8:44 amCláudio Moreno: “Deixem nossa ortografia em paz!”

Cláudio Moreno

« Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo.

« Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssmos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo.

« Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz!»

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Arquivem esta reforma! E já!, de Cláudio Moreno.

Dentre todos os artigos e comentários que li a respeito da famigerada nova ortografia e do cinzento Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, os mais sãos, os mais lúcidos e relevantes foram escritos pelo professor Cláudio Moreno. Eu, que ainda não engoli essas mudanças, que no máximo arrisquei a grafar, com peso na consciência, uma que outra “idéia” sem acento, não podia ficar mais satisfeito ao encontrar tão preparado combatente: Cláudio Moreno não perdoa o desengonçado Acordo Ortográfico. A leitura de seus textos me traz alívio – suas ironias e metáforas são irresistíveis – e me deixa mais seguro de que resistir a essa arbitrariedade é o melhor caminho. Sugiro os artigos abaixo:

9:47 amBernardo Soares e aqueles que dominam o Diabo

Fernando Pessoa

« Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os cavoucos do mundo.

« Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações coletivas.

« O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever — já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta —, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver[?] Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado, com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?

« Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.

« Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.»

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Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).

8:20 amFriedrich Schiller: Cartas sobre a Educação Estética da Humanidade

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« Pela beleza o homem sensível é conduzido à forma e ao pensamento; pela beleza o homem espiritual é reconduzido à matéria e recupera o mundo sensível.

« Disto segue, aparentemente, que, entre matéria e forma, entre passividade e ação, deva existir um estado intermediário, ao qual a beleza nos daria acesso. Este é o conceito que a maior parte dos homens forma, tão logo começa a refletir sobre os efeitos da beleza; toda a experiência parece confirmá-lo. De outro lado, porém, nada é mais desencontrado e contraditório do que um tal conceito, já que é infinita a distância entre matéria e forma, passividade e ação, sensação e pensamento, impossível de ser mediatizada por coisa alguma. Como superar, então, esta contradição? A beleza liga os estados opostos de sensação e pensamento, e ainda assim não há mediação entre os dois. A certeza daquilo nos vem pela experiência, a disto, imediatamente através da razão.

« Este é o ponto essencial a que leva toda indagação sobre a beleza; se chegarmos a uma solução satisfatória deste problema teremos encontrado o fio que irá conduzir-nos por todo o labirinto da estética.»

Carta XVIII — Cartas sobre a Educação Estética da Humanidade, de Friedrich Schiller.

10:30 amStephen King fala sobre o conflito entre lecionar e escrever

Para saber mais sobre Stephen King, clique aqui.



9:30 amO Penitente, de Isaac Bashevis Singer

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« Uma das paixões mais vazias do homem moderno é ler jornais para ficar a par das últimas notícias. As notícias são sempre ruins e envenenam sua vida, mas o homem moderno não pode viver sem este veneno. Ele precisa saber de todos os assassinatos, de todas as curras. Precisa saber de todas as loucuras e falsas teorias. O jornal não lhe basta. Ele busca notícias adicionais no rádio e na televisão. As revistas são publicadas com a soma de todas as notícias da semana e as pessoas relêem que crime este ou aquele malfeitor cometeu e o que cada idiota disse. A loucura da política apanhou até a nossa chamada ortodoxia. E quanto à paixão por dinheiro! Se você ler a imprensa ortodoxa, vai tomar conhecimento de uma única mensagem em todo artigo e reportagem: “Doe dinheiro!”. Eles precisam de intermináveis quantias de dinheiro para construir yeshivas [escola para formação de rabinos], para manter — como colocam eles — o judaísmo. É uma mentira completa. As grandes yeshivas, as brilhantes salas de aula, a boa comida, os exames — tudo isto é pantomima. Já existem colégios ortodoxos ou universidades na América que ensinam à juventude um pouco da Torá e muito goyishkeit [em iídiche, goy (não-judaico) e ishkeit (modo de ser)]. Os estudantes estão, supostamente, sendo treinados para se adaptar a ambos, mundanismo e Deus. O fato é que uma vez que você está ajustado ao mundo não pode mais estar ajustado a Deus. Aquelas crianças balbuciam em hebraico moderno, com sua pronúncia sefardita, lerão, cedo ou tarde, todos os livros imundos que são traduzidos aqui. O hebraico deve permanecer uma língua sagrada, não uma linguagem usada em clubes noturnos.

« Eu dissera àquela devassa, Priscilla, que o Deus judeu era um “ídolo” para mim. Talvez quisesse dizer isso na época. A fé não é uma coisa fácil de conquistar. Bem depois que me tornei um judeu com barba e madeixas, ainda necessitava de fé. Mas a fé, gradualmente, cresceu dentro de mim. As ações devem vir primeiro. Bem antes de a criança saber que tem um estômago, quer comer. Bem antes de você alcançar a fé total, deve agir de um jeito judeu. O judaísmo leva à fé. Sei agora que existe um Deus. Creio em Sua Providência. Todas as vezes que me aflijo ou uma das minhas crianças fica doente, rezo ao Todo-Poderoso.

« Não quero me vangloriar de que minha fé seja absoluta. Talvez não exista esta coisa de fé total. Mas acredito mais hoje do que jamais acreditei antes. Darwin e Karl Marx não revelaram o segredo do mundo. De todas as teorias sobre a criação, a exposta no Gênesis é a mais inteligente. Tossa essa conversa sobre névoas primitivas ou a Grande Explosão é um violento disparate. Se alguém encontrasse um relógio numa ilha e dissesse que ele se fez por si mesmo ou que se desenvolveu através da evolução, seria considerado um lunático. Mas, conforme a ciência moderna, o universo evoluiu todo por sua conta. ¿O universo é menos complicado que um relógio?

« Sei o que você quer me perguntar — se ainda estou interessado em sexo. Creia-me, uma mulher pura, decente, pode proporcionar a um homem mais satisfação física do que todas as prostitutas refinadas do mundo. Quando um homem dorme com uma mulher moderna, ele realmente vai para a cama com todos os seus amantes. Eis por que há tantos homossexuais hoje, porque o homem moderno está dormindo espiritualmente com incontáveis outros homens. Ele constantemente quer se sobressair no sexo porque sabe que sua parceira o está comparando com os outros. Esta é também a causa da impotência, da qual tantos sofrem. Eles transformaram o sexo num mercado com competidores. O homem de hoje precisa e convencer de que ele é o maior amante e que, em comparação, Casanova era um garoto de escola. Ele também tenta convencer a mulher, mas ela sabe mais.

« A mulher está na mesma posição. Sabe que seu marido tem e teve muitas outras mulheres e quer competir com elas, ser mais esperta e mais bonita do que elas são. O homem moderno injetou competição em áreas em que ela não pertence. Toda vida moderna é uma série de provas para determinar quem é o mais alto, o maior, o mais forte; capaz de atuar melhor que os outros. A mulher de hoje anseia ser a mais bela criatura sobre a Terra.

« Entre aqueles judeus com os quais vivo, não existe nenhuma pessoa grande ou pequena. Um homem passa mais tempo com a Torá; outro, recitando salmos. Um tem mais tempo para estudar, outro deve trabalhar para viver. Ninguém se compara, ninguém se mede em relação aos outros e o ponto principal é que não há nenhuma busca de lucro. Eles se libertam da pior paixão humana — a necessidade de ser rico.

« Eu seria mentiroso se lhe dissesse que tudo é suavidade e luz entre nós. Aqui também há pessoas más. O Espírito do Mal não foi liquidado. Mesmo quando sento e estudo o Gemara, tenho pensamentos fúteis que caberiam mais a um beduíno. Um momento não passa sem tentações. Satã está constantemente no ataque. Ele nunca fica cansado. Mas liguei-me no judaísmo com laços que são difíceis de cortar. Estes laços são minha barba, minhas madeixas, minhas crianças e, agora, minha idade também.

« Às vezes o Mal me diz: “O que acontecerá, Joseph Shapiro, se você morrer e não houver nada depois daqui? Você será uma pilha de sujeira, cego, mudo, uma pedra, uma bolha de lama”. Eu o escuto e respondo: “Minha mortalidade não provaria que Deus está morto e que o universo é um acidente físico ou químico. Vejo um plano e uma intenção consciente em todo ser, no homem e nos animais, bem como nos objetos inanimados. A graça de Deus muitas vezes está escondida, mas sua ilimitada sabedoria é vista por todos, mesmo que o chamem de natureza, substância, absoluto ou qualquer outro nome. Creio em Deus, na Sua Providência e na livre determinação do homem. Aceitei a Torá e seus comentários porque tenho certeza de que não existe nenhuma escolha melhor. Esta fé continua crescendo o tempo todo dentro de mim”.»

O Penitente (1983), de Isaac Bashevis Singer, 143 páginas.

12:11 pmEntrevista com a blogueira cubana Yoani Sánchez

Os vídeos abaixo foram gravados e estão disponíveis graças ao site Saraiva Conteúdo. (Leia o depoimento de Marcio Debellian a respeito dessa entrevista com Yoani Sánchez.)

(Via @joseroldao.)

4:21 pmÓdio à escola

Há de ser uma piada — é bem engraçado — mas, se você pensar bem, dá até medo… :) ) (Lembra meu conto “Matando um Mosquito com um Tiro de Canhão“…)

Obs.: Ouça outras pegadinhas da Little Becky.

3:55 pmÁudio da última entrevista de Monteiro Lobato

“Lobato concede a Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, sua última entrevista, em 1948. Dois dias após o bate-papo, o escritor veio a falecer, vitimado por um derrame.”

Primeira parte:

Segunda parte:

Terceira parte:

3:48 pmEntrevista com o escritor Lêdo Ivo

Lêdo Ivo fala sobre escritores, crítica literária, poesia, Brasil, educação, etc.

Fonte: Globo.com