8:44 amDo Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Episódio do Inimigo

« Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:

— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse —, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.

Disse-me, então, com voz firme:

— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:

— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.

— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

— Posso fazer uma coisa — respondi.

— Qual?

— Acordar.

E assim o fiz. »

Jorge Luis Borges

 

Teologia

« Como vocês não ignoram, viajei muito. Isso me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o Sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Essa gente crê nos sonhos. “No instante em que dormes”, explicaram-me, “conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno.” Se alguém argumentasse: “Nunca vi partir um homem adormecido; de acordo com minha experiência, permanecem deitados até que os despertem”, responderiam: “O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterrorizantes?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunha de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó”. »

H. Garro, Todo o mundo (1919)

Os dois textos acima são excertos do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges.

12:35 pmVirginia Woolf fala sobre a experiência de escrever romances

woolf

« Mas para continuar a história das minhas experiências profissionais, eu ganhei uma libra, dez shillings e seis pence pela minha primeira resenha, e comprei um gato persa com os ganhos. Então tornei-me ambiciosa. Um gato persa até serve – eu disse –, mas um gato persa não é suficiente. E tenho que ter um carro. E foi assim portanto que me tornei romancista – porque é muito estranho que as pessoas dêem a você um carro se você lhes contar uma história. É uma coisa ainda mais estranha que não haja nada tão prazeroso no mundo quanto contar histórias. É muito mais prazeroso que escrever resenhas de romances famosos. E ainda, se for obedecer sua secretária e contar a vocês minhas experiências profissionais como romancista, devo contar-lhes uma experiência muito estranha que me aconteceu. E para entendê-la vocês devem primeiro tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Eu espero não estar revelando segredos profissionais ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser tão inconsciente quanto possível. Ele quer induzir a si mesmo a um estado de perpétua letargia. Ele quer que a vida continue com a máxima quietude e regularidade. Ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas dia após dia, mês após mês, enquanto ele está escrevendo, de forma que nada deve quebrar a ilusão em que ele está vivendo – de forma que nada deve perturbar ou inquietar as misteriosas bisbilhotices, impressões, tiros, golpes e descobertas súbitas daquele mesmo espírito tímido e ilusivo, a imaginação. Suspeito que esse estado seja o mesmo para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês figurem uma menina sentada com uma caneta na mão, que por minutos, e na verdade por horas, ela nunca molha no pote de tinta. A imagem que me vem à mente quando penso nessa menina é a de um pescador imerso em sonhos à beira de um lago profundo, segurando um caniço sobre a água. Ela estava deixando sua imaginação disparar desenfreada por entre todas as rochas e fendas do mundo que ficam submersas nas profundezas do nosso ser inconsciente. Agora veio a experiência, a experiência que acredito ser realmente mais comum com as mulheres escritoras que com homens. A linha correu pelos dedos da menina. Sua imaginação disparou. Buscou as lagoas, as profundezas, os lugares escuros onde cochila o maior peixe. E de repente, um estrondo. Uma explosão. Espuma e confusão. A imaginação havia se lançado contra algo duro. A garota foi despertada de seu sonho. Ela estava na verdade no estado de mais aguda e difícil aflição. Para falar se meias-palavras, ela tinha pensado em algo, algo sobre o corpo, sobre as paixões que para ela, como mulher, não seria apropriado dizer. Os homens, sua razão dizia, ficariam chocados. A consciência do que os homens diriam de uma mulher que falasse a verdade sobre suas paixões havia a despertado do estado de inconsciência da artista. Ela não podia mais escrever. O transe tinha acabado. Sua imaginação não podia mais funcionar. Eu acredito que isto seja uma experiência de fato comum com as mulheres escritoras – elas são impelidas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Porque apesar de os homens sensatamente se permitirem grande liberdade neste aspecto, eu duvido que eles percebam ou possam controlar a extrema severidade com que condenam tal liberdade nas mulheres.»

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Trecho de Profissões para mulheres, discurso proferido por Virginia Woolf na National Society for Women’s Service, em 21 de Janeiro de 1931, disponível neste livro.

10:59 amHenry Miller fala sobre o ato de viajar

Henry Miller

« É considerado muito romântico visitar e passear entre estranhos, bem como comer do seu pão ao pé das figueiras, do outro lado do mundo. Não se pode negar que é de fato romântico viver uma aventura dessas, embora esse romantismo tenha sido muito exagerado por aqueles cujas vidas sedentárias, até o momento da grande aventura, criaram neles uma idéia exorbitante do que viram, um sabor falso da ação e aventura. Marco Pólo de fato viajou e andou entre estranhos; a verdade, porém, é que qualquer pessoa pode fazer a mesma coisa (desde que tenha coragem e disponha de meios de locomoção).

«Viajar é uma forma de indulgência para consigo mesmo. Se a viagem nada acrescentar ao viajante, ao que ele já possui de conhecimentos humanos, ou se ele não conseguir transmitir à imaginação de outras pessoas as belezas e esplendores de lugares remotos deste mundo, então viajar torna-se um ato inútil e pernicioso. A aquisição de novas sabedorias, a capacidade de acumular dentro de si mesmo novos conhecimentos e fatos, só é nobre naqueles poucos que conhecem a alquimia que transforma essa espécie de barro em ouro eterno e divino…

«Somente o viajante que é, dentro de si mesmo, maravilhoso, pode ver, apreciar, absorver e transmitir uma maravilha. Apenas cinco pessoas como essas, em toda a história do mundo, viram maravilhas. As outras viram aves e animais, rios, montanhas e pântanos e todas as coisas desse gênero de que o mundo está cheio. Os cinco viajantes foram Heródoto, Gaspar, Belchior, Baltazar e o próprio Marco Pólo. A beleza de Marco Pólo é que ele criou uma Ásia na imaginação dos europeus…»

Henry Miller

7:31 pmJohn Barth: Fazer amor e contar histórias

John Barth

«Fazer amor e contar histórias, ambos exigem mais do que boa técnica — mas é só da técnica que podemos falar! (…) escrever e ler ou contar e ouvir eram literalmente maneiras de fazer amor. (…) o próprio relacionamento entre o contador e o ouvinte era de natureza erótica. O papel de quem contava, ele achava, sem levar em consideração o seu sexo, era essencialmente masculino e o do ouvinte ou leitor, feminino, e a história era o veículo de seu relacionamento. (…) A narrativa, para resumir (…), era uma relação de amor, não uma violação: seu sucesso dependia do consentimento e da cooperação do leitor, que ela poderia reter ou a qualquer momento retirar; também da sua própria combinação de experiência e talento para o trabalho, e a habilidade do autor em suscitar, manter e satisfazer o seu interesse — uma habilidade da qual dependia sua vida figurativa, tão certamente como a literal, de Scheherazade.»

John Barth, em Quimera

2:56 amOlavo de Carvalho fala da diferença entre o romancista e o pensador

Trecho do artigo “À Mão Esquerda“, de Olavo de Carvalho:

«Ninguém pode ser romancista se não consegue pensar, sentir e escrever como seus personagens, desdobrando-se momentaneamente em eus imaginários. E para quê alguém faria isso, afinal? Justamente para captar no plano estético a unidade de experiências vivas que ainda são demasiado recentes, ou demasiado impactantes, para poder ser compreendidas intelectualmente.

«Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

«Dizer que alguém é um mau romancista não é o mesmo que acusá-lo de ser mau escritor. Grandes escritores – Maurice Barrès é talvez o exemplo mais alto – podem ser romancistas medíocres ou péssimos, porque conhecem demais o sentido daquilo que querem dizer; conhecem-no ao ponto de poder expressá-lo em oratória ou em discurso filosófico, que é o que deveriam fazer em vez de simular experiência viva com material velho e já esclarecido intelectualmente.»

8:43 pmNovo livro: A Bacante da Boca do Lixo

A Bacante da Boca do Lixo

Quero anunciar o lançamento do meu livro A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio. Trata-se de uma coletânea de contos, crônicas e um ensaio escritos entre 1993 e 2008. Todos os textos trazem – seja de modo explícito ou implícito – um pouco do clima apocalíptico que contagiou aqueles anos. (Em breve lançarei outro volume, no mesmo tom, de título O Exorcista na Casa do Sol e Outros Escritos da Virada do Milênio.)

O livro impresso e o ebook no formato EPUB podem ser adquiridos aqui ou aqui.

O ebook também está à venda na Amazon e na Kobo Books.

4:34 pmUm Prêmio Nobel e o Livro de Urântia

Kary Mullis

Anos atrás, quando tentei discutir supostos dados científicos do Livro de Urântia em comunidades e fóruns de “cientistas” brasileiros, fui ridicularizado. (Uma comunidade orkutiana de físicos até me proibiu de voltar ao tema.) Já o Prêmio Nobel de química Kary Mullis, por sua própria conta, deu a maior atenção ao livro, encontrando dados que o impressionaram, uma vez que o livro trouxe informações corretas com décadas de antecedência àquelas descobertas e ratificadas pela comunidade científica internacional. Veja o que ele diz:

“The Urantia Book was purportedly written by extraterrestrials and published in 1955. It has been freely available on the internet since 2001. Several scientific developments, unexpected in 1955, reported in 2005 in Science and Nature, and referenced below, were somehow, described rather precisely already in the Urantia Book. I have documented three cases here, but there are many contemporary scientific discoveries which were first posited as far as I can tell, in this rather large tome. There is much in here, the truth of which cannot be judged from the apparent truth of these several instances. The book claims a large number of authors. Much of it would be considered “politically incorrect” and might infuriate some people. I suggest that you not be shooting at the messenger; I am just reporting what I have observed.”

Vale lembrar que os tais escritores “extraterrestres” são tão alienígenas quanto um espírito costuma ser. Ou quanto um anjo é.

Em seu site, Mullis — que ao contrário de pseudo-cientistas brasileiros não se deixou cegar por burrice preconceitos (isso deve explicar seu prêmio Nobel) — apresenta alguns exemplos que lhe chamaram a atenção.

11:57 pmOrson Welles: É um sonho

Orson Welles

Do Orson Welles:

“Um filme não é nunca um relatório sobre a vida. Um filme é um sonho. Um sonho pode ser vulgar, trivial e informe; é talvez um pesadelo. Mas um sonho não é nunca uma mentira.”

A boa literatura também é um sonho. Necessitamos de ambos. Porque todos, um dia, iremos acordar. (Sim, alguns não terão uma boa surpresa…)