expressão do seu rosto.

– Sim. Moro aqui desde que vim para Paris.

– Mas por quê?

– É cômodo. Fica perto da Bibliothèque Nationale e da Sorbonne. – Larry apontou para uma porta que ela não notara. – Tem quarto de banho. Tomo o café da manhã aqui e geralmente janto naquele restaurante onde almoçamos hoje.

– É horrivelmente sórdido.

– Oh, não; está muito bom. Não desejo mais do que isto.

– Mas que tipo de gente mora aqui?

– Não sei. No sótão, alguns estudantes. Dois ou três solteirões, funcionários públicos; uma atriz do Odéon, aposentada; no outro quarto com casa de banho, a amante de um sujeito que a vem visitar de quinze em quinze dias, às quintas-feiras; e mais alguns forasteiros. É um lugar muito sossegado e familiar.

Isabel ficou um tanto desconcertada e, vendo que Larry disso se apercebera e achava graça, quase se melindrou.

– Que livro é aquele, enorme, ali sobre a mesa? – perguntou ela.

– Aquele? É o meu dicionário grego.

– Quê? – exclamou Isabel.

– Calma. Ele não tem garras.

– Estás a estudar grego?

– Estou. Por quê? Porque me deu vontade. – Larry fitava-a com um sorriso nos olhos e Isabel correspondeu a esse sorriso.

– Não achas que devias contar-me o que andaste a fazer todo este tempo que estiveste em Paris?

– Tenho lido muito. Oito ou dez horas por dia. Tenho ido a conferências na Sorbonne. Creio que li tudo quanto há de importante na literatura francesa, e posso ler o latim, prosa, pelo menos, com a mesma facilidade com que leio o francês. Claro que o grego é mais difícil. Mas tenho um ótimo professor. Antes de chegares, ia três noites por semana a sua casa.

– E qual a finalidade de tudo isto?

– Adquirir cultura – respondeu ele, sorrindo.

– Não me parece muito prático.

– Talvez não seja e, por outro lado, talvez seja. Mas é divertidíssimo. Não podes imaginar como é emocionante ler a Odisséia no original. A gente tem a impressão de que bastaria ficar na ponta dos pés e estender as mãos para tocar as estrelas.

Larry levantou-se, como que impulsionado pela excitação que dele se apoderara, e pôs-se a andar de um lado para o outro do quartinho.

– Há um ou dois meses, estive a ler Spinoza. Creio que não o entendo ainda muito bem, mas que delícia!… É como a gente descer do seu próprio avião num grande planalto, nas montanhas. Solidão e ar tão puro que intoxica como um vinho e faz a gente sentir-se como um rei!

– Quando é que pretendes voltar para Chicago?

– Chicago? Não sei. Não pensei nisso.

– Disseste que, se ao cabo de dois anos não alcançasses o que buscavas, darias a experiência por mal sucedida.

– Não me seria possível voltar agora. Estou no limiar. Vejo vastas planícies do espírito à minha frente, acenando-me, e estou ansioso por explorá-las.

– Que esperas encontrar?

– Respostas às minhas perguntas. – Larry relanceou a Isabel um olhar quase brincalhão, de modo que, se o não conhecesse tão bem, poderia pensar que ele estava a troçar. – Quero ter a certeza da existência ou da não existência de Deus. Quero conhecer a origem do mal. Quero saber se tenho uma alma imortal, ou se a morte põe fim a tudo.

Isabel ficou de respiração suspensa. Não se sentia à vontade quando Larry se exprimia desta forma, e deu graças a Deus por ele ter falado tão despreocupadamente, no habitual tom de conversa, que lhe permitiu dominar o constrangimento.

– Mas, Larry, há milhares de anos que a Humanidade faz essas perguntas – replicou ela, sorrindo. – Se tivessem resposta, certamente há muito já teriam sido respondidas.

Larry riu-se.

– Não rias como se eu tivesse dito alguma tolice – replicou secamente Isabel.

– Pelo contrário, acho muito bem observado. Mas, por outro lado, a gente pode argumentar que o fato de os homens fazerem essas perguntas há milhares de anos prova que não podem deixar de perguntar, e continuarão a perguntar. Além do mais, não é verdade que ninguém encontrou resposta. Existem mais respostas do que perguntas, e a muitas pessoas elas satisfizeram plenamente. O velho Ruysbroeck, por exemplo.

– Quem é?

– Oh, apenas um tipo que não conheci no colégio – respondeu Larry petulantemente.

Isabel não entendeu o que ele quisera dizer, mas não insistiu.

– Acho isto muito infantil. São coisas que excitam a imaginação dos segundanistas, mas de que eles se esquecem por completo quando saem do colégio. Têm de ganhar a vida.

– Não os censuro. Mas, vês, tenho a vantagem de possuir o suficiente para viver. De contrário, teria de fazer como os outros e procurar ganhar dinheiro.

– Mas não dás valor ao dinheiro?

– Nenhum – respondeu sorrindo.

– Quanto tempo achas que isso levará?

– Não posso saber. Cinco anos. Dez.

– E depois? Que pretendes fazer com toda essa sabedoria?

– Se algum dia adquirir sabedoria, creio que serei então bastante sábio para saber o que fazer com ela.

Isabel apertou violentamente as mãos e inclinou-se para a frente.

– Estás tão deslocado, Larry. És americano. O teu lugar não é aqui, é na América.

– Voltarei quando estiver pronto.

– Mas estás a perder tanta coisa! Como é que consegues ficar aqui nesta pasmaceira, quando estamos a viver a mais maravilhosa aventura que o Mundo jamais conheceu? A Europa está pronta. Somos a maior, a mais poderosa nação do Mundo. Caminhamos aos saltos. Nada nos falta. É teu dever participar do progresso da tua pátria. Já te esqueceste, não sabes como é empolgante a vida na América, hoje em dia. Tens a certeza de que não estás a agir assim por não teres coragem de enfrentar o trabalho que aguarda todo o americano? Oh, sei que de certo modo trabalhas, mas não será isto apenas uma maneira de fugir às tuas responsabilidades? Será alguma coisa mais do que uma espécie de ociosidade laboriosa? Que fim levaria a América, se todos se esquivassem como tu?

– És muito severa, querida – replicou sorrindo. – A resposta a isso é que nem todos sentem o que eu sinto. Felizmente para eles, talvez, a maioria dos homens está pronta a seguir o curso normal; esqueces-te de que tenho tanta sede de saber como… Gray, por exemplo, tem de ganhar rios e rios de dinheiro. Serei, por acaso, traidor à minha pátria só pelo fato de querer passar alguns anos a educar-me? É possível que, ao terminar, possa dar à Humanidade alguma coisa que ela tenha prazer em receber. Não é certo, naturalmente; mas, se falhar, estarei na mesma posição do homem que entra num negócio e não consegue vencer.

– E quanto a mim? Não tenho valor algum para ti?

– Muitíssimo. Quero que te cases comigo.

– Quando? Daqui a dez anos?

– Não. Agora. O mais depressa possível.

– Como? Minha mãe não está em condições de me dar um dólar. Além do mais, mesmo que pudesse, não o faria. Acharia um erro ajudar-te a viver na ociosidade.

– Não quero nada de tua mãe – replicou Larry. – Tenho três mil dólares anuais. Isto é mais do que suficiente, aqui em Paris. Poderíamos ter uma casa pequena e uma bonne à tout faire. Seria tão divertido, querida!

– Mas, Larry, ninguém pode viver com três mil dólares anuais.

– Claro que pode. Inúmeras pessoas vivem com muito menos.

– Mas não quero viver assim. Não há razão para isso.

– Tenho vivido com metade.

– Mas como! – Ela olhou para o sujo quartinho com um estremecimento de repulsa.

– Isto significa que tenho algumas economias. Poderíamos ir a Capri na lua-de-mel e à Grécia no Outono. Tenho uma vontade louca de ir até lá. Não te lembras de que falávamos em viajar juntos pelo Mundo?

– Claro que desejo viajar. Mas não desta forma. Não quero ir em segunda classe, nos navios, nem me hospedar em hotéis de terceira categoria, sem casa de banho, nem comer em restaurantes baratos.

– Em Outubro passado, viajei assim por toda a Itália. Diverti-me imenso. Poderíamos percorrer o Mundo inteiro, com três mil dólares por ano.

– Mas quero ter filhos, Larry.

– Está bem. Irão conosco.

– És tão tolo! – disse ela, rindo. – Sabes quanto custa ter um filho? Violet Tomlinson teve um, no ano passado, e fez tudo com a maior economia possível, mas mesmo assim gastou mil e duzentos e cinqüenta dólares. E quanto pensas que ganha uma ama? – Isabel animava-se, à medida que as idéias lhe ocorriam. – És muito pouco prático. Não sabes o que me pedes. Sou nova, quero divertir-me. Quero fazer o que os outros fazem. Quero ir a festas, quero ir a bailes, quero jogar o golfe e andar a cavalo. Quero vestir-me bem. És capaz de imaginar o que significa para uma mulher não se sentir tão bem vestida como as outras do seu meio? Compreendes o que significa, Larry, ter de comprar os vestidos usados das amigas que se fartaram deles, e ficar agradecida quando, por piedade, alguém se lembra de lhe fazer presente de um que seja novo? Não poderia nem mesmo ir a um cabeleireiro decente! Não quero andar de ônibus quero o meu carro particular. E que pensas que iria fazer o dia inteiro enquanto estivesses a ler na biblioteca? Andar pelas ruas, namorando as vitrinas, ou sentar-me no jardim do Luxemburgo, a vigiar os meus filhos para que nada lhes acontecesse? Não poderíamos ter amigos…

– Oh, Isabel – interrompeu ele.

– Não do tipo a que estou habituada. Oh, sim, os amigos do tio Elliott de vez em quando nos convidariam, em consideração por ele, mas não poderíamos aceitar porque não teria vestido, nem estaríamos em posição de lhes retribuir as gentilezas. Não quero ter relações com uma porção de gente mal vestida e suja; nada teria a dizer-lhes, nem eles a mim. Quero viver, Larry. – De súbito, percebeu a expressão dos seus olhos, afetuosos como sempre, quando pousados nela, mas levemente irônicos. – Achas que sou tola, não é verdade? Achas que sou fútil e maldosa.

– Não, não acho. É muito natural que digas o que estás a dizer. – Larry estava de pé, de costas para a lareira. Isabel ergueu-se e aproximou-se; fitaram-se frente a frente.

– Larry, se não possuísses um dólar, mas tivesses um emprego que te rendesse três mil dólares por ano, não hesitaria em me casar contigo. Cozinharia, arrumaria as camas, pouco me importaria com vestidos, faria qualquer sacrifício e acharia tudo divertidíssimo, pois estaria certa de que seria apenas uma questão de tempo, até venceres. Mas isso que queres significa viver miseravelmente, sordidamente, a vida inteira, sem uma esperança pela frente. Não passaria de uma escrava até ao dia da minha morte. E para quê? Para que pudesses passar anos a procurar respostas a perguntas que tu próprio consideras insolúveis. Estás em erro. Um homem tem de trabalhar. E para isso que está no Mundo. É assim que contribui para o bem-estar da comunidade.

– Em resumo, é meu dever instalar-me em Chicago e entrar para o escritório de Henry Maturin. Achas que, pelo fato de convencer os meus amigos a adquirirem títulos em que Henry Maturin está interessado, contribuiria grandemente para o bem-estar da comunidade?

– É preciso que haja corretores no Mundo. É uma maneira muito decente e honrosa de ganhar a vida.

– Pintaste um quadro muito negro da vida em Paris com um rendimento módico. Sabes, não é bem assim. Uma mulher pode vestir-se muito bem sem procurar Chanel. Nem todas as pessoas interessantes vivem na vizinhança do Arc de Triomphe e da Avenue Foch. Para falar a verdade, são mesmo poucas, porque em geral as pessoas interessantes não têm grande fortuna. Conheço muita gente aqui, pintores, escritores e estudantes, franceses, americanos e de outras nacionalidades, que considero muito mais interessantes do que as definhadas marquesas e as narigudas duquesas de Elliá. Tens uma inteligência viva e bastante senso de humor. Garanto que acharias divertido vê-los trocar idéias à mesa, mesmo que o vinho fosse somente vin ordinaire e o jantar não fosse servido por um mordomo e dois lacaios.

– Não sejas tolo, Larry. Claro que acharia divertido. Sabes que não sou esnobe. Teria prazer em conhecer gente interessante.

– Sim, num vestido de Chanel. Pensas que eles perceberiam que consideravas aquilo como uma espécie de aventura? Não se sentiriam à vontade, nem tu tampouco; e não tirarias nenhum proveito, a não ser o de poderes depois contar a Emily de Montadour e a Gracie de Château-Gaillard como acharas divertido ficar conhecendo uma porção de boêmios excêntricos, no Quartier Latin.

Isabel encolheu levemente os ombros.

– Talvez tenhas razão. Eles não são do tipo de gente com quem estou habituada a conviver. Não são do tipo de gente com quem eu possa ter afinidade.

– Em que ficamos, então?

– Exatamente onde começamos. Moro em Chicago desde que me entendo por gente. Ali estão os meus amigos, todos os meus interesses. Ali me sinto em casa. É a minha terra, Larry, como é também a tua. Minha mãe está doente e não se restabelecerá. Mesmo que quisesse, não a poderia deixar.

– Isto significa que, a não ser que esteja disposto a voltar para Chicago, não te casarás comigo?

Isabel hesitou. Amava Larry. Queria casar-se com ele. Desejava-o com toda a força dos seus sentidos e sabia-se desejada por ele. Não achava possível que, chegado o momento decisivo, ele não fraquejasse. Teve medo, mas precisava de arriscar.

– Sim, Larry, significa isso.

Ele riscou um fósforo na lareira, um daqueles antigos fósforos franceses, de enxofre, que nos enchem as narinas de um odor acre, e acendeu o cachimbo. Depois, passando por Isabel, foi postar-se à janela e ficou a olhar para fora. Guardou silêncio por um espaço de tempo que pareceu interminável. Isabel continuou de pé, no mesmo lugar onde estivera em frente dele, e olhou para o espelho, mas com olhos que nada viam. O coração batia-lhe loucamente e estava morta de apreensão. Finalmente, Larry voltou-se:

– Gostaria de poder levar-te a compreender como a vida que te ofereço é mais cheia do que qualquer outra que possas ter imaginado. Gostaria que pudesses ver como a vida do espírito é mais emocionante e rica em experiência. É ilimitada. E tão feliz! Só uma coisa se lhe compara: quando se está sozinho num avião, alto, bem alto, circundado apenas pelo infinito. Aquela amplidão é intoxicante. A gente experimenta tão intensa sensação de júbilo que não a trocaria por todas as riquezas e glórias deste Mundo. Há poucos dias, estive a ler Descartes. Que desembaraço, que graça, que dez. Céus!

Isabel interrompeu-o, em tom de desespero:

– Mas, Larry, não vês que me pedes uma coisa para a qual não fui feita, pela qual não me interesso, e não me quero interessar? Quantas vezes terei de repetir que sou apenas uma rapariga medíocre, normal, que tenho vinte anos, que daqui a dez estarei velha, que me quero divertir enquanto posso? Oh, Larry, gosto tanto, tanto, de ti! Isso é uma fantasia; não te conduzirá a parte alguma. No teu próprio interesse, imploro-te que desistas. Sê homem, Larry, e cumpre o teu dever de homem. Estás a perder anos preciosos, de que outros estão a tirar o máximo proveito. Larry, se me tens amor, não me trocarás por um sonho. Já te divertiste bastante. Volta conosco para a América.

– Não posso, querida. Seria uma verdadeira morte para mim. Seria atraiçoar a minha alma.

– Oh, Larry, por que falas dessa forma? É assim que se exprimem as mulheres histéricas, metidas a intelectuais. Que significa? Nada. Nada. Nada.

– Significa exatamente o que sinto – respondeu ele com um estranho brilho nos olhos.

– Como é que podes brincar? Não vês que isto é muito sério? Chegamos à encruzilhada, e o que fizermos agora irá afetar toda a nossa vida.

– Sei isso. Crê-me, estou a falar sério.

Ela suspirou.

– Se não queres ser razoável, então não há mais nada a dizer.

– Mas não creio que não seja razoável. Acho que só disseste disparates.

– Eu? – exclamou Isabel. – Se não se sentisse tão infeliz, teria rido. – Meu pobre Larry, estás doido varrido.

Lentamente, tirou do dedo o anel de noivado, colocou-o na palma da mão e ficou a contemplá-lo. Era um rubi quadrado, incrustado num fino aro de platina, e Isabel apreciara-o muito.

– Se gostasses de mim, não me farias sofrer tanto.

– Gosto de ti. Infelizmente, às vezes, nós não podemos fazer o que nos bem parece sem causar sofrimento a alguém.

Ela estendeu a mão onde estava o rubi e obrigou-se a sorrir.

– Aqui está, Larry.

– De nada me serve. Não queres guardá-lo como lembrança da nossa amizade? Podes usá-lo no dedo. Isto não altera a nossa amizade, não é assim?

– Sempre hei-de gostar de ti, Larry.

– Guarda-o, então, que me darás prazer.

Ela hesitou. depois enfiou o anel no dedo da mão direita.

– É grande de mais.

– Podes mandá-lo apertar. Vamos ao bar do Ritz, tomar um drink.

– Está bem. – Isabel admirou-se de tudo se ter passado tão simplesmente. Não chorara. Nada parecia ter mudado; só já não se casaria com Larry. Mal podia acreditar que estava tudo acabado. Ficou um tanto mortificada pelo fato de não ter havido uma violentíssima cena. Tinham resolvido o caso quase tão friamente como se estivessem a discutir a escolha de uma casa de aluguel. Sentia-se como que lesada, mas, ao mesmo tempo, experimentou uma ligeira satisfação por se terem comportado de maneira tão civilizada. Daria muito para conhecer exatamente os sentimentos de Larry, na ocasião. Mas isso era sempre difícil de saber. O rosto suave, os olhos escuros, eram uma máscara que mesmo Isabel, que o conhecia há tantos anos, jamais poderia penetrar.

Ao entrar, tirara o chapéu e pusera-o sobre a cama; agora, em frente do espelho, colocava-o de novo e, arranjando o cabelo, perguntou:

– Apenas por curiosidade: querias desmanchar o nosso noivado?

– Não.

– Pensei que talvez fosse um alívio para ti. – Como Larry não respondesse, ela voltou-se com um sorriso alegre e acrescentou: – Estou pronta.

Ao sair, Larry fechou o quarto. Quando entregou a chave ao homem da portaria, este envolveu-os num olhar de insolente cumplicidade. Isabel não pôde deixar de perceber que idéia o homem fazia da ida deles ao quarto.

– Não creio que aquele tipo tenha muita fé na minha virgindade disse ela.

Foram de táxi ao Ritz e ali tomaram uma bebida. Falaram de coisas triviais, aparentemente sem constrangimento, como dois velhos amigos que se vêem todos os dias. Embora Larry fosse calado por natureza, Isabel era tagarela, com ampla reserva de conversa fiada, e estava decidida a não permitir que entre eles se estabelecesse um silêncio que seria depois difícil de romper. Não queria que Larry pensasse que lhe guardava ressentimento, e o orgulho obrigava-a a agir de forma a não lhe deixar suspeitas de que estava magoada e infeliz. Dali a pouco, sugeriu que Larry a levasse até casa. Quando chegaram à porta, Isabel disse alegremente:

– Não te esqueças de que vens almoçar conosco amanhã. Não há perigo! – Ela apresentou-lhe a face para ser beijada e passou pela porte-cochère.

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O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham.

(Tradução de Lígia Junqueira Smith.)

Esse romance foi adaptado ao cinema em 1946 (com Tyrone Power) e em 1984 (com Bill Murray). São muito bons, mas, em ambos os casos, vem à tona aquele velho truísmo: o livro é muito melhor que o filme. (Aliás, vale lembrar que, enquanto o personagem Larry se recusava a retornar a Chicago, na mesma cidade, no 533 West Diversey Parkway, os maiores mistérios do mundo eram revelados…)

7:47 amClaude Lévi-Strauss habla de Goiânia y de otras ciudades brasileñas

Claude Lévi-Strauss

« En esas ciudades de síntesis del Brasil meridional, la voluntad secreta y testaruda que se revela en el emplazamiento de las casas, en la especialización de las arterias, en el estilo naciente de los barrios, parecía tanto más significativa cuanto que, contrariándolo, prolongaba el capricho que había dado origen a la empresa. Londrina, Nova-Dantzig, Rolandia y Arapongas — nacidas de la decisión de un equipo de ingenieros y financieros — volvían suavemente a la concreta diversidad de un orden verdadero, como un siglo antes lo había hecho Curitiba, y como quizás hoy lo hace Goiánia.

« Curitiba, capital del Estado de Paraná, apareció en el mapa el día en que el gobierno decidió hacer una ciudad: la tierra que se adquirió a un propietario fue cedida en lotes lo suficientemente baratos como para crear una afluencia de población. El mismo sistema se aplicó más tarde para dotar de una capital — Belo Horizonte — al Estado de Minas. Con Goiánia se arriesgaron aún más, pues el primer objetivo había sido el de fabricar la capital federal del Brasil a partir de la nada.

« Aproximadamente a un tercio de la distancia que separa, a vuelo de pájaro, la costa meridional del curso del Amazonas, se extienden vastas mesetas olvidadas por el hombre desde hace dos siglos. En la época de las caravanas y de la navegación fluvial podían atravesarse en unas semanas para remontarse desde las minas hacia el norte; así se llegaba a la ribera del Araguaia, y por él se bajaba en barca hasta Belém. Único testigo de esta antigua vida provinciana, la pequeña capital del Estado de Goiás, que le dio su nombre, dormía a 1000 kilómetros del litoral, del que se encontraba prácticamente incomunicada. En un paraje rozagante, dominado por la silueta caprichosa de los morros empenachados de palmas, calles de casas bajas descendían por las cuchillas, entre los jardines y las plazas donde los caballos transitaban ante las iglesias de ventanas adornadas, mitad hórreos, mitad casas con campanarios. Columnatas, estucos, frontones recién castigados por la brocha con un baño espumoso como clara de huevo y teñido de crema, de ocre, de azul o de rosa, evocaban el estilo barroco de las pastorales ibéricas. Un río se deslizaba entre malecones musgosos, a veces hundidos bajo el peso de las lianas, de los bananeros y de las palmeras que habían invadido las residencias abandonadas; éstas no parecían marcadas con el signo de la decrepitud; esa vegetación suntuosa agregaba una dignidad callada a sus fachadas deterioradas.

« No sé si hay que deplorar o regocijarse con lo absurdo: la administración había decidido olvidar Goiás, su campiña, sus cuestas y su gracia pasada de moda. Todo ello era demasiado pequeño, demasiado viejo. Se necesitaba una tabla rasa para fundar la gigantesca empresa con la que soñaban. Se la encontró a 100 kilómetros hacia el este, en la forma de una meseta abierta sólo por pasto duro y zarzales espinosos, como azotada por una plaga que hubiera destruido toda fauna y toda vegetación. Ningún ferrocarril, ninguna carretera conducía a ella, sino tan sólo caminos adecuados para los carros. Se trazó en el mapa un cuadrado simbólico de 100 kilómetros de lado, correspondiente a ese territorio, sede del distrito federal, en cuyo centro se levantaría la futura capital. Como no había allí ningún accidente natural que importunara a los arquitectos, éstos pudieron trabajar en el lugar como si lo hubieran hecho sobre planos. El trazado de la ciudad se dibujó en el suelo; se delimitó el contorno y dentro de él se marcaron las diferentes zonas: residencial, administrativa, comercial, industrial y la reservada a las distracciones; éstas son siempre importantes en una ciudad pionera: hacia 1925, Marilia, que nació de una empresa semejante, sobre 600 casas construidas contaba con casi 100 prostíbulos, en su mayoría consagrados a esas francesinhas que con las monjas constituían los dos flancos combatientes de nuestra influencia en el extranjero; el Quay d’Orsay lo sabía muy bien y todavía en 1939 dedicaba una fracción sustancial de sus fondos secretos a la difusión de las revistas “ligeras”. Algunos de mis colegas no me desmentirán si hago recordar que la fundación de la Universidad de Rio Grande do Sul, el Estado más meridional del Brasil, y la preeminencia que allí se dio a los maestros franceses, tuvieron por origen el gusto por nuestra literatura y nuestra libertad que una señorita de virtud ligera inculcó a un futuro dictador, en París, durante su juventud.

« De la noche a la mañana los diarios se llenaron de carteles que ocupaban páginas enteras. Se anunciaba la fundación de la ciudad de Goiánia; en torno de un plano detallado, tal como si la ciudad hubiera sido centenaria, se enumeraban las ventajas que se prometían a los habitantes: vialidad, ferrocarril, derivación de aguas, cloacas y cinematógrafos. Si no me equivoco, al principio, en 1935-1936 hasta hubo un período en que la tierra era ofrecida en primer lugar a los adquisidores que pagaban las costas. Pues los abogados y los especuladores eran los primeros ocupantes.

« Visité Goiánia en 1937. Una llanura sin fin con algo de terreno baldío y de campo de batalla, erizada de postes eléctricos y de estacas de agrimensura, que dejaba ver unas cien casas nuevas dispersas en todas direcciones. La más importante era el hotel, paralelepípedo de cemento que, en medio de semejante llanura, parecía un aeropuerto o un fortín. De buen grado se le hubiera podido aplicar la expresión «baluarte de la civilización» en un sentido no figurado sino directo, que así empleado tomaba un valor singularmente irónico, pues nada podía ser tan bárbaro, tan inhumano, como esa empresa en el desierto. Esa construcción sin gracia era lo contrario de Goiás; ninguna historia, ninguna duración, ninguna costumbre había saturado su vacío o suavizado su dureza; uno se sentía allí como en una estación o en un hospital, siempre pasajero, jamás residente. Sólo el temor a un cataclismo podía justificar esta casamata. En efecto, se había producido uno y su amenaza se veía prolongada en el silencio y la inmovilidad que reinaba. Cadmo, el civilizador, había sembrado los dientes del dragón. Sobre una tierra desollada y quemada por el aliento del monstruo se esperaba que los hombres avanzaran.»

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Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss.

(Traduzido do francês ao espanhol por Noelia Bastard.)

7:41 amJohann Wolfgang von Goethe: trechos do Diário de Otília

Goethe

“O melhor consolo para o medíocre é pensar que o homem de gênio também é mortal.”

* * *

“Na vida toma-se a pessoa pela aparência, mas é preciso que aparente alguma coisa. São mais bem suportados os importunos que os insignificantes.”

* * *

“Pode-se impor tudo à sociedade, menos o que tiver conseqüência.”

* * *

“Não conhecemos os homens, quando vêm ao nosso encontro; é preciso ir ao encontro deles para sabermos o que eles verdadeiramente são.”

* * *

“A convivência com senhoras é a base dos bons costumes.”

* * *

“Não há nenhum sinal exterior de cortesia, que não contenha sólida base de moral. A verdadeira educação seria a que prendesse a causa ao gesto.”

* * *

“A conduta é um espelho no qual cada um reflete sua imagem.”

* * *

“Há uma cortesia do coração, que é parenta do amor. Dela emana a mais natural urbanidade da conduta exterior.”

* * *

“Uma dependência voluntária é o mais belo estado; e como seria isso possível sem amor?”

* * *

“Nunca nos afastamos tanto dos nossos desejos, como quando julgamos possuir o objeto desejado.”

* * *

“Ninguém mais escravo que aquele que se julga livre sem sê-lo.”

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“Basta que nos declaremos livres para que, no mesmo instante, nos sintamos escravizados. Se ousamos declarar-nos dependentes, sentimo-nos livres.”

* * *

“Contra grandes superioridades de segunda, o único meio de salvação é o amor.”

* * *

“Situação insuportável para um homem superior: ver tolos vangloriarem-se diante dele.”

* * *

“Ninguém é herói para seu camareiro, costuma-se dizer. Mas isso é porque o herói só é reconhecido por outro herói. É muito provável que o camareiro saiba apreciar outro camareiro.”

* * *

“Os maiores homens estão sempre ligados ao seu século por alguma fraqueza.”

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“Geralmente julgamos os homens mais perigosos do que realmente são.”

* * *

“Os nécios e os sensatos são igualmente inofensivos. Somente os semiloucos e os semiprudentes são perigosos.”

* * *

“A arte é o recurso mais seguro de o homem evitar o mundo e nela está o meio mais eficaz de se ligar a ele.”

* * *

“Até no auge da ventura e da maior desgraça sentimos necessidade do artista.”

* * *

“A arte se ocupa do que é difícil e do que é bom.”

* * *

“Quando vemos o difícil ser facilmente executado, temos a impressão do impossível.”

* * *

“As dificuldades aumentam quanto mais nos aproximamos da meta.”

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“Semear não é tão difícil quanto colher.”

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Afinidades Eletivas, de Johann Wolfgang von Goethe.

8:05 amMonteiro Lobato fala sobre os Amigos do Brasil

Monteiro Lobato

Amigos do Brasil! Pois há disso? Há. Houve e há estrangeiros que se apaixonam das nossas coisas, vêm estudá-las e de volta às suas terras dão-se ao sentimentalismo de querer bem ao país onde a primavera e o estado de sítio são eternos.

O saudoso e recém falecido J. C. Branner, reitor da Universidade de Stanford, estudou na mocidade a nossa geologia e de regresso, até o fim da vida, conservou-se um amigo do Brasil. Quando publiquei meu primeiro livro recebi dele uma carta que conservo como prêmio. Discutia a “geringonça”, ou gíria como dizemos hoje, e falava disso com a segurança do homem de ciência para o qual tudo quanto representa criação tem valor.

Na Alemanha tivemos sempre inúmeros amigos, a partir do grande Martius. Hoje também os temos e um deles é o Dr. Frederico Sommer, que se empenha em verter e lá publicar os livros mais característicos da nossa literatura.

Até na França, tão de si própria, temos amigos. Mr. Le Gentil dedica-se a estudos brasileiros e em companhia de M. Gahisto, Martinenche e outros mantém na Revue de l’Amerique Latine uma seção dedicada amorosamente ao Brasil. Não contentes, criaram na Sorbonne um centro de estudos brasileiros e cuidam agora de constituir uma biblioteca de livros brasileiros. Tudo isto sem subvenções, à custa de enormes esforços e ao arrepio da nossa muçulmana indiferença. (Aviso aos autores de livros: essa biblioteca da Sorbonne aceita com grande prazer e pede a remessa de obras nacionais para lá, sobretudo as científicas. Endereço: Mr. Le Gentil, Centro de estudos portugueses, Sorbonne, Paris).

Outro, de nome menos conhecido entre nós, é Mr. Jean Turiau (Boulevard Murat, 29, XVIme). Já residiu no Brasil, conhece as nossas coisas e as rememora com saudades. O Brasil é uma coisa deliciosa vista assim de longe. Um meu amigo, grande patriota, dizia sempre: — Meu ideal é a diplomacia. Viver do Brasil mas longe dele, de modo a sentir sempre doces saudades da pátria, que delícia!

Mas Turiau quer bem a isto aqui e gostos não se discutem. Trabalha em traduções e vai tornando conhecida em França a nossa esfarrapada literatura. Na última carta que me escreveu lamenta-se da sua situação de funcionário público, como toda gente em França, situação que lhe não permite adquirir obras sobre o Brasil. E chora por uma Rondônia, por uma História do Brasil, de Rocha Pombo, trop chère… (Aviso aos srs. Roquette Pinto e a Rocha Pombo: não percam a oportunidade de um tal leitor. Nada há mais raro e que mais honre a um escritor do que um bom leitor).

A interpenetração literária é o que há de mais profícuo na aproximação dos povos. Só ela suprime as muralhas que a estupidez dos governos ergue. Só ela demonstra que somos todos irmãos no mundo, com as mesmas vísceras, os mesmos defeitos, os mesmos ideais. Se a França tornou-se amada entre nós a ponto de bombardear Damasco e esmagar Abd-el-Krim sem que isso nos arrepie as fibras da indignação, deve-o aos senhores Perrault, Lafontaine, Hugo, Maupassant, Taine, Anatole e quantos mais nos trouxeram para aqui esta sensação da irmandade do homem. Se a Alemanha não se gozou de idênticas simpatias é que víamos os atos de violência dos seus homens de governo e não havia dentro de nós, para atenuar-lhes a repercussão, o coxim de veludo da literatura alemã bem absorvida como temos a francesa.

Grande serviço, pois, prestam aos povos esses homens beneméritos que trabalham na difusão da literatura alheia em seus próprios países. Estão a preparar os preciosos coxins de veludo, amortecedores dos choques. Criam a compreensão e a tolerância. Demonstram, com a exibição de documentos humanos, que somos iguais, todos filhos do mesmo macaco que rachou a cabeça ao cair do pau.

Mas o nosso descaso é imenso. Nenhuma livraria do Rio, por exemplo, tem à venda essa revista da América Latina. Por que? Não há procura. Estupidificados pelo estado de sítio crônico, parece que um desalento nos ganhou a todos, um desânimo de tudo, indiferença de chim.

Se alguma coisa valesse alguma coisa nesta terra: eis a frase com que um jornalista traduz tal estado d’alma. Frase horrível, reflexo do desespero do desânimo, e, no entanto, lógica, sempre que um povo perde a sua liberdade e tomba no boçalismo da escravidão. Mas tudo passa. Depois da noite vem o dia. Depois da Idade Média vêm os 89. Tolice é desesperar. Esperemos, e enquanto esperamos não contaminemos com o nosso desalento de escravos os abnegados pioneiros das nossas letras em França. É noite? Não importa. Também de noite se trabalha e não há trabalho mais abençoado do que o que se faz dentro da noite para apressar a vinda do dia claro. E é trabalhar para um dia melhor meter mãos à obra da difusão literária.

Os morcegos passam e os livros ficam.

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Na Antevéspera, de Monteiro Lobato.

7:17 amLin Yutang fala sobre a arte de ler

 Lin Yutang

A leitura, ou o gozo dos livros, foi sempre contada entre os encantos da vida culta e é respeitada e invejada por aqueles que raramente se concedem esse privilégio. É fácil compreendê-lo quando comparamos a diferença entre a vida de um homem que não lê e a de um homem que lê. O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Este conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns de seus pesares pessoais, ou discute com ele uma forma especial ou um aspecto da vida de que o leitor nada sabe. Um autor antigo o põe em comunhão com um espírito morto há já muito tempo, e, à medida que lê, começa a imaginar como seria esse autor antigo fisicamente e que espécie de pessoa seria. Tanto Mêncio como Ssema Ch’ein, o maior historiador chinês, expressaram a mesma idéia. Poder viver duas horas, sobre doze, em um mundo diferente e furtar os pensamentos ao apelo presente imediato, é este um privilégio que deve causar inveja às pessoas que vivem encerradas na sua prisão corporal. Tal mudança do ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico.

Mas há mais do que isto. O leitor se vê levado sempre a um mundo de pensamentos e reflexões. Embora se trate de um livro de fatos objetivos, há uma diferença entre ver esses fatos, ou vivê-los, e ler sobre eles nos livros, porque então os fatos assumem sempre a qualidade de um espetáculo, e o leitor se converte em espectador desapaixonado. A melhor leitura é, pois, a que nos leva a esse mundo contemplativo, e não a que se ocupa unicamente do registro dos fatos. Considero que não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais, pois os comuns leitores de jornais se preocupam antes de tudo em obter notícias sobre fatos e acontecimentos.

A melhor fórmula sobre a finalidade da leitura, a meu ver, foi dada por Huang Shanku, poeta Sung e amigo de Su Tungp’o, que disse: “Um intelectual que nada leu durante três dias sente que a sua conversação não tem sabor (que se torna insípida) e a sua cara se torna odiosa de ver (ao espelho)”. O que quis dizer é que a leitura dá ao homem certo encanto e sabor, que é o objeto da leitura, e só pode chamar-se arte a leitura com esse objetivo. Não se lê “para melhorar o espírito”, pois quando se começa a pensar em melhorar o espírito, desaparece todo o prazer da leitura. Este é o tipo de pessoas que dizem com os seus botões: “Devo ler Shakespeare, Sófocles e Cervantes, para poder ser um homem culto”. Estou certo de que um homem assim nunca será culto. Uma noite se obrigará a ler Hamlet, e sairá disso como de um mau sonho, com o único benefício de poder dizer que “já leu” Hamlet. Todo aquele que leia um livro como quem cumpre uma obrigação, é porque não compreende a arte da leitura. Essa leitura com intuitos de negócio é como a leitura de arquivos, por um político, antes de pronunciar um discurso. É apenas pedir conselho e informação de negócios, e não ler.

Ler para cultivar o encanto do aspecto físico e do sabor na palavra é, segundo Huang, a única espécie de leitura que se pode admitir. Este encanto do aspecto deve ser interpretado, evidentemente, como algo mais que a beleza física. Huang não se refere à fealdade em sua frase. Há caras feias que têm um encanto fascinador e caras formosas que são insípidas para quem as olha. Entre os meus amigos chineses há um cuja cabeça têm a forma de uma bomba e, contudo, vê-lo é sempre um prazer. A cara mais linda dentre as dos autores ocidentais contemporâneos, pelo que pude observar nas fotografias, era a de G. K. Chesterton. Tinha um tão diabólico conglomerado de bigodes, óculos, emaranhadas pestanas e carregadas sobrancelhas! Ao olhá-la, sentia-se que dentro daquela fronte havia uma boa quantidade de idéias em ação, prontas para saltar, a qualquer momento, por aqueles olhos estranhamente penetrantes. Aquela cara era uma das que Huang chamaria formosas, uma cara que não era feita pelos pós e a pintura, mas pela pura força do pensamento. Quanto ao sabor da palavra, tudo depende da forma de ler. Que se tenha “sabor” ou não quando se fala, isto depende do método de leitura. Se um leitor frui sabor nos livros, demonstrará esse sabor em suas conversações, e se tem sabor em suas conversações, tê-lo-á no que escreve.

Considero o sabor, ou gosto, como a chave de toda leitura. Segue-se daí que o gosto é seletivo e individual, como o gosto na comida. A forma mais higiênica de comer é, afinal de contas, a de comer o que nos agrada, pois só então se poderá ter segurança da digestão. Quando se lê, como quando se come, o que faz bem a um pode matar a outro. O mestre não pode forçar seus discípulos a que gostem do que a ele agrada como leitura, e um pai não pode esperar que os filhos tenham o mesmo gosto que ele. E se o leitor não tem gosto no que lê, perde o seu tempo. Já o disse Yüan Chunglang: “Podeis deixar de lado os livros que não vos agradam: os outros que os leiam”.

Não pode, pois, haver livros que a gente deva ler. Porque os nossos interesses intelectuais crescem como uma árvore ou fluem como um rio. enquanto haja seiva adequada, há de crescer de algum modo a árvore; e enquanto haja água do manancial, o rio continuará correndo. Quando a água topa com um escolho de granito, não faz mais que rodeá-lo; quando encontra um vale baixo e aprazível, detém-se e espraia-se por um momento; quando se encontra num fundo tanque da montanha, está contente de quedar-se ali; e salta nas cataratas. Assim, sem esforço algum, sem propósito determinado, chegará certamente um dia ao mar. Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período de sua vida. Chego a crer que a leitura, como o casamento, está determinada pelo destino, ou yinyüan. Embora haja certo livro que todos devem ler, como a Bíblia, há um momento para fazê-lo. Quando os pensamentos e a experiência de uma pessoa não chegaram a certo ponto para ler uma obra-prima, esta só lhe deixará um mau sabor. Confúcio diz: “Aos cinqüenta anos, pode-se ler o Livro das Mutações”, o que significa que não o devemos ler aos quarenta e cinco. O leitor obtém uma sabedoria quando lê o Livro das Mutações aos quarenta anos, e outra espécie de sabedoria quando o lê aos cinqüenta anos, depois de ter visto mais mudanças na vida. Portanto, todos os bons livros podem ser relidos com proveito e renovado prazer. Quando estudante, fizeram-me ler Westward Ho! e Henry Esmond, mas, embora fosse capaz de apreciar Westward Ho! quando não tinha vinte anos, o verdadeiro sabor de Henry Esmond me escapou completamente, até que refleti, anos mais tarde, e suspeitei que havia neste livro muito mais encanto do que me fora possível apreciar.

A leitura, pois, não é um ato simples; tem duas faces: o autor e o leitor. O ganho provém tanto da contribuição do leitor, por meio da sua visão íntima e da sua experiência, como do autor. Com respeito às Analectas de Confúcio, disse o confucionista Ch’eng Yich’uan, da época Sung: “Há leitores e leitores. Alguns lêem as Analectas e sentem que nada aconteceu, a alguns agradam uma ou duas passagens, e outros começam a sacudir as mãos e a dançar sem querer”.

Considero o descobrimento do autor favorito de cada um como o momento definitivo da sua evolução intelectual. Há algo que se chama afinidade de espíritos, e, entre os antigos e modernos autores, devemos procurar aquele cujo espírito seja semelhante ao nosso. Só desta maneira se pode auferir real proveito da leitura. Cumpre ser independente e procurar por conta própria os mestres. Ninguém pode dizer quem será o autor favorito de cada qual: talvez nem o próprio leitor possa dizê-lo. É como o amor à primeira vista. Não se pode dizer ao leitor que ame a este ou àquele autor; mas quando se encontra com o autor a quem ama, sabe-o por uma espécie de instinto. Conhecemos casos famosos a este respeito. Há sábios que viveram em épocas diferentes, separados por muitos séculos, mas com maneiras de pensar e de sentir tão semelhantes que, ao se encontrarem nas páginas de um livro, pareciam uma única pessoa que encontrava a própria imagem. Dizem os chineses, desses espíritos semelhantes, que são reencarnações da mesma alma, como se dizia de Su Tungp’o que era uma reencarnação de Tchuang-tsé, ou de T’ao Yüanming, e de Yüan Chunglang que era uma reencarnação de Su Tungp’o. Su Tungp’o disse que, quando leu pela primeira vez Tchuang-tsé, teve a sensação de que desde a meninice tinha estado a pensar as mesmas coisas e a formar os mesmos pontos de vista. Quando Yüan Chunglang descobriu uma noite Hsü Wench’ang, autor contemporâneo a quem não conhecia, em um pequeno livro de poemas, saltou da cama e chamou aos gritos o seu amigo, e seu amigo começou a ler e gritou por sua vez, e logo ambos leram e gritaram de tal modo que o servente ficou intrigadíssimo. George Eliot diz que a sua primeira leitura de Rousseau foi um choque elétrico. Nietzsche sentiu o mesmo no tocante a Schopenhauer, mas Schopenhauer era um mestre ranzinza e Nietzsche um discípulo teimoso, e era natural que o aluno se rebelasse mais tarde contra o mestre.

Só essa espécie de leitura, esse descobrimento do autor favorito pode fazer bem. Como acontece com um homem que se enamora à primeira vista, tudo é como deve ser. A noiva tem a estatura exata, o rosto exato, o cabelo da cor exata, a voz de exata qualidade, e a forma exata de falar e de sorrir. O mesmo acontece com o autor: seu estilo, seu ponto de vista são exatamente o que se esperava encontrar. E logo começa o leitor a devorar cada palavra e cada linha que escreve o autor e, como há afinidade espiritual, absorve e digere tudo o que lê. O autor aplicou sobre ele a sua magia, e alegra-o estar debaixo do sortilégio, e, com o tempo, a sua voz e as suas maneiras e o jeito de sorrir e de falar se vão tornando como os do autor. Assim se impregna do seu amante literário, de cujos livros extrai o sustento para a alma. Ao fim de alguns anos, quebra-se o encanto e cansa-se um pouco desse amante literário, e procura outros e, depois de ter uns três ou quatro e havê-los devorado completamente, surge ele próprio como autor. Há muitos leitores que nunca se enamoram, como esses moços ou moças que vivem em galanteios e são incapazes de sentir um profundo afeto por uma pessoa em particular. Podem ler todo e qualquer autor e nunca chegam a coisa alguma.

Tal conceito da arte de ler destrói por completo a arte da leitura como dever ou obrigação. Na China, anima-se amiúde os estudantes a que estudem amargamente. Houve um famoso sábio que estudava amargamente e que cravava um alfinete na barriga da perna toda vez que lhe sucedia adormecer durante o estudo. Houve outro que fazia com que a criada ficasse a seu lado enquanto ele estudava de noite, para despertá-lo quando ele adormecesse. Isto é uma insensatez. Se alguém tem um livro ante os olhos e adormece enquanto um sábio autor antigo está lhe falando, faz muito bem em ir para a cama. Nem a picada de um alfinete na barriga da perna, nem as sacudidelas da criada lhe farão bem algum. Um homem assim perdeu todo senso do prazer da leitura. Os sábios que valem alguma coisa não sabem o que significa “estudar com afinco”. Amam os livros e os lêem porque não podem evitá-lo, nada mais.

Resolvida esta questão, também se dá resposta à do momento e local em que se deve ler. Não há momento nem locais especiais para ler. Quando se tem vontade de ler, deve-se ler em qualquer parte. Se se conhece o gozo da leitura, ler-se-á na escola ou fora dela, e apesar de todas as escolas. Pode-se estudar assim nas melhores escolas. Tseng Kuofan, numa das cartas à família, referindo-se ao desejo expresso por um de seus irmãos menores de ir à capital estudar numa escola melhor, respondeu que: “Se se tem desejo de estudar, pode-se estudar numa casa de campo, ou mesmo num deserto ou numa rua cheia de gente, e até como lenhador ou guardador de porcos. Mas se não se tem desejo de estudar, então não somente é inadequada para o estudo a escola de campo, mas também uma quieta casa de campo ou uma ilha de fadas”. Há pessoas que adotam posturas importantes defronte à mesa quando querem ler um pouco, e logo se queixam de que não podem ler porque o quarto está demasiado frio, ou a cadeira é muito dura, ou muito forte a luz. E há escritores que se queixam de não poder escrever porque há muitos mosquitos, ou porque o papel é muito brilhante, ou vem muito ruído da rua. O grande sábio Sung, chamado Ouyang Hsiu, confessou as três ocasiões ou lugares em que criava as suas melhores obras: no travesseiro, montado a cavalo e durante a toilette. Outro famoso sábio Ch’ing, Ku Ch’ienli, era conhecido pelo seu costume de “ler os clássicos confucianos completamente nu, no verão”. Em compensação, se não nos agrada a leitura, não faltam motivos para não ler em nenhuma das estações do ano:

Estudar na primavera é traição;
Não há como o estio para o sono;
E espera, enquanto o inverno vai tangendo o outono,
Que a primavera seja a próxima estação.

Em que consiste, pois, a verdadeira arte da leitura? A resposta, muito simples, é tomar um livro e ler quando se tem vontade. Pega a gente um lindo volume de Lisao, ou de Omar Khayyam, e vai, de mãos dadas com o seu amor, ler à margem de um rio. Se há boas nuvens no céu, pode-se ler as nuvens e esquecer o livro, ou ler o livro e as nuvens ao mesmo tempo. Às vezes, um bom cachimbo, ou uma taça de chá, constituem o momento mais perfeito. Ou talvez por uma noite nevada, sentado ante o fogo, quando canta uma chaleira e há uma boa bolsa de fumo ao alcance da mão, a gente reúne dez ou doze livros de filosofia, economia, poesia, biografia e os empilha no divã e depois preguiçosamente os folheia e mergulha suavemente naquele que mais atrai a atenção, de momento. Chin Shengt’an considera que um dos maiores prazeres da vida é ler um livro proibido, a portas fechadas, por uma noite de neve.

A melhor descrição do prazer da leitura, encontrei-a na autobiografia da maior poetisa chinesa, Li Ch’ingchao (Yi-an, 1081-1141). Ela e seu marido costumavam ir ao templo, onde se vendiam livros de segunda mão e cópias de inscrições em pedra, no dia em que ele recebia sua mensalidade como estudante da Academia Imperial. No regresso compravam também algumas frutas e, chegados em casa, começavam a descascá-las, ou a beber chá, enquanto comparavam as variações em edições diferentes. No seu esboço autobiográfico, diz ela:

“Eu tenho boa memória, e, sentados a sós depois de comer, no Salão do Regresso à Casa, costumávamos preparar chá e, mostrando os livros nas estantes, dizíamos em que linha, de que página, e de que volume de certa obra se achava determinada passagem, para quem acertava, e o que ganhava tinha o privilégio de beber primeiro sua taça de chá. Quando um dos dois acertava, erguíamos muito alto a taça e rompíamos em gargalhadas, tanto que às vezes se derramava o chá sobre as nossas vestes e não o podíamos beber. Que contentes estávamos por viver e envelhecer num mundo assim! Por isso mantínhamos alta a cabeça, embora vivêssemos na pobreza e cheios de cuidados… Com o tempo a nossa coleção foi aumentando, e os livros e objetos de arte se empilharam em mesas e escrivaninhas e camas, e nós os gozávamos com os olhos e com o espírito, e discutíamos sobre eles, saboreando uma felicidade muito superior à dos que gozam dos cachorros, dos cavalos, da música e da dança…”

Li escreveu isto na velhice morto já seu marido, quando era uma velha solitária que fugia de um lugar para outro, durante a invasão do norte da China pelas tribos Chin.

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A Importância de Viver, de Lin Yutang (tradução de Mário Quintana).

1:41 pmQuatro contribuições brasileiras ao pensamento universal

Olavo de Carvalho

« Mas, como dizia Reinhold Niebuhr, a consciência do homem está sempre um pouco acima da sociedade em que vive. O melhor do que o Brasil guardou para o futuro está nas criações do gênio individual. Ao contrário do que se passa com a língua e com a religião nacionais, elas sobrevivem às perguntas: Qual o valor da contribuição brasileira para a inteligência humana em sua caminhada sobre a Terra? Demos à humanidade algo de que ela realmente necessite, ou limitamo-nos a solicitar sua atenção para as nossas necessidades?

« Na esfera do pensamento — e excluindo portanto as manifestações artísticas, que escapam ao tema do presente capítulo —, o Brasil deu pelo menos quatro contribuições maiores, que sobreviverão à passagem dos séculos. Absolutamente incomparáveis, a sociologia de Gilberto Freyre, o pensamento jurídico e político de Miguel Reale, a obra crítica e historiográfica de Otto Maria Carpeaux e a filosofia de Mário Ferreira dos Santos são os pontos mais altos alcançados pelo pensamento brasileiro no seu esforço de cinco séculos para erguer-se à escala do universalmente humano. Se o povo brasileiro fosse varrido da existência na data de hoje, seria a eles que caberia comparecer em nosso nome ante o trono do Altíssimo para responder à cobrança temível: — Que fizeste dos talentos que te dei?

« As razões que sustentam essa avaliação podem ser resumidas em quatro palavras, que definem as esferas de realização abrangidas por cada uma dessas obras ciclópicas: cada uma delas é, mais que qualquer outra produzida neste país, abrangente, consistente, única e universal. Estes quatro adjetivos não têm apenas uma função enfática e laudatória, mas traduzem critérios precisos:

« 1° Cada uma delas abrange numa visão sintética a totalidade temática e problemática de um determinado campo do conhecimento até o ponto a que este havia chegado, em sua evolução histórica, no momento em que essa obra atingia seu ponto culminante.

« 2° Cada uma delas possui uma unidade orgânica que coere em torno de princípios fundamentais simples a vastidão do campo abrangido.

« 3° Cada uma delas é sem similares que as possam substituir em qualquer outra língua ou cultura.

« 4° Cada uma delas fala aos homens de todos os quadrantes, levando-lhes, desde o Brasil, um conhecimento essencial, a respeito não apenas do Brasil, mas a respeito deles mesmos e do mundo em que vivem. Dito de outro modo: nessas obras e somente através delas entramos plenamente no diálogo universal dos homens, superando o complexo egocêntrico de uma cultura voltada para si mesma.

« Todas elas e somente elas atendem a esses requisitos.

« Se alguém quiser por em dúvida a validade dos quatro critérios, movido por escrúpulos que lhe pareçam muito científicos no que diz respeito à possibilidade de fixar objetivamente o “mais alto” e o “menos alto”, direi que toma suas inibições pessoais como rigores de método.»

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O Futuro do Pensamento Brasileiro – Estudos sobre nosso lugar no mundo, de Olavo de Carvalho.

7:41 amO futuro do livro

The Future of the Book. from IDEO on Vimeo.

Meet Nelson, Coupland, and Alice — the faces of tomorrow’s book. Watch global design and innovation consultancy IDEO’s vision for the future of the book. What new experiences might be created by linking diverse discussions, what additional value could be created by connected readers to one another, and what innovative ways we might use to tell our favorite stories and build community around books?

www.ideo.com

Sinceramente? Isso tudo pode ser muito útil às mais diversas áreas do conhecimento — essas que exigem o estudo de guias, manuais e livros teóricos — mas me causa uma ansiedade dos diabos me imaginar lendo literatura com tanta informação a invadir minha página. A solidão do leitor é necessária para que a literatura aconteça e se lhe torne uma companhia.