7:41 amLivro é instrumento

Já comentei isso antes, mas direi novamente: para o escritor, todo livro é um instrumento, não é um ídolo a ser disposto e venerado num altar. Não é uma jóia rara a ser tratada com mais carinho que um bebê recém nascido. Parece estranho? Calma, vou me explicar.

No primeiro mês que morei com Hilda Hilst, ela me passou um livro do Thomas Merton — um no qual, entre outros artigos, ele analisava o romance “O Doutor Jivago”, de Boris Pasternak — e me pediu que o lesse. Dias depois, quando o devolvi, ela o folheou e me deu uma bronca.

— Mas você não leu nada!

Fiquei espantado: — Ué, claro que li!! — E então lhe mostrei minhas anotações, com diversos trechos copiados, os quais ainda guardo comigo. Ela não ficou satisfeita:

— Mas se você não sublinhar e rabiscar o livro, como vou saber quais trechos lhe chamaram a atenção? Vou ter de pegar seu caderninho? Tem de rabiscar!

Fiquei mais espantado ainda: — Mas o livro é seu, Hilda!

— E daí? Não vou levá-los para o túmulo comigo. Aliás, até nos seus livros você marca tudo com uma timidez esquisita. Tá com medo do livro? O livro é seu, não é de nenhuma biblioteca.

E, para me mostrar o quanto ela estava se lixando para os pudores de outros leitores, devolveu meu exemplar d’O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, que ela não apenas havia sublinhado de cabo a rabo, mas até mesmo enchido de anotações nas bordas.

— Olha só — disse —, agora você pode folhear seu livro, voltar aqui e discutir comigo os trechos que marquei que também lhe interessam. E você deve marcar para si mesmo todos os livros que lê. Seu livro é uma ferramenta para você consultar sempre que precisar. Ou você tem memória de elefante para tudo o que lê? Eu não tenho.

— Tá certo.

— Só uma coisa… — tornou ela, em voz baixa, como quem pretende contar um segredo. — Sublinhe, rabisque, inclusive os meus. Mas, se algum dia emprestar seus livros para um idiota, para um atoleimado, não lhe diga nada disso. Diga que seus livros são sagrados e que só você pode rabiscá-los.

Eu ri: — Entendi.

Vivendo, lendo, sublinhando, relendo e aprendendo.

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7:04 am10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

4:53 pmAuto-humilhação petista

O sujeito que lê, entre muitíssimos outros, os livros República (Platão), Os Demônios (Dostoiévski), O que há de errado com o mundo? (Chesterton), A teoria da exploração do socialismo-comunismo (Böhm-Bawerk), O Homem Revoltado (Camus), A Invasão Vertical dos Bárbaros (Mário Ferreira dos Santos), Advertência ao Ocidente (Soljenítsin) A Nova Era e a Revolução Cultural (Olavo de Carvalho) e Ponerologia: Psicopatas no Poder (Lobaczewski), e que mesmo assim continua sendo um petista, um progressista, um comunista ou um revolucionário político qualquer, certamente sofre de analfabetismo funcional (e merece por isso nossa compaixão, haja vista o estado de decrepitude da educação brasileira) ou então de um tipo qualquer de psicose (e por isso devia recorrer a algum tipo de psicoterapia). Se é alguém que se recusa a ler livros desse gênero — livros que falam à inteligência, e não ao coração mediante ideologias irracionais e absurdas —, então o sujeito é apenas um fanático. Ou um preguiçoso. Se for um fanático, podemos compreender seu apoio a um oclocrata como Lula: é o que se espera de fanáticos, isto é, a paixão imune a toda prova em contrário, a todo fato, avessa à própria estrutura da realidade. Fanáticos políticos lêem apenas os catecismos da sua fé ideológica, prendendo-se a superstições tais como o socialismo e o comunismo. É até compreensível, embora deplorável. Por outro lado, se o sujeito for simplesmente um preguiçoso, do tipo que não lê sequer um best-seller ao ano, deveria evitar o vexame e parar de bater no peito, escrevendo aqui e ali, mal que mal, seus nonsenses político-econômicos e suas bravatas de sequaz. A defesa do maior bandido que este país já teve no governo não merece a auto-humilhação e a vergonha de quem devia estar simplesmente curtindo a vida.

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11:56 amEducando para a guerra

Certa vez, durante meu intercâmbio no Equador, iniciei sem querer-querendo uma tremenda polêmica em sala de aula. Era uma aula de geografia e, enquanto o professor discorria sobre as riquezas naturais do país, eu encarava incrédulo o mapa estampado no meu livro: nele, o rio Amazonas iniciava no Equador! Eu, que sempre fui um CDF, não conseguia compreender semelhante equívoco. Lá pelas tantas, levantei a mão e indaguei ao licenciado — no Equador, você sempre se dirige aos professores pelo título — indaguei se aquele livro estava atualizado. Respondeu que “sí” e me perguntou o porquê.

— Uê, licenciado, porque, neste mapa, o rio Amazonas começa no Equador, e isso não é verdade. O Amazonas começa no Peru.

Eu pensei que estava sendo útil, pensei que estava a corrigir o material didático do colégio, mas os olhares reprovadores de boa parte dos meus colegas, além da expressão de espanto do professor, indicavam um grande mico da minha parte.

— Senhor Vieira, o livro está certo: esse território pertence, sim, ao Equador. O Protocolo do Rio de Janeiro, de 1942, foi uma afronta ao nosso país. O Brasil, a Argentina, o Chile e os Estados Unidos, signatários do Protocolo, e anos depois a ONU, podem achar que o problema ficou no passado. Mas essa região, além de oferecer uma saída para o rio Amazonas, é rica em petróleo, e futuramente voltará a fazer parte do Equador.

Arqueei as sobrancelhas: — Então estou certo: não faz parte do Equador.

— Se um ladrão rouba o carro do seu pai e você o encontra na rua, ¿o que você diz? ¿”Olha lá o carro do ladrão”?

Finalmente compreendendo onde havia me metido, engoli em seco: — Não. Digo que é o carro do meu pai.

— Estamos conversados — concluiu, e me virou as costas voltando ao quadro negro.

Depois da aula, fui rodeado por vários colegas que me explicaram a situação: o Equador jamais engoliu o resultado da guerra ocorrida com o Peru entre 1941 e 1942. Tanto que, no início dos anos 1980, houve alguma escaramuça. Alguns estudantes, com ar patriótico, me diziam que aquilo iria ser corrigido muito em breve. Outros, como quem diz “ah, essa mania de guerra!”, sorriam cinicamente: não estavam nem aí para aquela história. Entre esses estava Paul Segovia, um sujeito engraçadíssimo, músico multi-instrumentista, um talento nato, que na época atuava no grupo de música andina Siembra, mas que, anos mais tarde, sem que eu me inteirasse daqui do Brasil, haveria de tornar-se o mais bem sucedido vocalista de rock da história do Equador, uma espécie de Jim Morrison local, que, tal como o americano, também morreria jovem, no ápice da carreira, de causas nebulosas.

Oye, hermano, não dê atenção a esses tromposos! Isso tudo é só desculpa para o Exército encher el culo de plata. Não vai ter guerra nenhuma. É mais fácil o Cotopaxi entrar em erupção do que rolar novamente outra briguinha com o Peru. E o Cotopaxi está dormindo desde 1904!

Naquela ocasião, concordei com Paul: já não vivemos numa América do Sul afeita a guerras. Claro que não ocorreria nada. Nem com o Peru nem com o Cotopaxi, vulcão que eu escalaria meses mais tarde. Tínhamos certeza de que tudo não passava de cara feia de professor e de desenhozinho de livro. Bem… no fundo, nós apenas gostávamos de acreditar nessa paz continental tanto quanto gostávamos da paz telúrica do vulcão. A marcha da história e a marcha da Terra, porém, não seguem os desejos humanos: cinco anos após meu retorno ao Brasil, uma nova guerra estourou entre os dois países, a Guerra de Cenepa, e, anos mais tarde, em 2015, o Cotopaxi entrou em erupção. A geração que conheci já vinha sendo preparada para esses acontecimentos havia anos. (Eu mesmo participara de simulações de evacuação, em caso de erupção vulcânica, promovidas pela defesa civil de Latacunga.) Quanto à guerra, ¿de que adianta um punhado de espertos acreditarem que nada de mais há de ocorrer quando todos os jovens do país estão sendo doutrinados? De resto, ¿você sabia que as crianças do Brasil estão sendo preparadas para uma guerra cultural? As guerras sempre começam no gabinete de algum intelectual, do contrário não estariam em livros didáticos antes de surgir no horizonte. ¿Você sabe o que andam ensinando às crianças brasileiras? Se não sabe, melhor pesquisar. Nós, escritores, já a estamos lutando. Como bem escreveu Louis Pauwels: «O público em geral não sabe que estamos em guerra civil nos meios da cultura. Contudo, o resultado dessa guerra determinará o destino cotidiano».

7:46 pmOlavo rocks! Literalmente…

4:16 pmA Importância da Literatura

Aula do Professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto.

6:38 amOlavo de Carvalho: comentários sobre a arte literária e a literatura no Brasil

Esta aula do Olavo sobre literatura é excelente. (A excelência deve explicar o ter sido tão pouco vista.)

Caso goste dela, sugiro também o trecho de um de nossos bate-papos, gravado em 2006, no qual conversamos sobre o papel do escritor e a função da literatura.

9:15 amPaul Harvey: “Se eu fosse o Diabo”

11:52 pmOs Náufragos, com Yuri Vieira

Radiovox.org

9:55 amAgenda: Grinding America Down (2010) – documentário legendado

Leia sobre o filme no IMDB.